sábado, 24 de maio de 2014

Criação ou evolução?



                                     
                                 Somos Seres híbridos, todos somos filhos das estrelas.
E eis que a polêmica surge quando o assunto está em relação ao principio de tudo, Criacionismo e Evolucionismo são, em tese, os dois conceitos discutidos.
A maior parte da humanidade acredita na teoria do criacionismo, teoria sim, pois, nada de concreto existe para afirmar com absoluta certeza ou clareza na existência, num passado remotíssimo, de um “Deus” criador. Este conceito é meramente religioso baseado em escritos, alguns tidos como “sagrados”, outros, no entanto, fazem parte de históricos mitológicos de todos os povos da antiguidade.
Por outra vertente do pensamento humano encontramos a teoria da evolução de autoria do notável cientista Charles Darwin que viveu no Séc. XIX; autor da teoria da evolução das espécies, através da seleção natural que é revelada através das ciências e das pesquisas, algumas confirmadas, outras apenas especulativas, principalmente pela física, na qual, cientistas da atualidade procuram o elo perdido, elo que faria a ligação entre a matéria e o que poderíamos chamar de “grande espírito”, ou deus propriamente dito. Estudos ainda em andamento definem como Bóson de Higg, a partícula inicial, portanto, o principio de tudo, de todo o Universo e da vida. No entanto, existe também a teoria da Panspermia, teoria que supõe a existência de “esporos de Vida” e que, através de uma geração espontânea, explica que a vida veio de fora e em estágios de desenvolvimento, tendo sido “semeada no planeta” e trazida até aqui por ventos solares abrigadas em cometas ou mesmo em meteoros e meteoritos; teoricamente esses “esporos” conteriam códigos que regeriam o desenvolvimento.   
Sabemos que existem milhares de Galáxias no Universo, o que nos faz pensar em possibilidades do “não estarmos sós” na imensidão deste Universo; teoricamente isso também é possível e possível  também uma intromissão externa por seres de outros planetas.
Mas, o que podemos pensar do antes de tudo? Afinal, se o Universo é infinito em dimensão pode-se pensar também que ele, Universo, é infinito no tempo, tanto no passado quanto para o futuro; portanto, o tempo dessa forma, como elemento subjetivo para o Universo nada mais é que um instante, um momento qualquer.
E foi “num momento qualquer” que tudo começou. Falam em bilhões de anos, outros em milhões quando o assunto está relacionado ao ser humano. Mas, em que momento da historia do nosso Planeta ocorreu o surgimento do homem na face da terra? Em que momento o “espírito humano” aflorou no hominal? Teriam sido eles ancestrais da raça humana ou por uma “ação divina” o Ser humano, corpo e espírito, teria sido criado?
Segundo o principio evolucionista a vida surgiu na face da Terra através de uma evolução natural, ou seja: combinações de elementos associados a energias produzidas pelo Universo, clima e temperatura acamaram seres minúsculos dando origem à vida até chegar aos Seres mais complexos e, através de um processo de hibridez, todos os Seres viventes iniciaram uma grande jornada.
Conforme a proposição de Alexander Oparim, em 1936, ele explica, através de uma hipótese  que, na atmosfera primitiva da Terra existiriam gases como metano, amônia, hidrogênio e vapores de água; sob altas temperaturas na presença de centelhas elétricas e raios ultravioleta, tais gases teriam se combinado originando aminoácidos que ficavam flutuando na atmosfera. Com a saturação de umidade na atmosfera começaram a ocorrer as chuvas. Os aminoácidos, arrastados para o solo e submetidos a aquecimento prolongado, os aminoácidos combinavam-se uns com os outros formando proteínas. As chuvas lavavam as rochas e conduziam as proteínas para os mares, surgia então uma "sopa de proteínas" nas águas mornas dos mares primitivos; as proteínas dissolvidas em água formavam coloides; os coloides se interpenetravam e originavam os conservados; os conservados englobavam moléculas de núcleo-proteínas que depois se organizavam em gotículas delimitadas por membrana lipoproteica, daí surgindo as primeiras células. Porém, essas células pioneiras eram muito simples e ainda não dispunham de um equipamento enzimático capaz de realizar a fotossíntese. Eram, portanto, heterotrofias. Só mais tarde surgiram as células autótrofas mais evoluídas, permitindo o aparecimento dos Seres de respiração aeróbia. Diante de tudo isso, podemos concluir que a evolução passou por vários períodos de transformação e adaptação resultando na genética humana.
Contudo, algumas observações mesmo para um leigo, fica claro que o nosso Planeta, a Terra, ainda está em evolução; a Terra, ainda está em formação geológica, nada está pronto, terminado, pois, vulcões ainda derramam lavas e terremotos indicam movimentos das placas tectônicas, sem contar com outros fenômenos, ditos naturais, que ocorrem constantemente; por conseguinte, o Ser humano também ainda não é um “Ser terminado”, segue, juntamente com o planeta Terra sua evolução natural. Esta é a mais fantástica prova de que tudo no planeta contém vida e movimento. E vai permanecer assim durante milhões ou talvez bilhões de anos.
E como surgiu o Espírito neste ser em evolução?
Apesar de a Terra e o Ser Humano estarem ainda no processo evolutivo, a natureza encontrou meios de aglutinar energias que, desde a formação da vida, denominada “animalização da matéria” até chegar aos Seres possuidores de cérebros demorou mais de três bilhões de anos. Através do processo evolutivo, toda matéria “animalizada” foi constituída pelos elementares que, após muitas etapas evolutivas, adquiriu um cérebro e posteriormente o raciocínio.
Uma dessas etapas está relacionada aos animais; neles, o principio da inteligência é elaborado e individualizado; de certa forma, uma preparação onde, na sequência, o principio inteligente torna-se um espírito individualizado, é então o momento onde começa o período da humanidade. Allan Kardec, em “O livro dos Espíritos” afirma que: “É nesses seres (os animais) que o princípio inteligente se elabora, se individualiza, e pouco a pouco, ensaia para a vida. É, de certa maneira um trabalho preparatório, como o da germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna um espírito. É, então, que começa, para ele, o período da humanidade e, com esta, passa a tomar consciência de seu futuro, a fazer a distinção entre o bem e o mal e se torna responsável por seus atos”.
Emmanuel, em O Consolador, informa sobre o assunto: “A vida do animal apresenta uma finalidade superior que constitui a do seu aperfeiçoamento próprio através das experiências benfeitoras do trabalho e da aquisição em longos e pacientes esforços dos princípios sagrados da inteligência. Os animais são os irmãos inferiores do gênero humano. Eles também, como nós, estão vindo de longe, através de lutas incessantes e redentoras, e são como nós outros, seres humanos, candidatos a uma posição brilhante na espiritualidade”.
André Luiz, em O Mundo Maior, descreve o processo: “O princípio espiritual, desde o obscuro momento da criação, caminha, sem detenção, para frente. Afastou-se do leito oceânico, atingiu a superfície das águas protetoras, moveu-se em direção à lama das margens, debateu-se no charco, chegou à terra firme, experimentou na floresta copioso material de formas representativas, ergueu-se do solo, contemplou os céus e, depois de longos milênios, durante os quais aprendeu a procriar, alimentar-se, escolher, lembrar e sentir, conquistou a inteligência... Viajou do simples impulso para a irritabilidade de sensação... Da sensação para o instinto... Do instinto para a razão... Nessa penosa rodagem, inúmeros milênios decorreram sobre nós... Estamos em todas as épocas abandonando esferas inferiores a fim de escalonar as superiores. O cérebro é o órgão sagrado da manifestação da mente em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana”...e acrescenta: “O mineral é atração; O vegetal é sensação; O animal é instinto; O homem é razão; O anjo é divindade... Busquemos reconhecer a infinidade dos laços que nos unem nos valores gradativos da evolução e ergamos, em nosso íntimo, o santuário da fraternidade universal”.
Por força de conceitos criados por religiões e por uma “imposição de doutrina”, muitos  espiritualistas, espíritas e outros religiosos, definem o inicio de tudo como uma criação divina, porém, diante dessas declarações, de ilustres personalidades, podemos concluir que no animal há o princípio inteligente, contudo, ainda não é espírito. Eles ainda não possuem consciência, e a inteligência é extremamente limitada e comandada pelos instintos.
De acordo com a dissertação descrita na Bíblia sobre a “Criação” (vide êxodos) e o conceito “evolucionista”, certificado pela ciência, encontramos nos últimos três parágrafos acima a união, o entendimento sobre e como tudo começou, que em principio, a divindade está relacionada ao Anjo, que pode estar a propósito mais que religioso ou um mistério a ser desvendado.
