segunda-feira, 8 de junho de 2020

Caminhando com os Deuses - Continuação 3.




                                                         Caminhando com os Deuses 
                                                           Continuação - 3                                                                                                                  
Orí - De acordo com a liturgia do candomblé Orí pode ser definido como a cabeça designante, ou seja, Ori Isesé, porém, também pode ser denominada como Orí Ooro, a cabeça ao amanhecer ou, Ori Akokó a primeira cabeça.
Orí tem a maior importância não só para o ser humano como também para o Orixá e, podemos dizer que Ori é o primeiro entre todos, pois, é nele que estão concentradas todas as energias do Orixá, é ele que possui regência sobre o indivíduo, estas energias estão concentradas no Orí Inú. Numa explanação mais entendível, para a crença nos conceitos nagô, Ori é o primeiro e mais importante dos Orixás, pois, nele está a escolha dos caminhos.
Todas as pessoas inclusas no culto do candomblé têm por costume tocar com a testa o chão numa simbologia de reverência e respeito à Terra e, devido a circunstâncias, os Orixás também o fazem.
Quando uma criança nasce, a cabeça física - Orí Odè, sempre é a primeira parte do corpo a vir a este mundo e, por esse motivo, ela é tratada com todo respeito.
Nos ritos de iniciação, a cabeça - o Orí vem a ser propiciada em primeiro lugar antes mesmo de iniciar qualquer outro ato e, é através do Ebori/bori que tudo começa a ter relação com o culto.
 A cabeça, ou seja, o Orí de uma pessoa é o órgão mais importante, por isso o ato propiciatório é obrigatório, diz-se, dar comida a cabeça, um dos ritos mais importantes dentro do candomblé e que deve ser propiciado com certa freqüência.
 Orí também tem sua importância porque é nele que está alojado o destino dos Seres, destino este escolhido por nós mesmos no Orún, essa é a crença. No entanto, também é Ori que nos dá a oportunidade de fazer escolhas nos caminhos da vida e, é ele também que nos leva de volta ao Orún na presença de Olodumare/Olorún.
 Orí tem infinitas possibilidades de realização, é a ligação com a força denominada Eledá, a força incondicional, o pensamento, o Olorún/deus que está dentro de cada um de nós; mas também, juntamente com Ori está Eni Keji, o espírito gêmeo que existe para nos lembrar do nosso destino a ser cumprido. Orí é a consciência latente em todos os indivíduos, com ele estão nossos atos, nossas virtudes nossos fracassos e vicissitudes, e por esse motivo o levamos no retorno ao Orún.
Uma história - Orunmilá Ifá, senhor todo poderoso e adivinhador do futuro de todos os Seres, criados por Olodumare, pronunciou: Quem entre as divindades pode acompanhar seu devoto em sua caminhada sem retorno?
 Xangô disse que ele poderia. Então Ifá perguntou:...e o que você faria depois da longa caminhada e retornar à casa de seus pais e eles lhe preparassem sua comida predileta? E Xangô respondeu: depois de comer até ficar satisfeito retornarei à minha casa e não poderei mais acompanhar meu devoto na caminhada.
 Oyá respondeu que ela poderia. Da mesma forma Ifá lhe pergunta a mesma coisa e ela responde que também não pode ir.
 Novamente Ifá pergunta e, desta feita, Oxalá responde que poderia ir. Ifá faz a mesma referência feita anteriormente e novamente a negação.
 Sem solução para o problema, ifá faz mais uma tentativa e todos responderam com a mesma negativa, ninguém poderia ir.
 Orúnmilá Ifá então responde a todos: Somente Orí é quem pode acompanhar seu devoto na sua caminhada. Se um sacerdote de Ifá morre o povo diz que os instrumentos divinatórios devem ser atirados em um fosso profundo; quando um devoto de Xangô morre, o povo diz que suas ferramentas devem ser lançadas longe; quando um devoto de Oxalá morre, o povo enterra suas ferramentas junto ao corpo.
Quem entre os humanos possui o costume de separar a cabeça - o Ori do corpo quando alguém é enterrado? Portanto, disse Ifá, Orí, e somente Ori é quem pode acompanhar seu devoto na caminhada.
As Iyámí Osorongá - As Iyámí são entidades que possuem energias, tanto positivas quanto negativas. Enquanto elas estão com energias positivas são denominadas de Iyámí, porém, na sua fase negativa são denominadas Ajé.
As energias das Iyámí são tão complexas que recebem criticas nas próprias sociedades que as cultuam. Este culto não é muito difundido, porém, apesar de pertencerem à cultura africana, principalmente na ioruba, suas sacerdotisas, as mais velhas, procuram passar seus conhecimentos às mais novas para que o culto tenha continuidade, no entanto, devido aos extremos segredos não há uma descrição para ter uma noção dos mistérios que ocorrem nos rituais de tais entidades, sabe-se somente que fazem parte de uma sociedade secreta. O povo ioruba acreditava as Iyámi possuiam poderes de se transformarem em pássaro de agouro.
        Iyámí Osorongá é o termo que designa as Ajés, que representam o aspecto sombrio de tudo que, transformadas em pássaros do mal, o agbigo, àtióro, hurù, Eluùlú, Wakó-Wákó, Aragamago e outros, se transforma na ajé mais temida. Acredita-se que a coruja é o pássaro que leva os feitiços aos seus destinos. 
         Tanto na sociedade Osorongá quanto na sociedade Orixá, Iyámí, é considerada a mãe universal e deve ser sempre cultuada como o núcleo feminino, como também na interação ao seu oposto, Orinxalá/Obatalá, o Pai universal.
         Iyámí é uma força poderosa e singular que atua naturalmente como uma matriarca, ela é a canalizadora de poderes sobrenaturais e físicos feminino, uma particularidade especial que cada uma das várias Iyámí possui como desempenho e funções diferenciadas, mas, primeiramente, como fontes geradoras de vidas, onde todas estão voltadas para a grande mãe.
Nas sociedades Geledé - Sociedade das máscaras, Iyámí recebe a denominação de Iyámí Akó, titulo que faz referência ao pássaro Wakó Wakó que é representante no culto da principal expressão de um animal alado e caçador. As cerimônias, onde ainda são realizadas no início da estação do plantio, estão relacionadas à fertilidade; estas cerimônias tiveram início na região de Kêtu, dividindo-se em duas partes, a diurna e a noturna.
        É no culto Geledé que também acontece numa saída seqüencial das máscaras, onde a mascara Akó encabeça o titulo Iyálodé, que vem a significar a primeira dama da sociedade Iyámí Akókó, a poderosa e respeitada mãe ancestral suprema.
       Outro nome que Iyámí recebe é a de Iyámí Eleyé, que indica ser ela a dona dos pássaros. A estória mítica que conta quando do mau-uso de seus poderes teve que entregar a Orinxalá a cabaça mágica para que ele fizesse um bom uso. Em um trecho da lenda conta que, desde os primórdios da existência as Iyámí foram consideradas as mães e as donas do pássaro Aragamago, eram as Iyá Agbá, anciãs, que são as mais antigas divindades do panteão Africano, as que têm uma relação com a antiguidade, podendo-se supor que elas sejam a própria Terra.
Como em todo culto nagô, o culto à Iyámí possui estrutura própria e idêntica a outros cultos de origem africana, está sintetizado nas oferendas e nos elementos representativos.
       A Iyálaxé é a sacerdotisa principal, cargo dos mais importantes na hierarquia da sociedade Geledé, sociedade na qual são cultuadas as Iyámí. A Iyálaxé é a responsável pelos assentos correspondentes à Yemanjá/Iyanlá, a mãe ancestral, pois ela é a conexão entre a comunidade e o poder feminino que representa as possuidoras do axé.
Com funções idênticas, o Babalaxé é um sacerdote masculino, no entanto, participa somente de alguns rituais, sua função para o culto está na manutenção das máscaras, dos trajes, da organização das atividades e eventualmente participa dos sacrifícios perante os rituais.
       O Aboré é outro titulo que os sacerdotes recebem e que têm a incumbência de intermediar nas diferentes comunidades os favores das Iyámí.
O culto Geledé é originário do território ioruba e está centrado na deificação do poder feminino, o Igbá Iwá, como poder gerador de vida ou destruição. São os próprios membros masculinos da comunidade que reconhecem tal poder através das máscaras, e nas quais, as Iyámí são homenageadas.
       Na África, ainda nos dias de hoje, as máscaras utilizadas são para a parte pública do culto que são feitas no mercado por ser um lugar onde preferencialmente trabalham as mulheres, é o lugar onde elas têm o poder social na comunidade e também com a finalidade de pedir abundância. A festa é feita anualmente e sempre organizada entre os meses de março e maio, meses que marcam a época da semeadura agrícola, pois, têm como finalidade, a de assegurar a fertilidade do solo.
        Existem ainda outros cargos não menos importantes, o Efefe, por exemplo, é um cargo hereditário, cargo que requer muitos conhecimentos litúrgicos, pois, além de ser o encarregado de fazer os versos usados nas cantigas e orações, são carregados de palavras que satirizam os aspectos negativos relativos à vida social do povo que são parodiados no culto. O Efefe é que, com seus versos, diz o que outras pessoas não se atreveriam em dizer. O Angi é qualquer portador de máscara, isto é, o bailarino selecionado por sua habilidade para interpretar o toque dos tambores com movimentos muito particulares ao culto, sempre são homens e maiores de 18 anos. Os Agbejos são os que confeccionam as máscaras Geledé.
        Onilú é o conjunto de tocadores dos atabaques – tambores que explicitam os tipos de toques para a evolução das danças. Tradicionalmente é usado um conjunto de quatro tambores formando uma orquestra.
Originário da nação Kêtu, a sociedade Geledé está consagrada a Iemanjá, a qual é reverenciada como a mãe de todos os Orixás e, isto porque, Iemanjá expressa para todos os seus filhos o sentido de proteção maternal ante o poder feminino das Iyámí.
A virtude de poder trazer filhos ao mundo que têm as mulheres foi também motivo de temor em muitos povos, algo que era inexplicável porque as mulheres sempre foram vistas como possuidoras de certos poderes especiais. Este fato ocorreu em todas as culturas antigas, houve uma tendência em transformá-las em bruxas num sentido de crer que elas possuíam também poderes para comunicar-se com forças do além, forças estas fora do conhecimento do homem.
       A palavra Iyámí, por si só, na realidade não identifica a mulher com o lado escuro de seu poder, muito pelo contrário, é um modo de exaltar e homenagear sua capacidade de engendrar, apelando o seu lado protetor maternal, pois significa minha mãe. Esta forma de referir-se a qualquer mulher expressa o sentido de reverência àquela que serve de ponte entre os antepassados e os vivos, bem como, também reflete seu importante papel maternal. Desse modo, todas as divindades femininas são chamadas também de Iyámí, porém, não no sentido de bruxa, senão por tratar-se de uma homenagem verbal às grandes mães espirituais.
       Porém, quando se fala de Iyámí Osorongá muda muito o conceito exposto, pois, aqui se referem ao mito sobre o poder feminino associado com as aves, principalmente aquelas que confundem a mente humana por sua dureza ou comportamento macabro. Ainda que, também não isolados das mulheres ou dos Orixás, o mito Iyámí se relaciona com estas pela sua barriga, mais precisamente com seu útero que é sempre referido como o Igbá Iwá - cabaça da existência, quando se tratando da comparação metafórica entre um ovo fecundado e a barriga da mulher grávida, onde, costuma-se dizer que a mulher tem o poder do pássaro encerrado na cabaça.

                                  Orixás não cultuados no Brasil
 Ajê Saluga e Iroko - Com raras exceções este Orixá tem sua manifestação nos Candomblés, seus sacerdotes desaparecem e não deixaram ensinamentos suficientes para dar continuidade ao seu culto. Por ser um Orixá amórfico, sua energia se dilui ao cair das árvores centenárias com os desmatamentos, no entanto, ainda é possível conhecê-lo um pouco.
      O Orixá Iroko, na transcendência é um dos filhos de Nãnã Burukú, irmão de Obaluayé e Oxumaré, é também denominado Roko ou Loko em alguns Candomblés. Subjetivamente, todas as energias deste Orixá estão concentradas nas grandes árvores, árvores seculares que resistem á ação do tempo e dos humanos. Iroko tornou-se a árvore sagrada e símbolo do Candomblé e guardião da morada dos ancestrais. É o Orixá fundamental na interação entre a Terra e o Ar.
 É o Orixá mais Elemental; pertencente às matas, tornou-se ancestral de todas as árvores centenárias, as quais, não devem, ou não deveriam ser derrubadas por ação humana, pois, nelas estão os significados de solidez através de sua estrutura e suas raízes sob o solo e, em seu interior, guarda os mistérios da força do seu axé.
 Nas raras manifestações nos Candomblés um ritual ainda é relembrado, é quando os fiéis lançam sobre ele os fluidos maléficos que querem se livrar e, após algumas voltas pelo salão, o Orixá corre porta afora fazendo um gesto como de lançamento, em direção das matas, todos os males. Sua dança é feita com os joelhos dobrados sobre o chão ao som do bravum, ritmo oriundo da Nação Jêje. Sua roupagem e seus paramentos possuem características nas cores vermelhas, azul e verde, lembrando muito Oxumarè, ou por vezes cinza, marrom e branco. Sua arma é uma lança e, ocasionalmente veste-se de palha como Obaluayé.
 Diante da manifestação de Iroko todos os adeptos da religião o saúdam... Okê Agbá Sé.
 “O tempo dá o tempo tira, o tempo passa e a folha vira”.
 Geralmente em frente das casas tradicionais de Candomblé existe uma grande árvore, em seu tronco, são envoltos com um Alá, um laço feito com pano branco; esta é a identificação simbólica de que ali está Iroko, Orixá fundamental na existência de um Egbé.
Também conhecido como Loko, Orixá da gameleira branca, é onde são feitos seus rituais e colocadas suas oferendas, e para muitos, esta árvore foi trazida da África, no entanto, é possível que já existisse no Brasil mesmo antes dos africanos terem chegado por aqui.
 Este Orixá não possui características/qualidades, é reconhecido na nação Angola como Maionga ou Maiongá e, é representado geralmente pela cor branca, muito embora utilize outras cores. Seu dia consagrado é a terça feira e no sincretismo católico tem em São Francisco de Assis como seu representante. Sua saudação é:  Iroko-Okê Agbá sé
Ajê Saluga - Ajê Saluga é a irmã mais nova de Iemanjá, ambas são as filhas prediletas de Olokún.
 Quando os oceanos foram criados Olokún dividiu os mares entre suas filhas, e cada uma passou a reinar em diferentes regiões. À Ajê Salugá coube o poder sobre as marés. O mito conta que Olokún possui nove filhas e que também podem ser entendidos como os nove caminhos de Iemanjá, ou suas nove características/qualidades que ela possui.
Na transcendência, Iemanjá é a mais velha, ou a própria Olokún e, Ajê Salugá é a Olokún mais nova, fazendo-as de certa forma mães e irmãs. Olokún, juntamente com os mares, deu para suas filhas os muitos segredos que nele existe.
 Ajê Salugá era ainda menina muito curiosa e sempre bisbilhotava em todos os mares quando Olokún se ausentava. Ajê Salugá fazia subir a maré e ia atrás cavalgando sobre as ondas, sempre disfarçada na forma de espuma. De tão intenso e atrativo era o brilho das ondas que por vezes cegava as pessoas que a olhavam. Um dia Olokún a advertiu. O que dás para os outros tu também terás, serás vista pelos outros como te mostrares, este será o teu segredo, mas saibas que todo segredo é sempre perigoso. Mesmo assim, Ajê Salugá continuou a sair nas ondas disfarçada de espuma. Seu brilho passou a ser ainda maior, isso porque maior era seu orgulho, agora detentora do segredo. Muitos homens e mulheres a olhavam admirados com o brilho intenso das ondas do mar, e cada um, com aquele brilho ficou cego. O poder de Ajê Salugá cegava a todos. Porém, quando Ajê Salugá também perdeu a visão ela entendeu o sentido do segredo. Depois disso, Iemanjá sempre a acompanha quando sai para passear sobre as ondas. 
Okó. (Oóónkó)Na África era o deus da agricultura e no Brasil não existe registro de seu culto. Muito raro, quase nada se sabe sobre seus fundamentos; no entanto, na sua terra de origem estava ligado à colheita dos inhames e a fertilidade da Terra. É um Orixá de procedência nagô, mas desconhecido, pois, na época em que os africanos aqui chegaram pouca importância lhe deram e, na ocasião, passaram a considerar Ogún em seu lugar. Em casos raros, quando manifestado leva consigo um bastão de madeira indicando assim a relação com as árvores, e não se sabe por que carrega também uma flauta feita de osso. Os mais antigos diziam que havia uma relação com a sexualidade e com a fertilidade. Okó é muitas vezes confundido com Oxalá por vestir-se de branco, e por ser um Orixá muito raro, são conhecidas somente duas características, ou seja, qualidades. Etekó que é caminhante ao lado de Oxaguian, um tipo inquieto e sempre a procura de alguma coisa e, Lejugbé que também é confundido com Oxalá por seus passos lentos. Okó está relacionado com Ayrá, Iemanjá e Oxalufan.

Oranian - Conta uma lenda que Oranian foi divinizado por ter sido chefe de um clã e tornou-se Orixá. Filho mais velho de Oduduwa, era muito poderoso e sua fama era reconhecida em todo o reino ioruba por ter sido um exímio caçador desde sua juventude. Foi o fundador de Oyó teve por esposa Torosí, que era filha de Elémpe, rei da nação Tapa, esta foi mãe de Xangô e que mais tarde foi entronizado como rei.
       Numa lenda milenar está o registro de como Oranian foi concebido.
***Durante uma de suas expedições de conquista, Ogun tomou a cidade de Ogótun, saqueou-a e fez muitos escravos, dentre seus espólios de guerra estava uma prisioneira muito bela de nome Lakanjê, a qual agradou aos olhos do conquistador, porém, este não respeitou suas virtudes. Quando Oduduwa a viu ficou impressionado com a beleza de Lakanjê, desejou-a e a fez uma de suas esposas. Ogun, amedrontado e respeitoso não revelou a seu pai o que havia se passado entre os dois. Lakanjê ficou grávida e nove meses depois nascia Oranian. Seu corpo era verticalmente dividido em duas cores. Um dos lados era preto, pois, Ogún possuía pele escura, e do outro lado a pele era mais clara como a de Oduduwa.
      Após milhares de anos transcorridos o povo ainda comemora uma festa denominada de, a festa de Olojó em Ifé. É nesta ocasião que os sacerdotes e seguidores seguem juntamente com o Oòni, o rei local, e pintam seus corpos de preto e branco e saem em procissão do palácio até Okê Mògún, uma colina onde está erguido um monólito consagrado a Ogun e, num ritual especifico, é ornado com mariwô òpê. Nesse dia são feitos sacrifícios animais com cães e galos, que depois são dependurados na grande pedra. Oòní, o rei local, veste-se com suntuosidade, e na cabeça, usa a coroa que pertenceu a Oduduwa. É uma das raras ocasiões em que ele a usa publicamente fora dos domínios do palácio. Chegando diante da pedra de Ogun, cruza por um instante sua espada de Axogun em sinal de aliança, apesar do desprazer de Oduduwa quando descobriu que não era o único pai de Oranian.
      Determinados rituais são ainda, com alguma raridade, executados nas terras de origem das religiões africanas, porém, raros são os registros que se tem por aqui, dificultando assim o culto a muitos outros Orixás. É o caso de Ifá, um Orixá que não possui manifestação e, seu ritual está praticamente extinto.

 Axabó - Figura mítica para alguns e, para outros, Orixá extinto do culto e do panteão dos deuses africanos, porém, permanece nas lendas. Dizem que Axabó mantém estreita ligação com a lua e usa uma lira para fazer encantamentos. É em noite de lua cheia que faz os encantos atraindo os pescadores e, seus cânticos lembram os cantos das serias. Axabó usa desse artifício para tirar a vida daqueles que desafiam as águas em alto mar. Na África está vinculada ao culto de Xangô, pois, acreditam ser sua prima. Axabó possui poderes para que os sonhos sejam realizados, no entanto, também pode roubar os sonhos contados. Axabó veste vermelho.  
                             
