Historia da África.
Quando os árabes começaram a ter informações sobre a África Ocidental sua civilização já tinha séculos de existência. Embora a terra, do Atlântico ao Nilo, tivesse desfrutado de contato limitado com outras partes civilizadas do mundo, grande parcela da cultura que os árabes encontraram era natural da área. É preciso acrescentar que as fontes de informações da historia, assim como a existência destes Estados é muito limitada, temos de depender de observações de viajantes, de relatos de algumas pessoas que receberam suas informações de segundas ou terceiras pessoas afastadas dos acontecimentos, e principalmente da tradição oral.
Durante
séculos alguns povos autóctones não tiveram interesse por sua organização em
reinos, na época não havia necessidade ou vantagem na criação de instituições
políticas, outros, porém, tiveram atitudes ou necessidades diferentes e por
isso formaram governos para satisfazerem àquelas necessidades. Realmente,
muitos reinos, politicamente bem desenvolvidos haviam surgido e desaparecido
antes que fosse estabelecido qualquer contato duradouro entre a África
Ocidental e o Oriente Médio. Estes reinos apareceram mais ou menos numa mesma
região geral do mediterrâneo para o sul até o Golfo da Guiné, e do Atlântico
para o leste até quase o Nilo. Sucessivamente surgiram na região os reinos de
Gana, Mali e Songai, juntamente com muitos outros reinos menos importantes.
O
primeiro reino da África Ocidental do qual há algum registro é Gana, que se
situava cerca de 800
quilômetros a noroeste de seu homônimo moderno. Era
também conhecido por sua capital, Jumbi Saleh. Embora sua historia precisamente
registrada não antecipa o século VII, há indicações de que a historia política
e cultural remonta talvez ao próprio inicio da era cristã. As primeiras
observações de Gana foram feitas quando o reino era uma confederação que se
estendiam ao longo dos prados do Senegal e do alto Níger, porém, suas
fronteiras não eram bem definidas.
O
Povo de Gana desfrutou de certa prosperidade como agricultores, até que
constantes secas estenderam o deserto às suas terras. Enquanto pode levar
avante sua agricultura as hortas e alamedas de tâmaras pontilhavam o campo e
houve abundância de carneiros e gado nas áreas circundantes. Aquele era também um povo de mercadores e sua cidade principal,
Kumbi Saleh, foi importante centro comercial durante a idade média. No início
do século X, esteve presente a influência muçulmana do Oriente. Kumbi Saleh
tinha uma zona árabe e o povo foi gradativamente aderindo ao islamismo. A
prosperidade que surgiu na esteira da infiltração árabe aumentou o poder de
Gana e sua influência estendeu-se em todas as direções. No Século XI, quando o
rei se havia convertido ao islamismo, Gana podia gabar-se de ter um grande
exército e um comércio lucrativo através do deserto. Dos países muçulmanos
vinham trigo, frutas e açúcar, do deserto vinham caravanas carregadas com
têxteis, bronze, pérolas e sal. Gana trocava marfim, escravos e ouro de Bambubu
por esses produtos primários. O rei, reconhecendo o valor deste intercambio
comercial, impôs um imposto sobre as importações e as exportações e nomeou um
coletor para cuidar de seus interesses.
Sobre
os governantes da dinastia Sisse, Gana chegou ao auge de seu poder, as tribos
existentes ao norte, como Tichit, na atual Mauritânia, pagavam tributos ao
rei de Gana, enquanto ao sul sua influência se estendia às minas de ouro do
Falémé e do Bambuk. Era a produção dessas minas que abastecia os cofres da
dinastia Sisse com o ouro usado no comércio com as caravanas marroquinas. Nas distantes
cidades do Cairo e Bagdá, Gana era objeto de discussão entre grupos comerciais
e religiosos.
O
reinado de Tenkamenin, no século XI, é um momento apropriado para se observar o
reino de Gana. A partir do ano de 1062, Tenkamenin reinou sobre um vasto
império que através dos impostos e outros tributos coletados pelos
governadores das províncias, o tornou imensamente rico. Escritores árabes dizem
que ele vivia num castelo fortificado e embelezado por esculturas, quadros e
janelas decoradas pelos artistas reais. O terreno do castelo também continha
templos nos quais eram cultuados deuses nativos, uma prisão na qual eram
encarcerados inimigos políticos e os túmulos dos reis anteriores. O rei,
altamente estimado por seus súditos, mantinha a corte com magnífico esplendor.
Durante
o reinado de Tenkamenin, o povo de Gana aderiu a uma religião baseada na crença
de que todos os objetos terrenos continham bons e maus espíritos que deveriam
ser satisfeitos para o povo poder prosperar. O rei, naturalmente, estava na
chefia da religião. Em 1076, porém, um grupo de muçulmanos denominado
almorávidas invadiu Gana e colocou a área sob a influência de sua religião e de
seu comércio, capturou a capital e estabeleceu o islamismo. A luta que se
seguiu foi suficiente para solapar o reino de Gana. No final do Século XI Gana
entrou num período de declínio econômico causado por uma série de secas que
afetaram os importantes distritos de Wagadu e Bagana. Em tais circunstâncias
penosas, caiu como presa fácil das levas de conquistadores que influíram para
destruir o reino durante os séculos XII e XIII.
Quando Gana começou a declinar outro reino do Oeste surgiu para
suplantá-lo e exercer as alturas a que havia chegado. O Mali, também chamado de
Melle, começou como um reino organizado por volta do ano 1235, mas o núcleo de
sua organização política remonta ao inicio do século VII. Até o século XII foi
relativamente insignificante e, seus mansas ou reis, não tinham influência nem
prestigio.
O
crédito pela consolidação e fortalecimento do reino de Mali cabe a uma figura
legendária, Sundiata Keita. Em 1240 ele dominou o povo soso, depois arrasou a
antiga capital de Gana, levando os malianos às novas
culturas. Conhecido pelos nomes de Gonga-Musa e Musa-Musa, este notável membro
da dinastia Keita que governou de 1312 a 1337. Com o império que compreendia
grande parte do que hoje é a África com idioma francês, ele podia dedicar sua
atenção ao encorajamento da diligência de seu povo à exibição da riqueza de seu
reino. O povo do Mali era predominantemente agrícola, mas um substancial numero de
habitantes estava engajado em vários outros ofícios e na mineração. As minas de Bure,
fabulosamente ricas, estavam agora à sua disposição e serviam para enriquecer
os cofres reais. As melhores informações que aquele período fornece sobre o
nível das realizações destes reinos vêm dos relatos das peregrinações reais a
Meca. Os reis, recém convertidos à religião, eram tão fervorosos e devotos
quanto qualquer árabe de sua época. Como bons muçulmanos, ansiavam por fazerem
a tradicional peregrinação a Meca. Tal peregrinação, além do mais, era uma
excelente oportunidade para exibir a riqueza do reino e para atrair o comércio.
A histórica peregrinação de Mansa-Musa em 1324, excedeu todas aquelas feitas a
Meca anteriormente por personagens de alguma outra realeza do Ocidente. El
Omari, do Cairo, disse que o entourage era composto de milhares de pessoas,
grande parte das quais constituía uma escolta militar. Foram prodigalizados
presentes à população e construídas mesquitas onde fossem necessárias. Quando
os camelos se aproximaram de Meca, sua carga estava consideravelmente mais leve
do que quando eles partiram para o Oriente.
Quando
Mansa-Musa morre em 1337, o Mali podia gabar-se de ser um reino político tão
poderoso e tão bem organizado quanto qualquer outro naquela época. Viajando na
área, alguns anos mais tarde, Ibn Batuta, o famoso geógrafo árabe, pode informar
que ficou profundamente impressionado com a disciplina de suas autoridades e de
seus governadores provinciais. A excelente condição das finanças públicas, o
fausto, o cerimonial rigoroso e complicado das recepções reais, dispensava as
decisões da justiça e à autoridade do soberano. Em meados do século XIV a
Europa estava apenas começando a sentir os efeitos de sua revolução comercial, e
os reinos europeus ainda não haviam conseguido nada que se parecesse com uma
unidade nacional, mas o Mali, sob o reinado de Mansa-Musa e seu sucessor,
Suleiman, desfrutava de uma economia florescente com boas relações comerciais e
podia mostrar com orgulho um governo estável que se estendia por centenas de
quilômetros do Atlântico ao lago Chad. O povo adotava uma religião estatal que
tinha ligações internacionais e o ensino florescia nas muitas escolas que haviam
sido criadas. Não foi, senão no século XV que o reino mostrou sinais definitivos
de declínio e desintegração. Os possantes golpes dos sogai e os ataques dos
mossis combinaram-se para reduzir o poderio do Mali. O declínio não continuou
indefinidamente, porém, e o Mali continuou a existir por muitos anos como um
pequeno reino semi-independente.
O
reino que estava em posição de disputar o poderio do Mali no século XV era o
Songai que já havia experimentado longa e variada carreira como um reino, pois, já
a partir do século VIII, em Gao, perto da curva do rio Níger, havia permanecido
durante muitos anos como um pequeno reino. De fato, caiu sob a poderosa
influência do Mali e durante algum tempo seus governantes foram vassalos de
Mansa-Musa e seus sucessores. Destemidos, os sogai esperaram a primeira
oportunidade para se livrarem do jugo de Mali e afirmarem sua soberania.
Conseguiram isso em 1355, com Sonni Ali, posteriormente fazendo Songai passar
de um pequeno reino ribeirinho a um grande império.
Quando
Sonni Ali começou a governar Songai a maior parte da África Ocidental estava
pronta para a conquista. O Malli estava declinando e os reinos menos
importantes, embora ambiciosos, não tinha nem a liderança nem os recursos
necessários para obterem os domínios. Havia chegado a hora de Songai. Sonni Ali
concebeu um plano para conquistar toda a região do Níger por meio da construção
de uma marinha fluvial que assumiria o controle de ambas as margens. Por volta
de 1469, havia conquistado a importante cidade de Timbuktu e depois prosseguiu
com a captura de Jenne e outras cidades. Finalmente, atacou o reino de Mali, e
com sua conquista o reino de Songai foi lançado a uma posição de supremacia na
África Ocidental. Por sua falta de entusiasmo pelo islamismo houve considerável
oposição à ascensão de Sonni Ali, mas ele não deixava se intimidar. Consequentemente seu reinado foi preenchido com lutas, mas quando ele morreu,
o reino de Songai já se havia firmado como o poder dominante da África
Ocidental.
A era
de Sonni Ali e sua dinastia havia passado, porém, em 1492 a dinastia foi
derrubada por um general poderoso, Askia
Mohammed, que se tornou o mais brilhante governante de Songai. De 1493 a 1529 ele dedicou
suas energias ao fortalecimento do império, tornando próspero seu povo e
encorajando o ensino, recrutou um exército profissional de escravos e
prisioneiros de guerra e deixou que seus súditos se dedicassem à agricultura e
ao comércio. Os governantes locais, quatro vice-reis e o irmão de Askia, Omar,
como o principal lugar tenente, mantinham a paz e administravam o Império. Em
1494, Omar e o exército conquistaram toda a Messina, e nos anos subsequentes a
maior parte do Mali, os reinos haussas e muitos outros reinos da África
Ocidental caíram diante do poderio de Songai, Finalmente, o império Songai
estendeu-se do Atlântico a Bornu, e do país berbere ao norte ao reino dos
mossis e de Benin, ao sul. Foi, certamente, o maior e mais poderoso reino da
historia da África Ocidental.
No
entanto, guerras civis, massacres e expedições mal sucedidas se seguiram ao
reinado de Askia que foi destronado pelo filho mais velho. Embora houvesse
breves períodos de renascimento, o império estava decididamente declinando. Os
Mouros viam o Sudão com cobiça e começaram a avançar pelo deserto. Com
renegados espanhóis como seus aliados, os marroquinos derrubaram o reino de
Sogai e deram inicio ao domínio de Timbuktu.
Entre
outros reinos da África Ocidental estava o império de Wagadugu, conhecido
comumente como os reinos dos mossis. Foi fundado em meados do século XV por um
aventureiro chamado Ubri. Nunca um grande reino ocupara as áreas ao sul do
Níger, mas sua população era sempre densa
e seu povo tinha um espírito ardentemente independente. Durante certo
tempo, houve realmente cinco reinos que compreendiam a frouxa confederação. A
coesão era maior em tempos de emergência e eles conseguiram repelir os ataques
do Mali e de Songai que permaneceram mais ou menos independentes até o século XIX,
quando a França incorporou a seu império aquele território africano. A força dos mossis residia
em seu eficiente sistema político e militar. O rei imperador era absoluto.
Diz-se
que o povo afno, ou haussá possuíam sete reinos
originais, os mais conhecidos foram Kano, Zaria e Katsina. Os
reinos haussás ocupavam mais ou menos a área onde fica atualmente o norte da
Nigéria onde cada reino conservava sua identidade, com Kano emergindo em evidência
durante algum tempo, depois cedendo a vez de Katsina e assim por diante. Havia
comércio com os outros reinos africanos através do Sahára. Katsina tornou-se um
centro de ensino onde eram estudados direito e teologia onde a linguagem da
população era mais refinada. Não foi senão no inicio do século XIX, quando o
islamismo fez notáveis incursões, que os reinos haussás começaram a ceder a
influências externas.
Ao
leste e a oeste do lago Chad viviam os povos de Kanem e Bornu.
Estes povos eram compostos por grande número de tribos que haviam sido atraídas
à região pelo oásis e pelo lago. Algumas eram de berberes, enquanto
outras eram de negróides. Como reino organizado, Bornu-Kanem data do ano 1220
aproximadamente, mas a instabilidade caracterizou o governo nos dois séculos
seguintes. As minas de cobre em torno do lago traziam prosperidade para o povo
e, no século XVI, houve uma aparência de ordem. Nos séculos XVII e XVIII, os
muçulmanos procuraram subjugar estes povos e convertê-los, mas alcançaram pouco
êxito. A Subjugação por completa por estrangeiros não aconteceu senão em 1900,
quando uma parte de Bornu se tornou um protetorado da Grã-Bretanha e outra caiu
sob a influência da França.
A
falta de barreiras físicas substanciais em algumas áreas do sul do equador
tornou possível a contínua infiltração de tribos migratórias que impediam a
estabilidade política. As terras dos bantos, dos sans, dos Khoiskhois e dos
pigmeus, certamente tinham algumas organizações políticas e havia consideráveis
indicações antropológicas e arqueológicas que apoiavam a opinião de que em
algumas áreas existiam culturas bem avançadas. Mas é claro que nenhuma delas
atingiu o porte ou a influência de reinos da África Ocidental como Mali e
Songai.
Da
foz do Níger até as cercanias do cabo da boa esperança havia vários reinos que
floresceram durante certo tempo antes do século XVI. Por exemplo, houve o reino
dos Brama, situado entre o cabo Lopez e a foz do rio Congo, e a respeito do
qual praticamente nada se sabe. O chamado Império do Congo, fundado no século
XIV, dominava a área entre Setté Cama ao norte e Bengella ao sul, e no interior
estendia-se até o alto Zambezi. Sua
capital ficava em Banya, porém, seus reis experimentaram dificuldades em manter
controle sobre as tribos do vale do Congo e suas fronteiras encolhiam-se
constantemente no século XVII, como resultado da caótica situação criada pelos
traficantes de escravos portugueses.
Ao
sul do Império do Congo havia um reino perto da atual cidade de Mossâmedes. Os
khoikhois, os damaras e outras tribos da região constituíam a população do
reino, cujo governante era chamado de Mataman. Onde hoje está a moderna África
do sul havia um estado grande e homogêneo habitado pelos bechuana, basuto, zulu
e khoikhoi. Na costa leste, os povos matabele e makalaka foram incorporados em
um antigo reino que datava do século X. Sua instabilidade foi causada por frequentes incursões dos wazimbas, povo feroz que vivia para o Oeste. O
restante da costa oriental caiu logo sob a influência dos muçulmanos e foi
convertido em dependências de vários sultanatos fundados pelos árabes e pelos
persas que assumiram o controle da África Oriental. No interior estavam os
reinos dos barotses, dos katangas e dos balubos, que se estendia do Zambeze ao
lago Tanganica.
A
conquista de Songai, em 1591 pelos marroquinos, não havia dado fim ao comercio
através do Sahára. Os terminais do sul haviam simplesmente se mudado para o
leste, para os reinos haussás e para o império de Bornu. No inicio do século
XX quando a Grã-bretanha, a França e a Alemanha estavam completando
suas conquistas dos reinos da África Ocidental já havia passado fazia muito
tempo dos reinos de savanas para reinos do cinturão de florestas situados ao
longo do Golfo da Guiné, ao sul. Quando os portugueses velejaram pela primeira
vez ao longo da costa da África Ocidental, no século XV, descobriram dois estados
substanciais, Benin, localizado a Oeste do delta do Níger, e o reino do Congo,
perto da foz do rio Congo. Em Benin, os marinheiros portugueses compravam
escravos, contas e tecidos que trocavam por ouro em pó com africanos que
viviam mais para o leste, ao longo do atual Gana. A abundância de certos bens
da África Ocidental impressionou de tal modo os mercadores europeus que eles
deram partes da costa da Guiné os nomes
destes produtos, pimenta, marfim, ouro e escravos.
