sábado, 24 de maio de 2014

Criação ou evolução?



                                     
                                 Somos Seres híbridos, todos somos filhos das estrelas.
E eis que a polêmica surge quando o assunto está em relação ao principio de tudo, Criacionismo e Evolucionismo são, em tese, os dois conceitos discutidos.
A maior parte da humanidade acredita na teoria do criacionismo, teoria sim, pois, nada de concreto existe para afirmar com absoluta certeza ou clareza na existência, num passado remotíssimo, de um “Deus” criador. Este conceito é meramente religioso baseado em escritos, alguns tidos como “sagrados”, outros, no entanto, fazem parte de históricos mitológicos de todos os povos da antiguidade.
Por outra vertente do pensamento humano encontramos a teoria da evolução de autoria do notável cientista Charles Darwin que viveu no Séc. XIX; autor da teoria da evolução das espécies, através da seleção natural que é revelada através das ciências e das pesquisas, algumas confirmadas, outras apenas especulativas, principalmente pela física, na qual, cientistas da atualidade procuram o elo perdido, elo que faria a ligação entre a matéria e o que poderíamos chamar de “grande espírito”, ou deus propriamente dito. Estudos ainda em andamento definem como Bóson de Higg, a partícula inicial, portanto, o principio de tudo, de todo o Universo e da vida. No entanto, existe também a teoria da Panspermia, teoria que supõe a existência de “esporos de Vida” e que, através de uma geração espontânea, explica que a vida veio de fora e em estágios de desenvolvimento, tendo sido “semeada no planeta” e trazida até aqui por ventos solares abrigadas em cometas ou mesmo em meteoros e meteoritos; teoricamente esses “esporos” conteriam códigos que regeriam o desenvolvimento.   
Sabemos que existem milhares de Galáxias no Universo, o que nos faz pensar em possibilidades do “não estarmos sós” na imensidão deste Universo; teoricamente isso também é possível e possível  também uma intromissão externa por seres de outros planetas.
Mas, o que podemos pensar do antes de tudo? Afinal, se o Universo é infinito em dimensão pode-se pensar também que ele, Universo, é infinito no tempo, tanto no passado quanto para o futuro; portanto, o tempo dessa forma, como elemento subjetivo para o Universo nada mais é que um instante, um momento qualquer.
E foi “num momento qualquer” que tudo começou. Falam em bilhões de anos, outros em milhões quando o assunto está relacionado ao ser humano. Mas, em que momento da historia do nosso Planeta ocorreu o surgimento do homem na face da terra? Em que momento o “espírito humano” aflorou no hominal? Teriam sido eles ancestrais da raça humana ou por uma “ação divina” o Ser humano, corpo e espírito, teria sido criado?
Segundo o principio evolucionista a vida surgiu na face da Terra através de uma evolução natural, ou seja: combinações de elementos associados a energias produzidas pelo Universo, clima e temperatura acamaram seres minúsculos dando origem à vida até chegar aos Seres mais complexos e, através de um processo de hibridez, todos os Seres viventes iniciaram uma grande jornada.
Conforme a proposição de Alexander Oparim, em 1936, ele explica, através de uma hipótese  que, na atmosfera primitiva da Terra existiriam gases como metano, amônia, hidrogênio e vapores de água; sob altas temperaturas na presença de centelhas elétricas e raios ultravioleta, tais gases teriam se combinado originando aminoácidos que ficavam flutuando na atmosfera. Com a saturação de umidade na atmosfera começaram a ocorrer as chuvas. Os aminoácidos, arrastados para o solo e submetidos a aquecimento prolongado, os aminoácidos combinavam-se uns com os outros formando proteínas. As chuvas lavavam as rochas e conduziam as proteínas para os mares, surgia então uma "sopa de proteínas" nas águas mornas dos mares primitivos; as proteínas dissolvidas em água formavam coloides; os coloides se interpenetravam e originavam os conservados; os conservados englobavam moléculas de núcleo-proteínas que depois se organizavam em gotículas delimitadas por membrana lipoproteica, daí surgindo as primeiras células. Porém, essas células pioneiras eram muito simples e ainda não dispunham de um equipamento enzimático capaz de realizar a fotossíntese. Eram, portanto, heterotrofias. Só mais tarde surgiram as células autótrofas mais evoluídas, permitindo o aparecimento dos Seres de respiração aeróbia. Diante de tudo isso, podemos concluir que a evolução passou por vários períodos de transformação e adaptação resultando na genética humana.