Oráculos desenvolvidos no Candomblé  -  Nos cultos denominados afros brasileiros existem várias formas de preconizar determinadas situações, e dentre os mais conhecidos podemos citar o Ikin, jogo com 16 nozes de dendezeiro que é denominado Opele ou Kipele. Esta forma de oráculo reúne dezesseis nozes unidas por uma corrente fina e uma tira de palha da costa. Das dezesseis nozes, oito são abertas e oito são fechadas e é um instrumento utilizado somente pelos Babalawôs. Este oráculo, tradicionalmente é vetado às mulheres.
      No entanto, o oráculo mais popular é o jogo dos caoris, ou búzios como são mais conhecidos; este oráculo não é somente utilizado pelos Babalawôs, mas também por àqueles indivíduos preparados para o culto. Outro oráculo muito utilizado nas confirmações de perguntas é o oráculo que utiliza o Obí, fruto do obizeiro, árvore considerada sagrada no Candomblé. Existe também o Orobô, jogo semelhante ao do Obí.
       Com referência aos oráculos, existem ainda outras formas de fazer previsões, porém, poucos utilizados, mas de grande eficiência, são os oráculos que utilizam as folhas que é feito através das folhas e têm como patrono Ossayn, o Orixá das folhas. Outro oráculo, não muito conhecido é o jogo dos ossos, este, no entanto, é manipulado somente por um Baba Esá sacerdote do culto à Égúngún.
      Conforme foi dito, o Ikin e o Opele são oráculos exclusivos dos Babalawôs, muito embora, já existam versões femininas, as Iyálawôs que, aparentemente possuem as mesmas prerrogativas masculinas; no entanto, existem algumas contestações, pois, cntradizem as tradições.
O jogo de Obí e Orobô, muito embora seja o mais simplificado, sintetiza todas as respostas e é considerado de muita precisão. O Obí é um fruto que possui dois ou mais gomos e, quando aberto, é utilizado para o jogo de quatro gomos e é denominado Obí Abatá ou Méeran.
 Por ser um fruto sagrado e, por questão de fundamentos no candomblé, este fruto somente pode ser partido pela ação das unhas, dos dentes ou de uma faca feita de madeira, metal algum pode tocá-lo; é um fruto fundamental para muitas oferendas e determinados rituais. O motivo de o Obí não poder ser cortado com faca ou objeto de metal, é por estar relacionado com o Itan sobre Orí.
      Conta a historia que Orí conseguiu partir o fruto com a força do próprio corpo, que na época, era apenas uma forma arredondada com vida, tornando-se assim um Irumalé, Orixá com direito a assentamento juntamente aos outros Orixás. Ori teve como função em ajudar no processo da criação juntamente com Oxalá e Ajalá. Seu trabalho está no processo da criação sob o testemunho e orientação de Orúnmilá a ajudar ao Ser criado escolher o seu Odú seu destino.
    A utilização do Obí aberto em quatro partes é para ser jogado em qualquer situação de incerteza, no entanto, devem ser obedecidas certas normas que estão fundamentadas dentro das tradições, a saber: o oráculo ou jogo de Obí, deve ser feito no ambiente e para a situação especifica do momento ou do ato a ser realizado. O jogo é feito por quem está atuando diretamente em tal ato e com os orôs, as rezas específicas e, quem o faz, são somente os conhecedores das várias formas de caídas dos gomos. O jogo de Obí pode ser feito em qualquer lugar, em uma mesa ou no chão, evidentemente em lugar limpo e sempre sobre um pano branco. Diz na tradição que muito embora Orúnmilá seja o patrono deste jogo, Orí é quem responde.
Orunmilá Ifá - Deus do destino e regente dos oráculos - Orunmilá encontra-se em um plano mítico e simbólico além dos demais Orixás e, em Ifé, algumas lendas eram contadas narrando que foi o primeiro chefe e conselheiro de Oduduwa quando de sua chegada naquele reino. Outras fontes atestam que ele já estava instalado em Oké Igeti antes de vir e se fixar em Oké Itasé, uma colina onde mora Arabá, este, a mais alta dignidade e autoridade da adivinhação, é também chamado de Agbonmirégun, é o testemunho do destino dos Seres, e por esta razão é denominado Eleepi Ipin. Os Babalawôs, os pais dos segredos, são os portadores das palavras de Orúnmilá.
      A iniciação de um Babalawô não comporta a perda temporária de consciência, e por esse motivo a confirmação é feita com rituais específicos. No caso do Babalawô é uma iniciação quase que totalmente intelectual onde o aprendizado é longo, pois os conhecimentos são precisos, tudo depende da memorização e tudo funciona individualmente. No longo aprendizado estão implícitos o conhecimento de todos os Itans, estórias e lendas, fundamentos essenciais que classificam os 256 Odús, os signos de Ifá.
      Todo individuo ao nascer é ligado a um dos 256 Odús e é ele que formula a identidade individual no que tange ao seu destino. O Odú é que serve de guia na vida revelando o Orixá ao qual deverá, eventualmente, o individuo se dedicar; além disso, também indica todos os demais que poderão ajudar na caminhada da vida.
      Existem a princípio 16 combinações possíveis de Odú, e cada um deles recebe um nome particular por estarem ligados a cada um ou mais Orixás.   
      Conta uma lenda que depois de viver na terra por algum tempo Orunmilá voltou ao Orun, e para isso, esticou uma longa corda por onde subiu; os Seres humanos ficaram desorientados sem a presença dele, pois era ele que transmitia a vontade de Olorún através do oráculo.
      Olokún  aproveitou a situação e tomou quase toda a Terra tornando-a inabitável para os homens, porém, penalizado com a situação, Orúnmilá desceu novamente pela corda colocando tudo nos devidos lugares tornando assim a Terra novamente habitável.
      Outros oráculos são utilizados nos cultos afros brasileiros, o jogo de Obí, de Orobô e das folhas que, são elementos considerados sagrados, isso, por estarem relacionados com fundamentos da religião. No entanto, um dos mais populares oráculos é o denominado jogo de búzios, que consiste no lançamento de 21 cauris/búzios sobre uma superfície plana ou em uma peneira – a urupema - pelos Babalawôs, pelas Iyálorixás, pelos Babalorixás, e também por todos aqueles que, dentro do culto, são autorizados a exercerem tais atividades.
      Alguns outros jogos divinatórios são restritos a determinados sacerdotes, é o exemplo do jogo promovido pelos Baba Éegún que utilizam quatro ossos nos rituais de Égún-égún/Egúngún e que tem por patrono Babá Esá; este, no entanto, é pouco utilizado nos dias atuais pela falta de transmissão dos conhecimentos.
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    É de crucial importância esclarecer que além de determinadas restrições impostas pelo culto, os oráculos não são meros jogos divinatórios, funcionam numa inter-relação com os fundamentos, preceitos e compromissos adquiridos pelos iniciantes no processo de aprendizado e que não ficam somente na dependência do individuo, e sim num complexo sistema religioso. A autorização para fazer tais previsões é concedida por elementos astrais, não bastando, no entanto, de conhecimentos superficiais sobre o culto.
       Neste aspecto, primordialmente é necessário entender o intricado universo dos Orixás, pois, é através de tais entidades que tudo transcorre. Aqui, Orúnmilá é o senhor de toda a sabedoria e provedor do destino de todos os Seres, e através dele é que determinados indivíduos recebem como missão de existência, prerrogativas para serem intermediários no processo divinatório. Tais indivíduos adquirem os conhecimentos através de iniciações e confirmações que, com o passar do tempo e de conformidade com os estudos e dedicação, se aprimoram para desempenhar tal atividade.
      Para cada modalidade de oráculo existe uma entidade patronal, isto devido a determinados fundamentos advindos dos Itans, estórias que fazem parte da religião desde os primórdios, são estórias miticas que foram contadas pelos antigos Babalawôs, sacerdotes templários e ancestrais no culto. Assim, com exceção do oráculo dos ossos, já mencionado e outros oráculos não descritos, todos possuem seus patronos, ou seja: o oráculo das folhas tem por patrono Ossayn, pois tal Orixá é o detentor dos conhecimentos de todo o universo vegetal existente. As folhas são elementos essenciais nos cultos e rituais, no entanto, este oráculo não é muito difundido, pois ficou restrito a poucos e o conhecimento se perdeu no tempo.  
      Detendo-se nos oráculos mais usuais, ou seja, o jogo de Obí e Orobô usados nas confirmações de feituras e obrigações de iniciados, os búzios também são utilizados, muito embora, este seja mais conhecido é também o que mais oferece contradições exigindo do olhador um maior conhecimento. O jogo do Obí ou Orobô, embora sejam mais simplificados, são na verdade os que oferecem maior segurança quanto aos esclarecimentos e respostas.
      Considerado sagrado e místico, o Obí é um fruto que possui dois ou quatro gomos que, quando aberto em quatro partes é utilizado em jogos divinatórios. Existem, no entanto, outras denominações para o fruto, Obí Obatá ou Meerin e o Obí Mejim, este possuindo dois gomos, o que não impede de ter serventia para o oculto; sua utilização é quando, primeiramente, o fruto é dividido em quatro gomos iguais utilizando as unhas, dentes ou faca de bambu ou madeira. Por ser considerado um fruto sagrado e essencial em algumas oferendas, não é permitido o uso de qualquer instrumento de metal para parti-lo.
      A utilização do Obí, dividido em quatro gomos é fundamental em qualquer situação de incerteza, no entanto, segundo alguns Babalawôs, algumas regras devem ser seguidas, pois fazem parte das tradições e fundamentos.
      Diz na tradição, que embora Orúnmilá seja o patrono do jogo, Orí é quem responde por uma deferência de Exu, o emissário dos Orixás.
      Designado para uma situação específica de confirmação a uma resposta, o jogo de Obí pode ser feito no ambiente e momento que se desenvolve um ritual, quando são lançados ao chão, sobre uma mesa, ou qualquer outra superfície natural e plana, mas sempre tendo um pano branco, um ojá, estendido.
      Como todo oráculo, o jogo de Obí é desenvolvido por quem realiza o Orô - reza específica de saudação e invocação às divindades.
      O jogo de Obí é um dos mais eficientes e, por esse motivo, é utilizado com muita freqüência em diversos rituais, mas somente os mais graduados do culto, Axogún, Pegigan, Atogún, a Sidagan, a Iyápetebi, o Babalawô, a Iyálorixá, podem ser os olhadores. Além destes, um dos cargos mais importantes nas práticas divinatórias, é o Olowô, o mais confiável e conhecedor de todos os jogos divinatórios, sacerdote principal dos oráculos, este, no entanto, pouco conhecido e raro nos dias atuais. 
      A relação do Obí com o fato de não poder ser cortado com objeto de metal vem de estórias, lendas muito antigas. Conta uma delas que na época em que Ori possuía forma arredondada e com vida, conseguiu partir um Obí com a força de seu próprio corpo, tornando-se assim em um Irumalé. A partir de então, passou a ter direito a assentamento entre os outros Orixás e recebeu de Orúnmilá a função de ajudar no processo da criação juntamente com Oxalá e Ajalá, que é o de ajudar a escolher o Odú para os Seres criados.
      O jogo de búzios, cauri, meerendinlogun, dilongun ou simplesmente denominados de Ifá, são os nomes das formas de oráculos mais conhecidas no culto afro brasileiro. Sua origem verdadeira remonta aos primórdios da historia da humanidade e não há de fato conhecimento sobre em que época apareceu na África.
      Em território ioruba, os Babalawôs, em tempos remotos, já utilizavam os caramujos, cauris, como dinheiro ou em forma de um jogo de adivinhação. Contudo, existe uma antiga historia que diz ter sido alguns sábios, vindo do oriente que levaram para ilha de Madagascar tais conhecimentos e que de lá se espalhou pelo resto do continente africano. Por outro lado, existem algumas teorias falando dos fenícios e dos caldeus em relação a este método divinatório, até mesmo algumas estórias referente à Atlântida, porém, são apenas especulações.
      No Brasil, os cauris/búzios chegaram sob a forma de oráculo no final do séc. XIII trazidos pelos sacerdotes da nação nagô que, vindos do território ioruba na Nigéria, do Benin, do Daomé, de Togo e de Gana. Estes sacerdotes chegaram ao Brasil, não como escravos, como foi sempre deduzido, mas sim como expatriados, vitimas das muitas guerras internas entre os povos das diversas nações tribais na África e, muito embora a grande maioria negra na época fosse escrava, muitos deles vieram espontaneamente e aqui puderam desenvolver e conservar suas culturas.
      Com o tempo àqueles sacerdotes influenciaram e resgataram valores esquecidos e os jogos divinatórios faziam parte da nova situação. Posteriormente, adeptos se identificaram com as antigas tradições trazidas da África, e daí em diante o jogo de búzios, entre outras práticas culturais, se popularizou passando a integrar definitivamente o culto aos Orixás que estava de certa forma estabelecida na nova terra.
A Umbanda - A união de crenças e ritos advindos dos africanos, do nativo índio e do catolicismo é que surgiram os conceitos da Umbanda e podemos dizer que a Umbanda é a síntese do sincretismo formada por esse tripé de crenças; do africano a crença nos Orixás, dos índios os conceitos e ritos xamânicos, do catolicismo toda a iconografia dos santos promovendo o sincretismo religioso, e mais tarde, no final do século XIX juntou-se a estes mais um elemento formador de conceitos, o espiritismo kardecista. Todos estes elementos, não por acaso, aconteceu.
      No principio, ainda no tempo do Brasil colônia, os negros escravos nos poucos momentos de descanso, cantavam e dançavam através de subterfúgios em louvor aos Orixás. Entretanto, o sincretismo religioso tem suas origens, sobretudo no batuque, forma pela qual, negros alforriados manifestavam dentro de limitações sua religiosidade em forma de danças profanas, porém, com conteúdos estritamente religiosos; e foi da junção do sincretismo, do indígena, do cristão, dos bantos, dos sudanêses, congos e angolas, que deram início nas periferias das grandes cidades da época ao processo dos candomblés, nos quais, a religiosidade indígena teve grande participação e, na medida em que mais negros eram alforriados, mais se reagrupavam, conseguindo assim manifestar e por em prática os rituais de seus ancestrais.
      No início deste processo, os candombes, como eram denominados - palavra de origem banta que dá nome aos instrumentos de percussão surgiu o nome da dança executada nos terreiros, espaços de chão batido pelos pés e os quais se tornaram um designativo aos locais onde eram efetuadas as práticas religiosas acompanhadas ao som dos batuques, cantos e danças.
      Os candombes passaram então a incorporar elementos cristãos e indígenas atraindo fiéis do catimbó, prática religiosa desenvolvida por índios cristianizados. Tempos depois, uma insatisfação surgiu em torno de grupos sudaneses, estes, de descendência das nações Ijexá, Kêtu, Oyó e Benin, povos nagôs que tinham por ocasião, estabelecido os candomblés de nação e que rejeitavam a idéia de um culto conjunto ao dos Baba Égúns, culto aos ancestrais. A corrente religiosa banta católica, muito embora aceitasse o conceito da existência dos Orixás, estes de origem sudanesa, reafirmaram sua opção em cultuar tanto os caboclos quanto os antepassados africanos, derivando daí os primeiros conceitos umbandistas, criando-se assim uma das primeiras estruturas do sincretismo religioso brasileiro.
    Encontrando no batuque partes dos rituais de seus antepassados conseguiam assim por em prática, mesmo que modificada, os primeiros candombes, locais com nova estrutura onde foram incorporados nos rituais os transes mediúnicos, manifestando desta forma, os primeiros espíritos que, acreditavam serem os mensageiros informantes dos Orixás, ou seja, os caboclos e os pretos velhos. Este modo de manifestação religiosa deu origem ao Omolokô, ou Candomblé de caboclo para alguns. Desta forma e neste novo culto continuou vivo o sincretismo religioso dos ritos indígenas-cristãos, indexado ao panteão africano que possuía Orixás, Voduns e Inkices; e assim, para Olorún santificaram Tupã, Zambi e o deus católico cristão, juntamente com Iemanjá passaram a cultuar as Janainas, Iáras e Nossa Senhora; com Ogún passaram a conviver os cariris, os boiadeiros e São Jorge; com Oxóssi o Sultão das matas e São Sebastião; com Exu o caipora, as entidades do Catimbó e o diabo católico cristão aos Baba Égun estão também as crianças, a falange do Oriente, os caboclos e muitos outros ancestrais da nova Terra.
       Diferentemente dos conceitos determinantes no Candomblé, a Umbanda é composta pelos guias espirituais, espíritos que atuam em uma determinada linha e que, por sua vez, está ligada a um determinado Orixá. Cada terreiro tem a sua forma de interpretar e promover seus ritos, por isso o grande número de ramificações na própria crença. 
     Por estar ligada ao cristianismo, elemento formador da religião e um dos pilares do conceito umbandista, prega principalmente o amor, a caridade e a humildade, e seus guias espirituais, quando incorporados, passam seus conselhos sempre falando na fé, na justiça e na evolução. Estes guias possuem vários arquétipos pelos quais se apresentam na mecânica da incorporação e, cada um deles, pertence a uma determinada linha vibracional, são eles os pretos velhos, caboclos, boiadeiros, baianos, erês, Exus e povo do oriente. No entanto, estes arquétipos são apenas roupagens fluídicas utilizadas para se apresentarem diante do universo material, não significando que tenham sido necessariamente, escravos ou índios.
      Nas seções ou giras, assim denominadas, é que são desenvolvidos os rituais, neles são utilizados atabaques e outros instrumentos para acompanhar os pontos, as cantigas que ao longo de cada uma delas os guias passam a incorporar nos médiuns, estes denominados filhos de santo.
      Não obstante do histórico registrado que a Umbanda tenha surgido na época do Brasil colônia, para alguns, passou a existir após um evento ocorrido no Rio de janeiro através do médium Zélio Fernades em uma seção espírita kardecista. No entanto, foi deste episódio que elementos Kardecistas foram absorvidos pela Umbanda tradicional, ou seja, a que deu início nos candombes.
      Uma das manifestações religiosas que é muito confundida com a Umbanda é a Macumba carioca. Enquanto a primeira possuía, e continua possuindo local e fundamentos próprios, a segunda passou a integrar elementos denominados de esquerda, surgindo daí os termos esquerda e direita e, enquanto a Umbanda trabalha para o lado do bem, ou seja, o lado da direita, a Macumba, supostamente trabalha para com o lado oposto, à esquerda.
A Macumba carioca, como ficou conhecida, os rituais eram feitos geralmente durante a noite nas praias; com elementos fetichistas foi muitas vezes combatida e até mesmo censurara, chegando ao ponto de ser proibida, e desta forma, o culto foi recolhido de vez nos terreiros de Umbanda, porém, mantendo as características dos rituais e tendo suas seções em tempo diferente aos ritos de trabalhos ditos de direita. É nos ritos e seções referentes à macumba que são incorporados os denominados Exus de Umbanda, que também são denominados de guias, o que não desfaz de suas características e condições de pertencerem ao universo de espíritos, ou seja, Éguns. 
      Historicamente o termo macumba é originário do povo banto, ma-Kiumba, termo que define o culto aos ancestrais, aos Éguns, espíritos noturnos. Porém, existe outra versão que corresponde a uma árvore, cuja madeira leve, servia para fazer tambores, daí o nome da dança desenvolvida e que acabou dando origem ao nome da religião.
      Para muitos umbandistas, o termo macumba tornou-se um termo pejorativo, e com o tempo, o termo passou a ter a denominação de Kimbanda, numa rememoração ao culto de origem banta. Nesta nova forma de culto foram incorporadas todas aquelas entidades ou guias consideradas mais pernósticas quanto à aceitação dos conceitos básicos, ou seja, o amor e a caridade. Estas entidades ou guias passaram a dar uma compreensão no sentido de equilíbrio da própria estrutura religiosa, que a principio tinha o sentido de esquerda e direita, mas por uma questão de convenção e recompor estruturas, passaram a fazer parte da esquerda todos aqueles denominados Exus, porém, estes, no conceito do Candomblé, são denominados Éguns e taxados pejorativamente de capetas ou catiços, numa alusão ao diabo católico, mas que na verdade são espíritos desencarnados que voltam numa incorporação no processo mediúnico para cumprir determinadas tarefas e alcançar graus na escala evolutiva espiritual.   
