Caminhando com os Deuses
Continuação
- 3
Orí - De acordo com a liturgia do candomblé Orí pode ser
definido como a cabeça designante, ou seja, Ori Isesé, porém, também pode ser
denominada como Orí Ooro, a cabeça ao amanhecer ou, Ori Akokó a primeira
cabeça.
Orí tem a maior importância não só para
o ser humano como também para o Orixá e, podemos dizer que Ori é o primeiro
entre todos, pois, é nele que estão concentradas todas as energias do Orixá, é
ele que possui regência sobre o indivíduo, estas energias estão concentradas no
Orí Inú. Numa explanação mais entendível, para a crença nos conceitos nagô, Ori
é o primeiro e mais importante dos Orixás, pois, nele está a escolha dos
caminhos.
Todas as pessoas inclusas no culto do
candomblé têm por costume tocar com a testa o chão numa simbologia de
reverência e respeito à Terra e, devido a circunstâncias, os Orixás também o
fazem.
Quando uma criança nasce, a cabeça
física - Orí Odè, sempre é a primeira parte do corpo a vir a este mundo e, por
esse motivo, ela é tratada com todo respeito.
Nos ritos de iniciação, a cabeça - o
Orí vem a ser propiciada em primeiro lugar antes mesmo de iniciar qualquer
outro ato e, é através do Ebori/bori que tudo começa a ter relação com o culto.
A
cabeça, ou seja, o Orí de uma pessoa é o órgão mais importante, por isso o ato
propiciatório é obrigatório, diz-se, dar comida a cabeça, um dos ritos mais
importantes dentro do candomblé e que deve ser propiciado com certa freqüência.
Orí
também tem sua importância porque é nele que está alojado o destino dos Seres,
destino este escolhido por nós mesmos no Orún, essa é a crença. No entanto,
também é Ori que nos dá a oportunidade de fazer escolhas nos caminhos da vida e,
é ele também que nos leva de volta ao Orún na presença de Olodumare/Olorún.
Orí
tem infinitas possibilidades de realização, é a ligação com a força denominada
Eledá, a força incondicional, o pensamento, o Olorún/deus que está dentro de
cada um de nós; mas também, juntamente com Ori está Eni Keji, o espírito gêmeo
que existe para nos lembrar do nosso destino a ser cumprido. Orí é a
consciência latente em todos os indivíduos, com ele estão nossos atos, nossas
virtudes nossos fracassos e vicissitudes, e por esse motivo o levamos no
retorno ao Orún.
Uma história - Orunmilá Ifá, senhor todo poderoso e adivinhador
do futuro de todos os Seres, criados por Olodumare, pronunciou: Quem entre as
divindades pode acompanhar seu devoto em sua caminhada sem retorno?
Xangô disse que ele poderia. Então Ifá
perguntou:...e o que você faria depois da longa caminhada e retornar à casa de
seus pais e eles lhe preparassem sua comida predileta? E Xangô respondeu:
depois de comer até ficar satisfeito retornarei à minha casa e não poderei mais
acompanhar meu devoto na caminhada.
Oyá respondeu que ela poderia. Da mesma forma
Ifá lhe pergunta a mesma coisa e ela responde que também não pode ir.
Novamente Ifá pergunta e, desta feita, Oxalá
responde que poderia ir. Ifá faz a mesma referência feita anteriormente e
novamente a negação.
Sem solução para o problema, ifá faz mais uma
tentativa e todos responderam com a mesma negativa, ninguém poderia ir.
Orúnmilá Ifá então responde a todos: Somente Orí
é quem pode acompanhar seu devoto na sua caminhada. Se um sacerdote de Ifá
morre o povo diz que os instrumentos divinatórios devem ser atirados em um
fosso profundo; quando um devoto de Xangô morre, o povo diz que suas
ferramentas devem ser lançadas longe; quando um devoto de Oxalá morre, o povo
enterra suas ferramentas junto ao corpo.
Quem entre os humanos
possui o costume de separar a cabeça - o Ori do corpo quando alguém é enterrado?
Portanto, disse Ifá, Orí, e somente Ori é quem pode acompanhar seu devoto na
caminhada.
As Iyámí Osorongá - As Iyámí são
entidades que possuem energias, tanto positivas quanto negativas. Enquanto elas
estão com energias positivas são denominadas de Iyámí, porém, na sua fase
negativa são denominadas Ajé.
As energias das Iyámí são tão complexas que recebem
criticas nas próprias sociedades que as cultuam. Este culto não é muito
difundido, porém, apesar de pertencerem à cultura africana, principalmente na
ioruba, suas sacerdotisas, as mais velhas, procuram passar seus conhecimentos
às mais novas para que o culto tenha continuidade, no entanto, devido aos
extremos segredos não há uma descrição para ter uma noção dos mistérios que
ocorrem nos rituais de tais entidades, sabe-se somente que fazem parte de uma
sociedade secreta. O povo ioruba acreditava as Iyámi possuiam poderes de se
transformarem em pássaro de agouro.
Iyámí
Osorongá é o termo que designa as Ajés, que representam o aspecto sombrio de
tudo que, transformadas em pássaros do mal, o agbigo, àtióro, hurù, Eluùlú, Wakó-Wákó,
Aragamago e outros, se transforma na ajé mais temida. Acredita-se que a coruja
é o pássaro que leva os feitiços aos seus destinos.
Tanto
na sociedade Osorongá quanto na sociedade Orixá, Iyámí, é considerada a mãe
universal e deve ser sempre cultuada como o núcleo feminino, como também na
interação ao seu oposto, Orinxalá/Obatalá, o Pai universal.
Iyámí é
uma força poderosa e singular que atua naturalmente como uma matriarca, ela é a
canalizadora de poderes sobrenaturais e físicos feminino, uma particularidade
especial que cada uma das várias Iyámí possui como desempenho e funções
diferenciadas, mas, primeiramente, como fontes geradoras de vidas, onde todas
estão voltadas para a grande mãe.
Nas sociedades Geledé - Sociedade das máscaras, Iyámí
recebe a denominação de Iyámí Akó, titulo que faz referência ao pássaro Wakó
Wakó que é representante no culto da principal expressão de um animal alado e
caçador. As cerimônias, onde ainda são realizadas no
início da estação do plantio, estão relacionadas à fertilidade; estas
cerimônias tiveram início na região de Kêtu, dividindo-se em duas partes, a
diurna e a noturna.
É no culto Geledé que também acontece numa
saída seqüencial das máscaras, onde a mascara Akó encabeça o titulo Iyálodé,
que vem a significar a primeira dama da sociedade Iyámí Akókó, a poderosa e
respeitada mãe ancestral suprema.
Outro
nome que Iyámí recebe é a de Iyámí Eleyé, que indica ser ela a dona dos
pássaros. A estória mítica que conta quando do mau-uso de seus poderes teve que
entregar a Orinxalá a cabaça mágica para que ele fizesse um bom uso. Em um
trecho da lenda conta que, desde os primórdios da existência as Iyámí foram
consideradas as mães e as donas do pássaro Aragamago, eram as Iyá Agbá, anciãs,
que são as mais antigas divindades do panteão Africano, as que têm uma relação
com a antiguidade, podendo-se supor que elas sejam a própria Terra.
Como em todo culto nagô, o culto à
Iyámí possui estrutura própria e idêntica a outros cultos de origem africana,
está sintetizado nas oferendas e nos elementos representativos.
A Iyálaxé é a sacerdotisa principal, cargo dos mais importantes na
hierarquia da sociedade Geledé, sociedade na qual são cultuadas as Iyámí. A
Iyálaxé é a responsável pelos assentos correspondentes à Yemanjá/Iyanlá, a mãe
ancestral, pois ela é a conexão entre a comunidade e o poder feminino que
representa as possuidoras do axé.
Com funções idênticas, o Babalaxé é um
sacerdote masculino, no entanto, participa somente de alguns rituais, sua
função para o culto está na manutenção das máscaras, dos trajes, da organização
das atividades e eventualmente participa dos sacrifícios perante os rituais.
O Aboré é outro titulo que os sacerdotes recebem e que têm a incumbência
de intermediar nas diferentes comunidades os favores das Iyámí.
O culto Geledé é originário do
território ioruba e está centrado na deificação do poder feminino, o Igbá Iwá,
como poder gerador de vida ou destruição. São os próprios membros masculinos da
comunidade que reconhecem tal poder através das máscaras, e nas quais, as Iyámí
são homenageadas.
Na África, ainda nos dias de hoje, as máscaras utilizadas são para a
parte pública do culto que são feitas no mercado por ser um lugar onde
preferencialmente trabalham as mulheres, é o lugar onde elas têm o poder social
na comunidade e também com a finalidade de pedir abundância. A festa é feita
anualmente e sempre organizada entre os meses de março e maio, meses que marcam
a época da semeadura agrícola, pois, têm como finalidade, a de assegurar a
fertilidade do solo.
Existem ainda outros cargos não
menos importantes, o Efefe, por exemplo, é um cargo hereditário, cargo que
requer muitos conhecimentos litúrgicos, pois, além de ser o encarregado de
fazer os versos usados nas cantigas e orações, são carregados de palavras que
satirizam os aspectos negativos relativos à vida social do povo que são parodiados
no culto. O Efefe é que, com seus versos, diz o que outras pessoas não se
atreveriam em dizer. O Angi é qualquer portador de máscara, isto é, o bailarino
selecionado por sua habilidade para interpretar o toque dos tambores com
movimentos muito particulares ao culto, sempre são homens e maiores de 18 anos.
Os Agbejos são os que confeccionam as máscaras Geledé.
Onilú é o conjunto de tocadores dos
atabaques – tambores que explicitam os tipos de toques para a evolução das
danças. Tradicionalmente é usado um conjunto de quatro tambores formando uma
orquestra.
Originário da nação Kêtu, a sociedade
Geledé está consagrada a Iemanjá, a qual é reverenciada como a mãe de todos os
Orixás e, isto porque, Iemanjá expressa para todos os seus filhos o sentido de
proteção maternal ante o poder feminino das Iyámí.
A virtude de poder trazer filhos ao
mundo que têm as mulheres foi também motivo de temor em muitos povos, algo que
era inexplicável porque as mulheres sempre foram vistas como possuidoras de
certos poderes especiais. Este fato ocorreu em todas as culturas antigas, houve
uma tendência em transformá-las em bruxas num sentido de crer que elas possuíam
também poderes para comunicar-se com forças do além, forças estas fora do
conhecimento do homem.
A palavra Iyámí, por si só, na
realidade não identifica a mulher com o lado escuro de seu poder, muito pelo
contrário, é um modo de exaltar e homenagear sua capacidade de engendrar,
apelando o seu lado protetor maternal, pois significa minha mãe. Esta forma de
referir-se a qualquer mulher expressa o sentido de reverência àquela que serve
de ponte entre os antepassados e os vivos, bem como, também reflete seu
importante papel maternal. Desse modo, todas as divindades femininas são
chamadas também de Iyámí, porém, não no sentido de bruxa, senão por tratar-se
de uma homenagem verbal às grandes mães espirituais.
Porém, quando se fala de Iyámí Osorongá muda muito o conceito exposto,
pois, aqui se referem ao mito sobre o poder feminino associado com as aves,
principalmente aquelas que confundem a mente humana por sua dureza ou
comportamento macabro. Ainda que, também não isolados das mulheres ou dos
Orixás, o mito Iyámí se relaciona com estas pela sua barriga, mais precisamente
com seu útero que é sempre referido como o Igbá Iwá - cabaça da existência, quando
se tratando da comparação metafórica entre um ovo fecundado e a barriga da
mulher grávida, onde, costuma-se dizer que a mulher tem o poder do pássaro
encerrado na cabaça.
Orixás não cultuados no Brasil
Ajê Saluga e Iroko - Com raras
exceções este Orixá tem sua manifestação nos Candomblés, seus sacerdotes
desaparecem e não deixaram ensinamentos suficientes para dar continuidade ao
seu culto. Por ser um Orixá amórfico, sua energia se dilui ao cair das árvores
centenárias com os desmatamentos, no entanto, ainda é possível conhecê-lo um pouco.
O Orixá Iroko, na transcendência é um dos filhos de Nãnã Burukú, irmão
de Obaluayé e Oxumaré, é também denominado Roko ou Loko em alguns Candomblés.
Subjetivamente, todas as energias deste Orixá estão concentradas nas grandes
árvores, árvores seculares que resistem á ação do tempo e dos humanos. Iroko
tornou-se a árvore sagrada e símbolo do Candomblé e guardião da morada dos
ancestrais. É o Orixá fundamental na interação entre a Terra e o Ar.
É o Orixá mais Elemental; pertencente às
matas, tornou-se ancestral de todas as árvores centenárias, as quais, não
devem, ou não deveriam ser derrubadas por ação humana, pois, nelas estão os
significados de solidez através de sua estrutura e suas raízes sob o solo e, em
seu interior, guarda os mistérios da força do seu axé.
Nas raras manifestações nos Candomblés um
ritual ainda é relembrado, é quando os fiéis lançam sobre ele os fluidos
maléficos que querem se livrar e, após algumas voltas pelo salão, o Orixá corre
porta afora fazendo um gesto como de lançamento, em direção das matas, todos os
males. Sua dança é feita com os joelhos dobrados sobre o chão ao som do bravum,
ritmo oriundo da Nação Jêje. Sua roupagem e seus paramentos possuem características nas cores vermelhas,
azul e verde, lembrando muito Oxumarè, ou por vezes cinza, marrom e branco. Sua
arma é uma lança e, ocasionalmente veste-se de palha como Obaluayé.
Diante da manifestação de Iroko todos os
adeptos da religião o saúdam... Okê Agbá Sé.
“O tempo dá o tempo tira, o tempo passa e a
folha vira”.
Geralmente em frente das casas tradicionais de
Candomblé existe uma grande árvore, em seu tronco, são envoltos com um Alá, um
laço feito com pano branco; esta é a identificação simbólica de que ali está
Iroko, Orixá fundamental na existência de um Egbé.
Também conhecido como Loko, Orixá da
gameleira branca, é onde são feitos seus rituais e colocadas suas oferendas, e
para muitos, esta árvore foi trazida da África, no entanto, é possível que já
existisse no Brasil mesmo antes dos africanos terem chegado por aqui.
Este Orixá não possui
características/qualidades, é reconhecido na nação Angola como Maionga ou
Maiongá e, é representado geralmente pela cor branca, muito embora utilize
outras cores. Seu dia consagrado é a terça feira e no sincretismo católico tem
em São Francisco de Assis como seu representante. Sua saudação é: Iroko-Okê Agbá sé
Ajê Saluga - Ajê
Saluga é a irmã mais nova de Iemanjá, ambas são
as filhas prediletas de Olokún.
Quando os oceanos foram criados Olokún dividiu
os mares entre suas filhas, e cada uma passou a reinar em diferentes regiões. À
Ajê Salugá coube o poder sobre as marés. O mito conta que Olokún possui nove
filhas e que também podem ser entendidos como os nove caminhos de Iemanjá, ou
suas nove características/qualidades que ela possui.
Na transcendência, Iemanjá é a
mais velha, ou a própria Olokún e, Ajê Salugá é a Olokún mais nova, fazendo-as
de certa forma mães e irmãs. Olokún, juntamente com os mares, deu para suas
filhas os muitos segredos que nele existe.
Ajê Salugá era ainda menina muito curiosa e
sempre bisbilhotava em todos os mares quando Olokún se ausentava. Ajê Salugá
fazia subir a maré e ia atrás cavalgando sobre as ondas, sempre disfarçada na
forma de espuma. De tão intenso e atrativo era o brilho das ondas que por vezes
cegava as pessoas que a olhavam. Um dia Olokún a advertiu. O que dás para os
outros tu também terás, serás vista pelos outros como te mostrares, este será o
teu segredo, mas saibas que todo segredo é sempre perigoso. Mesmo assim, Ajê
Salugá continuou a sair nas ondas disfarçada de espuma. Seu brilho passou a ser
ainda maior, isso porque maior era seu orgulho, agora detentora do segredo.
Muitos homens e mulheres a olhavam admirados com o brilho intenso das ondas do
mar, e cada um, com aquele brilho ficou cego. O poder de Ajê Salugá cegava a
todos. Porém, quando Ajê Salugá também perdeu a visão ela entendeu o sentido do
segredo. Depois disso, Iemanjá sempre a acompanha quando sai para passear sobre
as ondas.
Okó. (Oóónkó) - Na África era o deus da agricultura e no
Brasil não existe registro de seu culto. Muito raro, quase nada se sabe sobre
seus fundamentos; no entanto, na sua terra de origem estava ligado à colheita
dos inhames e a fertilidade da Terra. É um Orixá de procedência nagô, mas desconhecido,
pois, na época em que os africanos aqui chegaram pouca importância lhe deram e,
na ocasião, passaram a considerar Ogún em seu lugar. Em casos raros, quando
manifestado leva consigo um bastão de madeira indicando assim a relação com as
árvores, e não se sabe por que carrega também uma flauta feita de osso. Os mais
antigos diziam que havia uma relação com a sexualidade e com a fertilidade. Okó
é muitas vezes confundido com Oxalá por vestir-se de branco, e por ser um Orixá
muito raro, são conhecidas somente duas características, ou seja, qualidades.
Etekó que é caminhante ao lado de Oxaguian, um tipo inquieto e sempre a procura
de alguma coisa e, Lejugbé que também é confundido com Oxalá por seus passos
lentos. Okó está relacionado com Ayrá, Iemanjá e Oxalufan.
Oranian - Conta uma lenda que Oranian foi divinizado por ter sido
chefe de um clã e tornou-se Orixá. Filho mais velho de Oduduwa, era muito
poderoso e sua fama era reconhecida em todo o reino ioruba por ter sido um exímio
caçador desde sua juventude. Foi o fundador de Oyó teve por esposa Torosí, que
era filha de Elémpe, rei da nação Tapa, esta foi mãe de Xangô e que mais tarde
foi entronizado como rei.
Numa
lenda milenar está o registro de como Oranian foi concebido.
***Durante uma de suas expedições de conquista, Ogun
tomou a cidade de Ogótun, saqueou-a e fez muitos escravos, dentre seus espólios
de guerra estava uma prisioneira muito bela de nome Lakanjê, a qual agradou aos
olhos do conquistador, porém, este não respeitou suas virtudes. Quando Oduduwa
a viu ficou impressionado com a beleza de Lakanjê, desejou-a e a fez uma de
suas esposas. Ogun, amedrontado e respeitoso não revelou a seu pai o que havia
se passado entre os dois. Lakanjê ficou grávida e nove meses depois nascia
Oranian. Seu corpo era verticalmente dividido em duas cores. Um dos lados era
preto, pois, Ogún possuía pele escura, e do outro lado a pele era mais clara
como a de Oduduwa.
Após
milhares de anos transcorridos o povo ainda comemora uma festa denominada de, a
festa de Olojó em Ifé. É nesta ocasião que os sacerdotes e seguidores seguem
juntamente com o Oòni, o rei local, e pintam seus corpos de preto e branco e saem
em procissão do palácio até Okê Mògún, uma colina onde está erguido um monólito
consagrado a Ogun e, num ritual especifico, é ornado com mariwô òpê. Nesse dia
são feitos sacrifícios animais com cães e galos, que depois são dependurados na
grande pedra. Oòní, o rei local, veste-se com suntuosidade, e na cabeça, usa a
coroa que pertenceu a Oduduwa. É uma das raras ocasiões em que ele a usa
publicamente fora dos domínios do palácio. Chegando diante da pedra de Ogun,
cruza por um instante sua espada de Axogun em sinal de aliança, apesar do
desprazer de Oduduwa quando descobriu que não era o único pai de Oranian.
Determinados rituais são ainda, com alguma raridade, executados nas
terras de origem das religiões africanas, porém, raros são os registros que se
tem por aqui, dificultando assim o culto a muitos outros Orixás. É o caso de
Ifá, um Orixá que não possui manifestação e, seu ritual está praticamente
extinto.
Axabó - Figura mítica para alguns e, para outros, Orixá extinto do
culto e do panteão dos deuses africanos, porém, permanece nas lendas. Dizem que
Axabó mantém estreita ligação com a lua e usa uma lira para fazer
encantamentos. É em noite de lua cheia que faz os encantos atraindo os
pescadores e, seus cânticos lembram os cantos das serias. Axabó usa desse
artifício para tirar a vida daqueles que desafiam as águas em alto mar. Na
África está vinculada ao culto de Xangô, pois, acreditam ser sua prima. Axabó
possui poderes para que os sonhos sejam realizados, no entanto, também pode
roubar os sonhos contados. Axabó veste vermelho.
Oráculos desenvolvidos no Candomblé - Nos
cultos denominados afros brasileiros existem várias formas de preconizar
determinadas situações, e dentre os mais conhecidos podemos citar o Ikin, jogo com
16 nozes de dendezeiro que é denominado Opele ou Kipele. Esta forma de oráculo
reúne dezesseis nozes unidas por uma corrente fina e uma tira de palha da
costa. Das dezesseis nozes, oito são abertas e oito são fechadas e é um
instrumento utilizado somente pelos Babalawôs. Este oráculo, tradicionalmente é
vetado às mulheres.
No
entanto, o oráculo mais popular é o jogo dos caoris, ou búzios como são mais
conhecidos; este oráculo não é somente utilizado pelos Babalawôs, mas também
por àqueles indivíduos preparados para o culto. Outro oráculo muito utilizado
nas confirmações de perguntas é o oráculo que utiliza o Obí, fruto do obizeiro,
árvore considerada sagrada no Candomblé. Existe também o Orobô, jogo semelhante
ao do Obí.