O
tráfico de escravos, que se tornou forma dominante de comercio na área,
desempenhou um papel fundamental com base econômica para o aparecimento dos reinos do cinturão
das florestas. O povo ioruba, a oeste de Benin, organizou-se numa série de
reinos, o mais poderoso dos quais era o de Oyó. Foi a desintegração deste
império, no inicio do século XIX, que criou as condições instáveis de guerra e
desordem que levaram, por sua vez, a entrega de grande número iorubas ao
trafico transatlântico de escravos. Quando Oyó declinou o Daomé livrou-se do jugo
de seu antigo dominador. Ironicamente, o Daomé que devia suas origens no
século XVII, a decisão da abster-se do trafico de escravos através do
Atlântico, tornara-se, no final do século XVIII, um centro chave na África
Ocidental para exportação de escravos. No século XIX, este reino altamente
centralizado foi transformado, de um reino especializado no tráfico de escravos
em um reino que lidava grandemente com produtos de óleo de dendê. Apesar disso,
os europeus usaram a imagem de uma nação cruel, bárbara, escravista, com uma
justificação parcial para a invasão e a conquista francesa nos anos 1890.
Outra
região a partilhar destino semelhante foi aquela das cidades independentes do
delta do rio Níger. Mercadores ibos haviam feito a transição de escravos para o
óleo de dendê somente para serem frustrados pelas tentativas comerciais
britânicas de abertura da África ao comercio europeu. Entre 1870 e 1901, a Grã-bretanha e a
poderosa nação ashanti do atual Gana travaram dez guerras que culminou na
conquista daquela região pelos britânicos.
Os
reinos descritos aqui não são de modo algum uma relação completa das unidades
políticas da África Ocidental, além do mais, havia outras áreas africanas que testemunharam o desenvolvimento daqueles reinos. Alguns,
como o Egito, Kush e Cartago, floresceram durante a era pré-cristã, outros
vieram mais tarde. Algumas áreas, como o Zimbabwe e as terras de savanas ao sul
da bacia do Congo, testemunharam diferentes civilizações emergindo nos lugares
de suas antecessoras. As cidades independentes muçulmanas de fala swahili,
localizadas ao longo do oceano Indico comercializavam com a Arábia, a Índia e a
Indonésia numa época em que as potências europeias combatiam nas cruzadas. Os
Etíopes têm uma historia registrada de quase dois mil anos. Outros reinos são
de origem mais recente, o povo zulu, por exemplo, não se tornou uma nação senão
no século XIX. Em grau maior ou menor, todos eles tiveram alguma ligação
com o povoamento do novo mundo pelos povos negros.
A escravidão
era um aspecto importante da vida social e econômica africana. A instituição
estava generalizada e era, talvez, tão antiga quanto a própria sociedade
africana. Os escravos eram predominantemente capturados na guerra e podiam ser
vendidas ou conservadas pelas pessoas que os capturavam. Em geral, os escravos
eram encarados como propriedade do chefe da família. No direito, os escravos
eram considerados como um bem móvel, mas na prática se tornavam associados de
confiança dos senhores e desfrutavam de virtual liberdade. Alguns eram
vendidos e exportados, enquanto outros eram sacrificados por reis em
cultos de seus antepassados reais. Os filhos dos escravos não podiam ser
vendidos, e assim constituíam parte integrante e inalienável dos bens da
família que, desfrutando de tal segurança, não era incomum que os filhos dos
escravos fossem favorecidos com alforria pelas mãos de seus senhores.
Certamente
até o período da muitas incursões europeias na África, a vasta maioria das
pessoas se engajava em práticas religiosas naturais do continente. Havia
símbolos de superstição que podiam ser
descritos como fetiches, mas eram apenas
manifestações exteriores de certas crenças religiosas e, tal como os símbolos
das outras religiões, não indicavam o caráter
especifico da religião em
si. A religião dos antigos africanos pode ser, com precisão,
como o culto dos antepassados. Os africanos acreditavam que o espírito de seus
antepassados tinha o poder ilimitado em suas vidas, nisto, tal como em quase todos
os aspectos da vida africana, o grupo familiar era importante. Acreditava-se
piamente que o espírito que se encontrava num parente era deificado com a morte
e continuava a viver e manter ativo interesse pela família. Os espíritos dos
primeiros antepassados haviam tido a liberdade de usar de influência durante
tanto tempo que eram muito mais poderosos do que os espíritos daqueles
falecidos mais recentemente. Daí o pio culto e a completa deificação dos
primeiros antepassados. Não somente os espíritos dos membros da família eram cultuados, como também se dispensava
consideração similar aos espíritos que se encontravam nas terras da família, às
árvores e às pedras da comunidade do grupo familiar e ao céu acima da comunidade.
Por
força do caráter familiar das religiões africanas os sacerdotes
eram os patriarcas das famílias, eram os membros vivos mais velhos dos
descendentes do antepassado inicial, e havia por isto, herdado as prerrogativas
terrenas de seus antepassados. Assim, tinham o domínio sobre as terras, as
águas e a atmosfera da família. Era o patriarca da família que entrava em
comunicação com as almas de seus antepassados e com as forças naturais nas
vizinhanças imediatas, estava, portanto, autorizado a conduzir as cerimônias de
culto. Os templos de culto podiam ser qualquer estrutura destinada a este fim, onde continham objetos sagrados, como ossos dos mortos, peças de madeira, pedras ou
metais consagrados e estatuetas que representavam objetos a serem cultuados.
Sinos e chocalhos eram usados para invocar os espíritos. O sangue dos animais imolados como galinhas ou outra ave, cabras, ovelhas eram
oferecidos como sacrifício para aplacar
os deuses. Nunca houve na África uma prática universal de sacrifício de seres
humanos, mas, em algumas áreas, prisioneiros e cativos eram sacrificados nos
culto das várias divindades. Ingestões de vinho de coco, cerveja ou alguma outra
bebida fermentada eram oferecidas em várias formas de culto e as orações e cantos
constituíam expressões de adoração.
Era
bem natural que em uma sociedade como aquela encontrada na África houvesse
considerável confiança no poder mágico dos amuletos, talismãs e objetos
semelhantes. Qualquer coisa que ajudasse a explicar o imponderável
representava uma adição bem vinda às práticas tribais. A magia era, por isso,
praticada em grande escala. Recorrendo a poderes mal definidos, conhecido
somente por ele, o “mágico” feiticeiro inventava técnicas e criava ritos
destinados a assegurar aos indivíduos os fins específicos que eles desejavam.
Onde a religião era uma tentativa coletiva de assegurar satisfação ao grupo
familiar, a magia era uma tentativa individual de obter satisfações que partia
de determinada pessoa. Até mesmo nas áreas onde prevalecia o culto animista, a
crença na magia era generalizada e muitas pessoas tinham grande confiança na
eficácia das práticas executadas.
A
meticulosidade dos ritos fúnebres em todo o continente atestava a consideração
que os africanos tinham pela ideia de que o espírito dos mortos desempenhava
importante papel na vida do grupo familiar. O funeral era o clímax da
vida e, os rituais dispendiosos e extensos, eram obrigações sagradas dos
sobreviventes. Os mortos, em geral, eram sepultados no solo, fosse sob cabanas nas quais haviam vivido
ou em
cemitérios. Frequentemente o sepultamento era realizado
alguns dias depois da morte, mas por vezes, a família retardava o enterro por
semanas ou mais tempo. A sepultura não era coberta completamente até que todos
os membros da família tivessem
oportunidade de levar oferendas e participar de algum rito do sepultamento.
Nada demonstra mais claramente a coesão da família africana do que as
cerimônias e os costumes que ela praticava por ocasião da morte e do
sepultamento de um de seus membros.
Apesar
da influência inicial do islamismo sobre o modo de vida africano em alguns
reinos, como os de Gana, Mali e Songai, muitos outros rejeitaram completamente
alguns reis pertencentes a esses reinos africanos, no entanto, aceitaram por
questões políticas e comerciais, porém, seus súditos se mantiveram fiéis a suas
práticas tribais. Os muçulmanos nunca puderam conquistar povos como os haussás
e os iorubas. O cristianismo começou a se enraizar na África pelo norte do
continente, pois já estava ali quando o islamismo apareceu no século VII. Estas
duas religiões engajaram-se numa luta de vida e morte pelo controle daquela
região. Na África Ocidental, onde a população era mais densa e da qual se
obtinha o grosso dos escravos, o cristianismo era praticamente desconhecido,
até que os portugueses, no século XVI começaram a implantar missões na área.
Era uma religião estranha esse cristianismo que ensinava a igualdade e a fraternidade
e, ao mesmo tempo, introduzia em grande escala a prática de arrancar de suas
próprias casas e transportá-las para uma terra distante a fim de torná-las
escravas. Se os africanos do sul do Sahára demoraram a aceitar o cristianismo,
isto aconteceu não somente porque estavam ligados as suas formas particulares
de culto tribal, mas também porque não podiam conciliar o caráter contraditório
da nova religião.
Os escravos.
"O Comércio de escravos e o racismo: o berço do capitalismo” tem como
fim dar uma descrição do comércio de escravos na África – a maior imigração da
história da humanidade – e fazer que o leitor se interesse e continue a
aumentar os seus conhecimentos sobre o tema. Esses conhecimentos são
importantes para todo aquele que se quiser orientar nas lutas políticas do
mundo em que vivemos e sobretudo na luta contra o racismo. O papel da igreja cristã
aqui revelado é importante para a explicação da vitória dos negreiros e
colonialistas, e do aparecimento do racismo no mundo.
O Infante D. Henrique e as caravelas
Antes mesmo do
ano de 1440 o comércio de escravos era um empreendimento comercial com bons
lucros em todo o continente europeu onde os ricos compravam escravos fossem
eles brancos ou negros, vindos do norte da África em caravelas para trabalhar
nas propriedades rurais ou em serviços domésticos. Na Itália, mais precisamente
em Veneza e em Gênova, eram vendidos escravos cristãos aos monarcas do Egito e
outras nações do norte da África, uma forma de comércio bilateral.
Aquela forma de
comércio, evidentemente interessava em muito, pois o empreendimento auferia
grandes lucros aos reis de muitas nações e não havia interesse em terminar com
o comércio de seres humanos. Tanto a igreja católica quanto a protestante
incentivavam a venda de escravos cristãos. No entanto, uma tentativa feita pelo
Papa Clemente V e Martinho V, ameaçaram com excomunhão, expulsão da igreja e do
reino dos céus, a todos aqueles que vendessem escravos cristãos aos ”infiéis”.
Mas, as ameaças dos papas não deram resultado.
Em 1441 ocorreu algo que iria mudar o
rumo da história para todo o continente africano. O príncipe Infante D.
Henrique despachou de Portugal um navio sob o comando de Antão Gonçalves com
ordens de velejar ao longo da costa atlântica da África, passar ao longo de
cabo Bojador e encher os porões com peles e óleo de leão-marinho. A tarefa foi
cumprida a contento e com boa margem de tempo.
Mas Antão Gonçalves não ficou por aí. Há
tempos que desejava subir no conceito do seu amo, e por isso mesmo queria levar
para Portugal algo especial para lhe dar como presente. Decidiu desembarcar na
costa e aprisionar africanos para levar para Portugal como escravos.
Desembarcando com nove homens da guarnição iniciou a procura mas, mesmo penetrando
uma longa distância na terra africana não teve sucesso.
Quando já tinham desistido da procura e
voltavam para o barco avistaram finalmente um homem que vinha andando sozinho
pela praia com o seu camelo. O homem foi rapidamente cercado pelos dez
portugueses mas não se rendeu, lutou corajosamente armado com sua lança e só
depois de dura luta e ferido foi aprisionado e levado para o navio. No entanto,
antes de regressarem ao barco, Antão Gonçalves e seus homens aprisionaram
também uma mulher que encontraram nas cercanias. E assim foi o primeiro
encontro entre portugueses e nativos do continente africano.
Ao voltar ao mar Antão Gonçalves encontrou
um outro português, Nuno Tristão, comandante de uma grande caravela armada.
Nuno Tristão tinha recebido ordens do Infante D. Henrique para aprisionar e
levar para Portugal pessoas que fossem encontradas na costa da África. Gonçalves
e Tristão aliaram-se em uma empreitada comum. À noite desembarcaram com uma
grande força armada e tiveram a sorte de localizar um acampamento de pescadores
a dormir. Os portugueses atacaram com toda a força. Uma parte dos nativos
conseguiram fugir mas os portugueses mataram quatro e aprisionaram dez, entre
homens, mulheres e crianças.
Já em Portugal, este primeiro saque
na África causou um enorme alvoroço nas Cortes do Infante D. Henrique. Pela façanha
Antão Gonçalves foi promovido a Cavaleiro, recebendo a medalha da Ordem de
Cristo. O Infante D. Henrique despachou imediatamente um embaixador especial ao
Papa Eugénio IV com intuito de descrever a presa e revelar os seus planos de
novas conquistas e empreendimentos de caça a escravos na África. O Infante D. Henrique queria a bênção e
aprovação do Papa para as expedições. Do Papa recebeu o que solicitava, e não
só isso, o Papa declarou também que a ” cada um que participar desta guerra
deverá receber o perdão de todos os seus pecados”. Nada mal, quando sabemos que
os pecados nesta guerra, então iniciada, eram assalto, escravidão, estupro e uma
orgia colossal de assassinatos de crianças, mulheres e homens, numa extensão
difícil de igualar. Os ”perdoados” antecipadamente, dos quais muitos vinham dos
piores estratos da sociedade, criminosos com crimes inomináveis, muitos deles
condenados à morte, não necessitavam do apoio papal para atacar populações
indefesas, assaltar, escravizar e assassinar.
A bênção e o perdão dos pecados, dados
pelo Papa Eugénio IV, tiveram um resultado devastador para todo o futuro da
África. Também os Papas seguintes repetiram o exemplo de Eugénio IV. Em todas
as guerras de rapina ou empreendimento de saque no continente africano, os Papas
declararam sempre o perdão dos pecados para os cristãos europeus.
A caça aos escravos como empresa comercial
As caravelas portuguesas começaram
então a velejar com destino a África na costa do Senegal para raptar homens e mulheres
para vender como escravos. Os portugueses iam bem armados e chegavam em
esquadras com vários navios. Normalmente desembarcavam à noite, atacavam as
aldeias de pescadores sem defesa e transformavam os seus habitantes em
escravos. Os negreiros tentaram também entrar no continente mas o risco de vida
era muito grande. Os raptores permaneceram na costa atacando somente as vilas
do litoral, mesmo assim o número de escravos africanos continuou a aumentar
alcançando um valor extraordinário. Em 1444 iniciou-se a primeira expedição
financiada e organizada compondo-se de seis navios que partiram de Lagos na
costa do Algarve, ao sul de Portugal. O objetivo era aprisionar africanos em
grande escala para posterior venda como escravos. Quando alguns meses mais tarde
os navios voltaram a Lagos os porões estavam carregados com mais de 235
africanos. Os negreiros tinham iniciado uma guerra em menor escala onde muitos
africanos foram mortos quando se defendiam dos ataques dos portugueses. Assim
se estabeleceu a caça aos nativos africanos como empresa comercial
transoceânica.
De 1441 a 1448 os portugueses
escravizaram mais de 1.000 africanos nas costas do continente. A partir do
início da década de 1450 o número de escravos vendidos nos portos de Lagos e
Lisboa aumentou para mais de 700
a 800 por ano. No entanto isto era só o começo do que
viria a acontecer.
O Vaticano e o ouro do
comércio de escravos
O aumento do
comércio de escravos originou um maior interesse da igreja cristã pelas
expedições dos negreiros portugueses na África. Acordos econômicos entre
Portugal e o Vaticano não estão publicamente documentados, pois como é do
conhecimento, a investigação histórica nos arquivos do Vaticano não é permitida.
No entanto, documentos históricos importantes demonstraram que tais acordos
devem ter sido realizados. A partir do período do Papa Nicolau V, e por
solicitação dos Reis de Portugal, foram promulgadas várias bulas papais,
importantes ordens do Papa endereçadas a todos os cristãos que atribuíram à
Coroa portuguesa direitos de exploração da África legitimando essas ações.
Três bulas
papais tiveram grande importância para o futuro das relações entre a Europa e a
África. A primeira, a Dum Diversas, foi promulgada em 18 de Junho de 1452, onze
anos depois da expedição escravagista de Antão Gonçalves e Nuno Tristão. A bula
papal Dum Diversas, autorizava o rei de Portugal a atacar, conquistar e
submeter Sarracenos, pagãos e outros descrentes inimigos de Cristo, a capturar
os seus bens e territórios e a reduzi-los à escravatura perpétua, transferir as
suas terras e territórios para o Rei de Portugal e para os seus sucessores.
Mais claro do
que isto não é possível dizer-se. A bula papal é bem concreta., no entanto, uma pergunta
fica pendente: qual foi o interesse do Vaticano e dos altos dignitários da
Igreja Cristã de dar tanto poder a um país como Portugal que, naquela altura era uma nação
culturalmente e economicamente atrasada? A explicação só pode ser uma – o ouro.
