Caminhando com os Deuses - Continuação 2.
Os
Orixás.
Exu.
Na complexidade do universo espiritual, uma multiplicidade de
energias rege todos os Seres e elementos, pois os fatores de equilíbrio é que
mantêm suas estruturas determinadas palas ações, tanto aos humanos quanto às
divindades.
O elemento
primordial e essencial na estrutura religiosa desenvolvida nos Candomblés é Exu,
Orixá que tem seu princípio fundamental em Yanguí, o primogênito. Advindo de uma
interação promovida por Olorun/Olodumare, tornou-se o elemento dinâmico nas
ações de todos os Seres e elementos, tanto naturais quanto sobrenaturais; seu
axé é o transportador de todos os elementos e de todas as ações, mobilizando,
expandindo e intercomunicando, tanto elementos quanto ações, sejam reais ou
não.
Individualizados, todos os Seres tem em si seu próprio Exu e seu
Olodumare/Olorun, pois este representa um principio de existência genérica,
enquanto ao outro, o principio de uma existência distinta. Cada Orixá é
possuidor do seu Exu tornando-se assim uma unidade; Exu torna-se o elemento que
cumpre funções específicas nos rituais de oferenda quando evocado e cultuado
antes do Orixá a que pertence, pois é ele que tem o poder de interferência. O
dinamismo, característica que lhe é conferida, atua nos caminhos e Ifá,
pré-destinador no oráculo e quem fala, tendo sempre Exu como mensageiro.
Uma imagem
que define bem a relação de Exu com o dinamismo é proporcionada por um caracol,
uma concha triangular em forma de espiral, tendo como base sua ponta abrindo-se
para o infinito. Denominada okotó, representa o crescimento e a evolução, um
processo contínuo com ritmo e regularidade.
No
dinamismo de Exu é que são encontrados os caminhos das realizações, é ele quem
permite aos Orixás desenvolverem suas funções, e aos Seres cumprir seus
destinos; recebe a denominação de Egbára, aquele que controla, pois recebeu tal
poder de Olodmare/Olorun e está contido no adó-iran, uma cabaça ritual.
Por ser um
símbolo complexo é em algumas ocasiões confundido com Ogun, principalmente
Xorokê, que significa aquele que vem da montanha, o qual, além de acompanhá-lo
é também seu representante por possuir o progenitor no universo dos Orixás. Exu
é o primogênito universal, o Exu Yangui, a primeira matéria dotada de forma e
de existência individual, tornou-se por isso a mais importante representação no
universo religioso nagô. Como símbolo, além de possuir o princípio dinâmico,
proporciona a multiplicação, a continuidade e a expansão, tanto dos Seres
quanto das entidades ao manifestarem nos eleguns.
Todo
individuo é constituído e acompanhado de um Exu individual, o seu Bára;
permissivo ao desenvolvimento e a multiplicação celular ultrauterina, no
nascimento, crescimento e também nas múltiplas atividades existenciais para que
possa cumprir um ciclo harmonioso. Mas é preciso restituí-lo e, é através das
oferendas que o seu axé é reposto.
Como
elemento essencial possui funções especificas: na função de Oxe-Tuwá, Exu é o
reparador dos progenitores masculino e feminino ao transportar o ebó, oferenda;
a oferenda aceita é devolvida em forma de energia a todos os elementos que vão
dar continuidade na existência, restituindo assim o axé. Oxe-Tuwá é quem
transporta a chuva, o sêmen da Terra que, ao fecundá-la, permite a renovação, é
o princípio reparador e controlador; está associado à atividade sexual
assegurando a procriação circulando livremente entre os elementos passando de
um objeto a outro e entre os Seres; é também o mensageiro quando estabelece a
relação entre o Ayé e o Orun, e dele, dependem o sistema de oráculo, pois funciona
através de objetos que o simbolizam.
Nas casas
de Candomblé de Angola, por questões culturais, Exu é conhecido como Gongobira,
Aluvaiá, Pangiro, Apavenã, além de outros nomes. (ler capítulo Candomblé Angola)
Como
todos os Orixás, Exu possui seu instrumento de culto, o ogó, um cetro em forma
de falo numa demonstração de virilidade, suas contas são nas cores vermelha e preta,
e sua saudação é LaroYê Exu Mojubá. Por motivos históricos está para o
sincretismo representado pelo diabo, concepção católica da maldade imposta pelo
catolicismo, porém, mesmo na feroz repressão a este atributo, Exu continua a
ser reverenciado por seu título ancestral iorubano, é um Imolé, Ser sobrenatural
de categoria divina, isto para diferenciá-lo dos conceitos impostos.
Os contos
de Ifá apresentam dezesseis títulos com correspondências e características, as
quais estão ligadas aos dezesseis Odús tradicionais nos fundamentos da
religião, ou seja: Exu Yangui, Senhor da laterita vermelha, o primeiro; Exu
Agbá, Senhor ancestral; Exu Agbá Ketá, Senhor da terceira cabaça; Exu Okotó,
Senhor do caracol; Exu Òbá Baba Exu, rei e pai de todos os Exus; Exu Odára,
Senhor da felicidade; Exu Ojisé, mensageiro divino; Exu Elerú, Senhor da
obrigação ritual; Exu Gbarijó, Senhor da boca coletiva; Exu Elegbára, Senhor do
poder mágico; Exu Bára, Senhor do corpo; Exu Lonan/Lonã, Senhor dos caminhos;
Exu Olobé, Senhor da faca; Exu Elebó, Senhor das oferendas; Exu Aláfia, Senhor
da realização; Exu Adusô o vigia dos Odús.
Exu Yangui
é sua primeira forma e a mais importante, a que lhe confere a qualidade de
Imolé ou divindade, segundo o credo iorubano.
Conta o
mito que...
...O Ar e
as Águas moviam-se conjuntamente, uma parte transformou-se em lama e dessa lama
originou-se uma bolha em forma de montículo, a primeira matéria dotada de
forma, um rochedo avermelhado e lamacento. Olorun/Olodumare admitiu esta forma
e soprou sobre o montículo insuflando seu hálito dando-lhe vida.
Esta forma
teve a primazia de ser dotado de uma existência individual, um rochedo de
laterita, o próprio Exu Yangui.
Neste mito,
fica claro que Exu é um Imolé criado diretamente por Olorun/Olodumare, mas não
a própria e primordial matéria divina da qual ele já havia feito Obatalá e
Oduduwa, o casal divino, mas sim àquela matéria que formaria toda a existência
genérica, ou seja, o Eerupê - a lama, da qual seria criada também toda humanidade,
e que um dia, Ebóra Ikú, - a morte, devolverá a esta mesma lama.
Exu foi o
primeiro Ser/divindade criado da existência genérica, é o símbolo por
excelência do elemento criado, por isso ele é chamado também de Exu Agbá, ou
Exu ancestral. Assim, os seus assentamentos, ou sacrários, como eram
denominados pelos mais antigos e tradicionais Babalawôs, era um simples pedaço
de laterita (pedra vermelha) enfiada no solo na orita meta, ou seja, em uma
encruzilhada de três caminhos e, algumas vezes, a leterita estava cercada por
sete, quatorze ou vinte e uma hastes de ferro enferrujadas representando o
esqueleto do metal novo.
Os mitos
da criação, segundo a cultura ioruba, demonstram que Exu foi criado logo após
Obatalá e Oduduwa, ele é, portanto, o Igbá Ketá ou, o terceiro Ser criado,
sendo o símbolo da existência diferenciada e, em conseqüência, o elemento
dinâmico que leva a propulsão, a mobilização, a transformação e o crescimento.
Nesta variante múltipla, ele é o principio dinâmico que participa forçosamente
de todo a existencia.
...E assim foi se processando a criação, segundo o
mito ioruba.
As lendas
sobre Exu contam como ele logo se descontrolou e começou a devorar toda a existência,
sendo obrigado, por Orunmilá (epíteto de Olodumare/olorun), após uma longa
perseguição, a vomitar tudo de volta; entretanto, tudo em maior quantidade,
muito melhor e mais perfeito do que quando ingerira.
Desta
forma, Exu Yanguí também se multiplicou infinitamente e, tendo se tornado no
símbolo da restituição e da recomposição, tornou-se ele próprio em Obá Baba Exu
ou Rei e Pai de todos os outros Exus que deles seriam e foram cortados, e que
para sempre acompanhariam os Orixás e todos os mortais.
Os Esé
Itan Ifá, ou versos dos contos de Ifá, nos contam a razão da denominação das
outras variantes múltiplas de Exu.
Numa
explanação livre, os versos desses contos no que se refere á Oxetuwá, contam
que quando os Imolé vieram a Terra para coadjuvar Obatalá e Oduduwa a reger a
criação, Olodumare/Olorun ensinou-lhes tudo quanto precisavam saber para que a
vida na Terra fosse Odára, (feliz). Mas, apesar de os Imolé terem feito tudo
quanto lhes tinha sido prescrito por Olorún, sobreviveram na Terra todos os
tipos de desgraça, sobretudo uma terrível e prolongada seca.
Os Orixás
se reuniram e chegaram por conclusão que os fatos desastrosos estavam além da
sua compreensão e deveriam mandar alguém sábio e instruído à presença de Olodumare/Olorun
para que este lhes mandasse a solução dos problemas que afligiam a Terra, agora
pelo risco de total desaparecimento.
Orunmilá –
Ifá , o Orixá da adivinhação partiu nessa missão, data daí o fato de que ele
passou a ser um dos três Orixás que pode apresentar-se perante Olorun/Olodumare.
Ao lhe ser permitido facear Olorun, Orunmilá ouviu dele que a razão para todas
as desgraças que assolavam a Terra estava no fato de que eles, os Imolés, não haviam convidado para morar no Óde
Ayé, ou seja, a morada dos Imolés na Terra, a não ser que se constituiria no
décimo sétimo dentre eles, mas quando assim o fizessem tudo voltaria a
frutificar.
E foi
assim que Orunmilá tornou-se o arauto de Olorun/Olodumare para a ligação dos
dois mundos, o Orún e o Ayé.
Retornando
ao Óde Ayé, Orunmilá começou a procura do décimo sétimo, o qual deveria ser
convencido a morar com eles. Depois de muitas tentativas infrutíferas e não tendo
encontrado, decidiram que uma poderosa Ajé (senhora do feitiço), a Ebóra Oxun
deveria conceber um filho de Oxé (Senhor do poder mágico). Este filho receberia
ainda no ventre materno o axé da força mágica de todos os Imolé por imposição
conjunta de suas mãos para que, tornar-se assim, o mensageiro por excelência
das oferendas dos Imolés e se acabassem todos os infortúnios que assolavam a
Terra.
Assim
feito. Foi então gerado um filho com poderes mágicos, o filho do feitiço, que
recebeu o nome de Oxetuwá. Este novo Orixá gerado passou a tentar cumprir o seu
dever de mensageiro, mas sem antes, absolutamente, sem nenhum sucesso. Porém,
um dia, em aflição, lembrou-se de procurar o quase desconhecido Exu Odára (Exu
da felicidade) para pedir-lhe ajuda. Oxetuwá pediu então para Odára ajudá-lo a
levar as oferendas dos Imolés à Olorun. E Odára respondeu-lhe; Como? Jamais
pensei que você viesse me avisar antes de partir, e por este seu gesto, as
portas do Orun estarão abertas para você. Então, Oxetuwá e Odára puseram-se a
caminho partindo em direção ao Orún. Quando lá chegaram as portas já se
encontravam abertas. Oxetuwá, então pode entregar as oferendas dos Imolés a Olorun,
e este, aceitando-os por virem através de Exu deu a Oxetuwá todas as condições
necessárias à sobrevivência da Terra. Oxetuwá voltou ao Ayé e tudo frutificou
novamente.
Tão gratos
lhe ficaram os Imolés que o cobriram
de presentes e celebraram como único dentre eles que conseguiria levar as
oferendas ao Orun; porém, Oxetuwá com humildade levou todos os presentes que
recebera e deu-os a Exu Odára. Quando os deu, o mesmo lhe disse: Como? Há tanto tempo eu carrego os sacrifícios, as
oferendas, e nunca ninguém para retribuir-me a gentileza! De agora em diante, todos os sacrifícios que
fizerem sobre a Terra se não os entregarem primeiro a você para que os possa
trazer a mim, farei com que as oferendas não sejam aceitas.
E assim
Oxetuwá tornou-se o poderoso Ikin-Osô, ou manipulador do poder; duplamente, por
seu nascimento e pela confirmação de Imolé
Exu Odára ter mostrado a todos os Imolé que Exu era realmente o Ojisé, o
mensageiro divino e que também tinha o poder de aceitar ou recusar os
sacrifícios rituais, isso porque era o verdadeiro Elexu ou, Senhor das
obrigações rituais.
A partir de então os Imolés decidiram dar a Exu um pedaço de suas
próprias bocas para que ele pudesse falar por todos quando fosse a Olorun, pois
era patente que era o outro Imolé, além de Orunmilá, que podia apresentar-se
perante Olorún. Imolé Exu, muito sabiamente, uniu todos esses pedaços em sua
própria boca e assim, tornou-se o Exu Gbarijó, a boca coletiva de todos os
Orixás.
Desde
então, como retribuição de Exu aos outros Imolé, cada um destes possui ao seu
lado o seu Exu Okotó, o Exu do caracol, o mais um a quem ambos delegam os seus
poderes. Desta forma, por delegação espontânea de todos os Imolé ele se tornou
também o Elegbára, o Senhor do poder mágico; e como toda a criação é também
regida pelos Imolés todos os Seres viventes no Ayé, assim como são possuidores
do seu Olóri, seu Orixá ou seu Ebóra, senhor e a senhora do Orí (cabeça),
também tem que ter o seu Exu Bára, o Exu do corpo.
Muitas são as atividades de Exu, é ele o
responsável pela atividade sexual, atributo natural do corpo para que haja a
procriação humana, não só, mas também dos animais e dos vegetais. Como
mensageiro é o Senhor do carrego ritual; Lonãn o Senhor dos caminhos; Onã
Burukú aquele que tem o poder de abrir ou fechar os caminhos; Olobé o Senhor da
faca ritual, executor dos sacrifícios que também tem poderes sobre a vida e a
morte. O obé, a faca ritual juntamente com uma bolsa contendo objetos mágicos
são emblemas temidos e respeitados, somente seus Elexus podem manipular.
Exu sempre
se encontra do lado de fora das casas e nos caminhos, e na Orita metá,
encruzilhada de três caminhos é onde ele aceita suas oferendas; Exu é ainda o
principio restaurador do equilíbrio. Uma das saudações que devemos a ele é:
“Agbá Exu, Mo Juba! Igbá axé ô Exu”.
O primeiro a receber
oferenda
Exu foi
designado a levar uma mensagem a Olodumare, mas para tanto teria que fazer o
longo percurso que separa o Ayé do Orun; sua jornada era difícil, demorada e
cansativa, mas como era sua a tarefa a empreendeu. Depois de algum tempo no
caminho ficou cansado e fraco, sentou debaixo de uma árvore para descansar e
por lá ficou.
Um homem
que queria resolver um problema já estava impaciente por não conseguir
resolve-los, pois já tinha feito ebó, tomado banho de ervas, pedido a todos os
Orixás e nada, já estava descrente de tudo Foi quando se lembrou de não ter
feito as oferendas a Exu. Porém, tão logo as oferendas feitas seus problemas
foram resolvidos.
Exú que
estava dormindo sob a sombra da árvore, logo que recebeu suas oferendas acordou
e continuou sua tarefa, a de levar a mensagem daquele homem.
Características de Exu relacionado
aos Orixás.
Monã-Monã
cultuado no Lésse Égungun como um guerreiro acompanha Xangô e seu pegi fica em uma
cabana coberta de sapê aberta; Yangui, o Rei dos Exus; Agbô acompanha Omulú e
Obaluayé; Akesam acompanha Orúnmilá no jogo de búzios; Lolú, Jovem está sempre
ao lado de Oxossi e Logun Edé; Geri acompanha Oxun Epondá e Ewá; Tibirim
acompanha Oxaguian e Ossayn; Tiriri acompanha Ogun e Oxossi; Sigiri acompanha
Iroko e só aceita mão de homem em suas oferendas; Alakejo acompanha Nanã e Obá,
também é o causador de acidentes; Bará Kesam acompanha Oyá, Oxumarè e Oxalufan;
Ynã é o Exu do fogo e usa o vermelho, é evocado no inicio do ipadé (padê);
Ibará Ifá é o Exu mensageiro do jogo de búzios; Abemekwoa que também acompanha
Oxun; Elerú, aquele que carrega as oferendas.
Outra
saudação prestada a Exu é: Mo juba Exu...Laroyê...Exu Kobá. Seus sacerdotes são
os Lebasi, também conhecidos por Oluponã. No Candomblé a festa de Exu é
promovida em torno do Ipadé (padê), ao som dos atabaques com o ritmo do bravum.
Suas cores são o vermelho, o preto, o azul marinho e o cinzento, suas contas
são em preto e vermelho. Um dos símbolos principais de Exu é o Ogó de ferro com
sete vértices, os quais representam os sete caminhos dos Seres humanos; seus
metais são os ferrosos; Seu dia consagrado pelo calendário romano é a segunda
feira e, por uma analogia, feita no passado quando das conquistas européias do
continente africano, está associado ao diabo católico.