      Diferentemente dos Exus que incorporam nas seções de Umbanda/Kimbanda, ou seja, à esquerda no processo ritual, o Exu no Candomblé, Exu Orixá, é considerado uma divindade atemporal com características individuais como a de tantos outros Orixás, é a energia dinâmica da reprodução e do movimento, por isso, em alguns casos é representado por um falo; é também o Orixá da renovação e transformação. Porém, apesar deste Orixá possuir suas características, foi no passado confundido e sincretizado com o diabo católico. Na Umbanda, independente de qualquer convenção, os Éguns são espíritos desencarnados que estão em evolução, por isso seus trabalhos, podem ser considerados como uma tarefa a ser cumprida. São eles os vigilantes dos princípios morais, da ética social que, de uma ou outra forma, cobram dos seres humanos um alerta para bom desempenho na convivência social. No entanto, alguns desses espíritos encontram-se na neutralidade, e outros ainda tornam-se mais revoltados pelo não reconhecimento da situação em que se encontram, estes são denominados de kiumbas que, neste caso, é preciso um trabalho de doutrinação. Teoricamente este é o processo para que tal espírito alcance o caminho da luz e reconheça o seu estado de espírito para que possa alcançar e recuperar o seu crescimento. Assim é a Umbanda, trabalhando com conceitos estritamente espirituais e tendo como princípios básicos a caridade e o amor ao próximo.
      Existem muitas outras formas de se ver a Umbanda, pois, desde o tempo dos candombes, dos Candomblés de caboclo, passando pelos Batuques, pelo Omolokô, pela Cabula, e reconhecendo a Macumba carioca como uma ramificação do culto, rememorou a Kimbanda que não contradiz princípios, mas apenas diferencia com equilíbrio as forças espirituais.  
      A Umbanda é na realidade uma religião genuinamente brasileira que, diversificada na forma, conceitos e conteúdos de seus ritos, passou a receber as denominações de Umbanda tradicional, africanizada, esotérica, iniciática, umbanda de caboclo, umbanda católica, umbanda traçada e outras; esta última com conceitos adaptados do candomblé que para alguns passou a ser denominada de Umbandomblé.
Os ciganos na Umbanda - Assim como todas as entidades ou espíritos denominados de guias na Umbanda possuem suas linhas, as entidades ciganas não poderiam ser diferentes; seus trabalhos são desenvolvidos na Linha do Oriente, pois de lá são seus ancestrais; alguns, no entanto, apresentam-se como vindos de outras nações. Isto ocorre por serem eles, desde sua saída da Índia, um povo andarilho e por onde passaram assimilaram muito das várias culturas.
      Apesar de o povo cigano possuir cultura própria, sempre se faz presente nas mesmas seções dos chamados Exus, isso porque, muitas vezes trabalham na mesma faixa de energia vibracional. Por um lado, como fazem parte integrante do culto, sempre incorporam nos seus médiuns com suas características próprias diferenciando-se dos demais guias. O lado feminino, muitas delas são identificadas como pombo gira cigana, pois, estas possuem histórico diferente de outras entidades ciganas; dizem serem elas, aquelas que não seguiram as rodas dos carroções e tornaram-se sedentárias, diferenciando-as das entidades que se fazem presentes somente na linha do Oriente.
        O relacionamento entre entidades ciganas e não ciganas, por questões culturais, é um relacionamento pacífico por estarem muitas vezes em níveis semelhantes de crescimento e vibração espiritual; assim como um Exu tem seu raio de ação, as entidades ciganas também o têm, não obstante de estarem lutando pelos mesmos objetivos, diferenciando-os apenas as questões culturais.
      O aparecimento das primeiras manifestações de entidades ciganas em médiuns deu-se pela necessidade de estarem presentes, ou seja, incorporados, para prestarem seus serviços em prol do Ser humano e deles próprios para seu crescimento.
      Não há registros de qual ou quando teriam se dado as primeiras incorporações de espíritos ciganos em um médium, sabe-se somente que passaram a fazer parte integrante no contexto da Umbanda, assim como os pretos velhos, caboclos e outras entidades guias.
      Fazendo uso de seus conhecimentos milenares, são exímios nas divinações feitas pelas cartas de baralho, nos jogos de dado, nas taças com água, nos cristais e outros elementos esotéricos.
Os Encantados e outras Entidades - Associados as divindades astrais, aos elementos na natureza e as energias emanadas do Orún, os Orixás estão estruturados em uma dimensão superior e infinitamente distante, porém, mantém-se ligados a cada individuo ou Ser existente, conservando assim funções independentes na cosmologia de outras entidades mais próximas do mundo material.
      Algumas histórias sustentam que tais entidades são ancestrais divinizados, chefes de clãs ou de linhagens que, posteriormente as suas mortes, foram cultuadas por outros clãs, tornando-se assim divindades de cultos extintos. No entanto, é através dos fundamentos da religião que encontramos provas irrefutáveis da criação, manutenção e a multiplicação dos Orixás.
      As atividades culturais e religiosas praticadas nas casas de culto ou nos terreiros, é que definem os limites de funções, até mesmo das entidades, pois estas são portadoras de energias diferenciadas, umas são astrais, outras são terrenas.     
Através de uma mutação, resultado da interação ritual e na transformação do axé é que são observados determinados fenômenos. Os Seres, ao completarem o ciclo de vida, transferem para a terra, numa forma de devolução os conteúdos a ela pertencentes. Enquanto os elementos astrais elevam-se a um espaço e um tempo diferente do mundo material, permanecendo, no entanto, num mundo espiritual, e como espíritos recebem várias denominações nas diferentes correntes religiosas apregoadas. Nos cultos afros brasileiro são denominados Éguns, mas nem todos, tornam-se dignitários a permanecer próximo ao mundo material, pois, a evolução da energia vital ao mundo astral também há de ser realizada.
      Àqueles que permanecem no Ayé, na Terra, circunscritos ao mundo espiritual, transformam-se em entidades configuradas que, ao incorporar em um médium, passa a fazer parte temporariamente do mundo físico. Tais entidades recebem denominações de acordo com as correntes religiosas que os cultuam e mantendo a cultura a que pertenciam quando em vida; encantados, guias, mestres, santos, são algumas das formas que os chamam, e alguns deles, também pelas diversas correntes, são representantes ou servidores específicos de entidades astrais mais elevadas, passando assim, a receber denominações condignas inerentes a entidades.
      Com prerrogativas das vidas anteriores, os Éguns, como entidades, possuem um vasto conhecimento social e cultural e, os graus de crescimento na escala evolutiva a cada um deles ficam na deferência das ações por eles próprios praticados, são entidades conscientes do estagio em que se encontram.
      Em algumas ramificações das várias práticas religiosas espirituais, tais entidades não são aceitas quando incorporadas, são respeitadas e tratadas apenas no mundo etéreo, são consideradas como energias restritivas com rituais específicos e distantes daqueles desenvolvidos aos Orixás propriamente ditos.
      Cultuados por algumas nações de Candomblé e mais especificamente nas casas de Umbanda, são eles que determinam sem imposição, o desenvolvimento de trabalhos por estarem mais próximos ao mundo material e por terem possuído uma vida física. Quando incorporados, explicitam conselhos, pois entendem bem todas as dificuldades e necessidades humanas.
      Quando incorporados, além de manterem suas individualidades, encontram-se sempre caracterizados pelas falanges a que pertencem e pelos nomes próprios por eles formulados, tornam-se indivíduos com todas as prerrogativas de sentimentos humanos.
      Tais entidades não possuem assentamentos, pois, seus elementos representativos estão inseridos na própria existência do Ayé, a Terra, onde eles se encontram, porém, muitas vezes são confundidos com entidades astrais não obstante da ligação que os mantém.
      Individualizados no relacionamento entre suas falanges possuem seus paramentos e fetiches na utilização dos diversos trabalhos que desenvolvem; suas roupas e insígnias, também individualizadas, os identificam.
      Cultuados em épocas remotas por sociedades secretas pertencentes a algumas nações, difundiram-se devido necessidade de expansão, e sua fusão com outras culturas resultou em um culto paralelo aos terreiros de Candomblé. (não confundir aqui com o culto aos Ëgungun, culto restrito e pertencente a um ritual secreto e especifico – culto aos ancestrais).
      Nos terreiros onde são desenvolvidos seus rituais estas entidades se apresentam, quando incorporados, como caboclos, pretos velhos, boiadeiros, ou simplesmente caracterizados como povo de rua, estes, no entanto, muito confundidos, recebem a denominação de Exu. Outra linha característica são os membros do universo cigano, estes, identificados e diferenciados por seguirem sempre uma falange, estão ligados por uma corrente que os irmana, pois, todos pertencem a uma comunidade, a comunidade dos Éguns, por isso a presença deles nas reuniões onde incorporam o povo de rua, como são conhecidos; no entanto, estes possuem seus diferenciais por pertencerem a uma cultura toda própria e distinta conservando assim suas tradições.
      Os poderes conferidos a um Égun encantado são proporcionais com sua experiência em vida, não raro são os casos de médicos, enfermeiras, padres, e até cientistas estarem ainda no plano terreno, pois são eles, dignitários de missões a serem cumpridas ou concluídas em um plano material, estes, no entanto, podem estar alinhados em outros segmentos religiosos, independentemente do formato ou estrutura religiosa.
      Para entender melhor a dinâmica da função de um Égun encantado é preciso estar atento com a sua cultura de origem quando em vida. Um caboclo, como exemplo, incorpora com suas características tribais em um médium e se identifica com elementos vivenciados na sua experiência de vida, pois, além de estar ligado diretamente com as forças astrais, está também ligado juntamente com as características tribais de sua origem quando em vida. Os elementos relacionados com os Orixás ficam implícitas em seus paramentos, armas, cores e insígnias; no entanto, pouco se sabe desta convivência astral, podemos apenas formular algumas hipóteses sensatas, pois, a incorporação desses elementos nos terreiros de Candomblé e na Umbanda, são  relativamente recentes se for analisado do ponto de vista temporal.  Na África, terra de origem dos dogmas místicos do Candomblé não existe registros ou tampouco transferência de tais elementos a outras culturas, o que faz crer, a princípio que, o desenvolvimento deste culto foi devido a questões culturais, um novo formato com novos conceitos que se deu no novo mundo, consequência natural de uma miscigenação propiciada pelas próprias entidades astrais.
      Nada pode ser confirmado quanto à mecânica ou o próprio formato a que um grupo social venha impor a tais entidades, o mais importante, no entanto, é o fato da existência e dos fenômenos que ocorrem. Com raras exceções aparecem no contexto elementos desconhecidos ou idiomas não formulados nos rituais; para diferentes linhas de ação ou falanges, diferentes formulações linguísticas, porém, na linha das diversas falanges do povo cigano são observados diversos idiomas e, entre alguns, está o espanhol, italiano, russo, e até mesmo um idioma egípcio já extinto, o que pode comprovar a idade temporal de determinadas entidades.
      Na linha de pretos velhos, eles apresentam-se como ex-escravos do período colonial; idosos e aparentando as mazelas deixadas por tal período, trazem grandes conhecimentos de uma medicina popular, de rezas e mandingas com conceitos xamânicos.
Pertencentes ao grupo formado pelo povo de rua, apesar das suas várias características, são individualizados de acordo com as falanges que os regem e um nome próprio com o qual se identificam, pois, seus nomes verdadeiros, com raras exceções são conhecidos até mesmo para os médiuns.
      Os Éguns, encantados da linha e das falanges do povo de rua, Exus como são conhecidos, passam a receber denominações de conformidade com as suas identidades de comando e de acordo a uma hierarquia; normalmente pertencem às comunidades de marinheiros, malandros e pombogira, esta, versão de Exu feminino está relacionada quase sempre aos cabarés e a vida boêmia e mundana do período inicial da república aqui no Brasil ou de períodos mais distantes do continente europeu. Esta é a parte feminina deste intricado universo. Zé Pilintra, tranca ruas, caveira, tiriri e muitos outros, são membros universalizados pertencentes a este sistema. Evidente que, cada falange corresponde a uma hierarquia, pois, as denominações citadas pertencem a uma entidade individualizada e com poderes de comando, comando este que também fica a critério de uma entidade maior com um poder de ação mais astralizado.
      O fato das entidades serem denominadas de Exus corresponde a um entendimento generalizado ao Orixá Exu de origem nagô e por ele estar diretamente ligado ao Ayé, a Terra, mas também, pelo dinamismo das forças, tanto astrais quanto terrenas.
      Assim como acontece na vida material, a hierarquia é fundamental também no plano espiritual, pois tais entidades têm seus poderes limitados, e quando ultrapassados tais limites, a responsabilidade fica a critério do livre arbítrio de cada uma delas, fazendo com que possam evoluir ou não.
      A considerar o aspecto evolutivo de tais entidades, evidenciado fica que todos os Seres são portadores de energias vitais, àquelas proporcionadas pelo axé individual; portanto, um Égun também requer que sejam feitas a reposição e manutenção de suas energias, e é através das oferendas à Exu – Orixá, que tais entidades e toda sua falange se fortalecem.
      Uma cadeia existencial interliga todas as forças Universais, tanto no Ayé quanto no Orún, colocando assim todas as estruturas em equilíbrio; mas, para tanto, o fortalecimento do axé tem que ser constante.
      As ligações de um Orixá a um Égun encantado, também e, pejorativamente denominado de escravo, são dadas pelo fato daquela entidade astral necessitar de um mensageiro que, através de uma entidade símbolo de Exu isso transcorre. Porém, há também outras entidades que são capazes de cumprir tal missão, são os Erês, estes simbolizados através de energias infantis ou infanto-juvenil, que são representadas pelas diversas falanges e acompanham cada um dos Orixás. Um Erê torna-se uma entidade complementar de suma importância e, seja no Universo astral ou quando incorporados passam a ser agentes, mesmo que com suas prerrogativas infantis nem sempre sejam respeitadas, são eles elementos fundamentais na comunicação verbal entre o Orixá e um iawô que esteja no processo de iniciação.   
      Existem ainda num patamar inferior os Kiumbas, estes são energias espirituais em desequilibro, energias de desencarnados que vagueiam pela escuridão, são energias de espiritos sofredores e perdidos a espera de uma luz ou de um resgate para que sejam encaminhados. Mas esse é o lado obscuro no conteúdo e conceito religioso, no entanto, é uma força utilizada pela kiumbanda, forma de culto que manipula tais energias para uso de malefícios.    
      Enfim, todos os elementos se interligam numa existência única e necessária para o crescimento Universal do Ser humano. Nos conteúdos místicos dos rituais desenvolvidos nos terreiros e nos ritos mais elaborados de uma oferenda é que estão presentes todos os fatores que desencadeiam, entre o mundo físico e o mundo astral, a magia, magia que transforma os encantados em Seres reais quando incorporados. 
 Os Encantados e os Pankararu - Não somente nas comunidades que desenvolvem a religião afro-brasileira, mas também em algumas comunidades indígenas, mas com diferenças culturais, existe o culto aos encantados. Os índios Pankararu, com alguma semelhança possuem seus encantados e uma vez por ano fazem um ritual no qual as entidades incorporam nos iniciados, assim é o grande mistério da aldeia, pois os encantados são considerados Seres sagrados. Os ritos são extremamente secretos e feitos no interior de um grande galpão, terreiro onde somente os homens iniciados participam.
      Com um roupão colorido cobrindo todo o corpo os iniciados saem em procissão ainda de madrugada, o cortejo é acompanhado por todos da tribo fazendo um trajeto que percorre toda a aldeia com cânticos e manifestações de alegria, e todos seguem o cortejo interminável. Ali estão os doentes e necessitados em busca de curas e aconselhamentos; ninguém sabe quem está por baixo dos roupões, porém, acreditam que são ancestrais que se tornaram encantados e estão ali incorporados e prontos para atender aos pedidos dos fiéis. A procissão é alegre, parece uma festa, mas para os Pankararu é uma penitência. Muitos são doentes precisando de ajuda, alguns somente acompanham e outros pedem bênçãos. Uma dança, o toré, é feita pelos encantados que são acompanhados por todos os participantes, e o ritual permanece por vários dias. O rito inclui ainda a dança do cansanção, uma planta conhecida por urtiga brava que provoca coceira e irritação na pele; para os índios esta planta tem o poder de afastar o mal e, ao final da dança pisam nos galhos da planta. Outro costume dos índios é a utilização do campiô, um cachimbo que quando fumado com determinadas ervas, é utilizado para chamar os encantados.
      Apesar de pertencer a manifestações culturais indígenas, os Pankararu reconhecem e mantém uma relação com santos católicos considerando-os também como sagrados, no entanto, reafirmam suas crenças nos rituais feitos aos encantados. Tal consideração aos santos católicos é pelo fato de terem no passado recebido influências da igreja católica. Foi no final do século XIX, quando a monarquia libertou os escravos, e estes, já catequizados, foram morar nas terras dos Pankararu se misturando aos índios, produzindo assim uma miscigenação racial
 O Toré - O Toré é uma dança que inclui também práticas religiosas secretas que somente os índios têm acesso. O objetivo do Toré é a comunicação com encantos e encantados que habitam no reino da Jurema, também conhecido por Juremá, referência de uma bebida feita com a casca da raiz da Juremeira.
      Em alguns Estados do nordeste brasileiro ainda é possível encontrar algumas tribos indígenas e fazer descrições de rituais relacionados ao chamado complexo da Jurema. Diferente da imagem da cabocla Jurema, cultuada na Umbanda, a Jurema dos índios nordestinos é um sacramento. Ponto comum entre as tribos é que em todas as comunidades ou etnias, o Toré é centrado na Jurema, árvore que fornece os símbolos dos Seres encantados e que proporciona a comunicação com os poderes invisíveis da natureza.
      Desenvolvido em diversos sistemas de culto no nordeste, seja no Catimbó, na Umbanda, nos Candomblés e nos Xangôs, focaliza no Toré indígena a ocorrência desta planta. 
      Quanto à dança propriamente dita, ela assume características diferentes em cada comunidade. Entre os Kiriri o Toré é dançado quase todos os fins de semana quando reúne homens, mulheres e crianças. Eles dançam em círculos em sentido anti-horário fazendo e desfazendo sucessivas espirais. Entre os Teixa, a dança não acontece com a mesma freqüência, mas apenas em ocasiões especiais, o grupo faz a dança formando quatro filas e fazendo várias coreografias.
      Outra dança é o Preiá, que é feita pelos Pankararú. Praiás são as entidades espirituais dos índios que somente incorporam nos homens, e os rituais se dão quando são vestidos com grandes máscaras ritualísticas que recobrem todo o corpo. Os Praiás formam uma sociedade secreta que se reúnem no Poro, local onde são realizados rituais mágicos religiosos e que são voltados para a cura das doenças.    
O Catimbó - A origem do Catimbó deu-se da mistura do culto de caboclos encantados da pajelança com a religiosidade dos Bantos, no qual, foram esboçados os primeiros conceitos dessa manifestação religiosa. Nos altares é que transparece essa mistura religiosa; são estampas e estátuas de santos católicos numa representação mística sincrética ao lado de símbolos indígenas, além de aves e animais secos, folhas e raízes de plantas, elementos considerados portadores energias.
     Entre os objetos consagrados para os rituais está a princesa, uma cuia de cobre ou um vasilhame de barro na qual repousa um rolo de fumo de corda sobre pano branco. Este conjunto constitui a ligação com o passado indígena, pois nela, é que é macerada e infusa a raiz da árvore Jurema, bebida considerada sagrada que, levemente alucinógena, induz a incorporação dos espíritos invocados pelos iniciados.
      No passado os Bantos aceitaram esta nova concepção religiosa, sobretudo, em termos ao culto aos mortos, pois os pajés e os catimbozeiros, através dos manacás e das cunhãs, comunicavam-se com o além, ou seja, o lugar místico onde se situa a existência de seus antepassados. Desta adaptação e ao modo do meio ambiente nasceram variações de cultos miscigenados indígena/cristão/africano, tais como, o Toré, o Tambor de Mina, o Babassuê e o Batuque, elementos que proporcionaram os primeiros conceitos da Umbanda com seus sete reinos espirituais e seus principais chefes indígenas, e mais tarde apareceram alguns espíritos isolados de catimbozeiros de descendência africana.