Contudo, algumas observações mesmo para um leigo, fica claro que o nosso Planeta, a Terra, ainda está em evolução; a Terra, ainda está em formação geológica, nada está pronto, terminado, pois, vulcões ainda derramam lavas e terremotos indicam movimentos das placas tectônicas, sem contar com outros fenômenos, ditos naturais, que ocorrem constantemente; por conseguinte, o Ser humano também ainda não é um “Ser terminado”, segue, juntamente com o planeta Terra sua evolução natural. Esta é a mais fantástica prova de que tudo no planeta contém vida e movimento. E vai permanecer assim durante milhões ou talvez bilhões de anos.
E como surgiu o Espírito neste ser em evolução?
Apesar de a Terra e o Ser Humano estarem ainda no processo evolutivo, a natureza encontrou meios de aglutinar energias que, desde a formação da vida, denominada “animalização da matéria” até chegar aos Seres possuidores de cérebros demorou mais de três bilhões de anos. Através do processo evolutivo, toda matéria “animalizada” foi constituída pelos elementares que, após muitas etapas evolutivas, adquiriu um cérebro e posteriormente o raciocínio.
Uma dessas etapas está relacionada aos animais; neles, o principio da inteligência é elaborado e individualizado; de certa forma, uma preparação onde, na sequência, o principio inteligente torna-se um espírito individualizado, é então o momento onde começa o período da humanidade. Allan Kardec, em “O livro dos Espíritos” afirma que: “É nesses seres (os animais) que o princípio inteligente se elabora, se individualiza, e pouco a pouco, ensaia para a vida. É, de certa maneira um trabalho preparatório, como o da germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna um espírito. É, então, que começa, para ele, o período da humanidade e, com esta, passa a tomar consciência de seu futuro, a fazer a distinção entre o bem e o mal e se torna responsável por seus atos”.
Emmanuel, em O Consolador, informa sobre o assunto: “A vida do animal apresenta uma finalidade superior que constitui a do seu aperfeiçoamento próprio através das experiências benfeitoras do trabalho e da aquisição em longos e pacientes esforços dos princípios sagrados da inteligência. Os animais são os irmãos inferiores do gênero humano. Eles também, como nós, estão vindo de longe, através de lutas incessantes e redentoras, e são como nós outros, seres humanos, candidatos a uma posição brilhante na espiritualidade”.
André Luiz, em O Mundo Maior, descreve o processo: “O princípio espiritual, desde o obscuro momento da criação, caminha, sem detenção, para frente. Afastou-se do leito oceânico, atingiu a superfície das águas protetoras, moveu-se em direção à lama das margens, debateu-se no charco, chegou à terra firme, experimentou na floresta copioso material de formas representativas, ergueu-se do solo, contemplou os céus e, depois de longos milênios, durante os quais aprendeu a procriar, alimentar-se, escolher, lembrar e sentir, conquistou a inteligência... Viajou do simples impulso para a irritabilidade de sensação... Da sensação para o instinto... Do instinto para a razão... Nessa penosa rodagem, inúmeros milênios decorreram sobre nós... Estamos em todas as épocas abandonando esferas inferiores a fim de escalonar as superiores. O cérebro é o órgão sagrado da manifestação da mente em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana”...e acrescenta: “O mineral é atração; O vegetal é sensação; O animal é instinto; O homem é razão; O anjo é divindade... Busquemos reconhecer a infinidade dos laços que nos unem nos valores gradativos da evolução e ergamos, em nosso íntimo, o santuário da fraternidade universal”.