***
Contam ainda algumas lendas que na antiguidade, nos primórdios da
existência e após as grandes batalhas no universo astral e mitológico, surgiu
no continente africano um povo, os Ilú Ukulmi. Este povo foi extinto, porém,
deixou seu legado de crença em deuses que perduram até os dias atuais. Nas
lendas, contadas pelos velhos babalawôs, havia menção de 600 deuses primários
que, divididos em duas raças de deuses, tornaram-se os 400 Irun Malé – deuses
dos céus - e os 200 Igbá Imolé, os Ebora – deuses da Terra.
Dessas duas raças de deuses que, após alguns conflitos, se unificaram,
surgindo então duas outras classes de deuses que se tornariam secundários no
cenário universal religioso daquele povo. Surgiram então os Orixás da raça Irun
Malé e os Orixás da raça dos Igbá Imolé, os Ebora, sendo que os Irun Malé são
os deuses dos céus e os Igbá Imolé são os deuses da Terra. Destes deuses
surgiram mais duas classes, os Orixás Funfun do branco e os Orixás Dudu do
preto que se unem para formar uma terceira classe de deuses, a dos Orixás Pupa,
deuses do vermelho que são subdivididos entre os Omodê Okunrin, descendentes
masculinos e Omodê Obirim, descendentes femininos.
Após as disputas
mitológicas, guerras universais entre energias, cores e elementos, Ogún, um dos
deuses Omodê Okunrin foi designado pela energia suprema, Olodumare, para ser o
guardião dos 200 Igbá Imolé, e para ser o mensageiro entre as duas raças de
deuses foi então criada uma terceira raça de deuses primários, os Imolé Exu,
que são distinguidos pelos muitos nomes:
Imolé Exu Yangui, Imolé Exu Agbá, Imolé
Exu Igbá Ketá, Imolé Exu Okotô, Imolé Exu Odára, Imolé Exu Ojise, Imolé Exu
Elerú, Imolé Exu Enú Gbarijo, Imolé Exu Elegbara, Imolé Exu Lonan, Imolé Exu
Odusô e outros nomes como protetores de cidades, como Lalú, Akessan, Alakêtu, e
Baralakossô, como guardiões e servidores dos Orixás Omodê Okunrin e Obirin,
como Imolé Exu Gulutú, do Orixá Okô ou o Imolé Exu Xorokê, do Orixá Okê.
A denominação Xorokê, provavelmente deriva de Osô Arô Okê,
pois, Osô significa – aquele que detêm poderes mágicos, feiticeiro, portanto está
relacionado a feitiço, maldição; mas também pode ser usado para designar os
deuses esquecidos como Dsô, Osôgbô, Osô, deuses que possuíam uma relação com as
montanhas onde existiam vulcões, e que também estavam associados aos Voduns
pertencentes à família dos detentores dos raios e trovões, ou seja, Hevioso, da
cultura Jêje que é análogo a Xangô da cultura ioruba. Arô significa deus velho,
deus antigo e Okê montanha; com a junção dessas três palavras formam o vocábulo
Xorokê.
Ogun sendo um deus Omodê Okunrin e detentor dos metais e do
fogo está também relacionado com o Orixá Okê, pois juntamente com Exu Xorokê
seu guardião está ligado com as montanhas, ou seja, com os vulcões. Desta
forma, Ogún Xorokê apresenta-se também como um Orixá ligado com a ebulição
vulcânica e ao magma expelido, além de pertencer ao culto dos Osô, feiticeiros
seguidores de Okô. Por esta, e tantas outras razões, Ogun é o Orixá das
guerras, das armas e da forja; mas também pertence ao universo da caça, pois
pode ser considerado um Odé das montanhas, um caçador das montanhas. Ogun é
ainda o possuidor da riqueza, bem como o Orixá Meji Okê que é um deus da
prosperidade e da abundância.
Por estas considerações é que existe nos dizeres do povo de
santo ou, povo de candomblé que, Ogun Xorokê é metade Ogun e outra metade é Exu.
Ogun
Ogun é o Orixá guerreiro, o que vai a frente simbolizando com sua
espada a abertura dos caminhos para quem o segue, por isso recebe a denominação
de Assiwajú; suas cores são o verde e o azul escuro, o ferro é metal do seu
domínio do qual é patrono. É
representado por sete ferramentas de trabalho de ferreiro e, tão quanto
importante é sua espada, o akokó, uma coroa em forma de capacete o caracteriza.
Está associado aos primórdios da existência quanto ao seu progenitor e é por
vezes confundido com Exu; também está relacionado aos mistérios das árvores.
Descendente de Yemanjá e Oduduwa pode ter seus assentamentos plantados
aos pés de um Ogí Iyeyé, de um Odãn, de um Arobá Akokó ou ainda de um Ogí Opê,
árvores consagradas e sempre rodeadas por uma cerca de peregum. O Ogí Opê
simboliza a matéria individualizada dos Orixás Funfun, suas palhas simbolizam
descendentes e suas palmas recém- nascidas, denominadas mariwô, é a mais
importante representação de Ogun. Além dos não menos importantes, como sua
espada e seu Akokó, um capacete, o simboliza.
Ogun é
também um Orixá caçador pertencente às florestas, foi ele quem abriu os
caminhos e conduziu os humanos para o progresso. Contudo, através da odisséia
desenvolvida em torno de sua caminhada, as guerras travadas entre o bem e o mal
o fizeram um grande artesão nos domínios do ferro. Exímio ferreiro produziu as
armas que deram aos Seres humanos a possibilidade de sobrevivência e
desenvolvimento; não criou apenas armas, mas também instrumentos para o cultivo
de alimentos, suas armas não visam somente à destruição, mas por suas
conquistas que o tornou cognominado senhor da guerra.
Na Nação
Ewê Fon recebe a denominação de Gú e é tido como um Vodun, seu culto foi
introduzido no Benin no final do século XVII pelos artesãos ferreiros iorubas e
tornou-se muito popular. Seu culto, juntamente com tantos outros Voduns, passou
a ter seu próprio templo. Possui entre tantos outros seu emblema principal, o
gubassá, uma adaga metálica ornada com desenhos místicos que é utilizada nos
diversos rituais, dentre os quais, inclui o culto a Fá (Ifá) para abrir os
caminhos para o mundo espiritual. O gubassá é também conhecido e utilizado no
Vodu haitiano. Em segundo plano está o gudaglô, adaga menor que Gú utiliza para
defender seus filhos dos inimigos. Na iconografia Ewê Fon, o Vodun Gú é
representado por esses dois símbolos (adagas), o gubassá na mão direita e o
gudaglô na mão esquerda.
No mito nagô conta que num passado distante
Ogun reinou na cidade de Irê, expandiu seu território e chegou a ser regente de
Ifé. Ogun não permitia que seus filhos caíssem mesmo diante das mais difíceis
situações. Assim, como todos os Orixás, Ogun possui também suas características
e seus caminhos; Onilê, Alágdibe, Já, Ominí, Wari, Eroto n’Do e Akoró Onigbé
que estão entre os mais conhecidos.
Em uma
lenda de Ifá conta o porquê de o número sete estar relacionado à Ogun e o
número nove a Oyá.
***Oyá era companheira de Ogun antes de ser esposa de
Xangô e ajudava Ogun todos os dias no seu trabalho de ferreiro manejando o fole
para ativar o fogo da forja; um dia Ogun deu a Oyá uma vara de ferro,
semelhante a uma de sua propriedade e que tinha o poder de dividir em sete
partes os homens e em nove as mulheres que por ela fosse tocada do decorrer de
uma briga.
Xangô gostava
de sentar-se junto da forja para ver Ogun trabalhar o ferro, e freqüentemente
lançava olhares para Oyá que também o olhava. Aconteceu que um dia, como era de
se esperar, os dois fugiram. Ogun enraivecido lançou-se a procura dos dois, e encontrando-os,
brandiu sua vara mágica, Oyá fez o mesmo, e eles se tocaram ao mesmo tempo.
Assim, Ogun foi dividido em sete partes e Oyá em nove, Ogun recebeu o nome de
Ogun Mééji e Oyá tornou-se Yansã, dando origem a Oyá Mesan, a mãe transformada
em nove.
Várias são as estórias contadas sobre o Orixá
combatente.
***Uma delas narra que em certa ocasião nas terras de
Irê, Ogun, após muitos anos em combates longe de seu reino chegou a uma aldeia
e ninguém atendeu seus pedidos, ninguém respondia a suas perguntas. Furioso o
Orixá passou a destruir tudo que encontrava pela frente; no entanto, em dado
momento, um de seus filhos trouxe à sua presença suas oferendas prediletas e
explicou que, em sua honra e respeito, nenhum dos habitantes daquela aldeia
deveria falar naquele dia, pois era um dia consagrado ao grande Orixá. Ogun
lamentou pelo estrago causado, e com sua espada golpeou a terra desaparecendo
entre ruídos ensurdecedores. Seu
retorno dá-se no decorrer dos rituais e festividades quando evocado,
manifestando-se através de palavras e cantigas de magia, e todos bradam em sua
saudação. Ogun Iyê - Ogun Iyê, Pataki Orí Orixá.
Ogún
possui seu instrumento de culto o qual é denominado Adá, que são duas espadas,
tipo facões; suas contas têm cores azul e verde e, seu dia consagrado, em
alguns candomblés, é a terça feira; tem Santo Antônio no sincretismo religioso,
porém, em algumas regiões brasileiras e em algumas nações do Candomblé também
tem seu sincretismo com o catolicismo em São Jorge.
Oxossi.
Oxossi recebe a denominação de Orixá real; caçador por excelência é
também conhecido por Odé Wawá, o caçador dos céus e está diretamente ligado com
a terra virgem. Sua cor é o azul claro; seu símbolo é o arco e a flecha,
complementada pelo ogé, estrutura em forma de cone feito com chifre de touro
selvagem que representa fartura e prosperidade, e que ao mesmo tempo trata-se
de um instrumento, pois ao soprá-lo, torna-se um intercomunicador entre o Ayé e
o Orun. Outro emblema não menos importante que o caracteriza é o erúkeré, um
cetro feito com pelos do rabo de touro fixado com couro, tendo como complemento
contas e búzios; este emblema é um símbolo representativo de todos os
caçadores, pois na sua composição encontram-se elementos significativos
referentes ao passado e aos ancestrais dos animais abatidos nas caçadas. Senhor
das matas, Oxossi é o maior entre todos os caçadores, o provedor de alimentos.
Oxossi
também recebe o título de Alakêtu, um título oficial dos reis de Kêtu; sua
dança é o Ajerê, tendo suas considerações no Axexe. Em algumas lendas é
mencionado como sendo filho de Yemanjá com Oxalá e irmão mais novo de Ogun, e
não raro ser confundido com Dadá, Orixá não cultuado no Brasil e considerada a
deusa das florestas para os iorubas.
Assim,
como todos os Orixás, Oxossi possui uma vasta estória transcendental e
mitológica.
***Uma delas, conta que no reino de Ifé, em certa
ocasião eram feitos os preparativos para uma grande festa, Oduduwa o rei estava
feliz ao lado de seu povo. Tudo transcorria normalmente quando as Iyá Mi Ajé,
as donas dos grandes pássaros da noite, mandaram uma gigantesca ave agourar
aquele reino trazendo intranqüilidade para todo o povo. O grande pássaro assustador
pousou sobre o palácio, e a partir de então o desespero tomou conta da cidade.
Alguma providência teria que ser tomada. O rei mandou chamar Togun, o caçador
de vinte flechas, no entanto, este não conseguiu destruir o grande pássaro. O
rei então mandou chamar Osó Togi, o caçador de quarenta flechas, que também não
conseguiu destruir o pássaro do agouro. Novamente, e desta vez, encomendou os
serviços de Osó Todotá o caçador de cinqüenta flechas que também não conseguiu
destruir aquele grande pássaro. Desesperado apelou para seu filho Ossó
Tocanxoxô, o caçador de uma única flecha. No palácio, receosa em saber que seu
filho corria perigo, sua mãe recorreu então a um Babalawô que a aconselhou
fazer uma oferenda para que a morte se transformasse em riqueza. Feita a
oferenda, Ossó Tocanxoxô acertou o peito do grande pássaro derrubando-o. O
pássaro morreu e os habitantes do reino de Ifé comemoraram aos gritos; Ossó
Ussi! Ossó Ussi! Dizem que desta palavra derivou o nome do Orixá, que quer
dizer guardião do povo. Oxóssi tornou-se o guardião de todo o povo daquele
reino garantindo o alimento e a prosperidade.
Oxossi é
considerado rei e senhor da nação Kêtu e é um Orixá
reverenciado e cultuado em todos os Candomblés. Apesar de ser caçador e
propiciar os alimentos possui aversão à morte, pois é expressão da vida e da
continuidade. É o único Orixá que entra na floresta da morte, pois, antes de
fazê-lo, joga sobre si um pó avermelhado denominado orolé. Possui convivência com
Exu e sua força está situada no lado esquerdo. Olodé é o seu Exu.
Suas
características e/ou qualidades, são variados e abrangem um universo vasto de
formas, assim sendo, temos:
Ybualano
que possui suas características de um velho e sábio caçador. Conta um mito que
Ybualano é o mesmo Logun Edé que se apaixononou pela imagem refletida num lago
e atirou-se nas águas profundas em busca daquela paixão. Esta característica de
Oxossi usa um capacete e um saiote feito de palha da costa; sua cor é o azul
celeste; Inlé, que é filho de Oxaguian com Yemanjá, veste-se com roupas brancas
em respeito ao pai e na cabeça usa um chapéu com plumas brancas e azuis;
Dana-Dana é o possuidor do poder de entrar na floresta da morte, têm
fundamentos com Exu, Oxaguian, Oxumarè e Oyá, e não é temeroso aos Éeguns ou a
própria morte; Akuerena que possui seus fundamentos relacionados com Oxumarè e
Ossayn e é o dono da fartura, mora nas profundezas das matas e, além de usar o
azul claro, tem sobre suas vestes tiras vermelhas; Otin é possuidor de
características idênticas ao seu irmão Ogun, é um guerreiro que o acompanha nas
caçadas e combates, é valente e sempre pronto para atacar aqueles que o
provoca, suas cores são o azul claro e o vermelho, suas roupas, na áfrica eram feitas de pele de leopardo; Mutalambo,
possuidor de características pouco conhecida, possui fundamentos com Exu.
Gongobila e é um Oxossi jovial e tem fundamentos com Oxalá e Oxun; Orolé é o
propiciador da caça abundante, é evocado no padê de Exu e possui
características de um rei, têm fundamentos com Ogun e Oxun Odé Karé e, apesar
de ter ligações com as águas de Oxun, um tem aversão ao outro, isso porque
exercem as mesmas funções e sua morada é próxima a uma fonte ou a um riacho;
Odé Wáwá, dos Odé caçadores este é um dos quais têm sua origem nos primórdios
da existência, suas vestimentas são azul e branco, suas armas são o arco e a
flecha e têm fundamentos com Oxalá e Xangô, por esse motivo faz sua morada
debaixo de uma gameleira, no entanto, parece estar extinto e em seu lugar é
cultuado Ayrá ou Oxun Karé; Odé Walí, este é considerado rei na África e está
ligado ao culto da pantera, é reconhecido como muito severo e têm fundamentos
com Exu e Ogun; Odé Aseewá é o senhor das florestas e está ligado com as folhas
e conseqüentemente a Ossayn com quem convive, suas vestes são na tonalidade
azul claro e usa um capacete que recobre todo seu rosto.
***Em uma das lendas diz que Oxossi em uma de suas
caçadas teria sido enfeitiçado pelo seu irmão Ossayn que, apesar dos avisos de
sua mãe Yemanjá para que tomasse cuidado. Oxossi então se afastou da família
até que o encanto fosse quebrado, mas quando volta, encontra Yemanjá ainda
irritada pela atitude do filho em não tê-la ouvido. Oxossi então volta à
floresta sob a influência de Ossayn, pois é ele quem defende o acesso às
plantas dificultando a penetração nas matas àqueles que não têm preparo devido
para colhê-las.
***Em outra lenda, diz que Oxossi foi caçar sem antes
ter consultado Ifá, na mata encontrou uma cobra, Oxumarè, ela lhe diz que não
pode ser morta por ele, pois não se trata de um bicho de penas. O caçador pouco
se importa com o aviso e a mata com sua espada cortando-a em vários pedaços e
os leva para casa onde ele mesmo faria um cozido; depois de satisfeito foi
dormir. No dia seguinte, Oxun sua esposa, prevendo catástrofes por causa da
quebra de um tabu encontra Oxossi morto e um rastro de cobra em direção da
floresta. Oxun chorou muito, e seus altos lamentos chegaram até Ifá, que
condoído pela dor de Oxun, faz Odé, o caçador, renascer sob a forma divina de
Orixá.