Tambor de Mina. Com diferentes denominações, mas com características idênticas, estão espalhados pelas diversas regiões no Brasil templos dedicados aos cultos das religiões denominadas afro-brasileira. De norte a sul, de leste a oeste, em qualquer quadrante encontramos algum tipo de manifestação relacionada ou advinda da cultura africana, e o Tambor de Mina é uma delas

      Desenvolvida na região norte, mais especificamente nos Estados do Pará e Maranhão, o Tambor de Mina é um misto de Candomblé e Umbanda, esta predominante, e muito da cultura ameríndia. Sua origem deu-se de forma específica naquela região por escravos oriundos do porto São Jorge da Mina na África ocidental, local onde ficavam confinados antes de embarcarem com destino ao Brasil.                                                                           
      Há, no entanto, uma variação muito grande quando se observa cada casa individualmente. Com diferentes modos de atividades, em algumas casas são desenvolvidos os trabalhos denominados de Cura, noutras a Pajelança. A Cura é de origem africana e a Pajelança tem origem nos rituais indígenas da região. Estes são os rituais mais conhecidos, porém, em outras regiões estas mesmas práticas aparecem com outras denominações, que podem ser o Terecô, o Vodun, Pajé, Santa Bárbara, Borba Soeira e outros.
      Nesta variante de culto, todos com denominação de Tambor de Mina, não e dada muita importância aos Orixás cultuados nos Candomblés de origem nagô, assim como as danças, cantigas, roupagem, instrumentos, utensílios e os brajás, contas, que são denominadas de rosários ou guias.
      Embora havendo diferenças específicas entre a Umbanda e o Tambor de Mina, fica difícil fazer uma analogia entre ambas, pois, algumas entidades pertencentes aos seus cultos participam daqueles praticados nas casas de Umbanda, o que as diferenciam são as tradições culturais de uma e de outra.
      A Cura e a Pajelança recebem a denominação de brinquedo ou toque de maracá, esta de origem ameríndia, muito embora a Cura e a Pajelança tenham origens e rituais diferentes, em ambos os rituais são utilizados os tambores de taboca, tambores tocados juntamente com outros instrumentos de percussão. Tais rituais são realizados anualmente em todas as casas de Tambor de Mina e, com algumas diferenças, também são realizados rituais que recebem várias denominações que podem ser o tambor de índio, o canjerê ou a borá. Nos rituais de cura, as entidades manifestadas são da linha dos caboclos e podem ser das águas, dos pássaros ou dos peixes. Existe também a linha das princesas, estas com uma característica muito peculiar, gostam de brincar de bumba meu boi e dançam o samba de crioulo, folguedos que fazem parte do folclórico daquela região.
       O que mais caracteriza o Tambor de Mina é pelo fato de ter sua origem na nação jêje, povo Ewê Fon, tanto nas entidades cultuadas, os Voduns, quanto no idioma utilizado nos cultos, sendo ressaltado ainda nos usos, costumes e instrumentos que são usados nos próprios rituais. Mesmo assim, percebe-se uma forte influência de procedência dos costumes da nação nagô. Os tambores abatás, são os principais instrumentos, são feitos de folha de flandres e tocados quando sobrepostos em cavaletes.
      Além dos Voduns, no Tambor de Mina existe a presença das entidades caboclas de procedência adversa e, outras ainda têm origem na cultura e no imaginário europeu mesclado pela cultura ameríndia. Em todas as casas as entidades são agrupadas em famílias conforme a organização de Voduns, que por vezes são denominadas de linhas tendo semelhanças com Umbanda. Outra característica do culto são os Voduns cultuados, estes, são procedentes do Daomé, como Averequete, Doçú, Poliboje, Bobô e outros, são mais de sessenta conhecidos; porém, mesmo com tal variedade, estão também incorporados no sistema religioso algumas entidades conhecidas nos Candomblés de Kêtu de origem nagô e de Angola e, mesmo que este número de entidades aparentemente seja grande, existe a manifestação dos denominados caboclos da linha de cura e da pajelança.
      Com suas características especificas o Tambor de Mina se diferencia de outras manifestações pelo fato de ter sido mesclado pela cultura ameríndia. O nome Tambor de Mina deriva de um instrumento, um tambor, e sua importância no culto tem origem do forte de São João da Mina na África, no antigo território que pertencia à república de Gana, onde existia um antigo posto de venda e embarque de escravos. Dos grupos que chegaram à região norte predominaram os Cambinda, Bijagô, Balanta, Malú, Manjaro, Felupe, Tápa, Nupês e outros, mas, mesmo não tendo sido os jêjes e os nagôs em grande número naquela região, mesmo assim houve uma grande influência na cultura regional.
      Outra variante do Tambor de Mina é o Tambor da Mata; nestas casas são cultuadas principalmente entidades brasileiras, os caboclos. Outra característica do Tambor de Mina é que nestas casas não existe o culto à Legbá - Exu, entidade que culturalmente pertence à tradição do povo Ewê Fon, como Exu do povo iorubá e, que em decorrência desse fato, também não há culto à Ifá, portanto, não existe a prática do jogo de búzios e os prognósticos oraculares são feitos por outros processos, isso em decorrência da ausência de entidades mensageiras. Outra característica do Tambor de Mina é que Oxún também não é cultuada ou louvada, nem cantigas são oferecidas em sua homenagem, isso porque, existe uma semelhança com o nome de Exu, no entanto, em algumas casas Oxún foi substituída por Navezuarina, nome da deusa das nascentes.
      Assim como na Umbanda, no Tambor de Mina o sincretismo com santos católicos é outra característica a ser observada, tanto quanto o calendário litúrgico e festivo.
      Antes das festas nas casas de culto os devotos assistem missas, fazem a eucaristia, participam de todos os ritos da igreja católica e, ao mesmo tempo, fazem os preparativos dos rituais consagrados às entidades no Tambor de Mina; é quando são enfeitadas as casas com alegorias dos santos cristãos mais cultuados.
     Toda casa de culto no Tambor de Mina possui um altar idêntico ao da Umbanda, o gongá, ou congá, onde são dispostas imagens de santos católicos de forma sincrética aos Voduns, e aos quais os fiéis têm devoção em especial a um deles. Desta forma, um fiel que incorpora um determinado Vodun, costuma organizar uma festa católica no dia do santo em que este tem sua comemoração e, juntamente com as festas católicas, as casas de Tambor de Mina também comemoram fazendo seus rituais.
      Uma das festas mais populares é a festa do Divino, que é caracterizada pelo toque de caixas, tambores que são tocados pelos caixeiros que dançam e cantam em homenagem ao Divino. Uma bandeira vermelha com a figura de uma pomba branca é o símbolo mais importante da festa.
      No calendário litúrgico todas as festas são realizadas em louvor aos santos católicos, assim como, no Tambor de Mina que, além da festa do divino são realizadas a do bumba meu boi e tambor de crioulo, festas populares na cultura geral da região.
      Em algumas casas de Tambor de Mina prevalece a cultura de origem nagô, porém, mesmo com a grande influência exercida pela cultura ameríndia, os instrumentos principais são dois tambores abatás que são tocados pelos abatizeiros e tudo é acompanhado por um instrumento de ferro tocado por homens ou mulheres. Conforme a casa ainda pode haver várias cabaças de tamanhos variados, sendo uma maior, geralmente tocada por homem. Existe ainda, em algumas casas, um tambor maior, este, no entanto, denominado Tambor da Mata e é tocado por homem; o instrumento é inclinado e amarrado na cintura ou entre as pernas do tocador, e alguns outros instrumentos aparecem em rituais mais específicos.
      Nas casas que de outras origens possuem procedimentos diferentes; nas de jêje, por exemplo, os tambores de madeira são tocados por homens com as mãos ou com varetas - agdavis, o gã um instrumento de ferro é geralmente tocado por mulheres, as ferreiras de gantó que são compartilhadas com o som de quatro ou cinco cabaças revestidas com fios de contas coloridas, também tocadas por mulheres.
      Na roda formada em dias de rituais no interior das casas de Tambor de Mina a predominância é feminina e as cantigas são no idioma Ewê Fon, assim como, nas casas com influência nagô predominam o ioruba, por vezes mesclado com o idioma português. Nos rituais realizados, sejam festivos ou não, essa predominância permanece, e quando as incorporações acontecem nos filhos de santo um pano branco é amarrado à cintura e, um lenço também branco é colocado na cabeça das mulheres. Os homens usam um chapéu, característica de todas as casas. Todos os participantes da roda de dança usam colares coloridos que são os rosários ou guias, e após a incorporação de uma entidade, esta se dirige ao altar, ao gongá e faz uma reverência, repetindo o ato aos tambores, ao chefe da casa e as demais entidades incorporadas; por fim, dirige-se à assistência e depois permanece todo o tempo com os olhos abertos participando com danças e rodopios no salão.
      Os sacrifícios de animais não são muito comuns nos ritos do Tambor de Mina, porém, algumas vezes são feitas oferendas de aves, frutas, peixes, comidas votivas dos Voduns, sendo que cada comida possui um nome característico. Nas casas de cultura jêje cada vodunsi, ou filho de santo, a manifestação é somente feita por uma entidade de origem africana e, em seguida, de alguns caboclos, sendo um deles o principal que é denominado caboclo de frente. No passado, em ritos especiais de iniciação os filhos de santo que eram feitos completos recebiam a denominação de vodunsis hunjais e tinham incorporações somente em alguns rituais de uma entidade feminina infantil, a Tobossi, porém, esta iniciação não é mais realizada e as Tobossi deixaram de incorporar.
      No Tambor de Mina os Voduns são agrupados em cinco famílias, sendo três maiores e duas menores. Nochê Naé, ou Sinhá Velha, que é a grande ancestral e mãe de todos os Voduns, esta não se manifesta, pois, seu histórico a denomina como a dona da árvore sagrada e é comemorada duas vezes por ano. Device é o nome da família real que reúne os Voduns da casta real, subdividindo-se em duas outras famílias, a de Dandarro, o rei mais idoso, e Zamadonce, este, dono da casa. Dos filhos mais proeminentes e cultuados de Dandarro é Doçú. Existem ainda os Voduns mais novos que são chamados Toquens, estes são importantes no processo ritual, pois são eles que chamam os mais velhos. No prolongamento familiar estão os Voduns hóspedes, um deles recebe a denominação de Lavalanu, entidade feminina originária da região do mesmo nome no Daomé, antigo Benin. Outra família hospede é a de Aladanu, também do Daomé, pertencente ao povo Ewê Fon.
      Outra grande família é a de Quevioso, esta, no entanto, de origem nagô. Nas casas de Mina com a predominância da cultura jêje seus Voduns não falam, isso em virtude de uma lenda em que eles, os Voduns, permanecem assim para não revelar seus segredos. Tais Voduns pertencem a uma família astral, são eles que controlam os elementos da natureza. Nesta família o chefe é Bodé Quevioso, o dono do trovão que é ajudado nas tarefas por sua mãe ou pela sua irmã mais velha Nochê Sabô, esta controla os raios que caem sobre a Terra. Devido ao sincretismo religioso, Bodé Quevioso é comemorado no dia de São Pedro e Nochê Sabô no dia de Santa Bárbara e, tais festejos também dão inicio ao calendário litúrgico nas casas de Tambor de Mina.
      Entre os muitos Voduns existentes, o mais conhecido é Avereque que, no sincretismo católico é São Benedito o padroeiro das casas do Tambor de Mina, pois é ele quem traz os caboclos para participarem dos cultos.
      A terceira família tem uma grande importância para as casas de origem jêje, é a de Dambirá, esta representa o panteão da Terra, são os reis caboclos que combatem as doenças, têm em dependências externas suas moradas sob o comando de Acossi Sakapatá e pelos irmãos Azoni e Azoneci, estes, são comemorados no dia de São Sebastião. Acossi tem seu sincretismo com São Lazaro e suas oferendas são feitas entremeio as plantas, e no dia de sua festa é ofertado aos cachorros um banquete.
      No universo religioso das casas de Tambor de Mina, alguns Voduns de origem da nação jêje, tem sua correspondência a determinados Orixás da cultura nagô, temos como exemplo Doçú, que é o cavaleiro - Ogún; Bodé Quevioço - Xangô; Nochê Sabô - Iansã; Abe - Iemanjá; Toçi e Toçé - Ibedji; Boçá e Boçucó - Oxumaré; Acossi - Obaluayé; Nãnã é a mesma nas duas tradições. Existem ainda muitos outros Voduns, no entanto, não possuem correspondência em nações de outras origens.
      Na grande variedade de entidades existentes nas casas de Tambor de Mina uma delas já não mais existe, são as Tobosis, entidades femininas denominadas de sinhazinhas e que eram as entidades infantis que incorporavam nas vodunsis; estas por sua vez, haviam sido submetidas a rituais especiais quando da iniciação, tornavam-se vodunsis hunjais, no entanto, com o passar dos tempos não houve mais feituras e tais entidades não mais incorporaram, perdeu-se assim uma parte da cultura religiosa. As Tobosis falavam um idioma incompreensível, talvez extinto, sua manifestação se dava nos períodos festivos de Natal, nas festas juninas, nas festas de Nochê Dae e no carnaval. Permaneciam em transe durante nove dias e seus alimentos eram específicos para a ocasião, tomavam banhos pela madrugada e tinham suas próprias danças e cantigas, além disso, brincavam e faziam distribuição de guloseimas aos visitantes. Suas vestimentas eram feitas com panos da costa e uma manta com miçangas coloridas, o traje ainda tinha uma pequena trouxa de roupa sobre a cabeça. Uma das funções das Tobosis era a de dar o nome, sempre de origem africana, para as novas iniciadas, um processo idêntico ao de dar o Orunkó em outros candomblés.  
      Em algumas casas de Tambor de Mina existem festividades dedicadas às Princesas, denominação nos dias atuais para as Tobosis, logicamente feitas através de ritos diferenciados. Entre estas entidades infantis estão presentes nomes como, Bossá Meméia e outros característicos como, Flor de Liz, Flor do Dia, Princesa Clarice e outros. Este fato demonstra uma situação muito próxima à cultura ioruba nas casas de Candomblé Kêtu, uma semelhança com as festividades comemorativas dos Ibejis.
      Existe ainda na região norte, mais especialmente no Maranhão, um grande número de entidades de origem africana que se adaptaram no contexto religioso daquelas terras; no entanto, muitas delas não são bem estabelecidas, pois nessas casas possui muitos cultos e, entre eles, está Légua Buji-Buá, tido como um Vodun que tem suas origens nas vaquejadas, e é denominado Boiadeiro de Codó que possui uma família com diversos filhos. Outro que faz parte desse universo é Içavaviçavá, entidade considerada muito velha e, entre muitas outras entidades cultuadas nas casas de Tambor de Mina, as mais conhecidas são Boçujara, Boçu von Bureji, Xadatã, Obaila, Tobossé, Aquilital e outros que são de origens desconhecidas.
O Omolokô ou Cabula - Outra manifestação religiosa proveniente das culturas africanas é a denominada nação Omolokô; seus rituais chegaram ao Brasil trazido pelos Loko, uma pequena tribo que pertencia a um grupo maior denominado Mane de Serra Leoa na África, conhecida também como Lucudo Quiôco. No entanto, há também outras versões para a origem do nome Omolokô, uma delas é a de ter sido associado o nome de Loko ao Vodun Iroko cultuado pelos Ewê Fon.
      Nas terras de origem tinham por hábito cultuarem deuses e totens esculpidos em madeira com formas humana ou de animais; por ser um povo guerreiro, sempre que venciam uma batalha agradavam àqueles deuses com oferendas de comidas e bebidas, mas, quando eram vencidos, os mesmos deuses eram açoitados com chicotes. Aqui no Brasil seus rituais nos dias atuais sofreram influências de outras nações, principalmente as de origem nagô e jêje, cultuando tanto os Orixás quanto a Éguns, ou seja, pretos velhos e caboclos.
      O pensamento filosófico e religioso, ritos e demais preceitos são basicamente os mesmos desenvolvidos nos segmentos advindos das várias outras nações, mas com o passar dos tempos foi se transformando. Aculturada e transformada em alguns aspectos, o culto denominado Omolokô nos dias atuais quase não é mais praticado. No passado, o culto estava ligado à Okó, a deusa da Agricultura, divindade feminina que na África era adorada nas noites de lua nova pelas mulheres agricultoras de inhame. Aqui no Brasil, passou a ser cultuada e ter seus assentamentos juntamente com Oxóssi; seu culto ficou restrito a poucas casas nos estados do sul do Brasil.
       O Omolokô e a Umbanda possuem semelhanças, pois ambas passaram a ter as mesmas características nos rituais. Nas casas que praticam estes cultos, caboclos e pretos velhos incorporam da mesma forma, porém, no Omolokô os Orixás estão presentes e recebem as mesmas doutrinas que são acompanhadas sempre do sincretismo com santos católicos, assim como nos Candomblés, que em alguns rituais têm as mesmas características, pois são feitas oferendas e sacrifícios de animais.
      Os cultos nas casas que desenvolvem os rituais de Omolokô permanecem com seus pensamentos voltados aos cultos à natureza, no entanto, de uma forma mais dividida, forma esta que agrupam entidades astrais em categorias, ou seja, a existência de Orixás maiores e Orixás menores com suas importâncias nos planos terrenos.
      Os Orixás maiores são entidades consideradas entidades celestiais e têm uma relação com o controle da natureza, assim, temos como exemplo a presença de um deus supremo, N’Zambi ou Olorún, que é o criador e provedor da vida; Iemanjá que é a responsável pelos mares e tudo que nele vive; Xangô que dissemina energia através do trovão, e assim por diante.
      Há de se observar que, todas as religiões denominadas afro-brasileira têm em suas origens um culto comum, o culto à natureza, e através de entidades astralizadas é que o culto se desenvolve; no entanto, mudam alguns conceitos das atividades de determinadas divindades, mas mantendo a relação com os mesmos elementos naturais. Acreditam ainda os adeptos do Omolokô, que os Orixás maiores são energias puras, isto é, não passaram pelo processo de vida terrena e suas energias tiveram origem em N’Zambi, o deus superior e onipotente. Os Orixás maiores são chamados pelo primeiro e único nome, Ogún, Xangô, Oxún, Omulú e os demais conhecidos nos Candomblés de origem nagô.
      Por outro lado, existem neste culto as presenças dos Orixás menores que são considerados os mediadores entre os Orixás maiores; são àqueles que através das lendas e historias tornaram-se figuras eminentes no desenvolvimento das tribos e nações africanas, assim como, os heróis demiurgos, e são também incluídos neste rol espíritos de antigos reis, índios e caboclos. Entendem ainda que, as essências dos Orixás menores podem ser de qualquer espírito humano desencarnado, como exemplo, a existência dos vários Xangôs, dos vários Ogúns e de várias outras entidades astrais que estão presentes nos cultos. Estas entidades menores foram os vários personagens de um mundo real de onde partiram com mitos e lendas para o astral onde se tornaram semideuses, mas se fazem presentes quando solicitados através dos rituais. Assim, passam a entender seus seguidores, sejam os Orixás menores, possuidores dos mesmos nomes e poderes dos Orixás maiores identificando-os com um sobrenome, onde se encontram Ogún Beira Mar, Ogún Megê e muitos outros, acontecendo o mesmo com os muitos Orixás existentes, muitos até mesmo desconhecidos dos próprios seguidores nas casas de culto Omolokô.

 O Vodu - Palavra que significa espírito, tornou-se uma crença religiosa levada para o Haiti, Trininda Tobago, sul dos Estados Unidos, no Estado da Lousiania e alguns Estados do norte do Brasil, é originário do Daomé, região oriental da África, mais particularmente do Benyn.