A proveitosa expedição de grande dimensão de que o Papa tinha a intenção de aproveitar
pode ser deduzida do texto que dá ênfase a ”bens e territórios e escravatura
perpétua”.
A mesma
orientação segue-se nas bulas papais posteriores. A bula papal, Romanus
Pontifex, de 8 de Janeiro de 1455, foi uma glorificação da história do imperialismo
português. Com essa bula o rei de Portugal recebeu do Papa o monopólio da
navegação, comércio e direitos de pesca nos mares da África, e de todas as
conquistas futuras ao sul do cabo Bojador até à Índia. Este monopólio deu um
poder enorme aos Reis de Portugal tanto no que se refere à extensão da região
em questão como ao fato de que a bula era também uma proibição aos outros
países cristãos de enviarem as seus barcos a África. Aqui se coloca novamente
uma questão. Qual foi a parte que o Papa recebeu em troca?
Na
terceira bula papal, Inter Caetera, de 13 de março de 1456, o Papa Calisto III
confirmou mais uma vez o monopólio que a Coroa Portuguesa recebera através da
bula Romanus Pontifex, além disso, esta nova bula atribuiu à
Ordem de Cristo, cujo chefe máximo era o Infante D. Henrique (o Navegador),
todos os direitos exclusivos do cuidar das almas e das transações econômicas
associadas à ”cura das almas” nas regiões conquistadas e outras que se viriam a
conquistar, desde o cabo do Bojador à Índia. As bulas papais revestiam-se de
grande significado na Europa desse tempo. As bulas materializavam no texto
escrito a grande autoridade moral do Papa, diretamente vinda da vontade de
Deus, o que possuía um grande poder de influência na ética e moral das pessoas.
Quanto à parte econômica, deve-se admitir que também desta vez o Papa apostou no
cavalo certo. Durante os primeiros cinquenta anos triplicou-se o comércio
europeu de escravos de África.
Infante D. Henrique
Navegador ou o caçador de escravos?
O Infante D.
Henrique morreu em 1460. Esta personalidade histórica tão conhecida através dos
livros de história é apresentada como um visionário, um descobridor de mundos.
Certamente o Infante D. Henrique foi um visionário, mas as suas visões tinham a
ver com poder econômico. O jovem príncipe iniciou a sua carreira como
conquistador planejando e executando várias cruzadas contra Marrocos e as Ilhas
Canárias. Até mesmo Gibraltar D. Henrique queria conquistar à Coroa Espanhola.
Se acreditamos nos livros de história, a grande causa da vontade de D. Henrique
era a de propagar a fé Cristã, mas, note-se bem que Gibraltar e as Ilhas Canárias
eram possessões espanholas e como tal igualmente cristãs como Portugal, nada a
”cristianizar”, somente pilhar e saquear.
Uma famigerada
expedição de que muitos evitam falar. Contra Tanger em Marrocos em 1437,
demonstra bem a moral do Príncipe. Um exército português, sob o comando direto
do Infante D. Henrique desembarcou na costa do Marrocos, próximo a Tanger, com
o objetivo de conquistar a cidade. Depois de dura batalha contra os soldados
do Marrocos o exército português foi derrotado e cercado sem possibilidades de
fugir para os barcos.
O fim de D.
Henrique e muitos outros da fina flor da aristocracia portuguesa estava
próximo. Os marroquinos ofereceram a livre retirada para os barcos se os
portugueses prometessem devolver ao Marrocos a cidade de Ceuta que haviam
conquistado alguns anos antes. Como segurança a este pacto os marroquinos
queriam que o Príncipe D. Henrique, comandante em chefe dos portugueses,
ficasse prisioneiro como garantia. Era uma oferta que os portugueses eram
forçados a aceitar. A alternativa era a ameaça de extermínio.
Porém, D.
Henrique não tinha planos para ficar preso. Convenceu então o seu irmão mais
novo, Fernando, que estava sob o seu comando a tomar o seu lugar como refém.
Dizendo de que era o melhor para o reino de Portugal e com a promessa de que o
libertaria rapidamente, conseguiu persuadir o seu irmão a tomar o seu lugar na
prisão. De volta a Lisboa o Príncipe Henrique rapidamente esqueceu a promessa
feita. O jovem Fernando terminou os seus dias na prisão de Fez, de onde enviou
muitos apelos ao irmão que nunca foram respondidos por D. Henrique. O Infante D. Henrique tinha outras ideias e preocupações. Sonhava
em mandar barcos circundando o norte de África para entrar em contacto direto
com o grande continente de que havia ouvido falar, e aí conquistar aos norte
africanos o domínio das minas de ouro e o controle do comércio de escravos para
a Europa.
As visões do
Infante D. Henrique eram visões de ouro e escravos, na realidade o cognome caçador de escravos e ouro seria mais indicado para o Infante do
que o de Navegador. O interesse de D. Henrique pela navegação foi um subproduto
do seu interesse pela captura de escravos e pelo controle das minas de ouro na
África.
As sociedades escravas na África.
Durante a última
metade do século XV o comércio português de escravos africanos tornou-se uma
empresa bem organizada na Europa e na África. Os primeiros anos de caça humana
foram uma empresa perigosa com muitos portugueses mortos em guerra ou doenças. Um dos primeiros negreiros, Nuno Tristão, foi morto em 1446, junto com outros
18 no rio Gâmbia na sua quarta expedição de saque.
Um método mais simples era necessário para o sucesso do comércio. Os portugueses entraram em contacto com reis e outros potentados das regiões costeiras e gradualmente conseguiram arranjar parceiros comerciais, que em troca de tecidos e cavalos vendiam ouro, peles de antílope e até mesmo escravos.
Um método mais simples era necessário para o sucesso do comércio. Os portugueses entraram em contacto com reis e outros potentados das regiões costeiras e gradualmente conseguiram arranjar parceiros comerciais, que em troca de tecidos e cavalos vendiam ouro, peles de antílope e até mesmo escravos.
“O comércio com escravos é um negócio para reis,
homens ricos e comerciantes notáveis”, assim se descreviam os negócios por um
dos envolvidos.
É talvez
chocante o facto de que potentados africanos venderam outros africanos a
estranhos para serem levados para outras partes do mundo. Mas assim era no
mundo então conhecido. Também os reis europeus vendiam escravos europeus a reis
africanos. Todavia é importante conhecer os sistemas sociais na África do
século XV para compreender o passado.
Quando os
portugueses, e depois todos os europeus, pela via marítima fizeram os primeiros contatos com a África, por lá vivia o povo, tanto na Europa como na África, em sistemas
políticos que muito se assemelhavam. O Feudalismo na Europa não era o mesmo que
as organizações sociais africanas que comumente se define como ”Feudalismo
Africano”.
Na Europa durante a escravidão os escravos
eram despojados de todos os direitos, inclusive ao direito a propriedade. Com
a transição ao Feudalismo a escravidão transformou-se gradativamente em
servidão e vassalagem, um sistema em si terrível para os trabalhadores e que
teve a duração de vários séculos, em muitos casos nos limites da escravidão. No
ano de 1775, Catarina II , endureceu as regras da servidão na Rússia e os
grandes proprietários rurais tiveram o direito de vender os seus próprios
camponeses como escravos.
Na África o
”feudalismo” tinha outro conteúdo. A velha estrutura de igualdade tribal deu
com o tempo lugar a um sistema em que alguns estados que se desenvolveram
fortemente submeteram povos mais fracos. Isto significava um gênero de servidão
ou vassalagem para os povos vencidos a que os historiadores no geral chamam
”escravidão doméstica”.
As condições
desses escravos africanos podiam variar muito dependendo do tempo e do lugar,
mas um padrão geral pode ser descrito sem grandes deturpações da realidade.
O mais comum
para os escravos na África, era o direito a um pedaço de terra onde tinham uma
casa numa região de onde não podiam se ausentar. Os escravos eram obrigados a
fornecer ao seu senhor uma parte da colheita e serviços pessoais, podendo
gradativamente receber uma maior liberdade de movimentos. Alguns tornavam-se
camponeses livres, outros artesãos, e a diferença entre estes escravos e os
homens livres do povo dominante tendia a diminuir em conformidade com o tempo.
Um escravo africano podia possuir propriedades, ser adotado como membro de uma
família senhorial e até mesmo tornar-se o herdeiro do seu Senhor.
Existem exemplos
de escravos que exerceram com sucesso o comércio, ficaram ricos e proprietário
de escravos, homens importantes na sociedade e até mesmo eleitos como Rei. Isto
dito para esclarecer a situação e posição dos escravos e as suas possibilidades
nas sociedades africanas.
Naturalmente não
existiam muitas alegrias na vida de um escravo. Um escravo podia por exemplo,
ser dado como presente em alguma ocasião especial ou ser vendido posteriormente
para satisfazer os interesses econômicos do Senhor. O importante neste contexto
é entender que a posição social do escravo africano quando os europeus chegaram
a África no século XV, em muito era igual à vassalagem, das grandes massas de
homens e mulheres, que dominava a Europa.
A situação
social dos escravos africanos de então não tinha nada em comum com a posterior
escravidão nascida da necessidade dos europeus de força de trabalho barata para
trabalhar nas colônias do novo mundo, quando os seres humanos eram tratados como
gado, nos navios negreiros, nas minas e plantações.
Com base nestes
fatos podemos fazer uma ideia de como um proprietário de escravos africanos
raciocinava, quando ao mesmo tempo ele vendia para os europeus, ouro, marfim,
peles de animais e também escravos. Para o proprietário de escravos na África
não era mais estranho vender escravos para comerciantes europeus do que
vendê-los para comerciantes africanos. Ele não sabia muito sobre as relações
sociais dos escravos na sua nova terra e supunha certamente de que eram
semelhantes às de África. Para ele, os escravos tinham o dever de estar na
propriedade familiar do patrão e ali viver a sua vida, exercer as suas aptidões
e iniciar a subida na escala social da sociedade, na tentativa de conseguir sua
libertação.
Na realidade o
pensamento do vendedor de escravos africanos não estava muito longe do que se
passava. Naquela época, na segunda metade do século XV, os escravos eram
tratados na Europa à semelhança do tratamento na África. O escravo não era um
ser destituído de todos os direitos, pelo contrário tinha um lugar num sistema
de deveres recíprocos entre os escravos e a sociedade escravagista.
Deve-se no
entanto salientar alguns fatos decisivos e importantes para poder entender o
desenvolvimento das relações entre a Europa e a África. Os reis africanos ou os
chefes tribais que vendiam escravos para os europeus nunca poderiam antever que
este primeiro e relativamente limitado comércio de escravos iria no futuro
tomar proporções tamanhas que arruinaria a estabilidade dos seus reinos. Eles
não podiam prever que esta futura instabilidade levaria a uma situação em que
os europeus dominassem totalmente a África. Uma situação em que os europeus
sendo a parte ativa e mais forte no comércio de escravos por razões de
superioridade de armamentos, sempre deveriam obter os maiores lucros e as
maiores vantagens. É também importante lembrar que durante aqueles anos o
comércio de escravos era apenas em uma parte menor dos negócios entre a África
e Europa, ainda que para Portugal e depois para a Espanha o comércio de
escravos representasse a maior parte de todas as transações comerciais.
O Comércio de Escravos expande-se.
Até à segunda
metade do século XV o comércio escravagista destinava-se principalmente
preencher as necessidades da aristocracia em Portugal e Espanha, e de uma
limitada exportação para Itália e França. Este mercado não era grande e
manifestava uma tendência ao enfraquecimento. A Inglaterra e a França, por
exemplo, duas das grandes potências no começo do século XVI, não comercializavam em
geral com escravos, mas tinham desenvolvido um comércio com a África que se
baseava em mercadorias como marfim, ouro e papel.
O comércio de
escravos compreendia, até meados do século XVI, alguns milhares de escravos
africanos que foram vendidos à países europeus, e poderia ter passado para a
história como um acontecimento reprovável, mas limitado a uma determinada
época. Um outro mais valioso comércio, como foi dito, começava a desenvolver-se
e a tornar-se mais importante.
Todavia não foi
assim, pois a viagem de Colombo às Antilhas em 1492 e a travessia de Cabral ao
Brasil em 1500 modificou tudo. Depois destas datas os barcos portugueses e
espanhóis viajavam cada vez mais para o ocidente em direção ao novo continente
americano recém-descoberto. Com grande quantidade de soldados bem armados, com
guerras e traições, conquistaram sucessivamente as Índias Ocidentais – as ilhas
da América Central – e grandes extensões de terras na América do Sul. Os povos
dessas regiões foram escravizados e forçados a trabalhar em minas e plantações
de cana de açúcar. Na busca de riquezas, os conquistadores foram brutais na
exploração de índios que foram transformaram em escravos. A população indígena desapareceu
durante a escravidão. Em algumas regiões foi totalmente exterminada. Em Cuba,
onde Cristóvão Colombo aportou em 27 de Outubro de 1492, desapareceram mais de
100 mil nativos num período de menos de 50 anos. Não é possível descrever aqui
a tragédia dos indígenas americanos durante a exploração colonial. Para isso
seria necessário um texto que de uma forma completa descrevesse esse drama.
A procura de
força de trabalho para substituir os indígenas massacrados nas novas colônias
na América aumentou de maneira extraordinária a partir do começo do século XVI.
Os conquistadores começaram a importar escravos da Espanha, Portugal e Norte de
África. É bom ressaltar que estes escravos eram tanto brancos quanto negros, e em parte eram
cristãos.
Pode ser de
interesse histórico saber que a exportação de escravos cristãos continuou até o
final do século XVII. Existem documentos da Coroa Espanhola em que os Reis
Católicos (assim chamados pelo Papa!) autorizavam a exportação de mulheres
escravas brancas da Espanha para o México, onde tomavam lugar nos prostíbulos
da classe dominante.
Em 1515 a Espanha recebeu o
primeiro barco com um carregamento de açúcar de cana plantada por escravos nas
Índias Ocidentais. Estes escravos tinham sido aprisionados na África e
transportados para Espanha e da Espanha tinham sido vendidos para as plantações
nas Índias Ocidentais. Até essa altura os escravos aprisionados na África
tinham que ser trazidos à Europa, Espanha ou Portugal, e só depois podiam ser
vendidos para trabalhos na América. Mas a grande carência de força de trabalho
originada pelos massacres dos indígenas e as novas explorações de minas e
plantações exigiam uma outra e mais completa solução do que a importação de
escravos a partir da Europa.
No início da
exploração da América tanto os portugueses como espanhóis estavam indecisos em
utilizar escravos africanos. Estes tinham-se mostrado muito rebeldes e em
alguns casos tinham-se revoltado e causado morticínio nos navios negreiros e
nas Índias Ocidentais. Mas o desenvolvimento conduziu os acontecimentos nessa direção. Os Reis da Espanha e Portugal estavam economicamente dependentes do
comércio de escravos onde tinham feito grandes investimentos. Ao mesmo tempo a
necessidade de força de trabalho – grandes quantidades de escravos para as minas
e plantações – só poderia ser satisfeita a partir do continente africano. A
solução encontrada pelas casas reais da Espanha e Portugal foi aumentar a
violência e a opressão contra os povos africanos.
Em 1518 partiram
primeiros navios espanhóis com cargas de escravos diretamente da África para as
Índias Ocidentais. Este acontecimento iniciou nova época, quando as monarquias
na Europa autorizavam os comerciantes de escravos em comprar escravos em
determinadas regiões da África e posterior exportação para as colônias no
continente americano.
Milhões de
pessoas foram caçadas, aprisionados e vendidas como escravos. Tanto as
monarquias europeias, as Igrejas Católica e Protestante e as demais classes
dominantes se tornaram violentamente ricas neste negócio abominável.
O comércio de escravos para a América iniciou-se em Portugal e Espanha, que foram seguidos rapidamente pela Inglaterra, Franca, Holanda, Prússia, Dinamarca, Suécia e mais tarde, também por dois novos países no continente americano, Brasil e Estados Unidos. As relações entre os países escravistas, nas costas africanas eram de quase estado de guerra, todos preparados em apossar-se de toda a presa sem querer repartir com ninguém. Começou com a guerra entre Portugal e Espanha. A monarquia portuguesa, tinha sem dúvida, recebido o monopólio do comércio na costa africana do Papa, no entanto, correndo o risco de ser excomungado pelo Papa e cair no inferno, a Coroa Espanhola, em 1475 começou a mandar os seus navios mais abaixo nas costas africanas. Os Reis Católicos de Espanha enviavam uma frota de trinta navios à Guiné.
O comércio de escravos para a América iniciou-se em Portugal e Espanha, que foram seguidos rapidamente pela Inglaterra, Franca, Holanda, Prússia, Dinamarca, Suécia e mais tarde, também por dois novos países no continente americano, Brasil e Estados Unidos. As relações entre os países escravistas, nas costas africanas eram de quase estado de guerra, todos preparados em apossar-se de toda a presa sem querer repartir com ninguém. Começou com a guerra entre Portugal e Espanha. A monarquia portuguesa, tinha sem dúvida, recebido o monopólio do comércio na costa africana do Papa, no entanto, correndo o risco de ser excomungado pelo Papa e cair no inferno, a Coroa Espanhola, em 1475 começou a mandar os seus navios mais abaixo nas costas africanas. Os Reis Católicos de Espanha enviavam uma frota de trinta navios à Guiné.