***Numa outra lenda, diz que certo dia Oxossi chegou cansado
e arriado em sua aldeia pelo peso de sua capanga e com as cabaças vazias. Oxun,
sua esposa, olhou para ele e pensou, ...só caçou desgraça. A desgraça de Oxossi
tinha sido prevista anteriormente por Ifá quando Oxun foi consultá-lo; porém,
quando contou à Oxussi sobre essa previsão, ele disse que a desgraça e o medo
de um homem era a fome e a mulher sem leite para dar aos filhos. Quando Oxossi
se aproximou de Oxun, ela notou que ele tinha trazido algo na capanga, sentiu
medo e alegria ao mesmo tempo; havia caça na capanga e ela imaginou se seria um
bicho de penas ou de pele e perguntou a Oxossi que respondeu: ...trago carne
que rasteja na terra e nas águas, um bicho que se enroscava nos galhos. Falando
isso, retirou da capanga uma grande Dan (cobra). O bicho revolvia seu corpo e
agitava a língua e os olhos, e emitindo uma triste cantiga dizia: ...Não sou
bicho de penas nem de pele para Oxossi matar.
A grande
cobra pertencia a Xangô e Oxossi não poderia matá-la. Oxun fugiu temendo uma
vingança por parte de Xangô indo até Ifá para consultá-lo, e Ifá respondeu que
a justiça seria feita. O corpo de Oxossi desaparecerá assim como também
desaparecerá da memória de Oxumarè, e a “kijila” também desaparecerá da
vingança de Xangô. Fazia também parte da punição que Oxossi saísse da memória
do povo de Kêtu. Assim, Oxossi ficou durante sete anos no esquecimento.
Nos ritos
de candomblé, dia de Orunkó, dia de dar nome de Santo de cada um, ao ser dado a
digina o povo começou a chorar por não se lembrar mais do nome do rei e, com
suas cabeças baixas tentaram compreender o porquê nunca se lembravam dele.
Então, Ifá ensinou-lhes um Orô, reza que se faz para o sacrifício de animais.
“Omo Odé Lalai, Omo Odé Kosajó, Abaderokó Koisô, Omo Odé Kosajô..... E assim,
após o Orô, o povo começou a se lembrar do rei, e Ifá disse que esse era o Orô
de Oxossi, Orixá caçador e rei de Kêtu.
Na África,
Oxossi era considerado como a principal divindade de Ylobu onde recebia a
denominação de Irinlé, o caçador de elefantes. Seu culto nasceu do odú Okaran
Ogbé, odú que está centrado no rio do mesmo nome, um dos rios que deságua no rio
Oxun. Para muitos, no entanto, é considerado como filho mítico de Yemanjá e Olókun;
suas lendas são extensas e seus feitos maiores ainda. Existe ainda na África
uma sociedade denominada Egbé Odé onde são cultuados Ogun, Erinlé, Okó, Idana,
Wawá e outros; nessa mesma sociedade ainda são cultuadas Oké e Otin, divindades
femininas, as quais, muitas delas passaram a ser denominadas como qualidades
com aspectos femininos nos Candomblés aqui no Brasil.
Oxossi por
ser um Orixá caçador seu instrumento de culto é o Ofá, o arco e a flecha, mas
também tem sua lança e outros objetos para caça; suas cores são o azul turquesa
e o verde e seu dia consagrado é a quinta feira, tendo no sincretismo religioso
São Sebastião e, quando seu brado ecoa pelas matas só nos resta saudá-lo... Okê
Arô, Okê Odé Rooré Mawô.
Ossayn ou Ossanhe.
Ossayn é o patrono das folhas com as quais são feitos preparados
específicos para os rituais de curas de doenças materiais e espirituais ou
outros fins. O poder mágico das folhas realiza a transferência do axé que nelas
está contida. Nascidas de toda a vegetação as folhas constituem emanações dos
poderes da Terra, no sangue das folhas está o axé e, a cor verde representa
este Orixá; o ferro é o metal símbolo do qual é representado através de uma
árvore com sete ramos, e uma ave o complementa.
Fertilizada pelas águas das chuvas toda a vegetação transfere seu poder,
o axé, através dos Ofó, palavras que despertam tais poderes quando da
elaboração de rituais específicos. Ossayn é o Orixá indispensável em qualquer
consagração, pois é através dele que são feitos os preparados de banhos que vão
purificar o corpo e o espírito dos iniciados na religião. Também é nas folhas
que estão os segredos para as curas e doenças materiais. As matas é a morada de
Ossayn que, na sua liturgia, as plantas guardam seus segredos e sem elas
nenhuma cerimônia pode ser realizada.
Originário
da antiga região de Iraô na Nigéria e assimilado pelos nagôs, foi muito
cultuado por muitas tribos de etnia banta; segundo os sobás, (sacerdotes na
áfrica - os Alá Wowô), regeu os destinos religiosos de uma boa parte do
continente, principalmente o Congo.
A historia
registra que num passado distante o culto à Ossayn possuía até mesmo sacrifícios
humanos, e foi numa guerra santa, promovida e liderada por Hunom Gaboel, um Alá
Wowô de etnia banta, que humanizou este culto proibindo tais sacrifícios,
afirmando de então, somente o uso de plantas e animais em sacrifício.
Alguns
estudiosos afirmam que Ossayn, na mitologia africana, é filho da interação –
Yemanjá/Oxalá - outros, no entanto, descrevem que o Orixá das folhas é filho de
Nãnã, tendo como irmãos Oxumarè, Ewá e Obaluayé. Interagindo com as florestas
pode também ser considerado um Odé, mas não como caçador de animais e sim um
caçador de folhas.
Ossayn
mantém seus segredos só revelados nos rituais restritos e secretos. Seu
instrumento é um Opá, cetro em forma de uma haste de ferro tendo em sua
extremidade superior a figura de um pássaro chamado Oguê.
***Conta uma lenda, que nos primórdios houve uma
rivalidade entre Ossayn e Orunmilá, refletida nas disputas ocorridas entre os
Onixeguns, conhecedores da medicina natural e os babalawô, sacerdotes dos
antigos templos. A estória se desenrolou quando Ossayn era escravo de Orunmilá.
Conta que o Orixá, certo dia se recusou em fornecer as folhas para que fosse
utilizado na cura de doenças que afligiam as pessoas, Orunmilá intrigado pela
negativa de Ossayn, quis saber que ervas eram. Convencido dos poderes do Orixá
das folhas, Orunmilá, a partir de então, colocou-o ao seu lado.
***Outra lenda registra que Ossayn, o filho mais novo
de Yemanjá com Oxalá, por ser um grande conhecedor das folhas, viajava pelo
mundo tratando das doenças que assolavam os humanos. Em todos os reinos que
chegava era bem recebido pelos chefes de todas as tribos. Os outros Orixás o
invejavam, pois não possuíam tais conhecimentos e dependiam de Ossayn para
terem sucesso. Ossayn cobrava sempre pelos serviços e recebia oferendas de mel,
fumo e bebida destilada como pagamento.
Xangô que
era temperamental e não admitia ficar na dependência dos serviços de Ossayn,
pediu a Yansã sua esposa que dominava os ventos, para que fizesse voar todas as
folhas das matas em direção a todos os Orixás, para que cada um pudesse ter a
sua folha e pudesse exercer o domínio sobre uma delas, assim, cada Orixá teria
sua folha. Em meio a ventania Ossayn repetia...Ewê Ewê Assa...as folhas, as
folhas! No entanto, apesar de cada um dos Orixás ter pegado cada um a sua folha,
Ossayn evitou com sua magia que seu poder fosse distribuído entre eles.
***Numa outra versão, conta que desde criança Ossayn
gostava de ficar sozinho mais nas matas do que na companhia da família ou de
outras crianças. Muito cedo ele saiu de casa e foi morar na floresta onde aprendeu
a fazer uso das plantas descobrindo seus poderes mágicos medicinais. Depois de
algum tempo, quando alguém precisava de um remédio ou magia recorria a ele.
Ossayn guardava seus segredos numa cabaça e não os revelava a ninguém. Os
outros Orixás estavam aborrecidos e enciumados por dependerem dele todas as
vezes que precisavam das folhas. Decidiram então fazer alguma coisa, e Yansã se
dispôs a resolver o problema. Foi ao encontro de Ossayn e fez soprar uma forte
ventania, fazendo com que as folhas voassem em direção aos outros Orixás, dando
assim a oportunidade de cada um deles pegar algumas. Ossayn percebendo o que
estava ocorrendo, gritava: Ewê Assa! Ewê Assa! As folhas! As folhas! E assim,
cada um dos Orixás pegou suas folhas. No entanto, Ossayn tinha guardado consigo
na cabaça, os segredos e de nada adiantaria os Orixás terem pegado as folhas.
Ossayn
então ordenou que as folhas retornassem às matas, porém, algumas já estavam em
poder dos Orixás, estas perderam o axé, a força, mas, por entender que cada um
dos Orixás deveria possuir a sua, Ossayn, com sua generosidade, distribuiu a
cada um deles um pouco do seu axé e seu ofó, as cantigas de encantamento quando
do uso das folhas.
Ossayn
distribuiu as folhas aos Orixás para que eles não mais o invejassem, passando daí
em diante, também poderiam realizar proezas com suas folhas, porém, o segredo
mais profundo Ossayn conservou guardado na cabaça para si.
Os Orixás
ficaram gratos a Ossayn, que sempre o reverenciam quando utilizam suas folhas.
***Numa outra lenda, conta que um dia Ossayn resolveu
partir pelo mundo e pelos lugares que passava era saudado como o grande médico
e grande curandeiro.
Passando
por um reino onde o rei estava doente foi vê-lo e o curou com os poderes das
folhas e como recompensa o rei deu-lhe muita riqueza, mas, Ossayn não aceitou
dizendo que somente aceitaria seus honorários, os mesmos que seriam pagos a
qualquer médico ou curandeiro.
Tempos
depois a mãe de Ossayn adoeceu. Sendo procurado por seus irmãos que, para
espanto destes, Ossayn exigia o pagamento de sete cauris, búzios, por seus
serviços, pois não poderia trabalhar para quem quer que fosse de graça; mesmo
contrariados os irmãos o pagaram e sua mãe foi salva.
*** Outro episodio é contado numa das lendas que
Ossayn era escravo e foi vendido a Orunmilá. Um dia, ele foi à floresta e lá
encontrou Arony que conhecia tudo sobre as plantas. Arony era um Ser de uma
perna só, ficaram amigos, e Arony então ensinou tudo que sabia à Ossayn.
Mais
tarde, Orunmilá desejoso de fazer uma plantação, ordenou a Ossayn que roçasse o
mato para a semeadura. Diante de uma planta Ossayn exclamava: esta não pode ser
cortada, ela é para curar dores! Diante de outra exclamava: esta não, também
não pode ser cortada, é a planta que cura as hemorragias! ... e assim foi que,
quase todas as plantas existentes tornaram-se úteis para os remédio e magias.
Ossayn ajudava assim Orunmilá a dar os nomes e a receitar as folhas como
remédio, ficando conhecido como o médico que é.
***Quando Ossayn nasceu seus pais o deixou nu, por
isso ele cresceu cheio de ressentimentos; vivia a maior parte do tempo nas
matas aprendendo com Arony os segredos das folhas. Um dia jogou um feitiço
sobre seu pai que ficou doente e não conseguia respirar; depois jogou um
feitiço sobre sua mãe que ficou também doente com dores na barriga, e só
ficaram curados quando deram a Ossayn um pano listrado.
Mais
tarde, quando Ossayn teve um filho ficou com receios de que ele o tratasse como
tinha tratado seus pais, então o matou, e de seu corpo fez um pó mágico que
curou muita gente, inclusive o rei, que em recompensa, o cobriu de honrarias.
***Havia um rei que tinha três filhas, e quando elas
chegaram a idade de casar o rei disse que a mais velha se casaria com quem adivinhasse
o nome das três princesas. Muitos pretendentes apareceram, mas todos fracassaram,
até que um dia chegou naquela cidade Ossayn, que se apaixonou pela bela
princesa e se apresentou como pretendente. O rei lhe deu um prazo de três dias
para descobrir o nome das princesas. Passeando perto do palácio, Ossayn
descobriu uma arvore onde as princesas passavam. Era um pé de Obí, e quando
elas apareceram Ossayn subiu na árvore e lhes deu um fruto dizendo a elas que
ele era o deus da árvore, em troca elas disseram seus nomes.
No dia
marcado foi na presença do rei e disse-lhe o nome das princesas, casando-se
assim com a princesa prometida. Só então revelou seu verdadeiro segredo,
dizendo que era o Orixá das folhas.
Suas contas têm as cores verde e branca, o dia
consagrado é quinta feira, sua saudação
é “Ewê o Ewê Assa”.
No
sincretismo católico é representado por São Benedito e Santo Expedito.
Obaluayé
(Omulú)
Denominado rei de todos os espíritos, Obaluayé também é denominado
Omulú ou Xapanã e, quando manifestado é coberto por uma roupagem, o aso-Ikó e o
filá, um trançado de fibras de nervura de palmeira que é colocado em sua cabeça
e que cai sob todo seu corpo. Obaluayé está relacionado com a Terra, com os
troncos e ramos das árvores, são os transportadores do seu axé. O vermelho, o
preto e o branco são suas cores sempre dispostas e alternadas em seus brajás,
colares que fazem parte de sua indumentária. Está relacionado também com as
doenças endêmicas e o calor pelo aspecto do vermelho, e seu símbolo é o sasará,
uma espécie de vassoura com a qual varre e afasta todos os males através de uma
magia que guarda os mistérios da vida e da morte. Em alguns mitos é tido como
filho mítico de Nãnã Burukú.
***Em um desses mitos, consta que quando Omulú nasceu
seu corpo estava todo coberto por feridas, vitimado pela varíola; sua mãe,
horrorizada com o aspecto do filho, abandonou-o nas areias de uma praia para
que as ondas o levasse. No entanto, diante do choro de Omulú, veio em seu
socorro Yemanjá, a deusa dos mares. Abrigando-o numa palhoça abandonada,
acomodou-o e protegeu-o com folhas de bananeira; Yemanjá sempre que saia do seu
reino ia vê-lo, amamentava-o e banhava-o nas águas do mar.
Numa das
vezes que Yemanjá foi vê-lo encontrou-o rodeado de serpentes e, como por
encanto estava curado das feridas. Curado e com poderes por ter dominado as
serpentes, Omulú cresceu e tornou-se belo e formoso apesar das cicatrizes
deixadas pela varíola; tornou-se um peregrino no mundo, e em suas caminhadas
tinha sempre a companhia de dois cães, seus pertences eram somente um bastão,
um bornal e uma cabaça, porém, seu aspecto devido a cicatrizes, fazia com que
todos se afastassem dele. Desiludido embrenhou-se nas matas onde conheceu
Ossayn, Orixá das folhas, amizade da qual adquiriu todos os conhecimentos na
utilização das plantas para as doenças; tornou-se o médico da floresta e a ele
todos os doentes recorriam para obter uma cura; no entanto, ao atender as
pessoas fazia-o com uma vestimenta de palha sob todo o corpo, pois, além de
guardar seu corpo guarda também mistérios e magias.
*** Outra lenda consta que, de tempos em tempos os
Orixás se reuniam para uma festa, todos dançavam menos Omulú que ficava espreitando pela porta
muito envergonhado de sua aparência. Ogun percebeu o que acontecia; penalizado
resolveu ajudá-lo trançando uma roupa feita com mariwô, fibra de palmeira que
recobriu todo o corpo de Omulú. Com tal traje, Omulú passou a participar da
festa despertando a curiosidade de todos que queriam saber quem era o Orixá
misterioso que estava por debaixo daquela vestimenta. Foi quando Oyá (Yansã), a
mais curiosa se aproximou, e naquele momento formou-se um turbilhão, o vento
levantou a palha revelando o mistério, um bonito rosto jovial; desde então, os
dois Orixás vivem juntos e passaram a reinar sobre os mortos.
***Omulú era muito mulherengo e não obedecia nenhum
mandamento; um dia, Òrúnmilá o advertiu que se abatinasse do sexo, o que ele
não cumpriu, pois naquele mesmo dia possuiu uma de suas mulheres. Na manhã
seguinte despertou com o corpo todo coberto de chagas; suas mulheres pediram
para Orúnmilá que intercedesse junto a Olodumare, mas este não perdoou, e Omulú
morreu.
Orúnmilá,
usando o mel de Oxún, despejou-o por sobre todo o palácio de Olodumare, este,
deliciado, perguntou a Orúnmilá quem havia despejado em sua casa tal iguaria; Orúnmilá
respondeu que tinha sido uma mulher. Todas as divindades femininas foram
chamadas ao palácio de Olodumare, mas faltava Oxún que ao chegar confirmou que
era seu àquele mel. Olodumare pediu mais, porém, Oxún lhe fez uma proposta,
daria todo o mel que quisesse desde que ressuscitasse Omulú. Olodumare aceitou
e Omulú reviveu.
Sua
saudação é: Atotoó Omulú AlukóAji, seu instrumento de culto é o xaxará e suas
contas são na tonalidade terracota-rajada de preto e branco e seu dia
consagrado é a segunda feira, tendo no sincretismo cartólico São Lázaro.
Oxumarè.
