segunda-feira, 8 de junho de 2020

Caminhando com os Deuses - Continuação 1.



                                       Caminhando com os Deuses - continuação 1.

 
                      

     Por todas as regiões do continente africano espalhavam-se tribos, nações e grupos com suas diversas etnias que de um passado remoto conservou por séculos suas tradições religiosas e que, difundidas, permanecem vivas até os nossos dias.
      Os nativos daquele continente possuíam um vasto conhecimento dos elementos da natureza que, conjugada a uma visão cosmológica e filosófica a utilizavam, não só para uso no seu dia a dia, como também, e principalmente, para fins religiosos.
      Povos remanescentes de antigas culturas do Benin no Daomé tinham pela natureza e seus fenômenos verdadeira veneração, nas quais, representavam e personificavam seus ideais humanos através de pequenos objetos esculpidos em marfim, madeira, pedras e metais; muitas das tribos tinham na mitologia representações para traduzir episódios lendários.
      Os Ibo utilizavam máscaras que eram denominadas N’gi, que cobertas por peles de animais expressava a hierarquia das sociedades secretas. Outras tribos tinham por hábito fazer tatuagens circulares que recobriam todo o corpo num simbolismo místico e, em quase todas as etnias, Bantu ou Sudanesa, havia manifestações de seitas secretas com cultos específicos.
      Os povos Bantu, também conhecidos por Yassi, utilizavam em seus rituais os minseres, objetos com grandes poderes de magia, e que nas mãos de sacerdotes ou sacerdotisas tinham funções de transmitir desejos e forças sobrenaturais.
Algumas máscaras da tribo dos Menty simbolizavam funções de preparação dos jovens para o casamento e a maternidade; outras máscaras, no entanto, eram destinadas aos rituais que traduziam os mitos da criação do mundo ou ainda simbolizavam as atividades da vida. As máscaras de Kanaga pertencentes aos Don possuíam um formato em cruz com um corpo estilizado e compunha-se de um braço levantado de um lado e abaixado do outro, representando o gesto do criador, apontando para o Céu seu reino e para a Terra sua obra.
      Entretanto, outras máscaras tinham representações diversificadas, como o portal dos deuses que possuía uma forma espiralada; o portal dos andares, que simbolizava a marcha do sol e possuía diversos nichos, os quais representavam uma casa com significado de família na aldeia; os Bozo e os Bambarra utilizavam máscaras semelhantes. Nos rituais dos Bozo eram utilizadas tais máscaras que eram compostas de um pequeno cadafalso semicilíndrico recobertas por um tecido, o qual se arrastava pelo chão e tinha por cima da base uma articulação na qual se movia uma pequena cabeça, geralmente de um animal representando uma divindade.
      Em todas as tribos as máscaras dançavam e representavam num deslocamento que podia ser lento ou vibrante, numa invocação aos deuses.
      As confecções das máscaras tinham sempre um sentido religioso, o mesmo que presidia à criação das estátuas e fetiches, pois simbolizavam os espíritos protetores envocados durante os cultos; tais fetiches podiam também representar espíritos bons ou maus que eram distinguidos pelas características ou pelos vaticínios dos deuses.
      Em todas as regiões do continente as máscaras eram utilizadas em solenidades, as pinturas, restritas aos santuários ou em alguns objetos esculpidos, eram usadas para prestar culto aos deuses e aos espíritos dos ancestrais, ou ainda, onde houvesse necessidade de atrair benefícios através de encantamentos ou feitiços.
      Todos os fetiches eram feitos pelos escultores da tribo, que antes de iniciarem um trabalho eram submetidos a uma purificação ritual com abstinências, logo após retiravam-se para um lugar reservado e cumprir preceitos, pois, todo o conceito de vida do povo africano sempre foi baseado numa orientação divina, ou seja, não havia separação entre o cotidiano e a religiosidade; no entanto, essa prática variava de região para região, que por vezes, para atender a um rei perdia o significado religioso. 
      No cotidiano diversas tribos eram orientadas pela noção de conjunto, faziam uma associação com a atividade e a construção da Terra ao fazerem suas habitações, técnica também utilizada na confecção de objetos, principalmente àqueles que exerciam funções de magia; na tecelagem, por exemplo, as tramas dos tecidos tinham normas que correspondiam a mitos religiosos e as guarnições possuíam 264 tramas, números correspondentes aos signos de uma escrita que tinha em cada uma delas um sentido simbólico e que, quando colocadas lado a lado, contava sucintamente o mistério da criação e as aventuras dos seres míticos.
      Os Bambarra se caracterizavam pela utilização de estatuetas ligadas à fertilidade que eram utilizadas nos cultos aos ancestrais; também eram utilizadas as máscaras denominadas Tyi Wara e estatuetas que recebiam o nome de Pando, estas permaneciam em lugares de honra junto aos túmulos ou em altares por se tratar dos mortos ressuscitados. Outras tribos, apesar de serem agricultores e pescadores, reservavam períodos para consagrarem seus deuses. Os Mendis guardavam seus rituais por intermédio de sociedades secretas, denominadas de “Poro”, tinham suas distinções, tanto para homens quanto para mulheres e guerreiros; cada sociedade possuía ritual diferente e independente fazendo sempre uso das máscaras que eram simbolizadas através das funções a que se destinava.
      Os talismãs eram de uso generalizado por todas as tribos, no entanto, recebiam um tratamento mais acentuado na tribo dos Achanti e tinham várias finalidades; um dos talismãs, denominado Ákusa, não só era reverenciado como também demonstravam o respeito que tinham pela fertilidade.
       Por milhares de anos a cultura religiosa africana se desenvolveu com crenças em mitos, magias e deuses; porém, no século XVI, devido a posições estratégicas comerciais, os britânicos fundam a primeira colônia no continente africano, dando assim o direito de outros impérios partilharem do território e iniciarem a destruição cultural e religiosa de todas as nações e tribos do continente.
      Os “conquistadores”, com o passar dos anos incitaram as guerras tribais e os vencidos tornaram-se escravos, os deuses, silenciosos atravessaram os mares e se espalharam por outras terras, revelando num processo histórico e cultural o poder de sobrevivência através das crenças, dos ritos e das magias, práticas que nos dias atuais são desenvolvidas nas casas de Candomblé no Brasil e em outros países.

                                        Uma nova nação
      Nas crenças e práticas religiosas afro-brasileiras encontramos uma grande diversidade ao que se refere sobre conceitos ritualísticos, tanto no uso das palavras quanto em orações e cantigas, no entanto, em todas elas, coincidentemente, há um fator preponderante no qual estão ligados como elos de uma corrente, os cultos aos deuses do panteão africano.
      Os fatores que preponderam nas crenças e nos cultos não os diferenciam na relação quanto aos seus significados, porém, recebem denominações diferentes que, com os acontecimentos históricos e a miscigenação de grupos étnicos, levou-os a criar novos conceitos e hábitos que os tornaram diferentes uns dos outros.
      Quando os Nagôs aportaram no novo mundo, mais especificamente no Brasil, encontraram povos de outras nações africanas já instaladas, entre elas, os de Angola que eram os mais numerosos e estavam espalhados por quase todo o território e, dependendo da região onde se encontravam, possuíam uma grande diversificação de nomes; existiam ainda outros povos negros em menor número, todos chegados como escravos para servir de mão de obra nas fazendas ou mesmo nas regiões urbanas. 
      Com a distribalização das nações quase que desapareceram totalmente suas culturas, e conseqüentemente suas religiões foram afetadas; grupos como os Auçás foram praticamente eliminados, porém, alguns sobreviveram mesmo com a perda de suas identidades culturais. Por volta de 1830 o afrouxo da igreja católica em relação aos cultos desenvolvidos pelos negros, fez com que grupos étnicos sobreviventes pudessem reencontrar suas raízes e suas crenças religiosas.  
      Divididos em quatro grupos, reestruturados e com cultos idênticos, surgiram os Candomblés, palavra derivada de uma dança, o candombe, dança promovida pelos iorubanos, mais especificamente na Bahia, quando festivamente saudavam seus deuses. Os pertencentes dos grupos de Ketu foram os que mais conservaram seus rigores quanto a formulações de rituais. Os de Angola com identificação semelhante absorveram do cristianismo um sincretismo com santos da igreja católica, perdendo assim a autenticidade de suas raízes, outros, porém, conseguiram resgatar um pouco da cultura trazida de África. O Candomblé de Caboclo nascido da união dos rituais africanos, cultura ameríndia local e elementos católicos, posteriormente deram origem a Umbanda.
      Dos muitos deuses que eram cultuados na África somente alguns poucos chegaram ao Brasil. Considerados como divindades, os deuses africanos têm suas diversidades em nomes e funções, que para os Nagôs são denominados Orixás, para os de Nação Angola são os N`Inkices e, para os de Nação Jêje recebem a denominação de Vodun. No entanto, e por uma questão de universalização, todas as ramificações do candomblé definem essas divindades como Orixás.
      Os Candomblés de Caboclo e a Umbanda, como são mais conhecidos, possuem cultos diferenciados, no entanto, as entidades espirituais são também consideradas Orixás, as quais são identificadas através de vestimentas, paramentos, cores e arquétipos individuais, além de estarem associados a uma simbologia absorvida da iconografia católica, uma promoção do sincretismo; no entanto, a denominação Orixá existe devido a uma estrutura criada com elementos estranhos às raízes de origens que, neste caso, as entidades espirituais, são índios, pretos velhos e acaboclados, todos denominados de guias espirituais.
       Aspectos a considerar.  
      A origem das religiões desenvolvidas em Angola remonta há milênios. Contam os antigos Apelegis, grãs sacerdotes, que aproximadamente 3500 AC. vindo da Mesopotânia e passando por terras africanas, um sacerdote trazia consigo um mapa, no qual, constavam vários desenhos; atirando-o ao chão e lançando sobre ele dezesseis pequenos búzios dizia-se mensageiro dos deuses. Tais conhecimentos foram transmitidos e com o decorrer do tempo foi incorporado na cultura local se espalhando pelo continente.
      Com denominações diferentes a de outras nações, o Candomblé de Angola utiliza os mesmos elementos e mecanismos com algumas variações dos ritos e na dinâmica dos cultos de outras nações. Tendo a mesma origem de outros Candomblés, o que o diferencia é o fator histórico sócio cultural, suas lendas foram contadas pelos Kassangues, os quais revelam uma existência espiritual semelhante à de outras Nações, no entanto, existe uma variação na crença quanto à criação do Universo e de seus deuses, os N`Inkices.
      Admitiam os Kassangues que a existência se dá em nove universos paralelos, cada um com tipos de matérias diferentes, os Seres humanos habitam o espaço do meio. Antigos Apelegís, sacerdotes, dizem que a cabeça traz a forma simplificada do Universo.
      Os rituais são feitos através de cantigas denominadas sassanhas e, para cada ritual é obedecida uma hierarquia do abassá, a casa de culto.
      Um dos aspectos mais importantes que abrange os conhecimentos dos povos angolanos, principalmente os kirimbum, relativo à religião, é pelo fato de terem possuído uma escrita, provavelmente de origem ou influenciada pela cultura muçulmana. Composta de símbolos considerados sagrados, que somente os Akapalaôs e Apelegís tinham conhecimento, tal escrita era utilizada em rituais de magia, pois tinha o poder de se relacionar com espíritos celestes e, os sinais enquanto eram riscados no chão, determinavam uma correspondência a um N`Inkice e sua manifestação.
      Após um longo período de imposições promovido pelo catolicismo e tendo sofrido impactos consideráveis pela pressão colonial, culturas advindas de nações africanas, em alguns aspectos, conservaram elementos relacionados às religiões. Alguns grupos, no entanto, conseguiram se reestruturar e recuperar parte das culturas de origem. A cultura Nagô foi uma delas que, tendo preservado seus cultos aos deuses e ancestrais e a veneração pelos fenômenos e elementos da natureza, voltavam assim a praticar, mesmo que em alguns aspectos adaptando em uma terra distante a religião de seus antepassados.
      Os textos orais e os conhecimentos da magia foram preservados pelos sacerdotes dos templos na África que transmitidos através das gerações deram continuidade às práticas religiosas cheia de mistérios, magias, lendas e deuses, legado de uma rica cultura.
      Da mesma forma que na África a religião marcou todas as tribos e nações, a prática contínua possibilitou a preservação dos cultos aqui no Brasil, que através de algumas comunidades mantém e renovam a adoração aos deuses e/ou entidades divinizadas do panteão africano.
      Os africanos trouxeram suas culturas juntamentecom todo um corpo de crenças e rituais religiosos. Atualmente as religiões africanas afirmam sua sobrevivência de maneira flagrante, tais religiões sobrevivem graças ao sincretismo entre elas próprias, entre elas e o catolicismo, religião predominante juntamente com o espiritismo. Esta mistura de crenças e rituais é tão evidente que já não dizemos religião africana e sim religião afro-brasileira.
                                                                                             