Todo esse entendimento tem por principio o simbolismo; o “anjo símbolo” princípio da compreensão do Ser humano em relação ao sagrado, e daí o surgimento dos conceitos religiosos, nasce o mito e, em uma gnose coletiva, aparecem esporadicamente nas primeiras comunidades humanas as divindades, e juntamente com as divindades os primeiros sacerdotes e sacerdotisas, Os mitos aparecem sempre relacionados com histórias fantásticas sobre deuses e semi deuses, havendo nesse momento a criação de rituais das primeiras manifestações religiosas definindo a crença e o posicionamento da fé em relação àqueles deuses.
Todas as religiões são baseadas e sustentadas por mitos, e os ritos sustentam a crença, a fé passa então a ser o sustentáculo individual em relação às divindades.
A fé, como elemento consubstanciado ao indivíduo, através dos valores e graus do pensamento, irradiam vontades e desejos de realizações. Este princípio está baseado na força do pensamento humano, criando no intimo de cada um imagens capaz de transformar sentimentos e produzir sensações. 
Este processo até ter sido completo demorou milhares de anos e os protagonistas da historia, os Seres humanos, também criaram dentro de si escudos protetores denominados “anjos da guarda” que, fortalecidos pela ação da fé passaram a ter papel fundamental no “espírito humano”, resultante da própria evolução do cérebro e consequentemente do pensamento e do raciocínio.
Contudo, o “espírito humano” precisou evoluir também, igualmente a matéria vivente, corpo e mente se fundiram. O espírito, agora como energia latente ao Ser humano, descobriu a sobrevivência, a necessidade de interação com outros Seres, tendo por consequência a universalização das crenças, crenças formalizadas por cada cultura, por cada povo.
Quando falamos de Criacionismo/Evolucionismo não podemos deixar de falar da relação direta no contexto de deus ou deuses, e dos mitos relacionados a eles e da composição cultural em todos os povos.
A história da humanidade, independentemente a qualquer cultura ou povo, sempre foi ligada aos fatores naturais. As intempéries amedrontavam tanto quanto os animais ferozes na escuridão das noites. No principio, nas primeiras manifestações de grupos familiares, o Ser humano, muito temeroso àqueles fenômenos se refugiavam em cavernas, grutas escuras onde o imaginário primitivo já esboçava a criação dos “fantasmas”, o medo os dominava, o receio de uma morte súbita aniquilava qualquer reação de defesa. Nos grandes rios e mares infindáveis monstros apareciam e desapareciam ao sabor das marés; em terra firme, grandes feras com dentes pontiagudos e garras afiadas podiam ser a caça ou os caçadores. Mas, o Ser humano por ter sido o primeiro animal a conquistar o raciocínio sobreviveu, seu espírito evoluiu criando as barreiras de proteção.
Do imaginário humano surgiram as primeiras tentativas de se relacionar com um Universo não material, para tanto, na solidão das cavernas, admirados com suas sombras projetadas nas paredes de pedras diante da luz de fogueiras, os primeiros “desenhos mágicos” apareceram.  A descoberta da “alma”, projetada, ficou evidente e reconhecida apesar dos mistérios.
As imagens nas cavernas contribuíram para o inicio da formação cultural e religiosa dos primeiros povos, pois nas pinturas rupestres estavam suas rotinas, principalmente cenas de caça e lutas contra feras, mais tarde, cenas de guerras foram incluídas. Juntamente surgiram também os símbolos que demarcariam territórios ou a presença de algo ligado a alguma crença em Seres magníficos, surgia assim também os primeiros mitos relacionados ao Universo espiritual. Desde o paleolítico o Ser humano criou mitos, histórias que foram transmitidas de geração em geração.
O “espírito”, já existente, evoluía de conformidade ao crescimento do cérebro que, a cada raciocínio, a cada experiência vivida, absorvia mais conhecimento. Desta forma passamos pela idade dos metais, época em que os primeiros deuses surgem e recebem denominações nas formações tribais.
Os deuses criados a partir da necessidade humana com o objetivo de esclarecer fenômenos naturais deram impulso ao que podemos chamar de “Mentalização à Divindade”, pois, a cada ocorrência de fenômenos naturais, o Ser humano recorria à sua divindade criada um pedido de socorro, ao qual era sempre acompanhado de oferendas. A cada deus criado as oferendas eram especificas e complementadas por rituais primitivos.
Com a mente evoluída o espírito foi então dimensionado à um mundo paralelo, ou seja, um universo subjetivo criado a partir do reconhecimento dos fenômenos naturais. Desta época também surgem os primeiros deuses demiurgos, deuses protetores da família e dos clãs existentes.
Existem outros argumentos em relação ao surgimento do “Espírito”, a teoria dos “Exilados de Capela. Tal teoria afirma que o Espírito veio habitar os primeiros corpos nos primórdios da raça humana. Além dessa teoria, a Bíblia nos dá relatos em Êxodos da “criação do espírito”.
Mas, atentemo-nos para fatos concretos: o criacionismo, por ser uma teoria religiosa, é uma teoria um tanto falha em relação ao conteúdo espiritual, pois, não leva em consideração a própria evolução natural, tanto do corpo carnal quanto ao Espírito propriamente dito ou mesmo aos fenômenos espirituais.
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No passado, bem lá nos primórdios tempos o Ser humano não conseguia explicar os fenômenos que ocorriam na natureza, passou então a dar nomes e criar em um universo subjetivo à aqueles fenômenos, considerando-os como deuses. O trovão, a chuva, o relâmpago, os ventos e tudo mais inspiravam para a criação de um deus. O Céu tornou-se um deus pai todo poderoso, a Terra uma deusa mãe, e todos os demais seres viventes seus filhos. Criava assim, a partir do inconsciente, histórias e aventuras que explicavam de forma poética toda uma vivência e convivência com seres extraordinários.
As histórias tornaram-se divinas e eram passadas de geração a geração adquirindo aspecto mítico religioso, tornando-se verdades.
Por toda a Terra e em todas as civilizações foram criados núcleos arquétipos mitológicos, a esses grupos são dados os nomes de “mitologemas”. A um conjunto de “mitologemas”, de uma mesma origem histórica, é denominado de mitologia.
Aos mitos passaram a se unir os “ritos”, os quais, renovados, foram chamados de mistérios. O rito tornou-se “ato”, ato que atualizou o mito em seu mistério e, ao conjunto de rituais e mitos crio-se então os símbolos que cercam o mitologema, promovendo o ritual. Ao conjunto de rituais e mitos, com origens históricas comuns, dá-se o nome de religião. A esta, unem-se preceitos éticos morais os quais são denominados “doutrinas religiosas”, que são compostas de tabus, proibições e segredos herméticos.
Posicionados em uma determinada estrutura cada religião criou seus ídolos, ícones de barro, pedra, metal, ou mesmo representados em estandartes, e as figuras míticas do inconsciente passaram a existir em altares nos templos, nos portais como guardiões de uma comunidade, de uma casa ou mesmo de forma minúscula em escapulários como protetores individuais.
Toda essa iconografia transcendeu ao material e criou no inconsciente humano todas as formas de crenças religiosas e, o espírito, primordial aos viventes, absorveu os paradigmas até então formulados e, cada povo, cada civilização passou a desenvolver a crença e a fé, que desde então tornou-se inerente e corresponde aos anseios psicológicos transmutados em energia.
As religiões “espiritualistas” sejam de manifestações inter ou extra corpóreas, todos os processos esotéricos ou qualquer outra forma de manifestação religiosa, são usuários de forma implícita daquelas energias transmutadas, ou seja, a fé. A fé sempre é consignada a alguma crença ou a alguma  vontade pessoal ou coletiva.
Aparentemente podemos distinguir determinados padrões de fé, mas nunca podemos avaliar a intensidade. A fé, por ser subjetiva pode alcançar níveis elevados produzindo energias em determinados momentos e de formas incontroláveis, derivando daí os ditos “milagres” apregoados pelos mais exaltados.
 Os seres mitológicos, deuses, semideuses, personagens heroicos, deuses demiurgos e tantos outros ícones personificados como “santos”, sempre foram criação do imaginário humano que, transmutados em energias elas se manifestam, e criou-se assim o universo paralelo, o mundo dos espíritos, humanos ou não.
Apareceram os espíritos benignos, espírito das águas, das florestas e de todo o reino vivente, vegetal e animal, espíritos que passaram a lutar contra as investidas de guerras e lutas ao desenvolvimento humano. Bastava agora o seu criador, o homem, controlar essas forças.  
                                        