O Rei de
Portugal João II não cerrou os olhos a esta afronta e, de acordo com determinações do Monarca português, os comandantes de barcos portugueses, que
na África se encontrassem com ”navios de qualquer gente da Espanha ou doutro
qualquer”, não fizessem prisioneiros mas logo os botassem borda fora, “para que
a eles sejam pena por atentarem e quererem fazer uma cousa tão defesa e vedada,
e, aos que o ouvirem e souberem, bom exemplo”. Porém um negócio tão lucrativo como este não poderia ser mantido
só para um rei. Dentro de alguns anos as costas ocidentais da África estavam
cheias de navios espanhóis e até mesmo naus piratas de outros reinos.
Um pirata que
passou para história como o primeiro contrabandista do comércio de escravos foi
o inglês John Hawkins. Financiado por comerciantes londrinos, Hawkins adquiriu
três barcos em 1562 com uma guarnição de 100 homens, navegou da Inglaterra
para as Costas da Guiné. Através de guerra e saques, Hawkins conseguiu, após
algum tempo na costa, aprisionar mais de 300 pessoas. Após o que navegou com
destino as Índias Ocidentais onde vendeu os prisioneiros como escravos e
comprou mercadorias para vender na Europa.
A coroa inglesa, em princípio, não queria saber nada das aventuras de Hawkins e
também nada do comércio de escravos, mas quando a Rainha Elisabeth I tomou
conhecimento da contabilidade de Hawkins, depois da primeira viagem, houve uma
mudança radical. Transformando-se rapidamente a Rainha investiu na caçada de
escravos de Hawkins. John Hawkins recebeu da Rainha Elisabeth um navio negreiro
batizado de ”Jesus” (!) destinado a sua segunda expedição escravista na África.
Mais tarde foi concedido a John Hawkins o título de nobreza por serviços
prestados à Grã Bretanha, e escolheu como símbolo o escudo d’armas, um negro
escravo algemado e de joelhos!
Durante os
séculos XVI e XVII o comércio de escravos continuou a expandir-se a ritmo
acelerado. O monopólio exercido por Portugal foi destruído quando o país entre
1580 e 1640 ficou sem Rei, e então o Rei da Espanha Filipe I, o herdeiro mais
próximo do rei de Portugal, assumiu o trono até 1640, quando
explodiu uma revolta em Lisboa e um novo Rei português foi coroado, o país
tornou-se numa província espanhola e foi rebaixado como poder naval.
A partir do início do século XVII muitos
países apossaram-se de grande parte do comércio de escravos, que neste contexto
se constituía nos maiores negócios em todos os mares. O estado de beligerância
entre estes países era a relação mais comum em todos os oceanos. A cobiça e a
inveja sobre os lucros do comércio escravista não conhecia fronteiras. O poder
naval da Inglaterra cresceu fortalecendo-se em todo o período. Este país de
segunda categoria no que diz respeito ao comercio de escravos, começou a
produzir mercadorias para vender para a Espanha e Portugal, o que lhe deu acesso ao
ouro e a prata proveniente do comércio escravista e das colônias na América.
Este fato criou as condições para um processo de industrialização na
Inglaterra que a transformou em uma das potências da Europa.
O momento
decisivo de quem deveria tomar a liderança sobre o comércio com a África, naquele momento quase
exclusivamente de escravos, surgiu com a guerra de sucessão do trono espanhol
entre 1702 e 1714, após a morte de Carlos II. O império Espanhol naquela época
era o maior do mundo, com posses na Holanda, Itália, América, África e Ásia. A
pérola deste império era o ”assiento”, o contrato que dava ao possuidor
o direito a todo comércio de escravos entre a Espanha e as possessões na
América, deu origem de riquezas enormes.
Felipe de Anjou,
o Duque francês escolhido por Carlos II, tornou-se Rei Felipe V da Espanha com
apoio do avô, o Rei da França, Luís XIV. Após o seu coroamento Felipe V
concedeu o direito de “assiento” ao
seu avô Luís XIV, o que este havia exigido anteriormente. A monarquia de
Inglaterra sentiu-se roubada das grandes riquezas, e então uma grande guerra se
tornou realidade. Durante 12 anos na Europa e em todos os lugares onde as duas
partes se encontravam era uma matança mútua. O primeiro Tratado de Paz foi
realizado em abril de 1713 com a Paz de Utrecht, entre a Espanha Inglaterra e seus aliados.
A decisão de Paz
pôde ser assinada pelo fato de que a Espanha e Inglaterra, um mês antes, haviam
acordado num tratado de Comércio, O Convênio do Assiento, que concedia à Coroa da Inglaterra o monopólio de exportação de
escravos da África para a América Espanhola. Com base neste Convênio do
Assiento, a Inglaterra desenvolveu-se enormemente durante o século XVIII para
se transformar no maior poder imperialista do mundo, uma posição que a
Inglaterra manteve durante no mínimo duzentos anos.
50
milhões desapareceram da África
Quantos milhões
de pessoas desapareceram da África por causa do comércio de escravos, entre os
anos de 1400 e 1900? Esta questão tem sido objeto de muitos estudos mas não
pode ser respondida de forma unívoca. Nunca existiu uma estatística exata,
somente estimativas baseadas em dados incompletos.
Mesmo os números
existentes estão errados por razões do extenso contrabando. O comércio de
escravos era taxado com impostos pesados pelas Monarquias europeias e pela
Igreja que viviam deste negócio. Os comerciantes de escravos tentavam quase
sempre evitar o pagamento de deveres alfandegários subornando os funcionários alfandegários dos mercados de escravos. Estes permitiam aos comerciantes de
escravos utilizarem-se das marcas das diferentes Companhias Escravistas com as quais
marcavam os escravos que passavam assim sem pagar impostos ou taxas de
alfândega. O contrabando de prisioneiros vendidos como escravos é estimado ser
uma terça parte de todas as carga.
Mas, quantos
eram eles, na sua grande totalidade? Nos círculos de pessoas que dedicaram a
vida a estudar a história do continente africano, avalia-se a cifra de 15
milhões como um mínimo absoluto e 50 milhões como a mais plausível quantidade
de escravos vivos que chegaram à América. Somente em Cuba desembarcaram durante
um período de 50 anos, entre 1791 e 1840, um milhão de escravos.
Esta estimativa de número de escravos que chegaram vivos a América é evidente não a mesma quantidade que foram embarcados nos navios negreiros. Muitos morriam durante a viagem, calculados um mínimo de 20 por cento. Muitas vezes estas cifras eram muito maiores.
Esta estimativa de número de escravos que chegaram vivos a América é evidente não a mesma quantidade que foram embarcados nos navios negreiros. Muitos morriam durante a viagem, calculados um mínimo de 20 por cento. Muitas vezes estas cifras eram muito maiores.
A estes trágicos
números devemos acrescentar todos aqueles que foram assassinados durante as expedições de saques e nas guerras promovidas pela caça ao escravo, que passados
vários séculos abarca grandes regiões no continente africano. Chega-se à
conclusão que o comércio de escravos, calculado por baixo, deve ter custado a
África no mínimo 50 milhões de vidas humanas. Alguns investigadores calculam em
100 milhões, o que corresponde à quarta parte da população negra da África em
meados do século vinte quando estes estudos foram realizados.
O comércio escravista liquidou as estruturas
sociais na África.
Em meios dos
anos do século XVII (1600) as colônias europeias no recém descoberto
continente americano conheceram um renovado e poderoso desenvolvimento. Enormes
quantidades de escravos africanos foram para ali transportados afim de tomar
parte na produção das minas de ouro e prata, nas plantações de cana de acucar,
tabaco, algodão e muitas outras.
Não menos
necessitava-se constantemente de novos escravos uma vez que a capacidade dos
escravos era utilizada sem escrúpulos tendo como consequência muitas mortes. A
mortalidade na colônia Holandesa de Surinã, nas Índias Ocidentais, era tão alta que toda a população sadia de escravos, cerca de 50 mil
pessoas, era exterminada totalmente cada 20 anos!
Quando a procura
de escravos aumentava na América, intensificava-se também a caçada humana dos
mercadores de escravos no continente africano.
Os comerciantes de escravos conseguiam escravos de três diferentes
maneiras: ataque pirata, alianças de guerra e parcerias pacíficas. O ataque
pirata eram expedições de pilhagem e guerra onde os negreiros tinham as suas
bases nos navios. O ataque pirata transformou-se rapidamente em parceria de guerra.
Os europeus desembarcavam em terra com grupos armados de soldados para apoiar
um rei africano contra os seus rivais. Em regra os comerciantes europeus de
escravos recebiam como espolio de guerra o direito de compra sobre os
prisioneiros dos povos vencidos, que eram transportados para a América como
escravos.
Este gênero de
parceria dos primeiros mercadores de escravos foi feita pela primeira vez pelo
inglês John Hawkins. Na sua quarta viagem, quando ele estava na costa da Guiné
e tinha capturado mais de 150 prisioneiros, ocorreu algo determinante para o
futuro do comércio de seres humanos. Nas Costas de Serra Leoa Hawkins foi
contatado por um chefe tribal que desejava o apoio na guerra contra
outros reis na região. Como forma de pagamento Hawkins deveria receber todos os
prisioneiros que fossem capturados na guerra. Sob o comando de 300 ingleses,
Hawkins desembarcou, e junto com o chefe e seus homens, iniciou a batalha contra
os inimigos. A destruição e mortandade causada pelos homens de
Hawkins que se utilizavam de armas de fogo foi terrível. Mas os ganhos foram
muito ao gosto de Hawkins. Ele levou consigo mais de 300 prisioneiros, que
resultou em grandes lucros no momento da venda no Caribe.
Com o passar do
tempo os europeus aprenderam a provocar rivalidades entre os povos africanos e
a utilizarem-se delas para levar a um estado de guerra para conseguir mais
escravos. Nestes casos, os europeus apoiavam uma das partes
fornecendo armas em troca do direito de comprar os escravos entre os
prisioneiros. Dessa forma, e atraídos pelas mercadorias dos europeus que os
comerciantes de escravos pagavam, alguns reis africanos tornaram-se
gradualmente parceiros dos mercadores de escravos da Europa.
Mas a parceria
transformava-se na maioria dos casos na dependência dos reis africanos para com
os mercadores de escravos. Se alguém desejava alguma mercadoria europeia que os
comerciantes de escravos tinham a oferecer, existia somente uma forma de
consegui-la - fornecer mais escravos. A perseguição para obter escravos
expandiu-se para maiores regiões e mais profundamente no interior do
continente.
Os comerciantes
de escravos pagavam inicialmente, na maioria das trocas, com cavalos, utensílios
de cobre e tecidos, mas gradualmente estes foram substituídos quase na
totalidade por armas de fogo e álcool, armas de fogo; o mosquete,
transformou-se numa necessidade absoluta para os povos de Africa que queriam
garantir a sua liberdade. Sem armas de fogo, que apenas poderia ser conseguida
em troca de escravos, os reinos fortes transformavam-se numa presa fácil para
reinos mais fracos.
Finalmente, em
muitas regiões do continente africano, todos os povos foram obrigados a
adquirir armas de fogo. Em consequência todos estavam obrigados na busca de
escravos. Durante muitos séculos, do começo do século XV (1400) ao final do século XIX (final de 1800),
espalhou-se em grandes regiões da África a instabilidade e a insegurança. Quase
em todas as partes existia o risco iminente de alguém ser raptado e vendido
como escravo para os mercadores europeus. A estrutura das sociedades entraram
em decadência e destruíram-se, as pessoas foram degradados e brutalizados pelos
negócios sem escrúpulos.
Este fenômeno
pode ser observado no desenvolvimento da arte, de formas muito sofisticadas no
século XV, para exposições mais duras a partir do final do século XIX. O
desenvolvimento Social foi paralisado em muitas regiões da África e velhas
nações e culturas desapareceram. Os poderes tradicionais dos reis,
tradicionalmente dependentes de um sistema de conselheiros e hierarquias,
modificou-se para se tornar despótico e sem fronteiras. Um resultado desta nova situação foi que a oposição política e a rebeldia podia desaparecer pela venda
para os mercadores de escravos. A insegurança aumentou gradativamente e as
pessoas foram obrigadas a refugiar-se em regiões inacessíveis. A produção da
sociedade diminuiu ao mínimo, a agricultura foi destruída em grandes regiões, pois qual o camponês que queria plantar e trabalhar uma terra que não
sabia se iria colher?
O comércio com seres humanos
O comércio de
escravos foi uma dura e impiedosa perseguição até o profundo interior da
África. Os homens e mulheres raptados e aprisionados eram obrigados pelos seus
captores a longas marchas em direção à costa para os mercados de escravos ou
navios negreiros. Isto significava várias semanas ou meses a pé com carência de
comida e agua. Os prisioneiros eram originários principalmente da parte
ocidental da África, do Senegal, ao norte, a Angola ao Sul. Durante o Século
XIX (de 1800) vieram também muitos escravos da África oriental.
Na chegada ao
mercado de escravos os prisioneiros eram encarcerados em barracões ou prisões onde ficavam até que os europeus entrassem em acordo sobre o preço
de uma “pièce de Inde”, o preço normal de um escravo sadio de 20 anos. Dois
homens de trinta anos correspondiam em geral ao preço de uma pièce, da mesma
forma que dois rapazes de 10 ou 15 anos ou duas mulheres.
Após muitos dias
de caminhada a pé, algemados, os prisioneiros chegavam geralmente extenuados.
Acrescente-se o fato de que muitos também tinham lutado pelas suas vidas,
talvez presenciando a morte de entes queridos e vendo as suas casas serem
queimadas pelos caçadores de escravos. A mortalidade nas prisões dos mercados
de escravos era por essas razões muito alta.
No dia em que os
prisioneiros iam ser vendidos para os europeus, eram retirados para fora das
prisões e levados a um pátio aberto, completamente nus, homens mulheres e
crianças eram expostos. Eram então examinados minuciosamente por um médico de
bordo dos navios. Os que estavam acima da idade de 35 anos, cabelos brancos ou
de alguma forma demonstrassem sintomas de doença, eram colocados de lado. Só os
melhores eram eram aceitos para serem negociados.
Todos os
prisioneiros comprados eram marcados no peito ou nos braços com um ferro em
brasa, imprimindo as diferentes marcas das companhias de escravos. A Companhia
Afro Britânica tinha a marca DY, Duke of York, a definição formal da monarquia
Britânica. A monarquia de Portugal usava uma cruz de Cristo, a grande Sociedade
Bíblica, The Society for Propagation of Gospel, marcava seus escravos com as
iniciais SPG. A firma inglesa Companhia da Guiné utilizava as iniciais GHC.
Após serem
marcados os prisioneiros eram levados de volta à prisão, onde esperavam até
serem levados para os navios negreiros que esperavam no porto. A viagem podia
ser para uma fortaleza ou depósitos de escravos, construídas pelos países
europeus ao longo da costa da África ou diretamente para a América. As
primeiras grandes fortalezas nas costas ocidentais da África chamavam-se São
Jorge da Mina, mais tarde batizada de El Mina. Foi construida pelos portugueses
entre os anos de 1481 a
1489, a
uma distancia de 50 quilômetros ao sul do Cape Coast no atual país Gana. O Rei
de Portugal, D. João II que decidiu construir o forte enviou navios com 500
soldados, 100 trabalhadores de construção e tudo que era necessário em material
de construção. O forte foi provido com torres altas, fosso cavadas na rocha e
armado com 400 canhões. O forte El Mina
foi construido para manter no cativeiro mil escravos. O tamanho e as
propriedades da fortaleza demonstram claramente os grandes negócios com
escravos que se planificavam. O rei D. João II recebeu do Papa Xisto IV o
perdão de todos os pecados, para todos os cristãos que morressem em S. Jorge da
Mina.
A viagem para a
América era para os prisioneiros uma viagem para o desconhecido, e nenhum dos
escravos sabia o que aconteceria e muito menos nunca tinham visto o mar. A
bordo dos navio de escravos a vida era um inferno indescritível. Os escravos
eram aprisionados com algemas de ferro nas mãos e nos pés e abrigados nos
porões do navio. Eram postos muito juntos, em um espaço pouco maior do que
o próprio corpo ocupava. Os Porões eram separados em vários pisos, com uma
altura, no geral, de mais ou menos 80 centímetros,
nunca mais de um metro onde eram obrigados a estarem deitados ou assentados. No
navio negreiro inglês Brooks, a altura dos pisos onde os escravos eram
encerrados era de 78
centímetros. O espaço para cada escravo masculino, no
navio Brooks, era de 183 cm
de comprimento por 40 cm
de largura. Para as mulheres 175 x 40 cm, para rapazes 152 x 35 cm e meninas 137 x 30 cm. Em muitos navios
negreiros os escravos era também presos com algemas em volta ao pescoço.