É considerado como um Orixá andrógeno, isto é, têm sua regência
dividida entre dois extremos, o Céu e a Terra. Sua função principal é a de
transformação dirigindo as forças que produzem movimento e ação nos Seres e na
natureza. Na cultura ioruba tem sua representação no arco-íris. No Daomé,
conforme a mitologia e os fundamentos religiosos registram que possui como
símbolo uma cobra mordendo o próprio rabo numa simbologia do movimento circular
contínuo, representando o símbolo dos Oroborós, uma Nação da África Ocidental.
A cobra e o arco íris, como símbolos, têm como representação a dualidade de
Oxumarè que, durante um tempo quando na fase do arco íris, tem como incumbência
levar as águas das cachoeiras para o Orun, reino de Oxalá, porém, em outros
tempos, assume forma feminina. Nessa fase transforma-se numa cobra que, vez por
outra, toma a forma da deusa chamada Bessen, uma bela divindade. Oxumarè está
associado tanto a Terra quanto ao Firmamento, e seu axé, após atingir as
alturas pelas múltiplas cores de um arco colorido, retorna a Terra; tais cores
são também representativas na sua roupagem e em seu brajá. Possui ainda duas
serpentes confeccionadas em ferro que o representa e, por ser este o seu metal,
está relacionado com os conteúdos da Terra.
Seu
símbolo mais representativo é o arco íris que, elevando-se da Terra atinge as
alturas e volta transportando em seu corpo as combinações do seu axé. Filho
mítico de Olojá Orurú é cultuado juntamente com Nãnã Burukú e Obaluayé (Omulú)
seu irmão. Está relacionado com o transcorrer da existência com o movimento
incessante dos corpos celestes e o destino dos Seres. Filho de Nãnã com Oxalá,
na interação, aparece sempre depois de uma tempestade para lembrar o renascimento
da harmonia e da paz. Também é simbolizado durante uma dança em sua homenagem,
é quando os participantes, em dado momento, apontam para cima e para baixo
alternadamente indicando os poderes da Terra e dos Céus.
No seu aspecto mítico, Oxumarè era um Babalawô, o
adivinho do rei Òní.
***Conta uma lenda que a sua única ocupação era ir ao
palácio real no dia do segredo para atender ao rei, porém, o rei Òní não era
muito generoso, dando-lhe apenas algumas quantias ínfimas, pois Oxumarè vivia
na pobreza com sua família.
O pai de
Oxumarè também era pobre e não tinha poderes, mas era conhecido como o
proprietário das vestimentas de cores brilhantes. Oxumarè estava muito triste
pela situação que se encontravam todos da família. Um dia foi consultar Ifá e
perguntou como poderia se tornar rico e respeitado por todos. Ifá o aconselhou
a fazer oferendas nas quais deveriam constar uma faca de bronze, quatro pombos
e um saco com búzios; assim foi feito, e no momento que Oxumarè consumava as
oferendas o rei mandou chamá-lo, mas, Oxumarè mandou dizer ao rei que só ia
após ter terminado aquela cerimônia de oferenda que estava fazendo. O rei ficou
irritado com a resposta, achou aquilo uma afronta, uma humilhação e resolveu
então negligenciar a remessa dos pagamentos que fazia a Oxumarè. Na volta para
casa, após ter feito as oferendas, recebeu um recado de Òlókan, a rainha de um
país vizinho que dizia querer consultá-lo a respeito de seu filho que se encontrava
doente, ele não se mantinha de pé, caia e se rolava pelo chão.
Oxumarè
foi à corte da rainha Òlókan, e lá chegando consultou Ifá que, após ter aconselhado
a fazer oferendas e que, após tê-las realizado, o filho da rainha ficou curado.
Òlókan encantou-se pelo acontecido e como recompensa deu para Oxumarè uma roupa
azul, muitas relíquias, escravos e um belo cavalo no qual montou e retornou à
sua casa. Ao chegar um escravo rodopiava um guarda sol sobre sua cabeça e
músicos entoavam cânticos em seu louvor.
Oxumarè
foi saudar o rei Òní que ficou surpreso e perguntou de onde Oxumarè tinha vindo
e como tinha adquirido toda àquela riqueza. Oxumarè contou-lhe então tudo que
aconteceu. O rei Òní, estimulado pela rivalidade que tinha com a rainha Òlókan,
resolveu dar a Oxumarè uma roupa vermelha feita do melhor tecido existente em
seu reino e muitos outros presentes. Oxumarè tornou-se rico e respeitado por
todos.
***Relacionado ao aspecto divino, conta uma lenda que
Oxumarè não era amigo da chuva, quando chovia, reunia as nuvens e agitava sua
faca de bronze apontando para o Céu como estivesse riscando de um a outro lado;
o arco íris aparecia e a chuva fugia. Olodumare, sempre que convinha estendia
uma esteira real e caminhava sob a chuva. Certo dia Olodumare começou a sofrer
da visão e passou a não enxergar mais, mandou então chamar Oxumarè que, logo ao
chegar à presença de Olodumare o curou. Depois disso, Olodumare não mais deixou
que Oxumarè retornasse a Terra; daí em diante passou a morar no Orun –Céu- e só
pode vir à Terra de três em três anos. Dizem que é durante esses anos que as
pessoas tornam-se ricas e prósperas.
A saudação
à Oxumarè é... Arobô Bo Yí, seu instrumento de culto é uma lança envolvida por
uma serpente. Seu dia consagrado é a terça feira e suas contas são nas cores
verde e amarela ou amarela e preta. É um Orixá que não possui sincretismo
conhecido.
Xangô.
Xangô é o Orixá mais cultuado nos
Candomblés, isso porque foi o primeiro Orixá a atravessar o oceano trazido
pelos povos oriundos daquele continente, ele é considerado o principal tronco
dos Candomblés no Brasil.
Sua
historia é contada através dos tempos numa narrativa rica em acontecimentos,
possui dualidade, uma mítica e outra real, isso, por ter sido quarto aláafin de
Oyó. Filho de Oranian e Torosi, esta, filha de Elempê, rei do povo Tapa que
havia firmado uma aliança com Oranian. No seu aspecto mítico têm como mãe
Yemanjá, e como esposas, Oyá, Oxún e Obá.
Conta a
historia que num passado muito distante, o território ioruba era formado por
cinco grandes regiões, Oyó, Egbwa, Ibampa, Ijebú e Igexá.
A epopéia
dos heróis iorubanos teve inicio com os filhos de Okambi, que dentre seus sete
filhos estava Oranian, o fundador da cultura. Independente de ter tentado
continuar a missão de seu avô Oduduwa em sua guerra santa contra os descendentes
de Ismael, transformou-se no maior personagem histórico desta cultura.
Oduwa
foi um guerreiro que veio de terras ao leste e invadiu com seu exército a
capital do povo de Ifé, esta cidade mais tarde veio chamar-se Ilê Ifé. Como governante
da grande cidade, Oduwa unificou as mais importantes cidades daquela região que
mais tarde viria a ser conhecida como território ioruba.
Quando
Oduwa morreu os príncipes fizeram a partilha entre si dos bens deixados, e
coube a Okambi a tarefa de ficar como regente até a sua morte, no entanto,
nunca lhe foi atribuído o titulo de Alaàfin. Com a morte de Okambi foi feito
rei Oranian, o mais jovem dos príncipes, pois este tinha ficado rico e
poderoso. Ilé Ifé então tinha se tornado na capital da vasta região conhecida
como Oyó. Okambi deixou sete filhos.
Na
cronologia, Okambi foi o primeiro Alaàfin de Oyó, cidade que se tornara um
grande império, isto em 1700 AC, depois veio Oranian, a seguir veio Ajaká e
depois Bêri, tornando-se o quarto Alaàfin, isso por volta do ano 1400 aC. Oyó
era então a capital do reino do povo iorubano, que na antiguidade era simplesmente
um acampamento dos nagôs para doma de búfalos selvagens. A cidade governada
pelo rei Abidoun prosperou rapidamente. Com sua morte, sucedeu-o Awolé, que
mais tarde abdicou em favor de Arogangan; foi então que surgiu Bêri, que mais
tarde viria a chamar-se Xangô.
Da
linhagem de Okambi também descendeu Iyátorossi, a Iyábálupe, conhecida como
senhora Torossi, rainha de Lupe que viveu por volta do ano 1460 AC. Moremi, a
princesa sacerdotisa, foi fundadora do matriarcado e criadora da sociedade
secreta dos homens leopardos denominada Ekun Walê e que também instituiu a
cultura Jêje. Alamí, a princesa real foi fundadora do reino de Kêtu e reinou
soberanamente até passar o poder a seu filho Alakêtu. Também de Okambi
originaram-se Aganjú, Kori, Abiedun e outros reis de pequenos Estados, que após
suas mortes foram divinizados ou tornaram-se heróis demiurgos locais.
Ajaká,
que também era conhecido por Dadá Ajaká, estava sendo um rei não muito austero,
Xangô que era rei de Kossô, cidade tributária de Oyó o destronou e o exilou
colocando-o como rei de Igboho, cidade onde somente ostentava uma pequena coroa
de búzios denominada baiami. Xangô passou a ser o quarto Alaàfin de Oyó e seu
reinado durou sete anos. Após este período, Dadá Ajaká volta a reconquistar seu
império e, desta feita, voltou-se contra todos os parentes da família materna
de Xangô guerreando contra o povo Tapa.
Xangô volta
a ser o Obá Kossô e, em certa ocasião, ele estava no alto de uma montanha
testando seus poderes. Em altos brados evocava pelos raios e desafiava suas
forças poderosas. Sua voz era o próprio trovão provocando um barulho
ensurdecedor. Ninguém conseguia entender o que Xangô pretendia com aquela
atitude ficando ali por longo tempo e impaciente por não obter resposta. De
repente o céu se iluminou e os raios começaram a aparecer. Na aldeia próxima as
pessoas que observavam, ficaram impressionados com a beleza daquele fenômeno,
mas ao mesmo tempo apavorados também, pois, nunca tinham visto nada parecido.
Xangô, orgulhoso de seu extremo poder ficou
estarrecido com o acontecimento e não parava de proferir palavras de ordem
querendo que àquele espetáculo continuasse, pois era algo realmente
impressionante.
Foi então que do alto de sua vaidade viu a situação
fugir do seu controle, tentou voltar atrás implorando aos céus que os raios que
se lançavam sob a Terra como poderosas lanças fumegantes desaparecessem. No entanto,
era impossível, a natureza havia sido desafiada desencadeando forças
incontroláveis. Xangô então correu para seu palácio encontrando-o todo
destruído e viu o erro que cometera; a destruição era total, e para piorar,
todos os seus descendentes haviam sido mortos.
Na
cidade, os sobreviventes da catástrofe, mesmo cambaleantes e ainda assustados
ao ver que seu rei estava muito perturbado, tentaram encorajá-lo com a promessa
de que tudo seria reconstruído e tudo voltaria ao normal. Porém, não suportando
em ver tudo aquilo, Xangô, sem dar atenção a ninguém foi embora da cidade
destruída deixando seu povo a mercê da sorte; retirou-se para um lugar afastado
para acabar com a sua vida; tempos depois foi encontrado enforcado em um dos
galhos de um pé de Obí.
Na
historia do grande rei seus ministros providenciaram os funerais e a vida
continuou com a entronização do quinto Alaàfin. Xangô foi posteriormente
divinizado como o deus do trovão e da justiça. Porém, na estória que transcende
os limites da crença, uma lenda é contada que, quando Oyá soube da morte de
Xangô, que era seu marido, chorou tanto que suas lágrimas formaram o rio Niger.
Ela, que tinha conhecimentos e poderes no reino dos Èeguns, foi até lá para trazer
seu companheiro de volta; quando o trouxe, Xangô, agora veio envolto em um
manto branco com o rosto encoberto por uma mascara de madeira, pois não podia
ser reconhecido por Ikú, o senhor da morte.
...E foi assim que surgiu uma das características mais
conhecidas de Xangô a qual chamamos de Ayrá, e essa variação da essência de
Xangô, adotou além do vermelho a cor branca.
***
Xangô
cresceu no país de sua mãe e depois de adulto instalou-se em Kossô, onde seus
habitantes não o aceitaram devido seu caráter violento; com o tempo, impondo
sua força, conseguiu conquistar a todos. Mais tarde, foi para Oyó onde se
estabeleceu e recebeu o nome de Kossô, conservando assim seu titulo adquirido
anteriormente de Òbá Kossô.
Após ter
sido divinizado como o deus do trovão e da justiça, Xangô permanece filho de
Oranian, mas desta feita, tem Yemanjá como sua mãe mítica e como elemento
simbólico o fogo, pois, quando enfurecido lança sob a terra seus edún ará, machados
de pedra com duas faces, que através dos raios tornam-se seu símbolo. Por esse
motivo, a morte acontecida pelo raio é considerada infamante, e da mesma forma,
uma morada atingida por um raio é marcada pela cólera de Xangô. Em épocas
antigas o proprietário havia de pagar altos tributos aos sacerdotes de Xangô,
pois estes, sempre iam aos lugares atingidos procurar nos escombros os edún
ará, as pedras de raio.
Consideradas emanações de Xangô, esses edún ará quando encontrados eram
depositados num pilão, o odó, que era consagrado ao Orixá; este elemento contém
o seu axé e sua força que, complementados nos rituais de sacrifício pelo sangue
dos animais ofertados, em parte, eram derramados sobre as pedras, isso, para
dar a manutenção da força e do poder de Xangô.
Outro símbolo
que representa Xangô é o xére, objeto ritual com poderes místicos, é um
chocalho feito de cobre e que o acompanha nas danças rituais quando
manifestado. No passado, este instrumento era feito de uma cabaça alongada
contendo em seu interior pequenos grãos, que sacudidos, imita o ruído da chuva;
em algumas ocasiões é utilizado um labá, bolsa de couro ornamentada onde,
simbolicamente, guarda seus edún ará.
Suas
danças são acompanhadas, ocasionalmente, por um tambor chamado Batá, este tambor
tem a forma de uma ampulheta encourado nos dois lados com tamanhos diferentes
que são pendurados ao pescoço do tocador por uma tira de couro, e seus
tocadores, os olubatás, batem com uma tira de couro em um dos lados.
Uma das
danças rituais feitas por Xangô, o Orixá brande seu xére e, assim que há uma
aceleração no ritmo, ele faz um gesto de quem vai pegar no labá (a bolsa), os
edún ará, as pedras de raio e lançá-las sobre a Terra.
Em algumas
casas de Candomblé, no nordeste do Brasil, batá também é uma designação para
determinados cultos de origem africana.
Em uma
cerimônia denominada ajeré, alguns de seus sacerdotes levam sob a cabeça jarras
com furos, os oxé, dos quais saem fachos de fogo. Em outra cerimônia, chamada
akará, Xangô engole mechas de algodão embebidas no óleo de dendê em combustão,
é uma referência ao fato de que o Orixá tem o poder de lançar fogo pela boca
graças a um talismã dado por Oyá em território Bamba na África.
Xangô é o
irmão carnal mais novo de Dadá Ajaká, porém, no mito passa a ser o irmão mais
jovem de Omulú (Obaluayé), entretanto, não são os vínculos de parentesco que
permitem explicar a ligação entre ambos, mas suas origens comuns em Tapa, lugar
onde Obaluayé teria sido mais antigo e, por deferência para com o mais velho.
Em outras cidades, como Seketê e Ifanhim são sempre feitas oferendas a Obaluayé
na véspera de alguma celebração em honras a Xangô.
A
madeira e o cobre são utilizados na confecção de objetos que o representa, e
seu axé encontra-se nos elementos de cor avermelhada.
No
universo transcendental teve três esposas, Oxún, Oyá e Obá que, em torno delas,
muitas lendas são relatadas. Obadaw, Iséyin, Iwó, Kêtu, Abeokutá, foram alguns dos
lugares onde o culto de Xangô foi muito desenvolvido.
Òní Xangô é o nome que seus filhos
iniciados recebem, ou seja, os odosú Xangô, independentemente do sexo e, para
todos os filhos de Xangô existe o primeiro nome, Magbá, uma identificação
hierárquica perante os membros do candomblé.
Xangô é o
bravo guerreiro, o conquistador, mas também é reconhecido pela sua vaidade
entre as divindades masculinas africanas. Monarca por natureza é chamado pelo
termo de Òbá, que significa rei. Reinou em Oyó na Nigéria, antiga capital
política daquele país, o que vem confirmar que é o único Orixá que teve vida
terrena.
É o
regente da ideologia, da decisão, da vontade e da iniciativa, da rigidez e a
vontade de vencer. Por ser uma realeza conserva a atitude monárquica e o
espírito nobre nas pessoas; no entanto, apesar de ser um guerreiro e munido de
justiça tem aversão a doenças, a morte e aos Éeguns, espíritos desencarnados, e
por esse motivo, costuma entregar seus filhos à Obaluayé sete meses antes da
morte destes.
Os filhos
de Xangô, aqueles que passaram pelos preceitos religiosos em dias festivos ao
Orixá, costumam prender os cabelos no alto enfeitando-o com búzios e usam
roupas brancas para atrair boas energias.