      Fazendo uso de elementos pertencentes ao catolicismo, de forma sincrética, o Vodú tem suas origens nas religiões tribais e onde é venerado além de um deus único, o Bondye, são também cultuados os ancestrais e os gêmeos, que são denominados Lwa. Os Lwa variam de lugar para lugar; estes são deuses tribais africanos e possuem um sincretismo com santos católicos, como exemplo, o deus serpente é representado por São Patrício. Outros elementos católicos existentes no Vodú incluem a utilização de velas, sinetes, orações e a prática do batismo, sendo o sinal da cruz o símbolo mais usual em algumas cerimônias. Há também sacrifícios animais. Nos rituais, também são utilizados elementos de origem africana, como a dança ao som de tambores semelhantes a outras religiões da mesma origem, e os rituais são dirigidos somente pelos sacerdotes, os Houngan, ou pelas sacerdotisas, as Mambos.
      Zumbi ou Zumbie tem origem no idioma Ewê Fon, que no Vodú significa corpo sem alma daqueles que são renascidos através de uma magia, é quando a vida é devolvida a um morto e dele feito um empregado para trabalhos físicos.
      Nas tradições Vodú, no Daomé, Zumbi é um Ser Bacoe, diz-se assim, daquele que teve a alma roubada por um sacerdote, o Tibom ou o Bacorte. Este roubo é feito mediante rituais onde são invocados os Lwa Petwo, deuses obscuros que fazem parte dos rituais de magia negra e são invocados quando a pessoa está para morrer ou logo após a sua morte. O Tibom, outra denominação para a palavra sacerdote que, após a conclusão dos rituais, passa a ter completo controle do corpo da pessoa morta que carece de qualquer raciocínio ou qualquer controle autônomo, de modo que passa a ser manipulado como um escravo, como se fosse um morto vivo, como se estivesse num estado cataplético, e com o passar do tempo o zumbi vai definhando e seu corpo acaba por deteriorar-se morrendo definitivamente.
      Os deuses e ritos Petwo possuem um caráter agressivo e marcante que faz com que sejam invocados espíritos de destruição, e é com sacrifícios de animais que morrem simbolicamente representando a quem ou alguma pessoa a qual se quer prejudicar. Existem também fetiches em forma de bonecos em cera, madeira ou pano representando a pessoa que se quer fazer algum mal ou, até mesmo no caso de eliminá-la. Tais bonecos costumam-se jogá-los ao fogo ou espetá-los com pequenas hastes enferrujadas nas regiões vitais do corpo.
      Mas também existe outro tipo de Vodú, o Rada Canzo, modalidade mais branda; esta é baseada na magia branca; no entanto, também utiliza elementos cristãos e de origem africana. Com algumas variações nos rituais os deuses dessa modalidade de Vodú são benéficos, são divindades que se comunicam através dos sonhos ou até são manifestados durante os rituais. A presença da divindade incorporada é revelada por um estado de transe numa dança estilizada; cada grupo de praticante tem seu local para realizar rituais e cerimônias.
      A palavra zumbi é utilizada no Zaire quando se refere a um médium, porém, a mesma palavra em algumas regiões pode significar fantasma ou outros espíritos, ou ainda, até mesmo a um deus com forma de serpente, que é reverenciada ainda hoje por alguns povos da região oeste da África.
      O Vodú haitiano foi criado no século XVII quando os africanos escravizados trouxeram para as Américas diversas tradições religiosas da África ocidental e central, e foi exposta a uma série de tradições européias, incluindo as artes e as práticas rituais, principalmente do catolicismo, religião predominante na época.
       O Haiti quando de sua descoberta em 1492 era apenas uma ilha habitada por nativos, os taina arauak, mais tarde, colonizadores espanhóis quase os dizimaram; porém, em 1697, os franceses dominaram boa parte da ilha iniciando o ciclo de escravos africanos, os quais passaram a ser dominados pelo chicote. Em 1791 uma grande revolta dos escravos pôs fim ao domínio do terror expulsando os franceses, esta revolta deu origem à independência da Ilha.
      Da mesma forma que ocorreu em outras terras onde os negros serviram como escravos, no Haiti não foram diferente, a conversão forçada ao catolicismo resultou num sincretismo nas religiões dos africanos e dos tainos, que foram absorvidos mais tarde pelo Vodú, e a arte Vodú é a pedra fundamental desta religião, é a própria encarnação das idéias religiosas mantidas por seus seguidores. O significado dos objetos utilizados nos cultos é explicado de forma sucinta, seus seguidores procuram nas imagens dos deuses sinais de mistérios divinos. Fiéis são capazes de incitar um espírito em modelos esculpidos e, assim sendo, o metal, a madeira e o tecido, aparentemente brutos, são transformados em um meio de comunicação, de ligação com os deuses do Vodú. As grandes imagens de Legbá dão aos dançarinos, nos rituais, uma nova energia e os espetáculos naturais do trovão e dos relâmpagos são interpretados como expressões da vontade e da punição divina. Ao contrário das religiões monoteístas o Vodú possui um santuário povoado por uma infinidade de divindades.
      Tais divindades têm mais de quatro mil anos, são advindas da África e de antigas tradições, Hevioso e Xangô são divindades milenares. Relatos de comerciantes e de viajantes europeus que estiveram no Benin atestam, desde então, a existência destes deuses. Em alguns casos, os templos e os cerimoniais que são descritos, estão até nos dias de hoje quase que inalterados. O templo de Dangbé em Ouidah é um desses lugares. No entanto, esses deuses parecem ser contraditórios, mas também criativos e, entre eles, não há nenhuma hierarquia aparente, são passiveis de estarem irados em um momento e dóceis logo após. Nenhuns dos deuses aparentam semelhanças e todos desempenham papeis diferentes, existindo até mesmo aqueles bissexuados que, ao seu bel prazer, mudam suas características, e Legbá, o mensageiro dos deuses, desencadeia seu poder quando se transforma em dois deuses.
      Os altares são arrumados para prestar honras e fazer evocações aos Lwa, os deuses Vodu, e tais altares podem estar locados em santuários, templos ou mesmo em ambientes propícios e particulares. Onde quer que sejam encontrados, estes espaços são considerados sagrados, um espaço onde o mundo natural e sobrenatural se fusiona. Nos altares são montadas as imagens do Lwa, juntamente com as oferendas que são constituídas de jóias, espelhos, bebidas, perfumes, cigarros e outros elementos, tudo para satisfazer os gostos da divindade. Cada altar possui sua identidade particular onde o Lwa e os objetos são de acordo com a nação espiritual e familiar. No Vodú existem três nações principais identificadas, que são: Rada, Petwo-Congo e Bizango. A nação Rada presta seu culto ao Lwa, herdado da África ocidental e, devido ao sincretismo, utiliza muitas imagens de santos católicos. Os de Petwo-Congo demonstram seu Lwa com imagens suntuosas, resultado da afirmação herdada do povo do Congo, e os altares de Bizango, que são na maioria secretos, possuem muitos objetos íntimos apropriados às funções sociais.
      Uma característica nos templos Vodú é o rito das bandeiras, denominadas drapos; elas desfilam em torno do templo no inicio de cerimônias. O desfile é feito para saudar os espíritos e preparar as energias dos devotos. São bandeiras adornadas com lantejoulas e apliques de bordados, estas bandeiras são os tipos mais freqüentes na arte sacra do Vodú. Cada drapo é dedicada a um Lwa e nelas estão seus símbolos que refletem a síntese cultural; são símbolos africanos que se confrontam e fundem-se formando uma diversidade, pois nelas estão contidos elementos católicos e insígnias militares.
      As atividades do Vodú concentram-se nos templos que são divididos em espaços definidos; o cerimonial transcorre no peristil e no altar, um santuário que fica adjacente e que é somente usado para rituais de curas e louvações em confidência. Os devotos referem-se ao templo como ounfó, e é nele que ao ritmo de tambores cantam e dançam em torno de uma coluna que fica ao centro do salão denominado poto mitan, ponto de atração das energias divinas. Induzidos pelo som e pelas cantigas, os Lwa manifestam-se em seus iniciados vestidos de acordo com suas origens e alimentados com oferendas aos seus gostos. Na prática religiosa Vodú os espíritos são expressões das almas dos antepassados, confundem-se com a personificação divina da natureza ou de emoções humanas.
      As centenas de Lwa, além das nações à que pertencem, possuem suas famílias, e uma das maiores nações, a Rada, é detentora dos espíritos benignos dos ancestrais africanos. A Retro apresenta seus espíritos mais impetuosos e representam as tradições africanas e crioulas locais.
Há séculos passados espíritos benignos ajudaram os povos africanos a sobreviver à escravidão, passaram a ter uma forma de vida e, assim sendo, aparecem como figuras lendárias da historia, como a do almirante Agwe, um dos espíritos da nação Rada, capitão e protetor dos barcos nos mares. Um barco ritual de Agwe pode estar pendurado ao abrigo nos templos e as oferendas deste Lwa possuem temas náuticos.
       Azaka, mais comumente conhecido como Zaka é o patrono da agricultura; natural das montanhas é tratado por todos como papa ou primo, e sua figura é a de um camponês.
       Bosou, o touro de três chifres é tido como o protetor espiritual do corpo, e constantemente é invocado em seu aspecto na nação Petwo, onde se apresenta como espírito do Congo; seus domínios são as encruzilhadas e os cemitérios. Basou é representado por imagens com três chifres.
      Danbala, a divindade patriarcal da serpente é um espírito antigo e está relacionada com a água e associado com a chuva, a sabedoria e a fertilidade. É representada freqüentemente entrelaçada com sua esposa Ayida Wedo, o arco íris.  Nos templos que o cultuam existe sempre uma grande bacia com água, além de ter ao lado um ovo, símbolo da procriação.
      Ezili Danto, esta é uma negra e representa a mulher trabalhadora, veste-se com trajes azuis, vermelho ou multicolorido e não possui consorte, mas tem uma filha, Anais, para a qual é devotada; sua imagem é a de uma mãe preta trazendo nos braços uma criança.
      Ezili Freda a deusa do amor e da riqueza é a mulher crioula, adora roupas, jóias e perfumes, suas oferendas são bebidas doces e arroz cozido no leite com bananas fritas, canela e açúcar.
      Gedê vem de uma família de espíritos ásperos que personificam a morte e a ressurreição sexual dos ancestrais. Os membros desta família vestem-se com trajes pretos ou roxos e cercam-se de imagens de cemitérios. Gede é um sábio conselheiro e um curandeiro benevolente; tem amor especial pelas crianças.
      Lazirem é uma sereia, trás sorte e dinheiro das profundezas do oceano e possui encanto sobrenatural. Ela é sedutora como Ezili Freda e feroz como Ezili Danto, muitos a chamam de Ezili das águas. Seu altar é enfeitado com espelhos, conchas e chifres.
      Lwa é o senhor da grande floresta e preside sobre os grandes mistérios da cura e da iniciação. A representação de Lwa tende a ser abstrata, e evoca principalmente a forma de uma árvore, das folhas e objetos feitos de madeira natural; o mártir São Sebastião amarrado numa árvore é sua representação.
      Existem muitos outros Lwa os quais são cultuados de maneira idêntica, mas conservando sua individualidade, assim como os objetos de adoração; o tambor, por exemplo, é o mais sagrado deles, isso porque, de certa forma ele fala com voz divina, sem ele não haveria o Vodú.
      As artes sacras do Vodú incluem centenas de outros tipos de objetos, alguns estão em todos os templos ou altares domésticos, outros refletem a historia ao gosto pessoal ou dos espíritos cultuados. Quase tudo pode ser dedicado a um Lwa quando colocado sobre um altar ou em algum trabalho religioso. Todos esses objetos podem possuir energias mágicas porque são capazes de transformar o natural em sobrenatural.
      Para abrir os caminhos para a energia divina, os sentidos devem ser despertados e o som é o caminho fundamental para a divindade. Os sentidos da vida, do odor, do sabor e do toque dos tambores são estimulados também no Vodú; os ritmos dos tambores dão vida ao ritual. O grupo de Rada utiliza três tambores cilíndricos ajustados por talhos em forma de taça, dizem chamar os espíritos antigos do Daomé. O grupo de Petwo utiliza um par de tambores de fibra vegetal, são instrumentos originários do Congo, são eles que puxam o ritmo mais afinado dos rituais, e o estalar de um chicote também pode chamar um Lwa. Os chocalhos de casca natural de coquinhos são usados pelos sacerdotes durante os rituais. Um amarrado de ossos é usado para os ritos de Rada e, para os ritos de Petwo, os sacerdotes usam pequenos sinos para despertar o Lwa em todos os rituais confidenciais. Os braseiros enviam pedidos ao mundo dos espíritos através de rolos de fumaça e os incensos enchem o ar de perfume. Muitos objetos são possuidores de valores espirituais ou agem como repositórios dos mesmos. Os pacotes de Congo, usados em altares de Petwo e nos rituais de cura são cheios de folhas, ervas, terra e outros ingredientes. Os frascos, gavi, contêm essência do espírito de membros falecidos da família do Vodú e são mantidos em cima dos altares. Os potes, tei, são depósitos para unhas e cabelos dos novatos iniciados que são mantidos em altares e guardados com os colares dos devotos. Os calabaches, vasilhas, Kwi, geralmente são usados para oferendas de alimentos e podem ser pintados com imagens ou sinais sagrados. Os frascos de libação, decorados ou não, são colocados nos altares e, o conteúdo, é servido em rituais. Os frascos claros com torsos de bonecos são pendurados, mas, raramente são encontrados em altares, são usados nas adivinhações ou como encantos para manter ausentes os maus espíritos. As bonecas de pano são usadas principalmente como mensageiras ao mundo espiritual, são deixadas em cemitérios ou nas encruzilhadas e podem conter anotações secretas amarradas em seus corpos. As bonecas de porcelana, borracha ou plástico, são por vezes usadas para representar um Lwa. As bonecas perfuradas com alfinetes para causar dores físicas são utilizadas em trabalhos maléficos, consideradas como magia negra.
      O mundo material está cheio de sinais divinos, representações dos Lwa que conectam energias divinas às percepções humanas. A cruz Kwá, o mais sublime símbolo do cristianismo é também o sinal da encruzilhada, ponto de transferência da vida dividida do outro lado por Legbá, por Godê e por Bawon Londi. Os espelhos Mirwa refletem o outro lado da realidade onde se encontra o reino de Lwa e sugerem o mundo aquoso de Laziren e Agwe para onde as almas migram após a morte. O estandarte wá wangol saúda o rei de Angola na festa dos reis em 6 de janeiro e presta homenagens aos espíritos dos índios Taino que foram os primeiros habitantes do Haiti. Os sacos, mokout, são lançados sobre os ombros dos lavradores, e assim, consagrados a Lwa Zaca, patrono natural de todos os povos do Haiti. 
 O Batuque - Batuque assim é denominado o Candomblé no Rio Grande do Sul e tem sua origem com a vinda dos povos da Costa da Guiné com as nações jêje, ijexá, oyó e cabinda. Teve inicio no século XIX quando ocorreu a migração de escravos e ex-escravos na região Sul do Brasil.
       Possuindo estruturas fundamentadas em raízes nigerianas da nação ijexá, o Batuque surgiu como tantas outras manifestações religiosas afrobrasileira, e foi criada e adaptada pelos escravos; em resumo, o Batuque é a junção dos rituais ijexá, oyó, jêje e cabinda. As divindades e assentamentos são semelhantes em todas as casas, diferenciando somente em alguns detalhes a respeito das tradições próprias a cada uma delas, ou seja, no preparo de alimentos e nas oferendas.
      Cultuando os vários Orixás, oriundos das várias regiões africanas são os mesmos de outros Candomblés, porém, o ijexá predomina ao ser associado aos rituais de todas as outras nações. Os Orixás são cultuados como em outros Candomblés, no entanto, com diferenças em algumas denominações e funções dentro do culto. Bara é o mesmo Exu de outras nações e é igualmente assentado, porém, entre os Orixás não há uma hierarquia rígida, tornando-os todos iguais perante os ritos, mas diferenciando-os somente quanto a suas funções no culto.
       No Batuque, diferentemente dos Candomblés das nações kêtu, angola e jêje, mais tradicionais nas regiões leste e norte do Brasil, são cultuados Bara, Ogún, Oyá, Xangô, Oxún, Odé, Otin, Obá, Ossayn, Xapanã, Yemanjá e Oxalá; cultuam ainda Ibeji que tem seu ritual ligado aos cultos a Xangô e Orunmilá, que também está ligado ao culto a Oxalá. No entanto, existem ainda outras divindades que não são cultuadas em todas as nações, são entidades com um indicativo de qualidade que em muitos casos são desconhecidos com Exu Elegbara, que está ligado ao culto de Xapanã, Zina, Zambirá e Xanguín.
       Localizados nos perímetros urbanos os templos possuem uma identidade local diferenciando-se dos Candomblés tradicionais; os templos são geralmente construídos e integrados com residências onde são feitos todos os ritos e também onde são mantidos todos os assentos dos Orixás, porém, mantendo os assentamentos de Bara Lodé e de Ogún Avagãn fora, em uma casa separada, assim como a casa dos Éguns, pois, esses também são cultuados.
        Todos os rituais têm uma semelhança com o Xangô de Pernambuco e são feitos pelas casas com fundamento da nação jêje. Nos cultos, as danças são feitas não em rodas conforme em outros candomblés, mas em fileiras compostas em pares e de frente a um e outro lado do salão.

Sincretismo religioso.

Quando os africanos chegaram ao Brasil em virtude do tráfico de escravos, trouxeram suas culturas, seus costumes, suas crenças e rituais de uma religião desenvolvida no continente de origem, e nos dias atuais a religião africana mantém sua sobrevivência praticamente em todo o território brasileiro devido ao grande sincretismo existente. A religião predominante, o catolicismo, contribuiu muito para o nascimento de novas formas de cultos, a Umbanda e o Candomblé, são formas flagrantes, chegando ao ponto de não mais serem denominadas religiões africanas e sim afro-brasileiras.

      De origem genuinamente africana, para entender melhor o processo religioso desenvolvido no Brasil, podemos dividir em duas faixas, numa linha imaginária do continente africano; na altura do golfo da Guiné, os sudaneses estavam no território que fica acima da linha imaginária e, abaixo estavam os bantos.

       Com os sudaneses as culturas que mais influenciaram para o desenvolvimento da religião africana no Brasil foram de duas nações, a dos nagôs e dos jêje originários da Nigéria e do Daomé, no entanto, coube à cultura nagô a predominância.

      No passado, ainda na África, essas e outras culturas já se entrelaçavam influenciando umas as outras, porém, quando das conquistas pelos navegadores portugueses às costas daquele continente, chegaram com eles também as missões com crenças e rituais cristãos, mais especificamente o catolicismo, dando assim origem ao sincretismo nos cultos africanos.

      Com a vinda dos africanos para o Brasil tal fenômeno se acentuou devido a condições precárias das senzalas onde ficavam alojados, pois ali conviviam num regime de servidão, várias etnias com culturas e crenças diferentes favorecendo assim o sincretismo. Por outro lado, o catolicismo, religião oficial na época do Brasil Colonial e Imperial, a igreja permitia, com restrições, as práticas dos cultos africanos possibilitando assim a manutenção em suas crenças; com esse subterfúgio mascaravam seus deuses, os Orixás, com os santos católicos mantendo assim o respeito, tanto às leis quanto à igreja.

      No processo de identificação entre as divindades e os santos católicos era sempre objetivado por semelhanças vivenciadas; Ogún, o destemido guerreiro foi sincretizado por São Jorge; Xangô, o Orixá da justiça por São Jerônimo; Ossanhe por Santo. Expedito; Yansã por Santa Bárbara; Oxóssi por São Sebastião; Omulú por São Lázaro; Yemanjá por Nossa Senhora, a Virgem Maria; Oxalá pelo Senhor do Bonfim. Evidentemente, devido o extenso território do continente brasileiro esse sincretismo variou de região para região, como exemplo, temos no Rio de Janeiro Ogún que é sincretizado por São Jorge e em outras regiões o mesmo Orixá tem seu sincretismo em Santo Antonio.

      Os Orixás e outras divindades eram então cultuados pelos sudaneses que, para eles eram um vínculo entre os homens e Olorún, o deus absoluto. Para os bantos do sul, tinham como veneração os espíritos dos ancestrais, espíritos de Seres que tiveram vida humana. Numa observação histórica, em Angola, mais exatamente em Bengala, existia no passado um culto semelhante à Umbanda denominado Orederé, por esse motivo, não foi difícil aos bantos se adaptarem às praticas religiosas que se desenvolviam aqui no Brasil.

      Das diferenças entre os cultos é que derivaram as várias correntes religiosas nas religiões afro-brasileira, em conseqüência temos o Xangô de Pernambuco, o Xangô de Minas, o Batuque no Rio Grande do Sul, a Umbanda, a Quimbanda, o Catimbó, e os vários Candomblés das várias nações espalhados por todo o território; no entanto, as diversas designações não passam de uma rotulagem especificada para determinados lugares, mantendo nas estruturas os mesmos conteúdos.

      Por outro lado, a cultura banta foi a mais aculturada pelo catolicismo, tendo como resultado a Umbanda, dela nasceu às primeiras casas onde se cultuam, além dos Orixás, uma vasta gama de espíritos ancestrais também denominados espíritos guias. Estes foram sendo introduzidos de conformidade com que a cultura dos nativos locais, os índios e caboclos. Basta observar nas seções de Umbanda as diferenças no linguajar, nos ritos, nas cantigas, no idioma e em tantos outros aspectos que diferenciam os Candomblés.     