Por força de conceitos criados por religiões e por uma “imposição de doutrina”, muitos  espiritualistas, espíritas e outros religiosos, definem o inicio de tudo como uma criação divina, porém, diante dessas declarações, de ilustres personalidades, podemos concluir que no animal há o princípio inteligente, contudo, ainda não é espírito. Eles ainda não possuem consciência, e a inteligência é extremamente limitada e comandada pelos instintos.
De acordo com a dissertação descrita na Bíblia sobre a “Criação” (vide êxodos) e o conceito “evolucionista”, certificado pela ciência, encontramos nos últimos três parágrafos acima a união, o entendimento sobre e como tudo começou, que em principio, a divindade está relacionada ao Anjo, que pode estar a propósito mais que religioso ou um mistério a ser desvendado.
Todo esse entendimento tem por principio o simbolismo; o “anjo símbolo” princípio da compreensão do Ser humano em relação ao sagrado, e daí o surgimento dos conceitos religiosos, nasce o mito e, em uma gnose coletiva, aparecem esporadicamente nas primeiras comunidades humanas as divindades, e juntamente com as divindades os primeiros sacerdotes e sacerdotisas, Os mitos aparecem sempre relacionados com histórias fantásticas sobre deuses e semi deuses, havendo nesse momento a criação de rituais das primeiras manifestações religiosas definindo a crença e o posicionamento da fé em relação àqueles deuses.
Todas as religiões são baseadas e sustentadas por mitos, e os ritos sustentam a crença, a fé passa então a ser o sustentáculo individual em relação às divindades.
A fé, como elemento consubstanciado ao indivíduo, através dos valores e graus do pensamento, irradiam vontades e desejos de realizações. Este princípio está baseado na força do pensamento humano, criando no intimo de cada um imagens capaz de transformar sentimentos e produzir sensações. 
Este processo até ter sido completo demorou milhares de anos e os protagonistas da historia, os Seres humanos, também criaram dentro de si escudos protetores denominados “anjos da guarda” que, fortalecidos pela ação da fé passaram a ter papel fundamental no “espírito humano”, resultante da própria evolução do cérebro e consequentemente do pensamento e do raciocínio.
Contudo, o “espírito humano” precisou evoluir também, igualmente a matéria vivente, corpo e mente se fundiram. O espírito, agora como energia latente ao Ser humano, descobriu a sobrevivência, a necessidade de interação com outros Seres, tendo por consequência a universalização das crenças, crenças formalizadas por cada cultura, por cada povo.
Quando falamos de Criacionismo/Evolucionismo não podemos deixar de falar da relação direta no contexto de deus ou deuses, e dos mitos relacionados a eles e da composição cultural em todos os povos.
A história da humanidade, independentemente a qualquer cultura ou povo, sempre foi ligada aos fatores naturais. As intempéries amedrontavam tanto quanto os animais ferozes na escuridão das noites. No principio, nas primeiras manifestações de grupos familiares, o Ser humano, muito temeroso àqueles fenômenos se refugiavam em cavernas, grutas escuras onde o imaginário primitivo já esboçava a criação dos “fantasmas”, o medo os dominava, o receio de uma morte súbita aniquilava qualquer reação de defesa. Nos grandes rios e mares infindáveis monstros apareciam e desapareciam ao sabor das marés; em terra firme, grandes feras com dentes pontiagudos e garras afiadas podiam ser a caça ou os caçadores. Mas, o Ser humano por ter sido o primeiro animal a conquistar o raciocínio sobreviveu, seu espírito evoluiu criando as barreiras de proteção.
Do imaginário humano surgiram as primeiras tentativas de se relacionar com um Universo não material, para tanto, na solidão das cavernas, admirados com suas sombras projetadas nas paredes de pedras diante da luz de fogueiras, os primeiros “desenhos mágicos” apareceram.  A descoberta da “alma”, projetada, ficou evidente e reconhecida apesar dos mistérios.