A mortalidade
nos navios negreiros era mito alta,
20 a
30 porcento dos prisioneiros morriam durante a travessia. Ás vezes os escravos
faziam motim contra este terrível destino e algumas vezes conseguiram tomar os
navios. Na maioria dos casos os comerciantes de escravos derrotavam os escravos
revoltados que eram punidos em banhos de sangue sádicos.
O Triângulo do Comércio.
Quando alguém
para e reflete através da incrível quantidade de seres humanos que foram
vendidos como escravos, principalmente durante os anos 1650 a 1850, pode-se
compreender que isto era uma parte de um processo muito grande. Milhões de
pessoas foram compradas na África como escravos em troca de mercadorias
europeias, como armas de fogo, tecidos, barras de ferro, utensílios de cobre ou
aguardente. Essas pessoas foram transportadas posteriormente para as Américas,
onde trabalhavam gratuitamente para os proprietários de minas ou plantações e
criaram no continente americano poderosa riqueza em mercadorias como açucar,
tabaco, algodão, rum, ouro, prata e pedras preciosas. Essas mercadorias eram
transportadas por sua vez para a Europa e vendidas de forma muito lucrativa.
Uma parte do lucro dessas transacões era reinvestido nas fábricas na Europa e
novas mercadorias européias eram transportadas para a África para a compra de
mais escravos. A este comércio, usa chamar-se de o Triângulo do Comércio ou o
Círculo do Comércio.
O papel especial
dos escravos neste ciclo de criação de riqueza não deve ser esquecido. Os
escravos não eram negros ignorantes e preguiçosos que só serviam para serem
utilizados como simples ferramentas, como dizem historiadores racistas. Os
escravos eram na verdade gente trabalhadora que tinham sido raptados, eram
camponeses e artesãos com um espectro muito amplo de conhecimento profissional.
Os seus conhecimentos em diferentes profissões foram na realidade muito
decisivo para o progresso nas minas e plantacões. Eles trabalhavam como
carpinteiros, pedreiros, agricultores, calcetadores, ferreiros, pintores,
marceneiros, ourives, artistas e muito mais. A destreza e o conhecimento básico
profissional tinham eles trazidos das suas terras de origem.
Detrás do
Triângulo do Comércio estavam as monarquias europeias, a igreja e em parte
outros financiadores. Os reis vendiam autorizações para a prática do comércio
de escravos ou financiavam esse comércio com dinheiro próprio. Por outro lado
membros das classes superiores, nobreza ou a classe burguesa, formavam
companhias com a bencão da Casa Real, compravam a licença real e entravam no
negócio do comércio de escravos. Muitos deles eram proprietários de navios ou estaleiros
de barcos, fabricantes de armas ou tecidos na Europa e proprietários de minas e
plantações nas Américas.
O industrialismo
nasceu do Triângulo do Comércio.
O Triângulo do
Comércio era um negócio muito lucrativo, um comércio com lucros triplicados. A
receita da Grã Bretanha proveniente do Comércio das Índias Ocidentais, ao
término dos anos de 1700, foi quatro vezes maior do que a renda do comércio
desse país com todo o resto do mundo. Os lucros eram grandes
e o comércio expandia-se rápidamente. A quantidade de navios que traficavam
pelos mares do mundo aumentou enormemente durante um tempo relativamente curto.
No porto de Liverpool, no ano de 1719 estavam registrados 18.371 toneladas de
navios. No ano de 1792 a
quantidade de tonelagem registrada era de 260.382.
O crescimento
era necessário porque o transporte de mercadorias aumentou consideravelmente
durante estes setenta anos. Como um exemplo pode-se utilizar os números de
importação do açúcar para a Inglaterra e a exportação da Grã Bretanha de
produtos de algodão. A Inglaterra importou meio milhão de tonelada de açúcar no
ano de 1720. Ao final de 1700
a importação anual era cinco vezes maior. Em 1701 a Grã Bretanha exportou
produtos de algodão no valor de 23.000 libras. No ano de 1800 a exportação foi de 5,5
milhões de libras!
A cidade de
Liverpool cresceu com a construção de navios, Manchester e Lancashire cresceram
com a fabricação de tecidos baratos de algodão para a compra de escravos, e
Birmingham cresceu com as forjas de armas e a exportação de milhões de
mosquetes para a África.
A rápida expansão economia do Triângulo do Comércio criou as condições
para a revolução industrial da Inglaterra. A necessidade de
maiores quantidades de mercadorias de consumo baratas conduziu a novos inventos
na indústria que por sua vez levou a um crescimento e renovação da produção.
Especialmente nota-se isto na indústria têxtil nos finais do século de 1700,
onde se sucediam uma após outra, as invenções de novas máquinas.
Desta maneira
surgiu uma nova classe de grandes comerciantes e magnatas da indústria subindo
ao topo da sociedade. Essa classe era enormemente rica, esbanjava dinheiro com
muito gosto e comprava para si poder político nas cadeiras no Parlamento
Inglês, de onde podia exercer influência nos negócios do país e nas condições
para o Triângulo do Comércio.
Mas toda essa
riqueza que foi criada no Triângulo do Comércio tem uma outra face, uma face
muito suja. Na África, o comércio de
escravos causou a miséria e destruição de reinos e culturas e a estagnação de
grande parte da produção tradicional e artesanato, que aos poucos foi
diminuindo e quase desapareceu totalmente. Um exemplo, foi a fabricação africana de
tecidos, famosa por sua boa qualidade e que os países da Europa realmente
importavam antes do comércio de escravos, sucumbiu e desapareceu quando o
tecido barato vindo da Europa invadiu os países africanos.
Com o aumento do
poder opressor dos países europeus a situação tornou-se muito pior. Os europeus
obrigaram ao fim da produção e desenvolvimento das sociedades na África para
conservarem o seu poder e seus mercados. A transferência de novas técnicas
europeias para países da África era totalmente excluída, apesar de que isto foi
prometido pelos monarcas e homens de negócios europeus, e apesar dos pedidos de
ajuda dos reis africanos no que diz respeito a médicos, carpinteiros,
professores, padres, construtores de barcos e tudo que eles achavam necessário
para abrir novos caminhos para o futuro da África.
Também na Europa
o Triângulo de Comércio gerou filhos, o industrialismo, uma miséria nunca antes observada. Para as grandes massas de
operários industriais a vida era uma verdadeira miséria. Tanto para adultos
como para crianças a jornada de trabalho era quase infinita, acima de 16 horas,
o pagamento era terrivelmente baixo e as condições de trabalho inconcebíveis. A
pobreza nas cidades industriais da Europa era pior que nunca. As riquezas do
Triângulo de Comércio eram acessíveis somente aos ricos. Para os pobres na
Europa as transformações da sociedade causadas pelo Triângulo do Comércio foi
como uma nova escravidão.
A Suécia e o comércio de escravos
As riquezas da
África também atraiu a classe dominante sueca. Em meados do Século de 1600
começou uma luta por colônias, nas Costas dos Escravos ou Costa do Ouro, nos
mares do país que se chama atualmente Gana,
para encher com ouro, do comércio de escravos, os cofres da classe
dominante sueca. Tudo iniciou, no ano 1647, quando Louis de Geer tomou
conhecimento das possibilidades econômicas que o tráfico da África poderia dar. Louis de Geer comprou da Rainha sueca Kristina uma carta de navegação real que dava
direito a transitar para a África e viajar com dois navios na caça a escravos,
ouro e marfim. Como meio de pagamento Louis de Geer utilizava-se de mercadorias,
utensílios de latão, anzóis de pescar e aguardente.
Estes primeiros
lastros dos barcos deram grandes dividendos, o que levou ao próximo passo. No
ano de 1649 fundou-se a Companhia Sueco/Africana com Louis de Geer como o
principal proprietário. O objetivo, desta vez, não era o negócio de troca
simples. A Companhia foi formada para tornar realidade o sonho de uma colônia
sueca.
Como líder da
primeira expedição da Companhia foi nomeado um aventureiro alemão, Hendrik
Carlof, com experiência da Costa da Guiné, onde havia prestado serviços sob o
comando holandês. No ano de 1650, Carlof chegou ás costas marítimas de Gana,
onde, como chefe da expedição sueca acordou um tratado com o rei de Ketu, um
reinado junto a Costa. Chegaram-se a um acordo da construção de duas
fortificações e algumas estações de comércio. O forte, de nome Carlsborg,
começou a ser construído juntamente com uma parte das estações de comércio ao
longo da costa, e o outro forte, Christiansborg, em Accra, na atual Gana. A
vida para a guarnição sueca não foi pacífica, pelo contrário cheia de combates
contra holandeses e ingleses que queriam a mesma presa. Isto foi uma
desvantagem para o comércio e para os lucros da Companhia.
Após a morte de De Geer a Companhia Sueco/Africana foi reorganizada no ano
de 1654 sob a direção dos filhos de De Geer. Foi uma mudança nos destinos da Companhia. Carlof não se
entendia com a direção da Companhia com
os filhos de De Geer, que tentaram engana-lo em questões de dinheiro. Ele
desertou e refugiou-se na Dinamarca onde conseguiu arranjar uma autorização
de corsário com objetivo de
conquistar a possessão sueca na Costa da Guiné para a Dinamarca.
Em 1658 Carlof aportou novamente na Costa da Guiné e com ajuda de um chefe
tribal africano conseguiu vencer o comandante da guarnição de Carlsborg, o
sueco Von Krusenstierna e tomar o forte, as estações de comércio e
Christiansborg. Em consequência a Companhia Sueco/Africana perdeu todas as possessões e a história do
poder colonial sueco deveria ter chegado ao fim.
Uma última
tentativa existiu, todavia, o chefe tribal africano que ajudou Carlof contra os
suecos, invadiu Carlsborg, que os dinamarqueses neste altura já tinham vendido
aos Holandeses, oferecendo a venda do forte para a Companhia Sueco/Áfricana. A
companhia comprou mais uma vez Carlsborg muito caro em troca de moeda de ouro e
os negócios recomeçaram funcionar como antes. Mas o sucesso da presença colonial
da Companhia não durou muito tempo, os holandeses atacaram Carlsborg pouco
tempo depois e o forte caiu após 13 meses de cerco. A aventura colonial sueca na
África Ocidental chegou a um fim definitivo.
Aqui a narrativa
histórica divide-se. Alguns historiadores suecos gostam de afirmar que os
suecos jamais negociaram com escravos. Isto, no entanto, não é verdade. Fazendo
um exame detalhado dos livros da Companhia Sueco/Africana pode-se constatar que
a companhia possuía escravos como força de trabalho nas fortificações e nas
estações de Comércio. Estes escravos foram comprados pela companhia. Além disso,
foram mandados para a Suécia em navios suecos, escravos africanos destinados ao
trabalho nos feudos da nobreza sueca. Com respeito ao comércio de seres humanos
para as Américas é um fato que o tráfico se fazia em navios suecos e dinamarqueses, escravos que vinham
da costa ocidental da África para as
Índias Ocidentais por iniciativa de empresas suecas e dinamarquesas.
Porém a verdadeira erupção do comércio
organizado de escravos ocorreu somente a partir do século XVIII em 1700. No ano
de 1775 a
Dinamarca comprou três ilhas nas Índias Ocidentais, chamadas de ilhas virgens
Saint Croix, Saint Thomas e Saint Jan. Nas grandes plantações destas ilhas a
Dinamarca utilizou escravos vindos das suas colônias na África.
A Suécia não
queria ser pior do que os seus vizinhos e providenciou em conseguir para si uma
colônia nas Índias Ocidentais. Em julho de 1784 o Rei Gustav III comprou a ilha
de Saint Bartélemy da Franca em troca de privilégios comerciais na cidade de
Gotemburgo. Em março de 1875
a ilha de Saint Barthélemy foi posta sob a direção do
comandante sueco Salomon von Rajalin. Ao mesmo tempo organizava-se na Suécia a
Companhia das Índias Ocidentais, que recebeu grandes direitos comerciais e
poder em Saint Barthélemy.
O Rei Gustavo
III declarou a ilha porto franco, porto livre, aberto para todos os navios do
mundo. Esta medida veio a revelar-se de grande proveito. Ao final do século
XVIII, final de 1700, surgiu um período de muita perturbação nas Índias
Ocidentais com guerras constantes entre a Inglaterra, França, Holanda e América
do Norte. A guerra não diminuiu, no entanto a necessidade de contatos
comerciais entre os capitalistas dos países beligerantes e o contrário, a
necessidade do comércio tornou-se maior. A política de neutralidade sueca
juntamente com a declaração de Gustavo III de porto livre, fez de Saint
Barthélemy, principalmente a capital Gustavia, um ponto de convergência para
comerciantes e transações comerciais nas Índia Ocidentais.
Um outro fator
que foi decisivo para o sucesso econômico foram as modificações feitas na
legislação que legalizaram o comércio de escravos. Por proposta do Comandante
Rajalin, o Conselho de Governo e o rei Gustav III determinaram no ano de 1785
que o comércio de escravos seria permitido em Saint Barthélemy afim de que os
habitantes da ilha pudessem participar do Comércio de escravos. ”Uma situação
necessária para o cultivo da ilha e a ampliação das plantações”, foi dito na
ocasião.
Gustavo III foi
para a história como um Rei que introduziu o comércio de escravos num país que
500 anos antes havia abolido a escravidão. Como privilégio da Companhia das
Índias Ocidentais, a partir de outubro de 1786, a Companhia obteve o
direito de fazer negócios de comércio de escravos na costa da África. O fato é
que o comércio de escravos foi sancionado oficialmente sem que nenhum membro do
Conselho de Governo se opusesse.
É interessante
notar que a unanimidade absoluta entre os representantes da classe dominante
tinha muito pouco apoio entre o povo. Neste período a opinião contra o comércio
de escravos começou a crescer fortemente em todo o mundo e os ventos de mudança
espalharam-se até à Suécia e ganharam a maioria do povo sueco.
Em Saint
Barthélemy a situação era tal que a nova legislação implicou que o comércio de
escravos foi um dos grandes comércios da ilha sueca. O comércio com seres
humanos em navios suecos, partia da África Ocidental, Guiné e Angola para Saint
Barthélemy e as Ilhas Virgens, posseções da Dinamarca. Os africanos que não
podiam ser vendidos para os proprietários das plantações dessa ilhas, eram
aprisionados em Saint Barthélemy para serem oferecidos para venda em outras
plantações nas Índias Ocidentais. Para este fim existia um depósito de escravos
na rua Östra Strandgatan em Gustávia, que era propriedade do mais bem sucedido
empresário de Saint Barthélemy, Adolf Hansen, representante da Companhia das Índias Ocidentais na ilha.
Hansen era também proprietário de navios de escravos.
Tem-se debatido
se a Companhia da Índias Ocidentais oficialmente participava do comércio de
escravos. As formalidades jurídicas são por vezes difíceis de compreender, mas,
para além do fato de que o representante da Companhia era um dos mais ativos no
comércio de escravos na ilha, existem outras provas, pois um dos maiores acionistas
da companhia, o maior era o príncipe herdeiro Gustav Adolf, depois rei Gustav
IV Adolf. O diretor executivo Lars Rejmers P:son, dedicava-se ao comércio de
escravos para Saint Barthélemy e posteriormente para outras ilhas nas Índias
Ocidentais, inclusive Havana. Rejmers participou em parceria com vários
empresários da ilha utilizando-se da administração da companhia para as
transações econômicas relacionadas com o comércio de escravos.
Tais eram
negócios de muitos êxitos neste local para todos os contrabandistas e países em
guerra. Durante o período de guerra na região, Gustávia teve um
progresso indescritível. De ter sido quase inabitada em 1785, Gustávia com seus
5.000 habitantes transformou-se no ano de 1800 numa das maiores cidades da Suécia depois de Estocolmo,
Gotemburgo, Karlskrona e Norrköping, comparado-se a Gävle com 5.400 habitantes
ou Uppsala com 5.105. O maior negociante na ilha era, como foi dito, a Companhia
Sueca das Índias Ocidentais fundada em 1786. No ano de 1806 os negócios da
Companhia passaram a ser propriedade do estado sueco para seis anos mais tarde,
em 1912, passarem à propriedade da Casa Real Sueca.
As receitas
comerciais de Saint Bartélemy foram transferidas após o ano de 1812 para a
Fundacão Barthélemy, de propriedade pessoal dos reis suecos e a partir de 1818
do rei Karl XIV Johan fundador da atual dinastia, os Bernadottes. Os
rendimentos proviam também das taxas alfandegárias e impostos portuários, que
na maior parte eram dos barcos negreiros e dos impostos do comércio de
escravos. Até mesmo o dinheiro proveniente da venda de escravos fugidos de
outras ilhas ou negros e mulatos sem documentos de identidade, os quais eram
aprisionados por ordem do governador e vendidos no mercado de escravos eram pagos
à Fundacão Barthélemy.
Com o passar dos
anos as guerras existentes na região foram acabando, Saint Barthélemy, a cidade
e o porto de Gustavia deixaram de ter
interesse para a realização de negócios pouco claros. Além disso o
comércio de escravos estava a acabar, tendo a França proibido o comércio em
1794 e a Inglaterra em 1807, sendo os barcos dos negreiros confiscados pela
marinha inglesa a partir desta data.
