quarta-feira, 10 de junho de 2020

CAMINHANDO COM OS DEUSES. Livro.



Caminhando com os Deuses.



livro dedicado a todos que buscam respostas sobre as religiões.

Estudos feitos durante anos nos levam ao histórico das muitas religiões difundidas pelo mundo, as narrativas consistem no desenvolvimento das crenças através dos tempos. Algumas religiões, no entanto, tornaram-se padronizadas em virtude da dinâmica cultural de cada povo abrangendo seus cultos, incluindo, não só atividades votivas como oferendas e também criações de mitos que se tornaram uma constante até os dias atuais.
A segunda parte do livro é dedicado as religiões de matriz africana com uma descrição que leva o leitor ao interior dos templos de candomblé e umbanda, religiões apregoadas como pejorativamente é denominada de macumba, isso porque, em razão do preconceito ela se faz presente em convivências mais humildes e sem ter o que poderia ser chamado de “chefe”, para diretrizes mais amplas perante toda a sociedade.
No contexto dessas religiões alguns aspectos são formulados de maneira mais pessoal, isso, pois os iniciados são os próprios altares das atividades religiosas que abrangem ainda o aspecto espiritual de todas as formulações, mesmo que, em algumas delas apareçam de forma festiva ou profana. 
O propósito dessa segunda parte do livro é também levar aos leitores um conhecimento, não só restrito aos que se dedicam as religiões de matriz africana, mas aos que, por razões de crença em outras religiões, não se abstenham de conhecimento.
Boa leitura a todos.

 Apresentação
A primeira parte do presente trabalho é a realização de um estudo baseado nas diversas culturas antigas de crenças e práticas religiosas no decorrer dos tempos.
Não é intenção do autor, interpretar, opinar ou fornecer maiores dados sobre rituais extintos ou ainda existentes para não influenciar os leitores na escolha de qualquer prática religiosa que advenha de literatura.
O objetivo é levar ao leitor conhecimentos históricos de relatos que possam ser definidos como religião e crença, conceitos e praticas que marcaram o desenvolvimento das várias culturas humanas.
"Caminhando com os deuses" faz uma caminhada histórica desde os primórdios das civilizações até os dias atuais, convidando o leitor a fazer uma analogia das religiões e de alguns rituais nelas contidos.
 A segunda parte é uma apresentação mais abrangente das religiões e cultos Afro brasileiro, porém sem entrar no mérito dos rituais ditos secretos que são de exclusivo direito aos indivíduos consagrados ou iniciados. O texto apresenta uma visão geral do inter-relacionamento entre deuses, seres, entidades e elementos existentes nos vários segmentos de uma cultura que resultou numa diversificada manifestação religiosa.
                                                                                              
     Os Anciãos, guardiões do patrimônio.

   Com a tribalização inicia-se a humanização, é quando o ser humano adquire formas de linguagem formando assim comunidades de forças produtivas organizando-se em sociedades.
   Incorporando a linguagem como instrumento de comunicação e de sobrevivência, os humanos passaram a lutar entre si e a intervir na natureza; surgem então os padrões culturais.
Nessa primeira fase através da comunicação oral, que era transmitida de geração a geração, o patrimônio sofria acréscimos na medida que o registro limitava-se à memória dos anciãos. Os anciãos eram os guardiões do patrimônio coletivo e conheciam bem os significados, não só dos signos lingüísticos mas também dos pertencentes às religiões, e que mais tarde se tornariam símbolos possuindo qualidades materiais e/ou espirituais.
        A comunicação simbólica da linguagem tornou-se arte, religião, filosofia e ciência, surgindo assim o fundamento de todos os sistemas de símbolos responsáveis em transmitir conteúdos, estados mentais, emocionais e o vínculo da manutenção social. O conjunto de todas as formas de comunicação permitiu a manutenção do contato humano e de todas as representações como sistemas simbólicos, tornando-se os reflexos da realidade vivenciada pelo homem. 
                                                                                                                                                       
 Os deuses do Egito.                                                                                
No Egito, uma das mais antigas civilizações, Hórus, o falcão, era considerado a própria encarnação do faraó possuindo um caráter sagrado; governando com austeridade, era auxiliado por ministros, escribas e sacerdotes que lhe davam sustentação nos poderes políticos e religiosos.
Num mundo de muitos deuses os faraós tinham seus protetores divinos, e Hator, a deusa conselheira era a orientadora nas decisões, mas era também a deusa do amor e do parto, resguardando assim as futuras gerações farônicas.
      A vida além-túmulo era preocupante para os egípcios, a tal ponto de construírem grandes monumentos funerários; as pirâmides testemunham tais feitos. De significado puramente religioso, o rigor estrutural de tais monumentos avançava para o céu com equilíbrio e harmonia simbolizando o encontro dos homens com os deuses.
      Nos templos ou no interior dos monumentos as esculturas substituíam sempre o “Ser” ou uma ação quando vivos, tão real quanto o modelo, porém, sempre retendo a imagem estática para perpetuar a presença de um homem ou de um deus.
      As esculturas dos mortos serviam para que o Ká ou o duplo, que resumia a essência espiritual protetora do homem, pudesse reconhecer o local do sepultamento do seu corpo e apoderar-se dele para continuar a viver no além; tais esculturas recebiam padrões artísticos seguidos com rigidez.
      Os cultos eram desenvolvidos com privacidade pelos sacerdotes acompanhados de escribas e pelos familiares quando se tratava de ritos fúnebres da classe social mais nobre.  Os templos ricamente decorados eram extensões dos palácios, que ligados por uma avenida, terminava em um espaço amplo, espaço onde eram feitos os rituais públicos. Nos templos eram realizadas as exéquias do corpo mumificado de um faraó ou outras eminentes personalidades falecidas, e os sepultamentos que eram regidos por rituais severos e prolongados, podiam durar em certos casos até um ano.
      As pirâmides, mastabas, hipogeus e templos recebiam cuidados especiais, pois eram consideradas obras sagradas feitas para a eternidade do espírito; acreditavam os egípcios que o espírito do morto precisava de uma referência concreta para encontrar a própria múmia no momento da reencarnação. Esta seria a função de um lugar especial, como as pirâmides e as imagens preservadas de seus mortos.
      Os interiores das pirâmides e templos eram trabalhados em baixo relevo com pinturas de temas limitados representando o morto diante da mesa de oferendas, sempre numa relação com a crença de que os objetos e alimentos eram necessários para a vida extraterrena.
      Os sacerdotes recebiam as mesmas considerações dispensadas aos faraós, pois eram eles os depositários fiéis dos valores divinos do deus reverenciado. Os cultos e cortejos eram por eles encaminhados, e os fiéis levavam oferendas aos mortos ou aos deuses, participando assim dos rituais públicos.
      A religião impregnava a vida, tanto econômica quanto social ou política de todo povo egípcio, pois acreditavam ser totalmente dependente das vontades dos deuses, costume vindo de tempos anteriores aos faraós.
      Não havia uma separação nítida da religião e da medicina praticada pelos sacerdotes, para os egípcios, as doenças eram produzidas pelos deuses e indicavam a presença no organismo de maus espíritos ou de venenos injetados por eles, e a cura significava limpar o organismo de tais intrusões, desde que fosse julgado que os deuses procedessem como os seres humanos. O tratamento consistia em advertências, ameaças, maldições e ordens, tudo acompanhado de gestos apropriados, magias e encantamentos que podia também implicar na introdução de preparados no corpo através de qualquer orifício, fosse nariz, ouvido, ânus, e principalmente a boca.
      Diariamente eram realizados rituais nos templos, pois acreditavam que os deuses, assim como os mortos, tinham as mesmas necessidades e desejos dos humanos, e do mesmo modo que os servos atendiam os vivos, os sacerdotes que eram os servos dos deuses, atendiam suas necessidades.
      O ritual consistia em um banho de purificação ao amanhecer num tanque sagrado por um grupo de sacerdotes, que posteriormente se encaminhavam ao santuário. Ao chegar, o sumo sacerdote quebrava um selo de barro colocado na porta, e quando o sol projetava seus primeiros raios a porta era aberta revelando a efígie do deus; os sacerdotes então se prostravam diante da imagem e ao se levantarem entoavam cânticos purificando o ar com incenso e outras ervas aromáticas. A imagem era retirada, despida, limpa e perfumada, posteriormente era recolocada no mesmo lugar. Por fim eram feitas as oferendas de comidas e bebidas. Dado por encerrado o ritual o sumo sacerdote tornava a selar o santuário e todos se afastavam do local limpando as pegadas ou qualquer vestígio de suas presenças.
      Poucos sacerdotes eram autorizados a participar do ritual de toalete divino, pois muitos exerciam funções específicas nos templos; eram eruditos, escribas, músicos, médicos e os que faziam as interpretações dos sonhos; tinham por obrigação ritual se abster de relações sexuais e dar obediência a uma série de preceitos, nos quais, um deles era o de raspar todo o corpo e usar somente um pano em torno da cintura, diferenciando-os assim das pessoas comuns. As mulheres também podiam servir como sacerdotisas, mas somente em tempo parcial.
      Para os egípcios seus deuses não eram divindades abstratas, acreditavam que necessidades físicas e desejos eram inerentes como a todos os seres vivos; possuíam suas representações de acordo com as diversas fases da vida e nada acontecia que não fosse obra de um ou outro deus, que podiam se apresentar como humanos ou animais, ou ainda como uma mistura de ambos. Freqüentes fusões de deuses se davam por ocasião de mudanças políticas ou filosóficas impostas por algum faraó.
      A mitologia egípcia apresenta uma variedade de deuses, entre eles estão:
      Cnum, o deus relacionado com a criação e era representado na figura de um carneiro.
      Anúbis, deus dos mortos que guardava os túmulos numa relação terrena e tinha sua representação num chacal deitado, pois tal animal costumava desenterrar os ossos dos humanos;  por esse motivo as primeiras sepulturas eram cobertas por pedras, não apenas para marcá-las, mas para livrá-las de tais animais.
       Tote, deus da sabedoria foi aquele que deu instruções necessárias no invento da escrita; considerado o vizir e escriba do mundo além-túmulo, Tote era simbolizado por um ibis ou por um macaco babuíno, isso pelo fato desses animais terem fisionomias sempre sugerindo profundeza de pensamentos. Este deus estava associado à lua por tentar dissipar a escuridão com a luz quando o sol desaparecia.
       Ísis, a irmã e esposa de Osíres era dotada de grandes poderes mágicos e também reconhecida como protetora das crianças, por esse motivo a mais popular das deusas.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         
 Rá, o deus sol tornou-se divindade somente na V dinastia, e foi para os egípcios o criador dos homens.
       Hátor a deusa do amor, da magia, da felicidade, da dança e da música, era simbolizada pela vaca e sempre que uma criança nascia sete Hátores desciam sobre o seu futuro.
       Seth era um deus associado aos desertos e as tempestades, sua representação estava em um animal com grandes orelhas.
      Néftis a deusa dos palácios, era irmã de Ísis e estava associada à casa de Osíres.
       Na mitologia egípcia, Osíres é representado como um deus supremo, filho de Seb o planeta Saturno manifestado pelo fogo celeste e de Nuit, a matéria primordial do universo, é epresentada sob a abóbada celeste com os pés tocando o chão à direita, seu corpo e braços estendidos à esquerda. Conta uma lenda que Osíres tomou forma humana e foi o primeiro rei do Egito; casando com sua irmã Ísis geraram todos os seres e personificaram a natureza e a vida.
       Osíres foi o deus que civilizou os costumes dos povos ensinando-lhes a plantar o trigo e a vinha. Ísis era a possuidora da sabedoria e ensinou o povo a moer o trigo, a fazer o pão e tecer. Osíres e Ísis tinham seus correspondentes no mundo subterrâneo, Set, que também era denominado Tifão o deus do deserto e Hátor a deusa da magia.
      A lenda prossegue com a narração de que Osíres, como rei do Egito, empreendeu longínquas viagens a fim de espalhar a luz do seu espírito por outras terras. Deixando o comando a cargo de sua esposa Ísis e um conselheiro, após a longa viagem retornou ao Egito e foi morto por seu irmão Set que lhe cortou o corpo em vinte e seis pedaços espalhando-os em todas as direções.  Ísis ao tomar conhecimento pôs-se a procurar os pedaços do corpo do esposo, achando-os, entregou-os para Anúbis, o guia dos caminhos de além-túmulo, que o embalsamou e o ressuscitou em forma de um menino, o belo Hórus. E foi assim que o irmão-marido se converteu em filho. Hórus matou Set e fez reinar a justiça. Quando morto, o sol invisível era Osíres, quando renascia no oriente era simbolizado por um deus menino.
      Outra lenda, no entanto, possui narrativa um pouco diferente, na qual consta que Osíres foi encerrado dentro de um cofre por seu irmão Set e lançado nas águas do rio Nilo; a correnteza o levou para a terra de Biblos onde o cofre foi envolto por uma enorme árvore, lugar que permaneceu encarcerado e morto. Um dia a árvore foi cortada e dela exalou um forte perfume. Ísis tomando conhecimento resgatou o corpo, e com suas virtudes mágicas passou a cuidar do morto. Set tendo descoberto furtou o corpo e o retalhou em quatorze pedaços lançando-os novamente no Nilo. Ísis saiu desesperada em busca do esposo, porém só encontrou treze pedaços. Mesmo assim, conseguiu reestruturar o corpo e guardá-lo até que lhe devolveu a vida através do primeiro ritual de mumificação. 
      A concepção abstrata dos sacerdotes, base das doutrinas secretas, deus estava resguardado pelo sol que se manifestava nos raios; figurada, a divindade chamou-se Amon-Rá, exprimindo assim o movimento eterno pelo seu ocaso e pela aurora. Em uma das principais cidades do Egito era representado com formas humanas e por vezes como um carneiro.
      Muitos outros deuses foram cultuados com particularidades, tanto nos palácios quanto nos templos, porém sem muita importância às classes não dominantes.
      Anualmente no inverno era comemorado o solstício, época em que a imagem de Hórus em forma de criança era retirada do templo e exposta à adoração pública. Osíres, Ísis e Hórus, para os egípcios, eram considerados a trindade divina.
       No panteão dos deuses egípcios existiam muitos outros deuses que eram adorados, como Ftás que era um deus tido como o patrono dos artesões, e que segundo a mitologia, no princípio do mundo, ao falar o nome das coisas tudo se realizava. Sobeque o deus crocodilo era venerado em todas as cidades que dependiam da água, os animais que o representavam eram criados em tanques e adornados com jóias. Todos os animais que, de uma ou outra forma estavam associados aos deuses, eram criados nos templos e quando morriam eram mumificados e recebiam as mesmas exéquias dos seres humanos.       
Com o passar dos séculos e em virtude de mudanças políticas determinadas por diferentes Faraós a religião transformava também seus conteúdos, deuses foram se fundindo e os cultos sofrendo modificações. O culto a Osíres fundiu-se ao culto Solar, que personificado primeiramente como Rá e depois como Amon, representante do sol, passou a se chamar Amon Rá, o deus dos vivos, defensor do bem ao qual também era atribuído o mesmo grau de importância conferido a Osíres.
 Conceitos e rituais foram sendo alterados e aos cultos as modificações se fizeram, no entanto, aqueles deuses permaneciam com suas atribuições.
  O poder dos sacerdotes do deus Amon, a influência exercida sobre os soberanos e o comércio para facilitar o ingresso do morto no reino dos céus, transformou-os em verdadeiros negociantes, vendiam "feitiços mágicos" e uma série de fórmulas destinadas a favorecer o julgamento no além; porém, não tardou para que houvesse um rompimento entre os poderes do faraó e os sacerdotes.
   Amenófis IV Faraó da XVIII dinastia, tolhido em seu governo devido ao poderio dos sacerdotes rebelou-se e rompeu com o culto aos deuses tradicionais, declarando como deus único do país Aton, o qual era a antiga denominação dada ao disco solar. Esta foi a primeira tentativa de instituir o monoteísmo no Egito.
   Posteriormente com o descontentamento da população, curvada sob o peso de elevados tributos, sacerdotes do deus Amon e de outros deuses, incentivaram uma rebelião com ameaça de cólera celeste e calamidades as quais significariam a vingança dos deuses abandonados.
   Com a morte do Faraó Aquenaton o império encontrava-se em total desorganização; imediatamente os sacerdotes influenciaram o novo faraó que, com apoio do povo restabeleceu o culto aos deuses tradicionais.
   Simultaneamente, enquanto acontecia a decadência faraônica, crescia o poderio dos sacerdotes de Amon, pois tinham formado um grande exército e um corpo de funcionários. O sumo sacerdote, que até então era nomeado pelo faraó, passou a ser instituído pelos próprios sacerdotes com função hereditária “determinada” pelo deus Amon.
   A decadência trouxe conseqüências nefastas ao Egito, que após a invasão dos líbios, as ameaças constantes dos assírios e a posse do trono egípcio pelos etíopes, culminaram com a invasão dos persas, gregos e posteriormente pelos romanos, o Egito não mais voltaria a ser durante muitos séculos uma nação independente. No entanto, as crenças dos egípcios poderiam mudar, mas permaneceriam as divindades que por várias dinastias foram cultuadas.
      Após muitos séculos e muitas transformações políticas, os romanos conquistaram definitivamente todo o território egípcio. No séc. I AC. e aos subseqüentes, constituíram um período em que todo o povo do mundo mediterrâneo estava à procura de uma experiência religiosa que pudesse oferecer-lhes alguma esperança e conforto. A história das grandes divindades egípcias, Osíres, Isis e Hórus mostraram possuir uma forte atração universal, e a importância atribuída à imortalidade no culto a essa trindade familiar ganhou muitos adeptos através do império romano, porém, do antigo oriente e da remota Britânia, muito embora tenha sobrevivido por alguns séculos, esse culto internacional foi suplantada pelo nascimento de uma nova religião na vizinha Palestina - o cristianismo, que difundido no Egito por intermédio de comunidades judaicas havia sido apregoada somente nas massas incultas, não tinha ainda aguçado os intelectuais da nação. Formou-se assim um grupo de pensadores cristãos de uma elite a qual levou o cristianismo alexandrino a uma religião de controvérsias. A disputa teológica que se referiam sobre a natureza divina de Cristo provocou um levante por volta dos séculos IV e V DC, acabando em violência entre sacerdotes egípcios e os intelectuais.
      Com a divisão os sacerdotes egípcios foram os primeiros da cristandade que posteriormente espalharam as sementes do monasticismo através da Europa. A relação do Egito com o pensamento cristão chegou ao fim no ano 642 dC, quando os governadores que representavam o império romano no ocidente foram expulsos pelos árabes maometanos, e que na grande conquista islâmica, aos rivais cristãos, governaram o Egito durante nove séculos, tempo suficiente para transformar completamente os princípios religiosos de um povo impondo como conquista o islamismo.
 Da grandeza do império egipcio restaram apenas ruínas, porém, as pirâmides com seus cumes para muitos ainda representam a ligação dos homens com os deuses. A esfinge continua lá numa demonstração enigmática desafiando o mistério da vida e da morte.                                                        
A luta de Hórus contra Seth
Hórus o falcão do céu cujos olhos são o Sol e a Lua era filho de Ísis e Osíris. Horus possuia muitas identidades era representado na Terra como o faraó que cuidava do mundo e evitava o caos. A vida de Hórus mostrava os riscos da realeza. Quando criança, ele era considerado o herdeiro legítimo do trono do Egito, mas foi assassinado por seu tio Seth que tomou a forma de um escorpião e o picou para manter o poder real. Mesmo quando Hórus retornou do mundo subterrâneo, Seth continuou negando o trono ao sobrinho, e então o ódio e o medo nasceram. Ocorreram muitas batalhas entre os dois. Seth tomou a forma de um crocodilo selvagem e depois a de uma serpente venenosa, transformou-se em um porco feroz e em todas essas lutas Hórus derrotou Seth. Um dia, Seth encontrou Hórus dormindo sob uma árvore e arrancou um de seus olhos atirando-o além do fim do mundo. Thoth, o deus da sabedoria, observou o caráter demoníaco de Seth e obrigou-o a devolver o olho; quando o encontrou, o olho estava todo em pedaços. Thoth recolheu as partes e, com um encanto o restaurou. Esse olho é a Lua cheia, conhecida como Wedjat, o poder da cura e da iluminação. No final Seth assumiu a forma de um hipopótamo vermelho como fogo e abriu a imensa mandíbula para devorar o inimigo, porém, o forte Hórus pegou o seu arpão e o enfiou na fera. Os deuses então o saudaram como o verdadeiro faraó e todo o povo ficou exaltado, pois o filho de Osíris assumira o trono. Hórus manteve o domínio sobre a terra negra, e sobre a parte do Egito que é fértil a população pôde viver e florescer. Entretanto, Seth não foi aniquilado, tomou a terra vermelha como seu lar, o deserto árido e sem vida, e continuou na jornada diária com o Sol. Sua voz é o trovão que se ouve no céu. Representa a luta eterna do bem contra o mal, mas sempre com a vitória do bem.

 Babilônia e um código religioso.       
     Aproximadamente há 4.000 AC. florescia no vale dos rios Eufrates e Tigre uma civilização diferente de outras existentes naquela época e naquela região, Babilônia, que significava a porta do céu.
 De descendência sumeriana e sem qualquer semelhança ou relações com outros povos, os babilônios desenvolveram uma religião baseada em deuses com atributos humanos. Destinando-se mais para um mundo material chegaram até mesmo a desprezar as divindades que, com frequência, faziam substituições por serem possuidores de superstições, dando ênfase sempre a previsões do futuro através da astrologia.
Apesar de não terem desenvolvido uma religião marcante criaram um variado panteão de deuses, historiadores descrevem 65.000 ao todo, tendo-os mais tarde os transformado em onipotentes e transcendentais seres míticos identificando-os com planetas e utilizando-os na astrologia para descobrir os destinos do futuro humano; com tais dados, confeccionavam mapas dos céus e inventaram os doze signos do zodíaco.
 Um código com 282 artigos entregue por Schamasch, o deus sol ao rei Hamurabi, o código passou a controlar a sociedade através das leis nele contido, tornando-se assim a base de todos os direitos e obrigações dos povos semíticos.
Caprichosos aos deuses oferendas eram feitas através de rituais depois de uma tarefa realizada; após as caçadas derramavam vinho sob os animais abatidos sendo sempre acompanhados de serviçais que faziam um defume com ervas aromáticas. Escravos eram sacrificados à Marduk, divindade suprema da Babilônia, o deus da terra com poderes de criação e destruição.
Enki era o deus das águas, um dos mais cultuados juntamente com Tamuz o deus da fertilidade. O touro e a serpente, entre outros animais e elementos da natureza, recebiam homenagens e sacrifícios por serem considerados como divindades. O senso prático entre os sumerianos, freqüentemente cedia lugar a intensidade da fé religiosa e para cada cidade era destinado um patrono divino, os quais eram sempre substituídos sempre que havia uma mudança na administração política, por isso o grande número de deuses.
  Os costumes em crenças mágicas levaram a civilização semítica a criarem através dos sacerdotes a escrita cuneiforme utilizada na administração dos bens doados aos deuses, não deixando, no entanto, de retirarem desses bens uma cota para subsistência dos templos.
  Amuletos que reproduziam plantas e animais, imagens votivas confeccionadas em barro e outros fetiches, eram utilizados junto ao corpo ou venerados com superstição, violá-los constituía um sério desrespeito e incorria em sérios perigos àqueles que o faziam. Estatuetas de orantes eram substitutas dos fiéis quando ausentes nos templos. A crença na magia também se destinava à guarda de valores materiais; sempre que uma marca era impressa no gargalo de garrafas servia de guardiã mágica do seu conteúdo, o que mais tarde se tornou num símbolo de riqueza e prosperidade.
  As construções dos templos eram impostas como principal dever dos reis que faziam doações das terras aos sacerdotes, pois estes há 5000 AC, antes mesmo do início da civilização, já praticavam cultos e oferendas a terra, considerada a deusa mãe.
  As primeiras esculturas alusivas às divindades feitas em barro, surgiram somente em 2000 aC, assim como grandes painéis que eram utilizados em cortejos religiosos. Nas tumbas ou zigguratz, eram construídos sempre próximos a uma colina onde, em uma caverna, reis e membros da família tinham seus sepulcros sempre acompanhados de pertences pessoais, como jóias, serviçais e vários guardas sabedores desse destino. Após as cerimônias fúnebres as entradas das cavernas eram soterradas com grandes volumes de terra. Nas tumbas mortuárias eram também colocadas as estelas, grandes pedras com inscrições dos feitos em vida pelo morto. Alguns reis considerados deuses ou representantes divinos tinham suas imagens retratadas em estatuetas aparentando um caráter profundamente espiritual onde, a fisionomia do retratado era substituída por outra, numa demonstração de fervor e humildade perante os deuses, uma tentativa de alcançar favores e garantir assim sua salvação.
 A civilização sumeriana foi uma população pré-semítica formadas por comunidades autônomas e circundadas por regiões agrícolas; com agrupamentos territoriais primitivos possuindo um culto comum viviam num regime tribal venerando a um deus protetor; havia culto os quais eram celebrados pelos ishakú, chefes e sacerdotes. Os cultos das comunidades eram independentes e refletia a autonomia, pois tinham sido formados através dos grupos tribais territoriais.
 Os deuses eram incorporados a uma comunidade de conformidade com as conquistas tribais, assim, o deus Ninguirsu era o protetor da antiga Lagash, que posteriormente veio a ter como protetora também a deusa Baau; a união das populações deu origem a uma nova representação, Baau fora convertida na consorte de Ninguirsu que passaram a ter culto em comum.
 Os sumérios utilizavam por meio da fusão dos deuses uma combinação que os protegessem e formasse uma divindade comum através das tríades, e uma das mais importantes foi a formada por Anu, Ea e Enlil, deuses relacionados com o céu, o vento e as águas dos mares. Com a unificação política do país, as três divindades foram veneradas como deuses nacionais recebendo epítetos de poderosos, sábios e sagrados, além de suas representações terem se fundido com as características das forças da natureza e com as dos heróis culturais.
 Não havia diferença nas primitivas imagens dos deuses sumerianos e semíticos, as antigas divindades conservaram em grande parte seus nomes primitivos, porém, com o surgimento de novos deuses, que levaram nomes semitas, começaram a chamá-los do mesmo modo aos antigos deuses sumerianos que, em alguns casos, se conservaram ambas as denominações. A deusa Innina passou a se chamar Ishtar para os acádios, Eshtar. Para os assírios Ishtar, e para os semitas ocidentais Ashtart ou Astarté. O deus Utu se chamou Shamasch, que significa o sol e para os hebreus Shemesh e para os árabes Shams; para os amorreus e assírios, Samsu ou Samas. Alguns povos semitas, fenícios e árabes do sul, representavam a divindade solar com uma figura de mulher. Ao deus Ninguirsu passaram a denominar Ninguirta, que já tinha possuído o nome de Ninib. Também pertenciam ao panteão semítico, vários outros deuses protetores das diferentes comunidades. Nanar, o antigo Sin, o protetor da cidade de Ur; Ninurta, o mesmo Ninit que anteriormente era Ninguirsu e pertencia a cidade de Lagash; Nabu o protetor de Borsippa, e Nargal, divindade subterrânea e da morte, este no início tinha sido patrono da cidade de Kutu.
  Além dos deuses protetores existiam ainda outros relacionados aos fenômenos naturais, assim, Rammán era o deus da tormenta e Tiamat a deusa dos abismos.
  Com o florescimento da Babilônia, a partir do segundo século AC, passa a ocupar como protetor da cidade o deus Marduk, encabeçando todo o panteão dos deuses. Procuraram então os sacerdotes dos templos babilônicos de elaborar mitos sobre a primazia do deus soberano, e criaram assim, doutrinas para estabelecer um regime monoteísta assegurando que existia somente um deus, Morduk, e que todos os outros eram apenas manifestações sem grande importância. Ninurta era o Marduk da força, Nergal era Marduk das batalhas, Enlil era a manifestação do poder, e assim sucessivamente com todos os outros deuses. Esta tendência fazia com que o monoteísmo refletisse na centralização política dos reis da Babilônia, pois haviam se apoderado de toda a Mesopotâmia e eram os soberanos mais poderosos de grande parte da Ásia. No entanto, não houve seqüência, tais idéias não prosperaram em virtude da resistência dos sacerdotes dos cultos locais que preferiram seguir venerando aos deuses individualmente.
  No Oriente Médio quem possuísse o poder poderia se converter em objeto de adoração religiosa. Os pátesi foram por um tempo sacerdotes dos deuses que, a partir do rei Sargão, os monarcas da Mesopotâmia assemelhavam-se aos deuses, consideravam-se os eleitos protegidos e governavam em seus nomes.
  Com o culto oficial aos deuses protetores do estado e com os que se rendiam aos reis, existiam outros cultos populares de origens remotas. Nos cultos agrários das divindades das plantas e da fertilidade da terra era adorada a deusa Ishtar. Da mesma forma que outras divindades femininas análogas, Ishtar apresentava também características eróticas. A mitologia Sumeriana apresenta Ishtar como uma deusa voluptuosa e cruel com seus amantes. Damuzi ou Tammuz era a personificação das plantas e complemento masculino de Ishtar; Tammuz era também considerado, na mitologia sumeriana, como filho verdadeiro de Ansu o deus das águas.
  Os sacerdotes pertenciam a uma casta diferenciada do povo em geral, eram servidores dos templos e possuidores de grandes riquezas que, além de influenciarem na vida social, procediam de famílias nobres; o cargo no sacerdócio era transmitido por herança, porém, havia exigências, e uma delas era a de não possuírem nenhum defeito físico.
  Os templos contavam também com sacerdotisas e servidoras, onde muitas delas vinculadas ao culto de Ishtar a deusa do amor praticavam a prostituição nos templos se entregando aos cultos relacionados com orgias. Também eram servidores de Ishtar os sacerdotes eunucos, que travestidos, executavam danças reservadas as mulheres.
  Alguns sacerdotes se dedicavam a estudos e observações, eram considerados sábios e detinham em suas mãos os conhecimentos necessários da época para dirigir a agricultura. O estudo das cheias dos rios, segundo as estações do ano, exigia a observação sistemática dos movimentos dos astros, por isso a astronomia se desenvolveu rapidamente, e tais observações eram feitas do alto dos templos.
  Os conhecimentos utilizados na investigação dos fenômenos celestes e a necessidade de estudar de forma permanente os astros influíram de maneira essencial na religião e na mitologia dos povos da Mesopotâmia.
  É de época muito remota o processo de identificação associando os deuses com os astros  personificando-os com os fenômenos celestes, ponto de partida para os conhecimentos sobre astronomia. O próprio conceito de deus expressou a escrita cuneiforme que através de um diagrama representava uma estrela, signo que era determinante a todos os nomes dados aos deuses.
  Com as representações de deuses alados os sacerdotes procederam a distribuição através de uma rigorosa ordem, e os diferentes astros e outros fenômenos produziram a astralização dos deuses. O deus de Larsa, Utu, já estava vinculado desde a muito com o sol quando o veneravam com o nome de Shamash; Sin da cidade de Hur se identificou com a lua e outros grandes deuses com os diversos planetas; Nabu com Mercúrio, Ishtar com Vênus, Nergal com Marte, Marduk com Júpiter e Ninurt com Saturno.
  ... E assim se formou o panteão dos deuses estelares.
      Desde o início da civilização Mesopotâmica as tribos hititas predominavam num Estado independente com sua religião, tanto nos cultos locais tribais ou nas cidades, alguns deuses tiveram seus cultos mais difundidos que outros; a deusa solar Arina era conhecida desde a época protohitita, que depois da unificação do país se rendeu culto ao deus central do Estado, Tishub, o deus da tormenta e sua consorte Hebat, a qual se identificava com a deusa Arina.
  A religião oficial incluía também o culto popular agrário no qual era venerada em primeiro lugar Ma, a mãe maior, a deusa da fecundidade; em tais cultos eram promovidas orgias, pois estavam constituídos de uma parte pelo exercício nos templos, e por outra pela prática da castração que se submetiam os sacerdotes. O mito criado revelava à justificativa, diziam que o jovem deus Attis havia se mutilado para escapar da perseguição amorosa da deusa mãe.
  Outras tribos dispersas também possuíam seus deuses independentes que eram cultuados e venerados nas cidades que formavam os Estados; os jaldos, população que pertencia ao império Bihaina, estava vinculado desde muito tempo com a cultura da Mesopotâmia e eram aparentados com os hurritas. Os urartos e jaldos fundiram-se com os georgianos e parte da população da Armênia trans-caucásia.
  Na formação de um império independente o Estado instituiu o culto aos deuses nacionais onde o deus celestial Jald era considerado o principal, juntamente com sua consorte a deusa Barbatu; Tshub o deus da tormenta e muitos outros eram venerados, alguns eram considerados por todos como protetores dos reis.
 Na cidade de Musasir onde se concentrava a religião oficial estava também o templo principal do deus Jald onde os reis faziam suas oferendas.
 Os sírios e fenícios estavam aparentados pela mesma língua e origens com os semitas da mesopotâmia, mas com organizações diferentes, cada cidade venerava suas divindades protetoras locais, femininas ou masculinas, que em sua maior parte não tinham nomes próprios, eram conhecidos em grande parte por nomes comuns, ou seja: El significava deus; Baal dono e Baalat dona, Adon, senhor, Melek ou Moloch, rei; em outras vezes os deuses eram individualizados por meio de nomes de personalidades; em Tiro se rendia culto a Malkart o rei da cidade, em Biblos à Baalt Hebal a mãe de Hebal; em Cartagena, colônia fenícia, as divindades principais eram as deusas Tanit e Baal Ammon. Os vínculos com os países vizinhos os levaram a tomar outros cultos e adotar o nome de seus deuses; veneravam Ashtart, ou seja, a Ishtar babilônica, e também a Adad.
 As cerimônias de cultos que eram concentrados nos templos se destacavam pelo fausto luxo, o que proporcionava aos templos o acúmulo de enormes riquezas. Os sacerdotes que oficiavam os cultos estavam organizados em fortes corporações, porém, seus domínios não transpunham os limites da própria cidade.
 Os sacerdotes exigiam cruéis e sangrentos sacrifícios, que nos momentos decisivos, eram oferecidos aos deuses, e os homens que se ofereciam nem sempre eram prisioneiros; aos fiéis eram exigidos os mais queridos, dos pais eram-lhes arrancados os recém-nascidos, em especial os neófitos, que eram sacrificados diante das imagens dos deuses.
 As divindades fenícias eram representadas por vezes com formas humanas, outras como um animal ou como uma pedra em forma de cone.  
 Quando da conquista feita pelos persas do território dominado pelos assírios muitos outros rituais e deuses foram incorporados. Nos muros que protegia Babilônia, a grande cidade, restaram as inscrições e figuras que expressavam o misticismo na proteção dos habitantes. Os persas instauraram uma grande potência ao tomarem como empréstimo toda cultura dos assírios, porém, das conquistas só restaram ensinamentos como o cultivo da terra, a extrema religiosidade, o conhecimento astrológico e os deuses alados que estão nos céus cintilando em forma de estrelas.                                                                                                                                                    