Assim como
todos os Orixás, Xangô possui suas características, diferenciando-o nas suas
diversas manifestações, Oranian, como seu pai, é uma das características de se
manifestar, não possui culto nos candomblés brasileiro; Ajaosi, que se
manifesta como um velho, também não possui culto identificado; Aganjú é a
manifestação do Orixá mais associado a Exu, Ogún e Yemanjá; Ajacotá, que está
associado com as chuvas fortes; Badé, que está associado ao trovão e ao fogo, a
este somente os filhos homens podem ser iniciados, assim mesmo os acima dos
quarenta e cinco anos de idade, é quando vão se encerrar as atividades de um egbé;
Sogbo é um Xangô cuja manifestação está associada aos trovões, pertencente à
nação Jêje; Hevioso que também pertence à nação Jêje, significa àquele que
vomita fogo; Obálube é um dos mais velhos, foi chefe de clã e possui suas características
em ter seus assentamentos sobre duas gamelas ovais localizadas em cima de uma
pedra; Agodô é uma das características de Xangô que se manifesta como um
guerreiro; Barú ou Ibarú, como são conhecidos, tem seus assentamentos sob o
casco de um ajapá; Olorupá, este, apesar de manifestar-se com aspecto de
violência usa sua energia para promover a justiça; Òbá Kossô tem sua
manifestação com características de ser um dos mais velhos; Jacutá, também um
dos mais velhos, possui em seus assentamentos doze pedras de raio, os edún-ará
e é caracterizado e reconhecido no Ijexá por vestir-se de verde, é o lançador
de pedras; Ajaosi, outro que possui aspecto de um velho; Afonjá, este
representando a casa real de Oyó, possui seu histórico nas lutas travadas e carrega
consigo o atin, poeira de magia que, quando desafiado, roga pragas fulminando
os inimigos, possui o carneiro como símbolo e é o único Xangô que usa o xére de
cobre, quanto aos demais, utilizam tanto de cobre quanto de latão ou cabaça com
pescoço; Akorumbé, esta característica de Xangô é pelo fato de poder ter
somente um único no egbé e seu assentamento possui duas pedras, (otás) envoltas
por uma cobra de cobre; esse aspecto de Xangô está associado com a temperatura
do mundo; Ayrá é também conhecido como Xangô Funyan, o mais velho de todos e
está sempre acompanhado de Oxaguian, é o único que, além de ser uma das suas
características possui outros três aspectos diferentes, ou seja: Ayrá Ibonã,
que se veste todo de branco, Ayrá Intilé, que possui seus assentamentos
juntamente com Oxalufan; sua gamela é feita de jaqueira e usa dois osé, seus
símbolos, e uma coroa de metal branco. Tais assentamentos ficam sobrepostos na
rama de algodão. Okutá, este é caracterizado por estar sempre presente numa
rocha. Nas casas de Candomblé de Angola é cultuado pelos nomes de N’zazi ou
Zazi, ou ainda Luango.
Em uma das
lendas sobre Xangô, conta que ele era rei de Oyó, sua mãe era da cidade vizinha
de Erupê no território de Tapa, e dessa forma não era considerado filho legitimo
da cidade. A cada comentário maldoso Xangô enfurecido cuspia fogo e lançava
faíscas pelas narinas; andava pelas ruas da cidade com seu machado de duas
faces que o fazia um justiceiro, e onde havia um roubo, Xangô era solicitado,
pois com sua astúcia e olhar certeiro encontrava o ladrão onde estivesse.
Na
transcendência mítica quando foi entronizado como rei e para poder reinar,
Xangô defendia sua cidade, chegou até mesmo a destronar seu Irmão Dadá Ajaká de
uma cidade que avizinhava seu reino. Com o prestigio conquistado, conta uma
lenda, que Xangô ergueu um palácio com cem colunas em bronze no alto da cidade
de Kossô para viver com suas três esposas, Oyá a amiga guerreira, Oxún a bela
feiticeira e Obá a amorosa e prestativa.
Para
prosseguir com suas conquistas Xangô pediu a um Babalawô uma fórmula para
aumentar seus poderes que lhe entregou uma caixinha de bronze, recomendando que
só fosse aberta em caso de extrema necessidade de defesa. Xangô contou a Oyá o
ocorrido, e ambos, não contendo a curiosidade abriram a caixa. Imediatamente
começou uma tempestade com ventos, relâmpagos e trovões, os raios destruíram o
palácio e a cidade, matando grande parte dos habitantes. Não suportando a
tristeza, Xangô retirou-se para o Órún levando consigo suas esposas.
As lendas
em torno do grande Orixá são contadas através dos tempos.
***Uma demonstração de justiça e sabedoria é contada
em outra lenda, a qual relata o episódio em que certa feita, viu-se Xangô
acompanhado de seus exércitos frente a frente aos inimigos os quais tinham
ordens de não fazer prisioneiros, e assim foi feito. Àqueles que caiam como
prisioneiros eram barbaramente mortos, mutilados, cortados em pedaços e jogados
ao pé da montanha onde Xangô estava. Àquela atitude do inimigo provocou a ira
de Xangô, que num movimento rápido bateu com seu machado numa grande pedra
provocando faíscas que mais pareciam raios; e quanto mais batia mais os raios
ganhavam força alcançando os inimigos e os liquidando. Mais uma vez Xangô
sairia vencedor. Aos prisioneiros, os ministros de Xangô pediam o mesmo
tratamento dado aos seus guerreiros, mutilação e atrocidades, destruição total
do inimigo; porém, Xangô não concordou e disse: __Não, o meu ódio não pode
ultrapassar os limites da justiça, eram guerreiros cumprindo ordens, seus
lideres é que tem que pagar! E levantando novamente seu machado em direção ao
céu, gerou uma infinidade de raios dirigindo-os contra os lideres inimigos
destruindo-os completamente. Em seguida, libertou todos os prisioneiros, que fascinados
pela atitude de Xangô, passaram a segui-lo em outras batalhas fazendo parte dos
exércitos do Orixá da justiça.
***Outras lendas fazem parte da existência mítica do
Orixá da justiça, como esta, relatando que Xangô era filho de Obatalá. Quando
jovem era muito rebelde e, vez por outra, saia pelo mundo botando fogo pela
boca queimando tudo que encontrava pela frente e fazendo arruaças. Seu pai
Obatalá sempre era informado de tudo. Recebia as queixas de todas as partes da
Terra. Obatalá, diante das queixas, sempre alegava que Xangô era como era por
não ter sido educado por ele, mas que algum dia conseguiria dominar o genioso
filho.
Certo dia,
Xangô estava na casa de Obá e deixou seu cavalo amarrado junto á porta da casa.
Obatalá, passando por ali, reconheceu o animal e resolveu levá-lo consigo. Ao
sair, Xangô pensando que havia ter sido roubado, saiu enfurecido procurando seu
animal perguntando a um e a outro. Mais tarde, recebeu a informação que um
velho estava com seu cavalo. Enfurecido, Xangô alcança o velho e, ao tentar
agredi-lo, reconhece que é seu pai Obatalá, este, levantando seu Opáxoró,
ordenou: Xangô Kunlé Foribalé, Xangô atirou-se ao chão em total submissão a
Obatalá.
Xangô
sempre trazia consigo seu brajá feito de contas vermelhas que Obatalá
arrebentou, e a elas, misturou as suas contas brancas dizendo: Isto é para que
toda a Terra saiba que você é meu filho. Daquele dia em diante Xangô
submeteu-se às ordens de Obatalá.
Suas cores
são o vermelho-terracota e o branco, seu dia consagrado é a quarta feira e,
geralmente é representado no sincretismo católico por São Jerônimo ou São
Bartolomeu.
Foram os
reis iorubanos que reivindicaram Xangô após a sua morte como ancestral. Como
rei de Oyó tornou-se lendário, pois, tinha o poder de fazer cair os raios à sua
vontade, isto porque, possuía os talismãs que lhe permitiam emitir fogo
flamejante. E foi assim que ganhou muitas guerras anexando territórios vizinhos
ao seu reino.
Existe uma
lenda sobre o desaparecimento de Xangô que diz que uma grande tempestade
desabou sobre o mundo, os raios provocaram uma grande chama na Terra e o povo
da nação nagô, amedrontados, exclamavam: Xangô tornou-se Orixá!
Depois do
seu desaparecimento formou-se em Oyó um conselho de ministros que ficaram
encarregados de manter o culto a Xangô, esse conselho, organizado e composto
por doze ministros, que na Terra o acompanharam, seis do lado direito e seis do
lado esquerdo. Do lado direito estavam Abiodun, Omyoy, Aréssa, Onanocakume, Obó
Telá e Olugbam, e do lado esquerdo, Otún, Onan, Sôkun Oko, Kaká N’fô, Ossis e
Ovikô, que juntos, formaram a primeira geração onde os ministros do lado
direito são os mestres e os do lado esquerdo tornaram-se o livre arbítrio.
Xangô, um
dos mais respeitados Orixás possui seus sacerdotes, são os Omo Xangô Mogbá Orí,
e suas sacerdotisas as Odosú Xangô; a saudação do Orixá da justiça é Kawô Ka
byesi Obá Osí.
Nas rodas
de Xangô se louva Yemanjá e Oduduwa, não somente pelo fato de Xangô ser um
descendente mítico, mas também, por ser ele, um descendente de Seres vivos, e
principalmente pela condição dele ser um grande e memorável Éegun, o qual é
cultuado aqui no Brasil equivocadamente e juntamente com os Orixás. Este fato
decorre dele, Xangô, ter sido iniciado quando em vida nos próprios Orixás
Jacutá e Aganjú.
Oyá (Yansã)
Oyá
ou Oyá Messan recebe também a denominação de Yansã. Este Orixá está relacionado
com os vários elementos naturais como os ventos, tempestades e relâmpagos; têm
como símbolo o mesmo erúkeré de Oxossi. O movimento constitui seu aspecto
dinâmico e sua cor representativa é o vermelho, cor que também representa seu
axé, cor do sangue que circula e dá vida. De sua nação de origem recebeu o
titulo de deusa do rio Niger, porém, um dos nomes mais conhecidos é o de Oyá
Igbalé, que na verdade, é uma de suas características. É também a matriarca dos
mortos e ancestrais, sendo ainda referendada como a mãe dos nove Orun na
concepção nagô quanto à divisão do espaço etéreo. Quando manifestada, ao dançar,
possui aspecto agressivo e é ainda representada pelos raios fumegantes que
riscam os céus, por isso é também conhecida como senhora da espada de fogo.
Segundo
alguns mitos foi uma das esposas de Xangô, no entanto, percorreu e conquistou
vários reinos; foi paixão de Ogún, Oxaguian e Exu, conviveu com Oxossi e criou
Logun Edé; tentou ainda, mas em vão, relacionar-se com Obaluayé, porém, Ogún,
em Ifé, o guerreiro foi sua grande paixão com quem aprendeu a arte da guerra e
ganhou o direito de manusear a espada. Em Osogbô, terra de Oxaguian aprendeu com
este a arte de usar o escudo, e mais tarde, deparou-se com Exu, mantendo uma
convivência com quem aprendeu a arte da magia descobrindo os mistérios do fogo.
No reino de Oxossi seduziu o Orixá da caça e com ele aprendeu a caçar, tirar a
pele de búfalo e a se transformar naquele animal, tudo com a ajuda da magia
aprendida com Exu. Depois destes relacionamentos, Oyá partiu para o reino de
Obaluayé, pois queria descobrir seus mistérios e conhecer seu rosto, nada
conseguiu, mas Obaluayé resolveu ensinar-lhe a tratar dos mortos que, de inicio
não aceitou, e mais tarde, porém, ficou encarregada de ser a dona dos Èeguns.
***Uma lenda, conta que Oyá não podia ter filhos e foi
consultar um Babalawô que lhe disse então que se ela oferecesse alguns
sacrifícios poderia tê-los. Um dos motivos pelo qual não teria filhos era pelo
fato de ela não respeitar uma proibição alimentar (um evó), que a proibia de
comer carne de carneiro. Como pagamento teria que dar ao Babalawô 18000 búzios,
moeda corrente na época, e para a oferenda, seria uma quantidade grande de
tecido colorido; também pediu o Babalawô uma quantidade de carne de carneiro
com a qual fez um cozido e deu à Oyá para que ela comesse, porém, dali em
diante não mais poderia comer de tal carne.
E assim
foi feito, e tempos depois Oyá deu a luz a nove filhos e ficou conhecida pelo
nome de Iyá omo méssan, que significa
mãe dos nove filhos. Fica evidente nesta estória, o momento mítico de Oyá, e
que, numa aglutinação do vocabulário tornou-se Yansã.
***Há, no
entanto, outra lenda para explicar o mito de Oyá/Yansã, que diz.....Em certa
época as mulheres eram renegadas a um plano secundário em relação aos homens,
então, resolveram castigá-los, porém abusaram em demasia humilhando-os. Oyá era
a líder das mulheres que se reuniram em um bosque; anteriormente, Oyá tinha
domado e ensinado um macaco dando-lhe o nome de Ijimerê, e utilizou para tanto
uma vara de atori (o ixó) e o vestiu com uma roupa de tecido cheia de tiras
coloridas, de modo que nada distinguia o macaco debaixo daquela roupa.
Seguindo
um ritual Oyá batia o Ixó no chão e o macaco saltava de um lado para outro
aparecendo de forma alucinante e movendo-se como se fora ensinado para fazê-lo;
deste modo, durante a noite quando os homens passavam por àquele local, para
assustá-los, as mulheres que estavam escondidas faziam aparecer o macaco.
Cansados
de tanta humilhação, os homens foram consultar um Babalawô para tentar
descobrir o que estava acontecendo e, para castigar as mulheres, o Babalawô
contou a verdade e lhes ensinou como vencê-las através de astúcia e oferendas.
Ogun foi encarregado da missão. Então, chegou
antes das mulheres onde tudo acontecia, vestiu-se com uma roupa de tiras
coloridas e totalmente coberto se escondeu. Quando as mulheres chegaram
apareceu de súbito, e correndo, gritando e bramindo sua espada, todas as
mulheres correram desesperadas, inclusive Oyá; daí em diante os homens dominam
as mulheres e as expulsaram para sempre do culto de Èegun, e por esse motivo
somente os homens podem evocá-los, venerá-los e tratá-los. Mas, mesmo assim, os
homens rendem homenagens à Oyá Igbalé como a criadora do culto aos Éegun.
O culto
aos Èegun nasceu na mata (Igbó Igbalé). Aqui no Brasil, no Ilé Awó, é o recinto
especifico onde são colocadas as oferendas cerimoniais para os Èeguns.
Oyá é
também venerada como mãe e rainha dos Èeguns como Oyá Igbalé e, como diz na
lenda, a selva e o macaco estão intimamente ligados ao culto, isso devido a voz
do macaco como forma gutural de falar de um Éegun.
***Outra lenda conta que Ogun foi caçar na floresta
como fazia todos os dias, de repente avistou um búfalo que vinha em sua direção,
rápido como um relâmpago; notando algo de diferente no animal, Ogún resolveu
segui-lo. O búfalo parou em cima de um formigueiro, baixou a cabeça e despiu
sua pele transformando-se em uma bela mulher, era Oyá, que agora estava coberta
com vestimentas coloridas e braceletes de cobre.
Oyá fez da
pele de búfalo uma trouxa, colocou os chifres dentro e escondeu-a no formigueiro,
em seguida partiu em direção à cidade. Sem perceber que estava sendo observada
por Ogun, assim que ela se foi ele se apoderou da trouxa guardando-a em seu
celeiro e depois foi para a cidade; passou a seguir Oyá até que criou coragem e
começou a cortejá-la, mas, Oyá recusou a corte.
Mais tarde
Oyá voltou à floresta, e para surpresa não encontrou a trouxa no formigueiro,
voltou então para a cidade e encontrou Ogun que lhe disse estar de posse
daquilo que ela procurava. Em troca do seu segredo Oyá foi obrigada a casar com
ele, mas apesar disso conseguiu estabelecer certas normas de conduta, dentre os
quais, o de Ogun não comentar o assunto com ninguém.
Chegando a
casa Ogun explicou a suas outras esposas que Oyá ia morar com ele e que em
hipótese alguma deveriam insultá-la; tudo corria bem e, enquanto Ogun saia para
caçar Oyá procurava sua trouxa.
Desse
casamento nasceram os nove filhos, o que certamente causou ciúmes nas outras
esposas que eram estéreis; uma delas, para vingar-se, conseguiu embriagar Ogun
e ele acabou por revelar onde havia escondido os pertences de Oyá. Ogún
adormeceu e as mulheres foram insultar Oyá dizendo que ela era um animal e não
uma mulher, contando ainda onde estava escondida sua trouxa.
Oyá acabou
por encontrar sua pele e os chifres, e assumindo a condição de búfalo novamente,
partiu para cima das mulheres. Decidiu então voltar para a floresta, mas não
permitiu que os filhos a acompanhassem porque era um lugar perigoso, deixou com
eles os chifres e os orientou para que em caso de perigo, deveriam bater um
contra o outro, pois com esse sinal ela ia socorrê-los imediatamente. E por
esse motivo é que os chifres estão presentes nos assentamentos de Oyá.