Com
referência aos oráculos, existem ainda outras formas de fazer previsões, porém,
poucos utilizados, mas de grande eficiência, são os oráculos que utilizam as
folhas que é feito através das folhas e têm como patrono Ossayn, o Orixá das
folhas. Outro oráculo, não muito conhecido é o jogo dos ossos, este, no entanto,
é manipulado somente por um Baba Esá sacerdote do culto à Égúngún.
Conforme
foi dito, o Ikin e o Opele são oráculos exclusivos dos Babalawôs, muito embora,
já existam versões femininas, as Iyálawôs que, aparentemente possuem as mesmas
prerrogativas masculinas; no entanto, existem algumas contestações, pois,
cntradizem as tradições.
O jogo de Obí e Orobô, muito embora seja o mais
simplificado, sintetiza todas as respostas e é considerado de muita precisão. O
Obí é um fruto que possui dois ou mais gomos e, quando aberto, é utilizado para
o jogo de quatro gomos e é denominado Obí Abatá ou Méeran.
Por ser um
fruto sagrado e, por questão de fundamentos no candomblé, este fruto somente
pode ser partido pela ação das unhas, dos dentes ou de uma faca feita de madeira,
metal algum pode tocá-lo; é um fruto fundamental para muitas oferendas e
determinados rituais. O motivo de o Obí não poder ser cortado com faca ou
objeto de metal, é por estar relacionado com o Itan sobre Orí.
Conta a
historia que Orí conseguiu partir o fruto com a força do próprio corpo, que na
época, era apenas uma forma arredondada com vida, tornando-se assim um Irumalé,
Orixá com direito a assentamento juntamente aos outros Orixás. Ori teve como
função em ajudar no processo da criação juntamente com Oxalá e Ajalá. Seu
trabalho está no processo da criação sob o testemunho e orientação de Orúnmilá
a ajudar ao Ser criado escolher o seu Odú seu destino.
A utilização
do Obí aberto em quatro partes é para ser jogado em qualquer situação de
incerteza, no entanto, devem ser obedecidas certas normas que estão
fundamentadas dentro das tradições, a saber: o oráculo ou jogo de Obí, deve ser
feito no ambiente e para a situação especifica do momento ou do ato a ser
realizado. O jogo é feito por quem está atuando diretamente em tal ato e com os
orôs, as rezas específicas e, quem o faz, são somente os conhecedores das
várias formas de caídas dos gomos. O jogo de Obí pode ser feito em qualquer
lugar, em uma mesa ou no chão, evidentemente em lugar limpo e sempre sobre um
pano branco. Diz na tradição que muito embora Orúnmilá seja o patrono deste
jogo, Orí é quem responde.
Orunmilá Ifá - Deus do destino
e regente dos oráculos - Orunmilá
encontra-se em um plano mítico e simbólico além dos demais Orixás e, em Ifé,
algumas lendas eram contadas narrando que foi o primeiro chefe e conselheiro de
Oduduwa quando de sua chegada naquele reino. Outras fontes atestam que ele já
estava instalado em Oké Igeti antes de vir e se fixar em Oké Itasé, uma colina
onde mora Arabá, este, a mais alta dignidade e autoridade da adivinhação, é também
chamado de Agbonmirégun, é o testemunho do destino dos Seres, e por esta razão
é denominado Eleepi Ipin. Os Babalawôs, os pais dos segredos, são os portadores
das palavras de Orúnmilá.
A
iniciação de um Babalawô não comporta a perda temporária de consciência, e por
esse motivo a confirmação é feita com rituais específicos. No caso do Babalawô
é uma iniciação quase que totalmente intelectual onde o aprendizado é longo,
pois os conhecimentos são precisos, tudo depende da memorização e tudo funciona
individualmente. No longo aprendizado estão implícitos o conhecimento de todos
os Itans, estórias e lendas, fundamentos essenciais que classificam os 256
Odús, os signos de Ifá.
Todo
individuo ao nascer é ligado a um dos 256 Odús e é ele que formula a identidade
individual no que tange ao seu destino. O Odú é que serve de guia na vida
revelando o Orixá ao qual deverá, eventualmente, o individuo se dedicar; além
disso, também indica todos os demais que poderão ajudar na caminhada da vida.
Existem a
princípio 16 combinações possíveis de Odú, e cada um deles recebe um nome
particular por estarem ligados a cada um ou mais Orixás.
Conta uma
lenda que depois de viver na terra por algum tempo Orunmilá voltou ao Orun, e
para isso, esticou uma longa corda por onde subiu; os Seres humanos ficaram
desorientados sem a presença dele, pois era ele que transmitia a vontade de
Olorún através do oráculo.
Olokún aproveitou a situação e tomou quase toda a
Terra tornando-a inabitável para os homens, porém, penalizado com a situação,
Orúnmilá desceu novamente pela corda colocando tudo nos devidos lugares
tornando assim a Terra novamente habitável.
Outros
oráculos são utilizados nos cultos afros brasileiros, o jogo de Obí, de Orobô e
das folhas que, são elementos considerados sagrados, isso, por estarem
relacionados com fundamentos da religião. No entanto, um dos mais populares
oráculos é o denominado jogo de búzios, que consiste no lançamento de 21 cauris/búzios
sobre uma superfície plana ou em uma peneira – a urupema - pelos Babalawôs,
pelas Iyálorixás, pelos Babalorixás, e também por todos aqueles que, dentro do
culto, são autorizados a exercerem tais atividades.
Alguns
outros jogos divinatórios são restritos a determinados sacerdotes, é o exemplo
do jogo promovido pelos Baba Éegún que utilizam quatro ossos nos rituais de Égún-égún/Egúngún
e que tem por patrono Babá Esá; este, no entanto, é pouco utilizado nos dias
atuais pela falta de transmissão dos conhecimentos.
***
É
de crucial importância esclarecer que além de determinadas restrições impostas
pelo culto, os oráculos não são meros jogos divinatórios, funcionam numa
inter-relação com os fundamentos, preceitos e compromissos adquiridos pelos
iniciantes no processo de aprendizado e que não ficam somente na dependência do
individuo, e sim num complexo sistema religioso. A autorização para fazer tais
previsões é concedida por elementos astrais, não bastando, no entanto, de
conhecimentos superficiais sobre o culto.
Neste
aspecto, primordialmente é necessário entender o intricado universo dos Orixás,
pois, é através de tais entidades que tudo transcorre. Aqui, Orúnmilá é o
senhor de toda a sabedoria e provedor do destino de todos os Seres, e através
dele é que determinados indivíduos recebem como missão de existência,
prerrogativas para serem intermediários no processo divinatório. Tais
indivíduos adquirem os conhecimentos através de iniciações e confirmações que,
com o passar do tempo e de conformidade com os estudos e dedicação, se aprimoram
para desempenhar tal atividade.
Para cada
modalidade de oráculo existe uma entidade patronal, isto devido a determinados
fundamentos advindos dos Itans, estórias que fazem parte da religião desde os
primórdios, são estórias miticas que foram contadas pelos antigos Babalawôs,
sacerdotes templários e ancestrais no culto. Assim, com exceção do oráculo dos
ossos, já mencionado e outros oráculos não descritos, todos possuem seus
patronos, ou seja: o oráculo das folhas tem por patrono Ossayn, pois tal Orixá
é o detentor dos conhecimentos de todo o universo vegetal existente. As folhas
são elementos essenciais nos cultos e rituais, no entanto, este oráculo não é
muito difundido, pois ficou restrito a poucos e o conhecimento se perdeu no
tempo.
Detendo-se nos oráculos mais usuais, ou
seja, o jogo de Obí e Orobô usados nas confirmações de feituras e obrigações de
iniciados, os búzios também são utilizados, muito embora, este seja mais
conhecido é também o que mais oferece contradições exigindo do olhador um maior
conhecimento. O jogo do Obí ou Orobô, embora sejam mais simplificados, são na
verdade os que oferecem maior segurança quanto aos esclarecimentos e respostas.
Considerado sagrado e místico, o Obí é um fruto que possui dois ou quatro
gomos que, quando aberto em quatro partes é utilizado em jogos divinatórios.
Existem, no entanto, outras denominações para o fruto, Obí Obatá ou Meerin e o
Obí Mejim, este possuindo dois gomos, o que não impede de ter serventia para o
oculto; sua utilização é quando, primeiramente, o fruto é dividido em quatro
gomos iguais utilizando as unhas, dentes ou faca de bambu ou madeira. Por ser
considerado um fruto sagrado e essencial em algumas oferendas, não é permitido
o uso de qualquer instrumento de metal para parti-lo.
A
utilização do Obí, dividido em quatro gomos é fundamental em qualquer situação
de incerteza, no entanto, segundo alguns Babalawôs, algumas regras devem ser
seguidas, pois fazem parte das tradições e fundamentos.
Diz na
tradição, que embora Orúnmilá seja o patrono do jogo, Orí é quem responde por
uma deferência de Exu, o emissário dos Orixás.
Designado
para uma situação específica de confirmação a uma resposta, o jogo de Obí pode
ser feito no ambiente e momento que se desenvolve um ritual, quando são
lançados ao chão, sobre uma mesa, ou qualquer outra superfície natural e plana,
mas sempre tendo um pano branco, um ojá, estendido.
Como todo
oráculo, o jogo de Obí é desenvolvido por quem realiza o Orô - reza específica de
saudação e invocação às divindades.
O jogo de
Obí é um dos mais eficientes e, por esse motivo, é utilizado com muita
freqüência em diversos rituais, mas somente os mais graduados do culto, Axogún,
Pegigan, Atogún, a Sidagan, a Iyápetebi, o Babalawô, a Iyálorixá, podem ser os
olhadores. Além destes, um dos cargos mais importantes nas práticas
divinatórias, é o Olowô, o mais confiável e conhecedor de todos os jogos
divinatórios, sacerdote principal dos oráculos, este, no entanto, pouco
conhecido e raro nos dias atuais.
A relação
do Obí com o fato de não poder ser cortado com objeto de metal vem de estórias,
lendas muito antigas. Conta uma delas que na época em que Ori possuía forma
arredondada e com vida, conseguiu partir um Obí com a força de seu próprio
corpo, tornando-se assim em um Irumalé. A partir de então, passou a ter direito
a assentamento entre os outros Orixás e recebeu de Orúnmilá a função de ajudar
no processo da criação juntamente com Oxalá e Ajalá, que é o de ajudar a
escolher o Odú para os Seres criados.
O jogo de
búzios, cauri, meerendinlogun, dilongun ou simplesmente denominados de Ifá, são
os nomes das formas de oráculos mais conhecidas no culto afro brasileiro. Sua
origem verdadeira remonta aos primórdios da historia da humanidade e não há de
fato conhecimento sobre em que época apareceu na África.
Em
território ioruba, os Babalawôs, em tempos remotos, já utilizavam os caramujos,
cauris, como dinheiro ou em forma de um jogo de adivinhação. Contudo, existe
uma antiga historia que diz ter sido alguns sábios, vindo do oriente que levaram
para ilha de Madagascar tais conhecimentos e que de lá se espalhou pelo resto
do continente africano. Por outro lado, existem algumas teorias falando dos
fenícios e dos caldeus em relação a este método divinatório, até mesmo algumas
estórias referente à Atlântida, porém, são apenas especulações.
No Brasil,
os cauris/búzios chegaram sob a forma de oráculo no final do séc. XIII trazidos
pelos sacerdotes da nação nagô que, vindos do território ioruba na Nigéria, do Benin,
do Daomé, de Togo e de Gana. Estes sacerdotes chegaram ao Brasil, não como
escravos, como foi sempre deduzido, mas sim como expatriados, vitimas das
muitas guerras internas entre os povos das diversas nações tribais na África e,
muito embora a grande maioria negra na época fosse escrava, muitos deles vieram
espontaneamente e aqui puderam desenvolver e conservar suas culturas.
Com o
tempo àqueles sacerdotes influenciaram e resgataram valores esquecidos e os jogos
divinatórios faziam parte da nova situação. Posteriormente, adeptos se
identificaram com as antigas tradições trazidas da África, e daí em diante o
jogo de búzios, entre outras práticas culturais, se popularizou passando a
integrar definitivamente o culto aos Orixás que estava de certa forma
estabelecida na nova terra.
A Umbanda - A
união de crenças e ritos advindos dos africanos, do nativo índio e do
catolicismo é que surgiram os conceitos da Umbanda e podemos dizer que a
Umbanda é a síntese do sincretismo formada por esse tripé de crenças; do
africano a crença nos Orixás, dos índios os conceitos e ritos xamânicos, do
catolicismo toda a iconografia dos santos promovendo o sincretismo religioso, e
mais tarde, no final do século XIX juntou-se a estes mais um elemento formador
de conceitos, o espiritismo kardecista. Todos estes elementos, não por acaso,
aconteceu.
No
principio, ainda no tempo do Brasil colônia, os negros escravos nos poucos momentos
de descanso, cantavam e dançavam através de subterfúgios em louvor aos Orixás.
Entretanto, o sincretismo religioso tem suas origens, sobretudo no batuque,
forma pela qual, negros alforriados manifestavam dentro de limitações sua
religiosidade em forma de danças profanas, porém, com conteúdos estritamente
religiosos; e foi da junção do sincretismo, do indígena, do cristão, dos bantos,
dos sudanêses, congos e angolas, que deram início nas periferias das grandes
cidades da época ao processo dos candomblés, nos quais, a religiosidade
indígena teve grande participação e, na medida em que mais negros eram
alforriados, mais se reagrupavam, conseguindo assim manifestar e por em prática
os rituais de seus ancestrais.
No início deste processo, os candombes, como
eram denominados - palavra de origem banta que dá nome aos instrumentos de
percussão surgiu o nome da dança executada nos terreiros, espaços de chão
batido pelos pés e os quais se tornaram um designativo aos locais onde eram
efetuadas as práticas religiosas acompanhadas ao som dos batuques, cantos e
danças.
Os candombes
passaram então a incorporar elementos cristãos e indígenas atraindo fiéis do catimbó,
prática religiosa desenvolvida por índios cristianizados. Tempos depois, uma
insatisfação surgiu em torno de grupos sudaneses, estes, de descendência das
nações Ijexá, Kêtu, Oyó e Benin, povos nagôs que tinham por ocasião,
estabelecido os candomblés de nação e que rejeitavam a idéia de um culto
conjunto ao dos Baba Égúns, culto aos ancestrais. A corrente religiosa banta
católica, muito embora aceitasse o conceito da existência dos Orixás, estes de
origem sudanesa, reafirmaram sua opção em cultuar tanto os caboclos quanto os
antepassados africanos, derivando daí os primeiros conceitos umbandistas, criando-se
assim uma das primeiras estruturas do sincretismo religioso brasileiro.
Encontrando
no batuque partes dos rituais de seus antepassados conseguiam assim por em
prática, mesmo que modificada, os primeiros candombes, locais com nova
estrutura onde foram incorporados nos rituais os transes mediúnicos,
manifestando desta forma, os primeiros espíritos que, acreditavam serem os mensageiros
informantes dos Orixás, ou seja, os caboclos e os pretos velhos. Este modo de
manifestação religiosa deu origem ao Omolokô, ou Candomblé de caboclo para
alguns. Desta forma e neste novo culto continuou vivo o sincretismo religioso
dos ritos indígenas-cristãos, indexado ao panteão africano que possuía Orixás,
Voduns e Inkices; e assim, para Olorún santificaram Tupã, Zambi e o deus
católico cristão, juntamente com Iemanjá passaram a cultuar as Janainas, Iáras
e Nossa Senhora; com Ogún passaram a conviver os cariris, os boiadeiros e São
Jorge; com Oxóssi o Sultão das matas e São Sebastião; com Exu o caipora, as entidades
do Catimbó e o diabo católico cristão aos Baba Égun estão também as crianças, a
falange do Oriente, os caboclos e muitos outros ancestrais da nova Terra.
Diferentemente dos conceitos
determinantes no Candomblé, a Umbanda é composta pelos guias espirituais,
espíritos que atuam em uma determinada linha e que, por sua vez, está ligada a
um determinado Orixá. Cada terreiro tem a sua forma de interpretar e promover
seus ritos, por isso o grande número de ramificações na própria crença.
Por estar
ligada ao cristianismo, elemento formador da religião e um dos pilares do
conceito umbandista, prega principalmente o amor, a caridade e a humildade, e
seus guias espirituais, quando incorporados, passam seus conselhos sempre
falando na fé, na justiça e na evolução. Estes guias possuem vários arquétipos
pelos quais se apresentam na mecânica da incorporação e, cada um deles,
pertence a uma determinada linha vibracional, são eles os pretos velhos, caboclos,
boiadeiros, baianos, erês, Exus e povo do oriente. No entanto, estes arquétipos
são apenas roupagens fluídicas utilizadas para se apresentarem diante do
universo material, não significando que tenham sido necessariamente, escravos
ou índios.
Nas seções
ou giras, assim denominadas, é que são desenvolvidos os rituais, neles são
utilizados atabaques e outros instrumentos para acompanhar os pontos, as
cantigas que ao longo de cada uma delas os guias passam a incorporar nos
médiuns, estes denominados filhos de santo.
Não
obstante do histórico registrado que a Umbanda tenha surgido na época do Brasil
colônia, para alguns, passou a existir após um evento ocorrido no Rio de
janeiro através do médium Zélio Fernades em uma seção espírita kardecista. No
entanto, foi deste episódio que elementos Kardecistas foram absorvidos pela
Umbanda tradicional, ou seja, a que deu início nos candombes.
Uma das
manifestações religiosas que é muito confundida com a Umbanda é a Macumba
carioca. Enquanto a primeira possuía, e continua possuindo local e fundamentos
próprios, a segunda passou a integrar elementos denominados de esquerda,
surgindo daí os termos esquerda e direita e, enquanto a Umbanda trabalha para o
lado do bem, ou seja, o lado da direita, a Macumba, supostamente trabalha para
com o lado oposto, à esquerda.
A Macumba carioca, como ficou conhecida, os rituais
eram feitos geralmente durante a noite nas praias; com elementos fetichistas
foi muitas vezes combatida e até mesmo censurara, chegando ao ponto de ser
proibida, e desta forma, o culto foi recolhido de vez nos terreiros de Umbanda,
porém, mantendo as características dos rituais e tendo suas seções em tempo
diferente aos ritos de trabalhos ditos de direita. É nos ritos e seções
referentes à macumba que são incorporados os denominados Exus de Umbanda, que
também são denominados de guias, o que não desfaz de suas características e
condições de pertencerem ao universo de espíritos, ou seja, Éguns.
Historicamente o termo macumba é originário do povo banto, ma-Kiumba,
termo que define o culto aos ancestrais, aos Éguns, espíritos noturnos. Porém,
existe outra versão que corresponde a uma árvore, cuja madeira leve, servia
para fazer tambores, daí o nome da dança desenvolvida e que acabou dando origem
ao nome da religião.
Para
muitos umbandistas, o termo macumba tornou-se um termo pejorativo, e com o
tempo, o termo passou a ter a denominação de Kimbanda, numa rememoração ao
culto de origem banta. Nesta nova forma de culto foram incorporadas todas
aquelas entidades ou guias consideradas mais pernósticas quanto à aceitação dos
conceitos básicos, ou seja, o amor e a caridade. Estas entidades ou guias
passaram a dar uma compreensão no sentido de equilíbrio da própria estrutura
religiosa, que a principio tinha o sentido de esquerda e direita, mas por uma questão
de convenção e recompor estruturas, passaram a fazer parte da esquerda todos aqueles
denominados Exus, porém, estes, no conceito do Candomblé, são denominados Éguns
e taxados pejorativamente de capetas ou catiços, numa alusão ao diabo católico,
mas que na verdade são espíritos desencarnados que voltam numa incorporação no
processo mediúnico para cumprir determinadas tarefas e alcançar graus na escala
evolutiva espiritual.
Diferentemente
dos Exus que incorporam nas seções de Umbanda/Kimbanda, ou seja, à esquerda no
processo ritual, o Exu no Candomblé, Exu Orixá, é considerado uma divindade
atemporal com características individuais como a de tantos outros Orixás, é a
energia dinâmica da reprodução e do movimento, por isso, em alguns casos é representado
por um falo; é também o Orixá da renovação e transformação. Porém, apesar deste Orixá possuir suas características, foi no passado
confundido e sincretizado com o diabo católico. Na Umbanda, independente de
qualquer convenção, os Éguns são espíritos desencarnados que estão em evolução,
por isso seus trabalhos, podem ser considerados como uma tarefa a ser cumprida.
São eles os vigilantes dos princípios morais, da ética social que, de uma ou
outra forma, cobram dos seres humanos um alerta para bom desempenho na
convivência social. No entanto, alguns desses espíritos encontram-se na
neutralidade, e outros ainda tornam-se mais revoltados pelo não reconhecimento
da situação em que se encontram, estes são denominados de kiumbas que, neste
caso, é preciso um trabalho de doutrinação. Teoricamente este é o processo para
que tal espírito alcance o caminho da luz e reconheça o seu estado de espírito
para que possa alcançar e recuperar o seu crescimento. Assim é a Umbanda,
trabalhando com conceitos estritamente espirituais e tendo como princípios
básicos a caridade e o amor ao próximo.
Existem
muitas outras formas de se ver a Umbanda, pois, desde o tempo dos candombes,
dos Candomblés de caboclo, passando pelos Batuques, pelo Omolokô, pela Cabula,
e reconhecendo a Macumba carioca como uma ramificação do culto, rememorou a
Kimbanda que não contradiz princípios, mas apenas diferencia com equilíbrio as
forças espirituais.
A Umbanda
é na realidade uma religião genuinamente brasileira que, diversificada na
forma, conceitos e conteúdos de seus ritos, passou a receber as denominações de
Umbanda tradicional, africanizada, esotérica, iniciática, umbanda de caboclo,
umbanda católica, umbanda traçada e outras; esta última com conceitos adaptados
do candomblé que para alguns passou a ser denominada de Umbandomblé.