                                            A terra de origem.                                                                 
      Para a finalidade de estudo o continente africano pode ser dividido em duas partes cortado por uma linha imaginaria na altura do golfo da Guiné, dessa linha para cima as culturas negras eram denominadas de cultura Sudanesa, desse paralelo para baixo predominavam as culturas Bantas.
      Dos sudaneses as culturas que mais pesaram no Brasil foram a Jêje e a Nagô, provenientes da Nigéria e do Daomé, respectivamente; coube, no entanto, à cultura Nagô, principalmente as de origem do reino iorubá a hegemonia em todo o território brasileiro, indistintamente de norte a sul.
      Na África, essas e outras culturas influenciaram-se num recíproco intercambio, pois, com o périplo africano realizado pelos navegadores portugueses que chegaram as costas africanas implantando as missões, as crenças e rituais dos cristãos, especialmente católicos, deram origem ao sincretismo nos cultos daquele continente. Este fenômeno foi muito acentuado no Brasil devido a dificuldades de convivência nas senzalas, lugar onde os negros de diversas culturas habitavam favorecendo assim o sincretismo entre as próprias religiões africanas trazidas para o novo continente. Por outro lado, por ser o catolicismo a religião oficial no período colonial e imperial, assim, as manifestações exteriorizadas das demais religiões, inclusive as mais primitivas dos negros, foram comprimidas pela igreja. Este fato veio possibilitar aos negros a manutenção dos cultos e rituais que, por um mecanismo de defesa, avivaram cada vez mais em extensão e profundidade o sincretismo e suas crenças com a igreja, mascarando assim seus deuses com santos católicos. Com tal subterfúgio, a lei e a igreja estavam sendo respeitadas, porém, continuavam cultuando os deuses africanos.
      Este processo de identificação entre as divindades e os santos católicos foi facilitado objetivamente por semelhanças profissionais, por assim dizer, entre eles. (pormenores - ler capítulo sobre sincretismo religioso)
      Os sudaneses cultuavam suas divindades que eram consideradas entidades sobrenaturais entre os homens e um deus maior, porém, entre alguns grupos do sul eram venerados os espíritos ancestrais, espíritos daqueles que foram humanos e que viveram efetivamente, eram os deuses demiurgos, deuses protetores das tribos.
      Em Bengala, Angola, sabe-se que existia um culto, denominado Orederé, culto semelhante à Umbanda, e por isso também foi fácil aos negros de origem banta envolver-se a essas práticas desenvolvidas no Brasil. Dos cultos praticados pelos sudaneses e o sincretismo com os santos católicos é que deram origem a determinadas diferenças nas religiões afro-brasileiras. Neste contexto, temos as casas de Xangô em Pernambuco, os Candomblés na Bahia e Rio de Janeiro, o Batuque no Rio Grande do Sul e as casas de Tambor de Mina no Maranhão, todos eles com origens sudanesas. Estas diversas designações são apenas rótulos regionais para um mesmo conteúdo.
      Por outro lado, por parte das culturas bantas, ameríndias e a mercê de um grande sincretismo, nasceram às primeiras casas de Umbanda criadas no Brasil, uma nova religião na qual são cultuados, além das divindades, espíritos ancestrais e espíritos guias.
      No Brasil as misturas se acentuaram ao juntarem-se também as crenças dos africanos que, absorvendo elementos das culturas indígenas, deu origem a novos tipos de cultos; o Candomblé de Caboclo, onde são cultuadas divindades africanas juntamente com divindades do universo indígena, assim como o Catendê, o Omolokô, o Catimbó e outros.
      Nos cultos de origem sudanesa são usados idiomas africanos, principalmente o Nagô e o Jêje, já nos cultos de Umbanda e nos Candomblés de caboclo os rituais são proferidos em português misturando palavras de origem africana e expressões em Tupi-Guarani, promovendo assim uma forma aglutinada de expressões verbais.  

                                  Sobre as Nações referentes ao Candomblé.
      Até hoje muitos religiosos ainda tem dúvidas sobre o que é Nação de Candomblé. Para entender o contexto geral é preciso conhecer a historia relacionada aos negros que aqui aportaram diante do regime escravista que ocorreu no século XVIII. Esta é a chave para tomar conhecimento de todas as circunstâncias que fizeram daqueles negros os antepassados, aqui no Brasil, dos primeiros passos em direção à religião que hoje é conhecida como Candomblé.
Nação de Candomblé não está relacionada a um contexto político, o termo Nação é empregado para diferenciar modelos culturais relativos à religião que, diversificada, promoveu desde os primeiros tempos a construção de uma identidade religiosa, independente dos termos Orixá, N´Inkice ou Vodun, termos que regem uma independência cultural na estrutura de cada Nação. Por isso é que existem as Nações de Candomblé que, cada uma com suas culturas próprias, desenvolvem seus cânticos, suas rezas, seus toques nos atabaques, seus preceitos e tudo o mais que estejam relacionados à religião, e que, apesar de formarem um único núcleo religioso, possuem suas independências no formato global.


                                       O Candomblé.
                                    
    Como vimos anteriormente, o processo histórico social da cultura africana no Brasil foi por alguns séculos tolhidos pelo catolicismo. Trazidos para o novo mundo e distribuídos no continente, grupos de etnias diferentes perderam valores que, substituídos por outros, modificou as estruturas sociais até então vividas.
      Mesmo tendo sofrido impactos consideráveis impostos pela pressão colonial, grupos de diversas etnias, após algum tempo, conseguiram se reestruturar e recuperar parte da cultura de origem, pois, na nova terra encontraram lugar propício para o desenvolvimento de suas práticas religiosas e seus rituais. Cultuavam os mortos, veneravam a natureza e aos deuses de um panteão composto por várias entidades míticas.
      Todo o conhecimento, tanto dos textos orais quanto das magias foi preservado pelos Babalawôs, sacerdotes dos templos na África que, transmitidos de geração a geração, vêm utilizando e dando continuidade na prática religiosa denominada Candomblé.
      Desenvolvida por grupos de adeptos a religião é toda fundamentada nos textos do oráculo de Ifá, senhor do destino, o qual esclarece toda a liturgia que é constituída de um sistema dinâmico, onde, a descrição dos rituais tem por finalidade fazer uma associação da morte com uma simbologia e, que ao se interligarem, passa a funcionar como um todo.
      Os conhecimentos adquiridos passam a constituir uma experiência que ao longo do tempo são absorvidos de forma gradativa, pois, toda complexidade e simbolismo existente representam e incorporam todos os elementos, sejam individuais ou coletivos.
      Alguns fatores, no entanto, são observados, pois, os processos de absorção de todos os conhecimentos sempre correspondem a uma realidade específica pertencente a um determinado ritual e que, além de apresentarem aspectos construtivos possuem também elementos que o instrumentam. A descrição de cerimônias, a conduta, a hierarquia, os objetos utilizados, os locais onde as práticas religiosas são realizadas, as entidades sobrenaturais que participam simbolicamente ou manifestadas e os gestos durante uma celebração, fazem com que tal descrição torne-se dinâmica. Todos os objetos, emblemas, signos e símbolos, tornam-se preponderantes ao alinhar-se em cantigas e palavras acompanhadas de sons percutidos por determinados instrumentos musicais.
      Várias descrições idiomáticas que figuram na religião não possuem tradução, podendo, no entanto, ser analisadas devido aos conceitos histórico-culturais e que somente através de uma simbologia pode ser interpretada.
      Objetos, elementos, gestos e atividades, passam a pertencer a um ritual quando associados, pois suas estruturas transformam-nas de símbolos em entidades.
    No simbolismo, um signo ou uma pequena unidade passa a pertencer à totalidade de uma estrutura complexa quando um objeto é constituído de símbolos transformando-o em um emblema, no qual, são utilizados elementos e cores específicas e, que na prática da religião, tais conteúdos se expressam quando do reconhecimento daqueles símbolos e signos.

                                           Os Candomblés de Nação
                       Organização social, estrutura religiosa e concepções.
                                              Ketu – Jêje – Angola.
                                                                                              