***Xangô estava em suas famosas guerras em
franca expansão do império ioruba; contava com um numeroso e poderoso exército,
e acima de tudo contava com sua feroz e exímia guerreira Oyá, cujo carisma era
muitas vezes maior que o dele mesmo; todo o exército confiava na força, na
garra e na ferocidade de Oyá, tornando-se assim um exército insuperável.
Não havia reino que
suportasse tamanha fúria e paixão, um a um os reinos da África caíam ante o
invencível exército de Xangô e de sua esposa e companheira de batalhas. Xangô
orgulhava-se de sua rainha tão fiel apaixonada e feroz com liderança em uma só
figura que era sua. Xangô não conhecia vida melhor, era agora o maior Imperador
da África, o homem mais rico e poderoso.
Enquanto Oyá só desejava
ser a jóia mais bela e rara de seu Rei, entregava sua vida, força e paixão ao homem
que amava. Oyá não lutava por riquezas, nem por posição, isto já havia lhe
importado; agora, só via Xangô e a paixão que nutria por ele e consumia-lhe a
alma. Não havia maior espólio de guerra para Oyá do que cair nos braços de
Xangô após a vitória de uma batalha, e tudo era uma faiscante felicidade. No
entanto, um dia Oyá retorna de seu treinamento diário mais cedo e percebe que
está ocorrendo uma reunião na casa dos generais de seu exército, Oyá
intriga-se, pois nunca acontecia nenhuma reunião de planos de guerra sem a sua
presença, afinal ela era a rainha e o maior general de Xangô. Como poderia ter
sido colocada de fora? Como um tufão Oyá adentra a sala percebendo que sua
abrupta presença havia calado os planos, e percebe pelas feições de seu esposo,
de que ele não a esperava ali e olha para a mesa e vê, entre os planos de
guerra dos próximos reinos a serem invadidos e conquistados, Íra, sua cidade, a
cidade de seus pais. E então se dirige á Xangô e pergunta: Como podes Xangô, por
que começou uma reunião sem a minha presença, sem a presença de seu mais fiel
general? E por que inclui a cidade de Íra em sua rota, se esta cidade já é tua,
pois eu sou a princesa de Íra, e sou sua, a cidade de Ìra já é iorubana...E
Xangô do alto de seu trono responde: Só é meu aquilo que eu conquisto e sucumbe
a minha força, para então respeitar-me até os fins dos tempos!
Oyá, enfrecida saca de sua
adaga ao espanto de todos, e mais rápida que um raio espeta sua adaga na mesa
deixando todos na sala assustados e boquiabertos com manobra tão rápida e
furiosa. Oyá havia cravado sua adaga no mapa de planos, a lâmina estava na
porta da cidade de Íra; e Oyá contesta: pois aqui estarei eu Xangô, em pé com
esta mesma adaga lhe esperando, quero ver vivo homem passar por mim.
E dizendo isso, com a mesma
destreza e velocidade, pega sua adaga e sai da sala, não sem antes trocar um
último e rápido olhar com Xangô. Ele a havia traído, traído sua confiança e o
seu amor por ambição, ganância e poder, ela não podia admitir isto.
Oyá saiu levando com ela
uma parte da tropa de soldados que lhe eram fiéis que desertaram do exército de
Xangô para acompanhar a valorosa guerreira.
Oyá sentia saudades de Ìra,
sua cidade, e também deveria prestar maiores cuidados a seus idosos pais, aos
quais, havia renunciado em nome de seu amor por Xangô; agora, devido o retorno
tinha que salvar o seu reino. Recebida solenemente, seus pais, idosos e doentes
logo lhe passaram a coroa real, pois não tinham mais condições de governar; por
um lado estava feliz, pois estava de volta ao seu reino com sua família e seus
amigos de Infância, mas, por outro estava remordida com a atitude de Xangô, mas
também com saudade e a paixão que, todavia, ainda nutria por aquele homem.
Oyá esperou junto as portas
de Íra em pé com a adaga em punhos, e com seu pequeno exército esperou por
Xangô, ... e esperou...
Os dias passaram e Oyá
sempre esperando em pé diante da entrada da cidade, lembrou-se do jogo que
havia feito com um babalawô antes de chegar á sua cidade... O babalawô lhe
havida dito: Se abandonares Xangô e voltares para sua cidade, nunca mais o
verá. Um frio subiu imediatamente por sua coluna, a garganta apertou e ficou
difícil engolir o pavor.
Chega neste momento um
homem, era um mensageiro de Xangô. Oyá pressentia o pior, pois nenhuma guerra,
espada, lança, ou mesmo a morte lhe havia drenado a coragem, mas a
possibilidade de ficar sem o seu amor lhe enchia de um sombrio e angustiante
pânico.
Ela recebe o mensageiro que
então lhe conta as novidades: Xangô não virá minha rainha, há duas semanas
desviou suas tropas da rota de Íra e nos explicou o porquê.
Xangô havia desistido de
invadir Ìra; por um momento o coração de Oyá palpita de felicidade, poderia
agora perdoar e voltar para seu amor.
E Oyá pergunta:...E Xangô,
onde está agora?
E o mensageiro lhe
responde:...Vim justamente para lhe informar grandiosa Rainha, Xangô não se
encontra mais entre nós, Xangô sem sua feroz Rainha sucumbiu em uma batalha
diante da arma do inimigo, Xangô está morto.
As palavras do mensageiro
lhe atravessaram como uma lança.
Ouvia em sua cabeça as
palavras do babalawô: Se abandonares Xangô e voltares para sua cidade, nunca
mais o verá.
Suas forças lhe
abandonaram, todavia, tinha um reino a governar e a cuidar, um reino que seus
pais lhe confiaram.
Daí em diante Oyá
manteve-se viva por fora para cuidar de seu reino, mas morta por dentro
sentindo a ausência de seu amor.
A valorosa Oyá, que vencera
os mais terríveis inimigos foi derrotada pela traição e pela morte.
Oyá tem suas sacerdotisas, as Oloyá,
que numa representação simbólica se identificam utilizando contas vermelhas;
seu objeto de culto é uma adaga que simboliza sua personalidade guerreira, o
iruexin, um abanador feito com rabo de búfalo está constantemente em suas mãos.
Sua saudação é: Eepá ripaó Odo Yá Eepá Eya, Oyá, Oyá Mesan Orí. Seu dia
consagrado é a quarta feira e no sincretismo católico é representada por Santa
Bárbara.
Oyá possui também uma variedade de
características e/ou qualidades.
Binkã, Seno, Abaú, Gunan, Bagan, Onira,
Kodun, Magambelle, Iyápopo, Tope, Filiaba, Semi, Sinsirá, Sire. Gbalé ou
Igbalé, aquela que retorna para a Terra, Oyá Funan, Fure, Guere, Toningbe,
Fakarebo, Dê, Min, Kario, Adagamgbara.
Oxún
Para o povo yorubá, conforme a mitologia, Oxún teria nascido
de uma concha depositada por Yemanjá nas margens de um grande rio que leva seu
nome, o rio Oxún, que em yorubá quer dizer Odô Oxún. Oxún é originalmente
cultuada em seu templo principal na região de Osogbô, localidade onde Oxún
atingiu sua maturidade. É no percurso do rio que corresponde a trajetória feita
pelo Orixá onde assume suas diferentes características, todas elas ligadas a
maneira de ser das mulheres, de caráter e atitudes, de suas qualidades e
defeitos. Assim, o povo yorubá se refere aos diferentes caminhos de Oxún que
são descritos de forma muito particular.
Associada
as nascentes, córregos, rios e lagos, Oxún está também relacionada com a
gestação e o parto, protegendo o feto e seu desenvolvimento e têm as crianças
sob seus cuidados. Recebe algumas denominações e títulos como, a primeira Iyámí
akokó, a mãe ancestral suprema ou Iyá Agbá, a mãe anciã. Na África recebe a
denominação de Iyá lodé, titulo da mulher mais proeminente da cidade, pois, era
a rainha da cidade de Oyó, onde nesse reino, as mulheres que queriam engravidar
a procuravam, por ser ela, muito respeitada pelos seus dotes nas feitiçarias.
Tornou-se a mais eminente das Iyámí. Assim como todos os outros Orixás existiam
também diversos tipos e características de Oxún, isso se dava pelo fato da sua
existência ser adversa e de acordo com a proximidade dos locais, que poderiam
ser a de uma tribo, da profundeza de um rio, de uma montanha ou de outro local
determinante, ou ainda, por uma situação momentânea. Por esse motivo, Oxún pode
ser maternal, jovem e feiticeira ou ainda uma guerreira. Mãe da candura e da
meiguice, ela é a rainha de Ijexá, Orixá da prosperidade, da riqueza, da magia
e do amor.
Por
derivação do vermelho, o amarelo ouro é sua cor representativa. O ouro e o
bronze, metais que representam o sangue vermelho mineral, são metais utilizados
na confecção de seus adereços como, o idé, um leque ritual. O mel que além de
representar o sangue vermelho vegetal, também é representativo no que diz
respeito à doçura com que Oxún têm por seus filhos. As penas do pássaro sagrado
ekodidé, um papagaio que possui plumas vermelhas na cauda, pertence ao vermelho
e tem representação no axé de Oxún Olóri Eleyé, que significa ser a chefe
suprema das que possuem os pássaros, não simbolizando, no entanto, o vermelho
genérico. Ao saudá-la, Kóra Yêyê Deri Owôn, seus filhos representam bem tudo o
que ela vem significar, a mãe ancestral.
Um mito relata
que, quando Oxún veio do Óde Orun, Olodumare confiou-lhe poderes de zelar pelas
crianças que iriam nascer no Ayé e, por esse motivo, recebe entre tantos títulos,
o de Olutojú Awon Omo, aquela que cuida das crianças, e Aláwoyé, aquela que
cura as crianças. A regência mais importante de Oxún é no processo da
fecundação, na multiplicação das células e quando Exu entrega tal regência no
desenvolvimento do feto até o nascimento, momento em que Yemanjá apara um recém-nascido
na hora do parto e lhe entrega o destino. Conta o mito que foi a segunda esposa de
Xangô; muitos relatos permanecem vivos na cultura africana. A mitologia relata
que teve relacionamentos amorosos com Ogún e Oxóssi, por isso, sua afinidade
com os filhos destes. Na Nigéria, Oxún é reconhecida pelo nome de Osogbô.
Uma das estórias míticas, conta que, por
ser Oxún a mais bela dos Orixás, teria sido presa por Xangô, seu marido, na
torre do castelo onde habitavam, pois, era muito ciumento. Passando por ali, Exu
ouviu o choro de Oxún e quis saber qual a razão de sua tristeza. Após ouvir a
historia pediu a Orunmilá que intercedesse por ela. Este, assim o fez espalhando
um pó mágico sobre Oxún e a transformou em uma pomba, possibilitando assim sua
fuga. Por isso, nos cultos à Oxún, a pomba é considerada uma ave sagrada.
Outra estória conta que Oxún queria
saber os segredos do jogo de búzios que pertencia a Exú e este não lhe
revelava. Ela então procura nas florestas as feiticeiras, as temidas Iyámí, que
há muito tempo queriam pregar uma peça em Exu As Iyámí então ensinaram todas as
magias para Oxun, porém, exigiram que ela fizesse uma oferenda para cada
feitiço que ela executasse. Depois de ter feito as oferendas foi procurar Exu
no seu reino; porém, desconfiado, perguntou à Oxún o que ela fazia por ali,
disse-lhe para ir embora e que não ensinaria nada a ela. Ela então o desafiou a
descobrir o que tinha entre os seus dedos, Exu se abaixa para ver melhor e,
nesse momento, Oxún sopra sobre os olhos de Exú um pó mágico que o cegou
temporariamente. Com o ardume provocado nos olhos, Exu gritava e dizia: ...Eu
não enxergo nada, onde estão meus búzios? Oxún fingindo preocupação, respondia:
...búzios? Que búzios? ...Quantos são eles? ...Dezesseis, respondeu Exu,
esfregando os olhos. ...Ah! Achei um, é grande! ...É Okaran, respondeu Exú.
...Achei outro, este é menor! ...É Etá Ogutá, respondeu mais uma vez Exu,
...dê-me ele...E assim foi que ela soube de todos os segredos do jogo de
búzios. Ifá, o Orixá da divinação, pela coragem e astúcia de Oxún resolveu dar
também o poder de jogo a ela.
São várias
as características/qualidades de Oxún, como Abalú que é considerada a mais
velha de todas e, em alguns lugares da África, recebe o nome de Abalô; esta,
porém, têm semelhanças a Yansã por possuir aspecto violento. Jumú ou Ijimú
possui estreita ligação com as Iyámí. Abotô ou Asogô, que possui a
característica de ser coquete e muito feminina, ajuda as mulheres a terem
filhos. Opará, uma das mais conhecidas, é jovem e guerreira. Ajagurá, a que possui
aspecto de guerreira. Ogá que é conhecida como a velha e quizilada e aspecto
aborrecido. Petú Karé, Oké e Oníra, são guerreiras por excelência. Olokô, a que
vive nas florestas e montanhas. Ipondá, a que é esposa de Oxóssi Ibualana, é guerreira
e usa um leque ritual. Merin ou Iberim, a mais vaidosa de todas. Aiyálá ou
Iyanlá, esta é considerada avó e, na mitologia consta ter sido esposa de Ogun.
Odô, a Oxún dos perdões. Lokún ou Pópólokun, quase desconhecida, é uma das características/qualidade
de Oxún que não se manifesta, porém, seu culto ainda existe na África.
Uma lenda conta, que quando Oxún vivia
com Ogun era ela que acionava o fole para atiçar as brasas da fornalha da qual
Ogún usava para aquecer o ferro e, o fole acionado por Oxún, produzia um som
ritmado e muito agradável. Atraído por esse som, Éegun passou a dançar atraindo
um grande número de assistentes que por ali passavam. Encantados com o bailado
de Éegun, os passantes lhe faziam muitas oferendas em dinheiro, o que o deixou
feliz e vaidoso. Ao saber que Éegun estava ganhando dinheiro com suas danças,
Oxún exigiu que metade da renda fosse dividida com ela, caso contrário, não
mais acionaria o fole que produzia o ritmo sem o qual Éegun não poderia mais
dançar. Sem alternativa, Éegun teve que aceitar a exigência de Oxún, passando,
a partir de então, a dividir com ela tudo que ganhava.
Além das
características/qualidades citadas, ainda existem muitas outras representadas
como caminhos percorridos ou funções que são atributos de Oxún, que são:
Oxún Kayodé – que
representa a dança repleta de movimentos e que denota a sensualidade revelada
na maneira de andar. Yéyé Karê – que representa o culto à beleza e à vaidade
possuindo descrição como, “o espírito que reflete no espelho”, motivo pelo qual
Oxún está sempre se admirando no espelho do qual não se separa. Tem gosto pela
riqueza, pela opulência e pelo uso de jóias em ouro. Sekesé – a que representa
a aparente fragilidade feminina, artifício usado para obter a proteção
masculina.
Ibikóla – a sedutora, a irresistível, representa o
poder de sedução.
O espírito
maternal de Oxún é representado por três diferentes características/qualidades.
Fukume – a que proporciona a possibilidade de ter filhos.
Osogbô – a que assiste a mulher na hora do parto. Funkê
– é a mestra, representando a mão que orienta e ensina aos nascidos os
primeiros passos no contato com o mundo e com a própria vida. Miwá – que é o espírito
das águas doces e está de certa forma, ligada ao processo de gestação, pois,
assiste e protege o feto durante a gestação, é a dona do liquido amniótico. A
incumbência do caráter feminino é representada por Oxún Akura Ibú, a que se faz
presente nos locais de encontro das águas dos rios com as do mar.
A mulher
guerreira é representada por quatro caminhos nos quais sempre porta uma espada,
nestes caminhos é conhecida como Opará, Okê, Yêpondá e Yéyé Iberin, todas
consideradas guerreiras. Oxún Edé – é representada pela mulher madura e
consciente de sua força sempre revestida de respeito.
A partir
das características/qualidades descritas, Oxún assume aspectos relacionados á
mulher envelhecida, é então representada por Oxún Ogá e, no ultimo caminho
encontramos Oxún Abotò, considerada velha e envolvida com os mistérios
relacionados em práticas de feitiçaria. Oxún então assume e revela a partir daí,
todo seu poder maternal e funda a denominada sociedade Geledé, onde a face
maligna é encoberta por máscaras. É Oxún Awê que se encarrega de organizar toda
a estrutura desta sociedade.
Oxún reúne
em si mesma, todas as diferentes manifestações assumindo para si o poder de
Iyámí Ajé, a mãe feiticeira que, investida deste poder, controla a vida e a morte
representada pela grande cabaça Igbadú, símbolo do ventre gerador que é encimado
pelo pássaro Osorongá. Orixá Odo - dos rios, Oxún é a senhora das águas da vida.
Oloomiayé - mãe das águas frias e profundas. Iyá Ominibú é a mãe cuidadosa.
Yéyé Karê - Orixá da maternidade. Além dessas características/qualidades, Oxún
é o Orixá que tem grande poder de feitiço por ser Olori Iyámí Eleyé.