   Na Grécia, deuses, semideuses e heróis.                       
      A visão fantástica e mitológica aceita por milhares de humanos durante muitos séculos foi sem dúvida a historia dos deuses gregos que do Olimpo comandavam a tudo e a todos.
      Muitas lendas são ainda hoje contadas e relatam que no início da gênese o Caos, matéria que existia desde tempos imemoriais que dominava o Universo e era capaz de fecundar-se. O Caos gerou então a Noite e Érebo que como irmãos tornaram-se divindades, e que unidos deram origem ao Éter e ao Dia, e que por sua vez produziram todas as vicissitudes da vida.
      Dos poderes divinos Eros foi quem possibilitou a procriação entre os deuses, pois é ele quem inspira nos seres a simpatia e a aproximação, possui um grande inimigo, a empatia.
      Telus, a Terra e mãe de todos os seres quando da existência do Caos uniu-se ao Céu procriando os deuses. Os homens nasceram da interação da terra úmida aquecida pelo sol.
      No Olimpo celeste Saturno filho de Urano e Titéia, destronou o pai para reinar em seu lugar, no entanto, Titão que foi o primeiro filho de Urano fez uma exigência, concordaria desde que Saturno não viesse a ter filhos masculinos, pois só assim a sucessão do trono ficaria conservada aos seus filhos. Saturno cumpriu o acordo e casou-se com Réia e tiveram muitos filhos os quais foram devorados ainda quando recém nascidos. Contudo, Réia consegue salvar Zeus, um dos filhos e o esconde. Mais tarde, Zeus declara guerra ao pai, derrotando-o o expulsou do Olimpo celeste assegurando assim sua dinastia. Réia, no entanto, consegue salvar mais três filhos que teve com Saturno, estes, eram Júpiter, Netuno e Plutão, além de Juno, irmã gêmea que viria a ser esposa de Zeus. Saturno, após ser destronado por Zeus passa a ser um simples mortal refugiando-se no Lácio na península italiana.
      Com o reinado de Zeus surge a ordem dos deuses, a partilha do universo é feita sob a abóbada celeste que passa a sustentar todo o mistério do soberano rei dos deuses e dos homens.
      Localizado no monte mais alto da Grécia e enevoado pelas brumas do mediterrâneo encontra-se o Olimpo onde os doze pilares são representados pelo templo dos deuses mitológicos. Zeus, Hera, Athena, Héstia, Febo, Ártemis, Demeter, Hefestos, Ares, Afrodite, Poiseidon e Hades.
      Zeus, o deus dos deuses e dos homens detinha todos os poderes, comandava do Olimpo todo o Universo; suas esposas foram Metis, Eurínome, Têmis, Ceres, Mnemosíne, Hera, e Juno, esta ultima, sua irmã gêmea. Teve também como amantes muitas mortais com quem teve filhos que foram colocados entre os deuses como semideuses ou heróis.
      Hera, filha de Saturno e Réia tinham como irmãos Zeus, Poiseidon, Hades, Demeter e Héstia. Hera foi criada por Tétis e Oceano, Zeus foi seu esposo e, mesmo não terem vivido harmoniosamente, Hera deu-lhe os filhos Hebe, Ares, Tifon, Hefestos, Argeu e Ilitia, porém perseguiu todos os outros filhos que Zeus teve com mortais, entre eles estava Hercules, Europa, Io, Platéia e Sêmele. Hera tinha sob sua responsabilidade o bom desempenho das núpcias e os partos além de ter sido relacionada com a moeda.
      Outra lenda conta que Atena devorou a prudência. Na estória mítica, Zeus teve uma dor de cabeça terrível e pediu ajuda a Hefestos, este lhe abriu o crânio com um golpe de machado de onde surgiu Atena que veio em auxilio de Zeus numa guerra de gigantes, os Totãs. Atena é considerada a deusa da guerra, da sabedoria, das ciências e das artes.
      Héstia a Deusa do fogo era sempre consagrada no principio e no final de todos os sacrifícios, antes mesmo dos outros deuses.
      Febo um dos filhos de Zeus com Latona era irmão gêmeo de Ártemis e um dos deuses mais proeminentes do Olimpo, possuía um aspecto varonil e sedutor, amou a ninfa Coronis com quem teve um filho, Esculápio. Febo foi expulso do Olimpo e passou a viver na terra amando várias mortais, entre as quais, Dáfhine, Clitia e Cimene. Conta uma lenda que Jacinto, um jovem, também foi amado por Febo e quando o mataram transformou-se em flor. Febo estava relacionado com a vida e com a luz por ter sido ele o condutor do carro do Sol; no Olimpo recebia o nome de Febo e no inferno era Apolo. Era também o deus da música, da poesia e estava associado à eloqüência e a medicina, possuía ainda o dom dos oráculos. Mercúrio de certa feita lhe presenteou com uma lira, porém, o som que saia do instrumento era insuportável. Seu símbolo é a eterna juventude.
      Ártemis que era irmã gêmea de Febo e filha de Zeus com Latona tornou-se a guardiã da virgindade eterna por ter sido testemunha das dores do parto de sua mãe, Zeus a armou com arco e flecha dando-lhe os domínios dos bosques, era considerada a Deusa da caça. Possuía nomes diferentes, na terra era Diana, no céu era Lua ou Febe e no inferno era Hécate.
       Demeter, era a filha de Saturno e irmã de Zeus com quem teve Prosépina, foi amada por Poiseidon, que para fugir dos seus amores transformou-se em uma égua e, Poiseidon, apaixonado transformou-se em um cavalo, e desse amor resultou o nascimento de Orion. Não se sabe ao certo quem era sua mãe, se Vesta, Cibele ou Ops, sabe-se, porém, que tinha sob seu domínio as leis que regiam os homens.
     Hefestos, o filho de Zeus com Juno, quando nasceu seu corpo era todo disforme, a mãe não o quis e lançou-o ao mar; recolhido por Tétis e Eurínome, filhas do Oceano com quem teve convivência e aprendizado. Com a ajuda de Baco, retornou ao Olimpo e recebeu simpatias de Zeus, seu pai. Desposou Afrodite a mais bela das deusas e mãe do amor. Hefestos era muito engenhoso e conhecedor dos metais, fabricou as armas de Aquiles e a coroa de Agamenon, sua morada mitológica era a boca de um vulcão e sua habilidade era passada àqueles que forjavam metais dando-os a proteção. 
      Ares, o filho de Zeus com Juno, era o deus da guerra; denominado o bravo, foi educado por Príapo com quem aprendeu a arte das guerras; amante de Afrodite, com ela teve os filhos Deimos e Robos, o terror e o receio, e uma filha de nome Harmonia. Teve outras esposas, Réia, que da união nasceram Rômulo e Remo, os dois fundadores mitológicos de Roma, com Pisine teve Cicno que montado no cavalo Orion foi morto em combate por Hércules, com Tebe teve Evatune e Belona que também era sua irmã e acompanhava Ares nas guerras.
      Afrodite a deusa do amor era a mais célebre do Olimpo, que apesar de sua origem discutida, consta que nasceu das espumas do mar; teve Hefestos como esposo e como amantes o deus Marte e Enéias, um mortal; foi apaixonada por Adonis e era a mãe de Heros o cupido, que representa o amor; conta uma lenda que era muito cruel com aqueles que não aceitavam seus amores.
      Poiseidon era filho de Saturno com Réia, teve como irmãos Hades e Zeus, seu império era o mar que recebeu quando da divisão do Universo, sua morada era o eterno fundo dos oceanos; Anfitrite foi a esposa que lhe deu um filho, Tritão; amou várias mortais e utilizava vários artifícios para surgir na terra, era considerado o protetor dos navegantes; Hades foi o terceiro filho de Saturno com Réia, esposo de Prosérpina, um dos três deuses governantes do mundo, que da divisão coube-lhe o inferno no qual impõe suas leis severas.
      Além dos deuses Olímpicos, havia numa hierarquia os deuses subolímpicos, filhos de divindades com mortais que eram protegidos por regras de um jogo de poder disputado no Universo.
      Atlas que por castigo foi transformado em uma montanha e condenado a sustentar a abóbada celeste; Pã, considerado como um símbolo da natureza era identificado com o Universo; Momo, identificado como o deus da pilhéria, da alegria e dos banquetes, e Morfeu o filho do sono.
       Incontáveis lendas surgidas transformaram homens comuns em semideuses ou heróis, Hercules foi um deles; Orfeu, outro semideus lendário que, segundo a lenda, conta que cultivou a música tocando uma cítara com muita habilidade a ponto de encantar aos mais insensíveis seres; Aquiles, que foi mergulhado nas águas do rio Estige, o rio da imortalidade, por Peleu e Tétis, seus pais, isso para torná-lo invulnerável, menos o calcanhar por onde fora segurado; Ájax um príncipe muito inteligente e engenhoso; Páris, o raptor de Helena de Tróia, o qual desencadeou uma guerra entre gregos e troianos.
      Apesar do desenvolvimento propiciado pela cultura grega, o sistema não conseguia integrar o homem comum na sociedade, pois, os estímulos só eram desfrutados pelas populações livres.
      Os mistérios das Eleusínas, festas em honra à Demeter, era o que constituía a religião dominante e mais popular, era aberta às mulheres, escravos e estrangeiros. Dionísio dividia com Demeter e Febo todas as honras do templo de Delfos, o qual possuía o oráculo. Na tríplice aliança estavam as forças da terra, o comando do Universo e a impulsividade dos instintos, lá estava também a sede dos jogos olímpicos, pois tais manifestações tinham ligações religiosas de caráter internacional, nos quais podiam participar todos àqueles que eram livres, e mais tarde, tais jogos perderam o significado religioso transformando-se assim em competições individuais saindo do interior do templo para o ar livre.
      No interior dos templos, além das representações dos deuses, possuíam também em salões específicos uma grande quantidade de ex-votos denominados Xoanon, que eram feitos em madeira e mais tarde substituídos pelo bronze e pelo mármore. Nos ritos de oferendas, as Korai, donzelas se apresentavam vestidas com um manto em atitude serena diante dos deuses.
      Algumas dezenas de seres mitológicos povoaram e compartilharam do dia a dia dos gregos, e os dramaturgos transformavam ritos religiosos em representações teatrais que misturavam deuses, mortais e heróis lendários nas tragédias gregas, nas quais transmitiam sua filosofia. Entre os dramas estão os poemas épicos difundidos até os dias atuais. No entanto, a filosofia desenvolvida pelos gregos não bastou para terminar com as guerras que, desiludido, o povo reencontrava o conforto em cultos advindos de outras terras, estavam à procura de uma felicidade mais duradoura, ainda que fosse depois da morte; abria-se então um precedente para o cristianismo que se espalhava por àquela parte do mundo.
      Grande parte da cultura grega foi transferida para os romanos que a importaram juntamente com seus deuses, surgindo daí, o termo greco-romano, os quais em Roma receberam novas denominações mantendo os valores de prestigio e significados de cultos, estes com algumas adaptações por influência de outros povos.                                                
                                                                       O Oceano.
Para os antigos, o Oceano era primitivamente um rio imenso que envolvia o mundo terrestre. Na Mitologia é o primeiro deus das águas, filho de Urano ou do Céu e de Gaia, a Terra, é o pai de todos os seres. Homero diz que os deuses eram originários do Oceano e de Tétis. Conta o mesmo poeta que os deuses iam muitas vezes à Etiópia visitar o Oceano e tomar parte nas festas e sacrifícios que ali se celebravam. Conta-se enfim, que Juno, desde o seu nascimento, foi por sua mãe Réia, confiada aos cuidados de Oceano e de Tétis para livrá-la da cruel voracidade de Saturno.
O Oceano é, pois, tão antigo como o mundo e por isso representam-no sob a forma de um velho sentado sobre as ondas com uma lança na mão e um monstro marinho ao seu lado, segura uma urna da qual despeja água, símbolo do mar, dos rios e das fontes.
Como sacrifícios ofereciam-lhe geralmente grandes vítimas e, antes das expedições difíceis, faziam-lhe libações; era não somente venerado pelos homens, mas também pelos outros deuses. Nas Geórgicas de Virgílio, a ninfa Cirene quando ia ao palácio do Peneu, na fonte desse rio, oferecia um sacrifício ao Oceano, três vezes seguidas ela deitava o vinho sobre o fogo do altar e três vezes a chama ressaltava até a abóbada do palácio, presságio tranqüilizador para a ninfa e seu filho Aristeu.
 Tetis e as Oceânidas
Tetis, filha do Céu e da Terra, casou com o Oceano, seu irmão, e foi mãe de três mil ninfas chamadas Oceânidas. Dão-lhe ainda como filhos, não somente os rios e as fontes, mas também Proteu, Etra, mãe de Atlas e Persa, mãe de Circeu. Conta-se que Júpiter tendo sido amarrado e preso pelos outros deuses, Tetis o pos em liberdade com auxílio do gigante Egeon; ela se chamava Tetis, palavra que em grego significa ama, sem dúvida porque é a Deusa da água, matéria-prima que segundo uma crença antiga entra na formação de todos os corpos.
O carro dessa deusa é uma concha de maravilhosa forma e de uma brancura de marfim nacarado. Conta o mito que quando percorre o seu império, seu carro atrelado com cavalos-marinhos, mais brancos do que a neve, parece voar sobre a superfície das águas. Ao redor dela, os delfins brincando saltam no mar. Tetis é acompanhada pelos Tritões que tocam trombeta com as suas conchas recurvas e pelas Oceânidas, coroadas de flores cuja cabeleira esvoaça pelas espáduas ao capricho dos ventos.
Tetis, Deusa do mar, esposa de Oceano não deve ser confundida com Tetis, filha de Nereu e mãe de Aquiles.
Netuno (Poseidon)
Netuno ou Poseidon, filho de Saturno e de Réia, irmão de Júpiter e de Plutão. Logo que nasceu, Réia o escondeu em um aprisco da Arcádia, e fez Saturno acreditar ter ela dado à luz a um potro que lhe deu para devorar. Na partilha que os três irmãos fizeram do Universo ele teve por quinhão o mar, as ilhas, e todas as ribeiras.
Quando Júpiter, seu irmão, a quem sempre serviu com toda a fidelidade derrotou os Titãs, seus terríveis competidores, Netuno encarcerou-os no Inferno impedindo-os de tentar novas empresas. Ele os mantém por trás do recinto inexpugnável formado por suas ondas e rochedos.
Netuno governa o seu império com uma calma imperturbável. Do fundo do mar onde está sua tranqüila morada sabe tudo quanto se passa na superfície das ondas. Se por acaso ventos impetuosos espalham inconsideradamente vagas sobre as praias causando injustos naufrágios, Netuno aparece, e com a sua nobre serenidade faz reentrar as águas no seu leito abrindo canais através dos baixios, levanta com o tridente os navios presos nos rochedos ou encalhados nos bancos de areia, restabelecendo assim, toda a desordem provocada pelas tempestades. Teve como mulher Anfitrite, filha de Doris e de Nereu. Essa ninfa recusara antes desposar Netuno e se escondeu para esquivar-se às suas perseguições, mas um delfim, encarregado dos interesses de Netuno, encontrou-a ao pé do monte Atlas e persuadiu-a que devia aceitar o pedido de Netuno, e como recompensa foi colocada entre os astros. De Netuno ela teve um filho chamado Tritão e muitas ninfas marinhas; diz-se também que foi a mãe dos Ciclopes.
O ruído do mar, a sua profundidade misteriosa, o seu poder, a severidade de Netuno que abala o mundo quando com o tridente, ergue os enormes rochedos, inspiram à humanidade um sentimento mais de receio do que de simpatia e amor. O deus parecia dar por isso, todas as vezes que se apaixonava de uma divindade ou de uma simples mortal. Recorria então à metamorfose, mas mesmo assim, na maior parte das vezes conservava o seu caráter de força e impetuosidade.
Representam-no transmutado em touro nos seus amores com a filha de Éolo; sob a forma de rio, Enipeu, quando fazia Ifiomédia, mãe de Ifialto e de Oto; sob a de um carneiro, para seduzir Bisaltis; como cavalo para enganar Ceres; enfim, como um grande pássaro nos amores com Medusa e como um delfim quando se apaixonou por Melanto.
A sua famosa discórdia com Minerva, por causa da posse de Ática é uma alegoria transparente em que os doze grandes deuses, tomados como árbitros, indicam a Atenas os seus destinos. Esse Deus teve ainda uma desavença com Juno por causa de Micenas e com o Sol por causa de Corinto.
A fábula de Netuno expulso do céu com Apolo, por haver conspirado contra Jupiter, conta que construiu as muralhas de Tróia, e que defraudado no seu salário se vingou da perfídia de Laomedonte destruindo os muros da cidade.
Netuno era um dos deuses mais venerados na Grécia e na Itália onde possuía grande número de templos, sobretudo nas vizinhanças do mar; tinha também as suas festas e os seus espetáculos solenes, sendo que os do istmo de Corinto e os do Circo de Roma eram-lhe especialmente consagrados sob o nome de Hípio. Independente das Saturnais, festas que se celebravam no mês de julho, os romanos consagravam a Netuno todo o mês de fevereiro.
Perto do istmo de Corinto, Netuno e Anfitrite tinham as suas estátuas no mesmo templo, não longe uma da outra; a de Netuno era de bronze e media doze pés e meio de altura; na ilha de Tenos, uma das Ciclades, tinha Anfitrite uma estátua colossal da altura de nove cúbitos. O deus do mar tinha sob a sua proteção os cavalos e os navegantes. Além das vítimas ordinárias e das libações em sua honra, os arúspices (sacerdotes) ofereciam-lhe, particularmente, o fel da vítima, porque o amargor convinha às águas do mar.
Netuno é geralmente representado nu, com uma longa barba e o tridente na mão, ora sentado, ora em pé sobre as ondas ou sobre um carro atrelado por dois ou quatro cavalos, comuns ou marinhos, cuja parte inferior do corpo termina em cauda de peixe.
 Proteu
Proteu, o Deus marinho era filho de Oceano e de Tetis, ou segundo outra tradição de Netuno e de Fênice. Segundo os gregos sua pátria é Palene, cidade da Macedônia. Dois dos seus filhos, Timolos e Telégono eram gigantes, monstros cruéis. Não tendo podido chamá-los ao sentimento da humanidade tomou partido de retirar-se para o Egito com o socorro de Netuno que lhe abriu uma passagem sob o mar. Também teve filhas, dentre as quais as ninfas Eidotéia que apareceu a Menelau quando voltando de Tróia, esse herói foi levado por ventos contrários sobre a costa do Egito lhe ensinando o que deveria fazer para saber de Proteu os meios de regressar à pátria.
Proteu guardava os rebanhos de Netuno, os grandes peixes e focas, e como recompensa dos trabalhos Netuno deu-lhe o conhecimento do passado, do presente e do futuro; mas não era fácil abordá-lo, ele se recusava a todos que vinham consultá-lo.
      Eidotéia disse a Menelau que para fazê-lo falar era preciso surpreendê-lo durante o sono e amarrá-lo de maneira que não pudesse escapar, pois ele tomava todas as formas para espantar os que se aproximavam; tomava a forma de leão, de dragão, de leopardo, de javali e em algumas vezes se metamorfoseava em árvore, em água e mesmo em fogo, mas se perseverava em conservá-lo bem ligado, retomava a primitiva forma e respondia a todas as perguntas que se lhe fizessem.
Menelau seguiu ponto por ponto as instruções da ninfa e com três dos seus companheiros entrou de manhã nas grutas em que Proteu costumava ir descansar juntamente com os rebanhos. Como de costume, Proteu fechou os olhos e tomou uma posição cômoda para dormir; Menelau e os seus três companheiros se atiraram sobre ele e o apertaram fortemente entre os braços, era inútil metamorfosear-se: a cada forma que tomava apertavam-no com mais força. Quando enfim esgotou todas as suas astúcias, Proteu voltou à forma ordinária e deu a Menelau os esclarecimentos que este pedia.
No quarto livro das Geórgicas, Virgílio imitando Homero, conta que o pastor Aristeu depois de haver perdido todas as suas ovelhas foi a conselho de Cirene, sua mãe, a consultar Proteu sobre os meios de recuperar os animais, e para lhe falar recorreu aos mesmos artifícios.
                                                                       ***
     Contendo inúmeras passagens, os poemas de Homero deixaram para a posteridade a transcrição de episódios que misturavam deuses e mortais nas lendas heróicas. Os personagens demonstram que as lendas e mitos faziam parte do cotidiano social e religioso de todo povo grego. Nos versos de “Ilíada e Odisséia”, poemas com 24 livros, são descritos os cânticos dedicados aos deuses, semideuses e heróis.
                                                                               
                                                                      ***                  
    Mitos contados por Ésquilo, o poeta grego.
      ... E assim tudo começou.
       No imenso espaço informe primeiro nasceu o Caos e a desordem, que inseminado pelo movimento nasceram Gea a Terra e Eros o amor que foram apaziguados pelas leis universais; do Caos nasceram Érebo as trevas inferiores e a Noite e desta união originaram o Éter e o Dia; Gea, a Terra, gerou Urano, o céu, as montanhas e o mar profundo.
      Assim se fez o Universo mítico grego, porém, faltava povoá-lo; Gea, a Terra, uniu-se então a Urano seu filho, dando origem aos Titãs, uma raça que formaram os doze elementos. Os seis masculinos chamaram-se Oceano, Ceo, Crio, Hiperion, Japeto e Crono, e os seis femininos, Tia, Rhea, Mnemósina, Febe, Tétis e Têmis.
      Unidos novamente, Gea e Urano, desta feita geraram os ciclopes, Brontes, Estéropes e Arges, idênticos aos outros seres, porém com estaturas excomungais e somente com um olho sobre a testa. Também geraram os Cotos, Briaréu e Gies, seres monstruosos que possuíam cinqüenta cabeças com largas espáduas de onde saiam cem braços, eram chamados Hecatonquiros ou Centimános.
      Urano não gostou dos filhos monstros que iam nascendo e por isso enterrava-os nas profundezas da Terra. Gea, indignada com os acontecimentos e auxiliada por Crono, resolveram dar um fim àquela tirania, e na primeira oportunidade esperaram que Urano adormecesse e cortaram o membro fálico atirando-o ao mar.
      Quando o membro fálico caiu no mar formou-se uma espuma da qual nasceu Afrodite, que levada pelas ondas foi para Cítera e depois para Chipre. Do ferimento de Urano escoria sangue, e a cada pingo nasciam as Fúrias, gigantes monstruosos e as ninfas Meliades.
      Após ter reduzido seu pai à impotência, Crono libertou seus irmãos Titãs, conservando prisioneiros os Ciclopes e os Hecatonquiros e tornou-se o monarca do mundo.
      ... E seguia-se a obra da criação.
      A Noite deu origem à Moira, o destino obediente aos deuses; a Morte, da qual nenhum ser escapa; Morfeu o sono; Momo a alegria; Lamentação, cujos olhos estão sempre lacrimenjantes e a boca retorcida por dores; Cloto, Laquesis e Àtropo, condutores dos destinos humanos, o ciúme e a velhice; Éris a discórdia, causadora de muitos males da qual também nasceu a Dor, o Esquecimento, a Fome, além de tantas outras vicissitudes.
      Do Mar e Gea nasceu Nereu que da união com Dóris, nasceram cinqüenta filhas denominadas Nereidas, as quais se embalavam sobre o corpo liquido do pai. E em uma sucessão de uniões o mundo foi povoado.
      Crono após ter-se unido a sua irmã Rhéa tiveram Plutão, Poseidon, Zeus, Hera, Héstia e Deméter.
      Urano, após ter perdido seu membro viril, lançou sobre Crono uma maldição a qual sofreria na carne também da parte de um de seus filhos, o mesmo que fizera a ele. Crono então  passou a devorar todos os filhos que nasciam; porém, quando nasceu Zeus, Rhéa sua mãe o protegeu ludibriando Crono, entregou o recém nascido a Gea que o levou para um monte longínquo deixando-o aos cuidados das ninfas Adastrea e Ida.
      Carinhosas e dedicadas, as ninfas deram-lhe um berço e um globo de ouro, e para que o choro do menino não despertasse curiosidades a Crono foram solicitados os Curetes, seres demoníacos e bagunceiros que batiam suas espadas em seus escudos, confundindo assim o choro do pequeno Zeus.
      Quando adulto e bastante forte Zeus promoveu uma guerra contra Crono, seu pai, no entanto, a guerra durou muito tempo sem ser decidida. Zeus veio á Terra libertar os Ciclopes e os Hecatonquiros, que se tornaram guerreiros na grande batalha. As batalhas se sucediam com tremores e mares revoltos, dos céus as tempestades surgiam e os ventos sopravam com fúria, mas finalmente a luta foi vencida por Zeus.
      Zeus, o deus vencedor, aprisionou e sepultou seus inimigos, os Titãs, e os atirou no Tártaro, o abismo mais profundo que separa a Terra do Céu. Porém, Zeus ainda travou muitas lutas antes de governar o mundo; enfrentou os gigantes nascidos do sangue de Urano, seres descomunais e monstruosos, vencendo-os quando tentavam escalar o monte Olimpo.
      Gea não gostou de ver os Titãs derrotados por Zeus, seu neto, pois, os gigantes eram considerados como filhos, e no intento de combater Zeus gerou Tifon, um ser que de seus ombros emergiam cem cabeças de dragões e de cada uma delas, em forma de dardos, saiam uma língua negra e venenosa, os olhos lançavam chamas e sua estatura era de um monstro descomunal. Zeus venceu-o soterrando-o sob o Etna, uma montanha fumegante.
      Após as batalhas titânicas ocorridas, Zeus chamou seus irmãos e dividiu com eles o poder que havia conquistado; à Poseidon deu os domínios dos mares e à Hades destinou o mundo subterrâneo; tomou por esposa sua irmã Hera e fez do monte Olimpo sua moradia de onde comandava os desígnios dos seres humanos.
    Prometeu acorrentado
    Prometeu, Titã de uma raça de gigantes, habitava a Terra antes da criação dos seres humanos, Zeus o encarregou de que para cada animal recém criado fosse dotado de faculdades que o ajudasse a sobreviver. Prometeu assumiu a tarefa, porém, seu irmão Epimeteu apareceu e pediu para ajudá-lo, e após um juramento, Prometeu resolveu aceitar a ajuda do irmão.
      Prometeu então deixou seu irmão fazendo o serviço e partiu para uma visita aos Hiperbóleos. Após algum tempo regressou e se surpreendeu com o trabalho feito por Epimeteu, tudo estava pronto e perfeito. Os felinos possuíam garras e dentes afiados, as aves possuíam plumas coloridas e podiam voar, os peixes nadavam e viviam sob as águas, as cobras possuíam venenos em seus dentes, e os pequenos animais podiam se confundir nos ambientes para fugir de seus predadores.
      No entanto, Prometeu viu em um canto um pequeno animal indefeso e desajeitado, meio surdo, com dentes fracos, com pouca pelugem, sem garras, enfim, sem muitos atributos. Admirado, Prometeu perguntou ao irmão que animal era aquele. Este?... Respondeu Epimeteu. Não tive como dar dons a ele, pois se acabaram todos. Lembrou-se então Prometeu do fogo sagrado que havia no céu, e com arrojo foi à morada dos deuses e roubou-o, dando ao ser recém-criado.
      Após ter recebido o presente, àquele ser sem muitos atributos, passou a dominar o fogo, aprendeu a caçar, a pescar, a trabalhar com a terra, com os metais, transformou gritos em palavras, construiu cidades, aprendeu a cultuar os deuses e a cuidar dos mortos. No entanto, Zeus levou como um ato de insubordinação de Prometeu, pois a ele é que foi entregue a tarefa e não a Epitemeu, portanto, este merecia castigo. Tomou então Zeus uma porção de barro e moldou uma boneca, depois chamou todos os Deuses e pediu a cada um deles que desse a ela um determinado atributo. Afrodite aproximou-se e lhe deu o dom da beleza, Hermes deu-lhe o poder da persuasão, Apolo a dotou com a sensibilidade; enfim, cada um dos Deuses a proveu com um dom específico, e por isso foi chamada de Pandora, que significa “a bem dotada”. Ornamentada com jóias douradas, pedras preciosas e flores primaveris foi entregue a Epitemeu como presente dos Deuses, porém, Prometeu aconselhou ao irmão a devolver tal oferta. Por fim, Pandora ficou vivendo com Epimeteu na Terra.
      A Terra era um lugar ainda denominado paraíso onde não havia contraído males para afligir os homens. Passado algum tempo, Pandora bisbilhotava os pertences de Epitemeu e descobriu uma caixa hermeticamente fechada; curiosa resolveu abrir e ver o que tinha dentro. Abriu a caixa da qual saíram os males do mundo, mas, no desespero fechou-a rapidamente, porém, já era tarde de mais, o mundo fora dominado por perturbações.
      No entanto, Pandora ouvia uma voz que saia de dentro da caixa pedindo para sair. Pandora deixe-me sair, pois sem mim o mundo será terrível. Dizia a voz.
       Pandora que já havia posto no mundo tanta desgraça achou que mais uma não faria diferença, de modo que abriu a caixa novamente, e do seu interior saiu a esperança.
      ...E o conflito continuou entre Prometeu e Zeus até que o deus supremo o acorrentou no monte Cáucaso, aonde um abutre diariamente vem devorar seu fígado que é reposto durante a noite, para que no dia seguinte a tortura recomece.
      Níobe
      Da janela Níobe via a grande procissão dos adoradores de Leto, Ártemis, mãe de Apolo portava oferendas e cantava hinos, todos se dirigiam ao santuário.
      Níobe continuava lá de sua janela contemplando o cortejo que seguia com bois brancos, fortes e vagarosos; puxavam carroças enfeitadas com flores levando os sacerdotes, todos paramentados. Os Aedos cantavam poemas à divindade, as meninas adolescentes vestidas de branco usavam tiaras na cabeça enfeitadas com pequenas flores coloridas, e os jovens meninos, levavam peneiras com grãos, símbolo da fertilidade da terra.
      O majestoso cortejo seguia, porém, no coração de Níobe crescia o sentimento da hibris - sentimento da desmedida, tudo aquilo que os mortais buscam quando ultrapassam seus limites esquecidos de suas fragilidades.
      Dominada por tal sentimento reuniu seus quatorze filhos, sete meninas e sete meninos; vestiu-os com trajes requintados e foi se juntar entre os fiéis. Chegando ao santuário esbravejou, e os fieis a ouviam. Niobe então falava: __ Por que estão aqui? ... Por que honram esta Deusa? ... Por que se curvam diante a uma amante de Zeus que teve dois filhos bastardos? ... Se for por isso adorem a mim que tenho quatorze filhos legítimos.
      Um dos sacerdotes que a ouviu, tentou trazê-la à razão, porém não conseguiu.
      No Olimpo, Leto enraivecida pela ira tudo ouvia, e ordenou que chamassem seus dois filhos, Apólo e Árthemis, para mostrar-lhes as ofensas direcionadas à mãe. Decididos a dar uma lição em Níobe desceram à Terra, e de alguma distância lançaram suas flechas, a de Apolo acertou os sete filhos homens, matando-os, e a de Arthemis acertou as sete filhas mulheres. Ao ver seus filhos morrerem, um a um, implorou aos céus rogando perdão a Leto pelo que tinha feito; e todos saíram assustados do templo, permanecendo somente Níobe derramando lágrimas sob as pedras do templo.
    O pomo da discórdia
      No Olimpo, moradia dos deuses, uma festa acontecia em virtude do casamento da Deusa Thétis e do mortal Peleu, todos os deuses estavam presentes, menos Éris a Deusa da discórdia. No entanto, no decorrer da festa e mesmo sem ter sido convidada apareceu Éris trazendo uma maçã, o pomo. Evidente que os nubentes e os convidados não gostaram, mas mesmo assim ela foi ficando. Num certo momento, indagada por que estava ali, respondeu que foi somente para fazer entrega de um presente à deusa mais bela da festa.
      Passado algum tempo a festa acabou e a discórdia foi embora, no entanto, as deusas passaram a reivindicar o presente de Éris, e as desavenças surgiram. Foi feito então um concurso no qual os julgadores seriam os deuses masculinos, porém, estes estavam demasiadamente comprometidos com todas as candidatas para fazer um julgamento com isenção e, para resolver o problema, Páris, um jovem príncipe que era filho de Príamo, o rei de Tróia, foi chamado.
      Levado ao Olimpo o príncipe ficou indeciso, pois todas as deusas eram belas. Duvidoso a quem dar o prêmio pediu um tempo para pensar, porém, enquanto pensava cada uma das Deusas procurava aliciá-lo com propostas e promessas. Athena prometeu sabedoria; Hera prometeu uma bela esposa virtuosa e filhos sadios; Afrodite por sua vez prometeu dar-lhe a mais bela mulher, Helena, a filha de Zeus e Leda.
      Páris, silencioso ouviu a cada uma das deusas, porém, na hora de dar o veredicto, coube a Afrodite, pois era a mais bela das deusas.
      O sorriso de satisfação em Afodite causou um silêncio profundo, pois os deuses, conhecedores dos destinos humanos, sabiam que tal decisão causaria uma grande guerra onde seria derramado o sangue de muitos heróis junto aos muros de Tróia.      
     Faetone
      Faetone, filho de Apolo e da ninfa Clymene, vivia se gabando pela sua origem divina e o fazia orgulhoso, e sempre que via o Sol dizia: Ali está o meu pai!
      No entanto, após várias repreensões de amigos Faetone prostrou-se em dúvidas, e para ter certeza foi perguntar a sua mãe; porém, mesmo com a afirmativa, Faetone foi procurar o pai Apolo, queria ter uma prova.
      Após uma longa viagem chegou a terra onde o Sol nasce. Encontrando o palácio entrou no grande salão que, de tão dourado reluzia aos seus olhos; ficou parado um pouco à distância por causa do brilho intenso.
      Junto ao trono do Sol estava o Tempo que marcava os dias, os meses, os anos e as estações. Faetone então se aproximou com cautela e perguntou: Apolo, se de fato sou seu filho, dá-me uma prova?
      Apolo emocionado com a presença do filho respondeu: De fato tu és meu filho, pede o que quiseres!
      Faetone então fez um pedido: Deixe-me guiar o carro do Sol.
      Apolo surpreso com aquele pedido, responde: Filho pede-me outra coisa, pois nem os Deuses que são imortais podem guiar o carro do fogo, nem o próprio Zeus se atreveria.
      Faetone, no entanto, não ficou convencido com os argumentos de Apolo e retruca, porém, Apolo fala dos perigos existentes na rota em que o carro do Sol percorre a cada dia, mas por fim cede sem mais argumentos.
      Feliz e cheio de vaidade, Faetone guia o carro estimulando cada vez mais os cavalos que bufando saem em galope. No entanto, os cavalos percebendo que não era Apolo que os guiava se lançaram em disparada. A Terra estremeceu, montanhas tornaram-se incandescentes, florestas arderam em chamas, cidades tornam-se cinzas, e as terras foram queimadas pelo intenso calor transformando-as em desertos, e até mesmo o mar foi atingido.
      Zeus ao ver tudo aquilo toma uma decisão, e com um de seus raios atinge Faetone fulminando-o, interrompendo assim aquela desvairada ação.
 Apolo e Dáfhine
Apolo apaixona-se por Dáfhine que se esquiva e não se sensibiliza com as súplicas sinceras do deus Solar, e mesmo sendo Apolo o inventor da medicina, um curador que tem todas as plantas a sua disposição, não encontra uma erva capaz de curá-lo desse amor tão devastador. A ninfa não o deseja e foge amedrontada. Apolo a persegue e observa o vento a desvendar-lhe o corpo agitando suas vestes e a jogar-lhe os cabelos para trás. A fuga a deixa mais bela. Apolo está cheio de esperanças, e quando levado pelas asas do amor, roça-lhe os cabelos espalhados pelo pescoço esguio. Ela, exaurida, pede socorro ás águas do rio Peneu, seu pai: ajude-me meu pai, transforma-me e destrói esta beleza que faz com que eu atraia demais. E de imediato a ninfa é transformada em árvore, um loureiro. Não restava mais nada de Dáfhine, a não ser sua formosura em forma de uma bela árvore.
Apolo abraça o loureiro e declara amor eterno, esta será a árvore a mim consagrada. Meus cabelos, minha lira, minha aljava sempre ostentará o louro. O deus que cingia a bela fronte e cabelos com as folhas de qualquer árvore passou a usar exclusivamente o louro em homenagem a Dáfhine. 
                                                                 ***                     
       ...Estas e tantas outras estórias eram contadas na Antiga Grécia para mostrar o que acontecia àqueles que ousavam a ultrapassar a condição humana quando não respeitavam seus limites e queriam ser iguais aos deuses, mesmo tendo sido eles as próprias vicissitudes, as criadoras da fantástica civilização.