A casa real dinamarquesa foi também obrigada a proibir o comércio de
escravos. Esta medida teve efeitos contraditórios e foi a última tábua de
salvação dos negreiros suecos e dinamarqueses. Em março de 1792 saiu o decreto
do governo dinamarquês a proibir o comércio de escravos a partir do 1 de
Janeiro de 1803, o que deu origem a uma revolta dos donos de plantações nas
ilhas dinamarquesas. Para evitar este problema a coroa dinamarquesa decidiu
dar empréstimos a juros muito baixos para os donos das plantações poderem
comprar grande número de escravos antes da lei contra a escravatura entrar em
vigor. O resultado foi uma grande compra de escravos num curto período de
tempo, negócio que foi feito por negreiros suecos e dinamarqueses. Mas, apesar
disto o comércio em Saint Barthélemy começou a cair até desaparecer quase
completamente.
O último golpe
veio em 1831 quando a Inglaterra abriu os seus portos nas Índias Ocidentais aos
barcos americanos. A redução de lucros que veio daí, originou pela parte da
coroa sueca a decisão de vender a ilha de Saint Barthélemy, que veio mais tarde
a voltar para a posse da França.
Antes da venda
ser efetuada foi feito um plebiscito entre os habitantes sobre a preferência de
a ilha ser sueca ou francesa. Este plebiscito foi certamente para a história
como um resultado único. Todos os habitantes menos um votaram pela França. Assim
ficou demonstrado que a propaganda de que os habitantes tinham um amor pela
Suécia e a casa real sueca era uma mentira total.
O plebiscito foi
o fim da história das possessões coloniais suecas nas índias ocidentais. Em 16
de Março de 1878 a
ilha de Saint Barthélemy voltou a ser francesa, 94 anos depois de a Suécia a
ter comprado.
O racismo e o
comércio de escravos.
Os efeitos do comércio de escravos e do comércio do triangulo nos países
europeus e africanos e mais tarde nos países no continente americano, põem
questões importantes sobre a natureza dos contatos entre as pessoas aí
existentes. De que maneira se viam as pessoas de diferentes continentes umas as
outras? Como era o contacto entre negros e brancos e mais tarde entre estes e
os índios no continente americano? Sem nos aprofundarmos no tema, o que requereria uma explicação extensa fora das possibilidades deste texto, podemos
no entanto fazer algumas apreciações históricas.
Os primeiros contatos entre os europeus e os africanos, feitos pelos
portugueses, foram principalmente a caça ao homem, a caça aos escravos
impulsionada pela sede da riqueza.
Os portugueses começaram por roubar e saquear, mas quando os reis
portugueses encontraram os seus irmãos de classe na África começaram a
comercializar com esses reis africanos num intercâmbio entre partes iguais. As
classes dominantes branca e negra viam-se uma à outra mais ou menos da mesma
maneira, uma mistura de curiosidade e medo e ao mesmo tempo uma oportunidade de
fazer bons negócios e aumentar a sua riqueza. A classe inferior nos dois
continentes era para ambas as classes dominantes, o que sempre tinham sido
simples atributos de trabalho. No início dos contatos entre portugueses e
africanos ao sul do deserto do Saará o racismo era uma ideia desconhecida.
Com passar dos tempos e depois de muitos anos de comércio de escravos a
maneira como os europeus viam os africanos modificou-se totalmente. Uma
mentalidade de gente dominante cresceu entre os brancos e os negros deixaram de
ser considerados como pessoas. O comércio de escravos foi a causa desta
transformação impulsionada, por um lado pela caça ao homem na África e por
outro pelo interesse comercial dos europeus e a tentação dos grandes lucros.
Vejamos o que significava isto na África. O reis e chefes negros que tinham
começado a vender escravos aos europeus em troca de mercadorias europeias, eram
no início deste comércio, senhores altivos que dominavam sociedades estáveis e
com um certo bem estar. Mas para poderem continuar a mostrar o luxo que as
mercadorias europeias davam às suas cortes, eram obrigados a vender aos
europeus cada vez maior número de escravos.
Este gênero de venda de escravos sem limites fez com que as sociedades africanas se tornassem instáveis e os seus reis e chefes cada vez mais
dependentes dos europeus.
Quando os europeus começaram a vender arcabuzes aos reis e chefes africanos
este problema aumentou de maneira notável. Adquirir este tipo de arma,
dominante sobre armas tradicionais, tornou-se uma necessidade imperiosa, tanto para
a caça aos escravos como para a própria defesa, e isto também, porque os
europeus faziam ativamente intrigas políticas entre os reis africanos para
provocarem novas guerras que poderiam resultar em muitos prisioneiros, os quais
os europeus poderiam comprar como escravos. A igreja cristã estava sempre
comprometida com este tipo de provocação às guerras, e como sempre era um dos
apoios principais das casas reais europeias. Deixemos aqui dois exemplos de como
este processo criminoso era feito.
O primeiro vem do reino do Congo, um reino aproximadamente do mesmo tamanho
que o reino de Portugal, com o qual os portugueses estabeleceram contatos em
1482 quando as caravelas chegaram ao estuário do rio Congo. Passado anos, em
1506, o reino do Congo tinha um monarca de nome mani-congo Nzinga Mbemba o qual
em 1490 depois de ter estado em contato com os portugueses se tinha convertido a fé cristã e mudado o nome para Dom Afonso. Este rei Dom Afonso reinou durante
quarenta anos.
Em Portugal estão arquivadas as cartas entre os reis de Portugal e o rei
Dom Afonso, sendo por isso as relações entre estes reis bem conhecidas. Estas
relações começaram com o comércio e com ajuda portuguesa em caso de guerra. O
pagamento de Dom Afonso aos portugueses eram com mercadorias africanas e um número
reduzido de escravos. Um grande rei como o mani-congo que enviava alguns
escravos a outro rei, seu igual, não era nada de especial, era uma parte da
tradição.
As cartas entre os reis mostram que existia uma igualdade de trato entre o irmão real em Portugal e o todo poderoso rei mani-congo. Mas
Dom Afonso não podia prever as consequências que o comércio de escravos iria
produzir. Nessa altura iniciou-se um processo no qual os chefes locais do país
de Dom Afonso ganhavam enormes riquezas, aumentando assim o comércio de
escravos até chegar a um ponto onde já estava fora de qualquer controle. A fé
cristã dos portugueses não ajudou o irmão cristão no Congo.
Os pedidos de ajuda que Dom Afonso enviou por carta ao rei de Portugal, para
acabar com o comércio de escravos e desenvolver o país com técnica europeia
nunca receberam resposta. Dom Afonso foi inclusive obrigado a criticar
padres e missionários, pedindo que não comprassem tantos escravos e ”vendo o seu devassamento, por amor de nosso
senhor Jesus Cristo que, se comprassem algumas peças (negros), que fossem
escravos e que não comprassem nenhuma mulher, por não darem mau exemplo nem
fazerem o rei ficar em mentira com sua gente”. Isto referia-se ao voto de
castidade que os padres e missionários não respeitavam ao contrário do que Dom
Afonso tinha ensinado ao seu povo. Para não serem descobertos no seu pecado e
crime os padres ameaçavam com a excomunhão a quem relatasse o que se estava a
passar.
Durante muitos anos os comerciantes de escravos portugueses continuaram a
escravizar todas as pessoas que conseguiam raptar no Congo, inclusive
jovens pertencentes casa real consulesa, que eram enviados para Portugal para
estudar para padre ou outras profissões, e que em vez disso, eram vendidos como
escravos. A ajuda técnica de Portugal ao Congo nunca foi dada, sendo as únicas
mercadorias que os congeles receberam de Portugal produtos de consumo que
depois de consumidos obrigavam a compra de mais e novos produtos, sempre pagos com
mais escravos.
No ano de 1526, Dom Afonso fez uma tentativa para restabelecer o controle do
comércio de escravos com o fim de diminuir ou mesmo acabar com o comércio.
Dom Afonso escreveu, a este respeito, uma carta ao rei de Portugal na qual
denunciava os comerciantes portugueses como ladrões sem consciência que
aprisionavam os filhos e filhas da terra de tal maneira que, ”a nossa terra se despovoa toda”. E Dom
Afonso continua:
”E para isto evitarmos, não temos
necessidade desses Reinos mais que de padres e algumas poucas pessoas para
ensinarem nas escolas, nem menos de nenhumas mercadorias, somente vinho e farinha
para o Santo Sacramento, por que pedimos a vossa alteza nos queira ajudar e
favorecer neste caso. Em mandar a seus feitores que não mandem cá mercadores
nem mercadorias, porque nossa vontade é que nestes Reinos (do Congo) não haja
trato de escravos nem saída para eles”.
Mas o comércio de escravos era uma importante receita para os reis
portugueses e foi em vão que Dom Afonso tentou pôr fim a estas transações. O
comércio de escravos continuou a aumentar, e nos fins de 1540 quando Dom Afonso
morreu, o Congo tinha-se transformado numa sociedade em decadência.
Foi a esta altura que os portugueses pela primeira vez começaram a fazer
planos para ocupar o país com uma invasão militar.
Para esse efeito era necessário acabar com o sistema de vassalagens e
alianças que existiam entre os países na região do Congo e, em especial separar
o Congo do seu aliado e vassalo ao sul, o rei Dongo que tinha o titulo de Ngola
(de onde vem o nome Angola).
Romper alianças fortes feitas pela tradição não era missão fácil, sendo os
encarregados de o fazer, os padres jesuítas que se tinham estabelecido na ilha
de São Tomé com grandes plantações de cana de açúcar a custa do trabalho de
escravos. Os jesuítas eram também grandes comerciantes de escravos, sendo a ilha
o maior depósito de escravos para exportação de toda a costa ocidental
africana.
Os padres jesuítas de São Tomé trabalhavam para si próprios, esperando com
a quebra do poder do monarca do Congo um aumento substancial da venda de
escravos e de lucros.
Através de intrigas conseguiram que o Ngola em Dongo cortasse relações com
o mani-congo no ano de 1556. O mani-congo não podia permitir este corte de
relações que lhe diminuía o prestigio na região enviou um exército para
submeter Ngola. Era o que os jesuítas pretendiam. O Congo era um país em
total decadência e o seu exército estava fraco, longe de ser o que tinha sido
em tempos antigos quando podia pôr em campo 80.000 soldados bem armados e
equipados. O exército do Ngola ganhou a guerra e o poder do Congo ficou para
sempre perdido. Aproveitando esta ocasião, os portugueses instalaram-se pela
primeira vez no continente africano com uma força militar.
Passado nove anos os portugueses venceram o resto do exército do
mani-congo e iniciaram a ocupação de toda a costa africana ao sul do rio Congo.
Foi uma guerra suja e prolongada contra vários reis, onde os canhões e as
espingardas modernas juntamente com os padres e os missionários foram os
instrumentos para matar, intrigar, desestabilizar e conquistar. Mani-Congo e
outros reis e chefes vencidos pelos portugueses, conservaram os seus postos
depois destas guerras mas desprovidos de poder, somente como marionetes dos
portugueses.
As consequências da vitória portuguesa foram enormes e terríveis, foi um
saque e um morticínio sem limites. No ano de 1576 numa carta do padre jesuíta
Garcia Simões, um comerciante de escravos que no passado tinha comprado
escravos ao mani-congo Dom Álvaro, lamentava-se este pelo grande número de
mortos entre os escravos, mais de 30% o que reduzia o lucro esperado. Mas
apesar disso exportaram-se desta região durante os próximos 120 anos, até ao
ano 1680 mais de 1,5 milhões de escravos!
A soma de todos os escravos que vivos foram levados desta região está hoje
avaliada em mais de 5 milhões de pessoas o que é um pouco mais que a população
de Angola por volta de 1960.
Brutalidade e humilhações foram impostas às populações negras, aumentando
sempre os maus tratos com os anos. Foi desta maneira que o pensamento racista
de ser dominante se foi implantando no homem branco.
A costa oriental
africana e os portugueses.
O caminho marítimo para as Índias foi estabelecido pelos portugueses ao mesmo
tempo que os acontecimentos dramáticos no Congo davam origem à total decadência
do país. A primeira viagem de Vasco da Gama iniciou-se em 1497, passando o Cabo
da Boa Esperança no sul da África em dezembro de 1497, a costa oriental
africana em 1498 para chegar finalmente a Calcutá em 20 de Maio de 1498. À casa real portuguesa foi então dada,
através de uma bula papal, o monopólio das ligações à Índia por mar. Ao
fazer o reconhecimento da região para o relatório a enviar ao rei de Portugal,
Vasco da Gama encontrou cidades na costa oriental africana, cujas casas eram
construidas em pedra e com portos cheios de barcos de mercadores e cidades que
eram dominantes a muitas das cidades europeias desse tempo no que diz respeito
ao bem estar da população. Essas cidades, entre elas Kilwa, Mombassa, Zanzibar,
Brava, Quelimane e outras, eram o produto de muitos anos de intercambio
comercial e cultural entre africanos, árabes, indianos e até mesmo mercadores
provenientes da China.
No ano de 1502 Vasco da Gama regressou à costa oriental da África. Desta
vez trazia ordens do rei de Portugal para tomar conta de todo o comércio desta
região, não permitindo a mais nenhum mercador comprar as mercadorias das índias,
dos árabes e dos africanos, estabelecendo assim um completo monopólio português, desta forma estava estipulado na bula papal que o rei de Portugal tinha obtido.
Em primeiro lugar vinham as mercadorias e especiarias da Índia que o rei de
Portugal queria para vender na Europa. A missão de Vasco da Gama era a de
submeter todas cidades importantes e centros de civilização na costa oriental africana e tomar o poder na Índia.
Os portugueses sob o comando de Vasco da Gama foram de uma barbaridade sem limites. Possuidores de armas muito mais avançadas, utilizaram canhões e armas
de fogo para destruir e submeter as cidades na África oriental e na costa da Índía.
Quando Vasco da Gama chegou à Índia na sua segunda viagem, impôs um
ultimato ao príncipe de Calcutá, exigindo que este pusesse fim a todas as
relações comerciais com os mercadores árabes e que estes fossem expulsos da
cidade.
O príncipe de Calcutá fez uma tentativa para negociar mas Vasco da Gama
exigia total submissão. Os portugueses aprisionaram no porto uma quantidade de
pessoas que levaram para os barcos onde foram todos mortos e cortados aos
pedaços sendo as partes dos corpos penduradas nos mastros dos barcos de Vasco da
Gama. Uma parte dos pedaços dos corpos dos assassinados foram, por ordem de
Vasco da Gama, metidos num saco e enviados ao príncipe de Calcutá com a mensagem
de que era para o príncipe fazer arroz de caril.
Árabes e indianos tinham estabelecido relações comerciais civilizadas a mais
de 1400 anos e uma tal violência era totalmente desconhecida. Nos seguintes dez
anos os portugueses utilizaram-se dos métodos mais brutais numa agressão sem
limites e destruíram cidades que tinham levado centenas de anos para construir.
A conquista de Kilwa.
A discrição da conquista de Kilwa, uma pérola africana no oceano Índico,
pode ficar como testemunho da violência dos portugueses. O sangrento massacre
de Kilwa foi feito por um dos seguidores de Vasco da Gama, o almirante
Francisco de Almeida. A esquadra de Almeida entrou no porto de Kilwa e ocupou
toda a zona portuária sem encontrar nenhuma oposição da parte dos habitantes
espantados com tantos soldados. Atrás dos soldados vinham os padres e os frades
franciscanos com uma grande cruz em procissão cantando um Te Deum. À frente do
palácio do rei de Kilwa foi elevada a cruz e o almirante Almeida leu em seguida
uma série de orações para os soldados, padres e frades.
Quando as orações terminaram começou o saque de Kilwa onde foram roubadas
todas as riquezas e alimentos, sendo os habitantes que não conseguiram fugir
vítimas de uma violência sem limites com a pena de imediata decapitação para
todos os que opusessem a mínima resistência. Passados dois dias de saque os
portugueses deitaram fogo na cidade. Este ataque bárbaro, assim como outros
saques e morticínio na África e na Índia, era considerado pelos saqueadores
portugueses como um ato totalmente legal. No fim das contas tinha sido o
próprio papa que deu a autorização, e os portugueses tinham mesmo
antecipadamente já recebido o perdão por todos os pecados cometidos.
Os portugueses ganharam a guerra e açambarcaram o comércio das mercadorias
no oceano Índico, alegria que pouco durou, uma vez que a guerra provocou o
colapso e desaparecimento do desejado comércio. Depois desta catástrofe os
portugueses foram incapazes de iniciar de novo o comércio de mercadorias e as
cidades e civilizações na costa oriental africana caíram em decadência, muitos
dos seus habitantes desapareceram no comércio de escravos para o continente
americano. Os europeus de diferentes países que depois de muitos anos novamente
invadiram esta região, não encontraram restos da civilização passada e fizeram
um juízo dos seus habitantes como sendo seres incivilizados e inferiores. As
causa desta falta de provas de civilização nunca interessaram aos colonialistas
europeus.
A classe dominante
europeia e o racismo.
