RELIGIÕES TRADICIONAIS NA ÁFRICA DE HOJE.
A África atual inclui mais de quarenta Estados Nação, muitos deles com
uma variedade de culturas e religiões. Alguns estudiosos estimam que existam
mais de mil idiomas falados naquele continente, e muito da diversidade
existente deve-se a sua longa historia e a sua geografia bastante diversa.
Há na África quatro grandes desertos; o kalahari no sudoeste, o da
Líbia no norte, o da Núbia no nordeste e o Saara que se estende do rio Nilo ao
Oceano Atlântico no oeste. Só o Saara cobre oito milhões e seiscentos mil quilômetros
quadrados, quase um terço do continente. Nômades e tribos de pastores, apesar
do clima e das regiões áridas, secas e desoladas, há muito tempo vivem
nessas áreas. Mas a África também possui regiões com muitas selvas, vastas
campinas e montanhas majestosas onde muitos rios serpenteiam aquele solo. O rio
mais extenso do continente e do mundo é o Nilo que percorre mais de seis mil
quilômetros, desde o lago Vitória até o mar Mediterrâneo. As margens desse
antigo rio faraós construíram suas tumbas e acredita-se que Moisés, personagem bíblico, foi
encontrado em suas margens.
Alguns estudiosos acreditam que a civilização africana foi moldada por
uma migração de pessoas vindas de outro continente, no entanto são apenas
suposições, que na verdade todo o povo africano é uma grande combinação de
sociedades moldadas por uma variedade de influências.
As religiões africanas são tão adversas quanto suas culturas; mas
também houve influências unificadoras, principalmente o cristianismo e o
islamismo.
Na ultima década do século XX a configuração religiosa da África
incluía mais de trezentos milhões de cristãos e pouco menos pertenciam ao
islamismo.
Em todo o continente existem, pelo menos, setenta milhões de seguidores
de religiões tradicionais africanas, no entanto, somente cerca de trinta a
quarenta por cento dos africanos ainda praticam as religiões nativas tribais e,
cerca de um milhão são seguidores do hinduísmo.
As crenças nativas sobreviveram ao se misturar com o cristianismo e com
o islamismo; essa mistura, ou combinação, definida como sincretismo, um
fenômeno comum na historia religiosa de outros povos e de outras culturas.
As religiões tradicionais africanas continuam presente entre as
sociedades étnicas tribais por todo o povo tradicional. Essas sociedades são
encontradas na região subsaariana, próximo ou acima da linha do equador. Essas
religiões são estruturadas mais em performances dramáticas que filosóficas. As
performances incluem danças e, tendo nos sentidos humanos, no paladar, audição,
olfato, visão e tato, além da musica, nos quais estão empenhados em unir o
mundo dos deuses e os espíritos dos ancestrais ao mundo social dos devotos
tradicionais.
O conceito mais geral das religiões tradicionais africanas envolve uma
gama de conceitos e preceitos, pois, o continente africano é tão diversificado
que, tentar identificar uma religião africana em particular é bastante
difícil, a menos que falemos de Olodumare, o deus primordial e supremo. No
entanto, para a maioria do povo africano, esse termo pode ser usado em diferentes
aspectos, ou em idiomas para diferentes povos do continente.
Há muitas religiões dentro do próprio sistema religioso africano. Para
aqueles povos de culturas tradicionais, a religião não se resume para
determinados momentos, a religião é algo a ser desempenhada diariamente. Cada
grupo em particular possui sua divindade de preferência, e também, neste caso,
está implícito a relação com seus ancestrais.
É através de performances dramáticas em festejos e cultos que espíritos
e deuses são manifestados, onde então, advertem e aconselham os devotos, tanto
para questões espirituais quanto a questões materiais.
As religiões africanas tradicionais ainda conservam a oralidade
desdenhando ao literário, mantendo assim crenças e ensinamentos através de
inúmeras artes verbais; mitos, folclore, provérbios e cantigas são utilizados
no processo religioso.
Há cerca de uns trinta anos alguns grupos africanos voltaram a se
remodelar para seus próprios métodos nativos de adoração. Uma prova viva é de
que, ao mesmo tempo, que de certa forma, aceitam os louvores cantados por
missionários, logo após se dedicam aos encantos da religiosidade ancestral. Isso
demonstra que na África de hoje, muitos grupos estão conseguindo praticar suas
religiões, suas crenças e suas religiosidades, de forma como eles entendem e
não controlados, como era no passado, pelos colonizadores.
Os movimentos separatistas na África conseguiram, por algum tempo,
progredir e converter seguidores de religiões tradicionais para o cristianismo
e para o islamismo. Porém, o ressurgimento recente das religiões tradicionais é
diferente, esse ressurgimento visa redescobrir e reafirmar as práticas
religiosas tradicionais africanas após séculos de dominação cristã e muçulmana.
Contudo, algumas religiões africanas tradicionais, no passado, tomaram
forma de sociedades secretas. Hoje, as sociedades secretas formaram outros
elementos, são os movimentos neo-tradicionalistas.