    Os mistérios Árabes
       Em época muito remota toda a vasta região compreendida entre o Cáucaso e o sul da Arábia era, senão habitada pela mesma raça, ao menos por povos que falavam o mesmo idioma. O estudo das línguas semíticas demonstra, com efeito, que o hebreu, o árabe, o fenício, o siríaco, o assírio e o caldeu, têm estrito parentesco, portanto uma mesma origem comum.
       A bíblia, livro magno da cristandade, alude com freqüência aos amalecitas, medianitas e aos sabeus e, segundo fontes judaicas, Ghahtan, descendente de Sem e Ismael, este filho de Abraão e a escrava egípcia, foram os pais dos dois povos, que primitivamente povoaram a península árabe.
       Povos sedentários ao sul e nômades ao norte fundaram as dinastias Sebéia e Hemiárica, enquanto os filhos de Ismael se instalaram nos confins da palestina, no Hedjaz, e tornaram-se os senhores do território de Meca. Descendentes de Ismael, os nabateus, idumeus, moabitas, amalecitas, amobitas e os madiabitas, eram então tribos numerosas. Sabá e Iemem se desenvolveram tornando-se as duas maiores cidades providas de fortificações e donas de um comércio ativo que atendia todo o mundo conhecido até então.
       Inscrições assírias relatam que a uns 1000 AC. os árabes eram politeístas, erigiam monumentos a seus deuses e praticavam vários cultos e rituais. No principal templo, a Caaba, fundada por Abraão eram venerados 360 deuses por todos os povos da península, no entanto, muitos árabes já admitiam a existência de um único deus.
       Todos os povos da Arábia resumiam sua glória em adorar a Caaba, que até então para os judeus era um lugar de veneração. A custódia do templo achava-se confiada aos árabes da tribo dos coaxitas que desfrutavam de autoridade religiosa, no entanto, admitiam os Moabitas, praticantes do cristianismo primitivo.
       Com a concentração de todos os deuses na Caaba em Méca tornava possível a fusão de todos os cultos num só, o que facilitava, pois todos os adoradores daqueles deuses falavam a mesma língua e conseqüentemente podiam se unir numa única crença.
       O profeta Maomé no ano 570 limitou-se a pregar que o único deus verdadeiro era o fundador da Caaba, templo a que todos se dirigiam, ou seja, o deus de Abraão. As antigas crenças passaram a perder seu prestigio e, ao passo que os deuses foram envelhecendo e sendo esquecidos, Maomé arrebanhava discípulos de todas as tribos que o cobriam com palmas nos lugares por onde passava.
       Em Medina, Maomé começou a organizar o culto que havia fundado, e o Alcorão, livro sagrado que não passava de um esboço, foi sendo complementado gradualmente por intermédio de "revelações" que os céus enviavam ao profeta.
       Instituindo as práticas do islamismo e percebendo o quanto aumentava sua influência, Maomé determinou em apoderar-se de Méca. Reunindo dez mil homens e seguidores, um verdadeiro exército para a época, apresentou-se diante da cidade apoderando-se dela sem combate e, ao entrar no templo destruiu todos os ídolos, consagrando o templo ao culto do islamismo.
       O poder político, militar, social e religioso de Maomé, levou-o a conquistas no Egito e Síria. Após sua morte o primeiro a sucedê-lo foi Abu Bake.
       O Alcorão, livro sagrado dos maometanos é o código que define todas as atividades na sociedade islâmica, dizem ter sido revelado a Maomé através do anjo Gabriel e, as concepções filosóficas de tais escritos assemelham-se aos das religiões semíticas, religiões antecedentes ao judaísmo e ao cristianismo, que juntamente com o islamismo, constitui os três ramos de um mesmo tronco.
       O islamismo pode ser considerado a primeira religião a introduzir o monoteísmo no Mundo, no entanto, o mundo Árabe foi cheio de mitos, fábulas e lendas com sentidos difusantes semíticos, um mundo mágico que sempre esteve incluído num matiz e numa emoção de cânticos que ameaçam os homens com diabos e espíritos malignos, no entanto, protege-os anjos e fadas, e nos amuletos e talismãs de um mundo de gnósticos, havia o sistema de origens e imagens persas.
       Na mitologia Árabe os "gênios" pertenciam à era pré-islâmica, época quando ainda os espíritos não eram puros e sim seres corporais, mais animais que humanos, seres que apareciam e desapareciam como por encanto.  
       Divididos em espécies cada um deles possuía diversos poderes. Mariad era o mais poderoso; Efrit e Chaitan, Jin e Jann, seres pertencentes à família Azail, era um ser que se recusou a prostrar-se diante de deus e por esse motivo foi condenado à morte, porém, sua execução foi adiada para o dia do julgamento final; Dalhan, um jin canibal, sempre era visto montado num camelo; Ghadar, o caçador de homens, as lendas contam que quando os pegava torturava-os; Ghrul, um Jin feminino canibal que aparecia nos desertos e prostituía-se aos homens antes de devorá-los; Hatif, audível, mas invisível; Iblis, nome islâmico do demônio cristão tem um sinônimo, diz-se Chaitam; Lilith, ser noturno que assombrava as caravanas; Nasnas, um ser que possuía somente uma perna, um braço e a metade da cabeça, ser totalmente disforme que assustava pelo impacto de quem a visse; Shiq era a metade de um homem, resultado da união de Nasnas com um ser humano; Silat, o Jin da luz, vivia nas florestas e fazia os homens dançarem; Yagut, o ser que personificava o temor, e Hira que era o provocador dos maus sonhos.
       Os Jins moravam em subterrâneos, assustadores afloravam da terra e, em outras ocasiões tomavam formas de animais e moviam ciclones, mas para afugentá-los, sentinelas do céu dispersavam uma estrela cadente. Como agentes patológicos, os Jins eram capazes de provocar  dores, convulsões, acesso de loucura e epidemias mais propícias às indefesas crianças e mulheres grávidas. Bauh era mais um espírito semítico a acrescentar no mítico popular árabe, a ele era  assegurado a rápida transmissão de mensagens, e para invocá-lo, bastaria escrever os números 8-6-4-2, o que representava as letras do alfabeto árabe, para escrever seu nome.
       Na zoologia o mito árabe era também manifestado proporcionando visões fantásticas; o pássaro egípcio Bennu era a própria fênix que ressurgiu das próprias cinzas; Roq, a ave que era capaz de carregar um ser humano; o Zu babilônico era uma ave que representava as tempestades; Al-Khailan aparecia como metade homem metade peixe; Yaouk equivalia ao centauro. Estes eram os seres mitológicos que invariavelmente fantasiavam as mentes de grande parte das populações árabes.
       A botânica também teve sua representação no mundo mítico árabe, a Zanin e a Daslin, árvores infernais referidas no alcorão que brotavam das profundezas do inferno trazendo em seus galhos cabeças de demônios que serviam de alimento aos seres desprezíveis.
       O islamismo, além do panorama mítico mantém na existência de um mundo além- túmulo conceitos de céu e inferno, possuindo ainda um cortejo de anjos que vem em socorro dos crentes. São eles que afugentam os demônios e transportam o trono de Alá, havendo ainda os que intercedem pelos homens e que na hora da morte, Asrael os recebe para o julgamento final.
       Num mundo de magias onde a vida em que a imaginação e superstição no sobrenatural desempenham papel básico e fecundo, tem como principal o lúdico mundo dos sonhos, os sonhos das mil e uma noites.   
Roma e os deuses importados.                                   
       De origem indo-européia, descendentes dos etruscos, grupos de pastores e agricultores se fixaram nas margens do rio Tibre por volta do século XII AC. Com o tempo, etruscos ao norte e gregos ao sul impuseram sua hegemonia ao reunir toda a população dentro de uma cidadela fortificada que com a dinastia etrusca durou até o ano 509 AC. A sociedade que começou com grupos independentes tornou-se uma metrópole que gravitava em torno de uma aristocracia. Assim nascia Roma que mais tarde tornou-se a capital do mundo mediterrâneo e grande parte da Ásia, África e Oriente Médio.
       Com as heranças culturais etruscas e gregas passaram a construir os templos inspirados nos conhecimentos daquelas civilizações que serviam para glorificar seus deuses e dirigentes, pois no ano 44 aC. e após grandes conquistas militares, Roma tornou-se um vasto império dominando todo o mundo mediterrâneo. No entanto, as conquistas não trouxeram somente bens de guerra, bens de pilhagens, trouxeram também crenças que constituíram na adaptação de mitos diferenciados apenas nos nomes das terras de origem.
       Os deuses trazidos da Grécia tornaram-se, com algumas adaptações oficiais as divindades cultuadas; receberam nomes não mais zelosos que os gregos. Zeus recebeu o nome de Júpiter, Hera, passou a ser denominada Juno, Atena em Minerva, Héstia em Vesta, Apolo em Febo, Artemis em Diana, Demeter em Ceres, Hefestos em Vulcano, Ares em Marte, Afrodite em Vênus, Poiseidon em Netuno e Hades em Plutão. Alguns desses deuses, no entanto, não chegaram a possuir templos específicos em Roma, eram apenas, e por vezes, cultuados de forma coletiva.
       A religiosidade, imperativa aos romanos, que diariamente como era de costume, jamais deixavam extinguir a chama do lar, ritual que consistia em alimentar Vesta, a deusa da vida. O ritual consistia em colocar lenha no fogo e lançando sob as chamas migalhas de pão durante as refeições. Nas paredes das casas eram suspensas pequenas imagens que representavam os espíritos domésticos e protetores da casa, e sob a porta, duas faces voltadas frontalmente, representavam Juno, que vigiava os que entravam. Acreditavam que os manes, como eram definidos as almas dos antepassados, ficavam presentes nos lares após suas mortes, todos eram considerados guardiões sobrenaturais e faziam parte de um microcosmo moral e religioso. O pater poder, que era infalível, celebrava ritos e sacrifícios sob um altar da casa que, em nome dos deuses, dava ordens e infligia castigos.
       Além dos cultos oficiais os romanos haviam conservado os ensinamentos dos etruscos a respeito dos presságios, os rituais eram realizados com grande respeito.
       No fim da república a vida religiosa não mais seguia antigas devoções e nos santuários reinava grande confusão, pois as conquistas trouxeram vários cultos estranhos e exóticos. Deuses e ritos advindos do oriente tinham encontrado um grande número de adeptos, e com as transformações políticas o próprio imperador passou a figurar ao lado dos deuses, e a ele, o povo devia reverências e honras como se um deus fosse.
       O caos religioso encaminhava lentamente o povo romano ao ateísmo, no entanto, o imperador Augusto reagiu contra tal situação restaurando as culturas nacionais segundo formas antigas, adquirindo assim, autoridade sobre a vida religiosa. Impôs ordens aos templos e selecionou com severidade os cultos e reverências aos deuses importados, resultando daí numa verdadeira revolução espiritual da população romana.
       Com a decadência do império e a influência cada vez maior de povos bárbaros, o mundo romano despedaçava-se em reinos independentes. Boa parte dos rituais religiosos que os romanos praticavam, foram levados à igreja católica, cujo chefe passou a ostentar o titulo de sumo pontífice com prerrogativas, da mesma forma que os imperadores romanos possuíam autoridade sobre a religião.
       Até então Roma vivia sob um regime teocrático, o rei era ao mesmo tempo o Papa, sobretudo, tendo o direito de regulamentar as relações entre os homens, não segundo as leis escritas, mas de acordo com as vontades dos deuses que somente a ele era comunicado durante cerimônias religiosas. A multiplicação dos problemas passou a contar com a formação de um clero tendo origem inteiramente aristocrática. Constituído de sacerdotes e conselheiros do soberano, também acrescentavam as vontades dos deuses com consultas aos textos secretos contidos nas doze tábuas, instrumento das leis que separavam os direitos civis dos direitos divinos, direitos que somente a eles era dado. Esta prática resultou mais tarde na transformação de alguns sacerdotes nos primeiros advogados, os quais fundaram as primeiras escolas de direito, que posteriormente, foram afastados do sacerdócio.
       A partir de então Roma deixava de ser uma teocracia, nos templos os sacerdotes oficiantes dos cultos passaram a se preocupar somente com as questões religiosas sem terem quaisquer influências nas decisões políticas.
       Não havia um aprendizado especial para o sacerdócio, como também não formavam uma casta separada, passaram a serem funcionários do estado formando um colegiado, tendo a frente o pontífice supremo que era eleito pela assembléia das centúrias. A importância do colegiado estava nos nove augures que tinham a tarefa de sondar as intenções dos deuses. Paramentados e ornamentados, os augures eram precedidos de quinze flâmines, que a principio consultavam o vôo das aves e mais tarde na observação das vísceras dos animais oferecidos em sacrifícios. Além dos augures, Sibila uma sacerdotisa de Febo também era consultada, assim como o oráculo de Delfos.
       Todos os rituais aos deuses eram precedidos de um sacrifício com execução meticulosa e, se caso houvesse um erro teria de ser repetida, em alguns casos por trinta vezes. As oferendas variavam de acordo com as possibilidades e aspirações do ofertante.
       Na função de Pontífice um pai de família fazia sua oferenda na sua própria casa que consistia de um pão, queijo e um copo de vinho, sacrificava um galo, um porco ou um carneiro; porém, quando era o Estado que celebrava o sacrifício, para tornar propício aos deuses, o foro da cerimônia se transformava num verdadeiro matadouro. Rebanhos inteiros eram sacrificados, e enquanto eram realizados os sacrifícios, sacerdotes pronunciavam fórmulas de precisão religiosa. Era de costume, como os deuses tivessem gostos requintados, sempre reservar o interior dos animais, especialmente o fígado, o restante era devorado pela população que, reunida, assistia a toda cerimônia, participando assim de um verdadeiro banquete. Todo o ritual era intercalado por momentos de orações. Os sacrifícios humanos, nos quais escravos e prisioneiros eram mortos, foi abolido no ano 97 AC.
       Existiam também as cerimônias de purificação que eram celebradas com requintes, as quais poderiam ser em favor a um rebanho, de um exército preste a lutar numa batalha ou ainda por uma cidade assolada por uma epidemia. Nas cerimônias, uma procissão, em sentido circular, dava início e, enquanto andavam, os carmins eram recitados em forma de hinos repletos de fórmulas mágicas feitas para obter algum favor dos deuses.
       O Estado romano era quem empresava os deuses nos templos, sem, no entanto, conseguir impor ordem. Júpiter, o deus mais importante do panteão romano, permanecia no vago como força impessoal se confundindo com o sol e a lua, e por vezes com o relâmpago, que em épocas remotas não foi mais que Juno a deusa das portas.
       Procissões constantes eram feitas pelas matronas, que com pés descalços caminhavam em direção ao templo de Júpiter para implorar chuvas nos períodos de estiagem; Marte era de igual hierarquia e possuía laços de família, já que era pai natural de Rômulo, o mitológico fundador de Roma; Saturno, o deus das sementeiras era descrito como um rei pré-histórico.
       Além de um quadrunvirato de deuses existiam também as deusas. Juno transformara-se na deusa da fertilidade e protetora dos campos, das árvores, dos animais e dos homens; Minerva protegia a sabedoria e a ciência; Vênus tinha suas ocupações com a beleza e o amor; Diana era a deusa da lua, da caça, dos bosques e estava também relacionada com a fartura. Um mito relata que desposou Virbio, o primeiro rei das florestas; Mercúrio o protetor do comércio estava relacionado com a comunicação; Belona a deusa da guerra estava relacionada com as conquistas.
       Além dos deuses oficiais existiam muitos outros. Era prática comum em qualquer Estado ou província conquistada, os soldados capturarem seus deuses e os levassem para Roma, pois, convencidos que estavam uma vez derrotados, os vencidos não tinham a quem recorrer e não poderiam tentar uma desforra.
       Existiam ainda os novenciles, deuses que eram trazidos por estrangeiros que decidiam mudar para Roma; esses deuses eram instalados em templos menores construídos por iniciativa particular e não recebiam objeções, tanto do Estado quanto dos sacerdotes dos deuses oficiais.
       Os romanos do período republicano coabitavam com uma infinidade de deuses, que em algumas cidades, ultrapassavam o número de habitantes. Muitos dos deuses passaram a ser considerados perigosos, pois, ao contrário de quase todas as religiões, a religião romana não considerava os deuses confinados aos céus, acreditavam que eles preferissem permanecer com os mortais, e para por ao abrigo de seus malefícios multiplicaram-se os colégios ou ordens religiosas.  Uma das ordens fundadas, a ordem das Vestais, adoradoras de Vesta, a deusa do fogo, era uma ordem feminina, na qual, após um prolongado recolhimento em castidade absoluta passavam a ter uma função, a de regar a terra com água recolhida de uma fonte consagrada à ninfa Egéria.
       Com tantos deuses no panteão romano surgia nas classes menos favorecidas uma esperança vinda da Palestina, que da mesma forma que ocorreu no Egito, o cristianismo trazia uma mensagem com o nascimento do Messias, um salvador que ia mudar todos os conceitos de crença e fé nos caminhos dos deuses romanos.

   Os caminhos de Jeovah.
      Primeiramente denominado Iahvé, Jahvé ou mais conhecido como Jeovah, este foi um deus que personificava o deserto e seus fenômenos, entre eles estavam as tempestades. Sua imagem insinuava algum tipo de animal, que por vezes parecia um leão e em outras ocasiões como um touro, detalhes que revelavam a existência de elementos totêmicos nas imagens dos deuses tribais.
      Jahvé, a figura central da religião Judaica possuía um culto primitivo desenvolvido pelas tribos Medianitas habitantes da península do Sinai, era considerado o espírito protetor nas cerimônias de iniciação. Isso ocorria quando os sacerdotes advertiam com clareza que Jahvé exigia com insistência dos israelitas e seus adoradores fossem circuncidados, porém, o que não era menos insistente as pretensões para que todos fossem consagrados; esse costume, vindo de épocas primitivas, impunha a todos os jovens a consagração ao espírito protetor daquele deus.
      Para o povo Judeu, Jahvé nunca tinha sido um deus comum, e para os Israelitas, no núcleo dos grupos tribais, somente em alguns era venerado, porém, a partir das dinastias dos reis judeus foi convertido em um deus nacional.
      Davi, o primeiro rei, séc. X AC, que pertencia a uma tribo judaica, considerou útil transformar o culto de Jahvé em culto nacional, desde então, Jahvé passou a ter adjetivos, e um deles, como o deus guerreiro que se fez notório na época das tribos nômades quando iniciaram uma ofensiva contra as tribos agrícolas de Canaã na Palestina; uma guerra que durou dois séculos e que durante este período levaram a destruição de outros povos daquelas terras. O caráter encarniçado das lutas refletiu no espírito da religião a qual estavam expostos os povos, não importando quem havia sido Jahvé, que representava, naquela época, um deus guerreiro nacional, pois, era ele quem guiava seu povo na luta contra todos os inimigos. Jahvé havia ordenado aniquilar sem piedade a população nativa da palestina e, a primeira cidade tomada de assalto foi Jericó que caiu destruída e todos os habitantes mortos. Outras se seguiram. Contra os Amorreus houve semelhante crueldade, em parte, pela resistência encontrada perante os exércitos Israelitas que não tinham compaixão.
      Com a conquista da Palestina teve como conseqüência a modificação na vida dos judeus em seu regime social, econômico e principalmente na religião, de nômades passaram a uma vida sedentária, o que promoveu o estabelecimento do poder dos reis que primeiramente vieram das tribos Benjaminitas da qual Saul pertencia. No entanto, a mesclagem com habitantes nativos das terras conquistadas, os judeus, por imitação, começaram a adorar os numerosos deuses locais. Denominados Baales, estes, considerados protetores comuns e urbanos tinham vindo da antiga Síria e da própria Palestina. Alguns desses Baales adquiriram maior notoriedade conquistando cada um, nome individual. Bettel, Shadai e outros possuíam significados que poderiam ser de um deus onipotente e benfeitor. Tais deuses receberam outras denominações e tornam-se divindades que eram veneradas em santuários ou em lugares consagrados.
      O rei Salomão foi quem edificou um templo para que Jahvé fosse cultuado, porém, o culto não havia sido ainda centralizado e os ritos de sacrifícios nos altares prosseguiram.
      Os judeus, seguindo os costumes das populações nativas, adaptaram várias festas religiosas vinculadas com a agricultura. O matzot, festa da primavera, se fundiu com a antiga páscoa, o Shebout, festa da colheita do trigo, o Succot, a festa que celebrava a coleta de frutos e muitas outras, todas elas antecipadas por rituais regidos pelos sacerdotes.
      Os cultos estavam nas mãos dos sacerdotes que pertenciam a grupos especiais seguindo uma hereditariedade pertencente aos Levitas, e juntamente com esses sacerdotes tradicionais atuavam desde o séc. VIII aC. estavam religiosos de tipos muito diferentes, eram denominados profetas, estes, foram os sacerdotes de práticas livres, ou seja: eram os adivinhos e vaticinadores que profetizavam quando de posse de um estado de frenesi diante de sons de instrumentos musicais, dançavam e se desnudavam. Notadamente utilizavam métodos xamãnicos.
      Após a morte do rei Salomão o Estado judeu foi dividido em duas partes, Isrrael e Judá, e os sacerdotes profetas, de certo modo, passaram a atuar como expoentes do descontentamento popular externando o restabelecimento do culto à Jahvé, o deus nacional censurando a veneração dos deuses dos Cananeus.
      A reforma religiosa se deu no ano 621 AC. por Josias, rei de Judá que centralizou o culto ao deus Jahvé baseado no Deuteronômio, escritos que regulamentavam com severidade a vida ritual dos povos Judeus, tratava-se também das leis sociais. Porém, o objetivo principal era o da veneração de um único deus, Jahvé. Josias o rei, ordenou que tirassem do templo de Jerusalém todos os objetos de culto pertencentes aos deuses, exceto os de Jahvé, suprimindo assim, todos os lugares de adoração e mandando matar todos os sacerdotes, xamãs e adivinhos que ali oficiavam; com essa atitude, restabeleceu os antigos festejos Judaicos da Páscoa.
      A centralização do culto ao deus Jahvé imposta pelo rei contou com o apoio dos sacerdotes dos templos de Jerusalém, o que reforçava o poder político, porém, tais medidas não conseguiram salvar o reino de Judá.
      No ano 597 AC. o rei da Babilônia invadiu Jerusalém e o templo considerado sagrado foi destruído. Famílias que pertenciam à nobreza e os sacerdotes foram aprisionados e mandados para o cativeiro babilônio, cativeiro que durou cinqüenta anos.
      Após o retorno do cativeiro na Babilônia, os judeus não mais possuíam um Estado independente, pois, mesmo voltando à Jerusalém continuavam sob o domínio dos Persas, estes conquistadores do império babilônico; no entanto, as classes sacerdotais voltaram a adquirir autoridade religiosa. Emancipados e protegidos pelo poder político, tanto dos reis persas quanto posteriormente dos gregos e sírios, apoiavam-se neles para afiançar seus domínios sobre os Judeus.
      Os sacerdotes não admitiam outro centro de culto que não fosse o templo reconstruído de Jerusalém, pois somente ali poderiam ser oferecidos os sacrifícios ao deus Jahvé.
      Nas mãos dos sacerdotes estavam concentrados todos os sacrifícios que os ofertantes traziam; no templo estavam as doações, os sacrifícios, as purificações propiciatórias e os agradecimentos, pois eram exigidos dos adoradores de Jahvé, como eram também exigidos ainda prestações pessoais em beneficio do templo. Sem competição, os sacerdotes estavam absolutos nos destinos religiosos de todo o povo.
      No desenrolar do regime hierocrático teve como resultado um monoteísmo acentuado e, o deus tribal Jahvé, Iahvé ou Jeováh, havia se transformado num deus único, criador e soberano do Mundo e dos destinos humanos.

  O Cristianismo.
       Em Jerusalém, a principal cidade da Palestina, uma população de aproximadamente cem mil viventes a habitava sem mesmo terem uma unidade racial ou religiosa. Tal população era diversa, mas com predominância dos "gentios" um povo pagão. Os judeus habitavam em sua maioria os campos onde tinham suas atividades de trabalho e fé através de suas rezas e jejuns, e esperando a chegada do salvador anunciado pelas profecias, o qual viria restabelecer sob a Terra o reino dos céus, promessa feita por Jahvé, o deus único dos primeiros cristãos.
      Sob um governo autônomo, mas com limitações que era concedido por Roma, o senedrim, um conselho composto por setenta e um membros anciãos e presidido por um grão sacerdote, o poder era exercido. Tal conselho possuía dois partidos, os conservadores e os nacionalistas, este pertencente aos saduceus que estavam mais preocupados com as coisas terrenas. A sociedade religiosa era dividida em grupos e, com uma minoria existiam os beatos, grupos pertencentes aos farizeus compostos por teólogos que passavam o tempo a interpretar textos sagrados; existiam os assenianos que pertenciam a um grupo formado por extremistas e conviviam num regime comunista, no qual, dividiam tudo em suas vidas; guardavam os sábados e, de tão radicais, até mesmo as necessidades mais prementes deixavam de ser feitas naquele dia. Outro grupo que se destacava eram os escribas que não chegaram a ter uma seita, representavam mais uma profissão, tirando dos textos sagrados preceitos que regiam suas vidas.
      A política, a literatura e a filosofia eram profundamente religiosas e os temas predominantes tinham sempre uma expectativa da vinda de um redentor, o qual viria para remir os homens dos males, que na época vinha de Roma; era também uma esperança compartilhada pelos pagãos.
      Dominada pelo poder romano, a Palestina tinha perdido a fé no seu destino como nação, porém, transpunham para o plano espiritual, pois presságios e oráculos já tinham anunciado a chegada de um salvador. O Messias não tardaria a chegar.
      Diante do domínio Romano, Jesus o Messias nascera, a data do seu nascimento, é incerta, podendo ser descrita em abril ou maio "Ab Urb Condita", um calendário da época, sendo que, a data de 25 de dezembro foi fixada oficialmente 354 anos após o acontecimento. Pouco se sabe da sua infância e juventude, pois a história narrada no novo testamento, afirma por vezes, uma versão poética dos acontecimentos, isso motivado pelas muitas traduções e transcrições.
      Sua aparição no cenário histórico religioso na verdade não se deu com facilidade; seu reconhecimento como o Messias foi a partir de adulto e após a prédica de João Batista e o episódio do batismo relatado nas escrituras do novo testamento. Jesus contava com vinte e nove anos quando iniciou as pregações em sinagogas, as quais se enchiam para ouvir suas palavras e, em sua volta, formava-se um círculo de seguidores e colaboradores. Antes, porém, apóstolos e discípulos o precediam, eram eles que preparavam as pessoas com ensinamentos cristãos, e os colaboradores, homens e mulheres, fiéis que seguiam Jesus conviviam fraternalmente em conjunto com determinadas regras.
      A princípio o Senedrin não se preocupou com o movimento cristão que passou a ser tolerado igualmente a outras religiões, pois as idéias apregoadas coincidiam em muito com as régulas, leis determinantes das posturas; no entanto, houve um momento que os membros daquela instituição, preocupados por motivos políticos, passaram a temê-los em razão ao crédito alcançado pelo Messias, apregoado que era o salvador e que vinha provocar uma sublevação contra Roma. Os cristãos foram denunciados como conspiradores e daí em diante começaram as perseguições.
      Denunciado por conspiração ao pré-cônsul Poncio Pilatos, através de sacerdotes de outras seitas, Jesus foi condenado à morte pelo ato da crucificação; após alguns dias, os discípulos