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                    Um universo religioso - o Candomblé
Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo, o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião. Todas as culturas humanas retrataram seus acontecimentos extraordinários através da mitologia, sempre para se fazerem entender nas relações, principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo do inconsciente e de suas crenças.
Personificados por formas humanas ou de animais, os deuses e deusas permanecem no inconsciente humano como forma de fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas, estátuas e nas pinturas sacras.
Esta foi a forma que o ser humano encontrou, em todos os tempos, para estar mais próximo ao sagrado; transformou ideias em objetos reais sacros, criou histórias e lendas, transformou ancestrais em deuses demiurgos, uniu-os aos deuses tribais em figuras sincréticas, assim nasceu o mito.
Muitas das histórias” são singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou grandes extensões de terra, e os deuses, com características idênticas, são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por um personagem maior, um deus superior.
A mitologia é uma forma espontânea, cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê, mas sente e transfere toda essa crença, e os caminhos percorridos pelos deuses passam a refletir nas características de cada indivíduo em cada uma das religiões.
Cada lenda é um tempo vivido, uma ação, um movimento feito pelo personagem, dando a ideia de uma transferência de conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao encontro com a realidade subjetiva, a fé.
As religiões afro-brasileira são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos derivados das culturas advindas do continente africano, independentemente a que nação ou segmento pertença.
Nos rituais é que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, por vezes, parecendo mesmo que em determinados momentos, o culto se divide entre o sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças, refletem um sentido profano que, feitas por seus adeptos, formam um conjunto aprimorado, como se uma viajem ao passado fosse feita. A cada batida, com mãos ou varetas e a cada passo dado no bailar rememoram os caminhos percorridos pelos deuses africanos.
O ponto principal de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no próprio indivíduo que, iniciado passa a ter essa capacidade e, depois de celebrada, estas energias em “forma humana”, voltam ao seu estado natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das várias “divindades”. Nos bailados de Yemanjá os braços ondulam numa alusão as águas dos mares; mas também, seus braços podem ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam aos primórdios do universo, onde seria também a progenitora de todos os demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com Yemanjá, num patamar mitológico superior está Oxalá, o Ar, o sopro de vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o ser humano, e assim povoou todo o Planeta.
Juntamente com Yemanjá e Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão, Exu, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o sentido da procriação; tornam-se assim um quadrunvirato da construção de todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
Oduwa, por não ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto independente, o culto às Yiá mi. Da interação Terra/água, surge Nãnã, Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito do povo Nagô.
Os acontecimentos mitológicos são apenas representativos para entender toda a estrutura da religião quando baseados nos conceitos do povo Nagô, no entanto, todas as formulações ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações determinantes nos candomblés.
Além dos Orixás primordiais, Yemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exú o fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas histórias são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como historias reais.
Quando da criação da Terra, segundo o mito Nagô, em tempos imemoriais nos ciclos milenares do desenvolvimento humano, chegou a era dos metais e com ela uma divindade foi criada, Ogún, o deus das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar armas de guerra e ferramentas para a agricultura. Este, juntamente com Exu, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser humano reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas substituiu a coleta pela produção de alimentos. Oxossi, o deus das matas, continuou a caçar e dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de trabalho; nos dias atuais, a caça tornou-se uma alegoria, uma representação na evolução humana.
A descoberta dos sentimentos humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de criação de conceitos para sobrevivência, nascia assim o respeito pela gestação, e com ela, Oxún a deusa das águas doces e das nascentes que sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto, surgindo daí as Yiá bás, as mães rainhas e zelosas dos castelos imaginários de um mundo mítico.
Progressivamente a humanidade foi se adaptando no Planeta recém construído; surgiram outras divindades, pois, a cada passo eram personificados deuses representativos. A natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e escravos. Novos deuses surgiam e reis foram divinizados. Neste cenário apareceu Xangô, o deus da justiça que, enlouquecido pelas barbáries, dele e de seus inimigos dizem ter se enforcado. Seus machados, cortantes nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a benevolência o outro o castigo.
Da interação – Oxóssi/ Oxún – nasceu Logun, energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado representando a renovação dos ciclos, das eras. Desta maneira, as águas da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè que. após os grandes dilúvios, esta energia é que permite chuvas; com ele, numa alegoria encantadora surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do Universo. Porém, essas transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e das guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também consagrada entre as deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nos vulcões.
Mas a renovação constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte de elementos, doença/saúde, bem e mau, conceitos de todas as vicissitudes são energias que devem ser depuradas e, desta forma Obaluayé está presente, ele é o socorro, o médico do Planeta e de tudo que nele contém, é a energia produtora, tanto de pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as energias, como o ser humano. As folhas, ervas medicinais trazidas pela magia de Ossanhe, energia completa, complexa e diversificada ao mesmo tempo.
...E todas essas energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos, particularidades que agregam ao ser humano quando do nascimento e o acompanham até a devolução de todas as substâncias na morte à Mãe Terra.
Para representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza, e dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração envolve a assistência num retorno aos primórdios tempos, reinterpretando toda uma história, mitos e sentimentos.
Nos movimentos das danças e que são interpretados, de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e a  turbulência das águas estão nos braços e requebros de Yemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará, numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogún estão alegorias de guerras e de batalhas vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança suas flechas dando direção da fartura. No resplandecer das mudanças bruscas do tempo dos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossayn. Na direção dada por Oxumarè apontando o caminho das águas pelo arco íris.  Nos movimentos tectônicos da energia do Planeta está Obá, a deusa que respira pelos vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nanã, devido ao tempo de existência. No ritmo atenuado do tempo como as nuvens da paz, um telhado branco por sobre as cabeças Oxalá caminha sobre a Terra ou no infinito Universo e, Exu, provocador de todos os movimentos é o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olimpo dos deuses africanos, os deuses do Candomblé.
Mas não só toda essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações consagradas aos deuses africanos, aos Orixás que, desta forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano.
A crença nesta forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um DNA espiritual que, passivamente e através de ritos apropriados devem ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí, o caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção.