Os ciganos
na Umbanda - Assim como todas as entidades ou espíritos denominados de
guias na Umbanda possuem suas linhas, as entidades ciganas não poderiam ser
diferentes; seus trabalhos são desenvolvidos na Linha do Oriente, pois de lá
são seus ancestrais; alguns, no entanto, apresentam-se como vindos de outras
nações. Isto ocorre por serem eles, desde sua saída da Índia, um povo andarilho
e por onde passaram assimilaram muito das várias culturas.
Apesar de
o povo cigano possuir cultura própria, sempre se faz presente nas mesmas seções
dos chamados Exus, isso porque, muitas vezes trabalham na mesma faixa de
energia vibracional. Por um lado, como fazem parte integrante do culto, sempre
incorporam nos seus médiuns com suas características próprias diferenciando-se
dos demais guias. O lado feminino, muitas delas são identificadas como pombo
gira cigana, pois, estas possuem histórico diferente de outras entidades ciganas;
dizem serem elas, aquelas que não seguiram as rodas dos carroções e tornaram-se
sedentárias, diferenciando-as das entidades que se fazem presentes somente na
linha do Oriente.
O relacionamento entre entidades ciganas
e não ciganas, por questões culturais, é um relacionamento pacífico por estarem
muitas vezes em níveis semelhantes de crescimento e vibração espiritual; assim
como um Exu tem seu raio de ação, as entidades ciganas também o têm, não
obstante de estarem lutando pelos mesmos objetivos, diferenciando-os apenas as
questões culturais.
O
aparecimento das primeiras manifestações de entidades ciganas em médiuns deu-se
pela necessidade de estarem presentes, ou seja, incorporados, para prestarem
seus serviços em prol do Ser humano e deles próprios para seu crescimento.
Não há
registros de qual ou quando teriam se dado as primeiras incorporações de
espíritos ciganos em um médium, sabe-se somente que passaram a fazer parte
integrante no contexto da Umbanda, assim como os pretos velhos, caboclos e
outras entidades guias.
Fazendo uso de seus conhecimentos
milenares, são exímios nas divinações feitas pelas cartas de baralho, nos jogos
de dado, nas taças com água, nos cristais e outros elementos esotéricos.
Os Encantados e outras Entidades - Associados as divindades astrais, aos
elementos na natureza e as energias emanadas do Orún, os Orixás estão
estruturados em uma dimensão superior e infinitamente distante, porém, mantém-se
ligados a cada individuo ou Ser existente, conservando assim funções independentes
na cosmologia de outras entidades mais próximas do mundo material.
Algumas
histórias sustentam que tais entidades são ancestrais divinizados, chefes de
clãs ou de linhagens que, posteriormente as suas mortes, foram cultuadas por outros
clãs, tornando-se assim divindades de cultos extintos. No entanto, é através
dos fundamentos da religião que encontramos provas irrefutáveis da criação,
manutenção e a multiplicação dos Orixás.
As atividades culturais e religiosas
praticadas nas casas de culto ou nos terreiros, é que definem os limites de
funções, até mesmo das entidades, pois estas são portadoras de energias
diferenciadas, umas são astrais, outras são terrenas.
Através de uma mutação, resultado da interação ritual
e na transformação do axé é que são observados determinados fenômenos. Os
Seres, ao completarem o ciclo de vida, transferem para a terra, numa forma de
devolução os conteúdos a ela pertencentes. Enquanto os elementos astrais
elevam-se a um espaço e um tempo diferente do mundo material, permanecendo, no
entanto, num mundo espiritual, e como espíritos recebem várias denominações nas
diferentes correntes religiosas apregoadas. Nos cultos afros brasileiro são
denominados Éguns, mas nem todos, tornam-se dignitários a permanecer próximo ao
mundo material, pois, a evolução da energia vital ao mundo astral também há de
ser realizada.
Àqueles
que permanecem no Ayé, na Terra, circunscritos ao mundo espiritual, transformam-se
em entidades configuradas que, ao incorporar em um médium, passa a fazer parte temporariamente
do mundo físico. Tais entidades recebem denominações de acordo com as correntes
religiosas que os cultuam e mantendo a cultura a que pertenciam quando em vida;
encantados, guias, mestres, santos, são algumas das formas que os chamam, e
alguns deles, também pelas diversas correntes, são representantes ou servidores
específicos de entidades astrais mais elevadas, passando assim, a receber
denominações condignas inerentes a entidades.
Com
prerrogativas das vidas anteriores, os Éguns, como entidades, possuem um vasto
conhecimento social e cultural e, os graus de crescimento na escala evolutiva a
cada um deles ficam na deferência das ações por eles próprios praticados, são entidades
conscientes do estagio em que se encontram.
Em algumas
ramificações das várias práticas religiosas espirituais, tais entidades não são
aceitas quando incorporadas, são respeitadas e tratadas apenas no mundo etéreo,
são consideradas como energias restritivas com rituais específicos e distantes
daqueles desenvolvidos aos Orixás propriamente ditos.
Cultuados
por algumas nações de Candomblé e mais especificamente nas casas de Umbanda,
são eles que determinam sem imposição, o desenvolvimento de trabalhos por
estarem mais próximos ao mundo material e por terem possuído uma vida física.
Quando incorporados, explicitam conselhos, pois entendem bem todas as
dificuldades e necessidades humanas.
Quando
incorporados, além de manterem suas individualidades, encontram-se sempre caracterizados
pelas falanges a que pertencem e pelos nomes próprios por eles formulados,
tornam-se indivíduos com todas as prerrogativas de sentimentos humanos.
Tais entidades
não possuem assentamentos, pois, seus elementos representativos estão inseridos
na própria existência do Ayé, a Terra, onde eles se encontram, porém, muitas
vezes são confundidos com entidades astrais não obstante da ligação que os
mantém.
Individualizados no relacionamento entre suas falanges possuem seus
paramentos e fetiches na utilização dos diversos trabalhos que desenvolvem; suas
roupas e insígnias, também individualizadas, os identificam.
Cultuados
em épocas remotas por sociedades secretas pertencentes a algumas nações,
difundiram-se devido necessidade de expansão, e sua fusão com outras culturas
resultou em um culto paralelo aos terreiros de Candomblé. (não confundir aqui
com o culto aos Ëgungun, culto restrito e pertencente a um ritual secreto e
especifico – culto aos ancestrais).
Nos
terreiros onde são desenvolvidos seus rituais estas entidades se apresentam,
quando incorporados, como caboclos, pretos velhos, boiadeiros, ou simplesmente
caracterizados como povo de rua, estes, no entanto, muito confundidos, recebem
a denominação de Exu. Outra linha característica são os membros do universo
cigano, estes, identificados e diferenciados por seguirem sempre uma falange,
estão ligados por uma corrente que os irmana, pois, todos pertencem a uma
comunidade, a comunidade dos Éguns, por isso a presença deles nas reuniões onde
incorporam o povo de rua, como são conhecidos; no entanto, estes possuem seus
diferenciais por pertencerem a uma cultura toda própria e distinta conservando
assim suas tradições.
Os poderes conferidos a um Égun encantado
são proporcionais com sua experiência em vida, não raro são os casos de
médicos, enfermeiras, padres, e até cientistas estarem ainda no plano terreno,
pois são eles, dignitários de missões a serem cumpridas ou concluídas em um
plano material, estes, no entanto, podem estar alinhados em outros segmentos
religiosos, independentemente do formato ou estrutura religiosa.
Para
entender melhor a dinâmica da função de um Égun encantado é preciso estar
atento com a sua cultura de origem quando em vida. Um caboclo, como exemplo,
incorpora com suas características tribais em um médium e se identifica com
elementos vivenciados na sua experiência de vida, pois, além de estar ligado
diretamente com as forças astrais, está também ligado juntamente com as
características tribais de sua origem quando em vida. Os elementos relacionados
com os Orixás ficam implícitas em seus paramentos, armas, cores e insígnias; no
entanto, pouco se sabe desta convivência astral, podemos apenas formular
algumas hipóteses sensatas, pois, a incorporação desses elementos nos terreiros
de Candomblé e na Umbanda, são
relativamente recentes se for analisado do ponto de vista temporal. Na África, terra de origem dos dogmas
místicos do Candomblé não existe registros ou tampouco transferência de tais
elementos a outras culturas, o que faz crer, a princípio que, o desenvolvimento
deste culto foi devido a questões culturais, um novo formato com novos
conceitos que se deu no novo mundo, consequência natural de uma miscigenação
propiciada pelas próprias entidades astrais.
Nada pode
ser confirmado quanto à mecânica ou o próprio formato a que um grupo social
venha impor a tais entidades, o mais importante, no entanto, é o fato da
existência e dos fenômenos que ocorrem. Com raras exceções aparecem no contexto
elementos desconhecidos ou idiomas não formulados nos rituais; para diferentes
linhas de ação ou falanges, diferentes formulações linguísticas, porém, na
linha das diversas falanges do povo cigano são observados diversos idiomas e,
entre alguns, está o espanhol, italiano, russo, e até mesmo um idioma egípcio
já extinto, o que pode comprovar a idade temporal de determinadas entidades.
Na linha
de pretos velhos, eles apresentam-se como ex-escravos do período colonial;
idosos e aparentando as mazelas deixadas por tal período, trazem grandes
conhecimentos de uma medicina popular, de rezas e mandingas com conceitos xamânicos.
Pertencentes ao grupo formado pelo povo de rua, apesar
das suas várias características, são individualizados de acordo com as falanges
que os regem e um nome próprio com o qual se identificam, pois, seus nomes
verdadeiros, com raras exceções são conhecidos até mesmo para os médiuns.
Os Éguns,
encantados da linha e das falanges do povo de rua, Exus como são conhecidos,
passam a receber denominações de conformidade com as suas identidades de
comando e de acordo a uma hierarquia; normalmente pertencem às comunidades de
marinheiros, malandros e pombogira, esta, versão de Exu feminino está
relacionada quase sempre aos cabarés e a vida boêmia e mundana do período
inicial da república aqui no Brasil ou de períodos mais distantes do continente
europeu. Esta é a parte feminina deste intricado universo. Zé Pilintra, tranca
ruas, caveira, tiriri e muitos outros, são membros universalizados pertencentes
a este sistema. Evidente que, cada falange corresponde a uma hierarquia, pois,
as denominações citadas pertencem a uma entidade individualizada e com poderes
de comando, comando este que também fica a critério de uma entidade maior com
um poder de ação mais astralizado.
O fato das
entidades serem denominadas de Exus corresponde a um entendimento generalizado
ao Orixá Exu de origem nagô e por ele estar diretamente ligado ao Ayé, a Terra,
mas também, pelo dinamismo das forças, tanto astrais quanto terrenas.
Assim como
acontece na vida material, a hierarquia é fundamental também no plano
espiritual, pois tais entidades têm seus poderes limitados, e quando
ultrapassados tais limites, a responsabilidade fica a critério do livre
arbítrio de cada uma delas, fazendo com que possam evoluir ou não.
A considerar
o aspecto evolutivo de tais entidades, evidenciado fica que todos os Seres são
portadores de energias vitais, àquelas proporcionadas pelo axé individual;
portanto, um Égun também requer que sejam feitas a reposição e manutenção de
suas energias, e é através das oferendas à Exu – Orixá, que tais entidades e
toda sua falange se fortalecem.
Uma cadeia
existencial interliga todas as forças Universais, tanto no Ayé quanto no Orún,
colocando assim todas as estruturas em equilíbrio; mas, para tanto, o
fortalecimento do axé tem que ser constante.
As
ligações de um Orixá a um Égun encantado, também e, pejorativamente denominado
de escravo, são dadas pelo fato daquela entidade astral necessitar de um
mensageiro que, através de uma entidade símbolo de Exu isso transcorre. Porém,
há também outras entidades que são capazes de cumprir tal missão, são os Erês,
estes simbolizados através de energias infantis ou infanto-juvenil, que são
representadas pelas diversas falanges e acompanham cada um dos Orixás. Um Erê torna-se
uma entidade complementar de suma importância e, seja no Universo astral ou
quando incorporados passam a ser agentes, mesmo que com suas prerrogativas infantis
nem sempre sejam respeitadas, são eles elementos fundamentais na comunicação
verbal entre o Orixá e um iawô que esteja no processo de iniciação.
Existem
ainda num patamar inferior os Kiumbas, estes são energias espirituais em desequilibro,
energias de desencarnados que vagueiam pela escuridão, são energias de
espiritos sofredores e perdidos a espera de uma luz ou de um resgate para que
sejam encaminhados. Mas esse é o lado obscuro no conteúdo e conceito religioso,
no entanto, é uma força utilizada pela kiumbanda, forma de culto que manipula
tais energias para uso de malefícios.
Enfim,
todos os elementos se interligam numa existência única e necessária para o
crescimento Universal do Ser humano. Nos conteúdos místicos dos rituais
desenvolvidos nos terreiros e nos ritos mais elaborados de uma oferenda é que
estão presentes todos os fatores que desencadeiam, entre o mundo físico e o
mundo astral, a magia, magia que transforma os encantados em Seres reais quando
incorporados.
Os Encantados e os Pankararu - Não somente nas comunidades que desenvolvem
a religião afro-brasileira, mas também em algumas comunidades indígenas, mas
com diferenças culturais, existe o culto aos encantados. Os índios Pankararu,
com alguma semelhança possuem seus encantados e uma vez por ano fazem um ritual
no qual as entidades incorporam nos iniciados, assim é o grande mistério da
aldeia, pois os encantados são considerados Seres sagrados. Os ritos são
extremamente secretos e feitos no interior de um grande galpão, terreiro onde
somente os homens iniciados participam.
Com um
roupão colorido cobrindo todo o corpo os iniciados saem em procissão ainda de
madrugada, o cortejo é acompanhado por todos da tribo fazendo um trajeto que
percorre toda a aldeia com cânticos e manifestações de alegria, e todos seguem
o cortejo interminável. Ali estão os doentes e necessitados em busca de curas e
aconselhamentos; ninguém sabe quem está por baixo dos roupões, porém, acreditam
que são ancestrais que se tornaram encantados e estão ali incorporados e
prontos para atender aos pedidos dos fiéis. A procissão é alegre, parece uma
festa, mas para os Pankararu é uma penitência. Muitos são doentes precisando de
ajuda, alguns somente acompanham e outros pedem bênçãos. Uma dança, o toré, é
feita pelos encantados que são acompanhados por todos os participantes, e o
ritual permanece por vários dias. O rito inclui ainda a dança do cansanção, uma
planta conhecida por urtiga brava que provoca coceira e irritação na pele; para
os índios esta planta tem o poder de afastar o mal e, ao final da dança pisam
nos galhos da planta. Outro costume dos índios é a utilização do campiô, um
cachimbo que quando fumado com determinadas ervas, é utilizado para chamar os encantados.
Apesar de
pertencer a manifestações culturais indígenas, os Pankararu reconhecem e mantém
uma relação com santos católicos considerando-os também como sagrados, no
entanto, reafirmam suas crenças nos rituais feitos aos encantados. Tal
consideração aos santos católicos é pelo fato de terem no passado recebido
influências da igreja católica. Foi no final do século XIX, quando a monarquia
libertou os escravos, e estes, já catequizados, foram morar nas terras dos
Pankararu se misturando aos índios, produzindo assim uma miscigenação racial
O Toré - O
Toré é uma dança que inclui também práticas religiosas secretas que somente
os índios têm acesso. O objetivo do Toré é a comunicação com encantos e encantados
que habitam no reino da Jurema, também conhecido por Juremá, referência de uma bebida
feita com a casca da raiz da Juremeira.
Em alguns
Estados do nordeste brasileiro ainda é possível encontrar algumas tribos
indígenas e fazer descrições de rituais relacionados ao chamado complexo da
Jurema. Diferente da imagem da cabocla Jurema, cultuada na Umbanda, a Jurema
dos índios nordestinos é um sacramento. Ponto comum entre as tribos é que em
todas as comunidades ou etnias, o Toré é centrado na Jurema, árvore que fornece
os símbolos dos Seres encantados e que proporciona a comunicação com os poderes
invisíveis da natureza.
Desenvolvido em diversos sistemas de culto no nordeste, seja no Catimbó,
na Umbanda, nos Candomblés e nos Xangôs, focaliza no Toré indígena a ocorrência
desta planta.
Quanto à
dança propriamente dita, ela assume características diferentes em cada
comunidade. Entre os Kiriri o Toré é dançado quase todos os fins de semana quando
reúne homens, mulheres e crianças. Eles dançam em círculos em sentido
anti-horário fazendo e desfazendo sucessivas espirais. Entre os Teixa, a dança
não acontece com a mesma freqüência, mas apenas em ocasiões especiais, o grupo faz
a dança formando quatro filas e fazendo várias coreografias.
Outra
dança é o Preiá, que é feita pelos Pankararú. Praiás são as entidades espirituais
dos índios que somente incorporam nos homens, e os rituais se dão quando são
vestidos com grandes máscaras ritualísticas que recobrem todo o corpo. Os
Praiás formam uma sociedade secreta que se reúnem no Poro, local onde são
realizados rituais mágicos religiosos e que são voltados para a cura das
doenças.
O
Catimbó - A origem do Catimbó deu-se da mistura
do culto de caboclos encantados da pajelança com a religiosidade dos Bantos, no
qual, foram esboçados os primeiros conceitos dessa manifestação religiosa. Nos
altares é que transparece essa mistura religiosa; são estampas e estátuas de
santos católicos numa representação mística sincrética ao lado de símbolos
indígenas, além de aves e animais secos, folhas e raízes de plantas, elementos
considerados portadores energias.
Entre os
objetos consagrados para os rituais está a princesa, uma cuia de cobre ou um
vasilhame de barro na qual repousa um rolo de fumo de corda sobre pano branco.
Este conjunto constitui a ligação com o passado indígena, pois nela, é que é
macerada e infusa a raiz da árvore Jurema, bebida considerada sagrada que,
levemente alucinógena, induz a incorporação dos espíritos invocados pelos
iniciados.
No passado
os Bantos aceitaram esta nova concepção religiosa, sobretudo, em termos ao
culto aos mortos, pois os pajés e os catimbozeiros, através dos manacás e das
cunhãs, comunicavam-se com o além, ou seja, o lugar místico onde se situa a
existência de seus antepassados. Desta adaptação e ao modo do meio ambiente
nasceram variações de cultos miscigenados indígena/cristão/africano, tais como,
o Toré, o Tambor de Mina, o Babassuê e o Batuque, elementos que proporcionaram
os primeiros conceitos da Umbanda com seus sete reinos espirituais e seus
principais chefes indígenas, e mais tarde apareceram alguns espíritos isolados
de catimbozeiros de descendência africana.
Tambor de
Mina. Com diferentes denominações, mas com características
idênticas, estão espalhados pelas diversas regiões no Brasil templos dedicados
aos cultos das religiões denominadas afro-brasileira. De norte a sul, de leste
a oeste, em qualquer quadrante encontramos algum tipo de manifestação
relacionada ou advinda da cultura africana, e o Tambor de Mina é uma delas
Desenvolvida na região norte, mais especificamente nos Estados do Pará e
Maranhão, o Tambor de Mina é um misto de Candomblé e Umbanda, esta
predominante, e muito da cultura ameríndia. Sua origem deu-se de forma
específica naquela região por escravos oriundos do porto São Jorge da Mina na
África ocidental, local onde ficavam confinados antes de embarcarem com destino
ao Brasil.
Há, no
entanto, uma variação muito grande quando se observa cada casa individualmente.
Com diferentes modos de atividades, em algumas casas são desenvolvidos os
trabalhos denominados de Cura, noutras a Pajelança. A Cura é de origem africana
e a Pajelança tem origem nos rituais indígenas da região. Estes são os rituais
mais conhecidos, porém, em outras regiões estas mesmas práticas aparecem com
outras denominações, que podem ser o Terecô, o Vodun, Pajé, Santa Bárbara,
Borba Soeira e outros.
Nesta variante de culto, todos com denominação
de Tambor de Mina, não e dada muita importância aos Orixás cultuados nos
Candomblés de origem nagô, assim como as danças, cantigas, roupagem, instrumentos,
utensílios e os brajás, contas, que são denominadas de rosários ou guias.
Embora
havendo diferenças específicas entre a Umbanda e o Tambor de Mina, fica difícil
fazer uma analogia entre ambas, pois, algumas entidades pertencentes aos seus
cultos participam daqueles praticados nas casas de Umbanda, o que as diferenciam
são as tradições culturais de uma e de outra.
A Cura e a
Pajelança recebem a denominação de brinquedo ou toque de maracá, esta de origem
ameríndia, muito embora a Cura e a Pajelança tenham origens e rituais
diferentes, em ambos os rituais são utilizados os tambores de taboca, tambores
tocados juntamente com outros instrumentos de percussão. Tais rituais são
realizados anualmente em todas as casas de Tambor de Mina e, com algumas
diferenças, também são realizados rituais que recebem várias denominações que
podem ser o tambor de índio, o canjerê ou a borá. Nos rituais de cura, as
entidades manifestadas são da linha dos caboclos e podem ser das águas, dos
pássaros ou dos peixes. Existe também a linha das princesas, estas com uma
característica muito peculiar, gostam de brincar de bumba meu boi e dançam o
samba de crioulo, folguedos que fazem parte do folclórico daquela região.
O que
mais caracteriza o Tambor de Mina é pelo fato de ter sua origem na nação jêje,
povo Ewê Fon, tanto nas entidades cultuadas, os Voduns, quanto no idioma
utilizado nos cultos, sendo ressaltado ainda nos usos, costumes e instrumentos
que são usados nos próprios rituais. Mesmo assim, percebe-se uma forte
influência de procedência dos costumes da nação nagô. Os tambores abatás, são
os principais instrumentos, são feitos de folha de flandres e tocados quando
sobrepostos em cavaletes.