foram visitar o túmulo onde seu corpo foi colocado, porém, lá chegando nada encontraram. A notícia se espalhou com confirmações pela aparição de Jesus em alguns lugares e na presença de outros discípulos e apóstolos. Após três dias e três noites á sua crucificação, subiu aos céus, como predissera as tradições judaicas dos profetas Moisés, Elias e Lucas. A partir desse episódio, discípulos e apóstolos se espalharam por todo o mundo conhecido pregando e anunciando a ressurreição e todos os ensinamentos deixados pelo Messias.
      A obra missionária dos apóstolos e discípulos, a principio, se desenvolveu por toda a palestina e províncias vizinhas onde existiam colônias judaicas, isso porque, entre os apóstolos, ficou convencionado que o Messias não era o redentor de todos os povos, mas somente de todo o povo judeu; porém, após a missão do apóstolo Paulo em Antíqua e o sucesso alcançado diante dos gentios naquela cidade é que foi proposta a universalização do cristianismo.   
      Assim como o apóstolo Pedro foi para a organização do Cristianismo, o apóstolo Paulo foi para a ideologia. Paulo de Tarso era filho de um farizeu abonado de origem burguesa, possuía o título de cidadão romano e seguia os cursos de Gamaliel, o presidente do Senedrin, anteriormente tinha considerado os cristãos como heréticos. Um dia soube que os cristãos estavam a conquistar pela fé a cidade de Presépolis em Damasco e, com autorização do Senedrin partiu em defesa daquela cidade; porém, no curso da viagem foi ofuscado por um clarão e ouviu uma voz, a voz do Messias. Temeroso após este episódio e tendo permanecido cego por vários dias, aceitou o batismo se convertendo, tornando-se assim o mais hábil divulgador do cristianismo. Fez pregações por três anos na Arábia e voltou à Jerusalém, Pedro o perdoou por ter sido um perseguidor de cristãos no passado e recebeu a tarefa de ir para Antíqua a fim de dirigir o proselitismo entre os gregos. Escreveu as epistolas e mandou aos seus amigos de Corinto, Salônica e Éfeso, escritos estes que foram a base da teologia Cristã.
      Todos os apóstolos, até então, foram fiéis às leis de Moisés, freqüentavam os templos e não queriam romper com antigas tradições. Em Roma, para onde o apóstolo Paulo se dirigiu, houve desentendimentos com a colônia judaica a qual não queria se abster do ato da circuncisão e aceitar o batismo como ato suficiente para integrar-se ao cristianismo. Á Paulo preferiram Pedro que chegou a Roma tempos depois recebido pelos cristãos convertidos.
      De origem judaica, o cristianismo se voltou para um modelo de vida que refletisse os ensinamentos deixados por Jesus. A autoridade que era imposta às mulheres, que participavam das cerimônias e cultos, o faziam veladas por um véu, pois seus cabelos poderiam distrair os anjos; o sabbat, festa judaica era observada, celebravam-na com orações e a leitura de escritos sagrados; o regulamento era severo, sobretudo quando praticado pelos judeus.
      Em um dos primeiros ritos desenvolvido pelos cristãos, o sacerdote benzia o pão e o vinho que representavam o corpo e o sangue de Jesus. O aborto e o infanticídio não eram mais tolerados, assim como o divórcio e o homo-sexualismo. Porém, na medida em que os gentios eram convertidos os rigores do regulamento tornavam-se menos severos; o sabbat se transformava gradativamente numa festa mais alegre e divertida aos domingos que, consagrados ao dia do Senhor, os cristãos reunidos em torno do sacerdote ouviam a leitura de um trecho de escritos e a pronunciação de orações juntamente com um sermão. Era o início dos ritos missários que se desenvolveu em rituais mais completos. O batismo não se distinguia da confirmação que era praticado sobre adultos. Aos primeiros convertidos, que se estendia aos poucos às crianças, passaram a recebê-lo também. O casamento possuía somente validade civil e o sacerdote limitava-se a benzê-lo. Havia um cuidado especial quanto aos funerais, pois a partir do momento da morte, o corpo do fiel passava a pertencer à igreja e tudo deveria ser preparado para a sua ressurreição; o cadáver precisava de uma tumba e o sacerdote oficiava orações durante a inumação. Os túmulos eram construídos de conformidade com os costumes etruscos cavados nas longas galerias subterrâneas, e as catacumbas, utilizadas também como refúgio nas épocas de perseguições
romanas, quando não perseguidos eram tolerados e observados a distância, pois, politicamente isso era interessante. No entanto, o crescimento do cristianismo sob a liderança do apóstolo Pedro, aguçou as desconfianças do imperador Nero, ao qual sob ele pesavam suspeitas e impopularidade. Num ato de loucura, mandou atear fogo em toda a cidade de Roma e massacrar todos os cristãos para acabar com a nova seita que dominava quase toda a população.
      O regime violento, a escravidão nas províncias e os excessos desmedidos ocasionaram um sentimento de apatia, não só nos escravos, mas também entre a população livre.
      A formação do império romano deu intentos de criar também uma religião semelhante; tratou inutilmente de implantar um culto oficial em todo o império, que em vista dos cultos locais, o governo propôs instaurar de forma obrigatória e para todas as províncias o culto do imperador, o da deusa Roma, protetora da cidade e o deus Júpiter Capitolino, porém, tais cultos estatais não mais satisfaziam as grandes massas. 
       Denominada como idade da agonia, o período que marcou a queda do império romano, de 248 a 476, marcou também o nascimento do cristianismo católico que, apesar de anteriormente ter sido proibido e mais tarde tolerado, emergia de uma sociedade em crise cujo clima de incertezas promovidas pelo Estado romano, dissipava as alegrias pagãs ao mesmo tempo em que o povo tomava consciência das forças destrutivas que exerciam na sociedade; impotente para encontrar uma explicação racional voltou-se para o misticismo.
      O Cristianismo tornava-se irresistível, e foi sucintamente pelo prestigio do qual desfrutavam junto aos oprimidos que os imperadores reconheceram a nova religião; transcorria o ano de 313.
      Com o reconhecimento do Estado romano, bispos cristãos se espalharam pelas cidades conseguidas através de alguns privilégios concedidos pelo imperador Diocleciano. Mais tarde, no ano 380 cessaram por completo as perseguições que até então eram impostas, dando ao Cristianismo o status de religião oficial em todo o império romano.
      Naquela época a prática do cristianismo em Roma era desenvolvida nas catacumbas, refúgio subterrâneo com muitas galerias e salões nos quais eram feitos os sepultamentos das classes menos favorecidas e os escravos libertos. Os túmulos eram invioláveis, até mesmo os pagãos onde tais lugares serviam como reduto para os primeiros cristão, não só para venerar seus mortos como para reuniões religiosas.
      Localizadas fora do perímetro urbano eram constituídas de galerias, nas quais, as clarabóias permitiam uma parca iluminação e arejamento; em suas paredes que anteriormente eram pintadas com motivos mitológicos, passou a ter motivos religiosos alusivos ao cristianismo com narrativas do antigo e do novo testamento, tendo sempre em destaque a figura do redentor e da madona, sua mãe.
      As galerias deram origem aos cemitérios propriamente ditos que, além de neles serem sepultados os mortos de classes menores e escravos libertos, passaram a ser usadas para os sepultamentos de toda a casta religiosa.
      Com a oficialização da nova religião os compartimentos subterrâneos foram ampliados dando espaço aos bispos que oficiavam os cultos, nos quais nascia uma simbologia padronizada nos sermões e nas palavras cristãs. A fênix que renascia das próprias cinzas ilustrava a ressurreição, a pomba indicava a alma liberta da prisão corporal, a âncora dava um sinal de esperança, a palma, que nos monumentos pagãos aludia ao triunfo dos gladiadores, externava a vitória sobre as paixões terrenas. A figura do bom pastor ligava-se ao do pescador de almas estabelecendo uma relação com a água e o batismo, e logo depois o peixe tornou-se o símbolo do cristianismo.
      Posteriormente apareceram nas comunidades cristãs os primeiros funcionários permanentes, os diáconos, bispos, presbíteros e patriarcas que, com o desenvolvimento da igreja, foram figuras importantes na consolidação do episcopado.  
      Para os novos cristãos o respeito às novas divindades mantinha as esperanças numa ajuda superior, fosse de um imperador ou de um deus onipotente, e com o aumento da crença, aumentava também os temas e formas representativas.
      O cristianismo crescia na medida em que o império ocidental se diluía. A igreja posicionada como instituição contava com um sistema administrativo e hierárquico e se fixava em várias cidades, em alguns casos, tornaram-se metrópoles eclesiásticas. Surgiram assim os primeiros templos cristãos sob a forma de basílicas onde passou a ser o centro de reuniões de uma grande comunidade religiosa com objetivos de catequizar, que através de uma maneira simples  explicava ao povo a corte divina com a promessa aos fieis do ingresso na vida extraterrena cheia de felicidade.     
      Após contínuas invasões por povos bárbaros no séc. V, o império romano vê o seu fim, e no que restou existia apenas um fundo de primitivismo e a submissão às forças implacáveis da natureza, esta possuidora de um aspecto selvagem que demonstrava seu rigor em todas as situações, ou seja, as feras, doenças, pragas, incêndios e as guerras, seriam naturais que o mundo invisível domina-se e continua-se a reger a vida cotidiana, e a igreja tornou-se desta forma a mediadora entre os homens e o mundo sobrenatural.
      A igreja que até então se prestava a um caráter popular passa a assumir uma posição majestosa refletindo o poder das classes ricas ostentando concepções imperiais; tornaram-se verdadeiros Estados teocráticos onde, o imperador, era ao mesmo tempo o chefe temporal e espiritual; nas paredes das igrejas e ao lado dos motivos sacros estavam representados nos mosaicos e baixos relevos.
      No séc. VII com o crescente poder do monacato, que auferia rendas cada vez mais volumosas das doações do povo, atribuidos aos poderes milagrosos dos ícones, imagens de santos confeccionados nos mosteiros em estilo naturalista, ao contrário das rígidas imagens das igrejas, os monges foram perseguidos e o culto às imagens proibidas, pois o Estado considerava um ato supersticioso e pagão.
      Em nome da religião iniciou-se o movimento iconoclasta que determinava a destruição de todas as imagens, movimento que durou um século. No entanto, ao fim desse período e devido a popularidade das imagens, os partidários dos cultos aos ícones saíram vencedores. As imagens do Cristo crucificado e da Virgem Maria só iriam aparecer por volta do século seguinte quando o cristianismo teve que estabelecer o culto a uma divindade feminina, pois sem ela não havia como competir com o culto de Isis em Roma, iniciando ai o culto à mãe de Deus que até então era desconhecida.
      Com a pretensão de difundir a religião cristã nas províncias do oriente, uma revolta foi provocada aos persas que não permitiam a intromissão em suas crenças pela nova fé.
      No ano 630, os eslavos ocuparam a Síria, a Palestina e o Egito, alguns pontos da península Ibérica são reconquistados pelos imperadores Basílio I e Basílio II, e os territórios dominados se rendem. Porém, a Grécia, a Ásia Menor e Bizâncio não mais pertenceriam ao império romano, que com suas possessões passaram a constituir o império grego do Oriente, unido por uma única língua e uma só religião, a cristã. No entanto, os patriarcas e chefes eclesiásticos de Bizâncio não aceitaram a supremacia do Papa; motivados pelo aumento do poder progressivo por possuir grandes extensões de terras e súditos, como se um rei o fosse, além da liderança espiritual, se separaram, surgindo assim a igreja cristã ortodoxa.
      Com o intuito de aumentar suas propriedades, o papa Estevão II, agravando a situação usurpa as terras bizantinas na Itália culminando no Cisma Grego, é quando a igreja do Oriente separa-se definitivamente da igreja do Ocidente. Os bizantinos tiveram que lutar contra vários inimigos, entre os quais estavam os normandos e turcos. Bizâncio, sem muitos recursos pediu auxílio ao Ocidente, uma bela oportunidade para o Papa que, desejoso em restabelecer sua autoridade sobre o Oriente, enviou seus exércitos, as cruzadas, porém, o restabelecimento entre as duas igrejas não foi realizado.
      Por volta do ano 1000, o cristianismo imperava em todos os sentidos, porém, não impedia que uma parcela do povo conserva-se velhas tradições. Celebravam-se com o mesmo entusiasmo a encenação de festas pagãs dedicadas a outros deuses. Todos temiam o inferno, que durante muitos séculos tomaram conhecimento do apocalipse apregoando o final do mundo no término do primeiro milênio. O diabo estava sempre na espreita para impor castigos constantes, porém, se aquietaram, pois o desfecho seria feliz para os bons e àqueles subordinados a autoridade da igreja, e aos maus e infiéis seriam condenados, era o que difundia a igreja cristã romana.
      O mundo caminhava para a idade média quando os sarracenos chegaram ao mediterrâneo europeu arrasando todas as cidades que encontravam pela frente, cenas comuns no século VIII, pois o poder Árabe era indiscutível. Tais invasões destruíram o poder político de Roma e um novo caminho seria percorrido pelo povo na formação de uma nova cultura.
      Uma nova época surgia com a classe rural, na qual, em cada unidade, castelo ou mosteiro, o Senhor ou Abade representavam á justiça e a religião, castigando ou premiando por conta própria, pois o rei estava distante e tinha por vezes menos poderes que os senhores feudais.
      Quando a idade média chegou apenas uma organização mantinha a unidade, a igreja católica; com direito, hierarquia e base econômica mantinha toda a Europa unida e liderava os povos através da doutrina de Cristo e da ação de seus representantes. Notadamente foi uma época que os objetivos da igreja foram o de impor-se ao respeito e o acatamento de suas leis, não cabia discutir a verdade da fé, aceitava-se ou não. Àqueles que não aceitavam os rigores impostos pela igreja foram denominados infiéis tanto quanto os bárbaros que estavam sendo combatidos pelos reis nas guerras santas. Até o séc. XV todos os esforços empregados nas guerras contra os turcos mostraram-se inúteis.
      No inicio do séc. XVI em alguns países europeus surgiu um movimento orientado contra as exceções descaradas e as expressões eclesiásticas que, mantida pela cúria Papal em Roma, promoveu uma reforma; deu-se assim o inicio a um cristianismo paralelo, o protestantismo, que se separou definitivamente do catolicismo romano. O luteranismo que tinha os domínios na Alemanha e países escandinavos, o presbiterianismo na Escócia e o anglicanismo e a igreja episcopal na Inglaterra.
      Após a separação das igrejas dominantes a criação de seitas como: anabatistas, quáqueros, metodistas, batistas, menonitas e outras, tomaram rumos diferentes e, no que se referia aos cultos e crenças, seguiam as palavras deixadas por um deus encarnado em um homem, Jesus o nazareno, o Messias salvador.   
      Em 1453 reinou o último imperador cristão em Constantinopla, capital de Bizâncio que pertencia ainda ao império romano, foi quando Maomé II e suas tropas tomaram a cidade sendo dominada pelo poder muçulmano, porém, Roma continuaria a ser a capital mundial da fé cristã.
  
 Índia, uma profusão de deuses.
Os mais antigos registros informam que a origem das religiões da Índia tiveram origens das civilizações Moenjo-Daro e Arapa, civilizações complexas fundadas a partir de uma cultura voltada para a agricultura; contava também com grandes construções de pedra e possuíam elementos rudimentares da escrita, no entanto, não foi determinada a origem étnica e cultural, porém, o mais provável é que tenham pertencido a uma civilização pré-dravídica.
De concreto, foram encontradas inscrições sobre pedras nas quais aparecem figuras de animais, sendo com maior freqüência a de touros; outros animais também faziam parte de ilustrações, assim como, elefantes, tigres, rinocerontes e pequenas esculturas que aludiam a algum tipo de culto religioso.
As figuras humanas, masculina e feminina, representavam os deuses, porém, as figuras masculinas sempre apareciam com chifres e com três faces, que posteriormente passou a representar Shiva, o deus supremo. Por volta do ano 2000 AC. o território indiano foi invadido por tribos Árias e a religião se transformou.
Com conceitos metafísicos e fundamentados nos Vedas, documento religioso dos povos dominadores tornou-se a base fundamental de uma religião mística e filosófica que definiu a postura social do povo indiano.
A historia das religiões e dos deuses da Índia divide-se em três períodos: o Védico, o Brahmánico e o Hinduismo.
O período Védico recebeu este nome em virtude dos antigos registros sagrados – Vedas, que significa conhecimento e que serviu de ponto de partida para explicar a mitologia e a ciência de toda a religião hindu.
As escrituras Védicas, recopilação de diversas épocas, estão divididas em quatro livros principais denominados de Sanhitas.
O primeiro deles, o mais antigo, é o Rig-Veda o livro de hinos; o segundo é o Sava-Veda, o livro de orações, ritos e extratos de hinos, o Jad-jour Veda, o quarto livro que contém somente as especificações dos cultos, e o Atarva-Veda, o livro de cânticos e exorcismos. Durante séculos tudo era transmitido pela oralidade, ficando difícil precisar o núcleo inicial das estruturas que deram origem a tais escritos.
Os ários que invadiram o território indiano eram originários do Irã e não possuíam qualquer vinculo cultural com os habitantes das terras invadidas, nas quais habitavam povos pertencentes à civilização Moenjo-Daro, que avizinhada de uma civilização muito inferior, se reuniam em tribos seminômades possuindo um regime político social baseado no patriarcal tribal onde predominava uma aristocracia guerreira.
A religião dos ários na Índia era predominantemente politeísta, porém, o número de deuses sempre foi difícil precisar, pois, uma das mais antigas e primitivas imagens possuía a característica arcaica do deus Hindra, um deus da guerra que protegia o trono tribal e estava relacionado com os raios; ao mesmo tempo, existia o deus guerreiro Tritsa, que posteriormente foi convertido em uma divindade da natureza.
Hindra também era considerado o deus dos céus, do sol e da luz emitida pelo astro. Uma estória mítica conta que Hindra teve uma terrível luta contra Vitrit, um terrível monstro em forma de dragão que personificava o mundo e as nuvens ameaçadoras, e todos os deuses temiam-no, porém, somente Hindra teve coragem para lutar e vencê-lo.
Varuna, outro deus mitológico, era um deus do Céu noturno, das águas celestes e terrenas; os céus infinitos eram representados pelo deus Dyaus.
No panteão hindu havia uma conjunção de deuses; Parhayma representava Varuna e Indra que, quando estavam nesta conjunção personificavam as tormentas e enviavam as chuvas para fertilizar a terra.
Uma série de deuses personificava o sol. Suria era um deus vivificante e restaurador; Pushan representava o calor do sol e agia como protetor dos homens, e no mesmo grupo de deuses estava incluído Mitra, pois possuía características que, juntamente com Varuna, eram considerados defensores do povo.
Vishnu, até então, ocupava um modesto lugar, tanto no panteão quanto perante o povo, porém, mais tarde, foi convertido no deus mais importante na religião hindu.
Indra e Dudra, poderosos deuses se alinharam em um parentesco diante as tempestades e tormentas; Ashas, a deusa do amanhecer era uma das poucas deusas femininas. Os deuses gêmeos Ashivini eram os anunciadores do dia; Aditi personificava o espaço infinito que mais tarde passou a ser identificada como a mãe da Terra.  
Muitas outras divindades estavam vinculadas com práticas de cultos, porém, com funções unicamente intermediarias entre os seres humanos e os deuses propriamente ditos. Agni personificava o fogo e possuía característica meramente material; Soma era venerada nos cultos, que a principio era uma bebida usada nas cerimônias e oferecida aos deuses, mas, posteriormente passou a representar uma entidade mitológica, um deus que, como muitos outros, possuía uma personificação material.
Os deuses védicos se agrupavam em categorias um tanto quanto contraditórios e em parte hostis entre si.
Existiam também os raskas, assim denominados os espíritos malignos, e contra eles, Indra e outras divindades lutavam, pois os raskas personificavam na mitologia as tribos dos drávidas, inimigos dos ários.
Além de cultuarem os deuses os ários rendiam cultos também aos seus antepassados, os Pitri (pais), devido ao regime patriarcal que existia em todas as tribos.
Os sacrifícios ocupavam um lugar predominante nos cultos, pois era o meio principal de comunicação com os deuses; oferendas feitas em lugares apropriados era também uma forma de alimentá-los, pois, além de ter um sentido prático no momento da oferenda, eram levados em consideração pelos manifestantes do ritual como forma subjetiva quando do ato da entrega, não só suas preces como também suas oferendas. Tais figuras mitológicas não estavam claramente personificadas; denominadas brahmanaspata, o senhor das orações, adquiriu com o tempo uma maior importância convertendo-se assim em uma divindade.
As orações vinculadas com os sacrifícios tinham força obrigatória, pois os deuses poderiam se negar em receber as oferendas. Posteriormente, os rituais de oferenda e sacrifícios tiveram importantes derivações.
Apesar de o povo hindu ter possuído seus deuses mitológicos com determinadas funções, a idéia da existência de um mundo pós-morte era muito confusa, pois somente concebiam a existência da alma separada do corpo como religião, a preocupação maior era com o mundo terreno.
O aspecto mais importante da religião na Índia foi sem dúvida tudo que estava relacionado aos sacrifícios e oferendas aos deuses, deuses que representavam os fenômenos naturais. Em sua maioria, tais deuses eram personificações diferentes de um mesmo fenômeno, porém, alguns deles tinham sido a principio, divindades tribais com predomínio nas divindades masculinas que revelavam a existência do regime patriarcal.
Entre os vedas não existiam templos ou santuários, os sacrifícios e oferendas eram executados nas próprias casas ao ar livre ou em altares especiais; como não havia templos não havia também uma escola para formar sacerdotes, pois a religião relativamente simples refletia o regime tribal na etapa da transição para o período brahmánico.
No inicio do primeiro milênio AC. a vida social do povo na Índia se transformou, os ários tinham se fixado no vale do rio Indo e do rio Ganges fundando Estados despóticos e principados escravistas, nas margens dos grandes rios desenvolveram a agricultura que teve uma grande influência dravídica em relação a religião. No entanto, as contradições sociais entre os conquistadores e as populações conquistadas produziram guerras entre os principados, porém, os Estados de Mahadja se converteu em um núcleo unificante em toda a Índia.
Naquela época começou a formar-se o regime de castas e com elas a figura dos sacerdotes e quatro grandes castas clássicas foram formadas: os brahmanes, os kshatryias, os vaisyas e os sudras.
Ao norte da Índia onde ficava Mahadja estavam os brahmanes, sacerdotes que pertenciam a uma casta hereditária e eram os conhecedores dos rituais de sacrifícios; a casta dos kshatryias constava de guerreiros, desta provinham os príncipes e reis; os vaisyas compunham uma classe formada por agricultores, criadores e comerciantes, população livre formada na totalidade por tribos independentes. Os sudras compunham uma classe não possuidora de direitos, classe composta de escravos, servidores descendentes de povos subjugados pelos ários que eram respeitados como nobres.
O código estabelecido pelos brahmanes determinava que somente a eles toda a sociedade devesse obediência; os sacerdotes gozavam de privilégios e posição social, pois o Brahma – sacerdote, nasceu para conservar o tesouro de Dharma, (a lei sagrada) que ocupava o lugar mais importante na Terra como dono e senhor de suas criaturas, seres e tudo o mais. A crença generalizada era a de que tudo no mundo pertencia a Brahma e a missão principal e mais honrosa era a de estudar os vedas (livros sagrados) e transmitir os conhecimentos.
Os brahmanes conferiram um caráter divino ao regime de castas que era feito por um rodízio determinado pelo código Manú, pois segundo eles, foram criados pelos Deuses. Todos que pertenciam a uma das três castas árias deviam cumprir os ritos de consagração, o upanaiama; os brahmanes aos sete anos, os kshatriyas aos dez anos e os vaisyas aos onze anos, era quando recebiam um cordão após a consagração e que o levavam ao longo de toda a vida; cumprida a consagração se consideravam nascidos pela segunda vez; os sudras eram excluídos do culto.
 Brahma ao aparecer no cenário do panteão hindu foi adjudicado à personificação do regime de castas. Segundo o mito, da boca de Brahma surgiram os brahmanes, de suas mãos os kshatriyas, de suas escadeiras os vaisyas e de seus pés os sudras, por isso, esses deveriam ser escravos.
Na medida em que se elevava o papel principal dos sacerdotes, as práticas dos cultos se tornavam mais complexas refletindo no regime aristocrático, e o panteão dos antigos deuses se modificou; os que personificavam as forças da natureza cederam lugar a novas divindades, uma delas foi Brahma que se tornou em deus principal. O mundo indiano estava submetido aos brãhmanes e eles eram os deuses.
Outras divindades adquiriram naquela época significação especial, Shiva estava vinculado a Vishnu, o deus da tormenta; Rudra, um deus do período pré-ariano, passou a ter uma personificação védica do sol que, com seus raios, cumpria o papel de um novo deus.
Esquecidas, até então, as divindades que pertenciam aos ários passaram a compor, juntamente no panteão brahmánico, representações femininas advindas da religião védica e, cada divindade masculina, passou a ter sua consorte do sexo oposto. Vishnu correspondia á deusa Lakshmi; à Shiva, Parvati, que também a chamaram de Kali. Surgiram também inúmeros deuses novos que representavam outras divindades Védicas, estas, no entanto, foram tomadas de cultos nativos de antigas divindades protetoras das comunidades.
No período brahmánico passaram a ter um caráter aristocrático as cerimônias de oferendas, tornando-se assunto privado, e todos os rituais eram administrados somente pelo Brahma que fazia quando solicitado.
Com as transformações da religião foram construídas as stupas, assim denominados os templos; tinham suas coberturas em forma de cúpula, pois representava em seus interiores a abobada celeste, a qual possuía semelhança com o primeiro ovo, principio gerador. Em seus interiores, os altares e paredes, eram pintados com motivos religiosos que expressavam a proximidade dos homens com os deuses, detalhando por vezes uma convivência lado a lado com figuras mitológicas ou personagens comuns, ilustrando também cenas eróticas, cenas de festejos e cortejos, nos quais os deuses peregrinavam sobre carroças com grandes rodas. Na parte externa, os templos eram ladeados por grandes e altos muros que possuíam entradas defrontando-se com os quatro pontos cardeais.
Outros conceitos foram formulados, e a crença na transmigração da alma através da reencarnação fazia com que os crentes depositassem no interior dos templos objetos com significado místico, os stupa votivos, imagens que representavam os deuses, pois acima de tudo eram considerados mensageiros das nuvens.
As oferendas requeriam grandes gastos para os preparativos que somente estava ao alcance dos nobres, o povo em geral não tomava parte das cerimônias, pois não existiam os sacrifícios coletivos, os pobres careciam de meios para fazer de forma particular e os templos eram restritos aos nobres.
Os deuses pertenciam á castas mais nobres. Brahma passou a ser o deus supremo e pertencia aos brahmanes que, somente eles podiam dirigir suas preces; Indra, o antigo deus Védico foi conservado, sendo somente objeto de adoração dos kshatriyas; os vaisyas, povo agricultor, veneravam Rudra, que posteriormente se identificou com Shiva; os indros permaneceram distantes dos cultos oficiais.
Com o passar dos séculos a religião transformou-se em idolatria, e o amor divino adquiriu semelhanças com o amor humano passando a ter um caráter profundamente erótico; os templos, transformados em um aglomerado de estátuas passaram a transmitir, não só nas palavras sagradas, mas também reproduziam ao mesmo tempo gestos ritualísticos com uma profusão de símbolos. Na reprodução de Shiva, o Shiva Nataráia, o deus cria com múltiplos movimentos de seu corpo afeminado um espaço heterogêneo, expressando a criação do mundo e ao mesmo tempo a destruição através de um circulo de fogo.
Brahma, Vishnu e Shiva passam então a ser considerados os deuses mais importantes na religião hindu fazendo parte das estórias míticas que possuem encantamentos e coloridos da cultura milenar.
Numa das narrações mitológicas, conta que Vishnu tomou forma de um anão, uma criatura de pequena estatura; episódio em que o príncipe de Bali, cético que era, permitiu à criatura de pequena estatura em ter direitos sobre as terras as quais conseguisse com a largura de três passos. Foi quando Vishnu se transformou em um gigante, e com o primeiro passo percorreu toda a Terra, com o segundo passo cobriu todo o céu. Vishnu então se dirigiu ao príncipe exigindo o cumprimento da promessa feita; sem alternativa o nobre príncipe oferece sua cabeça em sacrifício.
Esta lenda está relacionada com a viagem continua do sol, cujos raios simbolizam os passos da divindade.
Brahma, considerado o deus criador, colocou o Universo em movimento, no entanto, decresceu de importância com a ascensão de Vishnu e Shiva que possui aspecto humano envolto em um manto branco montado em um ganso; possui quatro cabeças, das quais, nasceram os Vedas. Shiva é tido como o destruidor e rancoroso, apresentando-se de várias formas: um estremado asceta e matador de demônios, sua figura aparece envolta por serpentes e uma coroa de crânios na cabeça; dançando em um circulo de fogo representa ainda o símbolo masculino da fertilidade, e mais que outros deuses hindus possui uma mistura de cultos.
Parvat a esposa de Shiva, era a filha das montanhas do Himalaia e irmã do rio Ganges; Huma, a deusa dourada, reflete as manifestações mais brandas no panteão dos deuses hindus; Durja, uma deusa muito feroz possui dez braços, e nos contos mitológicos, diz ter nascido da boca flamejante de Brahma; Shiva, montada em um tigre faz uso das armas dos deuses para combater os demônios; Kali é a mesma Parvati transformada na mais terrível deusa do hinduismo, é implacável por sacrifícios sangrentos, suas vestes são cobras circulando seu corpo, e em seu pescoço carrega um colar feito com crânios; Mandi, o touro sagrado, para os hindus é tido como um símbolo da fertilidade, é montaria e companheiro inseparável de Shiva e, em alguns mitos, é considerado seu filho; Ganesh o deus que possui cabeça de elefante é considerado o mais popular e sábio de todos os deuses, é poderoso e bem versado nas escrituras, também é invocado pelos hindus antes de qualquer empreendimento para assegurar êxito; Vishnu é o deus conservador, considerado o deus universal, possui quatro símbolos, um disco, um búzio, uma maça e uma flor de lótus; Matísia é o peixe com chifres que representa a intercessão entre Vishnu e o dilúvio. Conta a lenda que esse deus avisou Manú e o salvou num barco preso ao seu chifre, este dito tem semelhanças aos de Noé relatada no velho testamento da bíblia. Cuma, uma gigantesca tartaruga tem também sua estória ligada ao dilúvio indiano, aparece logo após as águas terem baixado para procurar os tesouros que ficaram submersos; Varaa é o javali sagrado que pertencia a um culto primitivo, tornou-se um avatar, renascido de Vishnu depois do segundo dilúvio; Naragima, metade leão e metade homem também foi um avatar de Vishnu que renasceu para matar demônios; Rama foi herói de uma epopéia; Krishna o avatar mais importante; Hanumam o rei dos macacos; Geruda a ave mística.
Desde tempos imemoriais os hindus tiveram respeito aos animais; hindus, budistas e jáinas  tinham por princípios filosóficos um grande respeito aos animais, consideravam todas as formas de vida igualmente importante, julgando que todos os seres vivos eram encarnações e possuidores de uma energia vital, por isso, a mitologia hindu dotou seus deuses com atributos de animais.
Uma das espécies mais importantes e consideradas na cultura hindu é a vaca, no entanto, sagrado é o touro, pois, este é o símbolo que representa a procriação desde a antiguidade.
Segundo a mitologia hindu, outro animal considerado sagrado é o elefante; conta que num passado distante os elefantes possuíam asas e costumavam brincar nas nuvens. Um dia aconteceu que um grupo deles resolveu pousar nos galhos de uma árvore sob a qual estava um asceta falando aos seus discípulos. Com o peso dos grandes animais os galhos quebraram e todos caíram em cima dos discípulos matando vários deles. O santo asceta ficou furioso e pediu aos deuses que as asas dos elefantes fossem tiradas. Atendido seu pedido os elefantes, a partir de então, passaram a caminhar, mas, mesmo sem asas, continuam a brincar com as nuvens. Tais animais, dizem os hindus, possuem o poder de pedir às nuvens que tragam chuvas, e inda hoje os elefantes são venerados na Índia.
O hinduismo tornou-se uma ordem social e religiosa, influenciou a vida do povo em todas as atividades, no entanto, a religião consolidada pelos brahmanes foi substituída pelo jainismo que não se diferenciava muito das antigas práticas, até que o budismo, por ter arrebanhado muitos seguidores, transformou o destino religioso da Índia.
No século VI, o domínio da Índia pelo império Gupta restaurou o brahmanismo enfraquecendo o budismo que havia conquistado muitos adeptos; no entanto, com as variações de cultos, ampliaram-se as formas de representação dos deuses que passaram a revelar uma coexistência do abstrato místico com a sensualidade material. Esta oscilação entre, carne e espírito, contrabalançou os significados religiosos preservados por uma casta sacerdotal preocupada somente em construir uma vida de acesso às divindades.
A fusão de vários deuses e cultos produziu uma casta mitológica de divindades que, com o passar dos tempos características de muitos deuses se fundiram dando origem a uma única divindade.
Quando os deuses Hindus não podiam ser combinados, faziam apenas parte de uma família, porém, não deixavam de ter sua importância; nesta fase, eram tidos avatares, os quais possuíam somente as características daqueles deuses. Os diversos braços de uma divindade significavam as extensões de sua energia e os objetos nas mãos os símbolos de seus poderes. 

Os deuses orientais nos primeiros tempos.
      Num regime patriarcal-escravista a tribo Shan-Yin dominava a Ásia Oriental, época em que nascia o Estado primitivo e mantinha socialmente um relacionamento clânico com a religião que era baseada nas crenças totêmicas. Os sacerdotes, considerados profissionais, eram divididos nas diferentes classes de casta que os formavam. Existiam os Bu, que eram os adivinhos, os Shi, escribas, os Hu, feiticeiros, e os Shu, apregoadores e sacrificadores.
      As crenças e ritos religiosos refletiam na diferença e separação das classes. Imperadores e príncipes quando morriam eram sepultados com grande pompa e, juntamente com eles, eram colocados nos túmulos os corpos de escravos sacrificados.
      Num período seguinte, após a dominação pela tribo Shou, o Estado foi ampliado, tanto no espaço físico quanto no poder político; naquele período já estavam formados vários principados aristocráticos: Li, Lu, Sung, Hisao, entre outros não menos importantes, que lutando entre si desconheciam o poder do imperador Chou.
      Nos principados formados foi implantado um sistema burocrático independente da administração.
      Durante a dinastia Chou o pensamento filosófico foi a base fundamental para o desenvolvimento das doutrinas religiosas, que posteriormente, transformadas em religião oficial de toda a China, deu origem ao Confucionismo e ao Taoísmo. Mas, apesar de estarem voltados para conceitos filosóficos, os chineses davam grande importância a antigas crenças; os cultos aos antepassados eram manifestados por todas as famílias que possuíam capelas onde executavam rituais consagrados aos fundadores do clã. Os grupos mais extensos possuíam templos dedicados aos antepassados comuns a todos e, o encargo dos rituais, pregações e sacrifícios, eram feitos pelos mais velhos que faziam as oferendas nas tumbas.
      No local, segundo as lendas, primitivamente era colocado um boneco ou uma pequena estátua que representava o morto, mais tarde a figura do antepassado foi substituída por uma pequena tábua preta com inscrições denominada Shu. De uso comum a tábua era para instalar a alma do morto, o que para tanto, empregavam ritos específicos e invocações; desta forma, e após o sepultamento do corpo, acreditavam que o espírito ficasse no templo doméstico e lá permanecesse.
      Após a instalação do espírito vários ritos eram feitos durante anos, e a tábua que encerrava a alma do morto era instalada definitivamente no templo; a tábua era guardada em um pequeno cofre sobre uma mesa e só era retirada em datas especificas para eventuais ritos de oferenda.
      Ligados aos rituais estavam também os deuses e divindades. Shan-Ti era o deus supremo e imperador celeste, era também monopólio dos imperadores, pois somente eles podiam fazer oferendas ou sacrifícios. Outros deuses, no entanto, representavam as existências subjetivas. Além daqueles deuses protetores locais e divindades agrárias, eram também cultuado Tsai-Shen o deus da riqueza e preferido de todo o povo. O dragão e o tigre ocupavam um lugar de relevância nas crenças, e os numerosos espíritos, Lung-Shen, governavam as chuvas e as fontes. O dragão principal, Lung-Van, era igualado ao imperador que dirigia pessoalmente seu culto. O culto agrário era dedicado a Shen-Nung, o agricultor divino. Em pequenos templos os Thu-Ti, espíritos locais figuravam nos cultos e crenças e em cada cidade veneravam seu protetor; quando havia algum combate invocavam a Huang-Ti a deusa da guerra.
      Em tempos remotos os objetos de sacrifícios e oferendas eram reais, porém, para evitar grandes gastos as religiões estabeleceram posteriormente que um singular simbolismo era o suficiente para agradar aos deuses.
      De acordo com a mitologia e as teorias cosmogônicas, os deuses abstratos não possuíam cultos. Um desses deuses, Isanaghi, foi o criador e demiurgo do mundo que, ao agitar as águas dos mares com sua lança, fez de cada respingo as primeiras ilhas. Conta uma lenda que de seu olho esquerdo criou o sol. A deusa solar Ama-Terasu era uma divindade venerada e considerada antepassada dos imperadores, que ante todos estava o imperador Himmu-Tenno. Outros deuses surgiram; da lua, das tempestades, do vento, etc; o mito relata ainda que Isanaghi livrou Ama-Terasu da perseguição do deus das tormentas; Susa-no-vo que foi expulso do Céu e da Terra deixando os homens e seres no caminho da evolução.