      Fundamentalmente os textos do oráculo de Ifá é que esclarecem todas as liturgias. Considerado o deus da adivinhação, Ifá tem seu culto associado ao jogo de búzios, e todo o complexo de comunicação e relação é proporcionado pelo axé que plantado e transferido aos Seres e objetos, através de rituais, continuará sendo impulsionado pela ação de todo o sistema religioso desenvolvido nos templos e em outros espaços propícios e preparados para tal.
       Todo o sistema religioso e a genealogia dos deuses e Seres divinizados foram através dos tempos transmitidos de forma oral, e é dessa forma que se desenvolve. O som de instrumentos de percussão, como: atabaques, agogô, xére, adjárin, jaworô e outros, aparecem como conteúdos simbólicos consagrados nos rituais, pois, consagrados tornam-se apropriados às funções que se destinam, porém, só podem ser manipulados pelos alabês ou olú batás, iniciados para tais finalidades. Podendo agir só ou em conjunto são instrumentos indutores de ação promovendo a comunicação entre o Ayé e o Orun, isto é: o mundo físico e o mundo espiritual.
      Resultado de uma estrutura dinâmica o som dos instrumentos, palavras litúrgicas, objetos consagrados, signos e símbolos, danças e gestos, integram o complexo ritual, e todas as manifestações, consideradas sagradas, passam a se expressar numa simbologia formal de conteúdo e estética.
      Os orikis - louvações poéticas, versos e cantigas, ou ainda uma simples frase, podem expressar qualidades e fatos referentes às divindades, Seres, lugares ou objetos. Os ofó e os ayá jô, são textos dos oráculos pronunciados nos momentos em que são feitos determinados preparos com combinações de elementos específicos para diversas finalidades.
      As estórias e lendas míticas, denominadas itans também são provenientes do sistema de oráculos, assim como, uma série de cantigas as quais recebem denominações de conformidade com o ritual a ser realizado.
      Parte integrante do conhecimento é a oralidade, que através de uma técnica de comunicação a transmissão dos conhecimentos são veinculados pelo intermédio de uma trama simbólica que, revividos e realimentados permanentemente, tais conhecimentos e tradições são passados aos indivíduos iniciados e que, preparados, tornam-se arquivos vivos.
      As manifestações das entidades denominadas Orixás, tornam-se possíveis pelas atividades rituais, e os sacerdotes, sacerdotisas, altares e objetos consagrados, pertencem e estão implícitos num sistema de transferência de axé e de conhecimentos.
      Segundo a crença iorubá, a vastidão infinita, o Universo (Ode Orun), é o espaço com dimensão e tempo de Mundos concretos e espirituais, nele está localizado o Ayê, o mundo material, e o Orun, concepção abstrata onde residem os deuses e outras divindades. São dois planos de existência que revelam os itans, os mitos e as verdades, este é o conceito.
      O Ayê e o Orun constituem uma unidade que é simbolizada por uma cabaça cortada ao meio que recebe o nome de Igbá Odú, onde alguns símbolos materiais estruturam sua imagem, permitindo assim a integração de elementos signos em função do símbolo como um todo.
      Todos os rituais são constituídos de um sistema dinâmico e mutável onde as descrições têm por finalidade associar a morte a uma simbologia que funciona como um todo, e os conhecimentos são absorvidos em um nível bi-pessoal representando a incorporação de elementos individuais e coletivos.
       Algumas cerimônias, principalmente as de sacrifícios animais, são mantidas com privacidade pelo motivo de liberarem energias de difícil manejo que, por possuir significados inerentes à religião, somente os iniciados preparados e graduados podem participar. A privacidade desses rituais provém da própria estrutura religiosa, onde, além dos elementos materiais é também utilizado um vocabulário todo próprio.
       A interpretação de toda a simbologia é que permite reconhecer a seqüência dos rituais, dando-lhes assim estrutura própria, pois fazem parte de um comportamento prescrito em determinadas crenças, estas, pertencentes a um universo espiritual e possuidores de poderes sobrenaturais.
      Os símbolos são as menores unidades pertencentes aos rituais e, ao conservarem suas propriedades e características a uma representação ou associação, suas estruturas e propriedades transformam-se nas de uma entidade.
      A existência de símbolos signos, a menor unidade de um símbolo complexo fazem parte integrante da totalidade de uma estrutura, onde, emblemas são objetos constituídos de grande quantidade de símbolos nele incorporados e, ao desvendar suas correspondências e interpretando-os, é que permite conhecer através de seus conteúdos sua importância nos rituais.
       Da mesma forma que na África a religião marcou todas as tribos, aqui no Brasil não foi diferente, e a prática contínua da religião possibilitou a preservação de cultos.
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      Os templos, mais conhecidos como terreiro, roça ou barracão, quase sempre está associado a uma estrutura urbana, é onde fica instalado o egbé, a casa principal de cultos, local onde toda a atividade religiosa é desenvolvida. Possuindo espaços com características próprias é o local onde é estabelecido entre seus membros um vínculo de irmandade e por eles são absorvidos todos os conhecimentos, sejam culturais, religiosos, filosóficos e éticos herdados de ancestrais.
      A especificação de espaços definidos tem por finalidade caracterizar o que é de utilização às atividades religiosas desenvolvidas e aos fiéis assistentes não iniciados. Em todos os egbés tais espaços são definidos, mesmo que simbolicamente. Tais espaços representam o Ayé, a Terra, e possuem um local que equivale a uma floresta, na qual estão plantadas as ervas, elementos indispensáveis para o desenvolvimento de rituais litúrgicos, uma fonte de água, que pode ser um poço e, em outros espaços ainda limitados ao terreiro, encontra-se os principais locais onde são realizadas as práticas dos cultos.
      Numa simbologia muito particular e individualizada, os Orixás, permanecem simbolicamente contidos em templos independentes, são pequenas casas, os ilé-Orixá (casa do Orixá), onde, em cada uma delas passam a conter os ajubó (assentamentos). Os assentamentos são determinados objetos consagrados e pertencentes aos indivíduos que fazem parte de um grupo de iniciados que constituem os vários segmentos do terreiro. Cada grupo pertence a uma matéria comum abstrata que é simbolizada pelo Orixá patrono, caracterizando assim a diferença de cada grupo, pois cada um desses grupos é regido por alguns preceitos e tabus quanto à utilização de determinados alimentos, ervas, cores, emblemas e outros elementos.
      Os iniciados após os primeiros rituais de inclusão na religião recebem um nome, a digina, uma identidade perante todo o egbé, um nome de iniciação genérico a todos àqueles pertencentes a um determinado Orixá, que identificados pelas características, passam a ter um lugar consagrado no ilé do Orixá patrono.
      Organizados em grupos e seguindo uma determinada hierarquia, têm neles uma representação do egbé formada por sacerdotes ou sacerdotisas, estes com cargos específicos que podem ser determinados pela experiência, pela natureza ou por determinação do Orixá.
      O fato da existência dos ilé-Orixá permite que cada iniciado pratique o culto individualmente, enquanto o ilé-axé (casa do axé), é determinante para os cultos coletivos, este sempre presidido pelos Babalorixás ou pelas Iyálorixás (sacerdotes e sacerdotisas), que irmanados a ancestrais possuem os conhecimentos que lhes foram transmitidos, tais conhecimentos são os fundamentos da religião.
      Babalorixás e Iyálorixás (aqueles que zelam) são os zeladores dos Orixás, são eles os responsáveis pelo desenvolvimento dos cultos e do axé (força), a energia dominante no ilé-axé, a força mantenedora que, realimentada permanentemente através de rituais e oferendas, proporciona o crescimento espiritual.
      O axé por ser uma energia é liberado e transferido temporariamente para objetos e Seres através de um orô (uma reza), ritual específico com oferendas proporcionando uma consagração temporária, daí a necessidade de uma realimentação constante através de mais oferendas.
      Todos os utensílios e objetos utilizados nos rituais são portadores de axé expressando qualidades e funções; nada é escolhido aleatoriamente. Possuindo diferentes categorias os elementos são escolhidos de forma a serem transformados num emblema, símbolo ou um signo e, os materiais, cores ou formas, não são para uma simples combinação, fazem parte da representação material requeridas para o culto, e quando preparadas tornam-se elementos consagrados, quando não, tais elementos significam simplesmente uma expressão artesanal e decorativa.
      A qualidade do axé proporcionada pelos rituais é que vai determinar o equilíbrio entre os membros do egbé, pois todos eles, através de condutas e preceitos, tornam-se coresponsáveis por todo o processo. Além do equilíbrio, o axé tem o poder de impulsionar a prática litúrgica que o realimenta, tornando-se assim um ciclo constante. Plantado e transferido a elementos, objetos e Seres pertencentes ao egbé, tem sua aplicação para diversas finalidades e realizações, segundo a combinação dos elementos simbólicos utilizados que, veinculado a cada um deles proporciona uma energia com poderes de realizações. Uma vez plantado, o axé se expande e, quando realimentado fortifica. Plantado nos vários ilé-Orixá é realimentado através de oferendas e rituais que, individuais a cada um dos iniciados, é somado ao do Orixá patrono e recebe a denominação de Imú, e a revitalização é feita no ritual do iborí (borí), um rito específico.
      O axé, elemento primordial dos rituais está contido nos vários elementos da natureza, principalmente naqueles que contém cor e substância; estão nos animais, nos vegetais e nos minerais, pois neles estão contidos os sangues da Terra e que são representados pelas cores preta, vermelha e branca. O sangue vermelho é encontrado nos animais em seu reino, no reino vegetal pode ser encontrado na seiva de algumas plantas, tanto de folhas, flores, frutos, ou em raízes, o azeite de dendê, o mel, etc; no reino mineral em algumas pedras e matais, como o ferro, o bronze ou o cobre; o sangue branco do reino animal é representado pela saliva, pelas lágrimas, e particularmente pelo igbin, um caracol branco; no reino vegetal é encontrado na seiva e no sumo de determinadas plantas, tanto nas folhas, flores, frutos ou em algumas raízes e em bebidas destiladas; do reino mineral obtém-se o sangue branco contidos nos sais da prata, no chumbo e de outros metais ou pedras brancas; o sangue preto da Terra do reino animal é encontrado nas cinzas de ossos de animais; no reino vegetal está na seiva de algumas plantas, tanto de folhas, flores, frutos ou raízes e, no reino mineral, no carvão de pedra, no ferro ou em outros metais ferrosos, ou ainda em algumas pedras.
      Todos os animais e aves possuem em seus corpos determinados órgãos impregnados de axé, o coração, os pulmões, o fígado e vísceras em geral, nos pêlos, peles, penas, ossos, dentes, marfim, etc; no reino vegetal são encontrados nas raízes, caules, folhas, flores e frutos; no reino mineral o axé está nas nascentes das águas, nas pedras, no leito dos rios e lagoas, assim como nos seixos dos riachos, na areia, nos mares; enfim, o axé está contido em todos os elementos naturais que possuam alguma substância ativa ou que desperte atenção no mundo natural.
      A utilização de determinados elementos quando considerados portadores de força ativa, estão nos ritos da sua coleta e nos rituais desenvolvidos, são fatores que implicam na revitalização ou na transmissão do axé tanto na iniciação, oferenda ou consagração, e por ser dinâmico, o axé também é individual tanto para o iniciado quanto para o seu Orixá.
      A existência do dinamismo do axé está de acordo com o conteúdo dos três tipos de sangue, sempre com a predominância de um sobre o outro dependendo da situação e da função a que se destine. A magia do poder de realização do axé é proporcionada pelos valores simbólicos, princípios ativos e combinações, pois cada combinação é única, individualizada e determina uma consagração.  
      Além do poder de realização do axé proporcionado pelas combinações dos elementos, os sangues possuem, através de seus princípios ativos, combinações múltiplas e individuais, permitindo a realização da incorporação do Ayé (a Terra) com o Órún (um mundo de dimensões espirituais).
      O oráculo de Ifá, predecessor em qualquer atividade ritual é o conhecedor dos destinos, é quem determina as qualidades e quantidades necessárias de todo e quaisquer elementos a serem utilizados. Os sacerdotes supremos, Babalorixás e Iyálorixás, é que são responsáveis, não somente pala guarda do templo (do egbé) e tudo de sagrado que lá está, mas também pela preservação e manutenção do axé, elemento primordial para a vida ativa do terreiro.
      As Yás, (mães) dos terreiros recebem esta denominação pelo fato de corresponderem as Iyábás, mães dos antigos palácios que também recebiam o titulo de Ayiá-bá-Ijolé, as mães possuidoras de títulos, por serem elas esposas do rei; no mesmo contesto, as Yá-afin eram as sacerdotisas dos altares dos palácios e mães das organizações de cultos. Nas relações políticas do rei, eram as Yá-naso, as mães do culto a Xangô.    
      O complexo sistema de comunicação e relação mantido com um mundo subjetivo no terreiro é todo dependente do axé, que “plantado” e transferido através de rituais, é impulsionado pelos iniciados do egbé.
      Todo o sistema religioso e a genealogia dos deuses do panteão africano (os Orixá) e seres divinizados, provêm de povos e tempos imemoriais, de culturas politeístas as quais transmitiram de forma oral, e é dessa forma que alinhado a preceitos se desenvolve.
      Através de um complexo sistema simbólico, o axé e os conhecimentos são passados em níveis de consciência plena onde as expressões verbais e corporais, através das danças, atingem profundamente a personalidade, dando aos rituais a importância e o significado requerido.
      Os rituais, além das palavras, gestos, danças e cantigas, são acompanhados por instrumentos de percussão; os atabaques (tambores), agogô, jaworô, adjárin, e outros que, consagrados são próprios para as ocasiões; tais instrumentos são utilizados por iniciados específicos, os alabês ou os olubatás, e o comportamento dos participantes produz um aspecto artístico integrado ao processo ritual manifestando o sagrado, momento em que o mito é revelado com a presença manifestada de um Orixá.
      O som produzido pelos instrumentos e as cantigas agem como invocadores e indutores de uma ação promovendo a comunicação entre o Ayê (o mundo físico) e o Orun (o mundo espiritual).
      ...E a vastidão do Universo, Óde-Orun, o infinito com dimensão de um espaço inimaginável, o espaço sobrenatural, o Orun, espaço espiritual numa concepção abstrata, e o Ayé, espaço físico, se alinham em concepções de planos existenciais, conceitos que desde os primórdios da humanidade são transmitidos de geração após geração.
      A nação Nagô sempre acreditou que a existência transcorre simultaneamente em dois planos, no Ayê a Terra, definida como plano material dando aos Seres existentes o nome de ará Ayê, e no Orún, o espaço etéreo onde habitam os Seres sobrenaturais astralizados, onde seus habitantes recebem a denominação de Ará Orun. No entanto, o espaço Orun compreende todo o espaço, incluindo o Ayê a Terra e, conseqüentemente todos os elementos, Seres e divindades.
      Segundo os conceitos, os Ará-Orun, por extensão, recebem também outra denominação, são os Irumalé, entidades existentes desde os primórdios dos tempos; são ancestrais de espíritos humanos que têm seu culto definido pela seita denominada Éegungun.
      Não se pode falar dos Irumalés sem mencionar os Ebóra, estes pertencentes ao Ayê que ficam circunscritos a um espaço limitado no Óde Orun, mais especificamente no Ilê, a Terra, (aqui especificado como lugar). São entidades divinizadas constituídas a partir de elementos ou Seres existidos ou existentes que, no conjunto de divindades, são cultuados separadamente dentro do ilê-axé; porém, o termo Ebóra não é mais usual, pois com a dinâmica da linguagem e de novos conceitos, englobaram-se o termo Orixá sem distinção a qualquer entidade, sendo somente reconhecidos por seus paramentos, atividades, cores ou outros elementos identificadores que os correspondem. Os Ebóra são os responsáveis pelo poder genitor feminino, pois reproduzem com fidedignidade a transformação de todos os elementos materiais numa reciclagem constante e infinita.
      Olorun ou Obá-Orun (rei do Orun) é a entidade suprema que também é denominado Olodumare ou Olorun-Baba-Olodumare, o senhor de toda a criação.
      Constituindo um grupo à parte estão os Orixás Fun-Fun, responsáveis pelo poder genitor masculino. Orixalá, também denominado Oxalá, ou ainda Obatalá, simboliza o elemento fundamental das quais se originam todos os Seres através da água e do ar.
      Composto de cantigas, poemas ou apenas algumas palavras, os orikis (louvações), formulam as qualidades e os fatos relativos a lugares, objetos ou divindades, que num contexto alinham-se aos ofó a aos ayá-jô, textos específicos no momento da formulação de preparados com elementos que são utilizados para a cura de enfermidades ou para outras finalidades. As estórias e lendas míticas, os (itans), que são contados, provêm de culturas de antepassados, e que, pertencentes ao sistema de oráculo, recebem o nome das cerimônias a serem realizadas.
      A palavra itan é designativa principalmente aos itans atowôdowô, estórias dos tempos antigos relacionados aos mitos que foram passados oralmente pelos Babalawôs, sacerdotes do oráculo de Ifá; dizem-se, os itans de Ifá, que estão compreendidos em duzentos e cinqüenta e seis odús, e que divididos em partes, passam a se chamar esé, e os quatros principais odús são: Ogí Ogbé, Oyekun Megi, Bara Megi e Edi Megi.    
      A estória mítica também conta através de um simbolismo que no principio da existência, Olorun o criador, era uma massa infinita de composição diversa, o ar que se movia lentamente como uma respiração transformou-se em água dando origem a Orixalá, (Oxalá), o primeiro Orixá fun-fun, ou Obatalá, o mais antigo.  Ar e água moviam-se continuadamente e uma parte transformou-se em lama originando uma bolha, que, ao secar transformou-se em uma rocha avermelhada; Ólorún então soprou seu hálito, o emí, sobre a pedra dando-lhe vida. Assim nasceu Exu, Exu Yangui, a primeira forma materializada e dotada de existência individual, o símbolo de elemento procriado.
      Um dos mais importantes rituais desenvolvidos nos candomblés refere-se ao início do ano litúrgico, que marca o ciclo das águas de Oxalá, pois este está associado tanto à água quanto ao ar, princípios geradores que o representam.
      O Ayê mundo material, e Orun mundo espiritual, constituem uma unidade que é simbolizada por uma cabaça cortada ao meio que recebe o nome de igbá-odú, no seu interior contém elementos simbólicos que o estruturam, permitindo assim que os signos ali representados sejam integrados em função do símbolo como um todo.  Na parte superior da cabaça encontra-se o Orun, Oxalá o princípio gerador masculino e, na inferior o Ayê - a Terra encontra-se Oduduwa o principio gerador feminino, o material e o espiritual geradores da vida.
      Os Seres divinizados também estão representados simbolicamente no igbá-odú através de signos complementares que permanecem unidos; Orun e Ayê, masculino e feminino preservam a permissividade da existência contínua. 
     Olorun, o Obá-Orun (rei do Orun), é a divindade suprema e detentor de todos os poderes, é ele quem regula toda a existência, tanto no Órún quanto no Ayê; iwá-axé-agbá é a palavra que define seus poderes, poderes que unem a existência aos elementos; ofurufú (o ar atmosférico), o emí (a respiração) e o axé, a energia que tudo direciona. Tais poderes são conservados no aparé, uma almofada mítica na qual estão contidos todos os elementos representativos do Universo (o Óde Orun), onde Olorun está sentado e posicionado no comando universal de todas as divindades, entidades e Seres.                 
      Dos mitos surgiram os fundamentos que regem todos os princípios religiosos e filosóficos desenvolvidos nos cultos afros no Brasil e, algumas nações do continente africano que, levadas a outras regiões do mundo, após absorverem outros costumes, deram origem há muitas outras seitas e religiões.   
                                        