A primeira casa real europeia que saiu pelos mares à caça de escravos foi a
portuguesa. Logo depois estavam todas as outras vindo de Espanha, Holanda,
Inglaterra, França, Alemanha, Dinamarka e Suécia com grandes investimentos no
comércio com a África que quase na totalidade era o comércio de escravos.
As casas reais europeias e outras instituições poderosas, como a igreja
cristã, exigiam o pagamento dos lucros sobre os investimentos o que significava
um aumento constante do comércio de escravos aumentando sempre o número de
barcos negreiros que cruzavam o oceano Atlântico e mais tarde também o Índico.
A caça aos negros na África aumentou de uma maneira enorme, causando uma
catástrofe social sem limites nas sociedades africanas. Ao mesmo tempo os
investidores europeus ficavam riquíssimos.
Enfrentando a história do comércio de escravos hoje, podemos ser levados a
pensar que tudo o que aconteceu fez-se sem problemas para os que detinham o
poder nos países europeus, que a classe dominante na Europa não encontrou resistência contra o comércio de escravos entre os povos europeus. Esta visão
da história não corresponde há realidade.
A concepção de que os brancos como grupo se uniam contra os negros, a
concepção de que na Europa não existia oposição ao comércio de escravos é
geralmente aceita, mas na realidade é totalmente falsa. Esta concepção é um
produto do que nos fazem aprender nos livros escolares.
Em que país que no passado se dedicava ao comércio de escravos, existem
hoje livros escolares que de uma maneira justa contam esta história terrível?
Quando dão ao comércio de escravos a importância central que teve desde o ano
1500 até ao fim de 1800 durante o desenvolvimento da sociedade capitalista em
que vivemos hoje? Hoje em dia o comércio de escravos só é normalmente referido
em pequenas observações como tratando-se de um pequeno acontecimento sem
importância.
Em Portugal tem-se, por exemplo, festejado nos últimos anos os 500 anos dos
chamados ”descobrimentos” portugueses. Tem havido festas, discursos,
conferencias, exposições, livros novos sobre o tema, etc. Padres, doutores e
professores participam em debates e palestras e escrevem artigos nos jornais. Mas do comércio de escravos quase nunca se fala, e quando é
referido e como se se tratasse de um fenômeno sem importância e sem consequenciais para a sociedade em que vivemos hoje.
Qual é então o conhecimento que o povo português nestas comemorações obtém
sobre os acontecimentos na África durante esses 500 anos? Um conhecimento
histórico totalmente falso!
Da mesma maneira é o comércio de escravos tratado pelos governantes de
todas os países europeus. A classe dominante hoje existente é a herdeira
cultural da classe dos comerciantes de escravos do passado, e por isso tudo faz
para esconder a verdade ao povo, quer dizer a nós próprios. Há que ter cuidado
de não ir nas mentiras da classe dominante e investigar qual é a verdade sobre
o passado. Há que ter cuidado com os que nos querem fazer acreditar que todas
as pessoas na Europa tinham um interesse comum no comércio de escravos, que
todos são culpados pelos crimes contra os povos da África.
A Europa na idade média era uma sociedade de classes onde existiam
diferentes ideias e concepções sobre o desenvolvimento social, ideias e
concepções essas dependentes da origem de classe. A razão porque nós hoje só
conhecemos a concepção da classe dominante do passado, também a respeito ao
comércio de escravos, é que a classe dominante de então tinha todos os meios e
poderes necessários para propagar a sua ideologia e opiniões, e faze-las impor na sociedade. Ao seu serviço tinham policias, padres, militares, prisões, juízes
e propagandistas de todos os tipos, enfim, tudo o que fazia parte do poder
estatal. Tudo isto dominou a sociedade durante muitos anos e deixou uma herança
funesta.
Mas na realidade existiam também os que eram contra o comércio de escravos
e contra a opressão que dominava na Europa. Essas pessoas tinham poucas
possibilidades de dar a conhecer as suas opiniões e foram esquecidas na
investigação histórica, sendo hoje um capitulo desconhecido do público em geral.
Até mesmo na classe dominante do passado, entre a nobreza e o clero, existiram
pessoas que se opuseram a guerra e ao comércio de escravos na África, e que
desta maneira foram contra o seu interesse de classe.
Ao contrário do povo, que era analfabeto e por isso mesmo não nos deixou as
suas opiniões, a não ser em passagens nos contos da classe dominante, os
oponentes provenientes da classe dominante, embora também muitas vezes
analfabetos, tinham a possibilidade de mandar escrever as suas opiniões e
pareceres o que nos chega até hoje. Deixemos aqui um exemplo, talvez um dos
primeiros opositores contra a matança que as classes dominantes europeias estavam
a fazer na África, o seu nome era Infante D. João, sobrinho do Infante D.
Henrique. O escrivão Rui de Pina foi encarregado de escrever as opiniões do
Infante D. João sobre a guerra que os portugueses faziam contra os mouros na
África, para onde a nobreza enviava os seus chefes e tropas em oposição ao povo
português que não queria deixar as suas casas e quintas.
O Infante D. João pensava que se a guerra era ao serviço de Deus ”todos não iriam com tal intenção que uns
por honra, outros riqueza e ganancia, besteiros, peõs e tôda outra gente, vão
renegando, ainda que lhe preze; e quem mata Mouro com tal intenção não peca
menos que matar Cristão; pois que serviço de Deus é dar tantas almas ao demo?
Certamente mais se pode dizer desserviço que serviço”. Sem dúvida é este
testemunho de muito interesse e só é pena hoje não sabermos o que pensavam o
povo trabalhador que não queriam deixar as suas casas para ir fazer a guerra na
África.
A classe no poder combatia toda a oposição e utilizava o aparelho de estado
para fazer propaganda das suas opiniões. Por esta razão é muito importante
conhecer o papel que estes propagandistas das classes dominantes tiveram no
aparecimento do racismo. Esses propagandistas, que eram dirigidos diretamente
pelas casas reais e pela oligarquia financeira, encontravam-se entre os
professores nas escolas e universidades e nos prelados da igreja cristã, de
onde os preconceitos racistas se espalhavam com uma capa científica e moral.
A igreja
cristã espalha o racismo
Uma das primeiras fontes que por escrito e com imagens descreveu a vida na
África aos europeus, é um livro do frade Cavazzi, um missionário italiano da
ordem dos Capuchinhos, publicado em Bolonha em 1687.
No seu livro, o frade Cavazzi dá a sua aprovação a todas fantasias e
preconceitos que dos tempos longínquos existiam na Europa sobre o continente africano e aumenta inclusivamente essas falsidades. Por exemplo, conta o frade
Cavazzi com todos os pormenores como os africanos são gente que gosta de carne
humana e inclui também um desenho com uma cena de canibalismo em que se vê um
grupo de africanos a cortar pessoas aos pedaços que são postos a cozer numa
panela enorme para a refeição.
Além disso conta-nos o frade Cavazzi que os africanos são gente sempre
envolvida em guerras com muitos mortos. O frade Cavazzi escreve que: ”A dança, entre estes bárbaros, não tem
qualquer motivação no talento virtuoso de exibir movimentos corporais ou agilidade de pés, mas apenas objetivos de satisfação depravada de apetites
libidinosos”.
É fácil de compreender o impacto negativo que um livro destes teve na
Europa do passado.
Mas na realidade o padre Cavazzi não foi o primeiro a fazer tal propaganda.
Os primeiros que desde o início foram os propagandistas do racismo e do
comércio de escravos foram os papas no Vaticano. Como já contámos foram os
papas, que utilizando a sua grande autoridade moral, através das bulas, deram
os direitos à classe dominante da Europa de na África ”atacar, conquistar e submeter sarracenos, pagãos e outros descrentes
inimigos de Cristo; a capturar os seus bens e territórios; a reduzi-los à
escravatura perpétua”. Além disso os papas deram a todos os que
participavam nas guerras e conquistas na África ”a absolvição total de todos os seus pecados” passados e futuros!
Talvez pense o leitor que este tipo de decreto papal foi somente feito por
papas no anos de 1400. Mas não foi assim. Antes de todas as guerras,
saques e massacres, as chamadas conquistas portuguesas, os papas voltaram
a repetir a ”absolvição de todos os
pecados” que fossem cometidos. Estas declarações marcaram as ações de
padres, frades, militares e todos os outros europeus na África e pelo mundo
fora durante séculos. Na realidade nenhum dos cinquenta e seis papas que
existiram de 1947 até hoje, anulou ou pelo menos criticou as bula papais que
fizeram do homem negro da África um objeto de caça que se podia matar ou
condenar a escravatura perpétua. Na realidade, se considerarmos as formalidades
da igreja cristã, ainda hoje essa bulas criminosas são válidas!
No passado as declarações dos papas tinham uma importância muito grande nos
conceitos e ideologias dos europeus. Mas a importância das declarações dos
papas na vida e atividades dos religiosos na África e na sua maneira de considerar
os africanos eram ainda mais importante. Quem estudar a verdadeira história da
África vai encontrar uma história das atividades das igrejas e os missionários
que é completamente diferente da história que as igrejas hoje pretendem
impingir.
Os padres e frades andaram sempre de mão dadas com os saqueadores
conquistadores e tiveram sempre os mesmos preconceitos raciais que estes
tinham. Entre os religiosos na África existia desde o principio dos anos 1500 a concepção geral de
que a ”melhor pregação” era feita com
”a espada e a barra de ferro”.
Assim explicava numa carta em 1563, o padre jesuíta Anchieta que em 1980
foi beatificado, declarado santo, pelo papa João Paulo II, os métodos que os
religiosos no Brasil utilizavam contra os índios. O santo Anchieta escrevia que
”…para este gênero de gente não há melhor
pregação do que a espada e vara de ferro, porque para esta gente, mais que
qualquer outra, tem que ser compelle eos intrare”. Anchieta faz aqui uma
citação da bíblia, Lucas XIV 23 – compelle
eos intrare – significa obrigar as pessoas a entrar, obrigar as pessoas a
converterem-se à igreja cristã.
A missão das igrejas cristãs na África
O padre jesuíta Garcia Simões escreveu de Luanda ao Provincial jesuíta, a
20 de Outubro de 1575 dizendo que em Angola ”quase
todos concordam que a conversão destes bárbaros não se alcançará por amor,
senão que só depois que por armas forem sujeitos a vassalos do Rei Nosso
Senhor”. Um outro jesuíta, o padre Francisco de Gouveia, escreveu que ”estes selvagens bárbaros não podem ser
convertidos por métodos de persuasão pacífica… O cristianismo em Angola deve
ser imposto pela força”.
Na realidade estes conceitos racistas marcam as atitudes dos missionários
cristãos em todo o mundo, com exceção dos países em que os colonizadores não
tinham o poder militar nas suas mãos. Na Índia, por exemplo, os padres e frades
utilizaram os mesmos métodos violentos na África para converter as pessoas ao
cristianismo. A opressão religiosa contra hinduístas, budistas e muçulmanos
quando os cristão conseguiram a supermacia militar é uma história
impressionante de violencia, opreção e racismo. O melhor de todos os cristãos,
o santo Francisco Xavier, cujo mausoléu grandioso ainda hoje se encontra
guardado na igreja de Bom Jesus em Goa, tinha um método especial para converter
os pescadores que habitavam na sua jurisdição. Todos os que não se convertiam
ao cristianismo eram ameaçados com violência física e, o que ainda era pior,
eram-lhes tirada a autorização de pescar e vender peixe, ou seja, ficavam sem
sustento.
O racismo dos padres contra as pessoas negras na África marcou todo o período do comércio de escravos e o tempo do colonialismo que se seguiu. O
racismo e o tratamento repugnante que davam às pessoas negras, aumentou com o
deterioramento da estrutura social pelo comércio de escravos que deixava as
pessoas sem proteção.
No Congo teve este racismo religioso consequenciais improcedentes. Quando os
portugueses começaram a se infiltrar no Congo e Angola, os missionários eram pagos,
de maneira muito generosa, pelo mani-congo, o rei do Congo. Mas com o decorrer
dos tempos e o deterioramento da sociedade consulesa, o Congo foi obrigado a
aceitar uma quantidade muito maior de missionários. No fim dos anos 1700 já não
havia dinheiro que chegasse para pagar a todos estes padres parasitas. Mas os
padres não desistiram. Arranjaram um sistema em que eram pagos diretamente
pelos negreiros, sendo todos os negreiros obrigados a pagar um ”imposto de
batismo” aos padres por todos os presos que metiam nos navios negreiros. Além
disso, o Bispo de Luanda cobrava um ”imposto de batismo” pessoal por cada
preso!
Os padres tinham por isso interesse pessoal no aumento do comércio de
escravos. Quanto mais pessoas se vendiam, tanto maior era o pago dos padres.
Aqui está a verdadeira imagem da missão cristã. Claro está que estes parasitas
defendiam a sua atitude nos contatos que tinham com a Europa falando dos
africanos como seres de condição baixa, os padres tornaram-se num dos melhores
aliados das classes dominantes para espalhar as ideias racistas.
Até aqui temos falado da igreja cristã sem fazer diferença entre católicos
e protestantes, sendo as questões levantadas, na sua maioria, de origem
católica. Assim foi porque os portugueses católicos foram os primeiros a chegar
na África e são esses primeiros caçadores de seres humanos que nós temos
descrito.
Mas na realidade a diferença entre as duas partes da igreja cristã no que
diz respeito às opiniões racistas dos padres e missionários e o tratamento que
davam aos africanos, não era grande. Em princípio era na questão da existência
da alma que católicos e protestantes se diferenciavam. Os católicos
consideravam as pessoas negras como pessoas subdesenvolvidas, mas com alma, que
por causas biológicas associadas à cor negra da pele, não podiam tornar-se
pessoas verdadeiras, ou seja, pessoas brancas. Os protestantes consideravam
que as pessoas negras não tinham alma e que portanto na realidade eram como
animais com parecer humana.
Na prática esta diferença pouca importância tinha, porque tanto católicos
como protestantes tratavam as pessoas negras pior do que os seus animais.
Mas às vezes, em questões relativas à sociedade burguesa, tomava a questão
da existência ou não existência da alma uma importância definitiva em juízos de caráter econômico. Isto acontecia, quando por exemplo, os escravos vivos eram
atirados ao mar dos barcos de negreiros, muitas vezes às centenas em caso de
doença ou quando era preciso diminuir a carga do navio em avarias graves ou mar
bravo. Nos processos jurídicos que se seguiam sobre a indenização econômica
pela carga viva perdida, a questão da alma tinha uma importância vital.
A questão, segundo os contratos de seguro era a seguinte. Se os escravos
não tinham alma eram a considerar como uma mercadoria qualquer. Eram atirados
ao mar, mortos ou vivos e o prejuízo era do armador. Mas se os escravos tinham
alma então eram considerados como pessoas o problema era diferente. Se eles
morressem a bordo, o seu valor humano estava acabado e não dava direito à indenização do seguro, mas se fossem atirados ao mar vivos, eram pessoas que
se perdiam, o que dava direito a indenização do seguro. Claro que a última
possibilidade era caso de assassinatos mas juridicamente legal.
A conclusão é que os armadores, tanto católicos como protestantes, lutavam
em tribunais para que fosse reconhecido a concepção católica, de que as pessoas
negras eram pessoas verdadeiras com alma. Se o tribunal aceitasse esta
concepção, os armadores recebiam a indenização do seguro pelos africanos
atirados ao mar. Do outro lado da barra lutavam os capitalistas
de seguros, católicos e protestantes, para que o tribunal considerasse as
pessoas negras como não tendo alma, como animais de pareceres humana para não
terem que pagar o dinheiro do seguro.
Mas dos africanos assassinados ninguém se importava, nem armadores ou
seguradores, católicos ou protestantes, ou mesmo a própria justiça na Europa
civilizada. Não esqueçamos que tudo isto teve lugar na Europa de1700 e 1800.
Esta era a situação dos africanos raptados, presos e escravizados nas mãos dos
lacaios da classe dominante europeia.
Todos estes acontecimentos não impediam os padres de aprovar a escravatura
e considera-la positiva. Assim o fez por escrito o padre protestante Thomas
Thompson em 1778 num panfleto com o titulo ”The
Áfrican Trade for Negro Slaves Shown to be Consistent with the Principles of
Humanity and the Laws of Revealed Religion” – ”O comércio Áfricano de escravos
negros demonstra-se ser compatível com os princípios de humanidade e as leis da
relegião verdadeira”. Thompson foi um dos primeiros professores europeus na
Costa da Guiné e sabia muito bem o que lá se passava. Não é difícil de compreender que tipo de interesse este Thompson tinha no comércio de escravos.
Um outro exemplo, vindo dos cristãos protestantes na África nos anos de
1600 e que tem consequenciais até aos dias de hoje, é também importante
conhecer.