Para religiosos tradicionalistas africanos há uma afirmação, a de que
os mitos construíram o Mundo, pois, nos mitos estão historias exemplares cheios
de significados sagrados e morais. Alguns mitos africanos refletem, além do
comportamento, explicam sempre as práticas religiosas, outros, no entanto,
expressam valores e atitudes morais. Os mitos, juntamente com outras artes,
como enigmas e provérbios, têm assim uma função social ao dar a vida diária um
significado transcendental.
Apesar de gerações estarem em contato com outras religiões dominantes,
um dos povos que conseguiram preservar virtualmente intactos os mitos foram os
iorubas.
Os iorubas, atualmente, são grupos numerosos no oeste da África,
chegando a quinze milhões de indivíduos. Muito embora habitem a maior parte da
Nigéria, também existem grupos que habitam algumas regiões do Benim e as margens do
rio Níger.
Os iorubas não são meramente uma tribo, no passado pertenceram a uma
civilização próspera, sua religião está associada ao politeísmo. A religião dos
iorubas abrange um conjunto de divindades as quais são manifestações de uma
divindade suprema.
A estrutura Ifá, Orixás, e todo o panteon começa com Olodumare que é,
traduzindo, o controlador do Universo. Essa divindade é o “Ser” supremo. A
partir dessa divindade surgiram os Orixás, divindades que representam as várias
expressões do “Ser supremo" que foram encarregados de criar o Mundo. Essa
versão comum do mito da criação nos revela algo sobre a relação entre Olodumare
e os Orixás. Cada Orixá é uma representação ou manifestação de Olodumare, no
entanto, nenhum deles é Olodumare.
Na África de hoje todos os conceitos e toda religiosidade pertencente a
cada grupo, são conservados e rememorados em festivais. Cada grupo continua,
como no passado, a eleger suas divindades, e cada divindade exerce papel
importante na comunidade. Os Orixás continuam atuantes nas questões humanas, e
o “Ser supremo" está representado por aquelas divindades, tendo cada uma delas
seus “altares” com sacerdócio, objetos sagrados e seu conjunto de tabus.
No entanto, para algumas comunidades tradicionais, tanto Olodumare como
os Orixás são representados como “pessoas importantes” ou, ancestrais que foram
divinizados e tornaram-se os protetores daquelas comunidades.
Do povo ioruba, advindo de historias antigas, o Orixá Inlá,
também é chamado de Obatalá, e é também reverenciado por ser uma manifestação
de Olodumare. Olodumare é citado em alguns mitos como o modelador das formas
humanas.
A divindade Exu, Orixá primordial, continua com as mesmas
características divinas e os mesmos conceitos, e os preconceitos ou falta de
conhecimento, principalmente por parte de cristãos e muçulmanos, o fazem uma
relação muito adjetivada ao diabo.
Em algumas culturas no Zimbábue os ancestrais são os intercessores
entre o deus supremo e a comunidade. Acreditam eles que o “Ser supremo" é um
“Ser metafísico”, que não interage com a comunidade e, todas as relações
espirituais entre deuses e humanos, ocorrem através dos ancestrais,
principalmente os ancestres masculinos pertencentes em cada família. Tais
ancestres mantêm-se ligados a sociedade terrena, mas são vistos por povos
tradicionais como um elo de ligação entre os humanos e ao mundo divino, por
outro lado, também participam ativamente tanto no domínio dos mortos quanto dos
vivos
Denominados “iogues”, o mesmo que espírito, não é uma presença sempre
amigável, isso porque, tais espíritos, alguns negativos, se envolvem em
conflitos trazendo doenças e calamidades, outros, no entanto são espíritos ou
iogues protetores. Para tanto, através dos curandeiros, são feitos rituais de
apaziguamento ou mesmo pra expulsá-los, muitas das vezes com provações longas e
torturantes.
Os iorubas, assim como outros grupos religiosos tradicionais,
consideram os seres humanos como um composto, o espírito retorna para
Olodumare, a divindade suprema, enquanto o corpo retorna para a terra. Esta
relação, morte material e espírito é que sustenta, em determinadas ocasiões um
festival chamado de Egungun. Nestes festivais são celebrados os ancestrais
masculinos, rituais exclusivos para os homens; crianças e mulheres não
participam. Por outro lado, outro festival é celebrado pelas mulheres, é o
Geledê com uma demonstração mais democrática. O Geledê honra principalmente os ancestrais femininos e
a presença de mulheres e crianças são essenciais para os rituais.
No universo religioso africano tradicional não existe uma definição de conceitos
de certo ou errado, todas as definições são apropriadas para o momento de uma
existência, são valores que traduzem uma existência atemporal, infinita como o
Universo.
Fica claro que, apesar das inúmeras tentativas de exterminar com a
cultura tradicional africana, através de missionários estrangeiros, muitos dos
povos do continente africano não se entregam na crença de religiões que apregoam o
monoteísmo. O politeísmo ainda é para muitos a força, a crença e a fé, é o
alicerce, o sustentáculo promovido por ancestrais.
Descrito como “ O continente Negro”, ninguém ou nada até hoje conseguiu
desvendar todos os segredos da religiosidade ancestral africana.