                                                                                               

Forças da natureza espiritual



                     FORÇAS DA NATUREZA ESPIRITUAL                        
     ...Com o surgimento do Espírito humano, depois de milhões de anos de evolução, todas essas forças “espirituais”, benignas ou maléficas, permaneceram ao redor de todos os seres viventes, quando não, encerradas em seus corpos, porém, ainda de maneira desequilibrada; daí os dizeres de mau agouro, de intervenções doentias e descaminho na vida, individual ou coletiva.
     O consciente humano, frágil diante de tantas energias ainda desconhecidas e em desequilíbrio, criou no inconsciente um bloqueio, uma parede refletiva onde as dúvidas e incertezas passaram a residir; e por essa razão, ainda hoje, muitos de nós, humanos, ainda não conseguimos o pensamento pleno, a concentração, e por conseqüência a desistência de muitos projetos ou a não realização dos sonhos, tendo por consequências o subdesenvolvimento e o atraso espiritual e material de muitas populações.
Desta forma, não só para a vida material, mas, principalmente para a vida espiritual é necessário que as energias estejam alinhadas, em equilíbrio permanente e, é através de uma manifestação de fé, independente de religião, que o ser humano consegue a plenitude das realizações pessoais ou coletivas, pois a fé é a vontade suprema do Ser. 
 As energias de natureza espiritual com que o ser humano convive são demasiadamente enormes e por muitas vezes de difícil controle, no entanto, existem ritos muito antigos que são formulados para, corretamente, o equilíbrio seja alcançado.
No universo material da crença e da fé, não somente os ritos formulados nas religiões, mas também muitos lugares tornaram-se símbolos sagrados; caminhos são seguidos até os dias de hoje em peregrinações, escadarias são galgadas de joelhos e promessas são pagas por algum “milagre”. De grandes monumentos a pequenos altares, grutas e até mesmo pedras santificadas tornaram-se ícones religiosos promotores da fé no universo de neófitos. Independentemente a qual religião esteja o indivíduo agregado, nela, existem elementos, de alguma forma, consagrados dentro de rituais apropriados do qual o ser humano faz uso.
O retumbar de tambores, o bater de palmas, hinos, louvores, cânticos, tilintar de gonzos e sinos associados a gestos e orações formuladas, agem como indutores de energias controladoras, energias espirituais adormecidas ou em desequilíbrio.
Podemos observar isso ocorrer quando de rituais religiosos, alguns, até mesmo específicos nas religiões com princípios ditos pagãos. Nos templos onde são feitos ritos de consagração, a manifestação da energia/espírito ocorre; apresentam-se pelas sensações humanas que estão sempre disponibilizadas a manifestar-se, bastando somente uma oportunidade para que ocorra tal fenômeno.
Tais manifestações são a sínteses da psique humana que, recebida como herança ao nascer, passa a integrar corpo e mente dando ao indivíduo, características, arquétipos, índoles, ou até mesmo, ao que podemos chamar de destino humano, independente ao meio em que viva.
Porém, toda essa crença religiosa é baseada em um principio, o principio do livre arbítrio; a escolha deve ser respeitada e nunca imposta por conceitos formulados por um indivíduo ou um grupo. A espiritualidade é sempre desenvolvida de acordo com a vontade do indivíduo; no entanto, é necessário que tal indivíduo reconheça a existência de forças, energias sobre humanas a serem lapidadas, tratadas para alcançar o equilíbrio.
Há milhares de anos o ser humano criou fórmulas mágicas religiosas que funcionam como um catalisador, para reunir todas as energias e filtrá-las e dar equilíbrio a cada uma delas. O processo nas religiões ditas pagãs é efetuado por meio de sacerdotes, os quais, através de rituais apropriados manipulam elementos consubstanciados a cada energia produzindo um equilíbrio entre o negativo e o positivo. Muitas das formulações “político-religiosas” são compostas de sacrifícios animais, porém, estas pertencem a uma estrutura religiosa complexa e independente. Na maior parte do tempo são utilizados elementos vegetais e minerais acompanhados de rezas, versos e cânticos.
Isso tudo já ocorria no antigo Egito, na Babilônia, na Grécia, com os romano, com os  árabes e em muitas outras civilizações, inclusive os apontados pelas “escrituras sagradas”, principalmente em muitos dos versículos do antigo testamento.
De certa forma, o ser humano consegue controlar as forças espirituais criadas por ele próprio desde quando criou os deuses mitológicos, principio de todas as crenças.
A existência das energias espirituais, ou os próprios espíritos, são energias que estão condicionadas a determinadas normas, porém, recebem inúmeras denominações de conformidade a que religião esteja, ou venha se manifestar, mas essa é outra história.
No universo espiritual ou universo paralelo ao terreno, encontram-se os deuses, anjos, santos, entidades iluminadas, entidades guias, e muitos outros, existindo ainda a crença em gnomos, fadas, sereias e ondinas, muitos deles, representam em culturas distintas os seres da vida pós-vida; estes seres são constituídos de energias, podendo, no entanto, serem positivas ou negativas. Mas, incontestavelmente, as energias do próprio Ser humano é que podem interferir para o bem ou para os malefícios dele próprio ou de outrem.
As energias, quando positivas, são energias benéficas, aquelas que fazem todos os indivíduos se irmanarem, cada um passa a ser um elo de uma corrente, tornando-se desta forma uma comunidade benfazeja com objetivos claros de crescimento e desenvolvimento humano, espiritual e material. Quando negativas, as energias são energias que brigam entre si, desencaminhadas, perdidas num labirinto, provocando os piores dos resultados para o ser humano.
Todos os seres viventes são possuidores de energias positivas e negativas e, para que vivamos em harmonia, estas energias precisam estar em equilíbrio.
Quantos de nós já passamos ou assistimos episódios como, o de ouvir falar de olho grande, seca pimenteira e outros adjetivos, sempre estar relacionado a um nome, a uma pessoa, a um objeto ou até mesmo a um espírito? Isso ocorre pela liberação de energias negativas que, em muitos casos, sem mesmo que aquele que a possua tome conhecimento. Algumas outras vicissitudes  também são sintomas de energias negativas: a inveja, o despeito, os preconceitos, as injurias, as raivas, os instintos vingativos, os perjúrio, etc. Por vezes, estas energias estão alinhavadas na vida de um indivíduo devido a uma companhia espiritual que precisa de orientação, de caminhos e esclarecimentos, dizem-se deles os tais “encostos”; os espíritos que assim procedem desconhecem seu estado, pois ainda não perceberam que não mais pertencem ao universo dos seres vivos. Porém, existem também os espíritos de boas energias, são os espíritos protetores, os denominados anjos da guarda, guias, mestres, Orixás, etc.  
Nas várias culturas espalhadas pela Terra, existem muitas denominações para um e outro espírito, no entanto, o conteúdo das energias são as mesmas reconhecidas nas várias religiões, que podem ser benéficas ou maléficas, positivas ou negativas.
Algumas religiões, no entanto, possuem características idênticas no tratamento e encaminhamento para alcançar o equilíbrio das energias, tanto humanas quanto espirituais; a escolha de um dos caminhos a ser seguido sempre deve ser com fé e esperança, pois, é isso que move o ser humano na busca do crescimento e do seu desenvolvimento.
O ser humano ainda não está de posse de um conhecimento para distinguir determinados fenômenos que ocorrem com seu próprio corpo/espírito, porém, além de muitos argumentos, o que é apresentado, são indivíduos com algumas diferenças proporcionadas por uma diversidade de fatores. Diz-se de alguns indivíduos que são mais receptivos a determinadas energias, são os médiuns, indivíduos, que preparados ou não, podem manter um elo dinâmico com energias e espíritos desencarnados.
No entanto, uma das formas é a de manifestação, na qual, a incorporação ocorre sem mesmo a existência de um agente provocador, ou seja: algum ritual específico. Os espíritos desencarnados sempre procuram uma ligação com tudo aquilo que deixaram para trás, ou seja: suas ansiedades, seus desejos, seus erros, acertos e conceitos com os quais conviviam, mas, principalmente suas “dívidas karmicas”, erros que, consequentemente precisam corrigir para o sucessivo desenvolvimento.    
Como órgão receptor, o corpo humano de pessoas predispostas, os médiuns, passam a servir de sustentação para uma energia “extracorpórea” e, quando dominados por esses espíritos, passam a agir de conformidade a que cada um se apresenta com seus arquétipos. Tais espíritos podem ser evoluídos ou não. Os espíritos evoluídos incorporam com energias equilibradas, pois, conscientes de suas missões, estão preparados e doutrinados para cumpri-las. No caso dos espíritos não evoluídos, aqueles possuidores de energias desequilibradas, apresentam-se com rebeldia e estão como poderíamos dizer, a deriva, perdidos, desencaminhados necessitando de doutrina.
O Ser humano ainda tem muito à reconhecer de suas origens espirituais, para só então, com precisão, poder definir sua caminhada ao mundo desconhecido da sobrevivência e evolução espiritual.