      De origem genuinamente africana, para entender melhor o processo religioso desenvolvido no Brasil, podemos dividir em duas faixas, numa linha imaginária do continente africano; na altura do golfo da Guiné, os sudaneses estavam no território que fica acima da linha imaginária e, abaixo estavam os bantos.
       Com os sudaneses as culturas que mais influenciaram para o desenvolvimento da religião africana no Brasil foram de duas nações, a dos nagôs e dos jêje originários da Nigéria e do Daomé, no entanto, coube à cultura nagô a predominância.
      No passado, ainda na África, essas e outras culturas já se entrelaçavam influenciando umas as outras, porém, quando das conquistas pelos navegadores portugueses às costas daquele continente, chegaram com eles também as missões com crenças e rituais cristãos, mais especificamente o catolicismo, dando assim origem ao sincretismo nos cultos africanos.
      Com a vinda dos africanos para o Brasil tal fenômeno se acentuou devido a condições precárias das senzalas onde ficavam alojados, pois ali conviviam num regime de servidão, várias etnias com culturas e crenças diferentes favorecendo assim o sincretismo. Por outro lado, o catolicismo, religião oficial na época do Brasil Colonial e Imperial, a igreja permitia, com restrições, as práticas dos cultos africanos possibilitando assim a manutenção em suas crenças; com esse subterfúgio mascaravam seus deuses, os Orixás, com os santos católicos mantendo assim o respeito, tanto às leis quanto à igreja.
      No processo de identificação entre as divindades e os santos católicos era sempre objetivado por semelhanças vivenciadas; Ogún, o destemido guerreiro foi sincretizado por São Jorge; Xangô, o Orixá da justiça por São Jerônimo; Ossanhe por Santo. Expedito; Yansã por Santa Bárbara; Oxóssi por São Sebastião; Omulú por São Lázaro; Yemanjá por Nossa Senhora, a Virgem Maria; Oxalá pelo Senhor do Bonfim. Evidentemente, devido o extenso território do continente brasileiro esse sincretismo variou de região para região, como exemplo, temos no Rio de Janeiro Ogún que é sincretizado por São Jorge e em outras regiões o mesmo Orixá tem seu sincretismo em Santo Antonio.
      Os Orixás e outras divindades eram então cultuados pelos sudaneses que, para eles eram um vínculo entre os homens e Olorún, o deus absoluto. Para os bantos do sul, tinham como veneração os espíritos dos ancestrais, espíritos de Seres que tiveram vida humana. Numa observação histórica, em Angola, mais exatamente em Bengala, existia no passado um culto semelhante à Umbanda denominado Orederé, por esse motivo, não foi difícil aos bantos se adaptarem às praticas religiosas que se desenvolviam aqui no Brasil.
      Das diferenças entre os cultos é que derivaram as várias correntes religiosas nas religiões afro-brasileira, em conseqüência temos o Xangô de Pernambuco, o Xangô de Minas, o Batuque no Rio Grande do Sul, a Umbanda, a Quimbanda, o Catimbó, e os vários Candomblés das várias nações espalhados por todo o território; no entanto, as diversas designações não passam de uma rotulagem especificada para determinados lugares, mantendo nas estruturas os mesmos conteúdos.
      Por outro lado, a cultura banta foi a mais aculturada pelo catolicismo, tendo como resultado a Umbanda, dela nasceu às primeiras casas onde se cultuam, além dos Orixás, uma vasta gama de espíritos ancestrais também denominados espíritos guias. Estes foram sendo introduzidos de conformidade com que a cultura dos nativos locais, os índios e caboclos. Basta observar nas seções de Umbanda as diferenças no linguajar, nos ritos, nas cantigas, no idioma e em tantos outros aspectos que diferenciam os Candomblés.
                             O Candomblé Católico e o Povoá.                                
Na multiplicidade de valores religiosos e das muitas formas que são apresentadas, algumas fazem uso do sincretismo com santos católicos, isso é verificado nos Candomblés identificados e comumente conhecidos como os de nação. Sabe-se que algumas ramificações da estrutura criada no passado absorveram do catolicismo muito dos costumes e até mesmo crenças que se misturaram e passaram a fazer parte de rituais, mesmo que sejam considerados por muitos uma intromissão com as religiões de origem africana.
Em algumas regiões do nordeste ainda resiste uma manifestação popular cheia de crença em elementos e simbolismos não muito difundidos nos grandes centros e praticamente desconhecido de muitos religiosos; trata-se do candomblé católico, onde, os agentes do sagrado não fazem uso de ritos de feitura como nos Candomblés tradicionais, isto quer dizer, não possuem obrigações vinculadas aos Orixás, muito embora, estes estejam relacionados com a cultura. São os Candomblés de caboclo puros, onde os caboclos incorporados executam os rituais de acordo com uma estrutura totalmente sincretizada.
Desta forma, o Povoá, forma de manifestação cultural-religiosa, possui suas características, sendo uma delas a ausência de ritos de feitura e, não havendo por extensão, iniciação no processo religioso. Todo indivíduo, considerado agente do sagrado, recebe de seu Mestre e repassa para aprendizes, é uma forma de manter viva a tradição.
Toda a trama religiosa nesse tipo de Candomblé possui características da mistura de conhecimentos espirituais herdadas de índios, brancos e negros; do índio o conhecimento de todo o seu universo, seja religioso ou não; do homem branco toda religiosidade e crença nos santos católicos com as ladainhas e missários; do negro, toda a cultura na crença nos Orixás dos quais surgiu todo o sincretismo com os santos católicos.
Neste Candomblé não existe um zelador, um pai de santo ou uma hierarquia, todas as funções são de exclusiva e total responsabilidade de um Mestre, o qual recebeu a missão determinada através de sonhos ou visões, seus rituais são baseados nos sambas de caboclo e os instrumentos rítmicos são a viola, o pandeiro e a sanfona, instrumentos típicos da região. É característico de seus seguidores, médiuns, serem incorporados por encantados, figuras míticas muito conhecidas, no entanto, o Mestre é incorporado por somente um caboclo que exerce a função de curas. O rito desenvolvido é uma festa de danças religiosas onde as incorporações dão-se após as ladainhas feitas aos santos do dia e ao santo protetor da casa.
Em algumas regiões do nordeste brasileiro encontram-se pessoas que trabalham com encantados mesclados com santos católicos, caboclos e também com Orixás. Esta variação de Candomblé está muito relacionada às almas, porém, são diferentes de outros processos de encantaria e não possuem ritos festivos, estes estão mais ligados com magia e possuem algumas obrigações que são determinadas por sonhos, porém, não admitem aprendizes e seus trabalhos são desenvolvidos em torno de uma missão autônoma, tratam-se dos curandeiros.
O Povoá não possui sacramentos próprios, os batizados e casamentos são os da igreja católica.
      O Candomblé do Povoá é também definido como Encantaria e tem sua festa maior em louvor a Nossa Senhora da Conceição e, apesar dos trabalhos estarem voltados a encantaria, também está muito ligada aos preceitos católicos, e seus integrantes não consideram um Mestre como um zelador, mas como um mentor espiritual que foi enviado por algum santo, ou santo para fazer uso das forças e energias sagradas nas curas de algum mal espiritual ou material.
Os Mestres acreditam incorporarem energias emanadas dos santos ou santas, energias que são redistribuídas aos Orixás, encantados ou caboclos. Cada caboclo é simbolicamente correspondido a um santo católico, assim, o caboclo Tupinambá, considerado o rei da floresta tem sua correspondência em São Jorge, um sincretismo tal qual em alguns outros Candomblés e Umbandas.
 O médium dessa manifestação, quando em transe, apresenta-se paramentado com roupagem de sua origem, segundo a imagem do índio brasileiro que, além do penacho, uma coroa que tem em destaque uma estrela de Davi, e segura em uma das mãos um cálice e na outra um pequeno sino, o arco e flechas em miniatura, um ofá, complementam e o caracterizam. O caboclo Tupinambá é sempre a primeira entidade a incorporar, ou como entendem como manifestação, e que, após sem uma ordenação rígida, podem de forma simultânea ou não manifestar-se Nãnã, Iemanjá ou outros Orixás acaboclados pelo processo da Encantaria.
Em toda essa construção mítico-ritual a transcendência não se mostra incluído dicotomias ou ambivalências absolutas; santos, Orixás e caboclos comportam-se em diferentes níveis, mas sempre em arranjos complementares. Nunca estão separados, são peças da mesma engrenagem e faces de uma mesma moeda; a rigor, não é sequer uma correspondência simbólica, como nos Candomblés que seguem o modelo do Candomblé de nação.
No candomblé católico os santos são considerados guias dos Orixás, cada um dos primeiros orienta e determina os papéis do segundo que singularmente são identificados. Segundo certa ordenação, os Orixás são os guias dos caboclos, mas nesse caso não acontece uma assimetria imprescindível. Os guias em foco podem ter os seus papéis episodicamente modificados ou mesmo invertidos. Como exemplo, pode Cristo, Santa Bárbara e Tupinambá comandarem a casa que Iansã; o caboclo Tupinambá fica muitas vezes em segundo plano. Deve-se isso a duplicidade de Tupinambá que lhe desdobra a força. Explica-se: Tupinambá e outro caboclo gentil celestial mesclam-se na mesma energia emanada de Iansã que tem o poder disso executar, posto que receba a energia de Santa Bárbara que é a mãe de todos os caboclos. Acreditam os fiéis que os santos, Orixás e caboclos são necessários para um contato maior com as divindades.
Depois de Santa Bárbara, Tupinambá e seu duplo-etéreo (uma identificação Kardecista) é muito usada para identificar a gentil celestial, vem àqueles que só incorporam com a ordem deles, já que são os donos da casa; os outros, em segundo plano, não têm que esperar, no entanto, a vinda dos primeiros podem apenas receber o consentimento já que o terreiro pode ser aberto por um encantado astralizado, como Iemanjá das águas ou como Oxóssi das matas.
Todo esse comportamento fica na dependência do santo que está regendo o dia e que se identifica através de visões. A vidência é tida pelo Mestre que se manifesta quando ele olha para o céu, vê o santo e ouve vozes, é quando nesse momento fica identificado também o caboclo escolhido pelo santo e é também percebido o tipo de energia que está imantando o ambiente. Esta energia fica clara quando, após ser identificado, o agente do sagrado fala o nome do santo, do Orixá ou do caboclo.
Nestas visões o Mestre nunca perde a consciência, no entanto, afirmam que, ocasionalmente sempre surgem dúvidas sobre o real sentido das mensagens e, o esclarecimento sempre se dá quando se pergunta a Iansã através de orações, mas ela pode responder de forma genérica ou detalhada, ficando na dependência do juízo que faça sobre a questão.
Muita importância se dá ao batismo, em parte porque o batismo do guia é uma réplica do católico. Os fiéis afirmam que para haver o batismo tem que haver grande concentração, ou seja, rezar muito, ir á missas seguidamente, abster-se de bebidas, festas, sexo, jejuar, praticar penitencias e cumprir promessas feitas.
O batismo do guia sempre se dá aos sábados, nos domingos e nas terças feiras de carnaval, sendo a terça feira dedicada aos guias mais fortes, pois, estes são possuidores de maior concentração; a quarta feira de cinzas é dedicada aos rituais católicos oficiais.
Como é comum em alguns Candomblés de nação, o Candomblé católico respeita a quaresma, é quando o terreiro é fechado e reaberto somente no sábado de aleluia quando é feita uma procissão com a santa devotada, mas tudo em ritmo de carnaval. Após a procissão é feita a lavagem do terreiro onde será realizada a sessão, esta com acompanhamento de atabaques, é o samba de caboclo.
Uma das características dos Candomblés católicos é o de não incorporarem Exus, estes, são visto como o diabo católico, todavia não traduz o mal de sua natureza como a concórdia que a Umbanda/Quimbanda o faz.
Não receber Exu significa apenas não cultuá-lo, este elemento é exorcizado pela ajuda dos caboclos. Esta visão do caboclo como acólito dos santos, acompanha toda a panorâmica do imaginário, entretanto, a de Exu, como escravo dos Orixás, discurso corrente nos Candomblés de caboclo, não tem ali a sua aceitação.
O ritual é iniciado com o silenciar do samba; em procissão, o Mestre acompanhado de alguns fiéis traz uma bandeira com a figura do santo que lidera o terreiro, suas vestes se assemelham a de um bispo ou padre e a procissão termina no interior do terreiro quando o Mestre pronuncia uma mensagem dirigida a todos.
A dança é reiniciada com a roda de caboclo ao som dos atabaques, o Mestre passa a ostentar uma roupagem que caracteriza um santo católico, dá-se então o inicio da lavagem do terreiro, ritual comum e muito difundido na região. Este ritual possui as mesmas características dos feitos nas escadarias das igrejas e nas festas do divino, é uma lavagem simbólica, pois, o ritual também é levado ao mastro que sustenta a bandeira do terreiro e também da lenha, quando das fogueiras que complementam o ritual.
Após a procissão da lavagem é iniciada uma novena e, ao término das ladainhas e rezas, é iniciada a parte mediúnica do Candomblé católico com os transes e incorporações dos caboclos.
No âmbito social, tanto do Povoá ou do Candomblé católico encontram-se as rezadeiras e benzedeiras além de outros segmentos da sociedade, porém, todos ligados diretamente ao catolicismo que de uma forma, vêem-se como uma forma extensiva dessa religião. São devotos dos santos católicos que, por questões culturais, estão também ligados aos caboclos, estes, cristianizados e também, quando em vida, foram devotos de santos católicos. Entende-se que um fiel e devoto de São Jorge tende a fazer acompanhar por um gentil devotado também do mesmo santo; no entanto, isso não significa que um mesmo caboclo tenha sempre o mesmo santo de devoção, ou seja, um Tupinambá de um médium pode ser devoto de São Jorge e o mesmo Tupinambá que acompanha outro médium pode ser devoto de Sto. Antonio. Entende-se ainda que só existe um santo católico, enquanto existem vários Tupinambás.
No Candomblé católico os santos são guias dos Orixás, no Povoá os santos são os guias dos caboclos.         
Terecô -  O Terecô é também conhecido por Tambor da Mata; é uma religião fundamentada em conceitos místicos com influência de raízes de religiões africanas desenvolvida no Norte, mais especificamente no Estado do Maranhão e muito tradicional nas cercanias da cidade de Codó onde se originou. Como em toda religião afro-brasileira, no Terecô existem seus sacerdotes e sacerdotisas, são idênticos aos pais e mães de santo – zeladores/as de outros candomblés e, por estarem próximos às grandes florestas do Norte e também a remanescentes culturas indígenas são grandes conhecedores de plantas.
          Os rituais do Terecô são idênticos aos dos candomblés, no entanto, não utilizam animais em sacrifício e no período de iniciação são utilizadas muitas ervas em banhos, a iniciação dura de 7 a 21 dias com preceitos, restrições alimentares e alguns sacrifícios impostos pela tradição.
         Denominados de Encantados, as entidades têm certa semelhança aos guias da Umbanda, os quais incorporam nos médiuns e fazem suas beberagens com aluá e furá, bebidas tradicionais da região. Existem muitos rituais, e um deles é o de lavar a pedra, o otá, em uma mistura de água e vinho; este ritual é feito anualmente, ocasião em que os médiuns lavam o otá dos assentamentos e fazem seus pedidos aos encantados. Outro ritual é o bela do pão, onde os membros do terreiro comem ritualmente  pão molhado no vinho ao som de atabaques com danças formuladas por todos. Durante os rituais do Terecô são utilizados com freqüência algumas bebidas alcoólicas pelos encantados.
         Uma característica que marca a cultura local é a de que os pais e mães de santo são também os curadores - e se originou. Como e                                                                                                curandeiros, aqueles que acodem com rezas, passes, banhos de ervas aos doentes, além de produzirem amuletos. Nada é pago com dinheiro, a paga religiosa na cultura local é sempre feita com algum fruto do trabalho; dizem os curadores que, para conservarem seus poderes recebidos, gratuitamente, têm que distribuir muito do que recebem; nesses trabalhos, os terecozeiros, assim denominados, associam conhecimentos tanto de origem africana, indígena, práticas do Catimbó e até da feitiçaria européia.
         Integrado ao Tambor de Mina e a Umbanda estão o Terecô, a Encantaria, o Tambor da Mata e o Catimbó que têm suas origens nas casas de raiz da nação jêje.
         No Terecô as entidades espirituais estão organizadas em famílias, sendo a mais importante Légua Boji Boá, o príncipe guerreiro, porém, em outros centros é apresentado como um Vodun cabinda ou como um misto de Legbá o Exu daomeano. Mas, muito embora no Terecô sejam cultuados Voduns africanos de origem jêje, as manifestações são de Voduns relacionados às matas ou incorporações de caboclos, estes comandados por Légua Boji, porém, em alguns centros as entidades têm o comando de Bárbara Soeiro, entidade associada que possui sincretismo com Santa Bárbara; no entanto, também são incorporados os Exus e Pombogiras, entidades da Umbanda e da Quimbanda.
Algumas entidades do Terecô, Légua Boji e encantados de sua família são muito temidos, são os defensores dos terecozeiros e não se misturam com as entidades denominadas Exus e Pombogiras, muito embora, o Terecô se apresente de modo distinto do Tambor de Mina, ocorrem nas seções cruzamentos entre eles uma mudança de um para outro durante uma seção. A magia curativa muito desenvolvida tanto nas casas de Mina quanto no Terecô, mostra que ambas fazem uso de banhos para afastar males espirituais, porém, enquanto nas casas Mina jêje os banhos são preparados e distribuídos em dias de obrigação a um Vodun, no Terecô eles são preparados e distribuídos com freqüência em gongás domésticos para um maior número de pessoas.
         A origem do Terecô é um tanto confusa, alguns pesquisadores dizem que surgiu antes mesmo das Casas de Mina, no principio foi denominado como mata de coco, rituais realizados pelos escravos de fazendas de algodão no município de Codó no Maranhão, onde no tempo do cativeiro Légua Boji era cultuado.  
Assim é a diversidade religiosa do Candomblé que, após ter se iniciado com uma cultura pura africana absorveu elementos de origens diversas e crenças regionais.                                                                              
                                           O culto aos Égun-Égun. (Égungun).                      
      A cada quatro dias, uma semana ioruba, Ikú, a morte, vinha à cidade de Ilê Ifé munida de um bastão e matava indiscriminadamente uma pessoa, nem sequer os Orixás podiam com ela, tanto era o seu poder. Um cidadão daquele reino, chamado Ameiyegun prometeu salvar as pessoas usando de artimanhas; confeccionou roupas com várias tiras de pano colorido para si e para seus familiares, roupas que cobriam todo o corpo, inclusive a cabeça; e fez todos os sacrifícios e oferendas apropriadas. No dia em que Ikú apareceu, Ameiyegun e seus familiares vestiram as roupas e se esconderam. Quando Ikú chegou, todos apareceram saltando, correndo e gritando com altos grunhidos, e Ikú assustado deixou cair seu bastão. Desde então, a morte deixou de atacar os habitantes de Ilê Ifé. Os Babalawôs, sacerdotes de Orunmilá, previram através dos jogos divinatórios que a partir de então Ameiyegun e seus familiares deveriam adorar e venerar os mortos por todas as gerações para recordar como eles venceram a morte.

      Outra lenda mais elaborada é contada desde tempos imemoriais nas terras de Oyó. Conta que naquela cidade vivia um camponês chamado Alapini, e ele tinha três filhos, Ojéwuni, Ojésanmi e Ojérynlo. Um dia, Alapini foi viajar e deixou recomendações aos filhos para que eles colhessem os inhames da lavoura e não os comessem, principalmente o de uma determinada qualidade, isso porque, deixava as pessoas com muita sede. Seus filhos, no entanto, não obedeceram e ignoraram as recomendações comendo os tais inhames, comeram e beberam água em demasia e, um a um todos morreram.
      Quando Alapini retornou da viagem e encontrou seus filhos mortos ficou desesperado, correu a procura de um Babalawô que jogou o opelê, o oráculo de Ifá. Aconselhado em se acalmar, o Babalawô disse-lhe que, após o décimo sétimo dia Alapini fosse a um riacho no bosque e executasse um ritual prescrito pelo jogo. Ele deveria pegar um ramo de árvore, atori, e fazer um bastão, um Ixã; na orla do riacho deveria golpear o chão com o bastão e chamar pelo nome dos filhos e, na terceira vez eles iriam aparecer. Mas isso tudo deveria ser feito após certas oferendas e sacrifícios, só assim os filhos apareceriam, no entanto, seus corpos estariam estranhos e era necessário cobri-los para que as pessoas pudessem vê-los sem se assustar. Quando os filhos apareceram, pediu a eles que ficassem na floresta escondidos até sua volta, pois ia à cidade providenciar as roupas.
      Desse dia em diante Alapini poderia ver e mostrar seus filhos para outras pessoas, as belas roupas que eles vestiam escondia perfeitamente suas condições.
Alapini e seus filhos fizeram um pacto em um buraco feito na terra por seu pai, e no mesmo lugar do primeiro encontro, Ajubó Igbalé, seriam feitas as oferendas, sacrifícios e lugar de guarda das roupas para que eles vestissem quando seu pai os chamasse através do ritual do bastão.
Segundo o pacto e as instruções do Babalawô, sempre que os filhos morressem teriam que ser realizados o ritual depois do décimo sétimo dia do falecimento.
Em outra lenda, relacionada com os fundamentos religiosos, contada através dos tempos, relata que no principio da criação, Olodumare, mandou chamar três divindades, Ogún, senhor do ferro, Obarisá, senhor e criador dos seres humanos, este, um dos Orixás Funfun que tem como principal preceito o uso do branco nos rituais e oferendas, e Odú, a única mulher entre eles. Tanto Ogún quanto Obarisá tinham poderes, Odú, no entanto não os possuía e questionou anteriormente a Obarisá. Este lhe outorgara o poder do grande pássaro que estava contido em uma cabaça, o Igbá Eleyé; ela, porém, se voltou anteriormente, através do poder emanado de Olodumare, Iyá Won, nossa mãe eterna, também denominada Iyámí Osorongá. Mas Olodumare lhe advertiu que ela deveria usar esse poder com cautela, porém, ela abusou do poder do pássaro. Preocupado, Obarisá foi até Orunmilá para fazer um jogo de Ifá, e este lhe ensinou como apaziguar e conquistar Odú através de oferendas.
Obarisá e Odú foram viver juntos, até que um dia revelou seus segredos e depois de um tempo Odú também revelou o seu inclusive que adorava Éegun, mostrou as roupas de Éegun, o qual não teria corpo nem tão pouco falava, e juntos passaram a adorar Éegun.
Um dia, aproveitando que Odú saiu de casa Obarisá colocou a roupa de Éegun, e com o bastão na mão foi para a cidade e falou a todas as pessoas. Quando Odú viu Éegun bailando pela rua, percebeu que foi Obarisá quem tornou aquilo possível. Ela reverenciou e rendeu homenagem à Éegun e à Obarisá. Convencendo-se da derrota, Odú mandou que seu poderoso pássaro voasse sobre Éegun outorgando todo seu poder. Sucedeu que, desse dia em diante Odú se retirou para sempre do culto à Éegun.
          Este conjunto, homem-mulher na trajetória de Éegun, que aqui vem a significar ancestralidade, restringe seu culto aos homens, os quais, todavia rendem homenagens às mulheres que foram castigadas por Olodumare. Também por essa razão é que as mulheres, depois de mortas são veneradas coletivamente e, somente os homens terem direito a individualidade através do culto a Égun.
No culto aos Égugun, o Amioxã é o primeiro estágio de iniciação e, de acordo com o desenvolvimento de cada um dos iniciados, o próprio Éegun determina quando é chegada a hora de algum Amioxã ser confirmado como um Ojé, este, passa então a ter missão de tornar os espíritos ancestrais visíveis e fazê-los aparecer em público. Após alguns rituais e sete dias de purificação, período no qual são implícitos alguns preceitos o Amioxã é confirmado.
      O Alapini é a autoridade máxima nas casas de Lésse Égungun e, apenas um pode existir com este título, conceito existente desde a antiguidade e, quando este faz sua passagem, morre, o próximo Alapini é escolhido somente um ano depois, no entanto, os rituais continuam sendo realizados pelos membros da sociedade e a ajuda dos próprios Égungun.
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      Entre os iorubas, os ancestrais manifestam-se a seus descendentes por intermédio de uma entidade chamada Égun. É o espírito dos ancestrais que retornam a Terra debaixo de belos panos decorados com aplicações de tecido recortado, bordados e ornamentados com búzios, espelhos e miçangas. São cultuados em sociedades estritamente reservadas aos homens; são esses homens que invocam os ancestrais que os chamam e cuidam deles na Terra.
      O Égun serve de intermediário entre os espíritos do além, aparecendo para certas famílias alguns dias após a morte de um de seus membros ou durante as cerimônias realizadas para honrar a memória desses ancestrais; tem tabém a incumbência de trazer a bênção aos casamentos de seus descendentes e, por ocasião de suas aparições fazem-lhes oferendas de comida e de dinheiro.
      O Égun fala com voz rouca e profunda, dança de bom grado ao som dos tambores batá, de preferência ou, na sua falta, ao som dos tambores obgon. O contato de sua roupa pode ser fatal aos vivos e, desta forma, os mariwo, membros da sociedade Égun, os acompanham sempre munidos de compridas varas, os isan, para afastar os imprudentes. O vento provocado por suas roupas, quando dança girando é ao contrário, benéfico.   
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      O termo Égun é um termo do idioma ioruba aplicado genericamente para osso ou esqueleto, não obstante, também empregado para espírito. Os Éguns, relacionados ao culto Égungun, manifestam-se apenas em cultos restritos e com fundamentos específicos. 