No ano de 1652 a
Companhia Holandesa da Ásia Oriental deixou um grupo de homens no extremo sul
da África, perto do Cabo da Boa Esperança, para aí construirem uma estação de
reabastecimento para os barcos da Companhia na rota para o Extremo Oriente. O
trabalho desses homens era plantar vegetais e produzir carne para as
tripulações dos barcos nessa rota. O grupo era relativamente pequeno mas foi
sempre crescendo com a chegada de novos colonos, e a pequena colônia da
cidade do Cabo tornou-se com o tempo numa expansiva colônia autônoma de
camponeses. Os habitantes, que eram profundamente religiosos, conservadores e
confessos da igreja protestante holandesa, deixaram de se chamar holandeses e
passaram a usar o nome de Boers.
Estes Boers resolveram o problema do aumento necessário da força de
trabalho reduzindo à escravidão os povos
africanos Bushman, Nana e outros, com quem tinham feito contatos durante a
expansão da colônia para o interior. Os Boers tinham armas modernas,
espingardas e canhões e não excitavam em as utilizar para subjugar os africanos.
Escravizar outros povos era, segundo os Boers, um direito que lhes tinha
sido dado na Bíblia, no conto dos filhos de Ham, do qual se concluía que todos
os Boers tinham recebido de Deus o direito de ter escravos como força de
trabalho.
O conto dos filhos de Ham está na Biblia no primeiro livro de Moisés,
capitulo nove, 18 e seguintes. O conto resume-se ao seguinte. Ham, um dos
filhos de Noé, tinha uma vez visto o seu pai nu e embriagado no chão da sua
tenda. Quando Noé já sóbrio veio a saber que o filho o tinha visto nesse
estado, castigou Ham com uma maldição em que todos os descendentes de Ham
estavam condenados a ser escravos.
Este conto bíblico tem sido utilizado muitas vezes pelos cristãos em
diferentes ocasiões históricas para explicar a existência da escravatura ou a
existência das grandes massas que são obrigadas a viver uma vida na miséria.
São os descendentes dos filhos de Ham!
Para nós, que não acreditamos nos fetichismos religiosos, este conto dos
filhos do Ham é totalmente inaceitável. Mas para os Boers com a sua fé na
Bíblia, era evidente que as pessoas negras tinham um valor inferior aos brancos
e que tinham sido postas por Deus na África para servir os brancos quando eles
aí chegassem!
Nas cores simbólicas da igreja cristã o negro sempre foi e ainda é
relacionado com o inferno, morte, pecado, maldade, traição, sujidade,
decadência, feio e muitas outras particularidades negativas.
A concepção dos Boers sobre as pessoas das regiões por eles conquistadas
era um produto de tudo isto. Em tempo moderno explicavam a escravatura dizendo
que ”essa gente trabalha para nós para
pagar por os deixarmos viver na nossa
terra”. Este conceito espalhou-se na África do Sul onde os europeus tinham
o poder e existe ainda hoje em muitos lugares.
Durante os aos de 1800 os ingleses proibiram a escravatura na colônia do
Cabo e os Boers foram obrigados a relacionarem-se com as pessoas negras de
outra maneira. Já não era permitido ter as pessoas negras como escravos, mas a
exploração, por outro lado, podia continuar. Eram necessárias teorias novas que
pudessem justificar uma forma nova de exploração.
Os Boers da igreja protestante holandesa começaram então a fazer propaganda
para que os brancos e os negros vivessem separados. Os Boers diziam agora que
se Deus tinha feito pessoas brancas e negras era para que elas vivessem
separadas. Se Deus quisesse que todos vivessem juntos tinha feito todos da
mesma cor.
Com este tipo de conceito os Boers ganharam adeptos na sociedade branca na
África do Sul para dividir o país numa
parte branca e numa parte negra – o Apartheid. A parte negra servia como um
grande campo de concentração, como um depósito de força de trabalho a utilizar
pela sociedade branca. Durante centenas de anos o fanatismo cristão que aprovou
a escravatura e o apartheid, teve um efeito terrível e desastroso na vida de
milhões e milhões de pessoas na África do Sul.
Abolição
da escravatura e ocupação militar da África
Durante os primeiros anos de 1800, a opinião pública e o movimento organizado contra o comércio de escravos e a escravatura começaram a tornar-se
fortes e a ter importância política em vários países da Europa. A opinião que crescia tinha como causa principal o fato de que o verdadeiro tamanho do
comércio de escravos e a maneira miserável como era feito começou nessa altura
a ser amplamente conhecido nos países europeus. Tudo começou nos fins de 1700
na Inglaterra, país que dominava o comércio de escravos. Homens e mulheres
corajosos e decididos opunham-se aos negreiros, mostravam a verdadeira face
desse comércio e conseguiram fazer da libertação dos escravos uma das grandes lutas
políticas do tempo.
Em 1807 a
Inglaterra proibiu finalmente o comércio de escravos em navios britânicos e à
armada britânica foram dadas ordens para abordar os navios negreiros
britânicos, confiscar os barcos e libertar todos os escravos os quais, em geral,
eram levados para Sierra Leone na costa ocidental da África. Pouco tempo depois
a armada britânica passou também a atacar os navios negreiros de todos os
outros países. Como resultado, o comércio de escravos transoceânico diminuiu notavelmente durante o ano de 1800.
A proibição da escravatura foi uma parte do desenvolvimento da sociedade
humana que, por um lado foi muito importante a atividade desenvolvida pelas pessoas
que se dedicaram a combater a escravatura e o comércio de escravos e por outro
lado, a transformação dos processos de produção na maior parte dos países da
Europa exigia um outro sistema social nos países produtores de matérias prima.
Esta grande transformação foi feita em primeiro lugar na Inglaterra, um
país agora industrialisado com grande necessidade de matérias prima e grandes
mercados para vender os seus produtos. O triângulo do comércio com
latifundiários e escravos deixou de ter importância para as novas indústrias na
Inglaterra. Raptar milhões de pessoas, transporta-las pelo Atlântico para
depois as vender, já não era negócio interessante para banqueiros e
capitalistas. O importante era obter matéria prima para as industrias
fabricantes de produtos baratos para vender em todo o mundo. E de onde viriam
as matérias prima?
No início dos anos de 1800
a resposta a esta questão de uma importancia fundamental
para o desenvolvimento dos países europeus, era em grande parte desconhecida.
Agora sabemos que as matérias prima mais importantes existiam na África, mas
nessa altura este conhecimento era quase inexistente.
A exploração da África começou a ser preparada nos fins dos anos de 1700,
em especial pela British African Association formada em 1788 com o fim
específico de investigar o interior do continente africano, desenvolver o comércio
e apoiar a igreja cristã na África. As atividades das missões cristãs começaram
também com a formação da British Church Missionary Society em 1804. A ação missionária
começou nas costas da África, não havendo quase nenhum sítio desconhecido dos
missionários no fim dos anos de 1800.
Os missionários das igrejas cristãs eram na realidade quem maior
conhecimento tinham das pessoas e riquezas no interior da África e também das
matérias primas de interesse para a Europa. Foi através desses missionários que
os capitalistas europeus obtiveram as informações necessárias para alcançar as
fontes de matérias prima. Nessa altura, na segunda metade do século XIX,
começaram a ser preparados em todas as capitais europeias planos imperialistas
para ocupar extensas regiões na África, dando origem a alianças e ameaças de
guerra entre as nações europeias. Tudo era possivel por um pedaço de terra na
África.
Nos fins do século XIX iniciou-se a ocupação da África em grande escala, todos os países europeus queriam os melhores bocados para si mesmos causando
confrontos graves e aventurando toda a empresa imperialista europeia. Nesta
ocasião a invasão do Congo pelo rei da Belgica Leopoldo II, foi determinante
para o futúro da África.
Leopoldo II já tinha obtido várias estações de comércio nas margens do rio
Congo, mas não se dando por satisfeito com a exploração enviou tropas para
ocupar uma região enorme na África Central, o Congo Kinshasa de hoje, como sua
propriedade pessoal. A esta região que era 75 vezes maior que o reino da
Belgica, foi dado o nome de Estado livre do Congo, um país em que não
existiriam fronteiras nem alfândegas para os europeus interessados em aí fazer
negócio.
A ocupação do Estado livre do Congo causou discórdia com outros imperialistas
que exigiam direitos iguais e mostrou a necessidade de um pacto que
establecesse uma determinada ordem no processo imperialista. O ministro de
estado alemão Bismarque tomou então a iniciativa de organizar uma Conferência
dos estados europeus em Berlim em 1884 onde participaram a Inglaterra,
França, Alemanha, Italia, Portugal, Espanha e o rei belga Leopoldo II a título
pessoal.
Um dos resultados da Conferncia foi que o rei Leopoldo II conservou o
Estado livre do Congo como sua propriedade pessoal. A conferencia decidiu
também a divisão da África pelos países representados, o que foi feito com uma
régua em cima do mapa unindo pontos determinados simplesmente por longitude e
latitude sem a mínima consideração dos diferentes povos, nacionalidades,
culturas ou condições geográficas. Em muitas fronteiras entre os estados africanos
ainda hoje se vê a política da régua da Conferência de Berlim. Uma outra
desisão da Conferência foi que nenhum país europeu podia ocupar novas regiões
sem primeiro informar os outros e obter a sua aprovação.
Assim começou a ocupação massiva da África feita por exércitos bem
equipados e armados com armas modernas, vindos de todos os lados, entrando em
todos os países destruindo e eliminando sem piedade qualquer tipo de
oposição. Depois de 400 anos de comércio de escravos a estrutura das sociedades
africanas estava muito fraca em quase todos os lados, e os africanos não tinham
quase nenhumas possibilidades de defender os seus países. O comércio de
escravos não tinha implicado sómente o desaparecimento de pessoas jovens e as
esperanças do desenvolvimento. O comércio de escravos produziu também uma
estagnação no desenvolvimento da produção na África. A causa desta estagnação
foi a monopolização do comércio africano pelos europeus e a consequente
diminuição de produtos africanos, uma vez que pessoas feitas
escravas era só o que os europeus aceitavam nas trocas comerciais.
Depois da ocupação da África, a classe dominante europeia submeteu os povos
africanos a uma exploração e opressão sem precedentes, por vezes pior que o
comércio de escravos. Todos os colonialistas dos países europeus tomaram parte
nesta barbaridade sem terem grandes problemas. E quando dizemos todos os
colonialistas significa todos! Desde as velhinhas belgas com muito boa
educação, dos ingenheiros inglêses com qualificações universitárias, dos
tenentes franceses bem perfumados, dos investigadores alemães de línguas, dos
camponeses senhoriais portuguêses, até aos soldados, polícias, padres e
missionários de todos os países da Europa.
Para dar ao leitor uma visão concreta do que foi a colonização da África,
vou deixar aqui o testemunho do missionário sueco E. V. Sjöblom sobre a sua
estadia no Estado livre do Congo. A citação é longa mas necessária. Veja o
leitor também qual foi a reação de Sjöblom aos acontecimentos que presenciou
relacionados com a recolha obrigatória do caucho, o látex da borracha.
”Continuando o meu caminho fui saudando os
indigenas amigávelmente. Como habitualmente consegui afastar o medo e, pelo
menos em parte, ganhar a sua afecção. Alguns jovens seguiram-me e quando
chegámos ao acampamento já lá estávam um grande grupo de pessoas. Outros
indígenas iam voltando do trabalho de ir buscar cauchu à floresta. Pouco tempo
passado estavam já várias centenas de pessoas reunidas à minha frente.
De repente um dos soldados – também
indígena mas de outra aldeia – agarrou um homem de idade e amarrou-o. O soldado
virou-se para mim e disse:
-
Eu vou matar este homem porque ele não trousse nenhum cauchu.
Eu respondi: Na realidade eu não tenho
nada a vêr com isso e não tenho direito de te impedir. Mas eu desejaria que tu
não o fizesses na minha presença, quando estão tantas pessoas aqui para ouvir a
palavra de Deus.
Ele respondeu: Se nós não matamos os que
vêm sem cauchu, os oficiais do estado livre matam-nos a nós. É melhor matarmos
outros do que sermos mortos.
Assim que ele disse isto, dirigiu-se ao
homem velho como um tigre atiçado. Arrastou-o alguns passos para fora do grupo,
apontou a espingarda à cabeça do homem e matou-o. De seguida pôs outra bala na
espingarda e apontou ao grupo de pessoas que desapareceu rápidamente. Estava
com medo de ser atacado e queria meter medo aos que estavam reunidos.
Durante alguns minutos estivemos todos
calados. O grupo tinha fugido e eu e os meus homens estávmos calados. Em
seguida o soldado mandou um menino de nove anos cortar a mão direita do morto.
Esta mão com muitas outras mãos, que tinham sido decepadas pelo mesmo motivo,
tinham que ser entregues ao comissário como um sinal da vitória da
civilização”.
A razão desta coleção de mãos decepadas é que por cada cartucho utilizado
pelos soldados tinha que ser entregue uma mão direita decepada aos oficiais do
exército do Estado livre do Congo. Nenhuma bala podia desaparecer, todas tinham
que ter um equivalente em mãos decepadas. Às vezes acontecia que os soldados se
utilizavam das espingardas na caça e para darem conta das balas aos oficiais,
agarravam uma pessoa viva e cortavam-lhe a mão direita. Dezenas de milhares de
cartuchos sem balas eram entregues regularmente aos oficiais do estado livre
com o mesmo número de mãos direitas decepadas de pessoas mortas ou vivas.
Mas o número de mortos era maior do que as mãos entregues. As crianças eram
muitas vezes assassinadas pelos soldados a golpe de pancada com as espingardas.
No ano de 1919 uma comissão oficial belga chegou à conclusão que a população do
Estado livre do Congo-Congo Belga, tinha diminuido para metade depois da
ocupação europeia em 1884. Uma diminuição para metade em 35 anos! Trata-se de
pelo menos 10 milhões de pessoas mortas!
Os soldados inculpados neste morticíno estavam incluídos numa força
especial de legionários negros comandada por corpo de oficiais brancos sob as
ordens do general-major Emile Janssen. Janssen deu ordem aos chefes das aldeias
de lhe mandarem os piores elementos, os quais foram incorporados com uma ”disciplina absoluta” durante um periodo
de sete anos, uma lavagem ao cérebro com o nome de ”Boula Matari”, ou seja o nosso rei ”soverano na Belgica e no Congo, dois reinos unidos para sempre”.
Segundo o próprio general-major Janssen esses homens eram treinados para
terem uma lealdade absoluta para com o rei e o país colonizador. Segundo ele
tinham ”todos os meios disponiveis sido
utilizados: escolas, jornais, radio, apoio social, controle da polícia politica
G2, oficiais de inteligencia e informação” nesta lavagem cerebral.
Durante a segunda guerra mundial aumentou a repressão e a exploração
colonial do povo do Congo que foi obrigado a pagar as dividas de guerra da
Belgica. Citamos agora o senhor Goddin, Secretário colonial do governo belga em exílio em Londres durante a segunda guerra mundial. ”Durante a guerra, o Congo pagou todos os custos do governo belga em
Londres, incluindo os do serviço diplomático e os custos das nossas forças
armadas na Europa e na África, num total de 40 milhões de libras inglesas. Com
os recursos do Congo o governo belga em exilio em Londres nunca precisou de
pedir um shilling ou um dólar emprestado e as reservas de ouro belgas foram
totalmente conservadas”.
Os acontecimentos no Estado livre do Congo não são episódios locais, foram
repetidos em todas as ocupações coloniais independetemente de qual o país
europeu que tinha o poder. O conceito dos colonialistas sobre os povos
colonizados exprime-se nas palavras do general alemão von Trotha sobre a
repressão aos povos Herero e Nama na África do Sul, que von Trotha comandou às
ordens do milionário alemão Lüderitz.
Von Trotha escreveu o seguinte sobre a exterminação dos Herero e Nama:
”Eu conheço bem estas tribos africanas. São
todas iguais. Só respeitam a força. Mostrar essa força com um terror brutal ou
até mesmo cruel foi e é o meu dever. Eu extermino as tribos revoltadas com
correntes de sangue e dinheiro. Só assim poderá crescer algo novo, algo que
ficará para o futúro”.
No ano de 1441 chegaram os primeiros europeus em barcos no continente africano
ao sul do deserto do Sahara, depois desta data o continente Africano sofreu
modificações profundas que o seus povos não puderam decidir ou dominar. O povo
Pendel, que é original da costa de Angola e que foi obrigado no século XVI a
fugir dos portuguêses para o interior, para perto do rio Kasai, conserva nas
suas tradições a memória da conquista portuguesa. ”Desde esses dias até aos dias de hoje os brancos só nos trousseram
guerra e miséria”. Sem dúvida um juizo simples e justo da exploração
europeia de África.
Mas hoje os tempos mudaram radicalmente. Depois de quinhentos anos de
exploração e repressão é chegado o momento de os africanos travarem a luta
final para tomarem o poder do seu continente!
O capitalismo mundial não quer perder o controle da África e tudo fará para
impedir o desenvolvimento das sociedades no continente. Mas os ventos de
mudança são fortes e não é possivel travar a luta de libertação da África
contra o colonialismo e o neocolonialismo!
Mário Sousa - autor: texto copideskado por J. Dal`Ln.
Bibliografia
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Mulele ou la second vie de Patrice Lumumba, 1985 -- Zurara
Crónica da Guiné, 1453
-- Younès Nekrouf, A Batalha dos
Três Reis, 1984
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