Da mitologia surgiu a crença e a fé



          DA MITOLOGIA SURGIU A CRENÇA E A FÉ.
Na antiguidade, os primórdios tempos o Ser humano não conseguia explicar os fenômenos que ocorriam na natureza, passou então a dar nomes e criar em um universo subjetivo à aqueles fenômenos, considerando-os como deuses. O trovão, a chuva, o relâmpago, os ventos e tudo mais inspiravam para a criação de um deus. O Céu tornou-se um deus pai todo poderoso, a Terra uma deusa mãe, e todos os demais seres viventes seus filhos. Criava assim, a partir do inconsciente, histórias e aventuras que explicavam de forma poética toda uma vivência e convivência com seres extraordinários.
As histórias tornaram-se divinas e eram passadas de geração a geração adquirindo aspecto mítico religioso, tornando-se verdades.
Por toda a Terra e em todas as civilizações foram criados núcleos arquétipos mitológicos, a esses grupos são dados os nomes de “mitologemas”. A um conjunto de “mitologemas”, de uma mesma origem histórica, é denominado de mitologia.
Aos mitos passaram a se unir os “ritos”, os quais, renovados, foram chamados de mistérios. O rito tornou-se “ato”, ato que atualizou o mito em seu mistério e, ao conjunto de rituais e mitos crio-se então os símbolos que cercam o mitologema, promovendo o ritual. Ao conjunto de rituais e mitos, com origens históricas comuns, dá-se o nome de religião. A esta, unem-se preceitos éticos morais os quais são denominados “doutrinas religiosas”, que são compostas de tabus, proibições e segredos herméticos.
Posicionados em uma determinada estrutura, cada religião criou seus ídolos, ícones de barro, pedra, metal, ou mesmo representados em estandartes. E figuras míticas do inconsciente passaram a existir em altares nos templos, nos portais como guardiões de uma comunidade ou de uma casa, ou mesmo de forma minúscula em escapulários como protetores individuais.
Toda essa iconografia transcendeu ao material e criou no inconsciente humano todas as formas de crenças religiosas e, o espírito, primordial aos viventes, absorveu os paradigmas até então formulados; e, cada povo, cada civilização passou a desenvolver a fé, que desde então, tornou-se inerente e corresponde aos anseios psicológicos transmutados em energia.
As religiões “espiritualistas” sejam de manifestações inter corpóreas ou não, todos os processos esotéricos ou qualquer outra forma de manifestação religiosa, são usuários de forma implícita daquelas energias transmutadas, ou seja, a fé. A fé sempre é consignada a alguma crença ou à alguma  vontade pessoal ou coletiva.
Aparentemente podemos distinguir determinados padrões de fé, mas nunca podemos avaliar a intensidade. A fé, por ser subjetiva pode alcançar níveis elevados produzindo energias em determinados momentos e de formas incontroláveis, derivando daí os ditos “milagres” apregoados pelos mais exaltados.
 Os seres mitológicos, deuses, semideuses, personagens heroicos, deuses demiurgos e tantos outros ícones personificados como “santos”, sempre foram criação do imaginário humano que, transmutados em energias elas se manifestam, e criou-se assim o universo paralelo, o mundo dos espíritos, humanos ou não.
Apareceram os espíritos benignos, espírito das águas, das florestas e de todo o reino vivente, vegetal e animal, espíritos que passaram a lutar contra as investidas de guerras e lutas ao desenvolvimento humano. Bastava agora o seu criador, o homem, controlar essas forças.                                                                                  

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Mito ou historia?

