Falando sobre Orixás.
Vc. sabe o que é Orixá?
Mesmo para quem tem o candomblé ou Umbanda como religião,
muitas vezes ficam perdidos/as na definição da palavra Orixá, ou o que
representa ao Ser Humano.
A princípio, Orixá significa “determinada energia que
possuímos na cabeça”, esta denominada Ori. Tal energia pode se manifestar
fisicamente em um espaço temporal traduzindo uma ancestralidade, um antepassado
longínquo de genética espiritual, não nominado como pessoa na existência
terrena. Essa existência corresponde a um ciclo que corresponde a eternidade.
Orixá corresponde aos propósitos humanos, é ele que, como
energia vital, funciona como um codificador nos anseios daquilo que trazemos
geneticamente no corpo físico, ou seja: habilidades e comportamentos de
nascença. Tais habilidades são transferidas de ancestrais físicos podendo ser
de pais, avós, ou outros aparentados mais antigos. Percebe-se isso quando se
diz; “puxou pelo avô ou pela avó, pelo pai ou pela mãe”...ou ainda, “eu não sei
por quem puxou”. Tais habilidades permanecem em um universo paralelo e são
herdados e passados continuadamente,
podendo ser no seio de uma família ou não. Todos nos recebemos essa energia ao
nascer fisicamente.
Na cultura ioruba essa dinâmica de existência está
relacionada a religiosidade, vem de tempos imemoriais e é tratada com conceitos
sagrados, isso devido aos princípios e fundamentos das religiões desenvolvidas
por aquele povo.
De há muito tempo os sacerdotes africanos, apesar da peja de
que aquele povo sofria na ignorância, para os ocidentais, estes desconheciam
completamente aquelas civilizações que, em tempos antigos mantinham contato com
povos acima da linha do equador, mais precisamente com os egípcios e
babilônicos, estes com um vasto conhecimento dos mistérios da vida e da morte.
Os deuses egípcios e babilônicos eram tal qual a
representação que conhecemos hoje nos candomblés, o que os diferenciam, são os
conceitos culturais, roupagem e representação nas manifestações.
Todos os Orixás têm por conceito a representação de uma
força da natureza que, em equilíbrio, tornam-se elementos essenciais à vida no
Planeta. O vento, o fogo, a terra e a água, elementos constitutivos de toda a
vida impulsionam todas as atividades humanas através da matéria. O vento, (ar)
é responsável pela dinâmica na mudança do clima que traz a chuva (água), que
por sua vez lava e purifica o solo, dando força aos elementos da perpetuação.
No entanto, só este elemento não produz, é preciso de outros elementos. É neste
momento que entra em cena o elemento fogo advindo do sol. O calor aquece a
terra que naturalmente se expande na produção e reprodução de toda a vida
existente.
Como um código genético, assemelhando-se a um código de
barras, nenhum Ser Humano ou qualquer outro Ser vivo possuem as mesmas energias,
o que as diferencia são as qualidades e quantidades de elementos naturais em
equilíbrio. No caso de desequilíbrio ocorrem fenômenos materiais que afetam as
energias espirituais, e que, portanto,
toda a nossa existência dependemos de estarmos equilibrados, e isso só
conseguimos com uma boa alimentação para o corpo físico e com ações que não vão
contra aquelas energias promovidas pelo Orixá.
Por esta razão, nas casas de candomblé, é que existe nas
manifestações um diferencial de um e outro Orixá, mesmo este tendo as mesmas
origens de energia. O diferencial é explicado na forma em que cada manifestação
ocorre. Toda manifestação não é nada mais nada menos que a possibilidade de estarmos diante de uma energia ancestral.
Assim como no Universo, o posicionamento de cada elemento
tem seu lugar definido pela criação, e não é diferente no universo dos Orixás,
cada elemento tem seu status diante da religião. Oxalá como o patrono está
posicionado em um patamar mais elevado, Ele, como elemento representado pelo
ar, é a energia primária na escala de substância e por isso tem como estar em
qualquer lugar natural. Oxalá foi o primeiro a ser transmutado em energia por
Orinxalá que também é cognominado Oloworun, o senhor dos céus, ou mesmo Deus
nas religiões cristãs.
Na sequência do panteão dos desses cultuados no candomblé
temos o Orixá Exu que, com sua energia dinâmica proporciona o movimento,
energia que possui a capacidade de indicar o caminho ao Ser humano através da
percepção e da intuição. Exu está posicionado nos caminhos e destinos de todos
nos, está relacionado com mensagens advindas do Orun e, como mensageiro é livre
para atuar em todas as esferas, seja no plano material ou no espiritual.