   Buda, de príncipe a um deus.                                                             
    De uma era mítica de 3.000 AC. a religião chinesa é toda baseada no livro das mutações, nele estão contidos oito triagramas básicos que ainda nos dias de hoje são utilizados em oráculos pelos adivinhos para prever o futuro e indicar a conduta em determinadas circunstâncias.
      Segundo a mitologia chinesa Pan Ku foi o deus criador que após ter trabalhado 18.000 anos deixou o mundo em ordem. Conta uma lenda que enquanto trabalhava seu sopro transformava-se no vento e nas nuvens, sua voz no trovão, suas veias em rios, sua carne na terra, sua cabeça nas plantas, seus ossos nos metais, seu suor nas chuvas, e os piolhos do seu corpo, transformaram-se em seres humanos.
      Textos escritos há 600 anos AC. relatam que já existia uma religião primitiva predominante em toda a China e que constava de cinco livros sagrados. No entanto, confunde-se no tempo com o animismo, forma de religião que admitia a existência de um grande número de espíritos convivendo entre os seres vivos que num primeiro plano, figuravam os espíritos dos ancestrais; porém, o sionismo, outra forma de religião, admitia também a existência de espíritos, os quais eram considerados como seres que incluíam as águas, as montanhas, as florestas e tudo mais, existindo assim dentro do universo um princípio denominado Tao, que em cuja concepção se encontrava as noções de responsabilidade, de eficiência e ordem total, concepções traduzidas junto às realizações filosóficas.
      Os ensinamentos de KunTsu, Shaka (Confúcio) e Lao Tse, constituíram a base do confucionismo e do taoísmo, as duas principais religiões da China que não constam de nenhum apelativo de forças sobrenaturais, excluía toda e qualquer possibilidade de uma função metafísica; foi uma religião baseada exclusivamente na lógica e mantinha as atitudes eminentemente práticas em ralação ao cotidiano e menos mística, deixando de lado o medo dos demônios e espíritos malignos, amenizando também as relações com o mundo do além. Os mortos continuaram a ser enterrados com seus pertences, e os sacrifícios humanos foram substituídos por figuras simbólicas que, representadas em barro, tomou lugar do homem que seria sacrificado.
      Vestígios de algumas religiões de civilizações anteriores que utilizavam objetos em rituais, como adagas de pedra, vasos em bronze, símbolos, oráculos e máscaras, confirmam ter existido nas religiões primitivas da China a existência de rituais com profundos significados místicos.
      Lendas eram contadas sobre as histórias do rio Sanzu No Kawa que, de acordo com a tradição budista, as almas dos mortos deveriam cruzá-lo no sétimo dia após a morte. Este rio possuía três pontos de travessia com diferentes profundidades - rasa, funda, e muito funda - e todos deveriam atravessá-lo num desses três pontos de acordo com a proporção dos erros cometidos em vida; acreditava-se que havia diabos e demônios em suas margens que tiravam as roupas dos mortos e os dirigiam aos três caminhos - Jingoku, Gaki e Tikushi, caminhos relativos aos mais cruéis dos infernos. 
      Com o tempo surgiram outras correntes filosóficas e religiosas.  No ano 579 AC. o budismo foi instituído como religião oficial, o que ocasionou grandes transformações no pensamento do povo chinês. O espírito religioso que marcou tal época era manifestado através de santuários que continham estátuas e templos rupestres em lugares considerados sagrados. Com a influência do budismo as estátuas eram criadas para dar uma nova concepção religiosa passando a ser vistas como intermediárias entre o homem e a divindade.
      Levadas por comunidades imigrantes e monges catequistas a nova religião difundiu de  forma prática uma corrente denominada “grande veículo”, pois era mais adequada às necessidades da época. Uma das seitas mais divulgadas, a Dayana, denominada pelos chineses de Ch'an e que no Japão recebeu o nome de Zen, tinha no budismo outras formas, pois renovavam as relações do povo com o sobrenatural até então dominada pelo taoísmo, muito embora reverenciá-se a uma só entidade.
      O budismo possuía aspectos semelhantes ao cristianismo, dado ao fato da vida do lendário Gautama (Buda), que estabelecia a salvação, desde que seus passos fossem seguidos até atingir o Nirvana sagrado.
      As primeiras imagens representativas de Buda eram adaptações de Apolo, o deus grego,  o que diferenciava era somente um ponto marcado entre os olhos e uma proeminência na cabeça, símbolo da sabedoria. Em outras representações era acrescida de temas viris de cavaleiros, guerreiros e guardiões de túmulos, os Loka Pala, que eram possuidores de feições ferozes e um círculo de ferro representava a proteção do universo de Buda em suas encarnações.
      Como filosofia o budismo é baseado nos sutras, escritos que explicam a existência das vidas e como elas são integradas no mundo cósmico. O sutra de Lótus, pela sua descrição, visa iluminar todos os detalhes de todas as vidas, revelando uma filosofia completa das existências.
      Descrevendo claramente a sabedoria do budismo, todos os fenômenos estão contidos na mente e no corpo. No corpo estão os elementos das nove cadeias de montanhas e os oito mares entre elas, determinando assim que a vida de cada indivíduo possua o mesmo poder e a mesma sabedoria daquele que dá a vida nutrindo tudo que pertença ao Universo e contendo uma energia dinâmica suficiente para influenciar até mesmo o macrocosmo.
      Os ensinamentos do budismo, segundo o Sutra, revelam a forma de fazer fluir explicando a fonte da vida através de parábolas e descrições de acontecimentos.
      O Sutra de Lótus é dividido em duas partes contendo vinte e oito capítulos que são chamados de chacomon, são os ensinos teóricos; nos quatorze volumes restantes, torna-se o ensino essencial, denominado de Honmon. Nos primeiros capítulos, são expostas as possibilidades de alcançar o estado de Buda, o que significa alcançar a iluminação. No ensino essencial é onde estão descrições sobre a experiência em alcançar os objetivos como todos os Budas eram iluminados.
      A filosofia budista é definida pela sabedoria de todos os Budas que diz ser infinitamente profunda e imensurável.
      Levando-se em consideração dez fatores se apresentam através dos fenômenos que consistem em realidades, tais como: aparência, entidade, poder, influência, causa inerente, causa externa, efeito latente, efeito manifesto e consciência do princípio e do fim, os quais são fatores comuns a todos os estados da vida.
      Como em todas as religiões o budismo tem suas finalidades, a de tornar todas as pessoas iguais e merecedoras de benesses.
       Nas alegorias dos templos e estátuas dedicadas a Buda, as jóias representam o poder, a sabedoria, a felicidade e outras virtudes da vida. O ressurgimento pós-morte é uma exortação para a continuidade da prática em busca da iluminação. Para os praticantes, Buda tem vida eterna por ter atingido tal estado num passado remoto.
      Os objetos de adoração são encontrados nos cerimoniais, dos quais pode ser destacado o cerimonial do ar, pois nele, estão contidos todos os elementos verbais e simbólicos que representam a filosofia da religião.
      Para ilustrar a lei da causalidade o lótus é o símbolo, isto devido tal planta produzir flor e semente ao mesmo tempo, definindo assim a causa e efeito.
      Na prática o budismo consiste em orar ao gohonzon, pois através dela, dizem adquirir-se a sabedoria perfeita para compreender a vida e viver de maneira plena.
      Os poderes místicos de Buda estão refletidos nos adornos, jóias, e pedras preciosas que também representam sua realeza associada na crença dos deuses Arakans, Bodhisattvas e outros, como o sol, a lua e as estrelas, que recebem denominações de Ashura, Yaksha, Kishimojin e suas filhas. Tais deuses podem ser vistos como protetores ou terem funções universais, e qualquer que seja a descrição apresentam-se em formas pelas quais as circunstâncias das pessoas venham abraçar a lei mística, tais deuses trabalham em beneficio e proteção dos homens quando as orações são feitas com significados próprios.   
      Boten e Taishaku são considerados os principais deuses, assim como, Nittem o deus sol, Gaten o deus lua e Myojoten o deus das estrelas; dizem que Boten mora acima do monte Sumerú, de onde rege o mundo relacionado com as coisas mundanas; Taishaku, o deus do trovão, transformou-se num deus protetor do budismo, que com apoio de quatro reis celestes e onipotentes dirigem mais trinta e três deuses.
                     
        Desenvolvimento do budismo
      Das religiões consideradas universais o budismo é uma das mais antigas e, desde a sua criação, desempenha um papel de suma importância na historia do desenvolvimento humano.
       Mais difundido no oriente é análogo em muitos aspectos ao cristianismo e ao islamismo, porém, sua origem na realidade permanece ainda na obscuridade por não existirem fontes absolutas e fidedignas. No entanto, os primeiros registros escritos estão relacionados ao rei Asoka que viveu no ano 300 AC. correspondendo a uma época em que o budismo já era considerado uma religião contando com uma organização hierárquica possuindo dogmas e algumas tradições. Quanto a historia primitiva do budismo, anterior a época de Asoka, somente são conhecidos pelas posteriores tradiçõe cujas versões escritas pertencem a distintas épocas que, com o transcurso do tempo, formaram a vasta literatura búdica.
      De toda literatura a parte que apresenta mais interesse, tanto de pesquisa quanto religiosa, são as primeiras obras, os chamados Cânon Pali, livros escritos em idioma pali e guardados em sua maioria no Ceilão, datam dos últimos séculos AC.
      O Cânon Pali leva o nome de Tipitaca - sânscrito - e conta com três partes: Vinaia Pitaca ou Pritaca, um conjunto das antigas regras canônicas das comunidades búdicas; Sutra Pitaca, uma compilação das charlas e sentenças de Buda e Abidharma Pitaca que são as reflexões metafísicas. A literatura búdica posterior, em sânscrito chinês e tibetano, é muito mais ampla por possuírem valor e conteúdo histórico não menos importante.
      Nas primeiras lendas búdicas fala-se de Buda, o fundador da religião, um homem real que viveu por volta do séc. VI AC. ao norte da Índia onde predicou sua doutrina. As tradições posteriores falam de Buda como uma grande divindade e contam dos milagres que acompanharam seu nascimento terreno e sua vida, como também suas encarnações precedentes.
      De acordo com as primeiras tradições budistas descritos no Cânon Pali, o fundador da religião foi filho de um rei em um dos pequenos Estados do norte da Índia; procedia da família Shakya, de Kapilavastu e o chamavam Siddhartha, mas ficou mais conhecido pelo nome de Gautama. As tradições o mencionam geralmente com os honrosos epítetos genéricos de Shakyamuni, o ermitão da família Shakya, Tathagata, o sublime, o bem-aventurado, o perfeito.
      Conta a historia que seu pai, o rei Shuddhodana, cercou ao filho desde a infância com extraordinário luxo, excluindo-o cuidadosamente de tudo que pudesse entristecê-lo, nada ocorria ao seu redor de sombrio, penoso ou de ruim chegava ao príncipe. Não suspeitava que na vida existisse sofrimento, necessidades ou enfermidades, decrepitudes ou até mesmo a morte. Sem sair jamais dos limites do seu magnífico palácio, Siddhartha passava o tempo se divertindo com banquetes e festas, casou-se e teve um filho. Em sua mente impressionável, o choro do recém-nascido filho foi o primeiro contato com a dura realidade da vida, o que lhe afetou profundamente.
      Segundo relatos posteriores, ao sair afora dos muros do palácio foram quatro os encontros que impuseram a transformação espiritual do príncipe; seus olhos encontraram um débil ancião, logo após, um enfermo que sofria as atrocidades de uma doença e depois com um defunto a quem levavam para enterrar, e Sinddhartha supôs pela primeira vez que a enfermidade, a velhice e a morte eram o destino comum de todos os homens. Após algum tempo, finalmente se encontrou com um religioso pobre que havia renunciado ao luxo e os prazeres que lhe falou do ascetismo e da paz espiritual, Sinddhartaha resolveu seguir seu exemplo.
      Siddhartha abandonou secretamente seu palácio e sua família, renunciou riquezas e poder se fazendo asceta ermitão. Sete anos se passaram e Siddhartha, Gautama, como passou a ser conhecido desde então, vivia nos bosques. Flagelou-se e extenuou de diversas maneiras seu corpo, segundo os costumes dos fanáticos da fé naqueles tempos, diziam que era para alcançar a paz espiritual e conhecer a verdade; porém, nem o mais rigoroso mestre ou discípulo, nem os piores martírios proporcionaram a satisfação esperada ao jovem eremita. Compreendeu que não estava ali o verdadeiro caminho da salvação. E eis que, logo depois de longas e dolorosas reflexões, Gautama fala a verdade. Segundo a tradição, certa noite, meditando sentado abaixo de uma boldhi, a árvore do saber, e em profundos pensamentos, Gautama alcança inesperadamente a lucidez e revela-se toda a verdade, e desse momento converteu-se em Buda, o iluminado.
       Gautama legou a convicção de ambos os extremos, tanto a vida plena de satisfação como a de sofrimento voluntário, eram os caminhos corretos, estava convicto que para conhecer a verdade, a serenidade e a introspecção do espírito era necessário estar em equilíbrio.
      Descoberto o "caminho verdadeiro" Gautama começou a sua prédica; primeiro em Benarés, logo em seguida nos bosques de Uruvela onde havia muitos brahmanes eremitas, depois em Radzhagija, capital do Estado de Magadja, e não tardou para acercar-se dele admiradores e discípulos, cujo número crescia sem parar, alguns deles eram enviados para predicar em todos os confins da Índia, e juntamente com outros percorria o país difundindo sua doutrina.
      As viagens de predicação transcorreram por toda a vida posterior de Gautama, e segundo as tradições duraram quarenta anos.
      Fazia o fim de seus dias e tinha já discípulos em muitos lugares, principalmente em Magadja, Koshala e nos principados vizinhos do noroeste do país. Buda morreu depois de viajar muitos anos, seu corpo foi cremado por seus discípulos de acordo com os rituais hindus.
      Estas são as tradições acerca do começo do budismo e a diferença das lendas posteriores cheias de detalhes fantásticos, nada há de sobrenatural. Como é de se supor, estas lendas hão sido embelezadas de distintos e caprichosos detalhes literários, e seria um erro prestar-lhe demasiada confiança, porém, também é errado o extremo oposto em que caíam os partidários da escola mitológica. Negar totalmente a base histórica das lendas sobre Buda é ver em uma imagem puramente mitológica a de um deus solar. Somente o estudo atento das primeiras fontes búdicas permite compreender as condições históricas do surgimento do budismo.
      Um dos problemas menos claros é o cronológico. As tradições budistas diferem muito entre si quando determinam a época em que viveu Buda. Os budistas do sul da Índia indicam que foi em torno do século VI AC. os do norte dão outra versão, afirmam que foi por volta do séc. XXV aC. uma cifra fantástica não confiável. A tradição mais relativa, ou mais fidedigna, aponta para uma hipótese: o rei Asoka subiu ao trono, segundo cálculos búdicos, 118 anos depois do segundo concílio búdico, no qual, por sua vez aconteceu cem anos depois da morte de Gautama-Buda, e como a época em que reinou Asoka está determinada com bastante precisão por fontes gregas, 273 - 236 AC. ficou estabelecido de forma hipotética, certamente, também o ano da morte de Gautama-Buda ao redor do ano 490 AC; portanto, viveu na segunda metade do séc. VI a princípios do séc. V AC. e, por conseguinte, o fundador do budismo foi contemporâneo de Confúcio.
      O budismo nasceu em momentos de conturbação social, uma violenta luta de classes era incrementada nos principados do norte da Índia, particularmente em Magadja nos séc. VI e V AC. durante a dinastia de Seisunaga. As contradições de classes alcançaram extrema agudeza. A vida de luxo das castas superiores, ricos escravistas brahmanes, kshatriyas e príncipes, contrastavam com a pobreza dos escravos, dos camponeses das comunidades submetidas e de classes inferiores. A rivalidade e a luta pelo poder entre as castas superiores fizeram surgir dinastias guerreiras, estas oriundas dos Kshatriyas que eliminaram o poder da nobreza dos brahmanes. Foram todos estes fenômenos que engendraram uma crise na concepção tradicional do mundo.
      Começou a vacilar a fé na imutabilidade do regime de castas supostamente estabelecidas pelo Brahma em pessoa; tomou ampla difusão a vida eremita, o ascetismo e o monacato errante, manifestando assim a insatisfação pela ordem existente, inclusive por parte de muitos daqueles que pertenciam às castas superiores. Nesse ambiente surgiam doutrinas heréticas, seitas e até sistemas filosóficos ateístas. Uma das novas doutrinas que expôs seu descontentamento foi o budismo.
      O budismo em certo tempo foi mais um sistema filosófico e ético que religioso.
      Formam o fundamento da primeira concepção budista do mundo as chamadas "quatro verdades sublimes", em cujo descobrimento consistiu a iluminação de Gautama-Buda, e que este proclamou sua primeira prédica de Benarés. Estas quatro verdades são: a teoria do sofrimento, suas causas, a forma de evitá-las e o caminho que conduz a suprimi-lo.
      Segundo os ensinamentos de Buda a vida toda é um sofrimento, o nascimento, a velhice, as enfermidades, a união com um ser a quem não se quer a separação de um ser querido, enfim, todas as frustrações dos desejos não realizados, e suas causas, é o apego demasiado à vida; e este apego leva de renascimento em renascimento e, a supressão dos sofrimentos consiste em eliminar os desejos. Segundo ainda os ensinamentos de Buda, o homem deve reprimir qualquer aspiração à existência dos desejos e de todas as paixões.
      No entanto, Buda em suas prédicas ensina também como lograr os desejos que constam das quatro sublimes verdades e que fala dos oito caminhos os quais conduzem às supressões dos sofrimentos, que são: a fé verdadeira, a decisão verdadeira, as palavras verdadeiras, os atos verdadeiros, a forma de vida verdadeira, as aspirações verdadeiras, os pensamentos verdadeiros, e a contemplação verdadeira. Seguindo estes oito caminhos, o homem alcança finalmente a perfeição convertendo-se em um arhat (santo), daí submerge o nirvana, um estado último e ideal no qual, de acordo com a doutrina budista, deve aspirar ao sábio.
      E o que é nirvana? Este conceito ocupa talvez o lugar central de toda a filosofia budista, pois não recebeu ainda uma definição precisa, e na literatura encontram-se distintos conceitos. Segundo alguns, a opinião é de uma inexistência total, a outros, no entanto, é somente a supressão da existência acessível ao conhecimento. Da mesma maneira, uns consideram que o nirvana é acessível na vida do homem; outros afirmam que só pode ser alcançada depois da morte do corpo. Porém, de qualquer maneira, o nirvana indica a supressão da cadeia de transmigração que, segundo as concepções hindus tradicionais, e adotadas também pelos budistas, forma o destino de todo ser vivente.
      Esta eterna cadeia de transmigração se chama, entre os budistas, sansara, sankara, o que leva inexoravelmente todo ser vivo de uma encarnação a outra.
      A morte não livra o homem dos sofrimentos da existência, pois esta segue uma nova encarnação. Somente poderá livrar-se deste circulo doloroso quem, através de uma série de reencarnações, for levado ao estado de arhat, estado do conhecimento da verdade. São nas reencarnações, como afirmam também os brahmanistas, que o ser vivo pode tomar forma humana ou também qualquer outra forma animal, ou ainda como um vegetal, espírito do mau ou como divindade. Porém, a forma superior de reencarnação, afirmam eles, que nascem como humanos, pois unicamente neste último estado é possível alcançar o nirvana. O próprio Buda, segundo crêem os budistas, antes de nascer como Gautama Shakyamuni, passou por uma longa série de reencarnações e viveu sobre a terra abaixo da forma de homens de várias classes, e no “Céu” personificou a muitas divindades, inclusive mesmo a Brahma. No entanto, foi o primeiro homem a alcançar a iluminação. A morte de Buda foi um passo direto ao nirvana. Por isso os crentes não falam da morte do fundador da religião, falam de um passo para o nirvana.
      O budismo primitivo considerava que o único meio para chegar ao estado de arhat era por intermédio do nirvana, um esforço consciente dos homens ao percorrer os oito caminhos. Nada pode salvar o homem, livrá-lo do doloroso sankara e levá-lo ao nirvana, tampouco esperar tudo dos deuses. Buda não negava a existência dos deuses, porém, estes não podem livrar os homens dos sofrimentos da vida, pois eles mesmos não estão livres desses sofrimentos, já que também são subordinados a mesma lei de fluência interminável do sankara. Por isso, o Buda, o homem que alcançou a iluminação está acima dos deuses. No entanto, tampouco salva os homens, não os livra de seus sofrimentos do sankara, não os conduz ao nirvana, ele somente lhes anunciou a verdade, indicou o caminho correto por onde deve ir cada um por seus próprios meios.
      Dizia Shakyamuni, Buda, em sua primeira prédica em Benerés: "A libertação da morte há sido falada; aos monges, eu os instruirei e revelarei minha doutrina, se seguirem meus preceitos de pronto alcançareis a santa aspiração, e nesta vida conhecereis a verdade, podereis vê-la cara a cara".
      O budismo dos primeiros tempos foi, por conseguinte, o acento no aspecto moral nas normas de conduta do homem. Mediante a reflexão e a meditação o homem pode alcançar a verdade, andar pelo caminho correto da salvação e, observando os preceitos da sagrada doutrina alcançar a perfeição.
      Os preceitos morais do budismo dos primeiros tempos tinham no fundamental um caráter negativo; eram uma enumeração das formas de conduta das que deviam abster-se os discípulos de Buda. Os preceitos elementares, mas obrigatórios a todos, se reduziam a cinco: não matar nenhum ser vivente, não tomar propriedade alheia, não tocar na esposa alheia, não mentir, não beber vinho. Porém, para aqueles que tratam de alcançar a perfeição, estas cinco proibições desenvolveram um sistema de prescrições muito mais severas; a proibição de matar levava ao extremo de que não se devia dar a morte nem aos insetos mais minúsculos ou incômodos que fossem mesmo involuntariamente. A proibição de violar a fidelidade conjugal se ampliava até extinguir a total castidade, e a proibição de tomar propriedade alheia era refeita pela exigência de renunciar a toda propriedade em geral. Não era somente proibitiva a embriaguez, como também era prescrita uma severa moderação na comida, o que aproximava dos preceitos cruéis dos brahmanes ascetas que, com freqüência, se submetiam a algum tipo de tortura. Igualmente eram prescritos abandonos a todas as classes de comodidade, gostos e luxos da vida terrena. Eram nas palavras os cumprimentos das prescrições morais do budismo que significava levar uma vida apartada do mundo numa vida monástica e eremítica.
      Um dos preceitos importantes do budismo, ainda nos dias atuais é o amor e a caridade, que deve ser feito a todos os seres viventes sem haver distinção entre eles, deve ser mostrada a mesma boa vontade tanto aos maus quanto aos bons, tanto aos homens quanto aos animais. Um afeto especial e preferencial a qualquer pessoa é terminantemente condenável. Por outro lado, o amor búdico pelos seres viventes não é um amor ativo e diligente, é mais bem uma atitude benevolente passiva de perdão das ofensas e de indiferença a respeito do mal. O discípulo de Buda em nenhum caso deve pagar o mal com o mal.
      A fase cognoscitiva da primitiva filosofia budista estava relegada a um plano posterior com respeito à filosofia ética, era muito nebulosa; mesmo Buda não concebia muita significação aos problemas puramente metafísicos, considerava de primordial importância à prédica do caminho moral na vida. Em um relato sobre as prédicas de Buda se faz uma comparação gráfica: um punhado de folhas apertadas na mão é menor que toda a quantidade de folhas no bosque, da mesma forma, parte da verdade revelada por Buda aos seus discípulos é menor que a verdade conhecida por ele mesmo, a qual, não considerou necessário revelar aos homens por ser, para estes, inútil.
      A doutrina religiosa do budismo primitivo, chamada por vezes de a religião sem deus, ou religião atéia, não é de todo verdade; Buda não negava a existência dos deuses brahmánicos, considerava-os importantes para ajudar aos homens. O homem pode salvar-se dos sofrimentos da existência somente por seus próprios esforços. A primeira vista esta doutrina contém um chamado: a por de manifesto a vontade individual de cada ser humano.
      As severidades das prescrições morais, práticas do budismo primitivo, exigiam de seus discípulos a observância de uma forma de vida monástica. Na realidade, as primeiras comunidades búdicas, as sangha, eram irmandades de monges, os biksha, e monjas as bikshuni, mendicantes. Nestas comunidades eram aceitas pessoas de várias classes, excluía-se, no entanto, os escravos, soldados e criminosos e, não podiam ser integrados àqueles contra a vontade dos pais. O regulamento monástico era severo e os membros da comunidade não podiam possuir propriedade alguma, não podiam usar roupas de cor amarela, pois, na Índia esta cor era atribuída às classes inferiores e impuras; viviam das esmolas, comiam uma vez por dia antes do por do sol, levavam uma vida de celibato, porém, nem todos os discípulos de Buda podiam ou não estavam dispostos em se abstrair de tais privações, a maioria deles preferia viver uma vida mundana. Estes partidários do budismo, os upasakas, eram somente admiradores, só deviam observar as cinco proibições mínimas e, ademais, fazer sacrifícios em favor da comunidade monástica. O budismo permitia a existência de tais discípulos mundanos pelo fato de que eles eram indispensáveis para a comunidade, por quanto, de outra maneira, estas não teriam como sobreviver já que os monges não trabalhavam e obtinham seus sustentos das esmolas.
      A prédica da nova religião teve amplo êxito na Índia, isso porque respondia às necessidades e esperanças das diversas classes sociais. Para as classes urbanas, os kshatriyas, o budismo era uma arma de luta contra a aristocracia brahmánica e seus privilégios. Para as massas populares oprimidas, que não viam saída da pobreza e dos infortúnios, a doutrina budista lhes indicava um caminho de libertação. Por outro lado, a religião brahmánica não apresentava nem isso, pois os orgulhosos brahmanes depreciavam o povo. Por outra parte, os membros das classes inferiores, privadas de direitos, ao ingressarem na comunidade monástica budista adquiriam algumas prerrogativas humanas e eram considerados todos iguais. Por conseguinte, a prédica budista se dirigia ao povo que era geralmente ignorado pelo brahmanismo, ademais, a doutrina budista, não exigia sacrifícios de muito gasto nem rituais complexos. Há de se agregar ainda, que Gautama-Buda e seus discípulos, predicavam ao povo em linguagem clara, compreensível e não no arcaico idioma dos antigos hinos védicos.
      A ampla difusão da doutrina budista contribuiu também para a boa organização das comunidades monásticas, nelas, reinava uma severa disciplina e obediência aos superiores.
      Os brahmanes se opunham desesperadamente na difusão da nova fé, porém, tornavam-se impotentes porque tinham pouca influência sobre as massas populares, mas, gradualmente foram encontradas novas armas de luta, que passou por sua vez, a ofensiva contra o budismo. Tal investida não teve duração, pois, o budismo transformava sua doutrina convertendo assim em sua antítese.
      No séc. III AC. a doutrina budista se converteu em religião dominante no estado de Magadja que ocupava a maior parte da Índia, Estado que possuía uma grande influência dos brahmanes e que se viu debilitada pela política das dinastias Ksha Triyas. Em particular, os reis da dinastia Mauria, procedentes das classes inferiores que dirigiram o estado depois da expulsão dos conquistadores grecomacedônios no ano 324 AC foram protetores do budismo, não podiam e não queriam apoiar-se na aristocracia brahmánica, em troca, as comunidades budistas, que não reconheciam diferenças de classes, podiam servir de apoio mais eficaz para os reis Mauria, isto, devido a grande influência exercida sobre o povo, outra das vantagens que representava o Budismo para o grande estado centralizado nesta dinastia, além de não ter vinculado com cultos tribais ou locais. As comunidades búdicas estavam organizadas sobre a base de uma severa disciplina e subordinada a uma direção única; sua prédica de não oposição ao mal, por fim, ajudava aos governantes a refrear o povo.
       Asoka, terceiro rei da dinastia Mauria, depois de perseguir por um breve tempo aos budistas, modificou sua atitude e declarou o budismo como religião estatal. Nos registros feitos pelo rei estão dados fidedignos acerca desta religião. Durante seu reinado começaram a surgir monastérios budistas; naquele período foram construídas as stupas, depósitos para as diversas relíquias sagradas. Numa dimensão maior e estendida por toda a Índia o budismo ultrapassou as fronteiras conquistando adeptos no Ceilão, na Indochina e Indonésia. A conquista do budismo nestes paises se deu ao mesmo tempo em que a Índia expandia seu comércio.
      Nos séculos I e II, entre os anos 78 e 123 DC. o budismo se estendeu amplamente ao norte da Ásia Central conquistando também adeptos na China. No entanto, a expansão do budismo fora da Índia e sua transformação em religião dominante, produziram modificações nos conteúdos da doutrina; essas modificações foram em parte espontâneas, e em parte, introduzidas por resoluções de concílios. Os primeiros concílios budistas são conhecidos somente através das lendas; o primeiro a ser realizado foi logo após a morte de Gautama-Buda, e o segundo, cem anos mais tarde, outros se seguiram.
      A religião budista, a partir de então, se enveredou por duas direções: por um lado, nos círculos intelectuais encontravam-se os chefes das comunidades monásticas, onde se desenvolveu o complexo mundo metafísico búdico; por outro, na medida em que se difundia entre as massas, em particular fora da Índia, a doutrina budista foi se adaptando às tradições locais e nas crenças dos vários povos e paises. Ambos os processos, mesmo aparentes entre si, influíram um sobre o outro.
      No segundo concilio, cem anos após a morte de Buda houve varias dissidência motivada por discordâncias sobre a severidade nas observaçõe de regulamentos e a comunidade budista dividiu-se em duas correntes formando assim seitas independentes. Logo começaram a surgir outras seitas que desenvolveram a metafísica do budismo com diversas orientações, eram discutidas as realidades do mundo visível e sobre tudo que poderia ser conhecido, no que resultou em mais de trinta seitas.
      O cisma mais profundo que ocorreu foi quando o budismo se dividiu em duas correntes: a jinayana, que significa caminho pequeno, ou caminho estreito, e mahayana, caminho grande. Segundo a historia esta divisão ocorreu durante o quarto concilio. Os partidários de jinayana pediam a observância estrita dos regulamentos e dos dogmas do budismo primitivo; por outro lado, estavam os partidários do mahayana, que se apartavam em muitos aspectos da doutrina de Shakiamuni-Buda.
      A doutrina mahayana teve como fundador o teólogo budista Nagardzhuna, que viveu no séc. I. Nascido ao sul da Índia e procedente da sociedade brahmánica, trazia consigo inovações substanciais a respeito do budismo primitivo. Era uma grande concessão ao brahmanismo e refletia dos brahmanes que adotavam o budismo como nova religião, conservando, no entanto, grande parte da antiga concepção do Mundo.
       Os mahayanistas se baseavam na fundamental idéia da religião budista que cada pessoa pode alcançar o nirvana somente por seus esforços pessoais, impondo ao homem comum uma carga superior a suas forças. Este estreito caminho é acessível somente a poucos, a grande maioria do povo queria em troca um caminho mais fácil e mais amplo. A religião sem deus ou deuses era inacessível para a massa popular, porém, necessitavam deles. Gauthama-Buda se transforma para os mahayanistas, de mestre da sabedoria em um deus, e seu culto adquiriu pouco a pouco um grande desenvolvimento. Em sua honra começaram a erguer, primeiro as estupas, construções sobre supostos despojos mortais, e logo após, verdadeiros templos onde conservavam imagens de Buda, que por vezes alcançavam proporções gigantescas. Surgiu então, a idéia de que Buda era um só entre tantos outros. Entre estes, eram incluídos também os deuses brahmánicos, e por último, deuses de outros países onde o budismo foi difundido. O panteão aos poucos foi complementado com os arhates, denominação dada aos "santos”.
      Nos monastérios do norte estavam as imagens dos mil Budas, uns mais venerados que outros, no entanto, os mais conhecidos eram o de Buda Shakyamuni, fundador da religião; Buda Maitreia, que representa o futuro de Gauthama; Buda Ochirvani (Vachzhrapani) o último dos mil Budas; Buda Manzushiri, o sábio; Adi Buda, o criador do Mundo; Buda Amitabha, o senhor mítico do paraíso e outros.
      Além das imagens dos Budas, o budismo mahayániko converteu em objeto de adoração os bodhisattvas, seres que alcançaram a perfeição mediante a superação das vicissitudes da vida e merecedores de passar ao nirvana, estes, tornaram-se Budas em potencial.
      Outra inovação introduzida pelos mahayanistas era a admissão dos leigos no nirvana; Nagardzhuna foi o primeiro que começou a ensinar que o nirvana era também acessível aos leigos e não privativo dos monges.
      No entanto, estas concessões tiveram pouca valia; o ideal do nirvana, atrativo para os filósofos sutis e os intelectuais incrédulos era pouco compreensível para as massas, a estas, havia que atrair com algo mais sedutor; foi então que surgiu a mahayánika, doutrina acerca do paraíso totalmente inexistente no budismo primitivo, mas que passou a ser descrito como um lugar chamado Sukavati. Ali, em meio a jardins esplendorosos, onde abundavam todas as classes de bens e governados pelo místico Buda Amitabha estão as almas dos justos, as quais só reencarnariam mais uma única vez antes de alcançar o nirvana.
      Juntamente com o paraíso o inferno búdico semelhante ao dos cristãos, foi criado para intimidar os crentes; ilustrações em quadros mostravam os tormentos que sofriam àqueles que violavam as leis e preceitos de Buda.
      A doutrina mahayánika possuía muito pouco da doutrina do budismo primitivo como sistema filosófico-ético, em troca, nesta forma mais elástica, o budismo conquistou amplamente outros paises.
      A difusão do budismo acompanhou a par, com a influência da cultura e da expansão comercial indiana que, após as conquistas religiosas no Ceilão, predicadores levaram a doutrina à Birmânia e Sião, antes do séc. V e logo depois às ilhas da Indonésia, onde o budismo e o brahmanismo mantiveram-se até o séc. XIV quando foi cedendo seu lugar ao Islamismo. Naquela região, o budismo só foi conservado na ilha de Bali. Em todos os paises mencionados, o budismo se difundia pela sua antiga forma jinayanista.
      Na China a doutrina jainista chegou ao século I dC, porém não se manteve, sendo substituído pelo Budismo mahayaniko que encontrou terreno propício compartilhando sua influência com as religiões locais, o confucionismo e o taoísmo. Desde a China, o budismo conquistou, no século IV, a Coréia, estendendo-se ao Japão quando chegou ao século VI conservando todas as tradições até os dias de hoje, porém, com relações muito próximas com o Shintoismo, a religião local.
      No Nepal, país limítrofe com a Índia, o budismo chegou durante o reinado de Asoka, e só mais tarde tomou forma de budismo tibetano, porém, a partir do séc. XVIII começaram a desprezar a doutrina búdica dando lugar à religião dos conquistadores gurkas, que eram Induistas-Sivaístas.
      O Tibet foi o país onde o budismo alcançou um florescimento mais faustoso quando foi levado no século VII por motivos puramente políticos. O país encontrava-se num regime social de classes, e o unificador, príncipe Srontziangobo, tinha a necessidade de consolidar ideologicamente o regime, por esse motivo, o príncipe manteve relações com os países vizinhos, Nepal e China. Do Nepal foram adotadas as escrituras da religião budista, e segundo uma lenda, o príncipe Srotziangobo foi encarnação de Bodhsattva Avalokitesvara.
      O budismo conquistou o Tibet, primeiramente na forma de jinayana, que durante muito tempo permaneceu sendo estranho para o povo, o qual continuou apegado aos seus antigos cultos clânicos shamãnicos. No entanto, desde o século IX começou a difundir-se entre o povo a forma mahayánika, tendo como predicador Padma-Sambhava, que juntamente com seus partidários praticava ritos mágicos, conjurava aos espíritos e se dedicava a adivinhações. Estes missionários, com apoio do Estado, completaram o panteão budista com numerosas divindades locais anunciando o paraíso, Sukavati, para os justos e o terrível inferno para os pecadores, o que facilitou sua aceitação entre as massas populares. Sem nenhum embargo também era forte no Tibet o partido antibudista, que se apoiava na velha aristocracia familiar clânica. No princípio do séc. X, durante o reinado de Landarma, os budistas foram perseguidos, no entanto, tramaram uma conjuração e deram morte a Langdarma no ano de 952. Posteriormente, a crença budista representa-o como um terrível pecador e herege, e assim, o budismo saia vencedor. Porém, a vitória completa só obteve êxito no Tibet no séc. XI, quando se consolidou uma nova corrente, o tantrismo.
      O próprio Sambhava era considerado o fundador do tantrismo, no entanto, Dzhu Aadisha procedente da Índia e levado ao Tibet em meados do séc. IX foi o seu representante mais destacado. Baseado no sistema tantra, doutrina mística na qual quase nada possuía do budismo primitivo, o tantrismo colocava por sobre todas as coisas a Adiduba, ser superior sem começo e sem fim. Para os adeptos, os Budas se dividiam em geral em três categorias: humanos, contemplativos e amórficos, que concediam muita atenção à contemplação e aos encantamentos mágicos. Os darani, cujos conhecimentos facilitavam e acelerava a reencarnação logrando os caminhos para alcançar o nirvana que, em vez da longa cadeia de reencarnações, o homem podia chegar ao nirvana por meio de um breve encantamento, o darani secreto; desta maneira, o fundamental não era o esforço individual como no budismo primitivo, e sim nas práticas mágicas dos sábios conhecedores dos tantras; assim, o budismo de sistema filosófico degenerou e se tornou em simples bruxaria.
      Nos séc. XI e XII, o Tibet foi coberto por uma rede de monastérios, nos quais viviam multidões de monges, lamas em tibetano, derivando daí o lamaismo, budismo tibetano mongólico. Os conquistadores mongóis, em especial os kublai, deram todo apoio ao budismo. O lama Pagba, superior do monastério mais influente, governava em nome do imperador, porém, a dinastia Ming da China, sem desejar apoiar o budismo no Tibet, aplicava a política de fracionar o país a fim de debilitá-lo, não desejando que alguns monastérios se fortalecessem em detrimento de outros. Evidentemente, como reação contra essa política, surgiu entre os budistas do Tibet uma nova corrente unificadora encabeçada pelo reformador Tzonkava do monastério Gumbum. Tzonkava tratou de regenerar a antiga moral budista e a severidade dos costumes implantando uma rigorosa disciplina entre os monges, seus partidários. Além de restabelecer alguns hábitos, consolidou novas formas de culto, os solenes ofícios divinos, as faustosas cerimônias e festejos religiosos com utilização de instrumentos musicais.
      No entanto, a principal reforma consistia no estabelecimento de uma hierarquia severa na organização eclesiástica budista, e todo o poder sobre ela foi concentrado sobre duas hierarquias: Panchen Rinboshe, o Panchen Lama e Guialpo Rimboche, mais tarde denominado Dalai Lama, ambos foram declarados encarnações das divindades budistas mais veneradas: Panchem Lama, encarnação de Buda-Amitabha, e Dalai Dama, de Bodhiattva Avlokitesvara – Jonshim Bodsattvas.
      Em geral, algumas seitas adquiriram grande importância na fé dos reencarnados, os Jubilganes, personificações viventes das divindades, cada mosteiro tinha seus reencarnados, deuses viventes, Budas ou Bodhisattvas, cujo culto atraia a massa de crentes.
      O poder laico no Tibet pertencia, pelo menos em forma nominal, aos imperadores chineses. Nos anos de 1639 - 1640, o Janmongol Gushi interveio nos assuntos do Tibet, matou o príncipe local e transferiu todo o poder laico ao Dalai-Lama, o quinto na ordem das encarnações. Em verdade, desde o começo da poderosa dinastia Manchú, a China estendeu sobre o Tibet sua autoridade soberana; porém, na prática o poder local ficou nas mãos dos Dalai-Lamas e havia sido estabelecido um sistema hierocrático, uma forma de regime feudal e de servidão onde uma classe dominava a massa de camponeses privando-os de direitos, um regime onde o poder político encontrava-se nas mãos das hierarquias budistas.
      Todo o poder era encabeçado pelo Panchen Lama e pelo Dalai Lama, o poder espiritual do primeiro sobrepunha-se ao segundo, isso porque se considerava que era a encarnação de Buda-Amitabha, e o Dalai Lama, por sua vez, era tido como a encarnação de Buda-Bodhisattva. Era ainda considerado, que Panchen Lama era o pai espiritual, um confessor do Dalai Lama, porém, o poder mundano real pertencia ao Dalai Lama, que por esse motivo tornou-se mais conhecido e influente no mundo budista e em outros paises que o Panchen Lama, alijado dos assuntos terrenos.
      Para todos os budistas, o Tibet tornou-se um país íntimo; Lassa, a cidade sagrada para onde confluem os peregrinos religiosos, os monges formam a maioria da população da cidade, o idioma é o tibeteno, considerado oficial e está na escrita da vasta literatura búdica; As relíquias religiosas são veneradas e as formas de cultos estabelecidos a milhares de anos são ainda hoje praticadas. Em cada monastério são realizados diariamente os ofícios divinos, e em datas pré-determinadas são organizados festivais, os tsam, antigos festejos pré-budistas, e o movimento circular de Maidara que representa o futuro de Buda, é durante os tsam que alguns Lamas aparecem ataviados com as terríveis máscaras dos dokshitas, representações de monstros e demônios para espantar os inimigos da fé.
      Os cultos diários foram transformados em uma simples formalidade, concedendo muita importância na repetição mecânica na forma de oração, os Om mani padme jum; o tesouro sobre o lótus é apresentado como a mais importante. Preces e pedidos são escritos sobre pedras ou folhas de papel que são introduzidas nos moinhos de orações - os jurdes, moinhos que fazem girar com a mão, e àqueles que rezam, equivale a cada giro uma repetição múltipla da oração. Também existem moinhos similares que são girados com a ação dos ventos e das águas, quem sabe para levar as preces ao Buda-Amitabha, o senhor mítico do paraíso.    
    