                            Os sons e as percepções na religião.           
      Na visão filosófica, religiosa e cultural do Candomblé, a música e a dança predominam nas ocasiões em que são executados determinados rituais. Tal filosofia determina que o ser humano sempre tenha que estar em contato com a natureza, pois dela emanam irradiações que são os canais de mensagens que falam através das vibrações captadas pelos sentidos do corpo.
      Como exemplo, podemos citar os ritmos dos atabaques, cantigas e outros elementos sonoros que são fundamentais para o culto e o aprendizado, tendo como base todo um contexto religioso e cultural. O corpo do iniciado fica diretamente relacionado a uma divindade, ou seja, o seu Orixá e por extensão aos elementos a ele relacionados.
      Nas reuniões, ou melhor, nos xirês em dias de toques, dias de atividades no Egbé, é que são observadas determinadas ações desenvolvidas pelos participantes da roda de dança. As danças, praticadas pelos iniciados ou entidades manifestadas, demonstram tal principio. Exemplificando a prática, temos Iemanjá, senhora das cabeças, a qual harmoniza as energias, tanto positivas quanto negativas, quando em uma de suas danças, executa uma coreografia levando as mãos alternadamente à frente e atrás da cabeça. Esta função tende a orientar e equilibrar; este ritual é seguido também, e não só por seus filhos, mas por todos os iniciados. Podemos observar também, que ela, Iemanjá, possui a tendência a proteger os seios, não somente pelo sentido de ser mãe, mas pela função natural do ato de nutrição dos seres humanos.
      Na concepção do Candomblé o corpo humano é uma cópia das formas e das energias do cosmo. Os elementos ar, água, terra, fogo unem-se segundo arquétipos diferentes. O Universo, macrocosmo e o homem, microcosmo, são criaturas semelhantes que obedecem a uma mesma lei, a lei do tempo e do espaço, um relógio perfeito que funciona harmoniosamente num ritmo universal. Assim, cada parte do corpo tem um significado simbólico: a parte frontal da cabeça está relacionada com o futuro e ao Orixá dono da cabeça, enquanto a parte posterior é relacionada ao passado; o lado direito está ligado aos ancestrais masculinos, enquanto o lado esquerdo aos ancestrais femininos. Cada parte está relacionada a um Orixá em particular e, as aberturas do corpo a Exu. As orelhas, sendo orifícios, são defendidas por argolas com pingentes, isso porque, ao balançarem produzem um som em resposta às influências negativas. As palmas das mãos e as solas dos pés são pontos em que podem perder ou receber energias, por isso, na presença dos Orixás os fiéis viram as palmas das mãos de frente para elas.
      Cada parte do corpo corresponde a uma entidade, a cabeça é fundamental porque é a sede do Orí onde está alojado o Odú, o destino pessoal. É na cabeça também onde fica o cérebro, a morada da sabedoria e onde a razão deve predominar. Os órgãos do sentido humano se associam na recepção de valores e conceitos formulados. As narinas são um canal aberto por onde o ar entra promovendo a continuidade ao sopro de vida e dando sentido aos aromas, complemento essencial na alimentação. Os ouvidos escutam e reagem aos sons. A boca é o orifício pelo qual são ingeridos os alimentos para dar sustentação ao corpo. Os olhos são a luz que ilumina os passos e, o tato é por onde são feitas as percepções de consistência. No entanto, há os casos de pessoas que, impossibilitados, de alguma forma, pela falta ou perda de algum órgão dos sentidos não carecem de tê-los, pois, a natureza humana e espiritual desenvolve naturalmente outras formas de percepção, e a espiritual é uma delas.

        

Abiku.                          
      No Universo denominado Orún existe o Egbé Orún Abiku; nesse lugar residem Seres que são determinados a nascerem para morrer em um curto espaço de tempo terreno, gerando assim grande sofrimento às parturientes e a seus familiares, lá, as meninas são chefiadas por uma entidade que é denominada Yájanjasa, e os meninos são chefiados por Olóikó.
      A permanência de um Abiku na Terra está condicionada a um pacto na existência e na permanência no Orún com outra entidade denominada Onibode, o guardião do portal do Orún. Este pacto é rigorosamente cumprido pelos Abiku. Se uma criança cujo acordo não for nascer, esta não nascerá, mas, se houver um acordo de voltar, este morrerá quando de idade tenra motivada por um acidente ou doença, ou ainda quando do aparecimento do segundo dente. Esta é a descrição dos mais sábios e antigos Babalawôs sobre o assunto.
      Essa criança Abiku encontra-se entre os Akan, onde a mãe é chamada Awonawu, aquela que coloca os filhos no mundo para a morte. Os Ibo chamam os Abiku de Ogbanje, os Auçás de Darwabie, e os Fanti os denominam Kossamah.   Também são encontradas informações referentes ao assunto nos Itans, os quais demonstram que, os Abikus femininos pertencem a uma sociedade no Agbá Orún e são presididas por Iyájansa, a mãe que bate e corre e, os masculinos têm seu chefe, Olóikó, o chefe da reunião.
      Conta uma lenda que Aláwaiyé, rei do Awaiyé, foi quem trouxe Abiku ao mundo pela primeira vez na cidade de Awaiyé, onde se encontra a floresta sagrada dos Abiku, local onde seus pais se dirigem e fazem oferendas para que seus filhos fiquem no mundo.
      Quando os Abiku vêm ao mundo passam num portal entre o Orún e o Ayé, este portal, Onibodé Orún, é o limite onde os Abikus se despedem daqueles que ficam. Os que partem para o Ayé, a Terra, declaram para seus companheiros suas pretensões de tempo a permanecerem vivos, essas crianças, no entanto, apesar dos esforços de seus pais, retornarão para reencontrar os companheiros que lá ficaram.
      Conta a estória que, quando Aláwaiyé trouxe para a Terra duzentos e oitenta Abikus pela primeira vez, cada um deles declarou ao passar pelo portal o tempo que ia permanecer no Ayé. Um deles propôs a voltar assim que tivesse reconhecido sua mãe, outro ia esperar até o dia em que seus pais decidissem o dia em que ele se casaria, outro, quando seus pais concebessem um novo filho, e o outro, não esperaria mais além do dia em que começasse a andar. Outros, no entanto, prometeram em ficar na Terra somente sete dias ou no máximo quando começassem a andar, outros ainda quando começassem a ter dentes ou em ficar em pé; em fim, todos fizeram promessas em voltar.
      No entanto, as lendas de Ifá e os Itans, contam que oferendas específicas são capazes de reter um Abiku na Terra. Tais oferendas têm por objetivo fazer com que os Abiku se esqueçam das promessas feitas no Onibodé Orún, rompendo assim o ciclo de idas e vindas e, ademais, porque o tempo marcado para a volta já tenha passado e seus companheiros do Orún perdem as esperanças de reencontrá-los.
      Numa narrativa interessante temos a história de um caçador que estava na espreita na floresta, próximo ao caminho por onde os Abiku passavam quando vinham para a Terra; ouviu ele dos Abikus suas promessas quando da época de seus retornos ao Orún.
      Um deles prometeu que deixará o mundo assim que o fogo utilizado por sua mãe, para preparar sua comida se apague por falta de lenha. O segundo esperaria que o pano que sua mãe utiliza para carregá-lo nas costas se rasgue. O terceiro Abiku, este feminino, esperará para voltar no dia em que seus pais lhe digam que é tempo de casar e ir morar com o esposo.
      O caçador vai então visitar as três mães no momento em que elas estão dando a luz aos seus filhos Abiku e as aconselha. Para a primeira ele diz que não deixe queimar inteiramente a lenha do fogão enquanto tiver fazendo a comida do seu filho; para a segunda mãe, diz que não deixe se rasgar o pano que ela usa para carregar seu filho nas costas, e para a terceira mãe, recomenda em não especificar quando chegar o momento ou qual será o dia em que sua filha deverá se casar e ir para a casa do marido.
      As três mães vão então consultar um Babalawô e, como era de costume, este, através de Ifá lhes recomenda que façam oferendas especificas: um tronco de bananeira, uma cabra e um galo, seria um subterfúgio para que os três Abikus permanecessem na Terra impedidos de cumprir suas promessas. Se a primeira instala um tronco de bananeira no fogo, destinado a cozinhar a comida do filho, antes que ele se apague, o tronco de bananeira cheio de seiva no fogo não pode queimar e o Abiku vendo uma acha de lenha não consumida pelo fogo diz que o momento de sua partida ainda não é chegada. A pele da cabra, oferecida pela segunda mãe, serve para reforçar o pano que ela usa para levar seu filho nas costas, pois, a criança Abiku nunca vai achar que o pano se rasgou e não vai poder manter sua promessa.
      Não se sabe bem o porquê do oferecimento do galo, mas, a lenda conta que quando chegou a hora da de dizer à filha que ela deveria casar os pais não lhe disseram nada e a enviaram bruscamente para a casa do seu marido.
      Esses três Abikus não podem mais manter as promessas que fizeram, porque as circunstâncias que devem anunciar as suas partidas não se realizaram como tinham previsto nas declarações diante de Onibodé Orún. Esses três Abikus não vão mais morrer, eles seguiram outro caminho.
      Esta lenda mostra bem o mecanismo das oferendas e de suas funções, apesar do seu lado anedólico, demonstra que para os yorubás, a sorte, e o destino, pode ser modificado quando certos segredos são conhecidos.
      Entre as oferendas que detém os Abikus aqui na Terra, em primeiro plano, está a utilização das plantas litúrgicas; a oferta de determinadas folhas constitui uma espécie de mensagem quando acompanhadas pelos ofós, os encantamentos.
      Para o povo yorubá, os pais para proteger seus filhos Abikus e tentar retê-los na Terra, se dedicam a certas práticas, tais como: fazer pequenas incisões nas juntas da criança e esfregar otin, pó preto, feito com ossun, favas e folhas litúrgicas, ou ainda ligar a cintura da criança um onde, talismã feito desse mesmo pó contido num saquinho de couro.
      As ações buscadas nas folhas são expressas nas fórmulas de encantamentos e introduzidas no corpo da criança através de fricções em pequenas incisões e, a parte do pó contido no saquinho de couro, o ondé, representa uma mensagem não verbal, um apoio material permanente da mensagem dirigida pelos elementos protetores contra elementos hostis.
      Outra lenda faz alusão aos xaorôs, anéis providos de guizos usados nos tornozelos das crianças Abikus, isso, para afastar seus companheiros que tentam vir buscá-los e lembrar-lhes de suas promessas. De fato, seus companheiros não aceitam tão facilmente a falta de palavra dos Abikus retidos na Terra pelas oferendas, encantamentos ou talismãs preparados por seus pais e de acordo com os conselhos dos Babalawôs.
      Nem sempre, essas oferendas e precauções são suficientes para reter as crianças Abiku aqui na Terra; Iyájansá é muitas vezes mais forte e, algumas vezes, ela não deixa agir o que as pessoas fazem para reter um Abiku aqui na Terra, serão atraídos para o Orún. Os corpos dos Abikus que morrem, são freqüentemente mutilados, a fim de que eles percam seus atrativos e seus companheiros no Orún para que não queiram mais brincar com eles, sobretudo para que o espírito maltratado na Terra não deseje vir mais ao Ayé.
      Essas crianças Abiku recebem no seu nascimento nomes particulares e alguns desses nomes são acompanhados de saudações tradicionais; tais nomes podem ser classificados com nomes que mantenham sua condição de Abiku, como nomes que lhes aconselham ou lhes supliquem sua permanência na Terra, quer indicações de condições para o Abiku volte não são apreciáveis, quer em promessas do bom tratamento, caso eles fiquem na Terra.
      A freqüência com que se encontram esses nomes em adultos e pessoas com mais idade e que gozam de boa saúde, mostra que muitos Abiku ficam na Terra graças a essas precauções, as intervenções dos Babalawôs e, principalmente a ação de Orúnmilá.
      As cerimônias para reter um Abiku na Terra parecem ser pouco freqüentes, mesmo entre os yorubás; segundo, descrita por Pierre Verger, foi feita pela Taniynnon, encarregada do culto aos deuses protetores de uma família. Num canto da principal peça de uma casa, oito pequenas estatuetas de madeira eram colocadas em cima de uma banqueta de barro. Todos vestidos de panos da mesma qualidade, mostrando pela uniformidade pertencerem a uma mesma sociedade, a um mesmo egbé. Seis dessas estatuetas representam Abikus e as outras duas Ibedji. As oferendas consistiam de Oká - pasta de inhame, Obelá - espécie de caruru, Ekurú - feijão moído e cozido, Erandidin e Ejádindin - carne e peixe fritos que, depois de um orô da Taniynnon e das oferendas de parte das comidas às estatuetas, foram distribuídas à assistência. Uma sacerdotisa de Obatalá assistia sublinhando as ligações que existem entre o Orixá da criação, as pessoas de corpos mal formados, corcundas, alijados, albinos e àqueles cujo nascimento tenha sido anormal. Portanto, ao contrário do que muitos falam, nada tem a ver com criança que já nasce feita no Santo.
      O legado dos antigos pelas suas crenças, mistérios e ritos, suas práticas religiosas e culturais, se adaptam em qualquer tempo, através da sabedoria com muita propriedade.
      Em seu tempo, não há referências de aborto, mas ao contrário, o esforço pela manutenção da vida, inclusive pela quantidade. Pela prática divinatória, através do jogo de búzios, nos dias de hoje, podemos identificar muitos desses Abikus que percebemos numa segunda instância; muitos são criados, passam a existir por ingerência do ser humano através do aborto, é até simples de entender e ver por uma ótica e lógica, astral-espiritual, ao que simplesmente não podemos detê-la de nossa mente e inteligência, ou na pior hipótese ignorá-la. No instante em que o óvulo é fecundado pelo espermatozóide, esta nova matéria existente já é provida de alma e espírito, de um anjo da guarda, o que os yorubás denominam de Orixá - guardião da cabeça, este fenômeno consta da teologia yorubana na lenda de Oxalá.
      Quando da execução do aborto propriamente dito, o ser humano, supostamente, exerce o seu direito, o livre arbítrio, de eliminar àquele Ser, mas somente a parte material, o corpo por ele criado através do ato de procriação; mas, o que por ele não foi criado, a alma, o espírito, para onde vai? Esta análise, geralmente não é feita ou levada em consideração. Acaso haverá conseqüências? Quem sabe? Tais conseqüências estão nos sintomas pós-aborto, pois, a presença daquela figura que aparece de uma forma genérica, oriunda de gerações passadas, os que são provocados e voltam ainda na mesma geração e os que voltarão em nossos descendentes da forma mais imprevisível possível. A maioria dos Seres que nascem com deformidades, doenças graves e morte prematura, tem grandes possibilidades de serem Abikus fabricados pelo homem.  

                                                         
 A kimbanda.
      Em terras bantas muito antes da chegada dos europeus, já existia entre o povo nativo o culto aos ancestrais onde era conhecida a palavra M’banda que significa a arte de curar; era um culto no qual o sacerdote investido de determinados atributos promovia curas; no entanto, a palavra M’banda, também podia ter outro significado relacionado ao mundo dos espíritos e, seus sacerdotes, eram conhecidos como kimbandos, eram eles os comunicadores com o mundo do além.
      Quando os portugueses aportaram na África mantiveram os primeiros contatos com os reinos bantos e procuraram comercializar de maneira pacífica, mais tarde, o rei de Congo que era descendente do primeiro ancestral divinizado e quase toda a nação converteram-se ao catolicismo, surgindo assim, o primeiro sincretismo entre os N’Inkises e os santos católicos em terras africanas. Porém, uma parcela do povo, os bagandas, balundas, balubas e os luba luda, não aceitaram nem adotaram a evangelização e armaram uma revolução contra o rei conquistando toda a região e mais tarde todo o reino do Congo. Um dos reis baganda, Nigola M´bandi foi o que deu origem ao nome de Angola ao território. Desse modo, todo o reino estava apoiado pelos grandes sacerdotes, pois eram eles que possuíam toda a sabedoria e também eram os guardiões das tradições religiosas e culturais.
  Após um período de paz entre portugueses e congos, um dos descendentes do rei do Congo, para não perder o reino, decidiu unir-se ao restante das tribos bantas readquirindo seu nome africano e declarou guerra aos europeus. Os portugueses, aliados a algumas tribos não dissidentes, escravizaram partidários dos grupos bantos, tanto evangelizados quanto defensores das tradições, iniciando assim o tráfico para o Brasil.
      Na nova terra, escravizados bantos dos dois grupos, revolucionários e evangelizados entram em contato com grupos indígenas tupis guaranis que também haviam sido evangelizados pelos portugueses e, entre esses grupos havia também àqueles que não tinham aceitado a idéia de trocar suas identidades religiosas pelas impostas pelos colonizadores, tais grupos indígenas uniram-se aos bantos para seus cultos. Houve então uma afinidade pelas identidades culturais e religiosas; de um lado, os nativos da nova terra possuíam seus rituais xamânicos e por outro, os bantos, que tinham trazido da África seus conceitos religiosos e rituais fetichistas, passaram então a fazer suas magias em separado. Não demorou muito para o surgimento de outras correntes independentes, de uma delas originou a Umbanda, que além de cultuarem os ancestrais divinizados e seus deuses, tanto caboclos quanto negros evangelizados utilizavam todo o sincretismo católico fazendo trabalhos dirigidos para o bem. No entanto, outra corrente passou a existir também, pois, apesar de possuírem cultos idênticos não aceitavam o sincretismo com os santos católicos feitos pelos catequistas, surgia daí a kimbanda. No início, os rituais não diferenciavam muito, porém, com o tempo foram se distanciando. Nos dias atuais, com a dinâmica religiosa de cada uma das correntes percebe-se que a Umbanda, apesar de estar incorporada de muito sincretismo, conserva seus ritos sem utilizar de sacrifícios animais. Por outro lado, a Kimbanda está impregnada por ritos primitivos de sacrifícios animais e optando pelos trabalhos supostamente dirigidos para o bem ou para o mal.
      Em qualquer uma das duas correntes, os espíritos guias são, através de rituais, incorporados em indivíduos preparados e iniciados, os médiuns, que são denominados de cavalos, denominação esta, que segundo os preceitos e as influências de cada casa optam por uma das duas correntes.
       A Makumba, palavra derivada de Ma-Kumba, designa espíritos da noite ou espíritos sem luz, eram assim chamados nos primitivos cultos sincréticos no sul do Brasil com uma maior preponderância de Bantos. No entanto, também derivam o nome de um instrumento de percussão, de uma dança e de outros cultos afros brasileiros, principalmente aqueles com influências das nações Angola-Congo, Nagô e os miscigenados pela cultura ameríndia da nação Tupi-Guarani, contemplado ainda pelo catolicismo.  A razão de ter sido chamado de Ma-kumba - Macumba foi justamente porque a principio, teria sido um culto noturno onde eram invocados os espíritos da noite, Éguns de sacerdotes ancestrais. No culto yorubá, essencialmente Nagô, rende-se culto aos Éguns ancestrais, porém, os rituais são afastados dos cultos aos Orixás. Isto serviu para que os rituais destinados aos Éguns fossem menosprezados, perjurados e mal interpretados. Por outro lado, o catolicismo também condenava os cultos com influência dos Bantos e indígenas, onde era utilizado o fumo, bebidas e danças sensuais, supondo a igreja que se tratasse de rituais satânicos e de orgias. Após algum tempo, grupos de nações diversas procuraram recompor suas identidades e dividiram-se nos principais ramos da, então, denominada Ma-Kumba, aparecendo daí o Candomblé de Angola, Candomblé de Congo, Candomblé de caboclo ou dos encantados, o Catimbó e o Omolokô, todas com influências ameríndias.
      No final do século XIX surgia a Macumba urbana, esta, com a participação de brancos pobres e afros descendentes com influência da igreja católica e do espiritismo que, aos poucos, dominava as mentes dos seguidores. Na Kimbanda permanecia grande parte do culto aos N`gangas da nação Angola-Congo e também com o sincretismo de Exu com o diabo, apregoado pelo catolicismo, que era influenciado pelos mitos e também pelos próprios integrantes, os quais desconheciam as origens de um Exu Orixá pertencente ao povo nagô.
      Atualmente nos rituais ou sessões da kimbanda os espíritos que incorporam são considerados como mensageiros de um N’kinsi, este, Exu Aluvaiá; tais espíritos, incorporados, geralmente foram chefes de cultos na África ou aqueles desencarnados mais recentes, portanto, Éguns.
       A iniciação na Kimbanda é feita através de rituais específicos e o iniciado fica um período de sete dias recolhido e afastado do convívio social externo, sempre assistido pelo chefe da casa. Nos rituais, alguns instrumentos e elementos funcionam como indutores das incorporações, o uso do fumo e de bebidas é acompanhado de sacrifícios animais; os rituais fúnebres são constantes, além de um grande banquete, uma forma festiva para agradar o morto e, os espíritos, montados nos médiuns - cavalos, manifestados nos iniciados, dançam e cantam acompanhados pelo som dos atabaques.            
       No universo da kimbanda, as entidades incorporadas são Éguns que, com suas denominações, a princípio, os Exus são as mesmas reconhecidas em outros cultos afros. No entanto, faz-se necessário o reconhecimento nos elementos e na dinâmica do culto em si e também no histórico geral da cultura de cada um deles.
      A existência dos Exus, tanto masculinos quanto femininos é uma constante em todos os rituais. As Pombogira ou Bombogira, entidades femininas na kimbanda, são assim denominadas devido influência Banto-Angola, no entanto, a entidade Banta Aluvaiá - Bombogira foi inserida no contexto pela miscigenação cultural yorubá colocada como Exu feminino. Na kimbanda todas as Bombogira representam o poder feminino das feiticeiras comparando-se aos das Iyámí do culto nagô.
      Na kimbanda uma Bombogira pode ter muitos maridos, isto é, companheiros de ajuda, assim entendido por uns e como escravas por outros, no entanto, entende-se também que todas as entidades são duplas, isto é dizer que, cada uma delas pode se apresentar com aparências distintas como homem ou mulher. Por outro lado, os Exus masculinos podem ter muitas Bombogiras, ou seja; Exus femininos que passam a serem as esposas, companheiras ou escravas também. É muito comum ver o número sete para determinar quantos Exus femininos ou Exus masculinos podem como entidades limitar suas companhias para trabalhos, seja para o bem ou para o mal. O número sete é sempre determinante para uma solução ou indicação cabalística.
      Cada Exu masculino na kimbanda possui sua parte feminina ou contrapartida, que na verdade são as mesmas energias com aparências distintas, assim sendo, temos: Exu Rei da Encruzilhada/Bombogira Rainha da Encruzilhada; Exu das Matas/Bombogira das Matas; Exu Gira mundo/Bombogira Gira mundo; Exu do Cravo vermelho/Bombogira da Rosa Vermelha; Exu Mulambo/Bombogira Maria Mulambo, e assim em diante, este é o conceito desenvolvido nas casas de Kimbanda.