Além dos
Voduns, no Tambor de Mina existe a presença das entidades caboclas de
procedência adversa e, outras ainda têm origem na cultura e no imaginário europeu
mesclado pela cultura ameríndia. Em todas as casas as entidades são agrupadas
em famílias conforme a organização de Voduns, que por vezes são denominadas de
linhas tendo semelhanças com Umbanda. Outra característica do culto são os
Voduns cultuados, estes, são procedentes do Daomé, como Averequete, Doçú,
Poliboje, Bobô e outros, são mais de sessenta conhecidos; porém, mesmo com tal
variedade, estão também incorporados no sistema religioso algumas entidades
conhecidas nos Candomblés de Kêtu de origem nagô e de Angola e, mesmo que este
número de entidades aparentemente seja grande, existe a manifestação dos
denominados caboclos da linha de cura e da pajelança.
Com suas
características especificas o Tambor de Mina se diferencia de outras
manifestações pelo fato de ter sido mesclado pela cultura ameríndia. O nome
Tambor de Mina deriva de um instrumento, um tambor, e sua importância no culto
tem origem do forte de São João da Mina na África, no antigo território que
pertencia à república de Gana, onde existia um antigo posto de venda e embarque
de escravos. Dos grupos que chegaram à região norte predominaram os Cambinda,
Bijagô, Balanta, Malú, Manjaro, Felupe, Tápa, Nupês e outros, mas, mesmo não
tendo sido os jêjes e os nagôs em grande número naquela região, mesmo assim
houve uma grande influência na cultura regional.
Outra
variante do Tambor de Mina é o Tambor da Mata; nestas casas são cultuadas
principalmente entidades brasileiras, os caboclos. Outra característica do
Tambor de Mina é que nestas casas não existe o culto à Legbá - Exu, entidade
que culturalmente pertence à tradição do povo Ewê Fon, como Exu do povo iorubá e,
que em decorrência desse fato, também não há culto à Ifá, portanto, não existe
a prática do jogo de búzios e os prognósticos oraculares são feitos por outros
processos, isso em decorrência da ausência de entidades mensageiras. Outra característica
do Tambor de Mina é que Oxún também não é cultuada ou louvada, nem cantigas são
oferecidas em sua homenagem, isso porque, existe uma semelhança com o nome de Exu,
no entanto, em algumas casas Oxún foi substituída por Navezuarina, nome da deusa
das nascentes.
Assim como
na Umbanda, no Tambor de Mina o sincretismo com santos católicos é outra
característica a ser observada, tanto quanto o calendário litúrgico e festivo.
Antes das
festas nas casas de culto os devotos assistem missas, fazem a eucaristia,
participam de todos os ritos da igreja católica e, ao mesmo tempo, fazem os
preparativos dos rituais consagrados às entidades no Tambor de Mina; é quando
são enfeitadas as casas com alegorias dos santos cristãos mais cultuados.
Toda casa
de culto no Tambor de Mina possui um altar idêntico ao da Umbanda, o gongá, ou
congá, onde são dispostas imagens de santos católicos de forma sincrética aos
Voduns, e aos quais os fiéis têm devoção em especial a um deles. Desta forma,
um fiel que incorpora um determinado Vodun, costuma organizar uma festa
católica no dia do santo em que este tem sua comemoração e, juntamente com as
festas católicas, as casas de Tambor de Mina também comemoram fazendo seus
rituais.
Uma das
festas mais populares é a festa do Divino, que é caracterizada pelo toque de
caixas, tambores que são tocados pelos caixeiros que dançam e cantam em
homenagem ao Divino. Uma bandeira vermelha com a figura de uma pomba branca é o
símbolo mais importante da festa.
No
calendário litúrgico todas as festas são realizadas em louvor aos santos
católicos, assim como, no Tambor de Mina que, além da festa do divino são
realizadas a do bumba meu boi e tambor de crioulo, festas populares na cultura
geral da região.
Em algumas
casas de Tambor de Mina prevalece a cultura de origem nagô, porém, mesmo com a
grande influência exercida pela cultura ameríndia, os instrumentos principais
são dois tambores abatás que são tocados pelos abatizeiros e tudo é acompanhado
por um instrumento de ferro tocado por homens ou mulheres. Conforme a casa
ainda pode haver várias cabaças de tamanhos variados, sendo uma maior,
geralmente tocada por homem. Existe ainda, em algumas casas, um tambor maior,
este, no entanto, denominado Tambor da Mata e é tocado por homem; o instrumento
é inclinado e amarrado na cintura ou entre as pernas do tocador, e alguns
outros instrumentos aparecem em rituais mais específicos.
Nas casas
que de outras origens possuem procedimentos diferentes; nas de jêje, por
exemplo, os tambores de madeira são tocados por homens com as mãos ou com
varetas - agdavis, o gã um instrumento de ferro é geralmente tocado por
mulheres, as ferreiras de gantó que são compartilhadas com o som de quatro ou
cinco cabaças revestidas com fios de contas coloridas, também tocadas por
mulheres.
Na roda
formada em dias de rituais no interior das casas de Tambor de Mina a
predominância é feminina e as cantigas são no idioma Ewê Fon, assim como, nas
casas com influência nagô predominam o ioruba, por vezes mesclado com o idioma
português. Nos rituais realizados, sejam festivos ou não, essa predominância
permanece, e quando as incorporações acontecem nos filhos de santo um pano
branco é amarrado à cintura e, um lenço também branco é colocado na cabeça das
mulheres. Os homens usam um chapéu, característica de todas as casas. Todos os
participantes da roda de dança usam colares coloridos que são os rosários ou
guias, e após a incorporação de uma entidade, esta se dirige ao altar, ao gongá
e faz uma reverência, repetindo o ato aos tambores, ao chefe da casa e as
demais entidades incorporadas; por fim, dirige-se à assistência e depois
permanece todo o tempo com os olhos abertos participando com danças e rodopios
no salão.
Os
sacrifícios de animais não são muito comuns nos ritos do Tambor de Mina, porém,
algumas vezes são feitas oferendas de aves, frutas, peixes, comidas votivas dos
Voduns, sendo que cada comida possui um nome característico. Nas casas de
cultura jêje cada vodunsi, ou filho de santo, a manifestação é somente feita
por uma entidade de origem africana e, em seguida, de alguns caboclos, sendo um
deles o principal que é denominado caboclo de frente. No passado, em ritos
especiais de iniciação os filhos de santo que eram feitos completos recebiam a
denominação de vodunsis hunjais e tinham incorporações somente em alguns
rituais de uma entidade feminina infantil, a Tobossi, porém, esta iniciação não
é mais realizada e as Tobossi deixaram de incorporar.
No Tambor
de Mina os Voduns são agrupados em cinco famílias, sendo três maiores e duas
menores. Nochê Naé, ou Sinhá Velha, que é a grande ancestral e mãe de todos os
Voduns, esta não se manifesta, pois, seu histórico a denomina como a dona da
árvore sagrada e é comemorada duas vezes por ano. Device é o nome da família
real que reúne os Voduns da casta real, subdividindo-se em duas outras famílias,
a de Dandarro, o rei mais idoso, e Zamadonce, este, dono da casa. Dos filhos
mais proeminentes e cultuados de Dandarro é Doçú. Existem ainda os Voduns mais
novos que são chamados Toquens, estes são importantes no processo ritual, pois
são eles que chamam os mais velhos. No prolongamento familiar estão os Voduns
hóspedes, um deles recebe a denominação de Lavalanu, entidade feminina
originária da região do mesmo nome no Daomé, antigo Benin. Outra família
hospede é a de Aladanu, também do Daomé, pertencente ao povo Ewê Fon.
Outra
grande família é a de Quevioso, esta, no entanto, de origem nagô. Nas casas de
Mina com a predominância da cultura jêje seus Voduns não falam, isso em virtude
de uma lenda em que eles, os Voduns, permanecem assim para não revelar seus
segredos. Tais Voduns pertencem a uma família astral, são eles que controlam os
elementos da natureza. Nesta família o chefe é Bodé Quevioso, o dono do trovão que
é ajudado nas tarefas por sua mãe ou pela sua irmã mais velha Nochê Sabô, esta
controla os raios que caem sobre a Terra. Devido ao sincretismo religioso, Bodé
Quevioso é comemorado no dia de São Pedro e Nochê Sabô no dia de Santa Bárbara
e, tais festejos também dão inicio ao calendário litúrgico nas casas de Tambor
de Mina.
Entre os
muitos Voduns existentes, o mais conhecido é Avereque que, no sincretismo
católico é São Benedito o padroeiro das casas do Tambor de Mina, pois é ele
quem traz os caboclos para participarem dos cultos.
A terceira
família tem uma grande importância para as casas de origem jêje, é a de
Dambirá, esta representa o panteão da Terra, são os reis caboclos que combatem
as doenças, têm em dependências externas suas moradas sob o comando de Acossi
Sakapatá e pelos irmãos Azoni e Azoneci, estes, são comemorados no dia de São
Sebastião. Acossi tem seu sincretismo com São Lazaro e suas oferendas são
feitas entremeio as plantas, e no dia de sua festa é ofertado aos cachorros um
banquete.
No
universo religioso das casas de Tambor de Mina, alguns Voduns de origem da
nação jêje, tem sua correspondência a determinados Orixás da cultura nagô,
temos como exemplo Doçú, que é o cavaleiro - Ogún; Bodé Quevioço - Xangô; Nochê
Sabô - Iansã; Abe - Iemanjá; Toçi e Toçé - Ibedji; Boçá e Boçucó - Oxumaré;
Acossi - Obaluayé; Nãnã é a mesma nas duas tradições. Existem ainda muitos
outros Voduns, no entanto, não possuem correspondência em nações de outras
origens.
Na grande
variedade de entidades existentes nas casas de Tambor de Mina uma delas já não
mais existe, são as Tobosis, entidades femininas denominadas de sinhazinhas e
que eram as entidades infantis que incorporavam nas vodunsis; estas por sua
vez, haviam sido submetidas a rituais especiais quando da iniciação,
tornavam-se vodunsis hunjais, no entanto, com o passar dos tempos não houve
mais feituras e tais entidades não mais incorporaram, perdeu-se assim uma parte
da cultura religiosa. As Tobosis falavam um idioma incompreensível, talvez
extinto, sua manifestação se dava nos períodos festivos de Natal, nas festas
juninas, nas festas de Nochê Dae e no carnaval. Permaneciam em transe durante
nove dias e seus alimentos eram específicos para a ocasião, tomavam banhos pela
madrugada e tinham suas próprias danças e cantigas, além disso, brincavam e
faziam distribuição de guloseimas aos visitantes. Suas vestimentas eram feitas
com panos da costa e uma manta com miçangas coloridas, o traje ainda tinha uma
pequena trouxa de roupa sobre a cabeça. Uma das funções das Tobosis era a de
dar o nome, sempre de origem africana, para as novas iniciadas, um processo
idêntico ao de dar o Orunkó em outros candomblés.
Em algumas
casas de Tambor de Mina existem festividades dedicadas às Princesas,
denominação nos dias atuais para as Tobosis, logicamente feitas através de
ritos diferenciados. Entre estas entidades infantis estão presentes nomes como,
Bossá Meméia e outros característicos como, Flor de Liz, Flor do Dia, Princesa
Clarice e outros. Este fato demonstra uma situação muito próxima à cultura
ioruba nas casas de Candomblé Kêtu, uma semelhança com as festividades
comemorativas dos Ibejis.
Existe
ainda na região norte, mais especialmente no Maranhão, um grande número de
entidades de origem africana que se adaptaram no contexto religioso daquelas
terras; no entanto, muitas delas não são bem estabelecidas, pois nessas casas
possui muitos cultos e, entre eles, está Légua Buji-Buá, tido como um Vodun que
tem suas origens nas vaquejadas,
e é denominado Boiadeiro de Codó que possui uma família com diversos filhos.
Outro que faz parte desse universo é Içavaviçavá, entidade considerada muito
velha e, entre muitas outras entidades cultuadas nas casas de Tambor de Mina,
as mais conhecidas são Boçujara, Boçu von Bureji, Xadatã, Obaila, Tobossé,
Aquilital e outros que são de origens desconhecidas.
O Omolokô ou
Cabula - Outra manifestação religiosa proveniente das culturas
africanas é a denominada nação Omolokô; seus rituais chegaram ao Brasil trazido
pelos Loko, uma pequena tribo que pertencia a um grupo maior denominado Mane de
Serra Leoa na África, conhecida também como Lucudo Quiôco. No entanto, há
também outras versões para a origem do nome Omolokô, uma delas é a de ter sido
associado o nome de Loko ao Vodun Iroko cultuado pelos Ewê Fon.
Nas terras
de origem tinham por hábito cultuarem deuses e totens esculpidos em madeira com
formas humana ou de animais; por ser um povo guerreiro, sempre que venciam uma
batalha agradavam àqueles deuses com oferendas de comidas e bebidas, mas, quando
eram vencidos, os mesmos deuses eram açoitados com chicotes. Aqui no Brasil seus
rituais nos dias atuais sofreram influências de outras nações, principalmente
as de origem nagô e jêje, cultuando tanto os Orixás quanto a Éguns, ou seja,
pretos velhos e caboclos.
O
pensamento filosófico e religioso, ritos e demais preceitos são basicamente os
mesmos desenvolvidos nos segmentos advindos das várias outras nações, mas com o
passar dos tempos foi se transformando. Aculturada e transformada em alguns
aspectos, o culto denominado Omolokô nos dias atuais quase não é mais
praticado. No passado, o culto estava ligado à Okó, a deusa da Agricultura,
divindade feminina que na África era adorada nas noites de lua nova pelas
mulheres agricultoras de inhame. Aqui no Brasil, passou a ser cultuada e ter
seus assentamentos juntamente com Oxóssi; seu culto ficou restrito a poucas
casas nos estados do sul do Brasil.
O Omolokô
e a Umbanda possuem semelhanças, pois ambas passaram a ter as mesmas características
nos rituais. Nas casas que praticam estes cultos, caboclos e pretos velhos
incorporam da mesma forma, porém, no Omolokô os Orixás estão presentes e
recebem as mesmas doutrinas que são acompanhadas sempre do sincretismo com
santos católicos, assim como nos Candomblés, que em alguns rituais têm as
mesmas características, pois são feitas oferendas e sacrifícios de animais.
Os cultos
nas casas que desenvolvem os rituais de Omolokô permanecem com seus pensamentos
voltados aos cultos à natureza, no entanto, de uma forma mais dividida, forma
esta que agrupam entidades astrais em categorias, ou seja, a existência de
Orixás maiores e Orixás menores com suas importâncias nos planos terrenos.
Os Orixás
maiores são entidades consideradas entidades celestiais e têm uma relação com o
controle da natureza, assim, temos como exemplo a presença de um deus supremo,
N’Zambi ou Olorún, que é o criador e provedor da vida; Iemanjá que é a responsável
pelos mares e tudo que nele vive; Xangô que dissemina energia através do
trovão, e assim por diante.
Há de se
observar que, todas as religiões denominadas afro-brasileira têm em suas
origens um culto comum, o culto à natureza, e através de entidades astralizadas
é que o culto se desenvolve; no entanto, mudam alguns conceitos das atividades
de determinadas divindades, mas mantendo a relação com os mesmos elementos
naturais. Acreditam ainda os adeptos do Omolokô, que os Orixás maiores são energias
puras, isto é, não passaram pelo processo de vida terrena e suas energias
tiveram origem em N’Zambi, o deus superior e onipotente. Os Orixás maiores são
chamados pelo primeiro e único nome, Ogún, Xangô, Oxún, Omulú e os demais conhecidos
nos Candomblés de origem nagô.
Por outro
lado, existem neste culto as presenças dos Orixás menores que são considerados
os mediadores entre os Orixás maiores; são àqueles que através das lendas e
historias tornaram-se figuras eminentes no desenvolvimento das tribos e nações
africanas, assim como, os heróis demiurgos, e são também incluídos neste rol
espíritos de antigos reis, índios e caboclos. Entendem ainda que, as essências
dos Orixás menores podem ser de qualquer espírito humano desencarnado, como
exemplo, a existência dos vários Xangôs, dos vários Ogúns e de várias outras
entidades astrais que estão presentes nos cultos. Estas entidades menores foram
os vários personagens de um mundo real de onde partiram com mitos e lendas para
o astral onde se tornaram semideuses, mas se fazem presentes quando solicitados
através dos rituais. Assim, passam a entender seus seguidores, sejam os Orixás
menores, possuidores dos mesmos nomes e poderes dos Orixás maiores
identificando-os com um sobrenome, onde se encontram Ogún Beira Mar, Ogún Megê
e muitos outros, acontecendo o mesmo com os muitos Orixás existentes, muitos
até mesmo desconhecidos dos próprios seguidores nas casas de culto Omolokô.
O Vodu - Palavra que significa espírito, tornou-se uma crença
religiosa levada para o Haiti, Trininda Tobago, sul dos Estados Unidos, no
Estado da Lousiania e alguns Estados do norte do Brasil, é originário do Daomé,
região oriental da África, mais particularmente do Benyn.
Fazendo
uso de elementos pertencentes ao catolicismo, de forma sincrética, o Vodú tem
suas origens nas religiões tribais e onde é venerado além de um deus único, o
Bondye, são também cultuados os ancestrais e os gêmeos, que são denominados
Lwa. Os Lwa variam de lugar para lugar; estes são deuses tribais africanos e
possuem um sincretismo com santos católicos, como exemplo, o deus serpente é
representado por São Patrício. Outros elementos católicos existentes no Vodú incluem
a utilização de velas, sinetes, orações e a prática do batismo, sendo o sinal
da cruz o símbolo mais usual em algumas cerimônias. Há também sacrifícios
animais. Nos rituais, também são utilizados elementos de origem africana, como
a dança ao som de tambores semelhantes a outras religiões da mesma origem, e os
rituais são dirigidos somente pelos sacerdotes, os Houngan, ou pelas
sacerdotisas, as Mambos.
Zumbi ou
Zumbie tem origem no idioma Ewê Fon, que no Vodú significa corpo sem alma
daqueles que são renascidos através de uma magia, é quando a vida é devolvida a
um morto e dele feito um empregado para trabalhos físicos.
Nas tradições Vodú, no Daomé, Zumbi é um Ser
Bacoe, diz-se assim, daquele que teve a alma roubada por um sacerdote, o Tibom
ou o Bacorte. Este roubo é feito mediante rituais onde são invocados os Lwa
Petwo, deuses obscuros que fazem parte dos rituais de magia negra e são
invocados quando a pessoa está para morrer ou logo após a sua morte. O Tibom,
outra denominação para a palavra sacerdote que, após a conclusão dos rituais,
passa a ter completo controle do corpo da pessoa morta que carece de qualquer
raciocínio ou qualquer controle autônomo, de modo que passa a ser manipulado
como um escravo, como se fosse um morto vivo, como se estivesse num estado
cataplético, e com o passar do tempo o zumbi vai definhando e seu corpo acaba
por deteriorar-se morrendo definitivamente.
Os deuses
e ritos Petwo possuem um caráter agressivo e marcante que faz com que sejam
invocados espíritos de destruição, e é com sacrifícios de animais que morrem
simbolicamente representando a quem ou alguma pessoa a qual se quer prejudicar.
Existem também fetiches em forma de bonecos em cera, madeira ou pano
representando a pessoa que se quer fazer algum mal ou, até mesmo no caso de
eliminá-la. Tais bonecos costumam-se jogá-los ao fogo ou espetá-los com
pequenas hastes enferrujadas nas regiões vitais do corpo.
Mas também
existe outro tipo de Vodú, o Rada Canzo, modalidade mais branda; esta é baseada
na magia branca; no entanto, também utiliza elementos cristãos e de origem
africana. Com algumas variações nos rituais os deuses dessa modalidade de Vodú
são benéficos, são divindades que se comunicam através dos sonhos ou até são
manifestados durante os rituais. A presença da divindade incorporada é revelada
por um estado de transe numa dança estilizada; cada grupo de praticante tem seu
local para realizar rituais e cerimônias.
A palavra
zumbi é utilizada no Zaire quando se refere a um médium, porém, a mesma palavra
em algumas regiões pode significar fantasma ou outros espíritos, ou ainda, até
mesmo a um deus com forma de serpente, que é reverenciada ainda hoje por alguns
povos da região oeste da África.
O Vodú
haitiano foi criado no século XVII quando os africanos escravizados trouxeram
para as Américas diversas tradições religiosas da África ocidental e central, e
foi exposta a uma série de tradições européias, incluindo as artes e as
práticas rituais, principalmente do catolicismo, religião predominante na
época.
O Haiti
quando de sua descoberta em 1492 era apenas uma ilha habitada por nativos, os
taina arauak, mais tarde, colonizadores espanhóis quase os dizimaram; porém, em
1697, os franceses dominaram boa parte da ilha iniciando o ciclo de escravos
africanos, os quais passaram a ser dominados pelo chicote. Em 1791 uma grande
revolta dos escravos pôs fim ao domínio do terror expulsando os franceses, esta
revolta deu origem à independência da Ilha.
Da mesma
forma que ocorreu em outras terras onde os negros serviram como escravos, no
Haiti não foram diferente, a conversão forçada ao catolicismo resultou num
sincretismo nas religiões dos africanos e dos tainos, que foram absorvidos mais
tarde pelo Vodú, e a arte Vodú é a pedra fundamental desta religião, é a
própria encarnação das idéias religiosas mantidas por seus seguidores. O
significado dos objetos utilizados nos cultos é explicado de forma sucinta,
seus seguidores procuram nas imagens dos deuses sinais de mistérios divinos.