MITO OU HISTORIA?
Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo, o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião. Todas as culturas humanas retrataram seus acontecimentos extraordinários através da mitologia, sempre para se fazerem entender nas relações, principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo do inconsciente e de suas crenças.
Personificados por formas humanas ou de animais, os deuses e deusas permanecem no inconsciente humano como forma de fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas, estátuas e nas pinturas sacras.
Esta foi a forma que o ser humano encontrou, em todos os tempos, para estar mais próximo ao sagrado; transformou ideias em objetos reais sacros, criou histórias e lendas, transformou ancestrais em deuses demiurgos, uniu-os aos deuses tribais em figuras sincréticas, assim nasceu o mito.
Muitas das “histórias” são singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou grandes extensões de terra e, os deuses, com características idênticas, são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por um personagem maior, um deus superior.
A mitologia é uma forma espontânea, cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê, mas sente e transfere toda essa crença, e os caminhos percorridos pelos deuses passam a refletir nas características de cada indivíduo em cada uma das religiões.
Cada lenda é um tempo vivido, uma ação, um movimento feito pelo personagem, dando a ideia de uma transferência de conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao encontro com a realidade subjetiva, a fé.
As religiões afro-brasileira são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos derivados das culturas advindas do continente africano, independentemente a que nação ou segmento pertença.
Nos rituais é que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, por vezes, parecendo mesmo que em determinados momentos, o culto se divide entre o sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças, refletem um sentido profano que, feitas por seus adeptos, formam um conjunto aprimorado, como se uma viajem ao passado fosse feita. A cada batida, com mãos ou varetas e a cada passo dado no bailar rememoram os caminhos percorridos pelos deuses africanos.
O ponto principal de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no próprio indivíduo que, iniciado passa a ter essa capacidade e, depois de celebradas, estas energias em “forma humana”, voltam ao seu estado natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das várias “divindades astralizadas”. Nos bailados de Yemanjá os braços ondulam numa alusão as águas dos mares; mas também, seus braços podem ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam aos primórdios do universo, onde seria também a progenitora de todos os demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com Yemanjá, num patamar mitológico superior está Oxalá, o Ar, o sopro de vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o ser humano, e assim povoou todo o Planeta.
Juntamente com Yemanjá e Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão, Exu, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o sentido da procriação; tornam-se assim um quadrunvirato da construção de todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
Oduwa, por não ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto independente, o culto às Yiami. Da interação Terra/água, surge Nãnã, Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito do povo Nagô.
Os acontecimentos mitológicos são apenas representativos para entender toda a estrutura da religião quando baseados nos conceitos do povo Nagô, no entanto, todas as formulações ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações determinantes nos candomblés.
Além dos Orixás primordiais, Yemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exu o fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas estórias são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como historias reais.
Quando da criação da Terra, segundo o mito nagô, em tempos imemoriais, nos ciclos milenares do desenvolvimento humano, chegou a era dos metais e com ela uma divindade foi criada, Ogún, o deus das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar armas de guerra e ferramentas para a agricultura. Este, juntamente com Exu, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser humano reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas substituiu a coleta pela produção de alimentos. Oxóssi, o deus das matas, continuou a caçar e dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de trabalho; nos dias atuais, a caça tornou-se uma alegoria, uma representação na evolução humana.
A descoberta dos sentimentos humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de criação de conceitos para sobrevivência, nascia assim o respeito pela gestação, e com ela, Oxún a deusa das águas doces e das nascentes que sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto, surgindo daí as Yiábás, as mães rainhas e zelosas dos castelos imaginários de um mundo mítico.
Progressivamente a humanidade foi se adaptando no Planeta recém construído; surgiram outras divindades, pois, a cada passo eram personificados deuses representativos. A natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e escravos. Novos deuses surgiam e reis foram divinizados, neste cenário apareceu Xangô, o deus da justiça que, enlouquecido pelas barbáries, dele e de seus inimigos dizem ter se enforcado. Seus machados, cortantes nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a benevolência o outro o castigo.
Da interação – Oxóssi/ Oxún – nasceu Logun, energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado representando a renovação dos ciclos, das eras. Desta maneira, as águas da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè após os grandes dilúvios, esta energia é que permite chuvas; com ele, numa alegoria encantadora surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do Universo. Porém, essas transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e das guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também consagrada entre as deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nas bocarras dos vulcões.
Mas a renovação constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte de elementos, doença/saúde, bem e mau, conceitos de todas as vicissitudes são energias que devem ser depuradas e, desta forma Obaluayé está presente; ele é o socorro, o médico do Planeta e de tudo que nele contém, é a energia produtora, tanto de pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as energias, como o ser humano. As folhas, ervas medicinais trazidas pela magia de Ossanhe, energia completa, complexa e diversificada ao mesmo tempo.
...E todas essas energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos, particularidades que agregam ao ser humano quando do nascimento e o acompanham até a devolução de todas as substâncias na morte à Mãe Terra.
Para representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza, e dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração envolve a assistência num retorno aos primórdios tempos, reinterpretando toda uma história, mitos e sentimentos.
Nos movimentos das danças e que são interpretados, de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e as turbulências das águas estão nos braços e requebros de Yemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará, numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogún estão alegorias de guerras e de batalhas vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança suas flechas dando direção da fartura. No resplandecer das mudanças bruscas do tempo dos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossayn. Na direção dada por Oxumarè apontando o caminho das águas pelo arco íris. - Nos movimentos tectônicos da energia do Planeta está Obá, a deusa que respira pelos vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nanã, devido ao tempo de existência. No ritmo atenuado do tempo, como as nuvens da paz e um telhado branco por sobre as cabeças, Oxalá caminha sobre a Terra ou no infinito Universo e, Exu, provocador de todos os movimentos é o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olímpo dos deuses africanos, os deuses do Candomblé.
Mas não só toda essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações consagradas aos deuses africanos, aos Orixás que, desta forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano.
A crença nesta forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um DNA espiritual, que, passivamente e através de ritos apropriados devem ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí, o caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Oráculo de Ifá

Os caminhos de Ifá  
Ifá é o sistema através do qual se processa a consulta oracular, popularmente tratada por adivinhação. O oráculo baseia-se nos dezesseis principais Odù (caminhos), através dos quais Orunmila relata histórias e lendas cujos personagens normalmente enfrentam situações similares aquelas expostas pelo consulente. Mas a escolha da história a ser narrada compete à Divindade. Os dezesseis Odù relacionam-se com si próprios (16 x 16), perfazendo um total de 256 caminhos ou diferentes possibilidades de destino, tratados por Esè.
 No momento da consulta, Orunmila envia o Odù que será suficiente para orientar as dúvidas do consulente e esclarece de que forma tal caminho (positivo ou negativo) está influenciando a vida da pessoa. O Sacerdote interpreta a fala da Divindade, estabelece os pontos principais que devam ser modificados para restabelecer a tranqüilidade ou o bem estar físico, financeiro, sentimental etc. A partir daí resta definir quais oferendas votivas (Ebó) devem ser realizadas para possibilitar a consecução do vatícinio, bem como aconselhar a respeito de atitudes ou comportamentos que facilitem o resultado pretendido. Assim, por exemplo, quando um indivíduo queixa-se de não conseguir emprego, mas insiste em continuar numa área onde o mercado de trabalho está completamente saturado, Orunmila pode esclarecer as suas dificuldades, recomendar os Ebó necessários e aconselhá-lo a tentar outra profissão para a qual tenha aptidão, ou simplesmente deslocar-se para outra região onde seja mais simples conseguir ocupação. Em outras palavras, o Céu sempre ajuda, mas a pessoa deve também fazer a sua parte.
 Os Odù de Ifá são completos e absolutos; cada um deles possui um lado claro e outro escuro, ou seja, um lado positivo e outro negativo, o Ing e o Iang, o masculino e o feminino e assim por diante, a feição de tudo o mais no Universo.
 Não existe Odú melhor que outro; depedendendo das circunstâncias, o melhor deles transforma-se no pior, e vice-versa. 
A participação fundamental do Òrìsà Esù – Orixá Exú.
A interpretação das falas do Oráculo é feita pelo Sacerdote preparado para essa finalidade e ocorre através do auxílio poderoso do Òrìsà Esù, - Orixá exu -  o grande mensageiro e intermediário entre os seres humanos e as Potências Divinas. Esù – Exú - é quem movimenta as peças do jogo (búzios) para formar as configurações que serão interpretadas pelo Sacerdote. Sem a participação dessa Divindade, as respostas seriam totalmente ininteligíveis para os seres humanos.
 É ele que acompanha atentamente as atitudes e palavras tanto do sacerdote quanto do consulente, principalmente quanto à sinceridade de cada um no momento da consulta.
 Da mesma forma é quem fiscaliza todo os procedimentos rituais, desde a consulta oracular até a elaboração das oferendas votivas determinadas.
 Após isso, ainda é Òrìsà Esù – Orixá Exú - que transporta as oferendas para o mundo espiritual (Òrún) e, se forem aceitas, traz de volta a resposta Divina, na forma da benção solicitada.
 Torna-se então essa Divindade o grande aliado do Homem na realização do próprio destino.
Os Dezesseis Odùs de Ifà.
01 Èjì Méjì / Ogbè Méjì
02 Òyèkú Méjì
03 Ìwòrì Méjì
04 Òdí Méjì
05 Ìrosùn Méjì
06 Òwónrín Méjì
07 Òbàrà Méjì
08 Òkànràn Méjì
09 Ògúndá Méjì
10 Òsá Méjì
11 Ìká Méjì
12 Òtúrúpòn Méjì
13 Òtúrá Méjì
14 Ìretè Méjì
15 Òsé Méjì
16 Òfún Méjì
                                                     A Lenda de Igbadu.

                                                             Os 16 Odús.