                                             Candomblé de Nação Jêje
                                                            
      Em todas as regiões do antigo império do Daomé os deuses eram cultuados, podiam ser ancestrais locais ou vindos de outras regiões, mas o povo daomeano sempre dava preferência, em cada região, ao culto de seus próprios deuses locais. Os deuses estrangeiros, como eram chamados, eram aceitos nos santuários dos deuses locais. Muito embora permanecessem sempre como deuses estrangeiros vindos de outras nações, passavam a ter o mesmo tratamento dos deuses locais. Este tratamento era dado também pelo povo ioruba em seu território quando se tratava dos Voduns.
      O Daomé foi o principal reino do atual Benin por ter possuído um poderio militar formado por guerreiros e amazonas, era temido por outros reinos vizinhos que foram dominados e escravizados. O exército real era composto por dois regimentos, um permanente e outro de coletas tribais, este com a finalidade exclusiva de fazer prisioneiros e torná-los escravos que passavam a ser treinados para serem guerreiros do rei; as mulheres eram enviadas para o regimento das amazonas, conhecidas como as mulheres guerreiras. Os prisioneiros que se negavam a essas ordens eram executados ou vendidos como escravos. Normalmente, os chefes escravizados eram executados nos períodos dos festivais anuais, eram decapitados e seu sangue era ofertado aos ancestrais. Essa prática se deu nos séculos XVI e XVII quando o reino do Daomé foi o maior exportador de escravos para o novo mundo.
      O principal personagem da história do Daomé, Adja Tado, foi quem iniciou o primeiro império; conquistou primeiramente a cidade de Adja onde se tornou rei, casou e teve três filhos, Zozergbe, Alada e Aklin, quando adultos tornaram-se guerreiros. Adja Tado, juntamente com seus filhos, estabeleceram o reino de Allada, daí, seus filhos se dividiram e fundaram reinos separados tornando-se reis. O primogênito Zozergbe foi rei de Porto Novo, o segundo filho sucedeu a Adja Tado no reino de Allada, e o terceiro filho, Akllin foi para Gana fundando o principal reino da região, e com seu exército estabeleceu outra dinastia na cidade de Abomey, capital do império militar.
       O Abomey por duzentos anos foi governado por um total de treze reis, todos divinizados. A história conta que naquele período, Agassu que era um dos lideres do império, dizia-se ser filho de um leopardo com a princesa Aligbonon de Tado. Conta uma lenda que a princesa teria sido encantada pelo leopardo originando o nascimento de Agassu e dele teriam se originado uma linhagem de homens leopardos.
       Até então, mesmo sendo o Daomé um grande império, não existia o culto aos Voduns; naquela época o rei sentiu a necessidade de uma assistência espiritual, mandou então chamar um Bokono (adivinho) e pediu que consultasse os oráculos. Aconselhado, mandou vir das várias regiões os Voduns e a eles erigiu templos. Com isso o Daomé passou a sitiar vários clãs e aldeias com os Voduns. Anos mais tarde, o rei Agaja consolidou a religião.
       Aqui no Brasil, a nação Jêje, sofreu por alguns anos uma limitação no culto devido ao período de escravidão, no entanto, foi possível recuperar os conhecimentos dos fundamentos e a rica cultura daquela nação.
                                                                                                                                            