Fiéis são capazes de incitar um espírito em modelos esculpidos e, assim sendo,
o metal, a madeira e o tecido, aparentemente brutos, são transformados em um
meio de comunicação, de ligação com os deuses do Vodú. As grandes imagens de
Legbá dão aos dançarinos, nos rituais, uma nova energia e os espetáculos naturais
do trovão e dos relâmpagos são interpretados como expressões da vontade e da
punição divina. Ao contrário das religiões monoteístas o Vodú possui um
santuário povoado por uma infinidade de divindades.
Tais
divindades têm mais de quatro mil anos, são advindas da África e de antigas
tradições, Hevioso e Xangô são divindades milenares. Relatos de comerciantes e
de viajantes europeus que estiveram no Benin atestam, desde então, a existência
destes deuses. Em alguns casos, os templos e os cerimoniais que são descritos,
estão até nos dias de hoje quase que inalterados. O templo de Dangbé em Ouidah
é um desses lugares. No entanto, esses deuses parecem ser contraditórios, mas
também criativos e, entre eles, não há nenhuma hierarquia aparente, são
passiveis de estarem irados em um momento e dóceis logo após. Nenhuns dos
deuses aparentam semelhanças e todos desempenham papeis diferentes, existindo
até mesmo aqueles bissexuados que, ao seu bel prazer, mudam suas
características, e Legbá, o mensageiro dos deuses, desencadeia seu poder quando
se transforma em dois deuses.
Os altares são arrumados para prestar
honras e fazer evocações aos Lwa, os deuses Vodu, e tais altares podem estar
locados em santuários, templos ou mesmo em ambientes propícios e particulares.
Onde quer que sejam encontrados, estes espaços são considerados sagrados, um
espaço onde o mundo natural e sobrenatural se fusiona. Nos altares são montadas
as imagens do Lwa, juntamente com as oferendas que são constituídas de jóias,
espelhos, bebidas, perfumes, cigarros e outros elementos, tudo para satisfazer
os gostos da divindade. Cada altar possui sua identidade particular onde o Lwa
e os objetos são de acordo com a nação espiritual e familiar. No Vodú existem
três nações principais identificadas, que são: Rada, Petwo-Congo e Bizango. A
nação Rada presta seu culto ao Lwa, herdado da África ocidental e, devido ao
sincretismo, utiliza muitas imagens de santos católicos. Os de Petwo-Congo
demonstram seu Lwa com imagens suntuosas, resultado da afirmação herdada do
povo do Congo, e os altares de Bizango, que são na maioria secretos, possuem
muitos objetos íntimos apropriados às funções sociais.
Uma
característica nos templos Vodú é o rito das bandeiras, denominadas drapos;
elas desfilam em torno do templo no inicio de cerimônias. O desfile é feito
para saudar os espíritos e preparar as energias dos devotos. São bandeiras
adornadas com lantejoulas e apliques de bordados, estas bandeiras são os tipos
mais freqüentes na arte sacra do Vodú. Cada drapo é dedicada a um Lwa e nelas
estão seus símbolos que refletem a síntese cultural; são símbolos africanos que
se confrontam e fundem-se formando uma diversidade, pois nelas estão contidos
elementos católicos e insígnias militares.
As
atividades do Vodú concentram-se nos templos que são divididos em espaços
definidos; o cerimonial transcorre no peristil e no altar, um santuário que
fica adjacente e que é somente usado para rituais de curas e louvações em
confidência. Os devotos referem-se ao templo como ounfó, e é nele que ao ritmo
de tambores cantam e dançam em torno de uma coluna que fica ao centro do salão
denominado poto mitan, ponto de atração das energias divinas. Induzidos pelo
som e pelas cantigas, os Lwa manifestam-se em seus iniciados vestidos de acordo
com suas origens e alimentados com oferendas aos seus gostos. Na prática
religiosa Vodú os espíritos são expressões das almas dos antepassados,
confundem-se com a personificação divina da natureza ou de emoções humanas.
As centenas
de Lwa, além das nações à que pertencem, possuem suas famílias, e uma das
maiores nações, a Rada, é detentora dos espíritos benignos dos ancestrais
africanos. A Retro apresenta seus espíritos mais impetuosos e representam as
tradições africanas e crioulas locais.
Há séculos passados espíritos benignos ajudaram os
povos africanos a sobreviver à escravidão, passaram a ter uma forma de vida e,
assim sendo, aparecem como figuras lendárias da historia, como a do almirante
Agwe, um dos espíritos da nação Rada, capitão e protetor dos barcos nos mares.
Um barco ritual de Agwe pode estar pendurado ao abrigo nos templos e as
oferendas deste Lwa possuem temas náuticos.
Azaka,
mais comumente conhecido como Zaka é o patrono da agricultura; natural das
montanhas é tratado por todos como papa ou primo, e sua figura é a de um
camponês.
Bosou, o
touro de três chifres é tido como o protetor espiritual do corpo, e
constantemente é invocado em seu aspecto na nação Petwo, onde se apresenta como
espírito do Congo; seus domínios são as encruzilhadas e os cemitérios. Basou é
representado por imagens com três chifres.
Danbala, a
divindade patriarcal da serpente é um espírito antigo e está relacionada com a
água e associado com a chuva, a sabedoria e a fertilidade. É representada
freqüentemente entrelaçada com sua esposa Ayida Wedo, o arco íris. Nos templos que o cultuam existe sempre uma
grande bacia com água, além de ter ao lado um ovo, símbolo da procriação.
Ezili
Danto, esta é uma negra e representa a mulher trabalhadora, veste-se com trajes
azuis, vermelho ou multicolorido e não possui consorte, mas tem uma filha,
Anais, para a qual é devotada; sua imagem é a de uma mãe preta trazendo nos
braços uma criança.
Ezili Freda
a deusa do amor e da riqueza é a mulher crioula, adora roupas, jóias e
perfumes, suas oferendas são bebidas doces e arroz cozido no leite com bananas
fritas, canela e açúcar.
Gedê vem
de uma família de espíritos ásperos que personificam a morte e a ressurreição
sexual dos ancestrais. Os membros desta família vestem-se com trajes pretos ou
roxos e cercam-se de imagens de cemitérios. Gede é um sábio conselheiro e um
curandeiro benevolente; tem amor especial pelas crianças.
Lazirem é uma sereia, trás sorte e dinheiro
das profundezas do oceano e possui encanto sobrenatural. Ela é sedutora como
Ezili Freda e feroz como Ezili Danto, muitos a chamam de Ezili das águas. Seu
altar é enfeitado com espelhos, conchas e chifres.
Lwa é o senhor da grande floresta e preside
sobre os grandes mistérios da cura e da iniciação. A representação de Lwa tende
a ser abstrata, e evoca principalmente a forma de uma árvore, das folhas e
objetos feitos de madeira natural; o mártir São Sebastião amarrado numa árvore
é sua representação.
Existem
muitos outros Lwa os quais são cultuados de maneira idêntica, mas conservando
sua individualidade, assim como os objetos de adoração; o tambor, por exemplo,
é o mais sagrado deles, isso porque, de certa forma ele fala com voz divina,
sem ele não haveria o Vodú.
As artes
sacras do Vodú incluem centenas de outros tipos de objetos, alguns estão em
todos os templos ou altares domésticos, outros refletem a historia ao gosto
pessoal ou dos espíritos cultuados. Quase tudo pode ser dedicado a um Lwa quando
colocado sobre um altar ou em algum trabalho religioso. Todos esses objetos
podem possuir energias mágicas porque são capazes de transformar o natural em
sobrenatural.
Para abrir
os caminhos para a energia divina, os sentidos devem ser despertados e o som é
o caminho fundamental para a divindade. Os sentidos da vida, do odor, do sabor
e do toque dos tambores são estimulados também no Vodú; os ritmos dos tambores
dão vida ao ritual. O grupo de Rada utiliza três tambores cilíndricos ajustados
por talhos em forma de taça, dizem chamar os espíritos antigos do Daomé. O
grupo de Petwo utiliza um par de tambores de fibra vegetal, são instrumentos
originários do Congo, são eles que puxam o ritmo mais afinado dos rituais, e o
estalar de um chicote também pode chamar um Lwa. Os chocalhos de casca natural
de coquinhos são usados pelos sacerdotes durante os rituais. Um amarrado de
ossos é usado para os ritos de Rada e, para os ritos de Petwo, os sacerdotes usam
pequenos sinos para despertar o Lwa em todos os rituais confidenciais. Os
braseiros enviam pedidos ao mundo dos espíritos através de rolos de fumaça e os
incensos enchem o ar de perfume. Muitos objetos são possuidores de valores
espirituais ou agem como repositórios dos mesmos. Os pacotes de Congo, usados
em altares de Petwo e nos rituais de cura são cheios de folhas, ervas, terra e
outros ingredientes. Os frascos, gavi, contêm essência do espírito de membros
falecidos da família do Vodú e são mantidos em cima dos altares. Os potes, tei,
são depósitos para unhas e cabelos dos novatos iniciados que são mantidos em
altares e guardados com os colares dos devotos. Os calabaches, vasilhas, Kwi,
geralmente são usados para oferendas de alimentos e podem ser pintados com imagens
ou sinais sagrados. Os frascos de libação, decorados ou não, são colocados nos
altares e, o conteúdo, é servido em rituais. Os frascos claros com torsos de
bonecos são pendurados, mas, raramente são encontrados em altares, são usados
nas adivinhações ou como encantos para manter ausentes os maus espíritos. As
bonecas de pano são usadas principalmente como mensageiras ao mundo espiritual,
são deixadas em cemitérios ou nas encruzilhadas e podem conter anotações
secretas amarradas em seus corpos. As bonecas de porcelana, borracha ou
plástico, são por vezes usadas para representar um Lwa. As bonecas perfuradas
com alfinetes para causar dores físicas são utilizadas em trabalhos maléficos,
consideradas como magia negra.
O mundo
material está cheio de sinais divinos, representações dos Lwa que conectam
energias divinas às percepções humanas. A cruz Kwá, o mais sublime símbolo do
cristianismo é também o sinal da encruzilhada, ponto de transferência da vida
dividida do outro lado por Legbá, por Godê e por Bawon Londi. Os espelhos Mirwa
refletem o outro lado da realidade onde se encontra o reino de Lwa e sugerem o
mundo aquoso de Laziren e Agwe para onde as almas migram após a morte. O
estandarte wá wangol saúda o rei de Angola na festa dos reis em 6 de janeiro e
presta homenagens aos espíritos dos índios Taino que foram os primeiros
habitantes do Haiti. Os sacos, mokout, são lançados sobre os ombros dos
lavradores, e assim, consagrados a Lwa Zaca, patrono natural de todos os povos
do Haiti.
O Batuque - Batuque assim é denominado o Candomblé
no Rio Grande do Sul e tem sua origem com a vinda dos povos da Costa da Guiné
com as nações jêje, ijexá, oyó e cabinda. Teve inicio no século XIX quando
ocorreu a migração de escravos e ex-escravos na região Sul do Brasil.
Possuindo estruturas fundamentadas em
raízes nigerianas da nação ijexá, o Batuque surgiu como tantas outras
manifestações religiosas afrobrasileira, e foi criada e adaptada pelos
escravos; em resumo, o Batuque é a junção dos rituais ijexá, oyó, jêje e
cabinda. As divindades e assentamentos são semelhantes em todas as casas,
diferenciando somente em alguns detalhes a respeito das tradições próprias a
cada uma delas, ou seja, no preparo de alimentos e nas oferendas.
Cultuando os vários Orixás, oriundos das
várias regiões africanas são os mesmos de outros Candomblés, porém, o ijexá
predomina ao ser associado aos rituais de todas as outras nações. Os Orixás são
cultuados como em outros Candomblés, no entanto, com diferenças em algumas
denominações e funções dentro do culto. Bara é o mesmo Exu de outras nações e é
igualmente assentado, porém, entre os Orixás não há uma hierarquia rígida,
tornando-os todos iguais perante os ritos, mas diferenciando-os somente quanto
a suas funções no culto.
No Batuque, diferentemente dos
Candomblés das nações kêtu, angola e jêje, mais tradicionais nas regiões leste
e norte do Brasil, são cultuados Bara, Ogún, Oyá, Xangô, Oxún, Odé, Otin, Obá,
Ossayn, Xapanã, Yemanjá e Oxalá; cultuam ainda Ibeji que tem seu ritual ligado
aos cultos a Xangô e Orunmilá, que também está ligado ao culto a Oxalá. No
entanto, existem ainda outras divindades que não são cultuadas em todas as nações,
são entidades com um indicativo de qualidade que em muitos casos são
desconhecidos com Exu Elegbara, que está ligado ao culto de Xapanã, Zina,
Zambirá e Xanguín.
Localizados nos perímetros urbanos os
templos possuem uma identidade local diferenciando-se dos Candomblés
tradicionais; os templos são geralmente construídos e integrados com
residências onde são feitos todos os ritos e também onde são mantidos todos os
assentos dos Orixás, porém, mantendo os assentamentos de Bara Lodé e de Ogún
Avagãn fora, em uma casa separada, assim como a casa dos Éguns, pois, esses também
são cultuados.
Todos os rituais têm uma semelhança com
o Xangô de Pernambuco e são feitos pelas casas com fundamento da nação jêje. Nos
cultos, as danças são feitas não em rodas conforme em outros candomblés, mas em
fileiras compostas em pares e de frente a um e outro lado do salão.
Sincretismo
religioso.
Quando os africanos chegaram ao Brasil em virtude do
tráfico de escravos, trouxeram suas culturas, seus costumes, suas crenças e
rituais de uma religião desenvolvida no continente de origem, e nos dias atuais
a religião africana mantém sua sobrevivência praticamente em todo o território
brasileiro devido ao grande sincretismo existente. A religião predominante, o
catolicismo, contribuiu muito para o nascimento de novas formas de cultos, a
Umbanda e o Candomblé, são formas flagrantes, chegando ao ponto de não mais
serem denominadas religiões africanas e sim afro-brasileiras.
De origem
genuinamente africana, para entender melhor o processo religioso desenvolvido
no Brasil, podemos dividir em duas faixas, numa linha imaginária do continente
africano; na altura do golfo da Guiné, os sudaneses estavam no território que
fica acima da linha imaginária e, abaixo estavam os bantos.
Com os
sudaneses as culturas que mais influenciaram para o desenvolvimento da religião
africana no Brasil foram de duas nações, a dos nagôs e dos jêje originários da
Nigéria e do Daomé, no entanto, coube à cultura nagô a predominância.
No
passado, ainda na África, essas e outras culturas já se entrelaçavam
influenciando umas as outras, porém, quando das conquistas pelos navegadores
portugueses às costas daquele continente, chegaram com eles também as missões
com crenças e rituais cristãos, mais especificamente o catolicismo, dando assim
origem ao sincretismo nos cultos africanos.
Com a vinda
dos africanos para o Brasil tal fenômeno se acentuou devido a condições
precárias das senzalas onde ficavam alojados, pois ali conviviam num regime de
servidão, várias etnias com culturas e crenças diferentes favorecendo assim o
sincretismo. Por outro lado, o catolicismo, religião oficial na época do Brasil
Colonial e Imperial, a igreja permitia, com restrições, as práticas dos cultos
africanos possibilitando assim a manutenção em suas crenças; com esse
subterfúgio mascaravam seus deuses, os Orixás, com os santos católicos mantendo
assim o respeito, tanto às leis quanto à igreja.
No
processo de identificação entre as divindades e os santos católicos era sempre objetivado
por semelhanças vivenciadas; Ogún, o destemido guerreiro foi sincretizado por
São Jorge; Xangô, o Orixá da justiça por São Jerônimo; Ossanhe por Santo.
Expedito; Yansã por Santa Bárbara; Oxóssi por São Sebastião; Omulú por São
Lázaro; Yemanjá por Nossa Senhora, a Virgem Maria; Oxalá pelo Senhor do Bonfim.
Evidentemente, devido o extenso território do continente brasileiro esse
sincretismo variou de região para região, como exemplo, temos no Rio de Janeiro
Ogún que é sincretizado por São Jorge e em outras regiões o mesmo Orixá tem seu
sincretismo em Santo Antonio.
Os Orixás
e outras divindades eram então cultuados pelos sudaneses que, para eles eram um
vínculo entre os homens e Olorún, o deus absoluto. Para os bantos do sul,
tinham como veneração os espíritos dos ancestrais, espíritos de Seres que
tiveram vida humana. Numa observação histórica, em Angola, mais exatamente em
Bengala, existia no passado um culto semelhante à Umbanda denominado Orederé,
por esse motivo, não foi difícil aos bantos se adaptarem às praticas religiosas
que se desenvolviam aqui no Brasil.
Das
diferenças entre os cultos é que derivaram as várias correntes religiosas nas
religiões afro-brasileira, em conseqüência temos o Xangô de Pernambuco, o Xangô
de Minas, o Batuque no Rio Grande do Sul, a Umbanda, a Quimbanda, o Catimbó, e
os vários Candomblés das várias nações espalhados por todo o território; no
entanto, as diversas designações não passam de uma rotulagem especificada para
determinados lugares, mantendo nas estruturas os mesmos conteúdos.
Por outro
lado, a cultura banta foi a mais aculturada pelo catolicismo, tendo como resultado
a Umbanda, dela nasceu às primeiras casas onde se cultuam, além dos Orixás, uma
vasta gama de espíritos ancestrais também denominados espíritos guias. Estes
foram sendo introduzidos de conformidade com que a cultura dos nativos locais,
os índios e caboclos. Basta observar nas seções de Umbanda as diferenças no
linguajar, nos ritos, nas cantigas, no idioma e em tantos outros aspectos que
diferenciam os Candomblés.
De origem
genuinamente africana, para entender melhor o processo religioso desenvolvido
no Brasil, podemos dividir em duas faixas, numa linha imaginária do continente
africano; na altura do golfo da Guiné, os sudaneses estavam no território que
fica acima da linha imaginária e, abaixo estavam os bantos.
Com os
sudaneses as culturas que mais influenciaram para o desenvolvimento da religião
africana no Brasil foram de duas nações, a dos nagôs e dos jêje originários da
Nigéria e do Daomé, no entanto, coube à cultura nagô a predominância.
No
passado, ainda na África, essas e outras culturas já se entrelaçavam
influenciando umas as outras, porém, quando das conquistas pelos navegadores
portugueses às costas daquele continente, chegaram com eles também as missões
com crenças e rituais cristãos, mais especificamente o catolicismo, dando assim
origem ao sincretismo nos cultos africanos.
Com a vinda
dos africanos para o Brasil tal fenômeno se acentuou devido a condições
precárias das senzalas onde ficavam alojados, pois ali conviviam num regime de
servidão, várias etnias com culturas e crenças diferentes favorecendo assim o
sincretismo. Por outro lado, o catolicismo, religião oficial na época do Brasil
Colonial e Imperial, a igreja permitia, com restrições, as práticas dos cultos
africanos possibilitando assim a manutenção em suas crenças; com esse
subterfúgio mascaravam seus deuses, os Orixás, com os santos católicos mantendo
assim o respeito, tanto às leis quanto à igreja.
No
processo de identificação entre as divindades e os santos católicos era sempre objetivado
por semelhanças vivenciadas; Ogún, o destemido guerreiro foi sincretizado por
São Jorge; Xangô, o Orixá da justiça por São Jerônimo; Ossanhe por Santo.
Expedito; Yansã por Santa Bárbara; Oxóssi por São Sebastião; Omulú por São
Lázaro; Yemanjá por Nossa Senhora, a Virgem Maria; Oxalá pelo Senhor do Bonfim.
Evidentemente, devido o extenso território do continente brasileiro esse
sincretismo variou de região para região, como exemplo, temos no Rio de Janeiro
Ogún que é sincretizado por São Jorge e em outras regiões o mesmo Orixá tem seu
sincretismo em Santo Antonio.
Os Orixás
e outras divindades eram então cultuados pelos sudaneses que, para eles eram um
vínculo entre os homens e Olorún, o deus absoluto. Para os bantos do sul,
tinham como veneração os espíritos dos ancestrais, espíritos de Seres que
tiveram vida humana. Numa observação histórica, em Angola, mais exatamente em
Bengala, existia no passado um culto semelhante à Umbanda denominado Orederé,
por esse motivo, não foi difícil aos bantos se adaptarem às praticas religiosas
que se desenvolviam aqui no Brasil.
Das
diferenças entre os cultos é que derivaram as várias correntes religiosas nas
religiões afro-brasileira, em conseqüência temos o Xangô de Pernambuco, o Xangô
de Minas, o Batuque no Rio Grande do Sul, a Umbanda, a Quimbanda, o Catimbó, e
os vários Candomblés das várias nações espalhados por todo o território; no entanto,
as diversas designações não passam de uma rotulagem especificada para
determinados lugares, mantendo nas estruturas os mesmos conteúdos.
Por outro
lado, a cultura banta foi a mais aculturada pelo catolicismo, tendo como resultado
a Umbanda, dela nasceu às primeiras casas onde se cultuam, além dos Orixás, uma
vasta gama de espíritos ancestrais também denominados espíritos guias. Estes
foram sendo introduzidos de conformidade com que a cultura dos nativos locais,
os índios e caboclos. Basta observar nas seções de Umbanda as diferenças no
linguajar, nos ritos, nas cantigas, no idioma e em tantos outros aspectos que
diferenciam os Candomblés.
O Candomblé Católico e o
Povoá.
Na multiplicidade de valores religiosos e das muitas formas que são
apresentadas, algumas fazem uso do sincretismo com santos católicos, isso é
verificado nos Candomblés identificados e comumente conhecidos como os de nação.