A estória
mítica de Oxún e sua interação com os elementos da natureza, em uma das lendas,
diz que ela nasceu de uma concha
depositada por Yemanjá as margens de um rio o qual recebe o seu nome, o Odó
Oxún e, entre as localidades de Iguedé onde nasce e Lekué onde desemboca em um
grande lago, é o local onde Oxún é originalmente cultuada; seu templo principal
foi edificado nesta região, mais exatamente na aldeia de Osogbô e, é no
percurso do Odó Oxún, que a deusa das águas doces, como é conhecida, assume
suas diferentes características/qualidades. É assim que, originalmente o povo
africano se refere aos caminhos percorridos pelo Orixá.
No Brasil,
após seu culto ter sido estabelecido surgiram outras manifestações, resultado
do sincretismo entre as diversas nações tribais; porém, enquanto na África,
tais manifestações são consideradas como, caminhos percorridos pelo Orixá em
uma única divindade, no Brasil foram denominadas qualidades ao invés de
características ou caminhos, pois, este último, está ligado aos conceitos
determinados pela existência dos Odús, o que não promove nenhuma
desqualificação dos atributos do Orixá Oxún.
Na
teologia yorubá existe uma lenda que diz: Quando os Orixás vieram do Óde Orun,
vieram com eles os dezesseis Odús Àgbà, os dezesseis Odús principais, vieram
para ensinar os Ará Ayé - seres humanos, como cuidar da Terra e, quando estes
tivessem condições de, sozinhos cuidar dela, eles, os Orixás, voltariam para o
Orun.
Na vinda,
convidaram Oxún para auxiliá-los na tarefa, no entanto, sempre que iam liberar
ou participar sobre algo importante, não a chamavam. Oxún era somente usada para
lavar, cozinhar e cuidar dos pertences dos demais e da casa, não participava de
nada que fosse de maior responsabilidade. Até que um dia ela se fartou daquilo
tudo e foi quando lançou mão dos poderes que possuía de Iyámí Ajé. Então,
quando os outros Orixás deliberavam sobre a doença de uma pessoa e diziam que
essa pessoa não sobreviveria, Oxún colocava seu axé e fazia com que a pessoa
sobrevivesse. Quando os Orixás diziam que determinada pessoa iria sobreviver,
Oxún fazia com que a pessoa não sobrevivesse. Se os Orixás diziam que uma
mulher teria muitos filhos, Oxún fazia com que a mulher não tivesse filhos. Se
os Orixás determinassem que uma mulher não tivesse filhos, Oxún fazia com que
aquela mulher tivesse uma grande prole.
E tudo
então começaram a dar errado no Ayé - na Terra e, por mais que os Orixás
fizessem para que houvesse prosperidade e fartura só havia decadência e
fracasso, e eles não conseguiam mais acertar suas previsões e também não tinham
idéia do que estava causando tudo aquilo. Foi então que, intrigados, foram a
Orunmilá para que ele os orientasse sobre o que estava acontecendo. Orunmilá
lhes disse que o motivo de tudo o que estava acontecendo era por causa da
décima sétima pessoa do grupo, portanto, era Oxún a causadora, pois, estava
colocando o axé das Iyámí Ajé, isso por não ter sido chamada a participar das
decisões. Para que tudo voltase à normalidade, ela deveria, daí em diante ser
chamada a participar de todas as decisões.
Ao voltarem para o Ayé, os Orixás foram
pedir a Oxún que se juntasse a eles para que houvesse harmonia e prosperidade.
No entanto, como era muito caprichosa, se recusava a juntar-se a eles, pois,
não fora chamada antes. Eles pediram e imploraram, porém, Oxún mantinha-se
irredutível. Os Orixás ficaram desesperados com aquela atitude e não sabiam
mais o que fazer para dissuadi-la. Como Oxún estava grávida, resolveu então que
não participaria com os outros Orixás, porém, ficou acordado que, quando seu
filho nascesse, este se juntaria a eles tomando seu lugar.
Os Orixás ficaram ansiosos pelo nascimento do
filho de Oxún, que seria o décimo sétimo elemento dos Odú Agbá e, todos os dias
eles vinham pela manhã, antes do sol raiar, colocar as mãos sobre o ventre de
Oxún para passarem axé ao seu filho.
Conta
essa lenda que Oxún deu a luz a Exu o qual recebeu o nome de Osetuwá, que
significa - aquele que recebeu axé ainda no ventre materno, que possui axé de
acalmar o corpo.
E foi assim que Exu passou a integrar o grupo
todas as vezes que se reuniam. O número de Odús Agbá passou a ser dezessete, ou
seja, os dezesseis mais um que é Exu.
No jogo dos búzios sempre é colocado o
mais um que é preparado num ritual, significando a presença de Exu como o
décimo sétimo elemento.
Entre as muitas lendas existentes sobre
Oxún, uma delas, sobre Yêpondá, a deusa dos lagos e águas mansas, diz que a deusa
nasceu de uma interação com o branco de Oxalá, porém, ganhou o direito de usar
também o multicolorido, isso, devido a um acordo com Oxumaré. De caráter
pacífico, é muito confiável e também romântica, no entanto, sabe conter
perfeitamente seus sentimentos e é uma eximia caçadora.
***A lenda diz que Oxún Karê possuía
sua morada na fronteira entre as águas doces e salgadas. Em certa ocasião ficou
sabendo por Yemanjá que estava ocorrendo uma grande festa restrita apenas para
os funfuns. Karê que não podia mais ter sua forma dourada e nem retornar à
morada de suas irmãs das águas doces, desta forma, permaneceu eternamente branca.
Mas desejava muito conhecer Oxalá e resolveu ir naquela festa acompanhando suas
irmãs. No entanto, levou com sigo todas as suas jóias que eram douradas, assim
que entrou no grande salão, Karê as colocou e o ambiente reluziu. Oxalá não
conseguia desviar os olhos de encantadora beleza e perguntou então a seus
ministros quem era aquela bela mulher; seus ministros responderam que era Karê,
a Oxún branca. Oxalá então a conquistou, e dessa conquista nasceram outras Oxuns,
entre elas estava Yêpondá que, desde
muito nova, buscou as margens do lago para que a luz da manhã tingisse sua
brancura com os raios amarelados, desta forma, as velhas Oxúns das águas doces,
aceitaram-na em seu reino. Foi então que rumou para as lagoas e as água mansas
dos rios onde se tornou a zeladora das águas e dos peixes.
Um dia os peixes vieram fazer uma queixa à Yêpondá dizendo que estavam
sendo envenenados. Frekuén a serpente - Oxumarè, quando vinha à lagoa beber
água, deixava seu veneno nas águas doces e matava os peixes; estamos morrendo, diziam
os peixes, o que pode ser feito para nos ajudar? Yêpondá que conhecia muitos
encantos aprendidos com Ossayn ficou às margens da lagoa à espreita, esperando
por Frekuén a serpente. Não demorou muito quando ela apareceu em busca de água.
Ao chegar, a serpente viu a bela menina banhando os seus pés, e achou que
aquela doce e inocente criança não seria nenhum perigo. Rastejou-se ligeiramente,
rumo às águas da lagoa para saciar sua sede. Quando passou ao lado de Yêpondá, toda
despreocupada, mas esperando assustar a doce menina do que ser atacada, sequer
percebeu quando Yêpondá a agarra ferozmente pelo pescoço. Yêpondá saca uma
pequena adaga, e aos espantados olhos de Fekuén - Oxumarè vê a morte chegar nas
mãos de tão aparente e doce menina. Frekuén ainda incrédulo lhe suplica: bela
menina, não me mate, afinal, qual mal eu fiz à você? E Yêpondá respondeu: você
está envenenando os peixes das águas doces. Mas Fekuén argumenta: se eu faço
isto, é por que não tenho escolha, quando bebo a água devo cuspir o meu veneno,
caso contrário eu o engolirei e morrerei e, também não posso deixar de beber a
água senão morro de sede, daria o meu maior tesouro para sair daqui com vida. E
Yêpondá perguntou: E o que você tem à oferecer serpente? Frekuén respondeu que
era a dona do Arco-íris, a ponte que conduz ao Orún, ninguém chega lá senão por
mim, sou a dona de todas as cores, não sou simplesmente a serpente do chão,
também sou a serpente do Céu.
Ouvindo isto, Yêpondá que era muito vaidosa já se imaginou
multicolorida, tendo direito de poder ser de todas as cores que quisesse ser,
rica, muito bela e poderosa.
E assim Yêpondá faz um trato com Frekuén, e disse: posso resolver de uma
forma que beneficie a você e os seres dos rios e lagos, porém, em troca, quero
o direito de usar todas as cores de seu arco-íris, assim como também ter acesso
livre a esta ponte, de passar de um lado a outro tantas quantas vezes eu
desejar.
E frekuèn responde: O que a bela menina
desejar assim será, mas, como pretende resolver este problema?
Yêpondá libertou a serpente e a ensinou a morder uma folha encantada que
estava a boiar sobre as águas onde poderia deixar seu veneno enquanto bebia das
águas doces sem envenená-las. Em troca Frekuén - Oxumarè a serpente, lhe deu
uma argola para que ela usasse no pescoço, uma serpente de ouro, o símbolo da
aliança que representa seu acordo com Frekuén - Oxumarè.
E foi
assim que Yêpondá conseguiu o direito de usar roupas multicoloridas e fazer uso
da ponte sagrada, o arco íris. É um Orixá jovem, que porta espada e pode usar
todas as cores, mas prefere o amarelo, o azul bem celeste e o rosa,
demonstrando sua incrível juventude e precocidade, mas, que não impede dela
possuir instinto guerreiro e, que além de tudo, possui também um pequenino ofà,
arco e flecha, símbolo de Ode, do qual ganhou em uma aposta com Oxóssi...mas
esta é outra estória.
Oxún tem
seu dia consagrado no sábado, suas contas são na cor amarelo ouro, cor que a
identifica. No sincretismo católico é representada por Nossa senhora Aparecida,
a padroeira do Brasil.
Logún Edé
Possuindo as mesmas características de Oxóssi, porém com aspectos
joviais, Logún é o Orixá encantado da natureza. Filho mítico de Oxún e Oxossi
pode permanecer nas matas por longos períodos, mas, também submergir nos rios,
lagos e mares. A beleza é sua característica mais acentuada.
Sua
estória mítica é contada desde os primórdios dos tempos. Contam lendas que, sua
mãe Oxún tinha uma grande paixão por Oxóssi, porém já era esposa de Ogún; no
entanto, um dia, o Orixá guerreiro teve que partir para terras distantes em
lutas de conquistas, Oxún aproveitou para se encontrar com Oxóssi e acabou
engravidando. Algum tempo depois, quando a criança estava para nascer, Oxún
recebeu uma mensagem de Ogún, que mandava avisar que logo voltaria das
batalhas, tempo suficiente para que Oxún desse à luz. Como Ogún não poderia
saber do ocorrido, Oxún, após o parto, deixou a criança recém-nascida nas matas
em cima de um lírio. Oyá, que passava por ali, encontrou a criança e o criou
como seu filho fosse, ensinou-o a caçar, a pescar e tudo mais relativo às
matas. Conta ainda a lenda, quando jovem, em uma de suas caçadas e do alto de
uma cachoeira, Logún avistou uma bela mulher, era Oxún. Encantado pelo que via passou a observar
escondido por entre a vegetação. Vaidosa, Oxún se admirava em um espelho e percebeu
que o homem a observava. Virando o espelho na direção de Logún, enfeitiçou-o
derrubando-o nas águas transformando-o em um cavalo marinho. Oyá, ao tomar
conhecimento do fato foi procurar Oxún e contou que ela havia enfeitiçado seu
próprio filho. Oxún desfez o encantamento e declarou que a partir daquele
momento, Logún viveria um tempo nas águas comendo peixe e outro tempo passaria
em terra firme vivendo da caça.
Em outra
lenda, afeiçoado e devido a brigas constantes de seus pais que viviam
separados, Logún ficava um tempo nas matas com Oxóssi e outro tempo com Oxún
nos rios. Porém, devido a discórdias dos pais sobre as atitudes deste, teria
sido expulso, no entanto, foi amparado por Oyá que lhe deu de beber uma poção
mágica, e assim se tornou andrógeno.
Para alguns, Logún é uma divindade
hermafrodita, isso talvez por ser ele vaidoso como Oxún e astuto caçador como
Oxóssi. Sua morada é nas florestas em clareiras e na beira dos rios. É um
grande caçador, apesar de ser jovem e, sua aparição, deu-se após o relato de
que um dia, Oxún conheceu Oxóssi e se apaixonou, mas Oxóssi envolvido com as
suas caçadas não quis saber de Oxún, porém, Oxún não desistiu, procurou um
Babalawô e arquitetou um plano. Embebeu seu corpo em mel e rolou pela mata.
Disfarçada com as folhas envoltas em seu corpo tornou-se a mulher das matas e
procurou novamente Oxóssi, que desta feita, se apaixonou no momento em que a
viu.
Esquecendo-se das recomendações do Babalawô,
Oxún convidou Oxóssi para um banho no rio, porém, as águas lavaram o mel do seu
corpo e as folhas do disfarce se desprenderam. Oxóssi percebeu de imediato como
tinha sido enganado e abandonou Oxún. E foi embora deixando Oxún grávida. Algum
tempo depois nascia Logún que, por esse fato, ele é considerado a metade Oxún,
a metade rio e, a metade Oxóssi, a metade mata. Suas metades nunca se
encontram, pois habita um tempo nas águas e outro tempo nas matas.
Em algumas casas de Angola Logún não é
cultuado como uma divindade sagrada, e sim como uma das características/qualidades
de Oxóssi e é denominado Gongobira ou Gongobila, possuindo a mesma natureza
mítica.
Incorporado ao
panteão dos deuses africanos, quando manifestado, apresenta características de
um caçador, porém, em seus paramentos figura sempre um abebé, o que não
significa uma bissexualidade e sim o respeito e a afinidade com sua mãe Oxún.
***Em outra
lenda conta que certo dia, Logún Edé passando pela beira do rio Alakêtu avistou
sobre as águas um belo palácio, voltou para a cidade e relatou o que tinha
visto e de sua vontade de ir àquele palácio. Porém, disseram a ele que o
palácio pertencia a Oxún e que lá, nenhum homem colocava os pés. Logún Edé não
encontrava uma maneira de ir ao palácio de Oxún. Depois de algum tempo,
encontrou sua mãe de criação, Oyá, confirmando que no palácio de Oxún homem
algum poderia colocar os pés, porém, ele só conseguiria lá entrar se colocasse
uma roupa de mulher. Logún Edé, fascinado e obcecado em ir ao palácio, pediu à
Oyá que lhe arrumasse um traje feminino. Depois de arrumado, Logún Edé pegou
uma canoa e remou rumo ao palácio no meio do rio. Quando lá chegou cantou...
Alakêtu, Alá Ní Malá Okê... A cantiga foi um Orô em saudação às águas pedindo
permissão à dona do palácio para entrar. Os portões se abriram e Logún Edé
entrou. Oxún reconheceu seu filho, e então lhe disse que a partir daquele
instante ele ia usar trajes femininos e tinha o direito de reinar ao seu lado.
“Locí Locí Logún
ré Arojá”, esta é a sua saudação, seu objeto de culto, além do ofá, arco e
flecha, possui também o Abebé, um leque feito de metal em formato de folha. Seu
dia consagrado é a quinta feira e tem em São Miguel seu sincretismo. No
entanto, em algumas regiões e em algumas nações do Candomblé também tem seu
sincretismo em Santo Espedito.
Yemanjá
Yemanjá, que originalmente
deriva das palavras em idioma yorubá, Iyá-mãe, Omo (filho) e Ejá (peixe) é
definida como a mãe dos peixes filhos e está associada com as águas, mais
particularmente aos mares. Yemanjá está relacionada com o poder de gestação aos
filhos nela contidos, isso porque, é considerada mãe de todos os Orixás. Em
alguns cultos correlatos aparece como uma sereia sagrada e em outros como a
rainha das águas salgadas. Regente absoluta e protetora dos lares e das
famílias é ela quem apara a cabeça dos recém-nascidos na hora do parto sendo
também a responsável a imputar aos Seres o Odú, elemento que define o destino e
a linha da vida. No sentido da união familiar é ela quem proporciona o bem
estar nos relacionamentos consangüíneos. A cor branca, o azul claro, o branco
incolor e os elementos transparentes representam-na, assim como, os metais
brancos e prateados, onde contém o seu axé, são também feitos todos seus
adereços.
Filha de Olokún, deus das águas
profundas, está associada a Oxalá, pois, contam os mitos que, juntos e de forma
transcendental, participaram da criação do mundo. Procedente de antigos cultos da nação de
Egbá, na Nigéria, suas origens terrenas estão relacionados com um rio do mesmo
nome naquela região Na mitologia nagô sempre foi considerada como esposa de
Oranian e, que juntos, conceberam Xangô o deus da justiça. O cristal representa seu poder genitor e sua
interioridade, na Nigéria é a deusa de um rio que possui o mesmo nome. É
considerada Orixá Agbá, a deusa do encontro das águas dos rios com os mares. É
a mais antiga das Iyá agbá, que quer dizer, a mãe que passeia sobre as espumas
das ondas. Para algumas nações do Candomblé, Yemanjá é a mãe de Dadá, Obá, Okó,
Okê, Saponam, Oxún, Òlún - o sol, Osupá - a lua, Osobô e Ajé Saluba o Orixá da
riqueza.