  O monoteísmo totêmico na Tasmânia
É bem provável que, por estarem geograficamente isolados de outros continentes, os tasmânios não tenham sofrido influências de outras culturas até aproximadamente o século XIX,  suas crenças permaneceram até então num estagio quase que primitivo, tanto nas relações sociais quanto nas religiosas.
      Formado por tribos nômades conservaram seus hábitos na coleta de tudo que a natureza lhes oferecia mantendo uma unidade social coesa mesmo sendo divididas em pequenas comunidades, tendo assim uma grande hegemonia nas crenças e ritos mágico-religiosos.
      Predominantemente, as crenças religiosas eram efetivadas através do totemismo que criava uma forma de vínculo ao sobrenatural entre os grupos. Na feitura dos totens eram utilizados ossos de procedência animal, madeira ou pedra, elementos que de uma forma típica manifestava a religião. A religião praticada tinha como lógica o princípio isogâmico, isto é, a proibição de matrimônio entre os membros do mesmo grupo social, que em resumo, classificava o clã como uma identidade. Esta identidade era reforçada pelos totens que, unidos aos frátrias, constituíam uma divisão com denominações sempre aludindo a um animal, que poderia ser um canguru, um avestruz, uma águia, um corvo ou outro animal qualquer, pois estes, geralmente estavam vinculados com as crenças no sobrenatural.
      Havia, além do totemismo pertencente a cada tribo, o totemismo social individual que era utilizado tanto por membros masculinos quanto femininos, porém, individualizados sexualmente como uma demonstração de enfrentamento social, isto devido a uma divisão de trabalho executado por homens e mulheres.
      Os totens para o povo australiano significavam uma diferenciação, não só no sexo e suas conseqüências sociais, mas representava também, e principalmente, um poder quando este era destinado a diferenciar um curandeiro, um feiticeiro ou um chefe tribal. O totem individual era herdado sempre do pai no momento de uma consagração e manifestado pelos aspectos de uma função religiosa.
      No geral, os totens simbolizavam diferentes animais, porém, com alguma freqüência, também eram utilizados plantas e outros objetos como formas representativas, assim, o sol, a chuva, as pedras e outros elementos tornavam-se também significativos. Contudo, os aborígines, não consideravam o totem como uma divindade nem como algo inferior, no entanto, acreditavam que havia algum parentesco misterioso entre todos os seres e os totens por eles criados.
      O parentesco entre homem e totem se manifestava ante tudo que era proibido, o que proporcionava a criação dos tabus; as proibições, no entanto, não era uma forma global em todo o território, pois este conceito não era assim tão rigoroso e permitia comer um pouco da carne do animal que representava o totem, isso fazia com que o vinculo mágico permanece-se entre as imagens mitológicas e os antepassados.
      No imaginário nativo, as imagens mitológicas de seres apareciam com constância e atuavam individualmente ou agrupadas, cumprindo sempre uma referência mágica no mundo espiritual e, que em seguida, eram convertidos em elementos que poderiam ser uma pedra, uma arvore, ou ainda poderiam diluir-se nas águas.
      Existiam ainda os ritos especiais, estes, por ter estreita vinculação com a mitologia totêmica possuíam personagens e argumentos que eram interpretados pelos formuladores do ritual, e ainda, identificando as aparências dos antepassados totêmicos.
      No geral, os rituais tinham como finalidade de instruir os jovens e coincidiam sempre com as cerimônias de consagração que, desta forma, os ritos totêmicos mantinham uma estreita relação com as práticas rituais que representavam os ritos sagrados ao totem.
Pertencentes a uma fratría, e que, ao mesmo tempo possuía uma interpretação sagrada ou mitológica das particularidades ambientais onde as tribos habitavam temporariamente, os ritos totêmicos constituíam algo como a história sagrada do clã desde sua origem, guardando, portanto, uma estreita ligação com a crença da incorporação totêmica.
       Os aborígines tasmânios acreditavam que malefícios podiam ser enviados a seus inimigos, para tanto, eram utilizados os raggalk - feiticeiros especializados para tal finalidade; acreditavam também que qualquer homem podia exercer tal tarefa sem mesmo ter recebido atributos ou poderes especiais. Existia por outro lado os ritos de magia curativa, medicina popular que atendia as necessidades da tribo, como também, existiam os rituais xamânicos diferenciados do curandeirismo. Enquanto aquele utilizava técnicas meramente medicinais, o xamanismo atuava por intermédio dos espíritos, pois segundo as crenças, os espíritos eram quem consagravam os xamãs.
      A religião dos tasmânios era desenvolvida mais freqüentemente pelos homens, as mulheres eram quase sempre excluídas dos rituais religiosos; isso ocorria pela forma de apresentar aos jovens os rituais de iniciação nos quais eram circuncidados. As formas características das crenças religiosas eram vinculadas nas cerimônias de iniciação, e que também se tratava de um ato de fé e crença nos seres sobrenaturais, espíritos fundadores e protetores das iniciações ou num espírito monstruoso capaz de matar. Alguns desses espíritos vagueiam pelas planícies quentes dos desertos ou nas florestas, e entre eles está Tuman, espírito assassino de uma só perna, espírito do mal. Por outro lado encontrava-se Atnatur, imagem de um deus demiurgo tribal. As imagens mítico-religiosas representavam deuses demiurgos, intermediários entre Seres criadores e Seres criados.
      Em todas as manifestações mítico-religiosas desenvolvidas pelos aborigenes predominavam as danças, rituais juntamente com a encenação de ritos totêmicos, cerimônias de consagração e outras; no entanto, não havia um culto propiciatório ou orações formuladas, como também não havia sacrifícios, templos ou santuários e, a função de sacerdote era exercida pelo chefe dos grupos totêmicos ou pelos curandeiros e feiticeiros. Não havia também, qualquer manifestação em relação a cultos relacionados aos antepassados, deuses ou atribuído à natureza. No entanto, existiam cultos com características ao sobrenatural em relação a certas plantas e alguns elementos inanimados. Acreditavam que os fenômenos celestes não deveriam ser divinizados e nem poderiam ser atribuídos a eles alguma propriedade sobrenatural.
      Os aborígines da Tasmânia também não possuíam formulação alguma sob as questões religiosas, somente temiam os espíritos malignos denominados de Namma, nefastos que eram em suas vidas. Ao mesmo tempo em que isso ocorria, um temor os vinculavam a idéias animistas supersticiosas, atribuíam todos os males a Raeggo Rapper, um fazedor de discórdias.
      A crença em espíritos noturnos e diurnos é que os encaminharam a um esforço para a definição da criação de um deus supremo e celestial, um ser mítico denominado Tissan Marrabun. Por volta do século XIX colonizadores os extinguiram, extinguindo também o que restava da ultima cultura pré-religiosa do planeta, restou apenas ilhas assombradas por espíritos malignos que as habitam nos dias de hoje, segundo as lendas contadas por seus habitantes.
                                                                                                                               
 A misteriosa deusa da serpente
  Dois povos e duas culturas surgiram há 4.000 anos aC. no mar Egeu, mais precisamente no arquipélago das ilhas Cíclades, separadas pelas águas e unidas pelo tempo, uma árvore da qual a civilização grega colheu frutos.  
      Sem dar muita importância ao mundo do sobrenatural os povos do Egeu não chegaram a construir templos de grandes proporções, bastava-lhes somente algum espaço ao lado ou próximo de suas habitações onde eram feitos seus cultos dedicados à vida. Os mortos eram enterrados com seus pertences colocados em vasos com formato de cabeça de um boi, animal considerado sagrado, ou em outros vasos com formatos caracterizando um tronco de mulher, este sempre associado com a deusa da fertilidade do solo, uma deusa mãe. Os objetos pessoais, enterrados com o morto, representavam uma esperança de que em algum lugar do Universo viesse ter alguma utilidade, e os ritos funerários eram acompanhados de procissões. Em algumas ocasiões uma festa era promovida em que toda comunidade participava, não em virtude do morto, mas sim em respeito à deusa mãe, pois acreditavam que dela todos os seres foram gerados. As crenças religiosas eram limitadas, tanto quanto seus ícones de formas regulares e de pequenas proporções.
       Além da deusa mãe que representava a fertilidade, e também considerada a rainha dos animais e demais Seres vivos, havia a misteriosa deusa das serpentes, cujo culto estava relacionado à ressurreição. Esta deusa era representada por uma figura feminina segurando duas serpentes, uma em cada mão, simbolizando mistérios dos quais os reis antecessores eram representantes vivos, considerados Seres divinos. Existiam ainda os cultos secundários prestados aos semideuses que eram representados por esfinges representando os gênios alados com corpo humano e cabeça de animal, um deles o minotauro, que era representado nos vasos utilizados nos rituais que deram origem a algumas lendas gregas.
      Entretanto, não havia entre aquele povo uma divindade celeste, pois o alvo principal da religião sempre foi uma exaltação à fecundidade, que na visão mística, tinham tanto na mulher quanto no solo a fonte da vida.
      A serpente, animal subterrâneo que evocava o desconhecido estava associada à gravidez, por isso, a preponderância ao culto da fertilidade e também por ter um sentido poético na vida religiosa.
      Todos os cultos eram seguidos de festas com procissões e danças sagradas, principalmente em épocas de colheita ou semeadura da terra. As divindades, que na sua maioria eram femininas, eram cultuadas nos rituais praticados por sacerdotisas. A deusa mãe, geradora da espécie humana e de todos os seres era merecedora do culto principal.
      A religião do povo Egeu pouco tinha a ver com a morte, pois o sentido prático fazia com que acreditassem que a morte não representava o fim da vida material, por isso se afastavam dos temores sobrenaturais.
                        No Mazdeismo, deuses da luz e das sombras.
      Diferente em muitos aspectos das religiões praticadas no Oriente Médio, o mazdeísmo teve seu início devido ao nome do principal deus, Ahura-Mazda que era cultuado naquela região no período entre os séculos VI ao IV AC.
      Textos religiosos do antigo livro sagrado, o Avesta, é a principal fonte de informações para o estudo das religiões dos povos antigos do Irã. Inicialmente o povo cultuava Mithra o deus solar e guerreiro, deus que venceu o touro mítico de onde originou o mitranismo, e Andra, um deus que representava o espírito do mal.
      O mazdeísmo foi mais caracterizado pela crença acentuada entre os princípios da luz e das sombras no Mundo; ambos personificados pelos espíritos da luz, os Ahura e, os espíritos das sombras eram denominados Devas. O espírito da luz era Ahura-Mazda e o das sombras Angra-Mainyru.
      Juntamente com Ahura-Mazda encontravam-se outros seis espíritos de luz, os Amesha, santos imortais que, após uma multidão de espíritos menores, Iazat, os anjos, personificavam não só as forças e elementos da natureza como também as qualidades morais dos Seres humanos, a eles, um número idêntico de espíritos das sombras se contrapunha aos Devas que pertenciam às forças que personificavam o mal.
      Tanto Ahura-Mazda quanto Angra-Mainyru eram considerados igualmente como criadores de tudo que existia, porém, o primeiro teria criado o bem, quanto ao segundo tudo que era de mal, impuro e danoso ao Ser humano.
       A religião dos povos do Irã se desenvolveu por vias mais diversas adquiruindo formas que se diferenciaram em muitos aspectos daquelas professadas por outros povos do Oriente antigo. O Avesta, livro sagrado, consta de diferentes partes pertencentes a diversas épocas, e a mais antiga, os Gatha compreendem a parte relacionada com os hinos e orações, é a parte mais antiga e está escrita no antigo idioma persa.
      Considerado sendo originário do Irã, o Avesta caracterizou a religião professada no principio das tribos medas, no entanto, com a separação das tribos iranianas, as crenças religiosas eram divergentes entre os vários grupos tribais, do mesmo modo que ocorria com suas línguas. No Avesta, são mencionados cultos aos espíritos dos antepassados, os Fravash, e também cultos relacionados a alguns animais, ao fogo e aos antigos deuses, Mithra que era o deus solar e Andra o espírito do mal.
      ...E sobre estes conceitos se desenvolveu entre os iranianos uma religião original, o mazdeismo.
      Os grandes espíritos, os deuses, eram considerados igualmente como criadores de tudo que existe, porém, Ahura-Mazda foi quem criou a pureza, o que obedece a razão e tudo que é útil ao homem; quanto à Angra-Mainyu atribuía-se a criação do mal, do impuro e danoso. Esta dualidade tem um sentido ético bem definido, um é o espírito da verdade, da sabedoria e do bem e o outro a mentira, do mal e da imoralidade. Desde o principio, em tempos remotos, é travada uma incansável luta entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, uma luta de uma época quando existiram dois gênios, cada um deles dedicados a uma atividade diferente.
      O mazdeizmo possuía práticas de cultos os quais consistiam em oferendas de sacrifícios, e os dois principais eram o de purificação ritual e de conservação do fogo sagrado. Todos os rituais eram atribuições dos sacerdotes, os Athravanes, que mantinham em suas mãos tudo que se referia na direção dos cultos, somente eles podiam fazer oferendas em sacrifícios, era uma atividade com indicações derivadas do Vesta que expunha todos os procedimentos.
      A doutrina mazdeísta sobre a vida ultratumba não estava vinculada com as práticas funerárias, davam mais importância ao destino da alma que ao corpo dos mortos. O futuro da alma estava na dependência do cumprimento de todos os preceitos da religião àqueles que tiveram uma maior dedicação à Ahura-Mazda.  Depois de mortos, encaminhavam-se para a morada da luz, o paraíso, porém, os hereges que não acreditavam e violavam os preceitos encaminhavam para o inferno, o reino sombrio de Andra-Mainyu; estes seriam exterminados com o fim do mundo, teoria escatológica que o mazdeismo apregoou.
O mais importante personagem do mazdeismo foi Zoroastro; seu aparecimento deu-se com o crescimento do reino Persa quando era governado por reis, que também eram seus sacerdotes e magos. Filho da união de um sacerdote com uma virgem há relatos em lenda que, ao nascer em vez de chorar ele sorriu e, segundo os Avestas, logo após seu nascimento foi tirado de sua mãe e abandonado. Há muitas controvérsias em relação ao período em que ele teria vivido, mas a mais aceita por historiadores é que ele viveu no século VI AC. entre os anos 628 e 521.
Desde pequeno Zoroastro demonstrava grande conhecimento e sabedoria, sua curiusidade o levava sempre a fazer perguntas aos sacerdotes para as quais não tinha respostas convincentes, passou então, a questionar os poderes sacerdotais. Sem respostas à suas perguntas e seus questionamentos decidiu retirar-se para as montanhas onde conheceu grandes sábios.
Tornou-se profeta quando teve uma visão de Ahura Mazda envolto em uma luz e ao som de trovões. O fato ocorreu na montanha sagrada de Albordj quando tinha entre trinta e quarenta anos tornando-se assim o profeta e fundador do mazdeizmo que foi anunciada pelo próprio deus. Foi o reformulador da religião persa declarando-se inimigo dos falsos deuses. Conservando os gênios e espíritos bons, procurou espiritualizar, transformando todos os deuses antigos em maus espíritos excluindo as divindades secundárias e elevando Ahura Mazda a um deus único.                                  
                                 O arquipélago dos deuses
      Nas ilhas espalhadas nos mares do pacífico um povo deixou as marcas de sua religiosidade mágica que cheia de mitos e símbolos tentava explicar não só suas origens, mas também de onde surgiram todos os demais seres e mistérios da vida e da morte. Em tudo que deixaram existe um significado mágico, magia que fazia parte de seus cultos e rituais religiosos.
      O mito não aparecia somente nos cultos aos deuses, mas também na vida cotidiana e no uso de objetos carregados de significados, transformavam-se numa linguagem variada, multiplicando-se de ilha por ilha, conservando assim uma unidade que explica sua origem comum.
      Máscaras feitas de madeira ou de rochas vulcânicas e pequenos objetos representavam os ancestrais que eram utilizadas em cultos dedicados aos mortos.
      Os antigos polinésios eram místicos e supersticiosos, faziam uso de inúmeros acessórios como, amuletos e objetos, que os favoreciam na longevidade e nos casos de amor. Associados ou não a rituais religiosos procuravam sempre lembrar uma nítida divisão entre a vida terrena e a vida pós-morte através dos miniguis, modelagens que faziam com pasta vegetal sobre o crânio limpo dos mortos que reproduziam feições e qualidades pessoais do falecido. As esculturas dos antepassados, coloridas ou não, feitas em diversos tamanhos eram consideradas a própria presença dos mortos que espalhavam força e proteção sobre os vivos, contavam também com protetores divinos.
      Pinturas em pedras conhecidas como Wondjina mostravam animais, homens, mulheres e freqüentemente uma serpente, figura mitológica australiana que assegurava a multiplicação de todas as espécies. Nas casas de culto ou nos templos encontravam-se vários compartimentos com testemunhos de um estranho mundo, eram placas de madeira, as tijurunga, gravadas com símbolos que relatavam fatos históricos; também no teto, dependuradas, uma variedade de máscaras que simbolizavam a presença constante do fantástico na vida dos povos de toda a região.
 Os chefes governantes eram considerados indivíduos sagrados e quase sempre divinizados pela tribo. Acreditavam que eram possuidores do mana, uma energia que significava ter um poder sobrenatural, poder que transmitia à tudo que o cercava tornando-as assim em objetos sagrados e em verdadeiros tabus, e quem os tocasse era imediatamente morto, pois acreditavam que os poderes dos deuses e dos espíritos diferiam dos poderes dos homens apenas em grau, nunca em qualidades. Para àquele povo homens e deuses possuíam as mesmas características. Os ancestrais divinizados eram representados em pequenas imagens feitas em madeira ou marfim que eram guardadas nos templos e sendo exibidas somente por ocasião de determinadas cerimônias.
      No Taiti os cultos eram realizados através de cerimoniais com manifestações de lealdade política diante de inúmeros deuses que eram representados em esculturas feitas em madeira com formas humanas, geralmente grandes, fortes e de olhos imensos e ovais. Em algumas ilhas, as imagens divinas eram feitas num tecido de fibra de coco e colocadas sobre um suporte de madeira recoberta por plumas vermelhas. Tangaroa, o criador dos homens e dos deuses, tinha sua representação com aparência humana, e seu rosto em forma de disco e seu corpo era todo recoberto por pequenas figuras em relevo.
      Os deuses eram tão diversificados quanto ao número de ilhas existentes. Na ilha de Páscoa ou Rapa Nui, no idioma nativo, Makemake era o deus mais importante e personificava a andorinha do mar, ave que em torno dela aparecem mitos e rituais religiosos, um deles, é a busca pelo primeiro ovo da estação. O ritual era ao mesmo tempo uma competição, onde um grupo de homens atravessava a nado de uma ilha a outra para pegar um ovo de andorinha e ser entregue ao chefe da tribo. Após a competição, um deus se encarnaria no vencedor e assim permanecia por todo o ano. Tal competição tinha um significado de responsabilidade e o vencedor gozava de prestigio perante toda a comunidade.
      Espalhados por toda a ilha de Páscoa estão até os dias de hoje os moais, estátuas de pedra que variam de três a vinte dois metros de altura, no entanto, seus significados se perderam no tempo. Ao redor dos templos existiam fortificações externas com muralhas. Os templos, com uma única entrada, tinham ainda outras muralhas que delimitavam a parte sagrada que somente os sacerdotes e chefes poderiam entrar. Nos templos eram guardadas grandes e pequenas estátuas feitas em madeira representando os principais deuses, que através de cores eram utilizados como elementos representativos, cada uma delas significava um elemento adjetivado.
      Os papuas e malineses eram dois povos de uma mesma raça e habitavam a mesma região, dedicavam-se ao culto dos espíritos ancestrais e de forças da natureza que acabaram se tornado Seres lendários ou mitológicos. As sociedades secretas eram encarregadas da religião que davam rumos à vida social.
      Era de costume entre os papuas a confecção e utilização de grandes máscaras pintadas com cores fortes, as quais tinham finalidades especificas nos rituais noturnos que, em procissão, os participantes saiam das matas usando-as; cada máscara correspondia um deus a quem estava usando e, que numa intenção de honras, determinava os passos de uma dança em homenagens por ocasiões especiais, fossem no nascimento de uma criança ou na conclusão de uma obra.
      Outros rituais eram realizados com finalidades místicas, e um deles consistia em fazer esculturas nos troncos das árvores de figuras lendárias. Ainda existiam os molongan uli, estátuas que pertenciam aos rituais secretos e proibidos às mulheres, pois se tratavam de rituais com representações fálicas bissexuais. Objetos de culto ao sol e à lua, muitos animais, peixes e aves, cada um deles tinham ligações com rituais mortuários e faziam parte integrante da religião praticada em todas as ilhas.
      Numa dupla função os remos das embarcações possuíam figuração mística religiosa, os crânios dos mortos, limpos e pintados, eram espalhados por algumas ilhas, e os painéis com funções, tanto decorativas quanto religiosas, tinham lugar de destaque. Os umbrais de portas com configurações místicas, máscaras cerimoniais adornadas com pinturas que representavam ancestrais, bastões esculpidos em marfim que configuravam uma divindade, baixos relevos representando Seres mitológicos, estatuetas de divindades femininas, e os moais, totens gigantes, refletem bem o sentido da vida religiosa dos polinésios que tinham em Tangaroa o pai de todos os deuses e de todos os Seres.  
               Na mitologia polinésia, Kāne pode referir-se a Kane Milohai ou a Tane, o deus das florestas  e da  luz. Keoro-Eva, ou keoroeva, é o deus do bem na mitologia havaiana que era representado por um ídolo de madeira adornado com penas vermelhas e outros produtos naturais das ilhas, de forma a assemelhar-se a uma ave. Em frente ao ídolo erguia-se um altar onde eram depositadas oferendas de todos os géneros, por vezes, porcos vivos. Um furo era feito numa orelha do porco, onde eram introduzidas fibras de coco, e o porco, assim transformado em porco sagrado, era posto em liberdade podendo, a partir daí, fazer o que bem lhe aprouvesse.
                                            
 Os deuses nórdicos.                                         
     Com origens em uma supervivência totêmica a religião dos antigos germânicos tinha como prática a veneração de animais considerados sagrados, alguns dos quais foram convertidos em atributos viventes dos deuses. Os cultos propiciatórios possuíam características na crença em numerosos espíritos da natureza; assim, existiam os Elfos espíritos da terra, Trolls, os da montanha, os Niksos, espíritos aquáticos, os Gnomos, espíritos subterrâneos e muitos outros que por vezes eram amistosos e por vezes não; da mesma forma acreditavam nos homens lobos. Todas essas crenças refletiam no povo que vivia rodeado por uma natureza hostil da qual dependiam para sobreviver. As crenças revelavam ser um elemento mais persistente na antiga religião germânica, pois até os dias de hoje as lendas persistem no folclore.
      Entre os povos germânicos eram amplamente utilizados rituais de magia curativa e protetora, utilizavam todas as classes de amuletos, ervas medicinais e acreditavam em feiticeiros e bruxas; suas atitudes demonstravam serem possuidores de poderes sobrenaturais e os quais intervinham nas idéias do povo em relação aos deuses que apareciam na mitologia como poderosos magos. A adivinhação desempenhava um papel muito importante, o processo se dava através do vôo dos pássaros e pelo comportamento dos cavalos sagrados e, sobretudo, por pequenas pedras marcadas com signos e símbolos, as runas.
      Os rituais funerários, diferentes entre os vários povos germânicos, alguns conservavam, desde a idade do bronze a cremação, porém, em algumas tribos eram feitos enterros. De acordo com a mitologia germânica os guerreiros que morriam em combate, seus espiritos iam para Walhalla, o palácio do deus Odin onde se entregavam aos banquetes e prazeres. A veneração pelas almas dos mortos era feita pelas famílias numa forma de culto familiar clãnico aos antepassados, onde os chefes do clã e da família atuavam como sacerdotes.
      Os cultos aos deuses protetores das tribos eram formulados nos santuários tribais localizados em bosques consagrados para tal finalidade, e cada tribo possuía seu bosque onde faziam seus cultos coletivos de sacrifícios. O local também servia de ponto de reunião onde se reuniam em assembléia para resolver qualquer problema tribal. Nesses lugares deu-se a formação das uniões tribais, convertendo-se em centros dos rituais intertribais, e mais tarde, transformados em santuários nos quais eram venerados os deuses.
      Os deuses protetores tribais foram àqueles convertidos em divindades, resultados das uniões tribais, e devido a essas uniões tribais, os deuses pertencentes a uma tribo passaram a ter influência sobre outra, desta forma, o deus Wotán, deus das tribos do sul, tornou-se uma réplica do deus Odin das tribos do norte personificando na mitologia a natureza. Wotán era o deus da tempestade e dos raios, personificava também os mortos ao guiar suas almas. Odin conquistou a primazia na assembléia dos deuses germânicos.
     Na mitologia germânica Odin reina no Walhalla, seu palácio real, juntamente com as Walquirias, as donzelas guerreiras que conduziam até lá as almas dos combatentes caídos nas batalhas. Ainda, segundo a mitologia, Odin é o deus supremo da guerra e ao mesmo tempo o mago e sábio conhecedor dos sagrados ritos mágicos.
      Nas imagens de outros deuses guerreiros predominam traços naturais mitológicos, é o caso de Tor, um deus escandinavo, e Donar, divindade do raio e do trovão para os escandinavos do sul, Tiu ou Tsin, uma divindade do céu radiante, Balder o deus luminoso da fertilidade da primavera e da vegetação, Freya, também vinculada à fertilidade, Loki, o pérfido deus do fogo.
      A maior parte desses deuses estava relacionada de uma ou outra forma com a agricultura, que a principio, os deuses germânicos eram divindades locais e tribais; assim, Tor era venerado principalmente na Noruega e Islândia e Freya na Suécia.
      Os mitos germânicos estão figurados na Edda Maior, uma compilação poética do séc. IX  e X.     
     Compostas principalmente por mitos cosmogônicos, os germânicos acreditavam que antes dos deuses governarem o universo, existiu um período em que viveram outros Seres fantásticos com poderes sobrenaturais, os gigantes Oitun. Os deuses mataram um deles, e o gigante Imir com seu corpo, formou a Terra, o Céu e os Seres humanos. Os deuses se instalaram na vivenda celestial, Ashard, um lugar semelhante ao Olimpo grego. Os mitos ainda relatam que os deuses da raça Azes foram atacados pelos gigantes, assim como os deuses de outra raça, os Vanes, que no intricado mundo mitológico, eram personificações de elementos étnicos extranhos vindos de outras tribos.         
      No mito sobre a morte do formoso Bálder, o deus da fertilidade, foi a primeira causada pelo terrível Loki. Atraiçoado, Bálder foi assassinado com uma flecha confeccionada com um ramo de múrdago, o que poderia ser um simples detalhe mitológico, porém, tal árvore era tida como a árvore do mal.
      Os mitos escandinavos atuam com muitas forças malignas engendradas pelos antigos gigantes. O monstruoso lobo Fenris, Surtr o soberano do mundo ígneo, Heve a sombria deusa da morte e do inferno, o terrível Harmr, guardião do portal do reino subterrâneo, o gigantesco dragão Fafuir e outros. 
      Estas imagens lúgubres da fantasia mitológica foram criadas em uma época de contínuas guerras tribais e de incursões militares de saque executadas pelos cruéis Vikings, uma época onde deuses e homens lutavam constantemente contra as forças do mal, entre os heróis se destacou Sigurdo, um paralelo escandinavo ao Hércules grego.
      A mitologia germânica também apresenta um quadro de eminente fim do mundo que, figurado no Vaticínio da Profetiza, o primeiro canto de Edda, expõe as lendas, e uma delas conta que todas as forças obscuras se rebelarão um dia, os deuses e os homens sucumbirão e o mundo desaparecerá em um grandioso incêndio. Este quadro está inspirado pelo eterno clima de guerra da época dos Vikings pelas invasões e incursões incessantes e pelas matanças recíprocas. Porém, após o fim do mundo surgirá ressurreição e renovação. O resplandecente Balder regressará do reino dos mortos e uma nova geração de deuses e homens viverá na paz e na abundância.
      A mitologia germânica não é somente escatológica, está também impregnada de imagens mais clarificadas que correspondem uma vida guerreira das tribos então existentes. Os bárbaros em lutas constantes e a belicosa aristocracia clãnica, na qual se refletia toda a mitologia, comandava de seus palácios todo o povo.
      Entre outras figuras mitológicas, se destacam as Normas, três irmãs deusas dos destinos, Urd, o passado, Verdandi o presente e Skuld o futuro, a árvore Iydrasil, o cavalo Sleipnir, com oito patas, pertencente a Odin, os atributos sagrados de deuses e heróis, objetos que possuem nomes próprios como a clava de Tor, Miolnir e a espada de Sigurgo Gran. 
Considerados uma raça de deuses e denominados Aesir, eram os deuses guerreiro e residiam em Asgard; viviam em constantes lutas com os Vinir, estes considerados como deidades da natureza e da fertilidade, deuses que estavam mais próximos aos homens.    
         Fora da Escandinávia, somente quatro deuses Aesir tornaram-se comuns em outras tribos germâniicas onde receberam outros nomes: Odin passou a chamar-se Wotan, Thor recebeu nova denominação e passou a chamar-se Donar, Tyr passou a chamar-se Tiw ou Tiwaz, Frigg recebeu o nome de Freia.
Asynjor ou Aegir era o deus do mar, um deus Vane, pois, assim eram denominados os deuses ligados aos elementos liquidos, como a água e ao mesmo tempo à natureza. Este deus era cultuado e temido pelos marinheiros, pois acreditavam que seu aparecimento sobre as águas era um sinal de perdas de homens e navios, por isso eram feitos sacrificios para apaziguá-lo. Muitas vezes eram sacrificados prisioneiros antes de começar uma viagem. Era também ele que proporcionava aos outros deuses entreterimentos. Sua esposa na mitologia é a deusa Ran com a qual teve nove filhas, as donzelas das ondas, denominadas as Wave Nikir.
Na mitologia Escandinávia alguns contos ditam que Aegir possuia dois fiéis  servidores, Eldir e Fimafeng, este ultimo, diz a lenda, que foi morto pelo deus Loki durante um banquete em um local submarino onde os deuses se reuniam. Em outra lenda cita que Aegir não é um deus e sim um gigante amistoso aos deuses; como um deus, teria sido filho de Odin, mas sempre foi reconhecido como uma divindade da justiça e da sabedoria, muito embora não fosse considerado um deus pelos outros deuses, permanecia entre eles em Asgard, o olimpo ecandonavo.
Nanna, a deusa benevolente e bela, consorte do deus Balder, os quais se atiraram sobre uma pira fumegante para depois habitarem o Hel, o lugar dos deuses mortos; estes são pais de Forset, uma divindade da justiça que preside as Things, assembléia dos homens livres.
Bragi, filho de Odin era o deus protetor dos trovadores, tendo por consorte Iduma a deusa da Juventude eterna. Num episodio mitológico, o deus Loki acusou com calunias e difamações o casal, Bragi foi acusado de ser um deus efeminado e Idunna acusada de ser laciva. Este conto é narrado na Lokassena, uma saga dos deuses escandinavos.
Idunna é a deusa guardiã do pomar sagrado, das maçãs que permitem aos deuses restaurarem a juventude pela eternidade.
Alguns deuses são muito antigos, destacando-se o deus Buro, o qual teve sua origem na vaca sagrada Audumia, dizem ser esta a origem também de Borr o avô de Odin, deuses referentes a supervivências totemicas.
A historia e a mitologia dos deuses escandinavos se perdem no tempo, alguns deles estão relacionados a elementos ou seres da naturza, outros, no entanto, estão mais ligados a determinadas expressões, sejam à humanas ou aos animais.
Forseti é também o deus nórdico da justiça, da meditação e do conhecomento interior. Filho deus Baldur com Inanna residem no palácio Glitnir, o palácio brilhante. Forseti havia prometido que em todas as decisões, em seu tribunal, ambas as partes sempre estariam de acordo; também recebe a denominação de Fosite.
Frey ou Frery é um deus representado como belo e forte, é irmão de Freya e comanda o Tempo (no sentido metafórico), a prosperidade, a alegria e a paz; é ele tambem o patrono da fertilidade e soberano de Alfhleimr, reino dos elfos da luz, (os lijósáfar), responsáveis pelo crescimento da vegetação. É filho de Njord, o deus da fertilidade e irmão de Freya. Sua figura imponente mostra-o em seu cavalo que ignora qualquer obstáculo; sua espada, mesmo que perdida em algum combate brande e move-se sozinha desferindo golpes mortais. É o senhor do javali de ouro chamado Gulinbusti que conduz um carro como se fosse puxado por cavalos, e seu brilho reluz nas noites escuras. Possui também um grande navio, o Skiòblaònir, para transportar os deuses; contam algumas lendas que tal navio pode ser dobrado e gurdado numa algibeira. É um dos mais antigos deuses germanicos, juntamente com Freya e Njôrôr.
Freya é a deusa-mãe, filha de Niord é considerada a deusa da sensualidade, do amor, da música e das flores, é tambem a deusa da magia, da adivinhação, da riqueza. Existe um mito que diz que quando ela chora suas lágrimas transformam-se em ouro, é a lider das Valquirias, as condutoras das almas dos mortos em combate. De caráter arrebatador, teve vários deuses como amantes e tem relação com as mulhers atraentes, carrega consigo um colar mágico e recebe várias denominações, Freia, Freja, Froya entre outros, sendo por vezes relacionada ou até mesmo confundida com a deusa Frigga.
Frigga é a deusa-mãe da disnatia de Aesir, por vezes se apresenta como mãe, outras vezes como madastra de Thor, e em alguns mitos é tida como a deusa de fertilidade, do amor, da união e protetora da familia; é representada por uma mulher majestosa que tem seus vestuários revestidos com penas de falcão, trazendo um molho de chaves no cinturão.
Jord é a deusa de Midgard, a Terra, é a esposa de Odin e mãe de Thor. 
Loki é o deus do fogo e irmão de Odin. Loki, apesar de sua aparência amigável é o simbolo da maldade e é o mais complexo dos deuses do panteão nórdico, é considerado um deus traiçoeiro, não confiável aos mortais; é o senhor dos truques e das trapaças e está associado aos ladrões, no entanto é um dos mais populares dos deuses nórdicos. Loki é filho do gigante Farbauti com a giganta Laufey, está ligado ao fogo e a magia podendo assumir formas de um cavalo, de um falcão ou até mesmo de uma mosca, possui uma consorte, a giganta chamada Angrboda com quem teve três filhos monstros, porém, tem também sua esposa, a qual permanece leal diante da puniçao recebida pela morte do deus Balder; seu castigo foi ficar acorrentado a três imensas rochas, uma serpente foi colocada sobre sua cabeça e o veneno que cai sobre Loki provoca trreiveis convulsões de dores provocando terremotos.
Fenrir é um monstro da mitologia nórdica que se apresenta como um lobo, filho de Loki com a giganta Angrboda. O mito relata que Jormungar, a serpente de Migdgard e Hel, a morte, são seus irmãos, conta ainda que foi o devorador de Odin.
Jormungard se destaca no universo dos deuses nórdicos, é o segundo filho de Loki com a giganta Angrboda e possui aspecto de uma gigantesca serpente; na mitologia consta que, ainda jovem, teve vários desentendimentos com Thor e tornou-se seu maior inimigo. Está aprisionada no fundo dos oceanos, em Midgard, e quando ela se agita, tentando escapar, são produzidas ondas gigantescas.
A mitologia nórdica possui muitas narrativas, uma delas conta que Hel é filha de Loki e da giganta Angrboda; Hel foi banida por Odin para o mundo inferior, o qual recebeu o seu nome (local correspondente ao inferno cristão). De um grande salão ela reina sobre os que morrem por doenças, velhice ou pena capital, e nos seus dominios possui poderes tão grandes que pode até mesmo desafiar outros deuses. É descrita como sendo metade corpo de mulher e a outra metade a de um cadaver.
O mais sábio dos deuses nórdicos, Mimir, teve sua cabeça decepada, porém, Odin a manteve viva e a consultava sempre. Mimir é um dos deuses gigantes e obteve seu conhecimento ao beber de um poço, conhecido como poço da sebedoria, onde cujas raizes de Yggdrasil, uma árvore, a árvore que simboliza o eixo do Mundo; suas raizes estavam situadas em Nflheim, onde ficavam os mundos subterrâneio, seu tronco era Midgard, ou seja, o mundo material dos humanos e a parte mais alta chamava-se Asgard, a cidade dourada. Ainda existia o Walhaia, local onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido nas batalhas. 