                                                   Os primeiros Voduns.  
  De acordo com os povos Ewê Fon de Abomey e Daomé, Mawú é a deusa suprema e criadora. Mawú representa a lua que traz a noite e a temperatura fresca no mundo africano, reside no oeste e é descrita como uma velha fria e indiferente, o que a faz ser considerada pelos povos Ewê Fon sinônimo de conhecimento e sabedoria. Alguns itans contam que Mawú tem um irmão gêmeo chamado Lissa, em outros, encontramos que se trata de um deus andrógino, que sua parte feminina é Mawú e a parte masculina é Lissa. Lissa é tido pelos povos Ewê Fon como feroz e áspero, reside no leste e representa o sol.  Mawú e Lissa são considerados como uma unidade inseparável na base do Universo, representantes do uno e da ordem.
      Existe uma crença entre os povos Ewê Fon que quando há um eclipse solar ou lunar Mawú e Lissa estão se amando, interagindo, e num desses eclipses o casal conceberam as primeiras crianças, eram os gêmeos Dazondi um menino e Nyohwe Ananu uma menina, depois nasceram outros. O segundo nasceu com características andrógenas e chamou-se Sabo, mais tarde nasceram os gêmeos Agbe, um menino e Niete, uma menina. O quarto filho nasceu velho e experiente, o quinto filho teria nascido adulto e chamou-se Gú, este tinha forma humana, porém, nasceu sem cabeça e no lugar havia uma espada que saia de seu pescoço e seu tronco era uma pedra. O sexto filho não possuía forma, passou a chamar-se Dio, o ar, a atmosfera. O sétimo filho nasceu com chifres, era Legba e passou a ser o preferido de Mawú por ser o mais novo de todos.
      Após o nascimento de todos os seus filhos Mawú/Lissa os reuniu a fim de dividir seus reinos; aos primeiros gêmeos, Dazondi e Nyohwe, deu-lhes todas as riquezas e mandou que fossem habitar na Terra; a Sabo deu-lhe o reino dos céus, pois este possuía as mesmas características de seus pais; aos gêmeos Agbe e Naete, disse-lhes para irem habitar os mares e comandar as águas; para o quarto filho, velho e experiente, deu-lhe o comando de todos os animais e pássaros e disse-lhe para viver nas matas. Gú ficou encarregado de ensinar aos homens a serem felizes. Á Dio, Mawú disse-lhe para ele ir viver no espaço, entre a Terra e os Céus e a ele confiaria o livre arbítrio dos homens, e seus irmãos seriam invisíveis, mas a ele caberia vesti-los.
      Depois que Mawú disse isso a seus filhos, deu aos gêmeos a linguagem que deveria ser usada na Terra e removeu de suas memórias a linguagem dos Céus. A Legbá disse que por ser a mais nova das crianças e como era muito levado e nunca soube de punição, não iria transformá-lo como aos outros irmãos, ficaria sempre em sua companhia, pois seu trabalho seria o de visitar todos os reinos governados por seus irmãos e dar ciência de tudo que aconteceria. Assim, Legbá sabe todas as línguas faladas por seus irmãos e a língua de Mawú. Legbá é o lingüista de Mawú. Se um dos irmãos desejar falar com Mawú-Lissa, deve dar a mensagem a Legbá, porque nenhum deles sabe mais dirigir-se a Mawú-Lissa. Por isso que Legbá está em toda parte, e é também por isso que encontramos Legbá na porta de todas as casas de Vodum, porque todos os Seres humanos devem dirigir-se a ele antes que possam se aproximar dos Voduns.
      Djêdje (Jêje) é uma palavra de origem ioruba que significa estrangeiro, forasteiro e/ou estranho, que recebeu uma conotação pejorativa de inimigo por parte dos povos conquistados pelos reis de Daomé e seus exércitos. Quando os conquistadores eram avistados pelos nativos de uma aldeia, muitos gritavam dando o alarme “Pou okan, djêdje hum wa!” - olhem, os Jêjes estão chegando!
      Quando os primeiros daomeanos chegaram ao Brasil como escravos, aqueles que já estavam aqui reconheceram o inimigo e gritaram - Pou okan, djêdje hum wá!. E assim ficou conhecido o culto aos Voduns no Brasil como Nação Jêje.
 Segundo historiadores, o Candomblé propriamente dito aconteceu devido a uma reunião feita entre negras da irmandade Nossa Senhora da Boa Morte em Salvador na Bahia, na qual ficou estabelecido o culto africanista no Brasil, porém, como forma complementar de culto ficou definido os modelos para cada grupo das várias regiões de origem, ou seja: os candomblés de Nação das quais são formados as de Ketu, de Jêje, de Angola, de Congo, e de Muxicongo.
      No entanto, a sociologia designa, neste caso, a palavra Nação, não significando uma nação política, e sim o conjunto dos vários candomblés formado pelos vários povos vindos da África. Desta forma, os candomblés iniciados pelos africanos vindos da região do Daomé receberam o nome de candomblés Jêje Mahi. Os grupos que falavam o idioma ioruba, entre eles os de Oyó, Obeokutá, Ijexá, Ebá e Benin que vieram a constituir os candomblés de Nação Ketu.
      Historicamente, um dos aspectos a ser observado é pelo fato de na África muitos dos grupos aqui reunidos como escravos eram inimigos ferrenhos, pois, os iorubas quando guerreavam com os povos Jêjes e perdiam batalhas, tornavam-se escravos e posteriormente eram vendidos. O povo ioruba foi então chamado pelos Ewê Fons de Anagô, que significa na língua ewê fon, piolhentos, sujos, mas com o tempo foi modificada para Nagô, consubstanciando o sentido de Nação.
      Com essas misturas entre povos dos diversos grupos passaram a existir também as diversas variações nos candomblés, assim como nos de Ketu, de Angola e nos de Jêje, existe o Jêje Mahi, formado principalmente por povos de Mahi, tribo formada por grupos que existiam próximos à cidade de Ketu. Os candomblés de Nação Angola e Congo foram desenvolvidos com a chegada desses africanos.
Portanto, para entender historicamente o Candomblé Jêje é preciso ter conhecimento do conjunto de todas as outras Nações que compõem os cultos afros, principalmente por ter como definição a palavra Jêje ou o que define como Nação de candomblé.
Formado pelos Ewê Fons da região do Daomé, pelos Mahis, Axantis, Gans, Agonis, Popós Crus, Akan e outros que tinham entre si dezenas de idiomas e dialetos, mas cultuavam os mesmos Voduns, as diferenças em denominações e cultos vinham deles próprios.
       No Brasil os primeiros Jêjes chegaram à cidade de São Luis no Maranhão, de lá foram distribuídos para o Amazonas, Maranhão, Salvador e interior do território baiano e mais tarde para o Rio de Janeiro; porém, presume-se que muitos deles foram para outros lugares do território brasileiro chegando ao extremo sul do continente, mais precisamente no Rio Grande do Sul.
      Desde a reunião feita pelas mulheres da irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Salvador, o tempo e a dedicação de muitos se encarregou em definir, adaptar e recriar elementos para desenvolvimento do candomblé de Nação Jêje. Os Voduns, deuses familiares oriundos de crenças primitivas, tornaram-se Seres incorporados nos novos ritos na nova terra, e assim, criou-se um panteão glorificado que é cultuado por seus fiéis e seguidores.
  Apesar de os Voduns possuírem suas origens em diferentes regiões da África, aqui no Brasil com as misturas ocorridas nos diversos grupos receberam denominações já conhecidas, porém, adquiriram características englobando famílias pertencentes a algum ramo da natureza, desta forma temos:
      Ayzian, Vodun das matas e da terra - Sogbô, Vodun do trovão pertencente á família de Heviosso - Agüé, Vodun das folhagens - Loko, Vodun do tempo. Muitos Voduns, no entanto, permaneceram no Daomé, outros foram esquecidos e não mais cultuados, outros ainda, não se fundiram aos Orixás, divindades de origem Nagô e desapareceram. Alguns cultos, no entanto, como o da serpente Dâng-bi, que nasceu em Ajudá foi para o Daomé e de lá foi para as Antilhas.
      Ainda na classificação dos Voduns de origem Jêje, na Nação Jêje Mahi existem os considerados povos da Terra, ou os Voduns Caviunos que são: Azanssu, Nãnã e Becen, Ayzan que vem da nata da Terra, e Loko considerada uma árvore sagrada. Agüe Azaká é também um Vodun Caviuno. A família Hevioso é encabeçada por Badé Acorumbé, também filho de Sogbô chamado Rumbó.
      Na similaridade, Mawú Lissa está para os Fons como Oxalá está para os Nagôs, bem como, Sogbô que possui particularidades semelhantes a Xangô o deus do trovão - Averekete, que é filho de Aguê e irmão de Anaite.  Anaite, no entanto, pertence à outra família que viria de Aziri, pois as Aziris ou Tobosse são respectivamente as Yábás para os Nagôs e Azintobosse para os povos Jêje.
      Assim como todas as Nações adquiriram particularidades na formação dos candomblés, todas elas possuem suas características em idiomas e rituais. No candomblé de Nação Jêje, assim definido, a casa de culto recebe a denominação de Kwê e possui as mesmas características físicas de outros candomblés, pois, o culto à natureza a aos Voduns a ela relacionada se faz necessário. Originalmente na África, o culto estava relacionado aos animais, tais como, o leopardo, o crocodilo, a pantera, o gavião e até aos elefantes, todos relacionados com os Voduns. A Kwê, casa onde são desenvolvidos os cultos fica no rumpame, que quer dizer fazenda na língua Ewê Fon, lugar que representa as matas.
      Devido ao distanciamento dos grupos, a separação por longos períodos de escravidão no grande território, aqui no Brasil, nos estados do norte, Maranhão principalmente, predominam os cultos as divindade Azoanador, Tobosse e outros Voduns, suas sacerdotisas são chamadas de Nochê e seus sacerdotes são os Toivoduno.
Nos jogos divinatórios, o Opelê de Ifá, manipulado pelos Babalawôs na cultura Nagô, recebe na cultura Jêje a denominação de Agumagá e seu manipulador é o Bakuno, e Ifá é denominado de Vodun-fá, o Senhor dos destinos. Assim, temos também para todos os outros cargos existentes nomes característicos para funções definidas tanto de uma ou de outra Nação de candomblé.
      Os Ogãni são os cargos masculinos na Nação Jêje correspondentes aos mesmos cargos de Ogãs para os de Nação Ketu que absorveram a cultura. Runtó são os tocadores dos atabaques, isso porque, os atabaques, Run, Rumpi e Lé são de origem Jêje.
Todos os cargos nos candomblés existem suas correspondências: nos de Nação Jêje, a Ojoié corresponde ao feminino de Ogãni, que na Nação Ketu é denominada de Ekedji e nos de Angola são denominada Makota, no entanto, por conseqüência possuem as mesmas prerrogativas no culto.
       O termo Orixá, muito empregado pelas Nações de Candomblé não significa uma mudança de “estado endeusado” de divindades, sejam elas Voduns, N´Inkices ou Orixás propriamente ditos, a diferença está nos conceitos pertinentes a cada Nação, pois, cada uma delas possui seus ritos, mitos, encantamentos e musicalidades próprias.
Além dos atabaques, existem outros instrumentos que integram os rituais, especificamente na Nação Jêje são vários, porém não são usuais aqui no Brasil.
      Por razões de influências e aculturação, num sentido de facilitar um melhor entendimento entre as Nações de candomblés, foram globalizados muitos termos e cargos ocupados na religião. Termos como Abiyãn, Ogã, Ekedji, Iyálorixá, Babalorixá e outros, não significando assim uma distorção ou mesmo perda de cultura, apenas como uma predominância de uma Nação sobre outra.
      No universo religioso igualmente a outras Nações, também no Candomblé Jêje as estórias e lendas são preservadas, e uma delas conta que.... Os Caminhos de Mawú são Justos.
      Mawú mandou um mensageiro a Terra para seguir o curso do sol, desde o lugar onde ele nasce até o local onde ele se põe. Após um dia de caminhada o Mensageiro chegou a Adja e resolveu descansar; pediu abrigo em uma casa à beira da estrada e os donos da casa colocaram-no para dormir num alojamento fora da casa. Ao entrar no alojamento o mensageiro encontrou outro viajante.
O Mensageiro perguntou ao viajante:
__Para onde você está indo?
O viajante respondeu:
__Estou indo na direção do por do sol.
O Mensageiro disse:
__A vida me dá um companheiro! Também estou indo onde o sol se põe.
No dia seguinte bem cedo o Mensageiro acordou com gritos dentro da casa e foi ver o que estava acontecendo, e o dono da casa explicou que um de seus filhos estava muito doente e que ninguém havia dormido a noite inteira.
O Mensageiro tirou um pó de dentro de um saco e mandou que o homem desse a criança e voltou para o alojamento.
Chegando ao alojamento ele sacudiu o novo companheiro dizendo:
__Acorda, rápido, já estou seguindo viagem.
Quando os dois viajantes já estavam bem longe na estrada, ouviram muitos gritos e pessoas perguntando:
__Onde estão os viajantes? __Onde estão os viajantes? ...A criança tinha morrido.
Os dois continuaram a viagem sem olhar para traz até chegar á Savalu, onde novamente pediram abrigo numa casa.
Na primeira hora do dia seguinte, ao acordar, o Mensageiro colocou fogo nas palhas onde tinha dormido e depois acordou seu companheiro:
__Acorda, rápido, já estou seguido viagem.
Após caminharem alguns metros os viajantes olharam para trás e puderam ver toda a casa pegando fogo e as pessoas gritando:
__Onde estão os viajantes? __Onde estão os viajantes? 
Continuaram a viagem sem mais olharem para trás.
Chegaram á Badahwedji a cidade onde o sol se põe; porém, para alcançar a cidade teriam que atravessar um grande rio e só havia um velho canoeiro.  Falaram com o velho e esse informou que teria que atravessar um de cada vez.  O companheiro de viagem foi o primeiro a atravessar o rio. 
O velho voltou e pegou o Mensageiro para atravessá-lo. Quando a pequena embarcação estava no meio da viagem, o Mensageiro aproveitou um momento de distração do velho e o jogou na água para que se afogasse.
Quando o Mensageiro chegou à outra margem, seu companheiro de viagem correu apavorado. O mensageiro gritou:
__Não tenha receio de mim, calma vou te explicar tudo.
O companheiro voltou e perguntou:
__Por que você mata pessoas e queima casas? __Você não queria encontrar o local do por do sol? Pois estamos nele, não precisava fazer essas coisas.
O Mensageiro respondeu:
__Sei que para você tudo isso é estranho, pois você e um humano. Eu sou um Vodun e sou Mensageiro de Mawú, vim fazer cumprir a lei.
__Na casa onde matei a criança, se ela continuasse a crescer, quando chegasse a certa idade iria matar seus pais, pois ele era um ancestral vingativo que Mawú deu a oportunidade de se redimir com os seus, mas ele só pensava em vingança. Mawú não poderia deixar que as demais crianças ficassem órfãs, então preferiu chamá-las de volta.
__A casa que queimei, aquela família vivia na miséria total, seus filhos passavam fome.  Os ancestrais deles eram muito ricos e antes de morrerem enterraram todo o dinheiro e riqueza naquele chão. Agora quando eles forem cavar para construir a nova casa encontrarão toda essa fortuna. A fome e a miséria não mais farão parte de seus caminhos.
__Sobre o velho que matei no rio, o rei de Badahwedji morreu e um homem jovem deve ser escolhido como o novo rei.  Se aquele velho vivesse, ele seria o novo rei. Aquele velho tinha muitas dívidas com Sakpata e se ele fosse nomeado rei, levaria para Badahwedji a fome e as pestes. Não haveria uma só cabra, nem um boi ou inhame. Crianças não mais nasceriam.
__ Um jovem rei dará vida a crianças fortes e saudáveis, a terra terá fertilidade e todos terão muitas cabras, bois e inhames.. __ Eu olho no coração dos homens e Mawú me manda eliminar os maus e ajudar os bons.  És um bom homem, por essa razão teus ancestrais te enviaram a tua cidade para ser o novo rei. __ Um rei deve ter sabedoria e essa é a tua primeira lição. “Não julgue antes de conhecer as causas” e “Nunca julgue Mawú”.  - Agora vá e ocupe seu trono. Cuida de teu povo e ensine a todos que “os caminhos de Mawú são justos”.  Saiba que quem te enviou ao por do sol fui eu, o teu Vodun, moro no sol e caminho na Terra, eu sou Lisa e estarei sempre ao teu lado enquanto for um bom homem.