As imagens nas cavernas contribuíram para o inicio da formação cultural e religiosa dos primeiros povos, pois nas pinturas rupestres estavam suas rotinas, principalmente cenas de caça e lutas contra feras, mais tarde, cenas de guerras foram incluídas. Juntamente surgiram também os símbolos que demarcariam territórios ou a presença de algo ligado a alguma crença em Seres magníficos, surgia assim também os primeiros mitos relacionados ao Universo espiritual. Desde o paleolítico o Ser humano criou mitos, histórias que foram transmitidas de geração em geração.
O “espírito”, já existente, evoluía de conformidade ao crescimento do cérebro que, a cada raciocínio, a cada experiência vivida, absorvia mais conhecimento. Desta forma passamos pela idade dos metais, época em que os primeiros deuses surgem e recebem denominações nas formações tribais.
Os deuses criados a partir da necessidade humana com o objetivo de esclarecer fenômenos naturais deram impulso ao que podemos chamar de “Mentalização à Divindade”, pois, a cada ocorrência de fenômenos naturais, o Ser humano recorria à sua divindade criada um pedido de socorro, ao qual era sempre acompanhado de oferendas. A cada deus criado as oferendas eram especificas e complementadas por rituais primitivos.
Com a mente evoluída o espírito foi então dimensionado à um mundo paralelo, ou seja, um universo subjetivo criado a partir do reconhecimento dos fenômenos naturais. Desta época também surgem os primeiros deuses demiurgos, deuses protetores da família e dos clãs existentes.
Existem outros argumentos em relação ao surgimento do “Espírito”, a teoria dos “Exilados de Capela. Tal teoria afirma que o Espírito veio habitar os primeiros corpos nos primórdios da raça humana. Além dessa teoria, a Bíblia nos dá relatos em Êxodos da “criação do espírito”.
Mas, atentemo-nos para fatos concretos: o criacionismo, por ser uma teoria religiosa, é uma teoria um tanto falha em relação ao conteúdo espiritual, pois, não leva em consideração a própria evolução natural, tanto do corpo carnal quanto ao Espírito propriamente dito ou mesmo aos fenômenos espirituais.
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No passado, bem lá nos primórdios tempos o Ser humano não conseguia explicar os fenômenos que ocorriam na natureza, passou então a dar nomes e criar em um universo subjetivo à aqueles fenômenos, considerando-os como deuses. O trovão, a chuva, o relâmpago, os ventos e tudo mais inspiravam para a criação de um deus. O Céu tornou-se um deus pai todo poderoso, a Terra uma deusa mãe, e todos os demais seres viventes seus filhos. Criava assim, a partir do inconsciente, histórias e aventuras que explicavam de forma poética toda uma vivência e convivência com seres extraordinários.
As histórias tornaram-se divinas e eram passadas de geração a geração adquirindo aspecto mítico religioso, tornando-se verdades.
Por toda a Terra e em todas as civilizações foram criados núcleos arquétipos mitológicos, a esses grupos são dados os nomes de “mitologemas”. A um conjunto de “mitologemas”, de uma mesma origem histórica, é denominado de mitologia.
Aos mitos passaram a se unir os “ritos”, os quais, renovados, foram chamados de mistérios. O rito tornou-se “ato”, ato que atualizou o mito em seu mistério e, ao conjunto de rituais e mitos crio-se então os símbolos que cercam o mitologema, promovendo o ritual. Ao conjunto de rituais e mitos, com origens históricas comuns, dá-se o nome de religião. A esta, unem-se preceitos éticos morais os quais são denominados “doutrinas religiosas”, que são compostas de tabus, proibições e segredos herméticos.