 Deuses do Cáucaso
      Povos pertencentes a uma região com influência de civilizações orientais, os caucasianos, antepassados dos armênios, georgianos e azerbaijanos, viviam na antiguidade em Estados independentes e com culturas próprias. A religião era refletida nas ações dos cultos familiares clãnicos que se mantinham com bastante solidez em virtude do regime patriarcal; na maioria dos casos a família desenvolvia uma forma de religião cuja veneração era toda voltada para o lar e a casa onde habitavam tornava-se um símbolo material da comunidade familiar.
      Alguns povos daquela região consideravam sagrados os lugares do interior doméstico, assim como determinados utensílios, o fogão, o fogo e o calor nele produzido tinham uma relação muito próxima com a religiosidade, pois era de costume abrigar, por estranho que fosse uma pessoa próxima ao calor do fogão, isso se dava por uma interpretação religiosa de hospitalidade. Antes de cada refeição era atirado ao fogo um pequeno sacrifício que podia ser um pedaço de qualquer alimento, este costume era quase generalizado entre os povos siberianos. Os osetinos possuíam uma espécie de personificação do calor do fogão, tendo como patrono o deus guerreiro Safa; presume-se que isso ocorria pelo fato da região estar constantemente assolada pelo frio. Os Svan atribuíam um significado sagrado a um determinado lugar da casa, no qual era instalada uma torre especial de defesa e que não era utilizada para afazeres domésticos, era um local exclusivo para ritos familiares.
      Os cultos clãnicos existiam para os povos ingusho, asetino e em alguns grupos georgianos; entre os igushos toda a família, ou seja, todo o clã reverenciava a um protetor, um antepassado, que em sua honra era construído um monumento de pedra, o Silling. Uma vez por ano faziam uma festa sempre antecipada de pedidos e orações formulados por um ritual, este costume vinha do povo gola e dos feappi, tribos formadoras do povo ingusho; além da festa para reverenciar seus antepassados o clã organizava também, em um bosque sagrado ou em outro local determinado por tradição, ritual destinado a outros protetores.
      Os imeritos, Geórgia na ocidental, tinham o costume de organizar sacrifícios anuais que na ocasião rogavam pelo bem estar do clã, era uma festa onde todos comiam e bebiam vinho feito e guardado especialmente em vasilhames rituais.
      Os povos do Cáucaso desenvolviam rituais fúnebres de cunho mazdeista constituídos de "banquetes de recordação", neles, os ritos eram mais zelosos e tais banquetes requeriam muitos gastos onde toda a comunidade colaborava.
      A maioria das divindades estava direta ou indiretamente ligada com a agricultura e a criação, além daquelas protetoras da casa, no panteão dos deuses estava Uatsila a protetora da agricultura, a ela eram atribuídos poderes por enviar as chuvas; Falvar era o protetor das ovelhas; Avsati era a divindade que protegia os caçadores; Tutir era o pastor dos lobos e que lhes permitia matar as ovelhas, este era combatido, pois era inimigo dos homens por lhes causarem prejuízos. Existiam ainda Shible, divindade feminina do raio e um fato peculiar ocorria quando alguém era atingido por um raio e morria, quando enterrado ninguém deveria chorar em sua tumba, pois tal local passava a ser considerado sagrado. Soseresh era outra deusa da agricultura que estava relacionada com a fertilidade do solo; Emirs que também protegia as ovelhas; Asin protegia as vacas; Mezitj o protetor dos bosques e dos caçadores; Tlepsh era o protetor dos guerreiros; Tiashjo, um deus dos céus que liderava o panteão com sua supremacia, mas com o tempo tornou-se uma figura opaca no panteão dos deuses, esquecido, deixou de ser cultuado.
      Havia muitos outros protetores nos vários povos caucasianos com denominações diferentes, porém com finalidades idênticas. Dadzha que protegia a agricultura; Aitar o criador dos animais domésticos e deus da procriação; Airg e Aizhveipshaa, divindades caçadoras que também protegiam os bosques e os animais selvagens, e Afi, também um deus dos raios. Todos os deuses caucasianos eram análogos e mantinham uma relação nas várias regiões.
      As divindades eram geralmente complexas, pois eram atribuídas a eles funções pouco delimitadas. Conhecidas por todos os povos da região tomavam com freqüência formas de cultos comuns em cada comunidade, e por vezes, era difícil diferenciar os patronos de cada clã, pois em certos povos, principalmente as comunidades camponesas, não se lembravam de todo das atividades religiosas dos antepassados.
      Os cultos aos deuses protetores estavam ligados aos santuários locais em cada comunidade onde eram celebrados os rituais, deles ficavam encarregados os dzuarlas, sacerdotes eleitos ou por tradição hereditária que dirigiam as práticas religiosas. Alguns locais eram temporariamente consagrados como santuários, os jati, isso ocorria nos bosques onde algumas árvores não poderiam se cortadas, pois eram consideradas sagradas. Tais locais tornavam por vezes a possuir sua parcela de terra e bens como forma definitiva, e seus sacerdotes acabavam por administrar tais bens gozando de influência e prestígio social.
      Também existiam os cultos denominados, cultos profissionais e artesanais, em particular o culto vinculado aos guerreiros que reverenciavam o deus Tlepsha ou Shashva, e ao ferro era atribuído poderes sobrenaturais, sobretudo na capacidade de curar, através de magia, enfermos e feridos. A deusa Ersh era a protetora dos afazeres domésticos das mulheres.
      Na maioria dos casos as antigas religiões do Cáucaso dominavam os povos montanheses, mas por outro lado, nos lugares onde havia formas mais estáveis de relações classistas, as crenças primitivas, com algumas exceções se conservaram, pois, o cristianismo e o islamismo acabaram se fusionando com as antigas crenças. Muitos povos da região se emanciparam do despotismo das idéias religiosas e a maior parte de antigos rituais e tradições foram abandonadas e/ou esquecidos.  
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      Mais além do vasto e frio território, no extremo oriente do continente europeu, povos daquela região mantinham com perseverança as formas primárias de crenças religiosas. Mais precisamente na região central do Volga, habitavam povos que pertenciam a diferentes famílias idiomáticas, os mordvás, mariis, udmurtios, chuvashos, tártaros, bashkirios, estes turcomanos; grande parte destes povos foi convertida ao islamismo ou ao cristianismo no séc. XIV e XVI. Alguns poucos grupos conservaram suas antigas crenças, especialmente os udmurtios, porém, com a implantação do comunismo soviético tais tradições foram abandonadas.
      As crenças antigas naquela região eram em torno dos cultos agrários, vinculados que estavam com a organização agrária comum e o culto familiar clãnico aos antepassados. As demais formas de crenças religiosas retrocederam a um plano secundário.
      Nos cultos eram realizados rituais de magias religiosas sempre feitas por ocasião do ano econômico, e neles eram realizadas as sessões de adivinhações que estavam relacionados com as ovelhas e jogos para os jovens. O ponto culminante estava na festa da primavera, pois, antes de iniciar, eram preparados os alimentos rituais. A festa e os rituais eram feitos em bosques ou no campo, locais considerados sagrados e todas as comunidades possuíam seus espaços religiosos. Os alimentos eram oferecidos à mãe Terra, aos deuses e deusas, os protetores das várias atividades humanas. Colocadas em cestas, as oferendas eram postas sob o campo e no alto das árvores, sempre acompanhados de orações e pedidos. Os rituais estavam vinculados, de alguma forma, com a fertilidade da terra e, em algumas vezes os rituais interpretavam um sentido mitológico. Eram também através de uma orientação de magia que as preces e pedidos eram formalizados com devidas finalidades, geralmente específicas para atrair chuva e, em certos casos, praticavam algum sacrifício animal, geralmente de um touro.
       Outro ritual, o do banho coletivo, acontecia quando uma mulher, provavelmente uma sacerdotisa, vestida com roupas rituais, salpicava água sobre os participantes. Os rituais de sacrifício sempre eram orientados pelas crenças mágicas religiosas e tinham as mulheres como principais participantes, eram elas que ministravam todos os rituais, que além da mãe Terra e a mãe Água, outros elementos também recebiam oferendas. Nestes períodos eram obedecidos certos preceitos, um deles era o de não poder cavar o solo, edificar qualquer obra, cortar árvores ou qualquer atividade que tivesse uma conotação em ferir a terra. Preceitos ainda como, não usar roupas coloridas ou fazê-las, pois, todos aqueles que participaram dos rituais tinham que usar roupas brancas por no mínimo dez dias, preceitos obrigatórios que eram suspensos após o período determinado aos rituais ofertados aos deuses. Todos os rituais possuíam uma conotação de magia-agrária, nos quais, após sacrifícios animais, eram eleitos os sacerdotes, os Karti, que dirigiam todo o processo religioso.                         
      Além dos cultos coletivos existiam os cultos desenvolvidos por cada família, o culto familiar clãnico, considerado aos antepassados, eram manifestações particulares e tradicionais no âmbito familiar que consistia em oferendas de um banquete fúnebre em memória de um falecido recente; não raro, os banquetes eram oferecidos no cemitério onde o morto foi sepultado. Os cultos familiares, no entanto, não ficavam limitados aos antepassados, pois todo o povo possuía seus protetores e seus objetos sagrados que eram guardados em lugares especiais dentro das casas ou fora delas, as Kuala, pequenos casebres construídos para a guarda dos vorshud, elementos que simbolizavam os protetores da familia.
      As formas animistas se conservaram entre vários povos do Volga, porém, o que mais caracterizava, eram os diversos elementos e forças da natureza que eram personificados com um predomínio dos espíritos femininos, entre elas estava Ved-ava, a mãe da água; Vir-ava, mãe dos bosques; Norov-Ava; mãe da fertilidade e deusa da colheita; Lurt-ava, mãe da casa e deusa do lugar e Varna-ava a mãe dos ventos. Havia também algumas personificações masculinas como Mastir-pas, o deus da terra que, juntamente com numerosos espíritos e divindades, considerados benévolos a alguns e maléficos a outros, conservavam suas crenças. A supremacia dos deuses estava a cargo de Kugo-Iumo. Kugo Biurshe era o criador da vida e Ikshe-Viurshe era o criador das crianças, a idéia era de que os deuses bondosos residiam no céu e os maus na Terra.
      Formulações de cultos mais antigos guardavam resquícios do shamanismo, os quais possuíam sacerdotes denominados muzhedish, adivinhos que lhes eram atribuídos poderes sobrenaturais pelo fato de fazerem interpretações dos sonhos.                                                                                  
       Os eslavos possuíam como outros povos da região um regime patriarcal clãnico e seus cultos eram vinculados sempre aos antepassados.
      Em todo o território habitado pelas tribos eslavas se conservaram numerosos cemitérios com túmulos, e os ritos funerários eram complicados e variados; a cremação era um costume difundido praticamente em todas as tribos, os enterros deran-se a partir do séc. X, até então, com freqüência, deixavam seus mortos em um bote onde eram cremados sob as águas, uma supervivência de sepultura aquática. Quando enterrados eram colocados junto ao corpo vários objetos, e no caso do morto fosse um homem importante, matavam seu cavalo ou um escravo, e por vezes sua esposa, isso sugeria a alimentação de idéias sobre a vida ultratumba.
       Entre as crenças dos povos eslavos encontrava-se também a crença nos domivói, duendes domésticos; tais seres invisíveis, segundo as lendas, escondiam-se dentro das casas e protegiam seus donos, mesmo parecendo personificar um infortúnio à família.
      Os cultos agrários eram semelhantes ao de todos os povos, e as crenças antigas possuíam uma vinculação com as divindades solar, Svarog, Dazhdbog e Jors, divindades estas que regulavam a agricultura.
      Uma das poucas divindades femininas, Mokosh, integrava o antigo panteão dos deuses eslavos orientais, era a deusa protetora dos afazeres femininos, porém, assim como o tempo passou, passaram os deuses daquele povo, e Dabog, que era um deus protetor foi convertido mais tarde em antagonista do deus cristão.  
                                                                                             
Os deuses etruscos.
       Conta a historia que um povo vindo da Ásia Menor, lá pelos idos de mil anos antes da era cristã, aportou nas terras da antiga Itália trazendo conhecimentos estranhos às populações ali já existentes. Comerciantes que eram trataram logo de construir postos de abastecimentos, estaleiros para reparos em seus barcos e habitações que, com o tempo, tornaram-se cidades. Trouxeram também suas religiões e crenças que constavam na centralização de um deus chamado Tinia e que exercia seu poder por intermédio do trovão e do raio, porém, não guardava os homens diretamente, mas tinha sob seu comando outros doze deuses que, obedientes a suas ordens, formavam o tribunal do além; estes, no entanto, ordenavam aos gênios, vigilantes condutores das almas dos mortos ao tribunal onde eram submetidos a um julgamento, e nele, segundo preceitos, poderiam ser condenados ao inferno ou recebiam as benesses do paraíso onde teriam continuidade aos prazeres terrenos. Quanto ao inferno, caso esta fosse a condenação, a alma ficaria na dependência dos parentes e amigos a fazerem preces e sacrifícios suficientes para obter-lhe absolvição. 
      Os etruscos pouco falavam desse processo (inferno/paraíso), um domínio que conheciam bem, pois os sacerdotes impunham ameaças e sofrimentos mais que esperanças de clemências. Oferendas com sacrifícios humanos eram constates e quase sempre com intenções de salvar um parente ou um amigo, e o sacrificado neste caso era sempre um prisioneiro de guerra, que no início da fundação de Roma muitos dos romanos foram as vitimas. Dos corpos sacrificados eram retiradas vísceras, principalmente o fígado, que era entregue ao adivinho, método utilizado no qual faziam suas previsões, prática esta, mais tarde substituída por vísceras de animais.
      Extremamente místicos reconheciam os presságios por diversos processos divinatórios que, além das vísceras cortadas em pedaços, eram ofertadas a cada um dos deuses na intenção da obtenção de favores. Utilizavam também no processo divinatório, e quando de oportuno, elementos proporcionados pela natureza, como os raios e a revoada dos pássaros nas suas diversas direções. As orientações supersticiosas tolhiam todas as ações do povo, resultando na importância dos presságios que somente os sábios e sacerdotes tinham conhecimentos para decifrar.
      Os deuses etruscos representavam uma derivação da religião desenvolvida na Grécia, a qual, evidenciada através das lendas e estátuas que os representavam, como também das atribuições distintas a cada uma das divindades. Seus templos eram geralmente consagrados a uma tríade divina. O deus Tin, que configurado a Zeus, representava um deus todo poderoso; Uni que tinha as mesmas características de Hera e Atena, possuíam o mesmo nome. No entanto, existiam alguns santuários dedicados a uma única divindade, como a deusa Turan, que era considerada a deusa do amor e correspondia a Afrodite ou Vulca que representava Febo. Muitos outros deuses faziam parte do panteão Etrusco, no entanto, estes tinham somente relação com as atividades mais corriqueiras, pois todos os homens viviam subjugados por uma crença na existência de forças espirituais que traçavam seus destinos.
      Tais conhecimentos não foram criados simplesmente por intermédio da oratória; livros sagrados e experiências adquiridas através dos tempos tornaram-se uma ciência, onde rituais meticulosos eram desenvolvidos antes mesmo de qualquer vaticínio ser executado pelos sacerdotes. Os sacerdotes eram procurados sempre na esperança de exercerem alguma influência sobre os deuses ou qualquer potência advinda do sobrenatural.  
    
Uma ponte para os deuses.
      Quando os continentes Asiático e Americano ainda eram unidos por uma ponte de terra e gelo há milhares de anos, estudos indicam que uma corrente migratória asiática veio povoar as Américas. Após um longo período e de muitas gerações o desenvolvimento se deu sob uma obscura história, porém, no imenso território surgiram muitas civilizações dando origem aos primeiros povos americanos que criaram diferentes culturas.
      Por muitos séculos os primeiros povos da América do Norte eram constituídos de tribos nômades que viviam na região Ártica, território que se estendia do Alaska à Groelândia. Dominada pelos esquimós, que quase nada deixaram de vestígios com sentido religioso, a não serem algumas pequenas esculturas de animais feitas em marfim e máscaras talhadas em madeira e ossos, objetos que configuravam a existência na crença de Seres sobrenaturais.
      Denominadas inua, as máscaras eram utilizadas durante as cerimônias religiosas como forma de comunicação com um mundo espiritual, que segundo as crenças dos esquimós não havia separação entre o Ser humano e os animais. As máscaras representavam rostos humanos com características de animais e, que por vezes, eram confeccionadas com duas tábuas móveis que se abriam simultaneamente; com o tempo as máscaras passaram a ser confeccionadas adquirindo formas mais grotescas e perderam o caráter religioso.
      Mais para o sul, nas florestas que cobriam um vasto território estendido no litoral noroeste da América do Norte até o Alaska, as tribos dos Haida, Kwakiut e Tlingt, desenvolveram um modo de vida regida de acordo com uma hierarquia composta de castas, eram nobres, plebeus e escravos, iniciando na região o sistema clânico tribal. 
      Nesta região, quando do início do inverno e as primeiras nevadas se davam, todas as formas de trabalho eram suspensas, pois se sobrepunha às festas os cerimoniais religiosos, rituais de inverno, período quando todos organizavam espetáculos motivados por crenças no sobrenatural. Os espetáculos envolviam personagens que representavam a morte e a ressurreição, e os membros de uma sociedade secreta, representavam como atores o terror desencadeado nas comunidades quando atacavam e matavam escravos.
      Os povos primitivos da América possuíam um panteão complexo que reunia muitos deuses que em suas crenças regulavam a divisão da sociedade e determinavam os privilégios das camadas aristocráticas.
      Os totens e as máscaras feitas em madeira tinham destinação às cerimônias que representavam misticismo ou histórias familiares.
      Na região sudoeste do continente viveram os Pueblos, também conhecidos por Avasazi, que desde o século VII habitavam a região, porém, somente chegaram ao apogeu entre os anos 1300 e 1400, até então, tinham vivido em grutas ou em aldeias nas quais tinham ao centro um espaço livre em forma circular e subterrânea denominada kiva, local onde as cerimônias sagradas eram realizadas. Pequenas imagens feitas em madeira e ornamentadas com panos coloridos, denominadas hopi ou kachinas, eram os objetos integrantes de rituais propiciatórios das chuvas; tais objetos representavam espíritos benignos e intermediários entre homens e deuses, que além de terem funções sagradas serviam também para instruir as crianças numa forma de familiarização com o sagrado e as tradições religiosas.
      Assemelhando-se a uma colina os túmulos eram construídos com terra, porém, em pouco tempo e devido às intempéries poucos vestígios restavam.
      Ao sul do continente, onde hoje se localiza o México, florescia um grande império, os Maias, um povo que estava naquela região pelo menos 1000 anos AC. vivendo sob uma organização social e um sistema político religioso desenvolvido. Descendentes das culturas Zacatenco, Arborilo e Tlatilco desenvolveram grandes cidades, tais como: Uaxactun, Tikal, Yaxchilán e Oaxaca, a cidade dos deuses com palácios e templos.
      Transcendendo os limites entre o real e o fantástico, os deuses faziam parte de uma interpretação dos mitos materializados nas concepções mágicas e religiosas onde, os habitantes da região, foram considerados, no decorrer do tempo, apenas como humildes servidores de inúmeras divindades e importantes auxiliares na gigantesca tarefa de manter o equilíbrio cósmico.
      Na arte, o povo tinha como objetivo criar imagens dos deuses e inúmeros objetos utilizados nos cultos, sobretudo, das expressões ao inexplicável, materializando sempre as concepções mágicas e religiosas. Nos templos, em forma de pirâmides com a base circular, eram depositados inúmeros objetos e figuras relacionadas a funções religiosas.
      Os Olmecas, prováveis precursores de todas as tribos, deixaram poucos vestígios de sua cultura, no entanto, foi um povo que influenciou todo o desenvolvimento dos povos mexicanos; foram os primeiros a esculpir os sarcófagos e altares em pedra, faziam grandes totens em forma de cabeças em um único bloco de pedra pesando várias toneladas, que lavradas e de conformidade com a incidência da luz, mudavam as expressões. As máscaras e estatuetas em jade possuíam suas distinções pela proeminência do ventre, algumas com traços humanos, outras com traços de felinos, inspirando certamente alguma divindade destinada a funções de magia.
      Da magia religiosa surgiu o mito e, em uma das estórias, conta quando tudo era noite e não havia a luz do dia. Os deuses se reuniram juntamente com o deus Teotihuacan, criador do Universo, e falaram quem tomaria sobre si o encargo para que houvesse a luz e os dias. Na cidade dos deuses, segundo esta estória do mito do nascimento, dois deuses se dispuseram a oferecer suas vidas para que em troca houvesse a luz e os dias. Uma fogueira foi preparada para o sacrifício, e o primeiro deus, Tecuciztécatl, tenta por várias vezes lançar-se nas chamas, mas devido ao medo fracassa. Nanahatzin, o segundo deus, lança-se ao fogo sem vacilar e é consumido pelas chamas, o destino transforma-o no sol. Desesperado, o primeiro deus cria coragem e lança-se na fogueira transformando-se na lua. Sol e lua brilham juntos no céu, porém, não agradam aos deuses.  Um dos deuses então arremessa contra a lua sua lança para que ela se afaste do sol e brilhe somente durante a noite. Contudo, nem sol nem lua movem-se. Os deuses então decidem lançarem-se todos em sacrifício e morrem para que os Seres possam viver. A lua e sol moveram-se, surgindo assim os dias e as noites dando inicio a vida dos homens.
      Todo este mito foi a base da religião, e o povo sentiu-se na obrigação de agradecer aos deuses; construíram oratórios em forma de pirâmides e, ao sol e a lua, promoviam seus cultos e faziam suas oferendas.
      As cidades eram governadas por sacerdotes e, rostos dos deuses esculpidos em pedras, carregados de sabedoria, revelavam as brilhantes civilizações.
      Huehuetéltl o senhor do fogo; Xipe o deus da fertilidade do solo; Xipe Totec o senhor desolado; Quetzalcoatl, a serpente emplumada, era também uma divindade considerada como protetora das artes a das ciências; Xochipilli o senhor das flores, divindade da alegria, da música e da dança; Tlotoc o deus da chuva, da fecundante da terra e senhor das águas azuis; Centeotl a personificação do milho, principal fonte de alimento; Tonantzin a deusa da fertilidade e da procriação; Tlazolteotl a deusa do parto; Tezcatlipoca que personificado ao sol, tinha sido anteriormente um deus pertencente aos Texocos, uma das principais tribos. Todos pertenciam ao um panteão de deuses cultuados por toda aquela região.
      Existiam ainda as divindades agrárias, e uma das mais cultuadas era Huitzilopochtli, considerada a principal celebrada duas vezes ao ano e, em uma das celebrações, constava de rituais festivos que, por ocasião, uma grande imagem da divindade era feita e no seu interior eram colocados pão e mel, e uma vez terminado os ritos a imagem era rompida, e os participantes da festa, comiam o pão e o mel, tratava-se do ritual de teofagia, hábito praticado por muitos povos da antiguidade.
      Dos rituais de sacrifícios humanos o principal era o da primavera em honras ao deus Tezcatlipoca; o ritual constava primeiramente de uma eleição de escolha para o sacrifício, o escolhido, um escravo, era aquele sem nenhum defeito físico, tornava-se a encarnação do deus e passava a viver durante um ano rodeado de luxo e honras, porém, vinte dias antes da festa quatro mulheres eram-lhe entregue, estas passavam a sererm deusas; no dia da festa, o prisioneiro pagava com sua vida todas as honras recebidas, era quando os sacerdotes o encaminhavam para o templo, e no altar seu peito era aberto com uma faca de pedra e o coração arrancado e oferecido ao deus sol.
      Ao sol eram dedicadas as maiores pirâmides, sugerindo ao povo elevação aos céus e o encontro com os deuses. O milho, que representava a base econômica e alimento dos Maias era considerado alimento sagrado, pois a partir dele o homem teria sido criado.
      Os sacerdotes pertenciam a uma classe nobre e independente de maior prestígio. Toda arquitetura possuía um significado religioso, que agrupados, os prédios formavam um centro consagrado onde os deuses eram cultuados, e no interior dos templos, com várias salas carregadas de símbolos, a principal era dedicada ao santuário propriamente dito.
      A segunda maior civilização, os Astecas, povo mais numeroso e mais adiantado, dominaram várias tribos e incorporaram alguns deuses à sua cultura, entretanto, outros impérios independentes, como os Zapotecas, Mixtecas, Huaxtecas, Totonacas, e Olmecas, colaboraram para o desenvolvimento dos conhecimentos materiais, filosóficos e religiosos de toda a região.
      Os presságios eram determinados através dos jogos de dança que eram realizados com uma pelota, estavam relacionados aos rituais consagrados a deuses específicos; tais jogos traziam uma simbologia que tornava equivalente a uma cerimônia religiosa.
      Grandes cidades se desenvolveram na época; Yucatan a maior delas, era o centro religioso onde os templos tinham grande popularidade, e numa tentativa de centralizar os cultos das diversas divindades foi estabelecido o culto Estatal. Mesmo pertencendo a uma casta de nobres, os sacerdotes formavam uma corporação hierarquizada, e as sacerdotisas eram presididas por uma sacerdotisa suprema; havia ainda os adivinhos, os curandeiros e feiticeiros que utilizavam métodos xamânicos em suas atividades.
      Mais ao sul, após uma estreita faixa de terra, encontrava-se a civilização dos Incas que, divididos em diversas nações, tinham como principal objetivo religioso o culto dedicado ao deus sol, protetor de todos os homens; seu templo ficava em Cuzco, capital e principal santuário da divindade. O deus sol tinha sua representação sob a forma de um grande disco de ouro com raios e um rosto humano, uma personificação do mandatário do poder que era considerado filho do sol e que também possuía o cargo de sacerdote supremo.
      Formada por povos que pertenciam a regiões próximas das cordilheiras na América do Sul possuíam estranhos costumes religiosos, um dos quais, ao enterrar seus mortos, faziam-nos em covas rasas dentro ou fora das habitações sempre envoltos em tapetes feitos de vime; por vezes, tinham os membros decepados ou simplesmente dobrados em posição de cócoras. Desta época, no entanto, não deixaram vestígios de templos, porém, há de se supor a existência de alguns cultos.
      Foi preciso passar dois mil anos para que o povo Inca vivesse o apogeu e desenvolvesse uma religião coerente para os padrões culturais. Contam as lendas, que o império Inca tinha nascido depois que as trevas foram afugentadas por Viracocha, um deus supremo, o qual ordenou ao sol que enviasse à terra seus filhos Manco Capac e Mama Ocllo, esposos e irmãos, que munidos de uma cunha de ouro deveriam golpear o solo por onde pisassem, e no lugar onde a cunha se fundisse seria o local indicado pelo sol para a fundação do império; Cuzco tornou-se a capital do império, que primeiramente chamavam-na de Tahuantinsuyo.
      O deus gato, que se repete na cosmologia dos Incas durou mil anos, quando então já possuíam templos construídos com grandes blocos de pedras e decorados com motivos alusivos onde apareciam sempre as ambigüidades homem-animal.
      Em algumas regiões nos altiplanos peruanos, em lugares coletivos, eram sepultados os corpos mumificados envoltos em um tecido de algodão, e ao lado do morto, taças decoradas, pratos de madeira, pilões e alguns objetos de uso pessoal; em outros casos, as múmias eram envoltas em vestimentas mais requintadas que, além de seus pertences pessoais, eram colocados pequenos vasos e esculturas de animais domésticos e selvagens, sempre relacionados com a idéia de sobrevivência ou em crenças mágico religiosas.
      Entre os anos l000 e l300 no império de um deus denominado Tiahuanaco surgia um grande centro religioso com templos e estátuas que representavam deuses e ofertantes. Tiahuanaco, conta uma lenda, foi um deus que derramou suas lágrimas ao fazer os Seres, ao chorar, a cada gota que saia de seus olhos iam surgindo os Seres no mundo - uma serpente, um puma, um condor ou uma série de Seres mitológicos.
      Em uma grande superfície ficava localizada a cidade de Chanchan, recoberta de pirâmides, servia ao mesmo tempo de túmulo e templo, porém, na cidade de Cuzco, capital do império Inca, era onde ficava centralizada toda a estrutura religiosa.
      Descendentes do sol, como eram conhecidos, prestavam seus cultos aos deuses ladeados por outras divindades guardadas por esculturas monolíticas de guerreiros e demônios. O culto aos deuses do panteão Inca impunha por vezes sacrifícios humanos, o que normalmente ocorria nas vésperas de algum acontecimento importante, como na posse de um novo rei, uma campanha guerreira ou outro fato que fosse de relevância.
      No vasto império Inca existiram muitas outras cidades, e em algumas delas eram professadas religiões monoteístas, pois o culto a uma só divindade e a condenação aos sacrifícios humanos, conduzia os fiéis a uma conduta moral perfeita. Quetzalcoatl o deus único, reinou por muitos anos, porém, o misticismo e as crenças mais antigas continuaram a dominar todos os povos da região. No entanto, de nada valeram as demonstrações dos poderes místicos, pois, em 1532, os espanhóis invadiram toda àquela região dizimando o povo e a cultura, restou apenas sob as ruínas o uivar dos ventos, o lamento dos deuses pelas suas fraquezas de não terem sido suficientemente fortes para defender todo aquele povo que tantos sacrifícios lhes prestaram; resta agora somente o vôo de um condor,  e quem sabe nele, encarnado o espírito de um daqueles deuses.  
                                      
Deuses e Seres míticos de Pindorama.
      Antes do “descobrimento” do território brasileiro pelos portugueses toda a terra era denominada Pindorama pelos nativos, uma terra encantada cheia de palmeiras onde existiam grandes nações indígenas que viviam cada uma com suas culturas muito particulares, com suas crenças e costumes “primitivos”, e eram felizes com seus deuses e suas guerras. Algumas tribos eram nômades, outras formavam grandes aglomerados, mas não chegando a formar cidades, pois eram muito primitivos e viviam em constantes mudanças dentro do imenso território, mas sempre conservando seus hábitos, tanto na cultura como na religião.
      Na mitologia Guarani Nhamandu era considerado o deus supremo da criação, e a lenda contam que de tão grande desdobrou-se para fora de si como uma flor, momento em que gerou os demais deuses.
      Apesar das muitas tribos em diferentes regiões todas elas possuíam suas crenças e formulavam rituais diferenciados umas das outras, acreditavam nas forças da natureza e em espíritos dos antepassados, motivos pelo qual faziam seus rituais, cerimônias e festas, e tudo era transmitido pelo pajé, possuidor de todos os conhecimentos que, sempre habilidoso no trato com o sagrado, passava seus saberes às gerações de novos pajés.
      Costumeiramente algumas tribos usavam grandes vasos de cerâmica para sepultar seus mortos, com eles também eram enterrados objetos pessoais demonstrando a crença numa vida pós-morte.
      Os pajés faziam uso de determinadas ervas em ritos xamãnicos e, Jakairá, o senhor da névoa da fumaça é que proporcionava inspiração para que tudo acontecesse. Normalmente nesses rituais xamãnicos ocorriam os fenômenos da grande espiritualidade que o pajé possuía, não obstante de até mesmo as curas feitas com os conhecimentos das ervas medicinais existentes.
      Karaí, o senhor do sol e do fogo era sempre reverenciado, assim como Tupã o senhor das águas, e além dos deuses principais, existiam uma infinidade de outros Seres mitológicos que povoavam o universo indígena na Terra de Pindorama. Neste universo encontrava-se Abaçaí, o gênio maléfico que perseguia os jovens guerreiros, e quando os pegava tornava-os possessos. Abeguar era o senhor dos ventos que estava associado aos vôos dos pássaros e Amanacy a mãe das chuvas e das nuvens.
      Vários eram os povos que habitavam o continente, que separado pelas grandes florestas, rios e montanhas, cada um deles possuíam seus deuses e Seres míticos.