                                    Heviosso salva o Daomé. (lendade Heviosso)
      Houve uma grande seca no reino do Daomé, quase quatro anos sem chover, a fome assolava a região e o povo desesperado fazia, junto com o rei, oferendas aos deuses pedindo que enviasse chuvas, mas nada funcionava, parecia que os deuses não aceitavam as oferendas. O rei já não sabia mais o que fazer, pois, todos os recursos já tinham sido usados. Em seu desespero o rei rogou aos seus ancestrais que mostrassem o que ele deveria fazer para salvar seu povo e seu reino. 
      Um dia o rei acordou com gritos de uma de suas noivas e foi ver o que acontecia. Encontrou sua noiva lutando com os soldados que não a deixam passar para acordar o rei, interpelou-a, ela respondeu que tivera um sonho com um deus muito poderoso e que trazia um recado ao rei.
      Huenu era uma jovem e bela virgem portadora de poderes mágicos, a qual se tornaria esposa do rei tão logo a chuva chegasse.  Huenu contou ao rei que sonhara com um deus muito alto e forte que cuspia fogo e lançava raios e trovões com suas mãos.  Este deus disse a Huenu que se o rei erguesse um templo para ele no Daomé e passasse a cultuá-lo, traria a chuva e o sol que iriam fertilizar o solo e que nunca mais a seca voltaria a castigar o reino.
      Após ouvir atentamente o relato da noiva, o rei considerou que era uma resposta de seus ancestrais, mandou chamar os sacerdotes do reino e contou o sonho de Huenu.  Após varias conversas, os sacerdotes admitiram não saber quem era esse deus,  resolveram consultar o bakono que vivia afastado da cidade.  O rei mandou o buscá-lo.
Após consultar o oráculo de Fá, o bakono disse tratar-se de Hevioso o deus do trovão e que o rei deveria obedecer. Os sacerdotes do rei não sabiam como fazer para tratar e cultuar o novo deus,; foi então que pediram auxilio novamente ao bakono que fez nova consulta a Fá. 
      Fá mandou que o rei fizesse ebó para Elegba e viajasse para Hevie onde ele encontraria Heviosso e aprenderia sobre seu culto.  O rei viajou com seus sacerdotes.
Ao chegar a Hevie, foram recebidos por um Hunon que já os aguardava.
      O rei e seus sacerdotes foram iniciados no culto de Hevioso e aprenderam seu culto.  Quando estavam prontos, o Hunon avisou que já poderiam partir, mas teriam que levar também uma sacerdotisa de Hevioso a qual levaria para o Daomé o assentamento do deus do trovão que deveria ser estabelecido no reino.
      Ao chegarem ao Daomé, o rei colocou os assentamentos de Heviosso em seu palácio e mandou preparar oferendas conforme a sacerdotisa havia indicado, depois mandou que todo o povo viesse conhecer o novo deus e prestar homenagens, assim foi feito.  Naquela mesma noite raios e trovões rasgaram os céus do Daomé e a chuva caiu em abundância fertilizando o solo.
      O rei não cabia em si de contentamento,  mandou um mensageiro a Hevie contar ao Hunon o sucedido e pedindo que esse viesse ao Daomé assentar toda a família de Hevioso.
       Hunon chegou ao Dahomé trazendo consigo os assentamentos dos demais membros da família de Hevioso. Um grande templo foi construído e uma grande festa foi feita, que durou seis dias e seis noites, foi feita para saudar aqueles novos deuses.
Hunuon por ordem de Heviosso casou-se com Huenu que se tornou uma grande sacerdotisa de Heviosso.
      Depois desse período nunca mais o Daomé conheceu a fome, Heviosso prometeu e cumpriu. Ele envia a chuva e o sol que fertilizam a terra.
Estes e outros mitos estão relacionados com a cultura religiosa afro-brasileira em relação ao candomblé Jêje, independentemente da região que foi desenvolvido.
      Com algumas diferenças no tratamento em relação aos rituais ou divindades mais difundidas no Rio Grande do Sul, grande parte das casas de candomblé se desenvolveu, juntamente com outros segmentos o Batuque, denominação que recebeu devido à junção com ritos advindos de Ijexá e com o idioma Ewê Fon aplicado nas rezas. Uma das características desse segmento é a dança feita por pares, uma frente à outra e não em roda como de costume em outros candomblés. Os atabaques usados também são idênticos, porém em tamanho menor e tocados com varetas, os agdavis, que alguns denominam Candomblé de pauzinhos.
      Como podemos observar não existe candomblé Jêje essencialmente puro, assim como em outras nações ou segmentos da cultura africana no Brasil, sempre há de aparecer uma mescla de outras origens, mesmo que pareçam estranhas, pois, em algumas casas de candomblé Jêje, além de serem cultuados os Voduns, também se manifestam alguns Orixás Nagôs.
      O culto aos Voduns no Brasil foi desenvolvido na Bahia e ficou conhecido como candomblé Jêje, no Maranhão como Tambor de Mina e no Rio Grande do Sul o Batuque, este com influências do Ijexá. No entanto as casas proliferaram e estão espalhadas por todo o território, obviamente com suas características regionais; como exemplo, as casas fundamentadas no Mina Jêje possuem o predomínio de mulheres e não há ritual público.
Outra característica a ser observada no candomblé Jêje, idênticos ao Batuque, é a de que os Voduns falam à assistência e mantém os olhos abertos, diferentemente dos Orixás.    
      Dependendo da influência proporcionada pelos conceitos religiosos do povo ioruba, algumas casas são denominadas Jêje-Nagô, nas quais desenvolveram conceitos sincréticos com altar composto de imagens de santos católicos. Nas casas mais tradicionais, aquelas que resistiram a influências de outras nações, conservam o panteão original composto pelos Voduns, e não admitem, mesmo que ocasionalmente, introduções de elementos estranhos a sua origem, admitem somente os Voduns, pois estes são as bases da continuidade do culto original e que procuram recriar aqui no Brasil os ritos formulados na África.
      Os Voduns são considerados os deuses dos povos Ewê Fom e cada um deles está relacionado com algum tipo de elemento natural. Assim temos, além de Mawú Lissa, (Dadá Segbô), Gu o Vodun dos metais, do fogo, da tecnologia e da guerra; Heviosso aquele que comanda os raios e os relâmpagos; Sagbata ou Sakipata é Vodun da Varíola; Dan o Vodun da riqueza e que è representado pelo arco-íris; Ágüe o Vodun da caça e protetor das florestas; Agbê o Vodun dos mares; Ayzan, Vodun feminino a dona da crosta da terrestre e também considerada o Vodun dos mercados; Agassu o Vodun que representa a linhagem real do reino do Daomé; Legbá o Vodun que representa as entradas e as saídas, está sempre nas portas e portões, é também o Vodun da sexualidade; Fá o Vodun da adivinhação e do destino.
      Mawú representa o principio feminino e Lissa o princípio masculino, unidos pela interatividade de suas energias são consideradas as divindades criadoras. Conta a historia que o nome Mawú foi utilizado para denominar o deus único dos judeus, cristãos e muçulmanos nas línguas faladas pelos povos Ewê Fon, porém, ficou assim denominado e passou a ter seu culto com sacerdotes, os Mawúnon.
      Na África os Voduns são agrupados em famílias possuindo um Vodun principal podendo estar representando em um elemento ou um fenômeno natural, ou simplesmente representando uma cultura local. As famílias são compostas de vários outros Voduns, estes, porém, não são conhecidos ou cultuados aqui no Brasil.
      Também na África, diferentemente do culto desenvolvido aqui no Brasil, os Voduns são agrupados e chefiados por um Vodun principal, que pode ser em um momento representado por algum elemento ou fenômeno da natureza e, em outro momento, é representado por um elemento cultural; basicamente são quatro famílias principais, ou seja: Os Ji-Vodun, Voduns do alto que são chefiados por Sõ, uma forma básica de Heviosso. Os Ayi-Vodun, Voduns da Terra chefiados por Sakpatá. Os To-Vodun, que são os Voduns pertencentes a uma comunidade ou localidade. Os Henu-Vodun que são os Vodus cultuados por alguns clãs que se consideram seus descendentes.
      Existe uma historia dizendo que a palavra Daomé possui significados; conta que o rei Ramilé se transformava em uma serpente e teria morrido na terra de Dãn, surgindo daí o nome de Dan Ime, ou Daomé.
      Apesar de alguns desencontros relativos a questões culturais, a Nação Jêje é também denominada Ewê Fon, isso porque, possui uma diversificada classificação em relação aos Voduns. No Jêje Mahi são classificados os Voduns Caviunos que são: Azanssu, Nãnã, Becén e Ayzin, este, é o Vodun que nasce sobre a terra, é quem protege a azan (esteira), em outros dialetos ele também é denominado Zenin e Azeni; Ayzian é um Vodun da terra e protetor dos mercados; Sogbô é o Vodun do trovão; Ágüe é o Vodun das folhas e Loko é o Vodun do tempo. Existem ainda os Voduns pertencentes a famílias distintas, e uma delas é a de Dãn que são chamados Megitó, os Doté pertencentes ao sexo masculino e as Doné do sexo feminino. No entanto, muitos desses Voduns não migraram para o Brasil e com o tempo deixaram de ser cultuados; o culto promovido à Dãng-bi, a serpente, é um exemplo.
Formado por povos Mahis vindos do antigo Daomé, o candomblé de Jêje não chega a ser uma nação em si, o nome Djêje (Jêje), como foi dito, tinha uma forma pejorativa, um apelido dado pelo povo ioruba aos Savé, aos Abomei e aos Axantis que viviam espalhados pelo território do Daomé, no entanto, todos eles eram povos Djêje (Jêje).
Devido a uma miscigenação religiosa nos cultos, muitos dos Voduns acabaram se fundindo a outros de outras nações, mas nem por essa razão o Candomblé Jêje, como é conhecido, deixou de possuir uma classificação. No Jêje Mahi, como é conhecido, possui os Voduns pertencentes á Terra, os Voduns Caviungos, estes, ligados a uma existência com elementos da natureza, que são: Azanssu, Nãnã, Becén, Agüê, Azaká, Loko, este também pertencente á família Hevioso é um Vodun possuidor de energia dupla, pois pertence tanto a Terra quanto ao universo astral, na Terra está relacionado a uma árvore sagrada. Os Voduns pertencentes á família de Hevioso é encabeçada por Badé; Mawú Lissa tem um sincretismo com Oxalá na cultura iorubana assim como Sogbó que corresponde a Xangô.
 Mesmo absorvida por outras nações, Nãnã continua sendo uma Vodun, pois, sua origem em terras de domínio dos povos Ewê Fon, faz dela a mais antiga das entidades e está associada aos mitos da criação da terra. Nãnã é a precursora de todas as divindades que têm o poder de gerar a vida.
O povo Ewê Fon contribuiu em muito para o desenvolvimento do candomblé, principalmente o de origem Nagô. Muitas palavras do idioma dos diversos dialetos fazem parte do linguajar usual. O candomblé de Jêje, na verdade deveria ser chamado de nação Ewê Fon, da qual, são conservadas apenas algumas lembranças da divisão familiar, pois, na maioria das casas, os Voduns são denominados Orixás, denominação predominante nos Candomblés como uma forma globalizada de identificar as divindades da Natureza. 

                             Primeira casa da Nação Jêje.
      Em 1796 foi fundado no Maranhão o culto “Mina Jêje” pelos negros Fons vindos do Abomey a então capital do Daomé. A família real trouxe consigo o culto de suas divindades ancestrais denominados Voduns.
Devido ao entrelaçamento das Nações de Candomblé algumas palavras no idioma Ewê Fon utilizadas nos Candomblés pertencentes á Nação Jêje, tornaram-se usual em todos os templos, independente do conceito de Nação.
Esin – água.
Atinçá – árvore.
Agruçá – porco.
Kpo – pote.
Zó ou Izó – fogo.
Avun - cachorro
Nivu – bezerro.
Yan – fio de contas.
Vodunse – filho do Vodun,/ iniciado
To – banho.
Zandro – cerimonial.
Sidagã – auxiliar da Dagã no cerimonial a Legba.
Zerrin – ritual fúnebre Jêje.
Sarapocã – cerimônia feita sete dias antes da festa publica da saída de um Iawô.
Sabaji – quarto sagrado onde ficam os pertences, assentamentos dos Voduns.
Runjebe – colar de contas que é usado após sete anos de iniciação.
Rumbono – primeiro filho de Vodun iniciado na casa de Jêje.
Rundeme – quarto onde são preparados e paramentados os Voduns manifestados.
Ronkó – quarto sagrado onde são feitos alguns rituais.
    