Posicionados em uma determinada estrutura cada religião criou seus ídolos, ícones de barro, pedra, metal, ou mesmo representados em estandartes, e as figuras míticas do inconsciente passaram a existir em altares nos templos, nos portais como guardiões de uma comunidade, de uma casa ou mesmo de forma minúscula em escapulários como protetores individuais.
Toda essa iconografia transcendeu ao material e criou no inconsciente humano todas as formas de crenças religiosas e, o espírito, primordial aos viventes, absorveu os paradigmas até então formulados e, cada povo, cada civilização passou a desenvolver a crença e a fé, que desde então tornou-se inerente e corresponde aos anseios psicológicos transmutados em energia.
As religiões “espiritualistas” sejam de manifestações inter ou extra corpóreas, todos os processos esotéricos ou qualquer outra forma de manifestação religiosa, são usuários de forma implícita daquelas energias transmutadas, ou seja, a fé. A fé sempre é consignada a alguma crença ou a alguma  vontade pessoal ou coletiva.
Aparentemente podemos distinguir determinados padrões de fé, mas nunca podemos avaliar a intensidade. A fé, por ser subjetiva pode alcançar níveis elevados produzindo energias em determinados momentos e de formas incontroláveis, derivando daí os ditos “milagres” apregoados pelos mais exaltados.
 Os seres mitológicos, deuses, semideuses, personagens heroicos, deuses demiurgos e tantos outros ícones personificados como “santos”, sempre foram criação do imaginário humano que, transmutados em energias elas se manifestam, e criou-se assim o universo paralelo, o mundo dos espíritos, humanos ou não.
Apareceram os espíritos benignos, espírito das águas, das florestas e de todo o reino vivente, vegetal e animal, espíritos que passaram a lutar contra as investidas de guerras e lutas ao desenvolvimento humano. Bastava agora o seu criador, o homem, controlar essas forças.  
                                        
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                    Um universo religioso - o Candomblé
Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo, o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião. Todas as culturas humanas retrataram seus acontecimentos extraordinários através da mitologia, sempre para se fazerem entender nas relações, principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo do inconsciente e de suas crenças.
Personificados por formas humanas ou de animais, os deuses e deusas permanecem no inconsciente humano como forma de fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas, estátuas e nas pinturas sacras.
Esta foi a forma que o ser humano encontrou, em todos os tempos, para estar mais próximo ao sagrado; transformou ideias em objetos reais sacros, criou histórias e lendas, transformou ancestrais em deuses demiurgos, uniu-os aos deuses tribais em figuras sincréticas, assim nasceu o mito.
Muitas das histórias” são singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou grandes extensões de terra, e os deuses, com características idênticas, são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por um personagem maior, um deus superior.
A mitologia é uma forma espontânea, cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê, mas sente e transfere toda essa crença, e os caminhos percorridos pelos deuses passam a refletir nas características de cada indivíduo em cada uma das religiões.
Cada lenda é um tempo vivido, uma ação, um movimento feito pelo personagem, dando a ideia de uma transferência de conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao encontro com a realidade subjetiva, a fé.
As religiões afro-brasileira são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos derivados das culturas advindas do continente africano, independentemente a que nação ou segmento pertença.
Nos rituais é que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, por vezes, parecendo mesmo que em determinados momentos, o culto se divide entre o sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças, refletem um sentido profano que, feitas por seus adeptos, formam um conjunto aprimorado, como se uma viajem ao passado fosse feita. A cada batida, com mãos ou varetas e a cada passo dado no bailar rememoram os caminhos percorridos pelos deuses africanos.
O ponto principal de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no próprio indivíduo que, iniciado passa a ter essa capacidade e, depois de celebrada, estas energias em “forma humana”, voltam ao seu estado natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das várias “divindades”. Nos bailados de Yemanjá os braços ondulam numa alusão as águas dos mares; mas também, seus braços podem ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam aos primórdios do universo, onde seria também a progenitora de todos os demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com Yemanjá, num patamar mitológico superior está Oxalá, o Ar, o sopro de vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o ser humano, e assim povoou todo o Planeta.