... Devo lembrar-te de que, se hoje és detentor do poder sobre os 16 Odú Meji, deves a mim este privilégio, ou por acaso te esquecestes da forma como adquiriste este poder? perguntou Exú.
Mais calmo, aceitando a meia cabaça com água que lhe estendia seu interlocutor. Orumilá acomodou-se sobre uma esteira estendida no chão e se pôs a lembrar daquilo que Exú estava agora se referindo.
Desde muito jovem, Orumilá ansiava pelo saber, e foi informado de que, para obtê-lo, deveria conquistar os favores de uma musa chamada Sabedoria, que se encontrava encarcerada em algum lugar na imensidão do Orún.
Partiu sozinho, numa aventura cujas conseqüências não podia ser avaliada. De concreto, sabia apenas que muitos outros já haviam partido com a mesma intenção e que jamais haviam retornado.
Depois de já haver caminhado muitos dias encontrou um mendigo que, estendendo-lhe a mão, pediu um pouco de comida.
Metendo a mão em seu embornal, dele retirou um pouco de farinha de inhame, e de uma pequena cabaça que levava na cintura, um pouco de dendê, misturando tudo e dividindo com o mendigo, comendo, ele mesmo, uma pequena parte do alimento.
Depois de alimentar-se, o mendigo, sem revelar seu nome, ofereceu ao jovem, em sinal de agradecimento, um bastão de marfim entalhado, dizendo - Bem sei o motivo pelo qual penetraste nesta floresta, daqui em diante segue somente tua intuição, deixa-te guiar pela vontade vencer e, em breve, irás deparar-te com uma enorme construção de pedra na qual entrarás com muita facilidade. Os perigos com os quais irás te defrontar estão em seu interior, portanto preste a atenção no que agora vou te dizer.
Com este bastão de marfim, denominado Irofá, deverás bater em cada uma das portas dos 16 quartos que irás encontrar, pois só assim elas se abrirão. Do interior de cada porta ouviras uma voz que te perguntará: "Quem bate?" e tu te identificaras dizendo que és Ifá, O Senhor do Irofá. A voz perguntará então o que estás procurando, e tu dirás, estando diante da porta do  primeiro quarto, que desejas conhecer a vida e que queres conquistá-la em nome de Ejogbe. A porta então se abrirá e conhecerás os mistérios da vida que pertencem a Ejiogbe o primeiro dos 16 Odús de Ifá.
Na segunda porta, depois de haveres te identificado como da forma anterior, dirás que desejas conhecer Iku, a Morte, e que desejas dominá-lo. A porta se abrirá e conhecerás a morte, seus horrores e mistérios, que pertencem a Oyeku Meji, o segundo Odú de Ifá. Se não demonstrares medo em sua presença haverás de adquirir domínio absoluto sobre ele.
Na terceira porta encontrarás um guardião denominado Iwori Meji, que depois de reverenciado, te colocará diante dos olhos os mistérios da vida espiritual e dos nove Orúns, onde habitam os Deuses, os Demônios e todas as classes de espíritos que irás conhecer de forma íntima, descobrindo seus gostos e maneira correta de apaziguá-los.
Na quarta porta, reclamarás por conhecer o jugo da matéria sobre o espírito, e o guardião desta porta, Odi Meji, a quem deverás mostrar respeito sem submissão, te ensinará tudo o que for concernete a questão, é necessário que não te deixes encantar pelas maravilhas e pelos prazeres que se descortinarão diante dos teus olhos, pois podem escravizar-te para sempre, interrompendo a tua busca. Lembra-te ainda que a matéria que sequer foi criada, dominará o universo.
Já na quinta porta, quando fores indagado, dirás que procuras pelo domínio do homem pelos seus semelhantes, pelo uso da força e da violência, da tortura, do derramamento de sangue. Aprende tudo que Irosun Meji tem para te ensinar. Mas não utilizes as técnicas ali reveladas, para não te tornares, tu mesmo, vítima delas. Aí tomarás conhecimento dos planos de Olórun em relação à criação de um ser dotado de corpo material.
Na sexta porta um gigante do sexo feminino, que saudarás pelo nome de Oworin Meji, e a quem solicitará ensinamentos relativos ao equilíbrio que deve existir no Universo, e então compreenderás o valor da vida e a necessidade da morte. O mistério que envolve a existência das montanhas e das rochas. Ali serás tentado pela possibilidade de obter muita riqueza, mulheres, filhos e bens inenarráveis. Resiste a essas tentações ou verás tua vida ser reduzida a uns poucos dias de luxúria.
Diante da sétima porta, da qual o habitante deste quarto chama-se Obará Meji, é velho e de aparência bonachona. Poderá ensinar-te prodígios de cura e soluções para seus problemas mais intricados. Dará a ti a possibilidade de realizar todos os anseios e os desejos de realizações humanas.  Toma cuidado, no entanto, pois, o domínio destes conhecimentos pode conduzir-te à prática da mentira, à falta de escrúpulos e à loucura total.
No oitavo aposento deverás solicitar permissão a Okaran Meji para conheceres o poder da fala humana, que infelizmente será sempre muito mais usada na prática do mal do que do bem. Este guardião te falarás em muitas línguas e de sua boca só ouviras queixas e lamentações. Aprende depressa e foge deste local, onde impera a falsidade e a traição.
Diante da nona porta está o guardião Ogundá Meji, para conheceres a corrupção e a decadência, que podem levar o ser humano aos mais baixos níveis de existência. Naquele quarto, conhecerás todos os vícios que assolarão a humanidade e que a escravizarão em correntes inquebrantáveis. Verás o assassinato, a ganância, a traição, a violência, a covardia e a miséria humana brincando de mãos dadas, com muitos infelizes que se tornaram seus servidores.
No décimo aposento, deverás apresentar reverências a uma poderosa feiticeira, cujo nome é Osá Meji. Ela vai ensinar-te o poder que a mulher exerce sobre o homem e o porquê deste poder. Conhecerás seres portentosos que funcionam na prática do mal. Todos os demônios denominados Ajés se curvarão diante de ti e te oferecerão seus serviços maléficos que, caso aceites, farão de ti o ser mais poderoso e odiado sobre a face da Terra. Aprenderás a dominar o fogo e a utilizar o poder dos astros sobre o que acontece no mundo, principalmente a influência da Lua sobre os seres vivos. Cuida para que estes conhecimentos não te transforme num bruxo maldito.
Na décima primeira porta seu guardião Iká Meji, o gigante em forma de serpente, te fará estremecer. Saúda-o respeitosamente e solicita dele permissão para descortinar o mistério que envolve a reencarnação, o domínio sobre os espíritos Abiku, que nascerão para morrer imediatamente. Aprende a dominar estes espíritos e, dessa forma, poderás livrar muitas famílias do luto e da dor.
Na décima segunda porta seu guardião se chama Oturukpon Meji, é do sexo feminino e possui forma arredondada, mais se parecendo com uma grande bola de carne. Poderá revelar-te todos os segredos que envolvem a criação da terra, além de ensinar-te como obter riquezas impensáveis. Aprende com ele o segredo da gestação humana, e a maneira de como evitar abortos e partos prematuros.
Na décima terceira porta bate com cuidado e muito respeito. Neste aposento reside um gigante que costuma comunicar-se com a Deusa da criação do mundo. Aprende agora como é possível separar as coisas. Domina o mistério de dissociar os átomos, adquirindo assim, pleno poder sobre a matéria. Aprende também a utilizar a força mágica que existirá nos sons da fala humana, mas usa esta força terrível com muita sabedoria. Este gigante chama-se Otura Meji.
Na décima quarta porta irás defrontar-se com Irete Meji, que nada mais que Ilê, a Terra. Faz com que te revele os seus mais íntimos segredos. Agrada-o, presta-lhe permanentemente reverência e sacrifício. Contata, por seu intermédio, os Espíritos da Terra, e transforma-os em teus aliados. Conhece os segredos de Sakpata, o Vodu da peste que mata e cura da forma que melhor lhe aprouver. Aprende com ele o poder da cura, já que matar é tão mais fácil.
Na décima quinta porta serás recepcionado por Ose Meji, que irá falar-te de degeneração, decomposição, putrefação, doenças e perdas. Aprende a sanar estes males e sai dali o mais depressa possível, para não seres também vitimado por tanta negatividade que foi gerada em uma relação incestuosa.
Finalmente, a décima sexta porta onde reside Ofun Meji, o mais velho e terrível dos dezesseis gênios guardiões. Saúda-o com terror gritando...Hêpa Baba! Só assim poderás aplacar sua ira. Contempla-o com respeito, mas não o encares de frente. Observa que ele não é um gênio como os que conhecestes nas quinze portas que precediam esta. Este é Ofun Meji, aquele gerou os demais, que nele habitam e que dele se dissociam apenas de forma ilusória. Conhecê-lo é conhecer todo o segredo do Universo. É isto que buscava Oh! Orumilá. Domina-o e resgata para ti a bela donzela chamada Sabedoria. 
                                                                                                       Rweferência - Do Livro Igbadu, A Cabaça da Existência.