                                                      A lenda de Aina
 Quando se encontrava no céu perto de Mawú, o caramujo Aje se chamava Aina e era do sexo feminino. Naquela época, Fá Ayedogun passava por sérias dificuldades financeiras e, por ser muito pobre, não era convidado a participar de qualquer festa ou reunião social. Aina, recém-nascida, era muito feia. Sua aparência terrível fazia com que todos evitassem sua companhia e ninguém aceitava tê-la em casa.
Depois de ser rejeitada em todas as casas, Aina bateu na porta de Fá Ayidogun, que apesar do estado de miséria em que se encontrava acolheu a menina. Uma bela noite Aina acordou Fá  anunciando que estava prestes a vomitar. O hospedeiro apresentou-lhe uma tigela para que vomitasse, mas ela recusou-se.
Uma cabaça foi trazida e também recusada e depois, uma jarra foi objeto de nova recusa. Fá perguntou então, o que poderia fazer para ajudá-la e Aina disse: "Lá no lugar de onde venho, costuma-se vomitar todos os dias, no quarto”. Conduzida ao quarto, Aina começou a vomitar todos os tipos de pedras preciosas, brancas, azuis, vermelhas, verdes, etc. Naquele momento, um marabu (caminhante de outras terras) que passava, penetrou na casa de Fá e perguntou por Aina. "Ela está no quarto, acometida por uma crise de vômitos," respondeu Fá.
O estrangeiro foi ver o que se passava, e ao deparar com Aina vomitando pedras preciosas exclamou: "Há! Nós não conhecíamos os poderes de Aina, hoje revelados!" Disposto a servi-la, colocou-lhe o nome de Anabi ou Ainayi, que em ioruba quer dizer: Aina vomita. Aina deu toda riqueza à Fá Ayidogun. Os muçulmanos, depois disto, fizeram de Aina uma divindade, conhecida entre eles, como Anabi.

                                   Candomblé de Nação Angola.
                                          
         Com algumas diferenças nos rituais, o Candomblé de Angola está mais relacionado a uma estrutura que tem início nas lendas contadas sobre a precipitação de uma grande energia sobre o mundo material. As lendas contam que Angoni (N’Zambi), dormia em sono profundo, e enquanto dormia se expandia alcançando o infinito desconhecido, e de tão grande não mais podia mover-se em seu espaço; Foi então que começou a emitir uma forte luz e concentrá-la num “Ser” denominado Aluvaiá, este, prometeu então que ia percorrer todo o espaço e trazer-lhe informações; mas para tanto, precisaria de determinados poderes para que pudesse formar massa matéria. Atendido em seu pedido Aluvaiá sai em busca dos espaços desconhecidos.
      Com o tempo, Aluvaiá, conhecedor dos segredos universais, ficou vaidoso e sentiu-se poderoso, resolveu não mais voltar; passou então a moldar as massas que após ter precipitado as energias, transformou-as em matéria.
      Todos os Seres criados por Aluvaiá pertenciam aos centros das matérias que, reunidas, passaram a ser chamadas de mundos; no entanto, os Seres criados não tinham a capacidade de se multiplicar num ciclo perpétuo, segredo que N’Zambi não havia fornecido à Aluvaiá. No entanto, Aluvaiá não estava preocupado e continuava a criar em cada momento da existência um novo Ser, e a cada um que criava dava-lhes seu sangue para que aquelas criaturas tivessem uma vida mais prolongada. Porém, com o tempo, Aluvaiá começou a enfraquecer e para manter a sua própria existência começou a beber do sangue dos Seres criados por ele; assim, Aluvaiá passou a ter as mesmas constituições dos Seres por ele criados.
      A lenda continua com a narrativa de que naquela época os Seres acreditavam que Aluvaiá era o único e Senhor de todo o Universo. Quando indagado por um Ser em ter pedido vida eterna, Aluvaiá respondeu que tal segredo estava com N’Zambi. Foi então que Aluvaiá voltou a N’Zambi, e mentindo, disse-lhe que além do Universo infinito havia outros mundos, acrescentando que se ficasse por muito tempo naquele lugar se enfraqueceria e por isso precisaria do segredo da perpetuação. N’Zambi, desconfiado e sabedor de tudo que Aluvaiá fizera, deu-lhe por castigo a missão de voltar e se alimentar de sua própria essência de vida, o sangue.
      Para haver um controle entre o Universo e os Seres criados, N’Zambi criou os N’Inkices, seres astrais, os quais iam de tempos em tempos ao espaço onde Aluvaiá continuava a fazer seu trabalho. Os N’Inkices viam e informavam, passaram então a ser os mensageiros do grande universo. N’Zambi, na sua imensa sabedoria pediu que Aluvaiá viesse a sua presença e falasse de suas obras. Para tanto, Aluvaiá pediu ajuda aos N’Inkices, os quais foram aos espaços dos Seres criados.  Vendo tudo passaram a ter domínio sobre os elementos da natureza criados por Aluvaiá, este, tendo seu domínio ameaçado zangou-se, mesmo assim os N’Inkices se apoderaram de tudo e passaram a dar aos Seres criados por Aluvaiá capacidades de realização. Com o poder perdido, Aluvaiá recorre a N’Zambi alegando que os N’Inkices o expulsaram de seus domínios. Foi então que N’Zambi deu a Aluvaiá a missão de intermediar entre os dois espaços e ser o mensageiro. Com o tempo, os Seres dependentes do sangue passaram a fazer sacrifícios para Aluvaiá, pois ele é o responsável de manter a vida material.
  
                                                     Estrutura social.
     Relacionado a um espaço físico terreno é no simbelê que fica toda a estrutura do abassá, a casa de culto dos Candomblés de Angola, é no benguê, cumieira, local dedicado ao N’Inkice do Táta, zelador, e que se divide em duas partes, ou seja: o Duilo o Céu, e o Iungo a Terra; no chão, na mesma direção central estão plantados os benguês, fundamentos do N’inkice, tais estruturas são  fundamentos do abassá, local onde são feitos os angorossis orações, reverências e algumas oferendas.
       A casa de Aluvaiá, localizada a direita da porta de entrada é “plantado” o existencial do Táta, zelador, único nos templos de Angola. Os assentamentos de reverência do N’Inkice do templo ficam no lembeci, um cômodo independente no qual somente o Táta. Zelador pode entrar. Mantendo a estrutura do abassá um poço se faz necessário, pois a água de nascente é fundamental, esta pertence à Zumbarandá, ser mítico das águas. Tempo, N’Inkice amórfico possui sua estrutura numa representação constituída de um tronco que é ornado com laços de tecido branco e um capuz feito de palha, e á seus pés são colocados vários elementos que compõem estrutura e fundamentos. No interior do abassá, o pepelê aloja os três atabaques, cucumbu o maior, cacumbi o médio e cucumbi o pequeno, também denominados de n´gomba, n´guenje e gonguê, que somente os kissicarangombes podem tocá-los, pois são instrumentos consagrados e pertencentes aos rituais.
      Os demais elementos que constituem o simbelê são relativamente idênticos ao de outras Nações de Candomblés, pois, a aproximação, influências ou vertentes culturais, fazem com que todos os adeptos das religiões afro-brasileiras se irmanem nas reuniões festivas ou de apoio, não importando as raízes ou as origens. Por outro lado, globalizou-se a denominação das divindades; assim, em quase todas as casas de Candomblé, independentes a que Nação pertença, as divindades recebem a denominação de Orixá por excelência.
      Portanto, relacionados com os elementos da natureza e atividades humanas, da mesma forma estão os N’inkices e Orixás em relação a preceitos e tabus que recebem denominações diferentes devido ao idioma e a cultura de cada Nação.
      Nos Candomblés de Angola, Aluvaiá é a denominação dada a Exu nos de Ketu, e sucessivamente temos: para Macumbe, Ogún; Gongo-Bira, Oxóssi; Catendê, Ossayn; Kaviungo, Omulú (Obaluayé); Kambaranguange, Xangô; Tempo não recebe outra denominação, pois transcende a qualquer atividade tanto no culto quanto nas culturas. Angoroméa, Oxumare; Matamba,Yansã; Danda Lunda, Oxún; Kaitumba, Yemanjá; Zumbarandã, Nanã Buruku; Wunge, Erês, (entidades crianças divinizadas), e Lembaranganga, Oxalá. Tais identificações não querem dizer que sejam os mesmos Orixás em relação aos N’Inkices, sincretisados, são divindades pertencentes a culturas diferentes, porém com as mesmas funções consubstanciadas aos fatores de suas existências e de suas funções perante os fenômenos e elementos naturais.
      Restrita a cultura angolana, é dado ao fato de ter sido um dos poucos povos africanos a possuírem um alfabeto; dizem que remonta a milhares de anos desde que foi difundida, trata-se do alfabeto glozel, uma série de letras consideradas sagradas, as quais, riscadas no chão e acompanhadas de palavras mágicas, eram utilizadas pelos sacerdotes nas operações de magia teúrgica (magias que implicam na transformação das intempéries).
   Devido a grande semelhança nas práticas religiosas e no idioma, as Nações Angola e Congo fundiram-se em uma só considerando os N’Inkices como ancestrais divinizados; assim temos: Kitembu o senhor do tempo, deus dos ventos e patrono da Nação Angola; N`uunji a deusa da justiça; Teleku/ Mpensu o pequeno pescador que veio das águas, divindade dos pescadores e caçadores; Zumbarandá a mãe da terra molhada; N’Zambi Mpungo o deus todo poderoso; Kabila, divindade dos pastores e caçadores; Pambu Nigila o senhor dos caminhos e protetor dos templos; N’Kosi – Macumbe o pioneiro; Mutakalambo o caçador, Kavungo o senhor da ráfia, Kingogo/ Nsumbo/ Nsambo, além de atuarem como divindades médicas (divindades curandeiras) são também promotores da sorte; N`Zazi ou Luango,  rei dos raios e dos trovões; Katende o senhor das folhas, Danda Lunda a senhora dos rios e águas calmas; Matamba-Kaingo a rainha dos ventos e das tempestades, Kaitumba a rainha das águas salgadas; Hongolo o senhor do arco íris, Lemba, deus da procriação e Senhor da paz; Bambulu/Sena/M`vula, deusa dos raios; N`Zumba, divindade que atua sobre o eclipse e nas águas turvas dos pântanos; N`idundu, deus dos albinos; Samba Kalunga, a deusa dos mares; Samba N´Zendu, divindade dos caçadores, foi uma das esposas de Mutakalambo; Kaiango/ Kaiong`u, divindade ligada aos espíritos e da caça; N`Gonga, divindade da felicidade e da prosperidade; Kaiala/ Kaiaia, divindade que atua no encontro das águas dos rios com o mar.