Juntamente com Yemanjá e Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão, Exu, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o sentido da procriação; tornam-se assim um quadrunvirato da construção de todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
Oduwa, por não ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto independente, o culto às Yiá mi. Da interação Terra/água, surge Nãnã, Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito do povo Nagô.
Os acontecimentos mitológicos são apenas representativos para entender toda a estrutura da religião quando baseados nos conceitos do povo Nagô, no entanto, todas as formulações ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações determinantes nos candomblés.
Além dos Orixás primordiais, Yemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exú o fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas histórias são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como historias reais.
Quando da criação da Terra, segundo o mito Nagô, em tempos imemoriais nos ciclos milenares do desenvolvimento humano, chegou a era dos metais e com ela uma divindade foi criada, Ogún, o deus das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar armas de guerra e ferramentas para a agricultura. Este, juntamente com Exu, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser humano reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas substituiu a coleta pela produção de alimentos. Oxossi, o deus das matas, continuou a caçar e dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de trabalho; nos dias atuais, a caça tornou-se uma alegoria, uma representação na evolução humana.
A descoberta dos sentimentos humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de criação de conceitos para sobrevivência, nascia assim o respeito pela gestação, e com ela, Oxún a deusa das águas doces e das nascentes que sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto, surgindo daí as Yiá bás, as mães rainhas e zelosas dos castelos imaginários de um mundo mítico.
Progressivamente a humanidade foi se adaptando no Planeta recém construído; surgiram outras divindades, pois, a cada passo eram personificados deuses representativos. A natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e escravos. Novos deuses surgiam e reis foram divinizados. Neste cenário apareceu Xangô, o deus da justiça que, enlouquecido pelas barbáries, dele e de seus inimigos dizem ter se enforcado. Seus machados, cortantes nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a benevolência o outro o castigo.
Da interação – Oxóssi/ Oxún – nasceu Logun, energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado representando a renovação dos ciclos, das eras. Desta maneira, as águas da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè que. após os grandes dilúvios, esta energia é que permite chuvas; com ele, numa alegoria encantadora surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do Universo. Porém, essas transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e das guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também consagrada entre as deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nos vulcões.
Mas a renovação constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte de elementos, doença/saúde, bem e mau, conceitos de todas as vicissitudes são energias que devem ser depuradas e, desta forma Obaluayé está presente, ele é o socorro, o médico do Planeta e de tudo que nele contém, é a energia produtora, tanto de pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as energias, como o ser humano. As folhas, ervas medicinais trazidas pela magia de Ossanhe, energia completa, complexa e diversificada ao mesmo tempo.
...E todas essas energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos, particularidades que agregam ao ser humano quando do nascimento e o acompanham até a devolução de todas as substâncias na morte à Mãe Terra.
Para representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza, e dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração envolve a assistência num retorno aos primórdios tempos, reinterpretando toda uma história, mitos e sentimentos.
Nos movimentos das danças e que são interpretados, de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e a  turbulência das águas estão nos braços e requebros de Yemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará, numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogún estão alegorias de guerras e de batalhas vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança suas flechas dando direção da fartura. No resplandecer das mudanças bruscas do tempo dos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossayn. Na direção dada por Oxumarè apontando o caminho das águas pelo arco íris.  Nos movimentos tectônicos da energia do Planeta está Obá, a deusa que respira pelos vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nanã, devido ao tempo de existência. No ritmo atenuado do tempo como as nuvens da paz, um telhado branco por sobre as cabeças Oxalá caminha sobre a Terra ou no infinito Universo e, Exu, provocador de todos os movimentos é o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olimpo dos deuses africanos, os deuses do Candomblé.
Mas não só toda essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações consagradas aos deuses africanos, aos Orixás que, desta forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano.
A crença nesta forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um DNA espiritual que, passivamente e através de ritos apropriados devem ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí, o caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção.

                                                                                               

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