O que é Odú?

Odú é um presságio de um momento do passado ou do presente que poderá alterar ou não um futuro, ora, inexistente. O Odú traz em seu conteúdo uma gama de informações sobre uma pessoa, local, situações diversas ou política. Odús são 401 titulares e mais 1200 “omó-odú (sub-Odús)
Quem pode lidar com Odú?
Lida com Odú somente sacerdotes (Babáolorisás e Yialorisás), Ologbôs, YialéMolés, Oluwôs, Baabalawôs, Ojés, Alagbás e Alapinis. – Todos devem ter esses “graus” comprovados.

A Origem do Odú

O Odú é um termo africano do dialeto Yorubá e Fon que determina o DNA espiritual de uma pessoa ou local e situação. Tem sua origem na própria criação do mundo e muitos deles não tiveram sua origem na terra. Foi a forma técnica que os sacerdotes das tribos africanas encontraram para decodificarem os enigmas e os segredos do universo e do ambiente que os cercava.
O Jogo-de-Búzios e os Odus correspondentes a eles foram instituídos por Oduduwa, que investiu um sacerdote chamado Setilú, o qual entronizou a divindade Orúnmilá ou Baba Elérin Ipin, que significa "O Céu me fala" ou a “Fala do Céu”. Setilu então estabeleceu as regras da leitura desse jogo que passou a se chamar Ifá, na realidade o verdadeiro nome de Setilú. Setilú criou sacerdotes, especialistas na leitura desses jogos, a quem chamamos de Babalawô, ou seja, "pai, senhor dos mistérios e segredos". E somente os babalawôs fazem a leitura dos jogos. Oduduwa tendo o conhecimento do jogo de perguntas e respostas (Urim e Purim) dos hebreus adaptou-o ao sistema africano e codificou-o para entregar o segredo a Setilú, tanto no sistema de "Opélé Ifá", como Ení Ifá e Fu-Fú. Estabeleceram-se imediatamente os dois tipos de leituras que seriam passados às gerações futuras com o nome de Ifá Igbá Ilá e Ifá Obé Keruáti.
Como se divide um Odú?
O Odú se divide em duas partes: Pupa (vermelho) e Funfun (branco) – ou ainda em positivo ou negativo. Ambos, Pupa e Funfun se alternam no posicionamento, invertendo suas posições. Isto significa que o Odú que hoje está Pupa, amanhã ou na semana que vem poderá estar Funfun.
Como responde um Odú ?
O Odú responde através do Jogo-de-Búzios (16 búzios) mediante suas caídas na peneira ou toalha de jogo. O Odú tanto usa os búzios como as castanhas de Ifá (8 metades) conhecida por Opelé Ifá.

A Técnica e desmembramentos dos Odús

O conhecimento do Odú é extremamente técnico e demanda conhecimentos profundos de cálculos, dotações psíquicas, vivência e uma boa escola iniciática.
Como se propicia um Odú?
Propicia-se um Odú fazendo-lhe oferendas diversas que variam do conhecimento de cada sacerdote ou especialista. Nunca se despacha um Odú – mesmo ele sendo negativo.
Dados e Origens técnicas do Odús.
Sendo o Odú uma espécie de inteligência natural (terrena e extraterrena), e às vezes artificial, porém inteligência possui uma gama de informações e poderes muitas vezes capazes de provocar fenômenos que alteram relevos locais e conseqüentemente a vida de cada habitante deste mesmo local. Em conseqüência os Odús pessoais são alterados e têm que ser tratados ou propiciados. Desta forma passamos a descrever os meandros e os chamados “Segredos dos Odus”.
Os Odús estão ligados à álgebra linear e espaços vetoriais. Os Odús estão ligados à dimensões tais como R1 – Linha Reta, R2 – Linha Plana, R3 – Dimensão de Volume, ou seja visão humana e R4 Quarta Dimensão ou quarto espaço, ou seja, aquela que a visão humana não alcança, mas a matemática confirma a sua existência, seguindo-se R5 até o infinito. Odú é matemática exata.
Como os Odús transitam preferencialmente nas faixas do ultravioleta e do infravermelho, os comprimentos dessas ondas de luz tornam suas formas ou figuras perceptíveis à visão animal. O comprimento de ondas de luz estabelece-se entre o visível, o ultravioleta e infravermelho.
A tese da existência evidente dos Odús prende-se aos fatores do Percebível, do Visível e do Invisível, tornando a Teoria da Interação Inter-Elementar, incontestável e possível. Daí que, se a física quântica prevê que no Espaço inexiste o fator tempo, vez que o ontem e o amanhã estão aqui no agora.
O Odú portanto, é formado por substâncias químicas como água, carbonatos, nitratos, sulfatos, compostos de carbono e amido. Aliás o amido é uma substância química constantemente usado nas oferendas (ebós), aos Odús nos candomblés brasileiros nas formas do milho branco (acaçá), e milho vermelho (axóxó), a água que está presente em quase todas as oferendas aos Odús, o potássio, na banana (Obé-jokô), o carbonato que é o cálcio no leite (mungunzá) e outros.
Assim, os elementos químicos geradores de substâncias como nitrogênio, hidrogênio, oxigênio, carbono, sódio, cálcio, ferro e zinco, estão presentes na ritualística dos Odús e no dia-a-dia da prática das casas de Orixás; portanto, longe de serem fantasias criadas por seus praticantes, o ritual dos Odús é um conhecimento técnico de química e física quântica que precede em muito a existência de Isaac Newton, portanto, válido!
Esta técnica do conhecimento do jogo de Odús propicia o conhecimento e nos prova que existe a interligação entre os Odús (caminhos de Odú) os quais promovem uma mutação gerando outros elementos, sub-odús e mesmo Odús. Assim como no decaimento radioativo, o urânio decai para tório e com o decaimento do césio liberam-se prótons, nêutrons, ou seja, Energia pura concentrada, o caminho de Odú transita da mesma forma liberando Energia pura concentrada.
E por assim ser, concentrada, as oferendas de Odús são pequenas sem qualquer suntuosidade ou luxo, porém densas de energia, pois a densidade é igual à massa sobre o volume, ou seja, a densidade é inversamente proporcional ao volume. Quanto maior o volume, menor será a densidade e vice-versa. Quanto a isto ouvimos de uma sacerdotisa Ijexá (na Nigéria) a seguinte explicação: Odú jé Oluabi tabi Oluikú! – (Odú é O Senhor da Vida ou O Senhor da Morte).

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