                                   Os deuses da África primitiva.
                 Primeiras manifestações religiosas no continente africano.
                                               
      A África foi um continente habitado por povos que alcançaram diversos níveis de desenvolvimento e em condições materiais e culturais muito diversas, principalmente no tocante a religiosidade. A população podia ser dividida quanto a fatores sociais e econômicos em três grupos. Os mais atrasados eram as tribos nômades de caçadores e coletores, pois não conheciam a agricultura e nem tampouco eram criadores de gado. Definidos como bosquímanos e pigmeus, habitavam a África central, contudo, a maioria dos povos era composta por uma população agrícola e criadora de gado, estes, no entanto, encontravam-se ao sul do continente da faixa tropical; eram tribos pertencentes ao povo banto, povo formador de diversos grupos idiomáticos do Sudão que viviam próximos aos grandes lagos. Ao norte e noroeste do continente existiam povos de antigas civilizações, população que compunha os habitantes do Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Etiópia, e Somália.
       Os primeiros grupos, Bosquímanos e Pigmeus foram caracterizados pela forma sumamente arcaica de produção material e sem conteúdo de uma estrutura social cultural, pois não saíram dos marcos de um regime comum primitivo. O segundo grupo, povo Banto, mais numeroso, era diferenciado pelas diversas etapas do processo de decomposição do regime comum clãnico e clãnico-tribal, e também por terem passado por uma transição da sociedade de classes. O terceiro grupo, povos mais próximos ao mediterrâneo, viviam uma existência comum, pois, desde tempos mais antigos mantinham um relacionamento com a civilização grega e oriental, povos que estavam em estágio mais adiantado e, por conseguinte, a religião dos povos africanos constituiu um quadro muito diverso.
      Entre os bosquímanos, grupos de tribos caçadoras do sul da África conservaram as formas mais arcaicas de estrutura econômica, social e religiosa; descendentes de antigas populações em tempos remotos, foram substituídos por povos agricultores e criadores de gado  que vieram se estabelecer posteriormente na região. A colonização holandesa e inglesa, desde o séc. XVII até o séc. XIX promoveu o extermínio da maior parte das tribos bosquímanas, deste fato, no entanto, não há registros disponíveis sob a fragmentação de tal cultura, em especial nas crenças religiosas; sabe-se somente que as tribos bosquímanas eram compostas de clãs independentes de origem matriarcal e totêmica. Os ressábios do totemismo se advertiam nos nomes dos animais que eram dados aos clãs, nos desenhos rupestres de figuras semianimais ou semi-humanos, e ainda nos mitos a cerca dos animais que haviam sido homens ou em homens que se transformaram em animais. Acreditavam na vida pós-morte e possuíam um grande temor aos mortos, aos quais, rendiam cultos com rituais especiais sempre praticados ao enterrá-los, porém, não rendiam cultos os seus antepassados.
       Mesmo não possuindo uma religião desenvolvida, os bosquímanos, como povo caçador, mantinham de alguma forma um relacionamento com o sobrenatural e possuíam uma espécie de culto propiciatório no qual formulavam orações implorando êxito nas caçadas; os cultos eram também formulados aos diferentes fenômenos da natureza, assim como, ao sol, a lua e as estrelas, elementos considerados sobrenaturais. Iguais preces eram dirigidas ao grilo reza deus, inseto denominado Ngô, objeto de veneração, pois tal inseto estava relacionado de alguma forma com um espírito invisível celestial tido como criador da Terra e dos homens. Ngô-Tsgn era assim que o chamavam e com freqüência aparecia nos mitos bosquímanos. Tal figura, de Ser celestial, evidentemente era complexa para os bosquímanos, pois o herói cultural e demiurgo teria sido um antigo totem que, além de suas relações diretas com o grilo, apresentava também traços totêmicos enlaçados através da mitologia com outros animais. A esposa de Ngô-Tsgn era uma coruja, sua irmã uma garça e sua filha adotiva um porco espinho. Porém, em um dos aspectos Ngô-Tsgn teria sido o patrono das cerimônias tribais de iniciação onde, durante os ritos de magia um bailado era executado, o mokomá, uma dança praticada durante os rituais de consagração e iniciação dos adolescentes.
      As outras populações formadas por tribos primitivas, os pigmeus, viviam em pequenos grupos dispersos na beira do rio Congo e em outras partes da região central do continente. De origem desconhecida, há muito tempo mantinham contato com povos mais cultos, porém, conservaram a estrutura arcaica de economia baseada na caça, na pesca e na coleta de alimentos, mantendo assim uma forma primitiva de um regime comum social.
      Poucos foram os grupos conhecidos como também suas crenças religiosas. Os bambuti, um dos grupos, depositavam suas crenças numa relação com a caça mantendo suas superstições como regras básicas cumprindo determinadas proibições a respeito; o principal objetivo de veneração era em um espírito do bosque, uma espécie de pai dos animais selvagens que os caçadores dirigiam pedidos e orações antes de sair para alguma caçada. Tal espírito ou deus da selva recebia diversas denominações ficando no imaginário distante e confuso - Toré era um deles.
      As crenças eram qualificadas como totêmico-mágicas e se mantinham entre os bambuti muito firmes, muito mais que nas tribos das vizinhanças. Os totens eram exclusivamente clãnicos e não existia o totemismo sexual nem o individual; porém, além de serem reverenciados, os totens do clã eram também reverenciados os totens do clã das esposas, e na maioria os totens eram figuras de animais, que a mais amiúde pareciam figurados leopardos, chipanzés, serpentes, antílopes e casualmente insetos; não raro também algumas árvores eram reverenciadas. Consideravam o totem como um parente próximo ao qual o chamavam de pai e acreditavam que todo o clã dele descendia; era proibitivo a qualquer membro do clã comer carne do animal que representasse o totem, inclusive tocar em alguma parte de seu corpo por acreditarem que a alma de toda pessoa se convertia, depois de morto, no animal totêmico correspondente ao totem do clã.
      Os bambuti acreditavam ainda em certas forças mágicas denominadas megbe, uma força que ligava o homem com seu totem, e esta mesma força era convertida ao caçador para que ele tivesse êxito nas caçadas.
      O sistema de iniciação dos adolescentes acontecia através do ritual de consagração coletivo, que na ocasião, todos os varões entre nove e dezesseis anos passavam pelos rituais que consistia na circuncisão e outras provas, ocasião em que os jovens passavam a conhecer os objetos sagrados. O ritual era realizado em uma choupana localizada no bosque especialmente construída para tal finalidade, cerimônia onde todos os homens da aldeia participavam, as mulheres não participavam, pois o ritual era feito sempre referendando à Toré o espírito da selva; esta iniciação tinha por objetivo fazer com que os jovens passassem a conhecer as forças mágicas necessárias aos caçadores que formavam uma liga secreta masculina.
      Os bambuti não possuíam cultos funerários desenvolvidos, suas idéias sobre os espíritos dos mortos denominados lodi, eram muito confusas, porém acreditavam que os espíritos encarnavam nos totens uma figura mitológica de um Ser celestial, Mugasa, um criador relacionado com a lua e as tempestades, no entanto, este Ser não era cultuado por ser considerado um Ser maligno.
      Parte do continente africano situado ao sul do deserto do Sahára alcançou desde há muito tempo um nível mais elevado de desenvolvimento social, pois, conheciam a agricultura, e muitos dos povos, especialmente os do sudeste e os da parte oriental do continente, tinham por hábito a criação de gado e outros animais domésticos. A agricultura e o comércio se deram em diferentes graus de desenvolvimento, portanto, levavam uma vida sedentária nas aldeias, surgindo cidades- Estados e um variado número de profissões, particularmente a ferraria e o intercambio comercial.
      A estrutura da maioria dos povos era de origem clãnica tribal com distintas etapas de desenvolvimento. Nos grupos, especialmente dos agricultores da África ocidental e central, foram conservados fortes indícios do clã matriarcal, porém, em outros, e particularmente entre as tribos do sudeste e na parte oriental, as relações eram patriarcais clãnicas. Na maioria dos povos houve o estabelecimento de Estados primitivos do tipo semifeudal, mais precisamente em Bornéu, Wadai, Dahomey, Zambezia – Zimbabuwe, Uganda e Unioro. No sudoeste, em tempos mais recentes, no séc. XIX surgiram as primeiras uniões tribais militares e democráticas que se transformaram em pequenos Estados, entre os principais estavam os zulús, os makolos e os matabeles.
      As diferentes condições materiais de vida e as distintas características da estrutura social determinaram as fases das religiões que predominaram entre àqueles povos que, não obstante, havia fatores essenciais muito similares em suas crenças religiosas. O mais característico nas religiões daqueles povos era o culto aos antepassados, desenvolvidos tanto entre tribos agrícolas como nas nômades, porém, conservando algumas formas da estrutura clãnico-tribal.        
      A raiz histórica do culto aos antepassados teve origem nos regimes patriarcais clãnicos que, em alguns povos, esse culto foi vinculado através da vivência com os clãs matriarcais muito fortes em algumas partes, especialmente nos povos agrícolas. Na medida em que foi se estruturando a família individual o culto aos antepassados tomou formas familiares que, por comum, eram difíceis de separar das propriamente clãnicas.
      Devido as uniões tribais e inter-tribais a formação dos Estados primitivos desenvolveu-se, tanto os cultos tribais quanto os cultos nacionais, iniciando-se então a divinização dos antepassados, mais relacionados aos chefes tribais e reis, surgindo daí os deuses demiurgos protetores da família.
      As formas familiares clãnicas dos cultos aos antepassados e as crenças dos povos africanos nos espíritos dos seus ancestrais, figuraram geralmente como protetores da família e do clã, no entanto, tais protetores não eram assim tão benéficos ou bondosos, pois, em conseqüência da sua própria natureza, exigiam com freqüência sacrifícios e adorações que, somente com essas condições protegiam seus descendentes e, em caso contrário os castigava. Freqüentemente as enfermidades e outros males eram sempre atribuídos aos espíritos predecessores e, em alguns casos, provocados por algum antepassado de outro clã.     
      Os tonga, tribo do sudeste africano cultuavam alguns de seus mortos, denominavam-nos shikwmbu e, cada família reverenciava a dois grupos de espíritos de antepassados, os da linha paterna e os da linha materna, porém, em algumas ocasiões a preferência era dada aos últimos, o que provava uma maior afinidade com o regime matriarcal tornando o culto mais direcionado àqueles espíritos puramente familiar. Os homens dirigiam seus rituais e seus sacrifícios em ocasiões especiais, como no caso de sucesso familiar ou de enfermidades, e na ocasião eram feitas oferendas e sacrifícios. As mulheres casadas não participavam da veneração aos antepassados da família, pois provinham de outro clã, os quais possuíam seus próprios antepassados. Todos, depois de mortos eram convertidos em espíritos passivos de veneração no seio familiar. Os tonga acreditavam que o morto conservasse suas características humanas, e desta forma, requeria atenções.
       Para os povos africanos os antepassados eram os vigilantes dos costumes e das normas morais, os espíritos moravam nas selvas fechadas pelas cercanias do lugar onde foram sepultados, porém, podiam aparecer aos homens em seus sonhos tomando formas de animais.
      O povo de Jagga na África ocidental, também possuía características idênticas quanto ao regime social e religioso, estes veneravam os espíritos dos que haviam morrido mais recentemente, isso porque, se recordavam bem e acreditavam que se lhes oferecesse sacrifícios abundantes, tais espíritos lhes favoreceriam, já os espíritos mais antigos não recebiam sacrifícios, pois sempre eram substituídos pelos mais recentes, o que os induzia a distanciar-se de seus descendentes e que desta forma desapareciam da memória dos vivos deixadndo de serem venerados.
      O totemismo se conservou entre os povos da África somente na forma de algum temor que, diversificada com maior freqüência nas denominações totêmicas dos clãs, refletiu sempre a proibição de comer determinados animais. Nos povos do sul e África oriental, os totens eram principalmente de animais domésticos, outras manifestações de crenças e rituais totêmicos eram poucos freqüentes.
      Outro povo que conservou seus costumes religiosos, mais que outros, foram os bechuanas, estes, no entanto, se dedicavam mais a danças totêmicas especiais, pois cada clã possuía uma dança própria, e por esse motivo, quando queriam saber a que clã pertencia um indivíduo, perguntava a ele qual era sua dança. Os batokas, grupo étnico próximo aos bechuanas explicitavam seus hábitos em quebrar os dentes dianteiros pelo desejo de parecerem com o touro selvagem, animal totêmico, o que recordava o costume de uma supervivência com antigos cerimoniais de iniciação.
      Os povos agricultores, particularmente da África ocidental, o totemismo clãnico conservou-se em forma igualmente debilitada, porém, em alguns lugares tomou formas que expressavam na veneração local com certas espécies de animais, provavelmente de antigos totens. Este fenômeno transcorria ao sul da Nigéria e no Dahomey entre os bawendas, evidenciando assim, que o culto totêmico clãnico era um fator determinante pela transformação da comunidade.
      Contudo, o culto aos animais, a zoolatria, era bastante difundido na África e estava sempre ligado às origens do totemismo, que na maioria dos casos, suas raízes eram mais diretas e imediatas ao temor supersticioso às forças selvagens e perigosas ao homem.
      O animal que possuía uma particular veneração na África era o leopardo, uma das feras mais perigosas, porém, não impedia que muitos povos o caçassem; seu culto estava vinculado ao totemismo somente de modo indireto e, em alguns lugares, como no Dahomey, era considerado o totem do clã real.
      Era também muito difundido o culto das serpentes; na região de Uida, existia um santuário onde os répteis eram cuidados por um sacerdote especial que as alimentava e tomava-as nos braços envolvendo-as em seu corpo. Os povos que as adoravam consideravam um grande crime causar-lhes um mínimo de dano.
      Os povos agricultores atribuíam grande importância ao culto comum das divindades protetoras agrárias, e em geral ao culto aos espíritos e aos deuses locais. Este culto adquiriu especial desenvolvimento na Guiné e em torno dos povos da costa do ouro em Gana, onde toda aldeia, casa ou comarca possuía seus espíritos e deuses locais. Todas as comunidades participavam da veneração dos deuses que eram denominados boshum, porém, alguns deuses não tinham tanto suas atenções, pois os consideravam malvados e hostis e, para ganhar favores, deveriam ser oferecidos sacrifícios especiais; quase sempre, os boshums eram representados com aspectos humanos e, em alguns casos, figuravam um Ser monstruoso que surgia dos bosques, colinas ou rios, lugares onde reinavam.
      Na Nigéria os povos adoravam divindades locais figuradas como animais; evidentemente tratava-se de tradições totêmicas; no entanto, nem todos os povos conheciam divindades com funções específicas, muito menos o protetor da agricultura, porém, os zulús no sul do continente, possuíam um culto bem definido e relacionado com uma princesa celestial, Nanikubulwana, uma deusa que fertilizava os campos e era considerada criadora mítica da agricultura.
      Boshum em alguns idiomas do continente provém do nome dado aos ídolos que o chamam pelo mesmo nome. A partir do séc. XV quando o continente foi mais visitado pelos europeus o termo fetichismo foi aplicado a todas as religiões dos povos africanos e com a colonização todos os nativos passaram a ser tratados como selvagens. A ciência de então, formou opinião de que o fetichismo era uma forma antiga das religiões em todo o continente. No entanto, com um estudo mais aprofundado, demonstrou que as crenças e cultos eram um patrimônio quase exclusivo da África ocidental e que àqueles povos não eram tão atrasados, pois a maioria tinha um legado de regime social classista e ficava evidente que o fetichismo não constituía para eles uma forma antiga, mas sim uma forma tardia de religião.
      O culto aos protetores clãnicos e deuses locais, os boshuns não satisfazia a todos e o homem não satisfeito com as pretensões coletivas, procurou para seu uso pessoal um fetiche, o shumam, algo oculto que estava vinculado com a religião tradicional.
      Na África, o culto aos fetiches se desenvolveu como uma peculiar forma de individualização da religião devido a desagregações das antigas relações clãnicas. Os indivíduos se sentiram insuficientemente defendidos pelos protetores coletivos buscando para si proteções no mundo das forças misteriosas de uma forma mais individualizada.
      Podia ser convertido em fetiche qualquer objeto que houvesse impressionado a imaginação do homem; uma pedra de forma ou cor insólita, um pedaço de madeira, partes do corpo de um animal ou estatuetas que representassem algum ídolo, porém, a utilização de tais fetiches era descartável, pois podiam lograr êxitos ou derrotas de acordo com seu comportamento, e não raro, eram lançados fora por algum descontentamento de quem os possuía, sendo logo substituído por outro.
       Era também particularmente interessante o costume de atormentar o fetiche, não para castigá-lo e sim para impulsioná-lo a uma ação e, para solicitar alguma coisa, eram-lhes incrustados cravos de ferro, pois supunham que o fetiche ao experimentar a dor recordaria melhor dos pedidos feitos.
      O desenvolvimento dos cultos tribais estava vinculado praticamente em todo o continente, e a diferenciação das funções sacerdotais, como função especial, teve grande importância na África ocidental onde o sacerdócio adquiriu status de uma instituição.
       A maioria dos povos possuía sacerdotes de diferentes categorias e especialidades. Os sacerdotes oficiais da tribo e dos templos eram os responsáveis pelo culto professado pela comunidade ou Estado; os de prática livre exerciam funções de curandeiros, feiticeiros e adivinhos, atuando sempre a pedido de um individuo.
      Os sacerdotes dos templos da tribo gozavam de maior influência e cada templo era como se fosse uma pessoa jurídica possuidora de bens, assim como escravos que formavam a população dependente do templo. Os sacerdotes eram os beneficiários, e na medida em que era produzida a diferenciação, segundo os bens materiais dentro da tribo, o sacerdote passava a ocupar posição de uma hierarquia rica e dominante.
     Nos povos agricultores os sacerdotes do culto oficial se prestavam a fazer magia meteorológica formulando rituais para provocar chuva; o povo de Jagga foi o que mais se utilizaram daqueles sacerdotes, os fazedores de chuva como eram chamados.
      Entre as funções oficiais do sacerdote também constavam os rituais de magia militar e os sacrifícios oferecidos às divindades, no entanto, a missão mais importante, em especial na parte ocidental do continente, consistia em intervir na administração da justiça. Nos Estados primitivos formados pelas várias tribos eram utilizados procedimentos judiciais, nos quais, era atribuída uma grande importância, particularmente, ao estabelecimento pelos meios da magia religiosa, pela culpabilidade ou inocência dos acusados, ou a razão de um ou outro litigante.
      Os sacerdotes de prática livre, feiticeiros e curandeiros se dedicavam preferencialmente em curar os enfermos e todo tipo de predições e vaticínios, existindo também neste grupo ramificações de especialização.
      Muitos curandeiros profissionais empregavam em seus tratamentos métodos de rituais xamãnicos provocando êxtasi com danças frenéticas ao som de gritos selvagens ao som de golpes ritmados em tambores e em outros instrumentos.
      Juntamente com os sacerdotes e xamãs os guerreiros ocupavam um lugar especial, não menos notório na religião dos povos da África. Em todas as tribos os guerreiros possuíam prestígio e eram respeitados, e na maioria dos povos tornava-se uma profissão especial transmitida por herança; os conhecimentos e as habilidades, inaccessíveis a qualquer um, faziam deste grupo de homens um grupo especial que procuravam manter sua reputação.
      Um guerreiro podia enviar um malefício a um inimigo por meio de seus instrumentos, particularmente o martelo, um dos mais temidos e importante instrumento de feitiçaria. Em geral, o martelo foi um instrumento de ferraria considerado um artefato de feiticeiro e ninguém se atrevia tocá-lo, pois os objetos feitos de ferro serviam de amuletos protetores.
      Assim como os guerreiros possuíam uma seita secreta entre as corporações sacerdotais, outras ligas existiam na África ocidental que funcionavam com poder de polícia, e que por vezes, extrapolavam suas funções cometendo abusos se dedicando a extorsões, tudo acontecia sob as vistas ou abaixo de rituais religiosos, pois estavam vinculados com crenças animistas e mágicas que serviam também para aterrorizar as populações.
       Uma das maiores ligas, os Egbá, no Calabar e Comerú, se dividiam de sete a onze classes, mas somente a aristocracia tinha acesso às classes superiores, pois, o chefe da liga e todos os membros eram aliados do rei ao qual eram encaminhadas todas as queixas e disputas. O executor das decisões da liga usava uma estranha vestimenta e, através de rituais, dizia-se ser a encarnação do espírito Iden. Na região do Gabão o chefe desempenhava papel idêntico na liga secreta do terrível espírito da selva N’da.
      Os iorubas possuíam a liga Ogbomi que gozava de grande prestígio, seus membros organizavam espetáculos e rituais duas vezes por ano, vestiam máscaras e trajes que representavam os espíritos; os Mandingos possuíam similares representações de um espírito monstruoso denominado Mambojumbo que assustava as mulheres. No sul de Camerú, a liga mais influente era a N’gua que tinha seus membros como administradores da justiça. Constantemente os membros das ligas aterrorizavam as populações, e quando se reuniam providos de máscaras na frente da casa de alguém, colocavam um fetiche e exigiam aos gritos por um resgate, o pagamento podia ser um cabrito, uma galinha ou até mesmo uma bebida. A liga N’gua desempenhava também um papel político intervindo entre as tribos promovendo a paz quando havia uma rivalidade.
      Porém, em todas as ligas secretas afro-ocidentais demandaram poderes religiosos, alguns deles estavam vinculados com alguma representação ou rituais supersticiosos; portanto, existiam as ligas religiosas, as democráticas, as patrióticas, que incluíam as desportivas e clubes militares, as criminais e até mesmo as pervertidas, e por ultimo estavam os grupos bárbaros das ligas secretas, como a dos homens leopardos que cometiam misteriosos assassinatos. Estas ligas também praticavam rituais de magia, incluindo sacrifícios humanos. As atividades dessas ligas tinham o interesse de conservar seus antigos privilégios tribais e estavam orientadas a combater todas as inovações ou reformas progressistas.
      Uma das formas mais típicas dos povos africanos era o culto aos chefes sagrados, que se deu na etapa da formação das primeiras sociedades de classe. Os cultos eram manifestados de formas muito variáveis onde os chefes desempenhavam as funções de feiticeiro e sacerdote; a eles  eram-lhes atribuídos poderes sobrenaturais, e por isso, veneravam-nos. Os chefes mortos tornavam-se sempre objetos de culto. Distinguindo os estágios de desenvolvimento do culto aos chefes, era também distinguida a etapa de desenvolvimento que correspondia as de transições dos regimes sociais pré-classistas ao dos regimes sociais de classes; na primeira etapa o chefe desempenhava um papel funcional na comunidade, sempre respondendo pelo bem estar da coletividade, suas qualidades sobrenaturais serviam a este fim; em troca, na segunda etapa não era uma pessoa responsável sobre nada, passava a ser um soberano déspota e sua divindade era somente um meio para reforçar e glorificar sua personalidade.
       Segundo as tradições respeitadas na Guiné, uma estória conta que vivia solitário em um bosque o rei e sacerdote Kukulu, não podia abandonar aquele lugar e dele não podia se aproximar mulher alguma, o sacerdote estava obrigado a permanecer sentado em seu trono; lentos deveriam ser seus movimentos, mas não tão lentos, pois poderia fazer com que os ventos se acalmassem demais e os barcos não navegariam. Assim deveria ser a conduta daquele rei, e assim deveria ser o estado de calmaria do povo.  
      Em Luango, quanto mais poderoso era o rei mais tabus se viam obrigados a obedecer, e todas as ações eram reguladas, fosem na comida, em seus passeios e em todas as outras atividades. Não só o rei, mas também seus herdeiros estavam obrigados, desde a infância a semelhantes proibições que aumentavam na medida em que iam crescendo.
      Muitos outros mitos supersticiosos existiam em torno dos chefes e reis. Os Corombe de Angola consideravam seus chefes tão sagrados que nada podia tocá-los, pois morria quem o fizesse, e para salvar-se, deveria ser feita uma complicada cerimônia. Tal era o modo supersticioso que inspirava o chefe sagrado que seu nome era tabu, ninguém tinha direito de pronunciar.
      Das capacidades sobrenaturais que eram atribuídas aos chefes, o mais importante para o povo era a atitude de atrair chuva necessária para o trabalho na agricultura.  
      Em Ukusum, ao sul do lago Vitória uma das principais obrigações do chefe consistia em assegurar a chuva a seus súditos, e no caso de uma prolongada seca o chefe era tido como negligente. Em Luango, todos os anos o soberano recebia a visita de seus súditos que lhe imploravam pelas chuvas, então eram feitos rituais, os quais constavam de ser lançada ao ar uma flecha pelo rei. Os chefes do povo Wambgwe da África oriental também eram fazedores de chuva e possuíam muitos bens adquiridos como pagamento pelos rituais de atrair chuvas. Situações similares também tinham os Wanioros em Uganda, assim como outros povos do Nilo.
      Em muitos povos africanos os chefes foram considerados os pais dos fenômenos naturais e atmosféricos, por esse motivo, somente um homem fisicamente vigoroso e são poderia ser o chefe, já que um ancião enfermo e fraco não poderia cumprir deveres tão importantes. Todo este processo motivava o costume praticado entre muitos povos, o de privar o poder ou de matar o chefe fisicamente debilitado ou envelhecido, o que acontecia quando alcançava uma determinada idade. Assim, os shilluk no alto Nilo, não permitiam que seus chefes envelhecessem nem perdessem a saúde, por conseguinte, ao menor sinal de debilidade os súditos o matavam, sem, no entanto, logo em seguida renderem honras divinas ao seu espírito. Costume idêntico possuía o povo Dinka, onde os chefes eram ante todos os fazedores de chuva; a este povo, o próprio chefe não bem admitia os primeiros sintomas de debilidade, anunciava aos seus súditos que havia chegado sua hora de morrer, e sempre seu desejo era obedecido.
      Esta etapa de desenvolvimento, etapa da democracia militar, os costumes e crenças vinculados com o culto aos chefes significavam uma grande honra, e com freqüência, uma carga muito pesada e uma ameaça direta para a própria vida. Portanto, nada tinha de assombroso, pois quando houve a decaída das tradições democráticas comuns e se consolidaram o poder dos chefes, estes se rebelaram contra antigos costumes. O exemplo, no final do séc. XVIII, o soberano do reino de Oyó se opôs a tais costumes mediante proposta que fizeram seus súditos que lhe insinuavam um suicídio, e declarou que, pelo contrário, se propunha a seguir trabalhando por eles; estes, indignados, se insurgiram contra o rei, porém foram derrotados e o soberano inovador implantou uma nova ordem de sucessão ao trono acabando com tão penoso costume.
      Nos Estados despóticos da Costa da Guiné, na região dos lagos e terras adjacentes, os reis quando sofriam restrições impostas por rituais, na maioria das vezes não abandonavam prematuramente a vida em detrimento as tradições supersticiosas, o rei em geral considerava sagrado este ato e fazia com que fossem rendidas honras a sua pessoa como uma divindade vivente.
       No Estado do Benin o rei era considerado um fetiche, o principal objeto de adoração ocupando uma posição sagrada, era como um substituto de um deus superior na Terra, para o qual, seus súditos obedeciam e veneravam como tal. As estátuas em bronze dos reis e de suas esposas eram colocadas no palácio sobre um altar juntamente com os antepassados, ali os súditos os reverenciavam.
      Os chefes e reis mortos eram em toda África objetos de culto tribal, provavelmente o mais importante. O culto estava estritamente ligado com aqueles precedidos ao clã da família e seus antepassados, com a diferença de que o primeiro era público e o segundo privado.
      Nas tribos organizadas democraticamente, o culto aos antepassados do chefe consistia em habituais sacrifícios, os mesmos dedicados aos rituais de veneração aos antepassados clãnicos e familiares. Assim, sucedia também entre os guerreiros de outras tribos; porém, nos Estados despóticos, os cultos aos chefes mortos adquiriam formas mais imponente e até mesmo cruel. Tanto nos funerais de um chefe, como nas cerimônias periódicas de recordação ou outros, eram oferecidos sacrifícios humanos; sacrificavam escravos e criminosos condenados, era uma forma de pena capital. No Benin, existia o costume de enterrar, junto com o rei, os corpos daqueles que serviram de sacrifícios; nos banquetes fúnebres, eram também oferecidos sacrifícios humanos mais abundantes e, quando não havia condenados nem escravos, apoderavam-se de pessoas comuns e livres, inocentes de qualquer culpa.
      Em alguns povos da África ocidental, os homens sacrificados no banquete fúnebre do rei morto, se consideravam mensageiros enviados ao mundo ultratumba para comunicar ao soberano morto que em seu reino tudo caminhava bem. Os sacrificados desta prática terrorista acreditavam que semelhantes tradições e crenças religiosas contribuíam e afiançavam os poderes dos chefes.
      Os cultos dedicados aos chefes e reis, tanto em vida como depois de mortos, estavam entre os mais importantes do culto tribal entre os povos da África; esta forma alcançou tal desenvolvimento que tudo passava a um plano secundário, mesmo as manifestações de cultos tribais ou a veneração aos deuses.
      As ideias que tinham em torno dos deuses eram muito variadas, era difícil resumir em um sistema e suas raízes não pareciam claras, tampouco não era fácil admitir a relação existente entre a imagem de um deus e o culto a ele rendido. Quase todos os povos conheciam a figura mitológica do deus celestial como também o deus subterrâneo, o deus dos mares e outros. Entre os Bantos, os nomes dos deuses eram quase iguais em todas as tribos - Nyambi, Yambe, Ndyambi, Szambe, Zambe, porém, a etimologia dos nomes era um tanto duvidoso. Na parte sul do Congo era denominado Kalunga e entre os povos da África oriental eram utilizados termos diversos como: Mulungu, Lessa, Ugai, Kiumbe e outros. No entanto, outros povos tinham vários nomes para definir um único deus, o que também não impedia de serem designados a várias figuras; isto ocorria porque em alguns casos predominava a figura de um deus com traços humanos e em outros apareciam como uma divindade atmosférica que enviava chuvas e tempestades, ou ainda que simplesmente personificasse o céu; porém, quase nenhum daqueles deuses era objeto de culto e raramente o povo se recordava de suas existências.
       Em alguns povos do sudoeste e África oriental, o semblante de um deus celestial era distinguido por uma dualidade: os Zulus acreditavam em um deus celestial, Unkulunkulu, o criador dos homens e demais coisas existentes na Terra; por outro lado, era também considerado como um antepassado mítico e herói cultural; porém, mais tarde e devido a influência exercida por missionários cristãos, tal figura justificou o antigo deus celestial Umwelinkanga.
       Entre os povos Bantos do oeste, Yao, Chiwabo, Makúa e outros, o conceito religioso era bastante difuso, pois recebia o nome de Mulungu o deus celestial que enviava chuva e que estava relacionado com os espíritos dos antepassados, e em geral ao mundo do além.
       Somente em alguns povos o deus celestial se converteu em objeto de genuína veneração religiosa, isto ocorreu mais nos lugares onde existiam firmes uniões tribais e intertribais, e onde as guerras de conquista entre as tribos foram mais freqüentes, neste caso, os deuses celestiais se transformaram em deuses guerreiros tribais, a exemplo dos Massai da África oriental que veneravam ao deus guerreiro Engai, que era ao mesmo tempo uma divindade celestial da chuva. Os Massai acreditavam que Engai lhes dera permissão para atacarem seus vizinhos com finalidades de saque, roubar-lhes o gado e outros bens. Todos os guerreiros lhe dirigiam orações durante a campanha e depois de regressar faziam seus agradecimentos.
      Nas tribos da Costa do Ouro, em Gana, existiam ali duas uniões tribais, uma ao sul e outra ao norte; a primeira venerava o deus Bobowissi e a segunda o deus Tando.
      O deus celestial dos povos da África oriental, especialmente os semisedentários criadores de gado, possuíam um culto geral reverenciando o cume das montanhas; os Jaggos reverenciavam o Kilimanjaro, montanha que dominava toda a região.
      A mitologia dos povos africanos em comparação a de outras civilizações é apenas mais uniforme, nela os deuses figuram com maior freqüência como o criador de todas as coisas. Na África sempre existiram poucos mitos cosmogônicos, na maioria são antropogônicos. Um dos mitos conta que a Terra e o Céu sempre existiram, porém, tudo era deserto e reinava a escuridão, a água estava guardada por uma anciã e por um animal, porém, um herói mítico roubou para os homens. Quanto á criação do homem os mitos são variáveis; um deles, conta que os homens foram modelados em argila e madeira por um deus, em outro consta que os primeiros homens foram enviados do Céu e, ainda em outro os homens apareceram do interior da terra, de cavernas e de covas abaixo das pedras, das arvores ou de partes dos corpos de antepassados míticos, são varias as histórias.
      São também numerosos os mitos sobre a morte. O mais conhecido trata-se de uma noticia falsa. Deus envia do Céu um mensageiro aos homens, que preguiçosos dormiam despreocupados por não ter o que fazer, para avisar-lhes que eles iriam morrer, mas logo retornariam a vida; porém, o mensageiro se atrasa por alguma razão e o deus manda outro mensageiro; desta vez, com a mensagem de que os homens iriam morrer para sempre; o mensageiro certamente encontrou os homens dormindo e não lhes deu o recado. Convertidos em mortais e como castigo por haverem dormido quando aquele deus ia dar-lhes a imortalidade, os homens, a partir de então, se mantiveram despertos a espera de outro mensageiro.