                     Notas conclusivas e assuntos complementares.
                                  Individualidade de Orixá.

       Normalmente a tendência de personificar e ilustrar as divindades decorre do fato do Ser humano não possuir a capacidade de identificar até onde vai a sublime imaginação; no entanto, saber diferenciar o mito das ocorrências de manifestações naturais e espirituais, o que é uma realidade, cabe não só aos adeptos das religiões afrobrasileiras como também aos estudiosos em geral. Este procedimento muitas das vezes é dificultado pela cultura criada através do processo histórico diante ao seu desenvolvimento desde remotos tempos, tempos em que as divindades sob a forma humana foram instintivamente criadas.
       Foi na idade da pedra que os primeiros humanos sentiram a necessidade de possuir uma companhia protetora, algo sobrenatural que os guarda-se nas horas mais angustiantes das intempéries, da vida rústica e das feras famintas que os rondavam, isso os impeliam em implorar socorro. Desde então o Ser humano tem demonstrado sua fragilidade perante as forças da natureza, mesmo que fosse de uma forma advinda do meio ambiente em que vivia; nasciam assim os ídolos, as primeiras imagens confeccionadas em pedra, madeira ou barro para representar seus deuses, aqueles protetores.
       Ao projetarem os fatos relacionados com o seu cotidiano, sem perceber emanavam energias para àquelas imagens, às quais passaram a ser cultuadas com oferendas de parte dos elementos resultantes de suas caçadas e frutos das colheitas diárias, iniciava-se assim um processo de crença. Este processo, no entanto, não deixou nenhuma marca de culto propriamente dito, porém, mais tarde com o desenvolvimento, surgiram os primeiros cultos agrários, início de toda historia das religiões.
        No neolítico alguns povos já possuíam cultos desenvolvidos e a historia das religiões tomou impulso, e sempre fazendo uma ligação do mundo material com um universo desconhecido, criaram-se então os mitos, nasciam assim lendas relacionadas aos heróis demiurgos.
       Fica impossível saber qual foi o primeiro deus a ser cultuado, porém, a história relata alguns de acordo com as civilizações que os criaram.
As estórias mitológicas reforçam a idéia da junção material com o espiritual de um deus forte, criador, poderoso e provedor de justiça, foi sempre representado por uma figura varonil com suas armas de guerra, dando um sentido de potência material; porém, pouco importava se tal deus possuía ou não inteligência, isso porque, o mundo daquela época pertencia aos mais fortes e nada mais importava além de ter uma representação de um Ser todo poderoso. As historias da Grécia, da antiga Roma, do Egito, Babilônia e outras civilizações comprova tal teoria.

Mais tarde com o aparecimento do Cristianismo a evolução do pensamento religioso e o desenvolvimento humano, muitos artistas e artesãos passaram a reproduzir nas grandes catedrais do mundo tudo aquilo que lhes fora determinado; e num sentido de demonstrar uma reprodução fidedigna para os fiéis, a visão dos personagens que compunham um mundo abstrato e real, ao mesmo tempo, o Céu e o Inferno passaram a ter uma relação de premio e castigo. Muitas dessas produções ainda permanecem nos seus lugares de origens reproduzidas em belos catálogos ou em quadros expostos em museus ou pinacotecas.
Diante desses fatos fica difícil para adeptos de algumas religiões, principalmente os candomblecistas e umbandistas, separar do universo material o imaterial e distinguir o que é uma representação mítica quando relacionada a uma energia Elemental, normalmente a tendência é fazer uso das duas formas, mesmo que o entendimento esteja dentro de conceitos ditos puros.
      Algumas religiões possuem suas justificativas quanto ao uso de ídolos, imagens de deuses, santos ou outras representações, isso devido aos valores culturais criados no passado, e como separar então a idéia da utilização de tais ídolos quando os relacionamos com as divindades Elementais, os Orixás?
O fato de alguns segmentos das religiões afrosbrasileiras fazerem uso de ídolos ou estarem relacionados a imagens de santos católicos está nos fatores históricos das conquistas do cristianismo; no entanto, aqui no Brasil são utilizados outros elementos representativos nos assentamentos aos Orixás, que nada tem há ver com representações de imagens. Tais elementos são possuidores de Axé, energia, que é o elemento fundamental para o desenvolvimento, tanto individual quanto coletivo de um Egbé.
Todos os indivíduos que pertencem a um Egbé reconhecem a relação dos Orixás com o mundo físico, porém, as personificações das entidades através de vestimentas e demais elementos representativos não passam de uma cópia fiel de tudo que foi relatado anteriormente, ou seja, símbolos representativos, pois tais representações servem somente para identificar as energias manifestadas.
O elemento essencial, o Axé, é o elemento que acompanha a execução de todos os rituais, e ao mesmo tempo, é realimentado para fortalecer as energias nele existente; desta forma os Orixás se tornam, em síntese, uma união formando um conjunto de elementos neles contido através daquelas energias, que produzidas de acordo com as oferendas e atos relacionados com determinados rituais, mantém, mesmo assim suas individualidades.
Na concepção ioruba, Olorún, o criador de tudo, é a síntese de todos os elementos Universais, sejam materiais ou não, por isso dizemos que ele está em tudo e em todos os seres, é uma energia que domina todo o Universo, é incondicional à vida, seja no plano material ou no espiritual.
Não há como personificar ou se ter uma imagem de Olorún, pois tanto “Ele”, quanto as demais divindades astrais são energias, e como figurar uma energia?
O Universo é composto de diversas matérias, fato explicado pela ciência, pois cada elemento possui uma determinada energia; o sol, as estrelas, os planetas, as luas e todos os demais mundos, e são deles, deste imenso espaço etéreo, do espaço sideral que são emanadas as energias. Podemos sentir a irradiação do sol através dos seus raios em nosso corpo, porém, se ficarmos muito expostos pode nos queimar ou contrairmos algo danoso; mas, ao contrário, se formos tolhidos dessa mesma energia com certeza sucumbiremos. Assim também são as energias emanadas pelos Orixás, são energias equilibradas, cabendo ao neófito usá-las, conservá-las e realimentá-las.
Quando nascemos para o mundo material, trazemos conosco um DNA, único no mundo e com ele toda a carga genética de nossos antepassados, pais, avós, bisavós, etc. É no DNA que está inserido a nossa individualidade material. Por outro lado, ao nascermos passamos também a possuir características espirituais produzidas no Orún, espaço etéreo, o DNA espiritual e, com esta carga, independente de qualquer fator, trazemos em nosso Orí, na nossa cabeça os nossos destinos, e nele está centrada àquela energia que nos conduzirá. Esta energia, denominada Orixá está acompanhada de um Odú correspondente e do Bára, o Exu individual. Por isso dizemos que cada indivíduo possui seu Orixá, seu Odú e seu Bára; são energias independentes apesar de atuarem em conjunto.
Não só na crença ioruba como na de outras nações de candomblé, encontramos uma infinidade de estórias míticas, são os itans que, relacionados aos Orixás, nasceram os fundamentos do candomblé e de outras religiões afrosbrasileiras.
Todos os Orixás possuem conjuntamente uma estória mítica e religiosa; o enredo e o desenvolvimento de suas existências, tanto no Orún quanto no Ayé, muitas vezes confundem a cabeça dos neófitos e seguidores, tanto candomblecistas, umbandistas e mesmo estudiosos do assunto. Muitas vezes é preciso desmistificar tal relação. O mítico está para a religião como o real está para o mítico e, neste caso, não há como relacionar os fatos materiais existentes com as energias concebidas pelos Elementais.
 Quando se faz uma oferenda o essencial é o valor das energias dos vários materiais; são energias que hão de unir-se e ser encaminhadas às divindades e, como foi dito, em todos os elementos existem energias. Porém, a maior de todas é a que emanamos do nosso pensamento, do nosso Orí, é nele que se processa toda a união das energias que pretendemos enviar, de forma subjetiva, para o mundo espiritual. A essência dos elementos contidos na oferenda torna-se então o alimento transformador do Axé, ou seja, em energia que deverá ser constantemente renovada. Assim, quando fortalecemos o nosso Orixá através de oferendas estamos equilibrando as energias contidas no nosso Orí, pois, o Orixá ao qual pertencemos e daquele que somos filho, está em nós mesmos, não de forma mítica, mas em energia.
Quando temos nosso nascimento uterino, isto é, no nosso nascimento material, ficamos ligados ao cordão umbilical por um período no qual somos alimentados até a nossa formação e nascimento para a vida propriamente dita. Quando nascemos trazemos todos os elementos contidos no DNA, no qual contém as características da família a qual pertencemos. È o processo natural da vida na Terra. Porém, também trazemos o nosso DNA espiritual, este formado por energias astrais, energias advindas de um universo etéreo, e nele, estão contidas também todas as características que formam nossa personalidade referente ao Orixá patrono e os demais que compõem toda nossa estrutura espiritual.
Um Orixá, portanto, não incorpora, sua função é manifestar-se, pois tal energia está contida no Orí, e é através de rituais específicos que isso ocorre; porém, em alguns aspectos, a manifestação pode ser espontânea. No entanto, a ocorrência das várias manifestações é dada ao fato dos médiuns de transporte, assim chamados, possuirem essa característica, e são através de rituais que as energias dos Orixás são despertadas, tratadas e representadas conforme os fundamentos de cada um deles, portanto são individuais. Não existem dois Orixás iguais como não existem duas pessoas iguais, podendo apenas possuir semelhanças e características idênticas.
         Isto fica comprovado quando observamos os assentamentos representativos dos vários Orixás, nenhum é igual ao outro, sempre há uma diferença mesmo que possuam as mesmas características e, é nos pequenos detalhes que se fazem as diferenças, vem daí a justificativa para muitos, por vezes, confundirem o termo - qualidade de Orixá.
Fisiologicamente, a energia do Orixá concentrada no Ori está sempre acompanhada de outras energias, Odú e Bára são energias que fazem parte do sistema do equilíbrio humano. O primeiro é o caminho a ser trilhado, o destino como costumamos dizer, o responsável por nossos passos e decisões; o segundo, Bára, é o Exu individual, energia primordial da vida e responsável pelas várias atividades humanas, esta energia é que nos impulsiona, nos dá movimentos, é a circulação sanguínea, a reprodução, a locomoção, etc...por isso se diz que o Bára é o Exu do corpo. 
No Orí também está o Enikeli, o gêmeo individual espiritual, é ele que se mantém em espírito para nos lembrar do nosso destino, é ele que registra todos os nossos atos. Cada Ser, inerte ou não, possui o seu Odú, o espírito de Eledá em si. O Igbá Iwá, que é o nosso corpo e que contém o nosso caráter, é somente a residência do espírito, independente da forma física.
O Orí é tão importante que deve ser propiciado freqüentemente, e por isso sua ajuda é necessária antes de iniciar qualquer ato que seja representativo no candomblé; e isto é feito através do Ebori (Bori). Orí é a unidade pessoal de cada um, é o único que pode nos acompanhar até os lugares mais longínquos; é Orí que mantém a individualidade tanto do Orixá quanto do individuo.

                                               Mito ou historia?
Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo, o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião. Todas as culturas humanas retrataram seus acontecimentos extraordinários através da mitologia sempre para se fizer entender nas relações, principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo do inconsciente e de suas crenças.
          Personificados por formas humanas ou de animais, os deuses e deusas permanecem no inconsciente humano como forma de fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas, estátuas e nas pinturas sacras.
 Esta foi a forma que o ser humano encontrou em todos os tempos para estar mais próximo ao sagrado; transformou idéias em objetos reais sacros, criou estórias e lendas, transformou ancestrais em deuses demiurgos e uniu-os aos deuses tribais em figuras sincréticas, assim nasceu o mito.
        Muitas das “estórias” são singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou grandes extensões de terra e, os deuses, com características idênticas, são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por um personagem maior, um deus superior.
        A mitologia é uma forma espontânea cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê, mas sente e transfere toda essa crença para sí, e os caminhos percorridos pelos deuses passam a refletir nas características de cada individuo em cada uma das religiões.
       Cada lenda é um tempo vivido, uma ação, um movimento feito pelo personagem, dando a idéia de uma transferência de conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao encontro com a realidade subjetiva, a fé.   
        As religiões afrosbrasileiras são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos derivados das culturas advindas do continente africano, independentemente a que nação, grupo ou segmento pertença.
      Nos rituais é que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, parecendo mesmo que em determinados momentos, o culto se divide entre o sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças, que por vezes reflete um sentido profano, formam um conjunto aprimorado como se uma viajem ao passado fosse feita. A cada batida, com mãos ou varetas nos atabaques, e a cada passo dado no bailar rememoram os caminhos percorridos pelos deuses africanos, os Orixás.
        O ponto principal de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no próprio individuo que, iniciado passa a ter essa capacidade e, depois de celebradas, estas energias que, temporariamente, tomaram “forma humana”, voltam ao seu estado natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das várias “divindades astralizadas”. Nos bailados de Iemanjá os braços ondulam numa alusão as águas dos mares, mas também, seus braços podem ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam aos primórdios do universo, onde seria também a progenitora de todos os demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com Iemanjá, e num patamar mitológico superior, está Oxalá, o Ar, o sopro de vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o ser humano povoando todo o planeta.
       Juntamente com Iemanjá e Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão, Exu, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o sentido da procriação. Tornam-se assim um quadrunvirato da construção de todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
      Oduwa, por não ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto independente, o culto às Yiá mi. Da interação Terra/água, surgiu Nãnã, Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito do povo Nagô.
      Os acontecimentos mitológicos são apenas representativos para entender toda a estrutura da religião quando baseados nos conceitos do povo nagô, no entanto, todas as formulações ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações determinantes nos candomblés.  
      Além dos Orixás primordiais, Iemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exu o fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas estórias são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como historias reais.
     Quando da criação da Terra, segundo o mito nagô, em tempos imemoriais nos ciclos milenares do desenvolvimento humano, chegou a era dos metais, e com ela uma divindade foi criada, Ogún, o deus das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar armas de guerra e ferramentas para a agricultura; Ogún juntamente com Exú, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os responsáveis pelo desenvolvimento humano.
     Quando o ser humano reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas, substituiu a coleta pela produção de alimentos. Oxóssi, o deus das matas continuou a caçar dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de trabalho e progresso.
      A descoberta dos sentimentos humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de criação de conceitos para sobrevivência; nascia assim o respeito pela gestação, e com ela, Oxún a deusa das águas doces e das nascentes que sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto, surgindo daí as Yiábás, as mães rainhas e zelosas dos castelos imaginários de um mundo mítico.  
     Progressivamente a humanidade foi se adaptando no planeta recém-construído; surgiram outras divindades, pois a cada passo eram personificados deuses representativos. A natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e escravos; novos deuses surgiam e reis foram divinizados e, neste cenário, apareceu Xangô, o deus da justiça, que enlouquecido pelas barbáries dele e de seus inimigos, dizem ter se enforcado. Seus machados cortantes nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a benevolência do outro o castigo.
       Em uma das interações Universais entre Oxóssi/Oxún – nasceu Logún, energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado representando a renovação cíclica. Desta maneira, as águas da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè e, após os grandes dilúvios, esta energia é que permite chuvas; com ele, numa alegoria encantadora surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do Universo. Porém, essas transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e das guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também consagrada entre as deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nos vulcões.
       Mas, a renovação constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte de elementos, doença/saúde, o bem e o mau, conceitos de todas as vicissitudes são energias que devem ser depuradas, e desta forma, Obaluayé está presente; ele é o socorro, o médico do planeta e de tudo que nele contém, é a energia produtora, tanto de pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as energias, como o ser humano; as folhas das ervas medicinais trazidas pela magia de Ossayn, energia completa, complexa e diversificada.
      ...E todas essas energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos, particularidades que agregam ao ser humano quando do nascimento e o acompanham até a devolução de todas as substâncias à Ikú que devolve à Mãe Terra.
       Para representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza e dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração, envolve a assistência num retorno aos primórdios dos tempos reinterpretando toda uma história, de sentimento, crença e fé. 
      Nos movimentos das danças e que são interpretados, de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e as turbulências das águas estão nos braços e requebros de Iemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos, quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará, numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogún estão alegorias de guerras e das batalhas diárias vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança suas flechas dando direção da fartura e da prosperidade. No resplandecer das mudanças bruscas do tempo nos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossayn sopradas por Iansã, a mãe dos ventos e dos nove mundos. Na direção dada por Oxumarè quando aponta o caminho das águas pelo arco íris. Nos movimentos tectônicos da energia do planeta está Obá, a deusa que respira pelos vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nãnã devido ao tempo de existência. No ritmo atenuado do tempo e das nuvens da paz como um teto branco por sobre as cabeças, Oxalá caminha passivamente sobre a Terra ou no infinito do Universo e, Exu o provocador de todos os movimentos é o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olímpo dos deuses africanos, os Orixás, deuses do candomblé.
       Mas, não só toda essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações consagradas aos deuses africanos que, desta forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano.
       A crença nesta forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados no próprio individuo que são manifestados pelas energias contidas em um DNA espiritual e que, passivamente, e através de ritos apropriados devem ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí o caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção. 
   

A mitologia não é uma narrativa das origens, mas a origem de todas  as narrativas.






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