MITO OU HISTORIA?
Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo,
o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião. Todas
as culturas humanas retrataram seus acontecimentos extraordinários
através da mitologia, sempre para se fazerem entender nas relações,
principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo do
inconsciente e de suas crenças.
Personificados
por formas humanas ou de animais, os deuses e deusas permanecem no
inconsciente humano como forma de fuga de uma realidade ainda não
compreendida, e o subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas,
estátuas e nas pinturas sacras.
Esta foi a forma que o ser humano
encontrou, em todos os tempos, para estar mais próximo ao sagrado;
transformou ideias em objetos reais sacros, criou histórias e lendas,
transformou ancestrais em deuses demiurgos, uniu-os aos deuses tribais
em figuras sincréticas, assim nasceu o mito.
Muitas das “histórias”
são singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou
grandes extensões de terra e, os deuses, com características idênticas,
são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por
um personagem maior, um deus superior.
A mitologia é uma forma
espontânea, cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê,
mas sente e transfere toda essa crença, e os caminhos percorridos pelos
deuses passam a refletir nas características de cada indivíduo em cada
uma das religiões.
Cada lenda é um tempo vivido, uma ação, um
movimento feito pelo personagem, dando a ideia de uma transferência de
conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao
encontro com a realidade subjetiva, a fé.
As religiões
afro-brasileira são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos
derivados das culturas advindas do continente africano,
independentemente a que nação ou segmento pertença.
Nos rituais é
que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, por vezes,
parecendo mesmo que em determinados momentos, o culto se divide entre o
sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças,
refletem um sentido profano que, feitas por seus adeptos, formam um
conjunto aprimorado, como se uma viajem ao passado fosse feita. A cada
batida, com mãos ou varetas e a cada passo dado no bailar rememoram os
caminhos percorridos pelos deuses africanos.
O ponto principal de
um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado transmutado
em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias
emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não
correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no
próprio indivíduo que, iniciado passa a ter essa capacidade e, depois de
celebradas, estas energias em “forma humana”, voltam ao seu estado
natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das
várias “divindades astralizadas”. Nos bailados de Yemanjá os braços
ondulam numa alusão as águas dos mares; mas também, seus braços podem
ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria
primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam
aos primórdios do universo, onde seria também a progenitora de todos os
demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão
que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com
Yemanjá, num patamar mitológico superior está Oxalá, o Ar, o sopro de
vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi
substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o ser
humano, e assim povoou todo o Planeta.
Juntamente com Yemanjá e
Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão,
Exu, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o
sentido da procriação; tornam-se assim um quadrunvirato da construção de
todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
Oduwa, por não
ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de
Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto
independente, o culto às Yiami. Da interação Terra/água, surge Nãnã,
Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das
espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito
do povo Nagô.
Os acontecimentos mitológicos são apenas
representativos para entender toda a estrutura da religião quando
baseados nos conceitos do povo Nagô, no entanto, todas as formulações
ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações
determinantes nos candomblés.
Além dos Orixás primordiais,
Yemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exu o
fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros
deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas
estórias são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como
historias reais.
Quando da criação da Terra, segundo o mito nagô,
em tempos imemoriais, nos ciclos milenares do desenvolvimento humano,
chegou a era dos metais e com ela uma divindade foi criada, Ogún, o deus
das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de
facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar
armas de guerra e ferramentas para a agricultura. Este, juntamente com
Exu, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os
responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser humano
reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas substituiu a
coleta pela produção de alimentos. Oxóssi, o deus das matas, continuou a
caçar e dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de
trabalho; nos dias atuais, a caça tornou-se uma alegoria, uma
representação na evolução humana.
A descoberta dos sentimentos
humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de
criação de conceitos para sobrevivência, nascia assim o respeito pela
gestação, e com ela, Oxún a deusa das águas doces e das nascentes que
sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder
gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto,
surgindo daí as Yiábás, as mães rainhas e zelosas dos castelos
imaginários de um mundo mítico.
Progressivamente a humanidade foi
se adaptando no Planeta recém construído; surgiram outras divindades,
pois, a cada passo eram personificados deuses representativos. A
natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e
escravos. Novos deuses surgiam e reis foram divinizados, neste cenário
apareceu Xangô, o deus da justiça que, enlouquecido pelas barbáries,
dele e de seus inimigos dizem ter se enforcado. Seus machados, cortantes
nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a benevolência o
outro o castigo.
Da interação – Oxóssi/ Oxún – nasceu Logun,
energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado representando a
renovação dos ciclos, das eras. Desta maneira, as águas da terra
elevaram-se aos céus por Oxumarè após os grandes dilúvios, esta energia é
que permite chuvas; com ele, numa alegoria encantadora surge Ewá, a
beleza, energia transformadora e constante do Universo. Porém, essas
transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam
as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e
das guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também
consagrada entre as deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da
Terra ainda explode nas bocarras dos vulcões.
Mas a renovação
constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte
de elementos, doença/saúde, bem e mau, conceitos de todas as
vicissitudes são energias que devem ser depuradas e, desta forma
Obaluayé está presente; ele é o socorro, o médico do Planeta e de tudo
que nele contém, é a energia produtora, tanto de pragas - castigos,
quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra também surgiram as
plantas, seres vivos e dependentes de todas as energias, como o ser
humano. As folhas, ervas medicinais trazidas pela magia de Ossanhe,
energia completa, complexa e diversificada ao mesmo tempo.
...E
todas essas energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus
cantos e encantamentos, particularidades que agregam ao ser humano
quando do nascimento e o acompanham até a devolução de todas as
substâncias na morte à Mãe Terra.
Para representar todas estas
energias o ser humano criou o culto à natureza, e dela absorveu
conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás se manifestam
nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada
passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração envolve a assistência num
retorno aos primórdios tempos, reinterpretando toda uma história, mitos
e sentimentos.
Nos movimentos das danças e que são interpretados,
de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e as
turbulências das águas estão nos braços e requebros de Yemanjá, a deusa
dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão
no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e tempestades estão nos
movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos quando Xangô lança
seus machados de fogo, os eduns ará, numa equivalência de justiça. Nos
movimentos ágeis de Ogún estão alegorias de guerras e de batalhas
vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança suas
flechas dando direção da fartura. No resplandecer das mudanças bruscas
do tempo dos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é
um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossayn. Na
direção dada por Oxumarè apontando o caminho das águas pelo arco íris. -
Nos movimentos tectônicos da energia do Planeta está Obá, a deusa que
respira pelos vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nanã, devido
ao tempo de existência. No ritmo atenuado do tempo, como as nuvens da
paz e um telhado branco por sobre as cabeças, Oxalá caminha sobre a
Terra ou no infinito Universo e, Exu, provocador de todos os movimentos é
o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olímpo dos
deuses africanos, os deuses do Candomblé.
Mas não só toda essa
estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença
fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os
símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as
formulações consagradas aos deuses africanos, aos Orixás que, desta
forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e
armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma
dinâmica o desenvolvimento humano.
A crença nesta forma de religião
não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados
no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um
DNA espiritual, que, passivamente e através de ritos apropriados devem
ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí, o
caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção.
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