Sabe-se que algumas ramificações da estrutura criada no passado absorveram do
catolicismo muito dos costumes e até mesmo crenças que se misturaram e passaram
a fazer parte de rituais, mesmo que sejam considerados por muitos uma
intromissão com as religiões de origem africana.
Em algumas regiões do nordeste ainda resiste uma manifestação popular cheia
de crença em elementos e simbolismos não muito difundidos nos grandes centros e
praticamente desconhecido de muitos religiosos; trata-se do candomblé católico,
onde, os agentes do sagrado não fazem uso de ritos de feitura como nos Candomblés
tradicionais, isto quer dizer, não possuem obrigações vinculadas aos Orixás,
muito embora, estes estejam relacionados com a cultura. São os Candomblés de
caboclo puros, onde os caboclos incorporados executam os rituais de acordo com
uma estrutura totalmente sincretizada.
Desta forma, o Povoá, forma de manifestação cultural-religiosa, possui
suas características, sendo uma delas a ausência de ritos de feitura e, não
havendo por extensão, iniciação no processo religioso. Todo indivíduo,
considerado agente do sagrado, recebe de seu Mestre e repassa para aprendizes,
é uma forma de manter viva a tradição.
Toda a trama religiosa nesse tipo de Candomblé possui características da
mistura de conhecimentos espirituais herdadas de índios, brancos e negros; do
índio o conhecimento de todo o seu universo, seja religioso ou não; do homem
branco toda religiosidade e crença nos santos católicos com as ladainhas e
missários; do negro, toda a cultura na crença nos Orixás dos quais surgiu todo
o sincretismo com os santos católicos.
Neste Candomblé não existe um zelador, um pai de santo ou uma hierarquia,
todas as funções são de exclusiva e total responsabilidade de um Mestre, o qual
recebeu a missão determinada através de sonhos ou visões, seus rituais são
baseados nos sambas de caboclo e os instrumentos rítmicos são a viola, o
pandeiro e a sanfona, instrumentos típicos da região. É característico de seus
seguidores, médiuns, serem incorporados por encantados, figuras míticas muito
conhecidas, no entanto, o Mestre é incorporado por somente um caboclo que
exerce a função de curas. O rito desenvolvido é uma festa de danças religiosas onde
as incorporações dão-se após as ladainhas feitas aos santos do dia e ao santo
protetor da casa.
Em algumas regiões do nordeste brasileiro encontram-se pessoas que
trabalham com encantados mesclados com santos católicos, caboclos e também com
Orixás. Esta variação de Candomblé está muito relacionada às almas, porém, são
diferentes de outros processos de encantaria e não possuem ritos festivos, estes
estão mais ligados com magia e possuem algumas obrigações que são determinadas
por sonhos, porém, não admitem aprendizes e seus trabalhos são desenvolvidos em
torno de uma missão autônoma, tratam-se dos curandeiros.
O Povoá não possui sacramentos próprios, os batizados e casamentos são os
da igreja católica.
O Candomblé do Povoá é
também definido como Encantaria e tem sua festa maior em louvor a Nossa Senhora
da Conceição e, apesar dos trabalhos estarem voltados a encantaria, também está
muito ligada aos preceitos católicos, e seus integrantes não consideram um
Mestre como um zelador, mas como um mentor espiritual que foi enviado por algum
santo, ou santo para fazer uso das forças e energias sagradas nas curas de
algum mal espiritual ou material.
Os Mestres acreditam incorporarem energias emanadas dos santos ou santas,
energias que são redistribuídas aos Orixás, encantados ou caboclos. Cada
caboclo é simbolicamente correspondido a um santo católico, assim, o caboclo
Tupinambá, considerado o rei da floresta tem sua correspondência em São Jorge,
um sincretismo tal qual em alguns outros Candomblés e Umbandas.
O médium dessa manifestação,
quando em transe, apresenta-se paramentado com roupagem de sua origem, segundo
a imagem do índio brasileiro que, além do penacho, uma coroa que tem em
destaque uma estrela de Davi, e segura em uma das mãos um cálice e na outra um
pequeno sino, o arco e flechas em miniatura, um ofá, complementam e o
caracterizam. O caboclo Tupinambá é sempre a primeira entidade a incorporar, ou
como entendem como manifestação, e que, após sem uma ordenação rígida, podem de
forma simultânea ou não manifestar-se Nãnã, Iemanjá ou outros Orixás acaboclados
pelo processo da Encantaria.
Em toda essa construção mítico-ritual a transcendência não se mostra
incluído dicotomias ou ambivalências absolutas; santos, Orixás e caboclos
comportam-se em diferentes níveis, mas sempre em arranjos complementares. Nunca
estão separados, são peças da mesma engrenagem e faces de uma mesma moeda; a
rigor, não é sequer uma correspondência simbólica, como nos Candomblés que
seguem o modelo do Candomblé de nação.
No candomblé católico os santos são considerados guias dos Orixás, cada
um dos primeiros orienta e determina os papéis do segundo que singularmente são
identificados. Segundo certa ordenação, os Orixás são os guias dos caboclos,
mas nesse caso não acontece uma assimetria imprescindível. Os guias em foco
podem ter os seus papéis episodicamente modificados ou mesmo invertidos. Como
exemplo, pode Cristo, Santa Bárbara e Tupinambá comandarem a casa que Iansã; o
caboclo Tupinambá fica muitas vezes em segundo plano. Deve-se isso a
duplicidade de Tupinambá que lhe desdobra a força. Explica-se: Tupinambá e
outro caboclo gentil celestial mesclam-se na mesma energia emanada de Iansã que
tem o poder disso executar, posto que receba a energia de Santa Bárbara que é a
mãe de todos os caboclos. Acreditam os fiéis que os santos, Orixás e caboclos
são necessários para um contato maior com as divindades.
Depois de Santa Bárbara, Tupinambá e seu duplo-etéreo (uma identificação
Kardecista) é muito usada para identificar a gentil celestial, vem àqueles que
só incorporam com a ordem deles, já que são os donos da casa; os outros, em
segundo plano, não têm que esperar, no entanto, a vinda dos primeiros podem
apenas receber o consentimento já que o terreiro pode ser aberto por um
encantado astralizado, como Iemanjá das águas ou como Oxóssi das matas.
Todo esse comportamento fica na dependência do santo que está regendo o
dia e que se identifica através de visões. A vidência é tida pelo Mestre que se
manifesta quando ele olha para o céu, vê o santo e ouve vozes, é quando nesse
momento fica identificado também o caboclo escolhido pelo santo e é também percebido
o tipo de energia que está imantando o ambiente. Esta energia fica clara
quando, após ser identificado, o agente do sagrado fala o nome do santo, do
Orixá ou do caboclo.
Nestas visões o Mestre nunca perde a consciência, no entanto, afirmam
que, ocasionalmente sempre surgem dúvidas sobre o real sentido das mensagens e,
o esclarecimento sempre se dá quando se pergunta a Iansã através de orações,
mas ela pode responder de forma genérica ou detalhada, ficando na dependência
do juízo que faça sobre a questão.
Muita importância se dá ao batismo, em parte porque o batismo do guia é
uma réplica do católico. Os fiéis afirmam que para haver o batismo tem que
haver grande concentração, ou seja, rezar muito, ir á missas seguidamente,
abster-se de bebidas, festas, sexo, jejuar, praticar penitencias e cumprir
promessas feitas.
O batismo do guia sempre se dá aos sábados, nos domingos e nas terças
feiras de carnaval, sendo a terça feira dedicada aos guias mais fortes, pois,
estes são possuidores de maior concentração; a quarta feira de cinzas é
dedicada aos rituais católicos oficiais.
Como é comum em alguns Candomblés de nação, o Candomblé católico respeita
a quaresma, é quando o terreiro é fechado e reaberto somente no sábado de
aleluia quando é feita uma procissão com a santa devotada, mas tudo em ritmo de
carnaval. Após a procissão é feita a lavagem do terreiro onde será realizada a
sessão, esta com acompanhamento de atabaques, é o samba de caboclo.
Uma das características dos Candomblés católicos é o de não incorporarem
Exus, estes, são visto como o diabo católico, todavia não traduz o mal de sua
natureza como a concórdia que a Umbanda/Quimbanda o faz.
Não receber Exu significa apenas não cultuá-lo, este elemento é
exorcizado pela ajuda dos caboclos. Esta visão do caboclo como acólito dos
santos, acompanha toda a panorâmica do imaginário, entretanto, a de Exu, como
escravo dos Orixás, discurso corrente nos Candomblés de caboclo, não tem ali a
sua aceitação.
O ritual é iniciado com o silenciar do samba; em procissão, o Mestre
acompanhado de alguns fiéis traz uma bandeira com a figura do santo que lidera
o terreiro, suas vestes se assemelham a de um bispo ou padre e a procissão
termina no interior do terreiro quando o Mestre pronuncia uma mensagem dirigida
a todos.
A dança é reiniciada com a roda de caboclo ao som dos atabaques, o Mestre
passa a ostentar uma roupagem que caracteriza um santo católico, dá-se então o
inicio da lavagem do terreiro, ritual comum e muito difundido na região. Este
ritual possui as mesmas características dos feitos nas escadarias das igrejas e
nas festas do divino, é uma lavagem simbólica, pois, o ritual também é levado
ao mastro que sustenta a bandeira do terreiro e também da lenha, quando das
fogueiras que complementam o ritual.
Após a procissão da lavagem é iniciada uma novena e, ao término das
ladainhas e rezas, é iniciada a parte mediúnica do Candomblé católico com os
transes e incorporações dos caboclos.
No âmbito social, tanto do Povoá ou do Candomblé católico encontram-se as
rezadeiras e benzedeiras além de outros segmentos da sociedade, porém, todos
ligados diretamente ao catolicismo que de uma forma, vêem-se como uma forma
extensiva dessa religião. São devotos dos santos católicos que, por questões
culturais, estão também ligados aos caboclos, estes, cristianizados e também,
quando em vida, foram devotos de santos católicos. Entende-se que um fiel e
devoto de São Jorge tende a fazer acompanhar por um gentil devotado também do
mesmo santo; no entanto, isso não significa que um mesmo caboclo tenha sempre o
mesmo santo de devoção, ou seja, um Tupinambá de um médium pode ser devoto de
São Jorge e o mesmo Tupinambá que acompanha outro médium pode ser devoto de
Sto. Antonio. Entende-se ainda que só existe um santo católico, enquanto
existem vários Tupinambás.
No Candomblé católico os santos são guias dos Orixás, no Povoá os santos
são os guias dos caboclos.
Terecô - O Terecô é também conhecido por
Tambor da Mata; é uma religião fundamentada em conceitos místicos com influência
de raízes de religiões africanas desenvolvida no Norte, mais especificamente no
Estado do Maranhão e muito tradicional nas cercanias da cidade de Codó onde se
originou. Como em toda religião afro-brasileira, no Terecô existem seus
sacerdotes e sacerdotisas, são idênticos aos pais e mães de santo –
zeladores/as de outros candomblés e, por estarem próximos às grandes florestas
do Norte e também a remanescentes culturas indígenas são grandes conhecedores
de plantas.
Os rituais do Terecô são idênticos
aos dos candomblés, no entanto, não utilizam animais em sacrifício e no período
de iniciação são utilizadas muitas ervas em banhos, a iniciação dura de 7 a 21
dias com preceitos, restrições alimentares e alguns sacrifícios impostos pela
tradição.
Denominados de Encantados, as
entidades têm certa semelhança aos guias da Umbanda, os quais incorporam nos
médiuns e fazem suas beberagens com aluá e furá, bebidas tradicionais da
região. Existem muitos rituais, e um deles é o de lavar a pedra, o otá, em uma
mistura de água e vinho; este ritual é feito anualmente, ocasião em que os
médiuns lavam o otá dos assentamentos e fazem seus pedidos aos encantados.
Outro ritual é o bela do pão, onde os membros do terreiro comem ritualmente pão molhado no vinho ao som de atabaques com
danças formuladas por todos. Durante os rituais do Terecô são utilizados com
freqüência algumas bebidas alcoólicas pelos encantados.
Uma característica que marca a cultura
local é a de que os pais e mães de santo são também os curadores - e se originou. Como e
curandeiros,
aqueles que acodem com rezas, passes, banhos de ervas aos doentes, além de
produzirem amuletos. Nada é pago com dinheiro, a paga religiosa na cultura
local é sempre feita com algum fruto do trabalho; dizem os curadores que, para
conservarem seus poderes recebidos, gratuitamente, têm que distribuir muito do
que recebem; nesses trabalhos, os terecozeiros, assim denominados, associam
conhecimentos tanto de origem africana, indígena, práticas do Catimbó e até da
feitiçaria européia.
Integrado
ao Tambor de Mina e a Umbanda estão o Terecô, a Encantaria, o Tambor da Mata e o
Catimbó que têm suas origens nas casas de raiz da nação jêje.
No Terecô as entidades espirituais
estão organizadas em famílias, sendo a mais importante Légua Boji Boá, o
príncipe guerreiro, porém, em outros centros é apresentado como um Vodun
cabinda ou como um misto de Legbá o Exu daomeano. Mas, muito embora no Terecô
sejam cultuados Voduns africanos de origem jêje, as manifestações são de Voduns
relacionados às matas ou incorporações de caboclos, estes comandados por Légua
Boji, porém, em alguns centros as entidades têm o comando de Bárbara Soeiro,
entidade associada que possui sincretismo com Santa Bárbara; no entanto, também
são incorporados os Exus e Pombogiras, entidades da Umbanda e da Quimbanda.
Algumas entidades do Terecô,
Légua Boji e encantados de sua família são muito temidos, são os defensores dos
terecozeiros e não se misturam com as entidades denominadas Exus e Pombogiras,
muito embora, o Terecô se apresente de modo distinto do Tambor de Mina, ocorrem
nas seções cruzamentos entre eles uma mudança de um para outro durante uma
seção. A magia curativa muito desenvolvida tanto nas casas de Mina quanto no
Terecô, mostra que ambas fazem uso de banhos para afastar males espirituais,
porém, enquanto nas casas Mina jêje os banhos são preparados e distribuídos em
dias de obrigação a um Vodun, no Terecô eles são preparados e distribuídos com
freqüência em gongás domésticos para um maior número de pessoas.
A origem do Terecô é um tanto confusa,
alguns pesquisadores dizem que surgiu antes mesmo das Casas de Mina, no
principio foi denominado como mata de coco, rituais realizados pelos escravos
de fazendas de algodão no município de Codó no Maranhão, onde no tempo do
cativeiro Légua Boji era cultuado.
Assim é a diversidade
religiosa do Candomblé que, após ter se iniciado com uma cultura pura africana
absorveu elementos de origens diversas e crenças regionais.
O culto
aos Égun-Égun. (Égungun).
A cada quatro
dias, uma semana ioruba, Ikú, a morte, vinha à cidade de Ilê Ifé munida de um
bastão e matava indiscriminadamente uma pessoa, nem sequer os Orixás podiam com
ela, tanto era o seu poder. Um cidadão daquele reino, chamado Ameiyegun
prometeu salvar as pessoas usando de artimanhas; confeccionou roupas com várias
tiras de pano colorido para si e para seus familiares, roupas que cobriam todo
o corpo, inclusive a cabeça; e fez todos os sacrifícios e oferendas
apropriadas. No dia em que Ikú apareceu, Ameiyegun e seus familiares vestiram
as roupas e se esconderam. Quando Ikú chegou, todos apareceram saltando,
correndo e gritando com altos grunhidos, e Ikú assustado deixou cair seu
bastão. Desde então, a morte deixou de atacar os habitantes de Ilê Ifé. Os
Babalawôs, sacerdotes de Orunmilá, previram através dos jogos divinatórios que
a partir de então Ameiyegun e seus familiares deveriam adorar e venerar os
mortos por todas as gerações para recordar como eles venceram a morte.
Outra lenda mais elaborada é contada desde tempos imemoriais nas terras
de Oyó. Conta que naquela cidade vivia um camponês chamado Alapini, e ele tinha
três filhos, Ojéwuni, Ojésanmi e Ojérynlo. Um dia, Alapini foi viajar e deixou
recomendações aos filhos para que eles colhessem os inhames da lavoura e não os
comessem, principalmente o de uma determinada qualidade, isso porque, deixava
as pessoas com muita sede. Seus filhos, no entanto, não obedeceram e ignoraram
as recomendações comendo os tais inhames, comeram e beberam água em demasia e,
um a um todos morreram.
Quando Alapini retornou da viagem e encontrou seus filhos mortos ficou
desesperado, correu a procura de um Babalawô que jogou o opelê, o oráculo de
Ifá. Aconselhado em se acalmar, o Babalawô disse-lhe que, após o décimo sétimo
dia Alapini fosse a um riacho no bosque e executasse um ritual prescrito pelo
jogo. Ele deveria pegar um ramo de árvore, atori, e fazer um bastão, um Ixã; na
orla do riacho deveria golpear o chão com o bastão e chamar pelo nome dos
filhos e, na terceira vez eles iriam aparecer. Mas isso tudo deveria ser feito
após certas oferendas e sacrifícios, só assim os filhos apareceriam, no
entanto, seus corpos estariam estranhos e era necessário cobri-los para que as
pessoas pudessem vê-los sem se assustar. Quando os filhos apareceram, pediu a
eles que ficassem na floresta escondidos até sua volta, pois ia à cidade
providenciar as roupas.
Desse dia em diante Alapini poderia ver e mostrar seus filhos para
outras pessoas, as belas roupas que eles vestiam escondia perfeitamente suas
condições.
Alapini e seus filhos fizeram um pacto em
um buraco feito na terra por seu pai, e no mesmo lugar do primeiro encontro,
Ajubó Igbalé, seriam feitas as oferendas, sacrifícios e lugar de guarda das
roupas para que eles vestissem quando seu pai os chamasse através do ritual do
bastão.
Segundo o pacto e as instruções do
Babalawô, sempre que os filhos morressem teriam que ser realizados o ritual depois
do décimo sétimo dia do falecimento.
Em outra lenda, relacionada com os
fundamentos religiosos, contada através dos tempos, relata que no principio da
criação, Olodumare, mandou chamar três divindades, Ogún, senhor do ferro,
Obarisá, senhor e criador dos seres humanos, este, um dos Orixás Funfun que tem
como principal preceito o uso do branco nos rituais e oferendas, e Odú, a única
mulher entre eles. Tanto Ogún quanto Obarisá tinham poderes, Odú, no entanto
não os possuía e questionou anteriormente a Obarisá. Este lhe outorgara o poder
do grande pássaro que estava contido em uma cabaça, o Igbá Eleyé; ela, porém,
se voltou anteriormente, através do poder emanado de Olodumare, Iyá Won, nossa
mãe eterna, também denominada Iyámí Osorongá. Mas Olodumare lhe advertiu que
ela deveria usar esse poder com cautela, porém, ela abusou do poder do pássaro.
Preocupado, Obarisá foi até Orunmilá para fazer um jogo de Ifá, e este lhe
ensinou como apaziguar e conquistar Odú através de oferendas.
Obarisá e Odú foram viver juntos, até que
um dia revelou seus segredos e depois de um tempo Odú também revelou o seu
inclusive que adorava Éegun, mostrou as roupas de Éegun, o qual não teria corpo
nem tão pouco falava, e juntos passaram a adorar Éegun.
Um dia, aproveitando que Odú saiu de casa
Obarisá colocou a roupa de Éegun, e com o bastão na mão foi para a cidade e
falou a todas as pessoas. Quando Odú viu Éegun bailando pela rua, percebeu que
foi Obarisá quem tornou aquilo possível. Ela reverenciou e rendeu homenagem à
Éegun e à Obarisá. Convencendo-se da derrota, Odú mandou que seu poderoso
pássaro voasse sobre Éegun outorgando todo seu poder. Sucedeu que, desse dia em
diante Odú se retirou para sempre do culto à Éegun.
Este conjunto, homem-mulher na trajetória de Éegun, que aqui vem a
significar ancestralidade, restringe seu culto aos homens, os quais, todavia
rendem homenagens às mulheres que foram castigadas por Olodumare. Também por
essa razão é que as mulheres, depois de mortas são veneradas coletivamente e,
somente os homens terem direito a individualidade através do culto a Égun.
No culto aos Égugun, o Amioxã é o primeiro
estágio de iniciação e, de acordo com o desenvolvimento de cada um dos
iniciados, o próprio Éegun determina quando é chegada a hora de algum Amioxã
ser confirmado como um Ojé, este, passa então a ter missão de tornar os
espíritos ancestrais visíveis e fazê-los aparecer em público. Após alguns
rituais e sete dias de purificação, período no qual são implícitos alguns
preceitos o Amioxã é confirmado.
O Alapini é a autoridade máxima nas casas de Lésse Égungun e, apenas um
pode existir com este título, conceito existente desde a antiguidade e, quando
este faz sua passagem, morre, o próximo Alapini é escolhido somente um ano
depois, no entanto, os rituais continuam sendo realizados pelos membros da
sociedade e a ajuda dos próprios Égungun.
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Entre os iorubas, os ancestrais manifestam-se a seus descendentes por
intermédio de uma entidade chamada Égun. É o espírito dos ancestrais que
retornam a Terra debaixo de belos panos decorados com aplicações de tecido
recortado, bordados e ornamentados com búzios, espelhos e miçangas. São
cultuados em sociedades estritamente reservadas aos homens; são esses homens
que invocam os ancestrais que os chamam e cuidam deles na Terra.
O Égun serve de intermediário entre os espíritos do além, aparecendo
para certas famílias alguns dias após a morte de um de seus membros ou durante
as cerimônias realizadas para honrar a memória desses ancestrais; tem tabém a
incumbência de trazer a bênção aos casamentos de seus descendentes e, por
ocasião de suas aparições fazem-lhes oferendas de comida e de dinheiro.
