quinta-feira, 22 de maio de 2014

Mito ou historia?

MITO OU HISTORIA?
Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo, o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião. Todas as culturas humanas retrataram seus acontecimentos extraordinários através da mitologia, sempre para se fazerem entender nas relações, principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo do inconsciente e de suas crenças.
Personificados por formas humanas ou de animais, os deuses e deusas permanecem no inconsciente humano como forma de fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas, estátuas e nas pinturas sacras.
Esta foi a forma que o ser humano encontrou, em todos os tempos, para estar mais próximo ao sagrado; transformou ideias em objetos reais sacros, criou histórias e lendas, transformou ancestrais em deuses demiurgos, uniu-os aos deuses tribais em figuras sincréticas, assim nasceu o mito.
Muitas das “histórias” são singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou grandes extensões de terra e, os deuses, com características idênticas, são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por um personagem maior, um deus superior.
A mitologia é uma forma espontânea, cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê, mas sente e transfere toda essa crença, e os caminhos percorridos pelos deuses passam a refletir nas características de cada indivíduo em cada uma das religiões.
Cada lenda é um tempo vivido, uma ação, um movimento feito pelo personagem, dando a ideia de uma transferência de conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao encontro com a realidade subjetiva, a fé.
As religiões afro-brasileira são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos derivados das culturas advindas do continente africano, independentemente a que nação ou segmento pertença.
Nos rituais é que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, por vezes, parecendo mesmo que em determinados momentos, o culto se divide entre o sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças, refletem um sentido profano que, feitas por seus adeptos, formam um conjunto aprimorado, como se uma viajem ao passado fosse feita. A cada batida, com mãos ou varetas e a cada passo dado no bailar rememoram os caminhos percorridos pelos deuses africanos.
O ponto principal de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no próprio indivíduo que, iniciado passa a ter essa capacidade e, depois de celebradas, estas energias em “forma humana”, voltam ao seu estado natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das várias “divindades astralizadas”. Nos bailados de Yemanjá os braços ondulam numa alusão as águas dos mares; mas também, seus braços podem ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam aos primórdios do universo, onde seria também a progenitora de todos os demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com Yemanjá, num patamar mitológico superior está Oxalá, o Ar, o sopro de vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o ser humano, e assim povoou todo o Planeta.
Juntamente com Yemanjá e Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão, Exu, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o sentido da procriação; tornam-se assim um quadrunvirato da construção de todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
Oduwa, por não ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto independente, o culto às Yiami. Da interação Terra/água, surge Nãnã, Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito do povo Nagô.
Os acontecimentos mitológicos são apenas representativos para entender toda a estrutura da religião quando baseados nos conceitos do povo Nagô, no entanto, todas as formulações ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações determinantes nos candomblés.
Além dos Orixás primordiais, Yemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exu o fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas estórias são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como historias reais.
Quando da criação da Terra, segundo o mito nagô, em tempos imemoriais, nos ciclos milenares do desenvolvimento humano, chegou a era dos metais e com ela uma divindade foi criada, Ogún, o deus das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar armas de guerra e ferramentas para a agricultura. Este, juntamente com Exu, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser humano reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas substituiu a coleta pela produção de alimentos. Oxóssi, o deus das matas, continuou a caçar e dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de trabalho; nos dias atuais, a caça tornou-se uma alegoria, uma representação na evolução humana.
A descoberta dos sentimentos humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de criação de conceitos para sobrevivência, nascia assim o respeito pela gestação, e com ela, Oxún a deusa das águas doces e das nascentes que sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto, surgindo daí as Yiábás, as mães rainhas e zelosas dos castelos imaginários de um mundo mítico.
Progressivamente a humanidade foi se adaptando no Planeta recém construído; surgiram outras divindades, pois, a cada passo eram personificados deuses representativos. A natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e escravos. Novos deuses surgiam e reis foram divinizados, neste cenário apareceu Xangô, o deus da justiça que, enlouquecido pelas barbáries, dele e de seus inimigos dizem ter se enforcado. Seus machados, cortantes nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a benevolência o outro o castigo.
Da interação – Oxóssi/ Oxún – nasceu Logun, energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado representando a renovação dos ciclos, das eras. Desta maneira, as águas da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè após os grandes dilúvios, esta energia é que permite chuvas; com ele, numa alegoria encantadora surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do Universo. Porém, essas transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e das guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também consagrada entre as deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nas bocarras dos vulcões.
Mas a renovação constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte de elementos, doença/saúde, bem e mau, conceitos de todas as vicissitudes são energias que devem ser depuradas e, desta forma Obaluayé está presente; ele é o socorro, o médico do Planeta e de tudo que nele contém, é a energia produtora, tanto de pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as energias, como o ser humano. As folhas, ervas medicinais trazidas pela magia de Ossanhe, energia completa, complexa e diversificada ao mesmo tempo.
...E todas essas energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos, particularidades que agregam ao ser humano quando do nascimento e o acompanham até a devolução de todas as substâncias na morte à Mãe Terra.
Para representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza, e dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração envolve a assistência num retorno aos primórdios tempos, reinterpretando toda uma história, mitos e sentimentos.
Nos movimentos das danças e que são interpretados, de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e as turbulências das águas estão nos braços e requebros de Yemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará, numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogún estão alegorias de guerras e de batalhas vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança suas flechas dando direção da fartura. No resplandecer das mudanças bruscas do tempo dos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossayn. Na direção dada por Oxumarè apontando o caminho das águas pelo arco íris. - Nos movimentos tectônicos da energia do Planeta está Obá, a deusa que respira pelos vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nanã, devido ao tempo de existência. No ritmo atenuado do tempo, como as nuvens da paz e um telhado branco por sobre as cabeças, Oxalá caminha sobre a Terra ou no infinito Universo e, Exu, provocador de todos os movimentos é o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olímpo dos deuses africanos, os deuses do Candomblé.
Mas não só toda essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações consagradas aos deuses africanos, aos Orixás que, desta forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano.
A crença nesta forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um DNA espiritual, que, passivamente e através de ritos apropriados devem ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí, o caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção.

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