Como elemento da vida material, a água é o líquido precioso,
nela fomos criados materialmente, o liquido amniótico mantido no útero nos
sustenta até o nascimento. Este elemento pertence à Iemanjá. Na formação do
Planeta onde vivemos, este elemento foi o percursor da vida material, deu
início a um ciclo constante e permanente. A energia de Iemanjá, a água, produz
o que podemos definir como uma energia que, aglutinada a outras transforma os
átomos em matéria, por isso se diz que sem água não há vida.
A Terra tem seu princípio com Oduwa, que na mitologia ioruba
foi quem a construiu ao juntar os elementos, dando assim o início na formação
do Planeta. Desta forma, Orixá Oduwa está relacionado aos conteúdos da terra
como matéria orgânica. Sua energia está presente no solo e subsolo, penetra nas
profundezas do Planeta e expõe escancaradamente sua presença em toda a
natureza.
Esses elementos, como irradiantes de energia, são
aproveitados pelo Ser Humano, todos os progressos e evoluções adquiridos são
constantes desde o início dos tempos.
A existência dos Orixás nos permite entender o macro
universo das relações do Ser Humano com a natureza e, no aspecto das energias
dos elementos é que desvendamos todo o sistema religioso. Cada elemento possui
suas características físicas e, portanto, cada elemento possui sua energia
própria. A diferença entre um e outro material pode estar no equilíbrio das
energias na formação primária. Dessa forma, como exemplo, o ouro nunca vai
deixar de ser ouro mesmo misturado ao cobre, a energia do ouro continua
independente da mistura, o barro sempre
será barro, a vida sempre será vida mesmo com a morte. Foi dessa premissa que
Lavoisier declarou: “Na natureza nada se perde tudo se transforma”. E se
transforma de maneira sutil quando relacionada aos conceitos da religião.
Um elemento transformado em alimento fornece energia tanto
ao físico quanto ao espírito humano e, dessa forma foram criados os conceitos das
oferendas aos deuses. As substancias em oferenda são transmutadas em energias
que alimentam um “corpo etéreo” e, tal corpo etéreo está contido no Ori. Uma
conclusão lógica quando relacionamos um relógio de corda. Todo o sistema é
paralisado quando não está com energia suficiente para funcionar. Assim são os
Orixás. Cada Ser Humano possui o seu, é uma energia que deve ser alimentada. No
entanto, como os conceitos trazem alternativas de escolhas, fica evidente que
outras religiões possuem suas características culturais. O alimento espiritual
não está baseado apenas nas oferendas, baseia-se também em orações e posturas
diante ao sagrado, isso independente de qualquer religião.
A existência dos vários Orixás com denominações diferentes
são, culturalmente em alguns casos, posicionados como deuses demiurgos, isso em
virtude de em África terem seus status de reis ou rainhas, de grandes
caçadores, de grandes sacerdotes e de grandes protetores de nações, de vilas ou
cidades. Os Orixás permanecem com suas prerrogativas de deuses no panteão da
religião, a manifestação se dá através das energias contidas no Ori, e seus
cultos são distintos.
Muito corriqueiro assistir nas casas de candomblé vários
Orixás com as mesmas características, no entanto, cada um é independente em
manifestação. O diferencial está na energia de cada Ori que corresponde ao
corpo físico. Dá-se o nome a este corpo de Elegun ou mesmo médiuns, termo mais
usado nas sessões espíritas.
Quando se fala em Orixá, a manifestação não é uma
incorporação de espírito desencarnado, é a manifestação da energia contida no
Ori e, dependendo das quantidades, qualidades, pureza, claridade e teor dos
elementos, essas energias são transmutadas dando início ao processo de
manifestação. Cada Ser Humano possui suas condições desde o nascimento na
composição dos elementos constitutivos na formação do Ori, princípios da
criação e na composição espiritual. No entanto, podemos salientar que, estudos
espíritas relacionam o espírito com o períspirito; enquanto o primeiro é o
sentido evolutivo, o segundo traz o sentido de alma, a energia subjetiva da
vida.