O Égun fala com voz rouca e profunda, dança de bom grado ao som dos
tambores batá, de preferência ou, na sua falta, ao som dos tambores obgon. O
contato de sua roupa pode ser fatal aos vivos e, desta forma, os mariwo,
membros da sociedade Égun, os acompanham sempre munidos de compridas varas, os
isan, para afastar os imprudentes. O vento provocado por suas roupas, quando
dança girando é ao contrário, benéfico.
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O termo Égun é um termo do idioma ioruba aplicado genericamente para
osso ou esqueleto, não obstante, também empregado para espírito. Os Éguns,
relacionados ao culto Égungun, manifestam-se apenas em cultos restritos e com
fundamentos específicos.
Os
sons e as percepções na religião.
Na visão filosófica, religiosa e cultural do Candomblé, a música e a
dança predominam nas ocasiões em que são executados determinados rituais. Tal
filosofia determina que o ser humano sempre tenha que estar em contato com a
natureza, pois dela emanam irradiações que são os canais de mensagens que falam
através das vibrações captadas pelos sentidos do corpo.
Como exemplo, podemos citar os ritmos dos atabaques, cantigas e outros
elementos sonoros que são fundamentais para o culto e o aprendizado, tendo como
base todo um contexto religioso e cultural. O corpo do iniciado fica
diretamente relacionado a uma divindade, ou seja, o seu Orixá e por extensão
aos elementos a ele relacionados.
Nas reuniões, ou melhor, nos xirês em dias de toques, dias de atividades
no Egbé, é que são observadas determinadas ações desenvolvidas pelos
participantes da roda de dança. As danças, praticadas pelos iniciados ou
entidades manifestadas, demonstram tal principio. Exemplificando a prática,
temos Iemanjá, senhora das cabeças, a qual harmoniza as energias, tanto
positivas quanto negativas, quando em uma de suas danças, executa uma
coreografia levando as mãos alternadamente à frente e atrás da cabeça. Esta
função tende a orientar e equilibrar; este ritual é seguido também, e não só
por seus filhos, mas por todos os iniciados. Podemos observar também, que ela,
Iemanjá, possui a tendência a proteger os seios, não somente pelo sentido de
ser mãe, mas pela função natural do ato de nutrição dos seres humanos.
Na concepção do Candomblé o corpo humano é uma cópia das formas e das
energias do cosmo. Os elementos ar, água, terra, fogo unem-se segundo
arquétipos diferentes. O Universo, macrocosmo e o homem, microcosmo, são
criaturas semelhantes que obedecem a uma mesma lei, a lei do tempo e do espaço,
um relógio perfeito que funciona harmoniosamente num ritmo universal. Assim,
cada parte do corpo tem um significado simbólico: a parte frontal da cabeça
está relacionada com o futuro e ao Orixá dono da cabeça, enquanto a parte
posterior é relacionada ao passado; o lado direito está ligado aos ancestrais
masculinos, enquanto o lado esquerdo aos ancestrais femininos. Cada parte está
relacionada a um Orixá em particular e, as aberturas do corpo a Exu. As
orelhas, sendo orifícios, são defendidas por argolas com pingentes, isso
porque, ao balançarem produzem um som em resposta às influências negativas. As
palmas das mãos e as solas dos pés são pontos em que podem perder ou receber energias,
por isso, na presença dos Orixás os fiéis viram as palmas das mãos de frente
para elas.
Cada parte do corpo corresponde a uma entidade, a cabeça é fundamental
porque é a sede do Orí onde está alojado o Odú, o destino pessoal. É na cabeça também
onde fica o cérebro, a morada da sabedoria e onde a razão deve predominar. Os
órgãos do sentido humano se associam na recepção de valores e conceitos
formulados. As narinas são um canal aberto por onde o ar entra promovendo a
continuidade ao sopro de vida e dando sentido aos aromas, complemento essencial
na alimentação. Os ouvidos escutam e reagem aos sons. A boca é o orifício pelo
qual são ingeridos os alimentos para dar sustentação ao corpo. Os olhos são a
luz que ilumina os passos e, o tato é por onde são feitas as percepções de
consistência. No entanto, há os casos de pessoas que, impossibilitados, de
alguma forma, pela falta ou perda de algum órgão dos sentidos não carecem de
tê-los, pois, a natureza humana e espiritual desenvolve naturalmente outras
formas de percepção, e a espiritual é uma delas.
Abiku.
No Universo denominado Orún existe o Egbé Orún Abiku; nesse lugar residem
Seres que são determinados a nascerem para morrer em um curto espaço de tempo
terreno, gerando assim grande sofrimento às parturientes e a seus familiares,
lá, as meninas são chefiadas por uma entidade que é denominada Yájanjasa, e os
meninos são chefiados por Olóikó.
A permanência de um Abiku na Terra está condicionada a um pacto na
existência e na permanência no Orún com outra entidade denominada Onibode, o
guardião do portal do Orún. Este pacto é rigorosamente cumprido pelos Abiku. Se
uma criança cujo acordo não for nascer, esta não nascerá, mas, se houver um
acordo de voltar, este morrerá quando de idade tenra motivada por um acidente
ou doença, ou ainda quando do aparecimento do segundo dente. Esta é a descrição
dos mais sábios e antigos Babalawôs sobre o assunto.
Essa criança Abiku encontra-se entre os Akan, onde a mãe é chamada
Awonawu, aquela que coloca os filhos no mundo para a morte. Os Ibo chamam os
Abiku de Ogbanje, os Auçás de Darwabie, e os Fanti os denominam Kossamah. Também são encontradas informações
referentes ao assunto nos Itans, os quais demonstram que, os Abikus femininos
pertencem a uma sociedade no Agbá Orún e são presididas por Iyájansa, a mãe que
bate e corre e, os masculinos têm seu chefe, Olóikó, o chefe da reunião.
Conta uma lenda que Aláwaiyé, rei do Awaiyé, foi quem trouxe Abiku ao
mundo pela primeira vez na cidade de Awaiyé, onde se encontra a floresta
sagrada dos Abiku, local onde seus pais se dirigem e fazem oferendas para que
seus filhos fiquem no mundo.
Quando os Abiku vêm ao mundo passam num portal entre o Orún e o Ayé,
este portal, Onibodé Orún, é o limite onde os Abikus se despedem daqueles que
ficam. Os que partem para o Ayé, a Terra, declaram para seus companheiros suas
pretensões de tempo a permanecerem vivos, essas crianças, no entanto, apesar
dos esforços de seus pais, retornarão para reencontrar os companheiros que lá
ficaram.
Conta a estória que, quando Aláwaiyé trouxe para a Terra duzentos e
oitenta Abikus pela primeira vez, cada um deles declarou ao passar pelo portal
o tempo que ia permanecer no Ayé. Um deles propôs a voltar assim que tivesse
reconhecido sua mãe, outro ia esperar até o dia em que seus pais decidissem o
dia em que ele se casaria, outro, quando seus pais concebessem um novo filho, e
o outro, não esperaria mais além do dia em que começasse a andar. Outros, no
entanto, prometeram em ficar na Terra somente sete dias ou no máximo quando
começassem a andar, outros ainda quando começassem a ter dentes ou em ficar em
pé; em fim, todos fizeram promessas em voltar.
No entanto, as lendas de Ifá e os Itans, contam que oferendas
específicas são capazes de reter um Abiku na Terra. Tais oferendas têm por
objetivo fazer com que os Abiku se esqueçam das promessas feitas no Onibodé
Orún, rompendo assim o ciclo de idas e vindas e, ademais, porque o tempo
marcado para a volta já tenha passado e seus companheiros do Orún perdem as
esperanças de reencontrá-los.
Numa narrativa interessante temos a história de um caçador que estava na
espreita na floresta, próximo ao caminho por onde os Abiku passavam quando
vinham para a Terra; ouviu ele dos Abikus suas promessas quando da época de
seus retornos ao Orún.
Um deles prometeu que deixará o mundo assim que o fogo utilizado por sua
mãe, para preparar sua comida se apague por falta de lenha. O segundo esperaria
que o pano que sua mãe utiliza para carregá-lo nas costas se rasgue. O terceiro
Abiku, este feminino, esperará para voltar no dia em que seus pais lhe digam
que é tempo de casar e ir morar com o esposo.
O caçador vai então visitar as três mães no momento em que elas estão
dando a luz aos seus filhos Abiku e as aconselha. Para a primeira ele diz que
não deixe queimar inteiramente a lenha do fogão enquanto tiver fazendo a comida
do seu filho; para a segunda mãe, diz que não deixe se rasgar o pano que ela
usa para carregar seu filho nas costas, e para a terceira mãe, recomenda em não
especificar quando chegar o momento ou qual será o dia em que sua filha deverá
se casar e ir para a casa do marido.
As três mães vão então consultar um Babalawô e, como era de costume,
este, através de Ifá lhes recomenda que façam oferendas especificas: um tronco
de bananeira, uma cabra e um galo, seria um subterfúgio para que os três Abikus
permanecessem na Terra impedidos de cumprir suas promessas. Se a primeira
instala um tronco de bananeira no fogo, destinado a cozinhar a comida do filho,
antes que ele se apague, o tronco de bananeira cheio de seiva no fogo não pode
queimar e o Abiku vendo uma acha de lenha não consumida pelo fogo diz que o
momento de sua partida ainda não é chegada. A pele da cabra, oferecida pela
segunda mãe, serve para reforçar o pano que ela usa para levar seu filho nas
costas, pois, a criança Abiku nunca vai achar que o pano se rasgou e não vai
poder manter sua promessa.
Não se sabe bem o porquê do oferecimento do galo, mas, a lenda conta que
quando chegou a hora da de dizer à filha que ela deveria casar os pais não lhe
disseram nada e a enviaram bruscamente para a casa do seu marido.
Esses três Abikus não podem mais manter as promessas que fizeram, porque
as circunstâncias que devem anunciar as suas partidas não se realizaram como
tinham previsto nas declarações diante de Onibodé Orún. Esses três Abikus não
vão mais morrer, eles seguiram outro caminho.
Esta lenda mostra bem o mecanismo das oferendas e de suas funções,
apesar do seu lado anedólico, demonstra que para os yorubás, a sorte, e o
destino, pode ser modificado quando certos segredos são conhecidos.
Entre as oferendas que detém os Abikus aqui na Terra, em primeiro plano,
está a utilização das plantas litúrgicas; a oferta de determinadas folhas
constitui uma espécie de mensagem quando acompanhadas pelos ofós, os
encantamentos.
Para o povo yorubá, os pais para proteger
seus filhos Abikus e tentar retê-los na Terra, se dedicam a certas práticas,
tais como: fazer pequenas incisões nas juntas da criança e esfregar otin, pó
preto, feito com ossun, favas e folhas litúrgicas, ou ainda ligar a cintura da
criança um onde, talismã feito desse mesmo pó contido num saquinho de couro.
As ações buscadas nas folhas são expressas nas fórmulas de encantamentos
e introduzidas no corpo da criança através de fricções em pequenas incisões e,
a parte do pó contido no saquinho de couro, o ondé, representa uma mensagem não
verbal, um apoio material permanente da mensagem dirigida pelos elementos
protetores contra elementos hostis.
Outra lenda faz alusão aos xaorôs, anéis providos de guizos usados nos
tornozelos das crianças Abikus, isso, para afastar seus companheiros que tentam
vir buscá-los e lembrar-lhes de suas promessas. De fato, seus companheiros não
aceitam tão facilmente a falta de palavra dos Abikus retidos na Terra pelas
oferendas, encantamentos ou talismãs preparados por seus pais e de acordo com
os conselhos dos Babalawôs.
Nem sempre, essas oferendas e precauções são suficientes para reter as
crianças Abiku aqui na Terra; Iyájansá é muitas vezes mais forte e, algumas
vezes, ela não deixa agir o que as pessoas fazem para reter um Abiku aqui na
Terra, serão atraídos para o Orún. Os corpos dos Abikus que morrem, são
freqüentemente mutilados, a fim de que eles percam seus atrativos e seus
companheiros no Orún para que não queiram mais brincar com eles, sobretudo para
que o espírito maltratado na Terra não deseje vir mais ao Ayé.
Essas crianças Abiku recebem no seu nascimento nomes particulares e
alguns desses nomes são acompanhados de saudações tradicionais; tais nomes
podem ser classificados com nomes que mantenham sua condição de Abiku, como
nomes que lhes aconselham ou lhes supliquem sua permanência na Terra, quer
indicações de condições para o Abiku volte não são apreciáveis, quer em
promessas do bom tratamento, caso eles fiquem na Terra.
A freqüência com que se encontram esses nomes em adultos e pessoas com
mais idade e que gozam de boa saúde, mostra que muitos Abiku ficam na Terra
graças a essas precauções, as intervenções dos Babalawôs e, principalmente a
ação de Orúnmilá.
As cerimônias para reter um Abiku na Terra parecem ser pouco freqüentes,
mesmo entre os yorubás; segundo, descrita por Pierre Verger, foi feita pela
Taniynnon, encarregada do culto aos deuses protetores de uma família. Num canto
da principal peça de uma casa, oito pequenas estatuetas de madeira eram
colocadas em cima de uma banqueta de barro. Todos vestidos de panos da mesma
qualidade, mostrando pela uniformidade pertencerem a uma mesma sociedade, a um
mesmo egbé. Seis dessas estatuetas representam Abikus e as outras duas Ibedji. As
oferendas consistiam de Oká - pasta de inhame, Obelá - espécie de caruru, Ekurú
- feijão moído e cozido, Erandidin e Ejádindin - carne e peixe fritos que,
depois de um orô da Taniynnon e das oferendas de parte das comidas às
estatuetas, foram distribuídas à assistência. Uma sacerdotisa de Obatalá
assistia sublinhando as ligações que existem entre o Orixá da criação, as
pessoas de corpos mal formados, corcundas, alijados, albinos e àqueles cujo
nascimento tenha sido anormal. Portanto, ao contrário do que muitos falam, nada
tem a ver com criança que já nasce feita no Santo.
O legado dos antigos pelas suas crenças, mistérios e ritos, suas
práticas religiosas e culturais, se adaptam em qualquer tempo, através da sabedoria
com muita propriedade.
Em seu tempo, não há referências de aborto, mas ao contrário, o esforço
pela manutenção da vida, inclusive pela quantidade. Pela prática divinatória, através
do jogo de búzios, nos dias de hoje, podemos identificar muitos desses Abikus
que percebemos numa segunda instância; muitos são criados, passam a existir por
ingerência do ser humano através do aborto, é até simples de entender e ver por
uma ótica e lógica, astral-espiritual, ao que simplesmente não podemos detê-la
de nossa mente e inteligência, ou na pior hipótese ignorá-la. No instante em
que o óvulo é fecundado pelo espermatozóide, esta nova matéria existente já é
provida de alma e espírito, de um anjo da guarda, o que os yorubás denominam de
Orixá - guardião da cabeça, este fenômeno consta da teologia yorubana na lenda
de Oxalá.
Quando da execução do aborto propriamente dito, o ser humano, supostamente,
exerce o seu direito, o livre arbítrio, de eliminar àquele Ser, mas somente a
parte material, o corpo por ele criado através do ato de procriação; mas, o que
por ele não foi criado, a alma, o espírito, para onde vai? Esta análise,
geralmente não é feita ou levada em consideração. Acaso haverá conseqüências?
Quem sabe? Tais conseqüências estão nos sintomas pós-aborto, pois, a presença
daquela figura que aparece de uma forma genérica, oriunda de gerações passadas,
os que são provocados e voltam ainda na mesma geração e os que voltarão em
nossos descendentes da forma mais imprevisível possível. A maioria dos Seres que
nascem com deformidades, doenças graves e morte prematura, tem grandes
possibilidades de serem Abikus fabricados pelo homem.
A kimbanda.
Em terras bantas muito antes da chegada dos europeus, já existia entre o
povo nativo o culto aos ancestrais onde era conhecida a palavra M’banda que
significa a arte de curar; era um culto no qual o sacerdote investido de
determinados atributos promovia curas; no entanto, a palavra M’banda, também
podia ter outro significado relacionado ao mundo dos espíritos e, seus
sacerdotes, eram conhecidos como kimbandos, eram eles os comunicadores com o
mundo do além.
Quando os portugueses aportaram na África mantiveram os primeiros
contatos com os reinos bantos e procuraram comercializar de maneira pacífica,
mais tarde, o rei de Congo que era descendente do primeiro ancestral divinizado
e quase toda a nação converteram-se ao catolicismo, surgindo assim, o primeiro
sincretismo entre os N’Inkises e os santos católicos em terras africanas. Porém,
uma parcela do povo, os bagandas, balundas, balubas e os luba luda, não
aceitaram nem adotaram a evangelização e armaram uma revolução contra o rei
conquistando toda a região e mais tarde todo o reino do Congo. Um dos reis baganda,
Nigola M´bandi foi o que deu origem ao nome de Angola ao território. Desse
modo, todo o reino estava apoiado pelos grandes sacerdotes, pois eram eles que
possuíam toda a sabedoria e também eram os guardiões das tradições religiosas e
culturais.
Após um período de paz entre portugueses e congos, um dos descendentes
do rei do Congo, para não perder o reino, decidiu unir-se ao restante das
tribos bantas readquirindo seu nome africano e declarou guerra aos europeus. Os
portugueses, aliados a algumas tribos não dissidentes, escravizaram partidários
dos grupos bantos, tanto evangelizados quanto defensores das tradições,
iniciando assim o tráfico para o Brasil.
Na nova terra, escravizados bantos dos dois grupos, revolucionários e
evangelizados entram em contato com grupos indígenas tupis guaranis que também
haviam sido evangelizados pelos portugueses e, entre esses grupos havia também
àqueles que não tinham aceitado a idéia de trocar suas identidades religiosas
pelas impostas pelos colonizadores, tais grupos indígenas uniram-se aos bantos
para seus cultos. Houve então uma afinidade pelas identidades culturais e
religiosas; de um lado, os nativos da nova terra possuíam seus rituais
xamânicos e por outro, os bantos, que tinham trazido da África seus conceitos
religiosos e rituais fetichistas, passaram então a fazer suas magias em
separado. Não demorou muito para o surgimento de outras correntes independentes,
de uma delas originou a Umbanda, que além de cultuarem os ancestrais
divinizados e seus deuses, tanto caboclos quanto negros evangelizados
utilizavam todo o sincretismo católico fazendo trabalhos dirigidos para o bem.
No entanto, outra corrente passou a existir também, pois, apesar de possuírem
cultos idênticos não aceitavam o sincretismo com os santos católicos feitos
pelos catequistas, surgia daí a kimbanda. No início, os rituais não
diferenciavam muito, porém, com o tempo foram se distanciando. Nos dias atuais,
com a dinâmica religiosa de cada uma das correntes percebe-se que a Umbanda,
apesar de estar incorporada de muito sincretismo, conserva seus ritos sem
utilizar de sacrifícios animais. Por outro lado, a Kimbanda está impregnada por
ritos primitivos de sacrifícios animais e optando pelos trabalhos supostamente
dirigidos para o bem ou para o mal.
Em qualquer uma das duas correntes, os espíritos guias são, através de
rituais, incorporados em indivíduos preparados e iniciados, os médiuns, que são
denominados de cavalos, denominação esta, que segundo os preceitos e as
influências de cada casa optam por uma das duas correntes.
A Makumba, palavra derivada de Ma-Kumba, designa espíritos da noite ou
espíritos sem luz, eram assim chamados nos primitivos cultos sincréticos no sul
do Brasil com uma maior preponderância de Bantos. No entanto, também derivam o
nome de um instrumento de percussão, de uma dança e de outros cultos afros
brasileiros, principalmente aqueles com influências das nações Angola-Congo,
Nagô e os miscigenados pela cultura ameríndia da nação Tupi-Guarani,
contemplado ainda pelo catolicismo. A
razão de ter sido chamado de Ma-kumba - Macumba foi justamente porque a
principio, teria sido um culto noturno onde eram invocados os espíritos da
noite, Éguns de sacerdotes ancestrais. No culto yorubá, essencialmente Nagô,
rende-se culto aos Éguns ancestrais, porém, os rituais são afastados dos cultos
aos Orixás. Isto serviu para que os rituais destinados aos Éguns fossem
menosprezados, perjurados e mal interpretados. Por outro lado, o catolicismo também
condenava os cultos com influência dos Bantos e indígenas, onde era utilizado o
fumo, bebidas e danças sensuais, supondo a igreja que se tratasse de rituais
satânicos e de orgias. Após algum tempo, grupos de nações diversas procuraram
recompor suas identidades e dividiram-se nos principais ramos da, então,
denominada Ma-Kumba, aparecendo daí o Candomblé de Angola, Candomblé de Congo,
Candomblé de caboclo ou dos encantados, o Catimbó e o Omolokô, todas com
influências ameríndias.
No final do século XIX surgia a Macumba urbana, esta, com a participação
de brancos pobres e afros descendentes com influência da igreja católica e do
espiritismo que, aos poucos, dominava as mentes dos seguidores. Na Kimbanda
permanecia grande parte do culto aos N`gangas da nação Angola-Congo e também
com o sincretismo de Exu com o diabo, apregoado pelo catolicismo, que era
influenciado pelos mitos e também pelos próprios integrantes, os quais desconheciam
as origens de um Exu Orixá pertencente ao povo nagô.
Atualmente nos rituais ou sessões da kimbanda os espíritos que
incorporam são considerados como mensageiros de um N’kinsi, este, Exu Aluvaiá;
tais espíritos, incorporados, geralmente foram chefes de cultos na África ou
aqueles desencarnados mais recentes, portanto, Éguns.