                          Manifestações dos Orixás, N´Inkices e Voduns.
      Ao som dos atabaques num ritmo intermitente acompanham os cânticos originários de antigas culturas que saem de uma mistura de vozes graves e agudas sem nenhuma preocupação de entonações; brados são emitidos pelas divindades manifestadas nos eleguns (iniciados); o bimbalhar de uma campânula de latão é constante, e uma coletiva dança de roda no interior do grande salão, onde mulheres e homens vestidos de branco, dançam, num ritual obedecendo a uma cadência determinada pelos instrumentos de percussão.
Obs: O termo aqui empregado “divindades manifestadas”, não corresponde a uma manifestação de um deus ou deusa, e sim uma manifestação da energia do Elemental, (Ler conclusões nas últimas páginas).
      A dança é procedida de forma circular no centro do salão, onde contém sob a superfície do chão, e tampados por uma laje, objetos místicos, signos e símbolos que representam os fundamentos religiosos (o ariaxé), conhecimentos que foram trazidos de raízes ancestrais do continente africano.
       O culto aos Orixás é feito pelos iniciados, e a manifestação da atividade espiritual é tida como uma dádiva que impõe uma série de atribuições religiosas, tornando-se assim um sacerdócio.  
      Antecedendo as manifestações, principalmente as festivas, são elaborados preparativos de forma a agradar as divindades e comunicar-lhes que se façam presentes, manifestados ou não. Tais preparativos são diferenciados a cada um deles, que através de uma hierarquia são utilizados uma série de elementos, que não só representam símbolos como também fazem parte integrante dos rituais; são signos, símbolos, cantigas, frutas, flores, e por vezes algum animal em sacrifício quando necessário. A utilização de tais elementos tem como finalidade a fornecer numa troca constante de energias, energias renovadoras que, quando utilizadas em determinadas situações e com rituais próprios são liberadas.
      Definida como religião afro-brasileira, o Candomblé tem suas raízes advindas dos conhecimentos dos vários povos africanos. Incorporada por fatores históricos e culturais conservaram uma estrutura, tanto filosófica quanto social, tendo como princípio a utilização dos elementos da natureza com a finalidade de aproximação aos Orixás, divindades de um panteão criado por uma força maior, Olodumare/Olorun, gerador e mantenedor de toda a existência.
      Todos os rituais possuem como base inicial e fundamental os desígnios determinados pelo oráculo de Ifá, no qual, ele está presente nos jogos divinatórios; o jogo é o orientador dos procedimentos de todo o sistema religioso.
      Numa seqüência hierárquica primeiramente é evocado a divindade mensageira, Exú, divindade imprescindível na circulação e no movimento das energias, o que sem elas nada acontece; é uma energia mutável que ao dar impulso a todos os elementos torna-se constante e presente, seja manifestada ou não. Por ser a primeira divindade a ser cultuada, manifesta-se como um progenitor Elemental, e por isso é também a primeira divindade a ser venerada. Suas oferendas são colocadas em lugares específicos, isto, para alimentá-lo e fortalecê-lo no desempenho de suas atribuições.
      As divindades, sejam elas Orixás, N´Inkices ou Voduns, são energias que se manifestam através de fenômenos denominados de transe, e a força dessas energias é que determinam o grau de desenvolvimento de cada iniciado; porém, a existência e a continuidade da divindade pertencente à um iniciado, têm que ser constantemente realimentada através de oferendas compostas de evocações, elementos símbolos e signos, sempre manipulados através de rituais específicos.
      No entanto, como cada Ser possui sua individualidade, as divindades também possuem as suas, isto por serem constituídas de energias diferenciadas; portanto, os ritos formulados a cada divindade também são independentes.
      Numa sucessão de cantigas as divindades se manifestam nos iniciados (eleguns); para este fim os cânticos são ao mesmo tempo uma reza e um apelativo de chamado à dispertar, e a assistência acompanha com palmas num procedimento de alegria formal.
      Na seqüência das cantigas e bailados vão sucedendo as manifestações nos eleguns que, além dos conteúdos de posturas pessoais, adquirem os trejeitos da divindade manifestada. A cada divindade evocada é dirigida uma cantiga e uma cadência dos atabaques e outros instrumentos de percussão; os gestos das danças e os passos acompanham como se fosse uma formulação mágica aos caminhos percorridos pela divindade.
      Além das fórmulas ritualísticas as roupagens nos dias festivos recebem um tratamento meticuloso e, cada divindade, tem por designação própria suas cores que são representações simbólicas no mundo místico, não só a roupagem, mas também as insígnias que são constituídas de símbolos e signos individualizados.
      A transformação física corporal quando da manifestação de uma divindade é aparente e transcende explicações, são forças vibrantes de uma energia controlável somente pelos sacerdotes que proporcionam toda magia e encantamento, pois são energias com ligações diretas com um universo pertencente aos deuses e deusas (Orixás) e todos os elementos da natureza. Para o leigo é uma visão surrealista, para o crente é a prova do realizável e transcendente mundo espiritual.
      Nos cultos é que são desenvolvidos todos os conhecimentos adquiridos no aprendizado quando do período de iniciação, porém, tal aprendizado pode ser infindo, pois todo o sistema religioso está implícito em um sistema mutável devido aos prognósticos fornecidos pelo oráculo de Ifá.
      No encaminhamento dos iniciados preceitos são impostos com a finalidade de quebrar barreiras quanto a obediências e sacrifícios que, interpretadas ou por questões de tradições culturais, faz com que o iniciado proponha-se ao reconhecimento de humildade; no entanto, tal humildade não explicita subserviência aos interesses próprios ou a outrem. A normalidade de uma vida, mesmo que seja profana, não impede uma dedicação serviçal no dia a dia.
      Os preceitos existem como regras de postura, tanto na vida pessoal quanto na vida religiosa. Evidente que aos iniciados é dado o livre arbítrio, porém, o não cumprimento de determinados preceitos pode implicar em resultados geralmente não muito agradáveis, pois, em tais preceitos, estão implícitos fatores de energias. O livre arbítrio é determinante quando do reconhecimento para o equilíbrio a ser alcançado.
      A utilização de signos, símbolos e demais objetos evidenciam quando utilizados em proporções equilibradas, pois cada elemento contido proporciona na magia um resultado quando combinado a outros vários. Fetiches e amuletos têm essa fórmula, e para cada finalidade os usos de elementos são diferenciados, assim como, para cada problema individual existe uma solução, pois a individualidade é sempre agregada a todos os elementos.
      No universo místico dos rituais pertencentes às religiões afro-brasileiras não é permitido àqueles não iniciados estarem presentes nos ritos de magia, pois além de serem concebidos em locais privados, são utilizados determinados elementos que proporcionam a liberação de energias difíceis de serem controladas, as quais, somente àqueles preparados podem ser submetidas.
      Nos cultos as manifestações se sucedem nos iniciados (eleguns), porém, algumas dessas manifestações respondem mais rapidamente que outras, pois estão na razão de fatores nem sempre explicáveis ou por razões de desconhecimento dos fundamentos referendados a determinados preceitos. No entanto, há àquelas manifestações menos agressivas ao corpo de um elegun, o que demonstra um maior equilíbrio e entendimento numa demonstração de tranqüilidade e crescimento espiritual. Tal fato é observado pelas ações no momento da manifestação (do transe), quando da exigência do corpo físico.
       A manifestação de uma divindade nunca é feita por espontaneidade do iniciado, (elegun), exceto em alguns casos; este processo ocorre quase sempre quando são desenvolvidos uma série de preceitos que duram muitos anos. No entanto, fenômenos físicos e perceptivos podem ocorrer, não sendo uma simples opção para concorrer ao postulado em figurar no universo dos ritos de qualquer religião afro-brasileira, significando assim, que nem todos os indivíduos possuem o privilégio de poderem manifestar energias advindas dos Orixás, ou seja, das divindades.
       A mediunidade não transparece nos indivíduos e, por ser um fenômeno com funções espirituais, alcançam graus elevados das funções materiais produzindo desgastes de energias vitais, energias estas que deverão ser tratadas ritualisticamente com observância daqueles indivíduos, nos conteúdos e encantamentos.
      Por serem as divindades uma parcela de energia dos elementos consubstanciados em um progenitor, são eles compostos simbolicamente através de elementos naturais na Terra, por esta razão são utilizados elementos vegetais, minerais e sacrifícios animais em oferendas nos ritos de renovação das energias.
      Numa convenção natural de uma herança espiritual todos os indivíduos são compostos dos elementos construtivos àqueles pertencentes a uma determinada entidade, por esse motivo a diversificação dos indivíduos que recebem em um determinado momento do nascimento intrauterino, independente das funções biológicas, torna-se um elo espiritual no qual ficam implícitos fatores astrais. O crescimento do feto dá-se pela sustentação de uma determinada divindade mítica protetora de toda fecundação, a qual também dará seqüência aos cuidados do nascimento ao período pós-aprendizado da comunicação e locomoção; independente, o novo Ser passa a ter sob uma restrita vigilância de sua entidade patronal ou matronal, porém, o livre arbítrio é que determina o encaminhamento na vida material.
      A mediunidade não é algo adquirido, é nato em todos os indivíduos desde o nascimento intrauterino, e com o passar do tempo, fenômenos e manifestações se apresentam, e que, como cristais a serem lapidados, vão necessitar de acompanhamento no desenvolvimento de uma determinada função dentro do complexo religioso, tornando-se um elegun.
      A religião afro-brasileira tem uma diversidade de ramos, os quais derivaram das diversas nações de origem, isto é, cada uma tem suas origens específicas e tradições culturais nas várias práticas, nos idiomas, nos cultos e denominações, no entanto, não se distanciando dos mesmos propósitos.
      Todos os segmentos religiosos advindos das diversas nações africanas trazem os conhecimentos milenares de cultos à natureza e aos ancestrais; somente os rituais se diferenciam, porém, no universo espiritual recebem tratamento idêntico, pressupondo-se daí que a origem está em uma única semente.
      As origens míticas dos deuses africanos (Orixás, N´Inkices e Voduns) estão relacionadas com as histórias contadas e passadas de geração a geração, traduzindo assim todo o conhecimento dos ritos nele contido. As estórias da gênese da criação do universo, dos Seres, das divindades e de todos os elementos, tanto materiais quanto espirituais, em todas elas contém esclarecimentos das posturas que devem ser seguidas em relação a todo o complexo sistema religioso.
      Nos cultos estão implícitos certos fatores os quais concorrem para o encaminhamento da ocorrência dos fenômenos de manifestações mediúnicas.
      Além do som dos atabaques, cantigas e outros instrumentos de percussão, que funcionam como indutores na comunicação com o mundo espiritual, a campânula de latão tocada sobre a cabeça de um iniciado, confirma a magia proporcionada, não só pelo instrumento, mas também por quem executa tal ritual.
      Com fórmulas específicas cada divindade recebe uma indução para que sua presença se faça e, quando manifestada, recebe sua saudação. No entanto, existem os casos espontâneos e, quando tal fato ocorre, o oráculo determina os preceitos a serem seguidos, iniciando-se então um processo de orientação específico e um aprendizado para que o iniciado passe a venerar e cultuar a divindade, ou divindades indicada pelo oráculo.
      Todos os indivíduos, com maior ou menor intensidade possuem mediunidade, é um fenômeno natural e inerente ao ser humano; ocorre que, tais mediunidades podem ou não ter como resultante a manifestação de uma divindade, porém, não invalida a possibilidade de culto e veneração ser praticado, ficando evidente, que tal veneração será feita com restrições, principalmente quando se tratar da utilização de elementos signos ou símbolos relacionados com magia, especialmente àqueles que venha necessitar de consagrações feitas com sacrifícios animais.
      Todos os elementos a serem utilizados são consagrados através de ritos específicos, e para tanto, é necessário ter conhecimento de fórmulas e rituais, tais como, palavras, orações, cantigas e por vezes sacrifícios animais. 
      Além de todo o processo formulado pelas religiões afro-brasileiras e da cultura desenvolvida em torno do sagrado, há também uma formulação profana, no entanto, não invalida toda ou qualquer filosofia apregoada pela religião.      

          Orixás, suas representações e seus mitos no conceito Nagô.
     O conceito tradicional nos Candomblés das diversas Nações é a de crer que as divindades são energias da natureza em constante movimento dotadas de equilíbrio, tendo como função o ciclo permanente da vida. Como divindades, mesmo que agrupados, suas individualidades são mantidas por distinções, podendo pertencer tanto à direita quanto à esquerda ou ainda estarem relacionados com as três cores: a branca, o preto e o vermelho. As atividades que correspondem às divindades estão relacionadas com os elementos e as realidades interativas entre os Seres, a natureza e ao meio ambiente. Estas divindades ainda podem ser descritos sob os aspectos históricos, divinos e míticos e, tal interatividade, refere-se a uma equivalência quando, em qualquer relato existir fatos que possam dar àquelas divindades uma sobrevida humana. Portanto, exceto o Orixá Xangô da Nação Kêtu, que foi divinizado como o deus do Trovão, todas as outras divindades, culturalmente, são consideradas como divindades astrais e interativas com as realidades Elementais.
      As estórias e lendas contadas por cada povo são ilustrações para um aprendizado, com metáforas possuidoras de fundamentos a serem desvendados, é também uma forma cultural a se fazer entender os conceitos religiosos.  








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