Da composição do panteão dos deuses africanos, ainda na
terra de origem, um complexo sistema de cultos era executado, pois as centenas
de deuses requeriam uma variada forma de manifestação religiosa, isso por que,
cada aldeia, cada cidade ou cada nação, possuíam seus deuses e, além disso,
existiam os deuses particulares cultuados por cada família. Esse aglomerado de
deuses estava apenas relacionado no contexto particular. Os principais deuses
estavam relacionados aos templos profissionais e cada um possuía uma estrutura
definida com cultos apenas relacionados àquele deus. Muitos daqueles deuses não
chegaram ao Brasil, no entanto uma parcela significativa atravessou o Atlântico
com os escravos. O conhecimento dos cultos e iniciações veio com sacerdotes
capturados e feitos escravos, isso salvou a religião.
Em terras brasileiras o culto teve que se adaptar devido às
dificuldades da escravidão e muitos disfarces foi preciso ser feito diante do
domínio cristão católico. Este foi o momento em que houve a necessidade do
sincretismo.
Candomblé tem origem nos candombes, os batuques com danças
em terreiro aberto nas fazendas, logo se proliferou e, com uma aglutinação da
palavra candombe, logo foi transformada em candomblé, daí em diante a religião
se concretizou em solo brasileiro.
As primeiras manifestações de Orixas no Brasil se deram logo
nos primeiros momentos das próprias danças nos terreiros, pois as cantigas eram
feitas em homenagem aos Orixás. Tais cantigas e o toque dos tambores,
atabaques, mais as oferendas disfarçadas em elementos decorativos, induzia aos
Eleguns as manifestações que, percebidas a distancia pelos senhores de engenho,
esses acreditavam que não passavam de uma encenação teatral.
E as manifestações se sucederam a cada candombe.
Os Orixas estavam represados nos Oris daqueles negros e a
cada manifestação se fortaleciam em virtude das oferendas e da dedicação, mesmo
com sacrifícios e reprimidos.
O primeiro Orixá a se manifestar em terras brasileiras foi
Xangô, quem sabe para proporcionar a justiça que faltava aos negros, pois
ele, Xangô é o Orixá da justiça ou, a própria justiça. Atravessou os mares
acompanhando um de seus Eleguns que, mesmo com a escravidão não perdeu a fé.
Xangô estava em seu Ori.
Outros Orixás passaram a se manifestar mais com frequência
nos candombes; vieram as Iabás, Orixá femininos, e com elas nascia uma nova
estrutura dos conceitos religiosos, daí em diante aqueles deuses passaram a serem
denominados apenas Orixás. Isso pela repressão imposta pelo catolicismo que não
aceitava um deus que não fosse o Deus Cristão.
Xangô permanecia com o status de rei de Kosso, e com ele
outros Orixás compuseram um novo panteão, isso pelo fato de que nem todos os
deuses acompanharam seus devotos. Muitos permanecem em silêncio até os nossos
dias. No entanto, isso não quer dizer que eles não estejam presentes.
Explicando: Com a vinda dos negros a cultura religiosa se perdeu em muito no
sentido de culto e muitos negros se distanciaram de seus amigos e familiares
sendo mandados para o interior, a distancia os impedia de qualquer contato.
Esparsos no imenso território, foram se agregando a outros conceitos, aceitando
o catolicismo ou interagindo com culturas indígenas. Isso fez com que novos cultos
surgiram, assim é que o catimbó, casas de Mina e outras vertentes começaram a
formular novos conceitos religiosos. Mas, o candombe seguia em frente.
Nas atividades religiosas, agora definido como candomblé, a
presença dos Orixás se dá conforme as manifestações nos Eleguns, e numa
sequência estipulada eles se manifestam. Os “Toques de Candomblé”, assim
denominados são em síntese uma rememoração das nações e atividades religiosas
de quando em África.
Como já foi dito acima, temos Oxalá, Iemanjá e Exu
como elementos primordiais da existência material quando da presença de Oduwa
na formação do Planeta. No entanto, outras energias vieram complementar a
existência humana, estas formaram todas as vicissitudes e todas as
expectativas dando ao elemento humano a capacidade de desenvolvimento. E assim
formou-se o panteão dos Orixás no Brasil.
Exu o mensageiro e Iemanjá as águas, Oxalá ar e Oduwa a terra...Oduwa não esta
relacionada a qualquer manifestação, ela apenas foi a energia de uma matéria já
existente no Universo.
Neste universo religioso ainda existem muitos outros Orixás,
cada um com suas prerrogativas, com suas energias e particularidades. O mundo
dos Orixás é vasto e complexo com suas historias, mitos e fundamentos.