A iniciação na Kimbanda é feita através de rituais específicos e o
iniciado fica um período de sete dias recolhido e afastado do convívio social
externo, sempre assistido pelo chefe da casa. Nos rituais, alguns instrumentos
e elementos funcionam como indutores das incorporações, o uso do fumo e de
bebidas é acompanhado de sacrifícios animais; os rituais fúnebres são constantes,
além de um grande banquete, uma forma festiva para agradar o morto e, os
espíritos, montados nos médiuns - cavalos, manifestados nos iniciados, dançam e
cantam acompanhados pelo som dos atabaques.
No universo da kimbanda, as entidades incorporadas são Éguns que, com
suas denominações, a princípio, os Exus são as mesmas reconhecidas em outros
cultos afros. No entanto, faz-se necessário o reconhecimento nos elementos e na
dinâmica do culto em si e também no histórico geral da cultura de cada um
deles.
A existência dos Exus, tanto masculinos quanto femininos é uma constante
em todos os rituais. As Pombogira ou Bombogira, entidades femininas na
kimbanda, são assim denominadas devido influência Banto-Angola, no entanto, a
entidade Banta Aluvaiá - Bombogira foi inserida no contexto pela miscigenação cultural
yorubá colocada como Exu feminino. Na kimbanda todas as Bombogira representam o
poder feminino das feiticeiras comparando-se aos das Iyámí do culto nagô.
Na kimbanda uma Bombogira pode ter muitos maridos, isto é, companheiros
de ajuda, assim entendido por uns e como escravas por outros, no entanto,
entende-se também que todas as entidades são duplas, isto é dizer que, cada uma
delas pode se apresentar com aparências distintas como homem ou mulher. Por
outro lado, os Exus masculinos podem ter muitas Bombogiras, ou seja; Exus femininos
que passam a serem as esposas, companheiras ou escravas também. É muito comum
ver o número sete para determinar quantos Exus femininos ou Exus masculinos
podem como entidades limitar suas companhias para trabalhos, seja para o bem ou
para o mal. O número sete é sempre determinante para uma solução ou indicação
cabalística.
Cada Exu masculino na kimbanda possui sua parte feminina ou
contrapartida, que na verdade são as mesmas energias com aparências distintas,
assim sendo, temos: Exu Rei da Encruzilhada/Bombogira Rainha da Encruzilhada;
Exu das Matas/Bombogira das Matas; Exu Gira mundo/Bombogira Gira mundo; Exu do
Cravo vermelho/Bombogira da Rosa Vermelha; Exu Mulambo/Bombogira Maria Mulambo,
e assim em diante, este é o conceito desenvolvido nas casas de Kimbanda.
Notas conclusivas e assuntos complementares.
Individualidade de Orixá.
Normalmente
a tendência de personificar e ilustrar as divindades decorre do fato do Ser
humano não possuir a capacidade de identificar até onde vai a sublime
imaginação; no entanto, saber diferenciar o mito das ocorrências de
manifestações naturais e espirituais, o que é uma realidade, cabe não só aos
adeptos das religiões afrobrasileiras como também aos estudiosos em geral. Este
procedimento muitas das vezes é dificultado pela cultura criada através do
processo histórico diante ao seu desenvolvimento desde remotos tempos, tempos
em que as divindades sob a forma humana foram instintivamente criadas.
Foi na idade da pedra que os primeiros humanos sentiram a necessidade de possuir
uma companhia protetora, algo sobrenatural que os guarda-se nas horas mais
angustiantes das intempéries, da vida rústica e das feras famintas que os
rondavam, isso os impeliam em implorar socorro. Desde então o Ser humano tem
demonstrado sua fragilidade perante as forças da natureza, mesmo que fosse de
uma forma advinda do meio ambiente em que vivia; nasciam assim os ídolos, as
primeiras imagens confeccionadas em pedra, madeira ou barro para representar
seus deuses, aqueles protetores.
Ao projetarem os fatos relacionados com
o seu cotidiano, sem perceber emanavam energias para àquelas imagens, às quais
passaram a ser cultuadas com oferendas de parte dos elementos resultantes de
suas caçadas e frutos das colheitas diárias, iniciava-se assim um processo de
crença. Este processo, no entanto, não deixou nenhuma marca de culto
propriamente dito, porém, mais tarde com o desenvolvimento, surgiram os
primeiros cultos agrários, início de toda historia das religiões.
No neolítico alguns povos já possuíam
cultos desenvolvidos e a historia das religiões tomou impulso, e sempre fazendo
uma ligação do mundo material com um universo desconhecido, criaram-se então os
mitos, nasciam assim lendas relacionadas aos heróis demiurgos.
Fica impossível saber qual foi o
primeiro deus a ser cultuado, porém, a história relata alguns de acordo com as
civilizações que os criaram.
As estórias
mitológicas reforçam a idéia da junção material com o espiritual de um deus
forte, criador, poderoso e provedor de justiça, foi sempre representado por uma
figura varonil com suas armas de guerra, dando um sentido de potência material;
porém, pouco importava se tal deus possuía ou não inteligência, isso porque, o
mundo daquela época pertencia aos mais fortes e nada mais importava além de ter
uma representação de um Ser todo poderoso. As historias da Grécia, da antiga
Roma, do Egito, Babilônia e outras civilizações comprova tal teoria.
Mais tarde com o
aparecimento do Cristianismo a evolução do pensamento religioso e o
desenvolvimento humano, muitos artistas e artesãos passaram a reproduzir nas
grandes catedrais do mundo tudo aquilo que lhes fora determinado; e num sentido
de demonstrar uma reprodução fidedigna para os fiéis, a visão dos personagens
que compunham um mundo abstrato e real, ao mesmo tempo, o Céu e o Inferno
passaram a ter uma relação de premio e castigo. Muitas dessas produções ainda
permanecem nos seus lugares de origens reproduzidas em belos catálogos ou em
quadros expostos em museus ou pinacotecas.
Diante desses
fatos fica difícil para adeptos de algumas religiões, principalmente os
candomblecistas e umbandistas, separar do universo material o imaterial e
distinguir o que é uma representação mítica quando relacionada a uma energia Elemental,
normalmente a tendência é fazer uso das duas formas, mesmo que o entendimento
esteja dentro de conceitos ditos puros.
Algumas
religiões possuem suas justificativas quanto ao uso de ídolos, imagens de
deuses, santos ou outras representações, isso devido aos valores culturais
criados no passado, e como separar então a idéia da utilização de tais ídolos
quando os relacionamos com as divindades Elementais, os Orixás?
O fato de alguns
segmentos das religiões afrosbrasileiras fazerem uso de ídolos ou estarem
relacionados a imagens de santos católicos está nos fatores históricos das
conquistas do cristianismo; no entanto, aqui no Brasil são utilizados outros
elementos representativos nos assentamentos aos Orixás, que nada tem há ver com
representações de imagens. Tais elementos são possuidores de Axé, energia, que
é o elemento fundamental para o desenvolvimento, tanto individual quanto
coletivo de um Egbé.
Todos os
indivíduos que pertencem a um Egbé reconhecem a relação dos Orixás com o mundo
físico, porém, as personificações das entidades através de vestimentas e demais
elementos representativos não passam de uma cópia fiel de tudo que foi relatado
anteriormente, ou seja, símbolos representativos, pois tais representações
servem somente para identificar as energias manifestadas.
O elemento
essencial, o Axé, é o elemento que acompanha a execução de todos os rituais, e
ao mesmo tempo, é realimentado para fortalecer as energias nele existente; desta
forma os Orixás se tornam, em síntese, uma união formando um conjunto de
elementos neles contido através daquelas energias, que produzidas de acordo com
as oferendas e atos relacionados com determinados rituais, mantém, mesmo assim
suas individualidades.
Na concepção
ioruba, Olorún, o criador de tudo, é a síntese de todos os elementos
Universais, sejam materiais ou não, por isso dizemos que ele está em tudo e em
todos os seres, é uma energia que domina todo o Universo, é incondicional à
vida, seja no plano material ou no espiritual.
Não há como
personificar ou se ter uma imagem de Olorún, pois tanto “Ele”, quanto as demais
divindades astrais são energias, e como figurar uma energia?
O Universo é
composto de diversas matérias, fato explicado pela ciência, pois cada elemento
possui uma determinada energia; o sol, as estrelas, os planetas, as luas e
todos os demais mundos, e são deles, deste imenso espaço etéreo, do espaço
sideral que são emanadas as energias. Podemos sentir a irradiação do sol
através dos seus raios em nosso corpo, porém, se ficarmos muito expostos pode
nos queimar ou contrairmos algo danoso; mas, ao contrário, se formos tolhidos
dessa mesma energia com certeza sucumbiremos. Assim também são as energias
emanadas pelos Orixás, são energias equilibradas, cabendo ao neófito usá-las,
conservá-las e realimentá-las.
Quando nascemos
para o mundo material, trazemos conosco um DNA, único no mundo e com ele toda a
carga genética de nossos antepassados, pais, avós, bisavós, etc. É no DNA que
está inserido a nossa individualidade material. Por outro lado, ao nascermos
passamos também a possuir características espirituais produzidas no Orún,
espaço etéreo, o DNA espiritual e, com esta carga, independente de qualquer
fator, trazemos em nosso Orí, na nossa cabeça os nossos destinos, e nele está
centrada àquela energia que nos conduzirá. Esta energia, denominada Orixá está
acompanhada de um Odú correspondente e do Bára, o Exu individual. Por isso
dizemos que cada indivíduo possui seu Orixá, seu Odú e seu Bára; são energias
independentes apesar de atuarem em conjunto.
Não só na crença
ioruba como na de outras nações de candomblé, encontramos uma infinidade de
estórias míticas, são os itans que, relacionados aos Orixás, nasceram os
fundamentos do candomblé e de outras religiões afrosbrasileiras.
Todos os Orixás
possuem conjuntamente uma estória mítica e religiosa; o enredo e o
desenvolvimento de suas existências, tanto no Orún quanto no Ayé, muitas vezes
confundem a cabeça dos neófitos e seguidores, tanto candomblecistas,
umbandistas e mesmo estudiosos do assunto. Muitas vezes é preciso desmistificar
tal relação. O mítico está para a religião como o real está para o mítico e,
neste caso, não há como relacionar os fatos materiais existentes com as
energias concebidas pelos Elementais.
Quando se faz uma oferenda o essencial é o
valor das energias dos vários materiais; são energias que hão de unir-se e ser
encaminhadas às divindades e, como foi dito, em todos os elementos existem
energias. Porém, a maior de todas é a que emanamos do nosso pensamento, do
nosso Orí, é nele que se processa toda a união das energias que pretendemos
enviar, de forma subjetiva, para o mundo espiritual. A essência dos elementos
contidos na oferenda torna-se então o alimento transformador do Axé, ou seja,
em energia que deverá ser constantemente renovada. Assim, quando fortalecemos o
nosso Orixá através de oferendas estamos equilibrando as energias contidas no
nosso Orí, pois, o Orixá ao qual pertencemos e daquele que somos filho, está em
nós mesmos, não de forma mítica, mas em energia.
Quando temos
nosso nascimento uterino, isto é, no nosso nascimento material, ficamos ligados
ao cordão umbilical por um período no qual somos alimentados até a nossa
formação e nascimento para a vida propriamente dita. Quando nascemos trazemos
todos os elementos contidos no DNA, no qual contém as características da
família a qual pertencemos. È o processo natural da vida na Terra. Porém,
também trazemos o nosso DNA espiritual, este formado por energias astrais,
energias advindas de um universo etéreo, e nele, estão contidas também todas as
características que formam nossa personalidade referente ao Orixá patrono e os
demais que compõem toda nossa estrutura espiritual.
Um Orixá,
portanto, não incorpora, sua função é manifestar-se, pois tal energia está
contida no Orí, e é através de rituais específicos que isso ocorre; porém, em
alguns aspectos, a manifestação pode ser espontânea. No entanto, a ocorrência
das várias manifestações é dada ao fato dos médiuns de transporte, assim
chamados, possuirem essa característica, e são através de rituais que as
energias dos Orixás são despertadas, tratadas e representadas conforme os
fundamentos de cada um deles, portanto são individuais. Não existem dois Orixás
iguais como não existem duas pessoas iguais, podendo apenas possuir semelhanças
e características idênticas.
Isto fica comprovado quando observamos
os assentamentos representativos dos vários Orixás, nenhum é igual ao outro,
sempre há uma diferença mesmo que possuam as mesmas características e, é nos
pequenos detalhes que se fazem as diferenças, vem daí a justificativa para
muitos, por vezes, confundirem o termo - qualidade de Orixá.
Fisiologicamente,
a energia do Orixá concentrada no Ori está sempre acompanhada de outras
energias, Odú e Bára são energias que fazem parte do sistema do equilíbrio
humano. O primeiro é o caminho a ser trilhado, o destino como costumamos dizer,
o responsável por nossos passos e decisões; o segundo, Bára, é o Exu
individual, energia primordial da vida e responsável pelas várias atividades
humanas, esta energia é que nos impulsiona, nos dá movimentos, é a circulação
sanguínea, a reprodução, a locomoção, etc...por isso se diz que o Bára é o Exu
do corpo.
No Orí também
está o Enikeli, o gêmeo individual espiritual, é ele que se mantém em espírito
para nos lembrar do nosso destino, é ele que registra todos os nossos atos.
Cada Ser, inerte ou não, possui o seu Odú, o espírito de Eledá em si. O Igbá
Iwá, que é o nosso corpo e que contém o nosso caráter, é somente a residência
do espírito, independente da forma física.
O Orí é tão
importante que deve ser propiciado freqüentemente, e por isso sua ajuda é
necessária antes de iniciar qualquer ato que seja representativo no candomblé;
e isto é feito através do Ebori (Bori). Orí é a unidade pessoal de cada um, é o
único que pode nos acompanhar até os lugares mais longínquos; é Orí que mantém
a individualidade tanto do Orixá quanto do individuo.
Mito
ou historia?
Enquanto a
historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo, o mito foi criado
para explicar pensamentos e atos na religião. Todas as culturas humanas
retrataram seus acontecimentos extraordinários através da mitologia sempre para
se fizer entender nas relações, principalmente com o sagrado e com o
inexplicável universo do inconsciente e de suas crenças.
Personificados por formas humanas ou
de animais, os deuses e deusas permanecem no inconsciente humano como forma de
fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o subjetivo aparece retratado
em gravuras, estelas, estátuas e nas pinturas sacras.
Esta foi a forma que o ser humano encontrou em
todos os tempos para estar mais próximo ao sagrado; transformou idéias em
objetos reais sacros, criou estórias e lendas, transformou ancestrais em deuses
demiurgos e uniu-os aos deuses tribais em figuras sincréticas, assim nasceu o
mito.
Muitas das “estórias” são singulares a
várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou grandes extensões de
terra e, os deuses, com características idênticas, são os principais
personagens de todo um enredo programado, sempre por um personagem maior, um
deus superior.
A mitologia é
uma forma espontânea cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê,
mas sente e transfere toda essa crença para sí, e os caminhos percorridos pelos
deuses passam a refletir nas características de cada individuo em cada uma das
religiões.
Cada lenda é um tempo vivido, uma ação,
um movimento feito pelo personagem, dando a idéia de uma transferência de
conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao encontro
com a realidade subjetiva, a fé.
As religiões
afrosbrasileiras são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos derivados
das culturas advindas do continente africano, independentemente a que nação,
grupo ou segmento pertença.
Nos rituais é
que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, parecendo mesmo
que em determinados momentos, o culto se divide entre o sagrado e o profano. As
cantigas, as batidas dos atabaques e as danças, que por vezes reflete um
sentido profano, formam um conjunto aprimorado como se uma viajem ao passado
fosse feita. A cada batida, com mãos ou varetas nos atabaques, e a cada passo
dado no bailar rememoram os caminhos percorridos pelos deuses africanos, os
Orixás.
O ponto
principal de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado
transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias
emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não correspondendo a
um universo espiritual; são energias incorporadas no próprio individuo que, iniciado
passa a ter essa capacidade e, depois de celebradas, estas energias que,
temporariamente, tomaram “forma humana”, voltam ao seu estado natural. Desta
maneira podemos entender as várias manifestações das várias “divindades astralizadas”.
Nos bailados de Iemanjá os braços ondulam numa alusão as águas dos mares, mas
também, seus braços podem ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a
mãe da matéria primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos
remontam aos primórdios do universo, onde seria também a progenitora de todos
os demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão que
venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com Iemanjá, e
num patamar mitológico superior, está Oxalá, o Ar, o sopro de vida que,
responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi substituído por
sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o ser humano povoando todo o
planeta.
Juntamente com Iemanjá e Oxalá, está
outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão, Exu, que representa
o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o sentido da procriação.
Tornam-se assim um quadrunvirato da construção de todos os elementos, a água, o
ar, a terra e o fogo.
Oduwa, por não ser cultuada nos candomblés é
somente rememorada quando da presença de Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua
energia está contida em culto independente, o culto às Yiá mi. Da interação
Terra/água, surgiu Nãnã, Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador
das espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito do
povo Nagô.
Os
acontecimentos mitológicos são apenas representativos para entender toda a
estrutura da religião quando baseados nos conceitos do povo nagô, no entanto,
todas as formulações ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras
nações determinantes nos candomblés.
Além dos Orixás
primordiais, Iemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exu
o fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros deuses,
porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas estórias são
narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como historias reais.
Quando da
criação da Terra, segundo o mito nagô, em tempos imemoriais nos ciclos
milenares do desenvolvimento humano, chegou a era dos metais, e com ela uma
divindade foi criada, Ogún, o deus das guerras que, mitologicamente com suas
duas espadas em formato de facão desbravou caminhos dando ao ser humano a
possibilidade de inventar armas de guerra e ferramentas para a agricultura;
Ogún juntamente com Exú, o deus da continuidade material, é que foram e
continuam sendo os responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser
humano reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas, substituiu a
coleta pela produção de alimentos. Oxóssi, o deus das matas continuou a caçar
dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de trabalho e progresso.
A descoberta dos
sentimentos humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo
de criação de conceitos para sobrevivência; nascia assim o respeito pela
gestação, e com ela, Oxún a deusa das águas doces e das nascentes que sustentou
e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder gerar vida. Este
processo foi que determinou o poder feminino absoluto, surgindo daí as Yiábás,
as mães rainhas e zelosas dos castelos imaginários de um mundo mítico.
Progressivamente
a humanidade foi se adaptando no planeta recém-construído; surgiram outras
divindades, pois a cada passo eram personificados deuses representativos. A
natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e escravos; novos
deuses surgiam e reis foram divinizados e, neste cenário, apareceu Xangô, o
deus da justiça, que enlouquecido pelas barbáries dele e de seus inimigos,
dizem ter se enforcado. Seus machados cortantes nas duas faces são como a
própria justiça, um lado é a benevolência do outro o castigo.
Em uma das
interações Universais entre Oxóssi/Oxún – nasceu Logún, energia jovial, tão
jovial quanto o planeta criado representando a renovação cíclica. Desta
maneira, as águas da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè e, após os grandes
dilúvios, esta energia é que permite chuvas; com ele, numa alegoria encantadora
surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do Universo. Porém,
essas transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam
as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e das
guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também consagrada entre as
deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nos
vulcões.
Mas, a renovação
constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte de
elementos, doença/saúde, o bem e o mau, conceitos de todas as vicissitudes são
energias que devem ser depuradas, e desta forma, Obaluayé está presente; ele é
o socorro, o médico do planeta e de tudo que nele contém, é a energia
produtora, tanto de pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas.
E na Terra também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as
energias, como o ser humano; as folhas das ervas medicinais trazidas pela magia
de Ossayn, energia completa, complexa e diversificada.
...E todas essas
energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos,
particularidades que agregam ao ser humano quando do nascimento e o acompanham
até a devolução de todas as substâncias à Ikú que devolve à Mãe Terra.
Para representar
todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza e dela absorveu
conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás se manifestam nas
casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada
gesto e, até mesmo cada respiração, envolve a assistência num retorno aos
primórdios dos tempos reinterpretando toda uma história, de sentimento, crença
e fé.
Nos movimentos
das danças e que são interpretados, de forma a entender as energias
manifestadas. As ondas dos mares e as turbulências das águas estão nos braços e
requebros de Iemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas
límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e
tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos,
quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará, numa equivalência de
justiça. Nos movimentos ágeis de Ogún estão alegorias de guerras e das batalhas
diárias vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança
suas flechas dando direção da fartura e da prosperidade. No resplandecer das
mudanças bruscas do tempo nos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que
cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossayn
sopradas por Iansã, a mãe dos ventos e dos nove mundos. Na direção dada por
Oxumarè quando aponta o caminho das águas pelo arco íris. Nos movimentos
tectônicos da energia do planeta está Obá, a deusa que respira pelos vulcões.
Na lentidão dos passos cansados de Nãnã devido ao tempo de existência. No ritmo
atenuado do tempo e das nuvens da paz como um teto branco por sobre as cabeças,
Oxalá caminha passivamente sobre a Terra ou no infinito do Universo e, Exu o
provocador de todos os movimentos é o incansável mensageiro, trazendo e levando
as oferendas ao Olímpo dos deuses africanos, os Orixás, deuses do candomblé.
Mas, não só toda
essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse
estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os símbolos,
cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações
consagradas aos deuses africanos que, desta forma, cada um deles possui suas
individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e
mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano.
A crença nesta
forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos
estruturados no próprio individuo que são manifestados pelas energias contidas
em um DNA espiritual e que, passivamente, e através de ritos apropriados devem
ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí o
caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção.
A mitologia não é uma narrativa das origens, mas a
origem de todas as narrativas.
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