Seus diversos nomes estão relacionados aos
locais e situações vividas ou mesmo quanto à profundidade (Ibú) dos rios, e
tais nomes são relativos às características/qualidades a ela são atribuídas;
são sete, e seus nomes diferem conforme a região. Ogunté, esposa de Ogún
Alagbedé; Sabá a fiandeira de algodão, a que foi esposa de Orinxalá, Sesú a
respeitável mensageira de Olokún, Tumá, Aymú, Iewá, Ataramoagbá, Iyákún que
vive nas espumas da ressaca das marés, Iyámaramalé, Iyámasé, mãe de Xangô,
Awoyó, Iemowô, esta a mais velha de todas e esposa de Oxalá.
***Uma das estórias contadas por antigos Babalawôs diz que Exu, filho
de Yemanjá, se encantou pela beleza da mãe e tomou-a a força tentando
violentá-la, uma grande luta se deu entre os dois, Yemanjá, no entanto,
resistiu á violência do filho, porém, da luta resultou no dilaceramento dos
seios e no rompimento de seu ventre.
Enlouquecido pela fúria e envergonhado pelo que tinha feito, Exú caiu no
mundo, desaparecendo nos confins do horizonte. Caída no chão aos prantos e
envergonhada, tomada por uma grande tristeza pediu socorro ao seu pai Olokún e,
ao criador, Ólorún, que vieram em seu socorro. Da transcendência universal e da
magia dos grandes Orixás, surgiram dos seios dilacerados dois grandes rios que
formaram um grande lago; das lágrimas salgadas deram origem aos mares e de seu
ventre rompido surgiram os Orixás.
Exu, pelo
seu feito, foi banido para sempre da mesa dos Orixás e recebeu como incumbência
eterna ser o guardião e mensageiro e não mais pode se juntar aos outros da
corte.
***Em outro mito, conta-se que Olorun não podendo
governar tudo que criou, se serviu do auxílio de Obatalá, principio ativo da
existência genérica, e de Oduduwa, principio ativo da existência individual,
aos quais, encarregou a reprodução dos Seres: Aganjú, a terra firme e Yemanjá
as águas, produziram Orungã, o ar, que apaixonado pela própria mãe consegue
violentá-la. Envergonhada, foge em desespero. Perseguida pelo filho e cansada
cai ao chão e, ao cair, de seus seios nascem dois rios que ao se juntam mais
além formando um grande lago, e do ventre rompido nasceram os Orixás.
São diversas as versões contadas pelos
Babalawôs, no entanto, todas as versões, em seu contesto, reproduzem os
acontecimentos de uma transcendência histórica revivida nos cultos em dias
atuais.
***Em Ifé,
quando tinha por companhia Olofin, rei daquele reino, possuía com ele dez
filhos. Yemanjá, cansada de sua permanência em Ifé se foi em direção ao oeste.
Outrora, seu pai Olokún lhe havia dado, por medida de precaução, um pote
contendo um preparado, pois, nunca se sabe o que poderá acontecer no dia de
amanhã e com a recomendação de quebrá-lo no solo em caso de extremo perigo. E
assim, Yemanjá se instalou ao entardecer nas terras do oeste. Olofin, rei de
Ifé lançou seu exército a procura da mulher. Cercada pelos guerreiros do rei,
Yemanjá, em vez de deixar-se ser presa e conduzida de volta a Ifé quebrou o
pote, segundo as instruções recebidas de seu pai. Um rio se formou naquele
instante a levando para Okún, o oceano, lugar de morada de Olokún.
***Em outro
mito, Yemanjá foi escolhida por Olorun para ser mãe dos Orixás. Como ela era
muito bonita e todos a queriam para esposa, seu pai Olokún foi consultar a
Orunmilá para saber com quem ela deveria
se casar. Orunmilá mandou que ele entregasse um cajado de madeira a cada um dos
pretendentes, e depois, eles deveriam passar a noite dormindo sobre uma pedra
segurando o cajado para que ninguém mais pudesse pegá-lo. Na manhã seguinte,
aquele que estivesse com o cajado florido seria o escolhido para ser o marido
de Yemanjá. Os pretendentes assim fizeram. No dia seguinte, o cajado de Oxalá
estava repleto de flores brancas. E assim foi realizada a união dos dois
Orixás.
Assim,
Yemanjá foi destinada para cuidar da casa de Oxalá, como também a criação dos
filhos e todos os demais afazeres domésticos. Yemanjá trabalhava, porém,
reclamava constantemente de sua condição menos favorecida, afinal todos os
outros Orixás recebiam oferendas e honrarias e ela não.
Durante
muito tempo Yemanjá reclamou de sua condição, tantos foram os seus reclamos que
Oxalá não agüentou e adoeceu da cabeça, do Ori. No entanto, Yemanjá deu-se
conta do mal que fizera, e utilizando ingredientes mágicos curou Oxalá.
Oxalá
agradecido foi a Olodumare pedir para que desse a Yemanjá o poder de cuidar de
todas as cabeças. Desde então, Yemanjá recebe oferendas e honrarias quando se
faz o Igbori/bori, ritual propiciatório à cabeça, e a todos os demais ritos
específicos à cabeça.
São
estórias míticas como estas e com outras versões que povoam o universo
religioso do candomblé, fazendo parte integrante dos fundamentos, das magias e
das crenças nos rituais.
Yemanjá é
saudada com as palavras: Odô Iyá Eerú Iyá yabá Omí Iyô, suas contas são de um
azul translúcido e branco, o dois de fevereiro é o dia consagrado a este Orixá e
tem seu sincretismo com o catolicismo em Nossa Senhora da Conceição.
Obá
Também
associada ao elemento água e a cor vermelha, Obá é um dos símbolos mais antigos
que, juntamente com Oxún, são denominadas as avós ancestrais. Os mitos relatam
que foi uma das esposas de Xangô. Seu culto não é muito difundido nos
candomblés brasileiros. Divindade guerreira é confundida com Yansã, pois,
possuem as mesmas características. Sua origem pertence ao rio do mesmo nome na
Nigéria, portanto, uma coirmã de Oxún por estar relacionada com as águas doces,
porém, Obá está presente nas águas revoltas das corredeiras, das enchentes e
inundações. Presente também no corisco dos raios das tempestades dado por Xangô,
seu consorte mítico no panteão dos Orixás.
***Um dos
itans, diz que Obá era esposa de Xangô, juntamente com Oxún que, muito esperta,
queria se livrar da rival. Em certo dia, Oxún apareceu com um pano
ensangüentado cobrindo uma das orelhas, Obá, muito curiosa, quis saber o que
tinha acontecido. Oxún, com intuito de enganar a rival, disse que tinha cortado
a própria orelha e colocado na comida de Xangô e este tinha gostado muito, daí
ser sua esposa preferida. Obá, por tanto amor que nutria pelo marido, resolveu
fazer o mesmo; no entanto, repugnado com tal atitude, Xangô expulsou-a do
palácio, ficando ela, somente com sua regência que são as coisas tempestuosas.
Nos candomblés, quando manifestada, lança-se contra os filhos de Oxún,
principalmente se estiverem próximos a Xangô. Este é o motivo pelo qual, quando
manifestada, sempre leva, ou então, ata-se com um turbante a fim de esconder
uma das orelhas. Sua saudação é “Obá
Sire Agbá Elee”, sua cor é a vermelha que é representada nos seus brajás. Seu
dia consagrado é a quarta feira e tem Santa Joana D’arc como representação no
sincretismo católico.
Suas
características são pouco conhecidas, no entanto, temos Obá Gideo e Obá Rewá
que são as mais conhecidas.
Ewá
Ewá
Este é um Orixá feminino e
dona de uma rara beleza. Divindade das coisas belas, alegres e vivas, é
considerada Orixá das mutações, das transformações. A magia de Ewá está
presente nas quatro estações do ano quando evolui e desenha no mundo
modificações nas regiões por onde passa; o frio, o calor, a época das chuvas, a
época das flores, dos frutos e assim por diante. Está nas nuvens que parecem
bailar e formar figuras. Está associada a Ibedji, o Orixá da alegria. Nos mitos
é a filha mais nova de Nãnã. Ewá faz parte do panteão daomeano, mas que foi
conquistado pelos bantos, assim como seus irmãos Oxumaré, Obaluayé e Ogún. É
uma entidade muito confundida, quando manifestada, com Oxumaré quando na fase
bi-polarizada de Bessem. Seus instrumentos de culto são uma cabaça e um ofá,
sua cor é a vermelha e, por motivo de não ser muito cultuada não possui sincretismo
com algum santo católico.
Conta
uma lenda que Ewá era uma caçadora de rara beleza e que cegava aqueles a quem
se atrevesse a olhá-la. Ewá casou com Omulú, que logo se mostrou muito
ciumento. Um dia, envergonhado por seu ciúme doentio, desconfiou da fidelidade
se sua mulher e a prendeu em um formigueiro. Ewá foi mordida quase até a morte,
ficou deformada e feia. Para esconder a deformidade e a feiúra, Omulú a cobriu
com palha da costa vermelha, assim, todos se lembrariam como Ewá havia sido uma
bela caçadora.
***Numa
outra lenda, conta que Ewá tinha dois filhos e os amava muito. Todos os dias
ela ia à floresta em busca de lenha que vendia no mercado. Certa feita, os três
entraram na floresta e se perderam. Ewá, por mais que procurasse se orientar
não pode achar o caminho de volta, mais e mais os três embrenhavam-se na
floresta. As duas crianças começaram a reclamar de fome, sede e cansaço e,
quanto mais caminhavam maior era a sede e a fome. As crianças já não mais
podiam caminhar e clamavam por água. Ewá procurava e não achava nenhuma fonte
ou riacho. Os filhos morriam de sede e Ewá ficava desesperada.
Ewá implorou aos deuses, pediu a Olodumare e
deitou-se junto aos filhos. Ali, onde se encontrava, Ewá transformou-se numa
nascente de água cristalina e fresca onde as crianças beberam. Os filhos de Ewá
estavam salvos e a água continuou jorrando da nascente e, daquelas águas,
formou-se um grande lago originando o rio Ewá, o Odo Ewá.
***Ewá,
filha de Obatalá e Nãnã vivia em um castelo como se estivesse numa clausura. A
fama de sua beleza ultrapassava as fronteiras daquele reino. Xangô, que possuía
seu reino não muito distante, soube do fato. O sedutor Orixá planejou como ia
seduzir Ewá. Disfarçado, empregou-se como jardineiro no palácio de Obatalá. Um
dia, Ewá apareceu na janela e admirou-se de Xangô, pois, nunca tinha visto um
homem como aquele. Apaixonada, Ewá entregou-se a Xangô; no entanto, arrependida,
pediu a seu pai que lhe mandasse para um lugar onde nenhum homem a visse.
Obatalá deu-lhe então o reino dos mortos. Desde então, passou a chamar-se
Ewáguéen, é ela que entrega à Oyá os cadáveres que Obaluayé conduz para que
Orixá Okó o coma.
Muitas lendas são contadas sobre Ewá, Orixá das transformações
e deusa da beleza. Uma delas, conta que a bela virgem se entregou à Xangô,
despertando ciúmes e a ira de Oyá. Ewá refugiou-se nas matas impenetráveis onde
Oxóssi a protegeu, e com ele tornou-se uma guerreira e caçadora habilidosa e
valente. Desta forma, conseguiu frustrar a vingança de Oyá afastando de si a
morte certa e, em um dos Orikis narra esta estória em forma de poema.
...Era
mais que o medo, era o medo, era a noite na noite do medo; Era o vento, era a
chuva, era o céu e o ar, era a vingança de Oyá.
Assustava
o escuro da noite e assustava a luz dos raios, o silêncio se ouvia da noite nos
pés medrosos que corriam sobre poças de água na areia batida. Até o silêncio
fugia do rugido dos trovões; Era o medo, era mais que medo de Ewá. Correndo
sobre poças de areia batida o mar lambia seus pés querendo tragá-la pela boca
faminta de coisas vivas. A noite engolia em sua goela escura e a vomitava no
clarão dos raios azulado, e a luz dos raios brilhava no corpo nu e úmido de
Ewá.
Na
transcendência, Ewá domina a vidência, um dos atributos que Orunmilá lhe
concedeu. As mulheres virgens contam com sua proteção, não só estas, mas também
tudo que é virgem.
Ewá aparece também na mitologia Jêje como um Vodun com a denominação de
Eowá, o que pode ter causado uma interpretação errada gerando daí algumas
polêmicas. Há quem diga também que, a exemplo de Oxumaré, Nãnã, Omulú, Iroko e
Ogún, ela era cultuada pelo povo Mahi e foi assimilada pelo povo yorubá e inserida
no panteão dos Orixás. Desta forma, pode-se entender que, Ewá pertencente ao
panteão yorubá e nada tem há ver com Eowá, Vodun da família Dambirá pertencente
ao panteão Jêjê, sendo apenas uma correspondência sincrética.
Quanto a estória de Eowá, Vodun, conta uma lenda que foi uma cobra muito
traiçoeira e cheia de maldades, foi expulsa do convívio do povo Jêjê e encontrou
abrigo entre os yorubás que a
transformaram em uma bela serpente, surgindo daí, o mito do Vodun Dan,
uma serpente que engolia a própria cauda formando um circulo denotando a
continuidade. Em alguns mitos, diz ser a metade feminina de Oxumarè. Por esse
motivo Ewá e Oxumaré sempre dançam juntos em encontros ocasionais.
***Outra lenda sobre Ewá, conta que ela vivia em um belo
castelo com seu pai Obatalá. Bela e encantadora, não havia até então
demonstrado algum interesse por algum homem. Um belo dia chegou ao reino um
jovem, seu nome era Boromu. Encantada pela figura máscula do jovem Ewá se
apaixona e, não demora muito todos os habitantes daquele reinado passam a
cochichar dizendo que Ewá estava enamorada daquele forasteiro. Obatalá, seu
pai, garantiu a todos que Ewá era a mesma jovem de antes, pois, depositava toda
confiança na filha. O tempo passou e a jovem Ewá tornou-se triste e infeliz em
não poder revelar ao seu pai um segredo, ela encontrava-se grávida.
Envergonhada pelo ocorrido pôs-se em
fuga e, refugiando-se nas matas em terras distantes, não demorou muito Ewá teve
um filho.
Preocupado com o sumiço da filha, Obatalá
mandou que todo o reino fosse vasculhado até encontrá-la. Boromu, o forasteiro,
também foi procurá-la e, depois de vasculhar muitas florestas achou-a
desfalecida em uma clareira vestida apenas com uma roupa bordada com búzios.
Quando Ewá acordou relatou o acontecido
à Boromu, pois, tinha vergonha de apresentar-se diante de seu pai. Como tinham
se passado alguns dias, Ewá perguntou pelo filho. Boromu, querendo que Ewá
voltasse logo ao castelo, escondeu a criança em outra parte da floresta, porém,
quando foi buscá-lo não mais o encontrou.
Yemanjá, que vez por outra saia do mar e
adentrava nas matas, encontrou o recém nascido e o criou como seu filho fosse,
e Ewá não mais o encontrou.
Algum tempo depois Ewá encaminhou-se ao
palácio para pedir perdão a seu pai, porém, este ainda estava irado com o
ocorrido. Ewá então foi expulsa do palácio por seu pai. Envergonhada e com o
rosto coberto com búzios, foi viver no cemitério, longe de todos os seres vivos
e não mais viu seu filho que foi criado por Yemanjá.
Esta lenda possui outra versão, na qual,
Borumu é um dos nomes de Xangô, e relata o seguinte:
Ewá, filha de Obatalá, vivia
enclausurada em seu palácio. O amor de Obatalá, seu pai, por ela era
possessivo. A fama da beleza de Ewá chagava a toda parte, inclusive aos ouvidos
de Xangô que era muito mulherengo. Xangô então planejou seduzir Ewá e, para
isso, empregou-se no palácio como jardineiro. Um dia Ewá apareceu na janela e
deslumbrou-se com aquele jardineiro, pois, nunca vira um homem tão fascinante.
Xangô, aproveitando-se da situação, passou a conviver no palácio e deu
muitos presentes a Ewá. Deu-lhe uma cabaça com búzios e uma cobra como enfeite
por fora, mas, com mil mistérios por dentro, um pequeno mundo de segredos. Deu-lhe
também um adô. E Ewá, agradecida, entregou-se a Xangô que a fez muito infeliz,
porém, um dia ela renegou sua paixão. Decidiu retirar-se do mundo dos vivos
pedindo à Obatalá que a enviasse para um lugar bem distante, onde homem algum
pudesse vê-la novamente. Obatalá deu então à Ewá o reino dos mortos, reino que
os vivos temem e evitam. Desde então é ela quem domina no cemitério, juntamente
com Oyá os cadáveres dos humanos, os mortos que Obaluayè conduz a Orixá Okó, o
qual devora para que voltem novamente à terra, terra de Nãnã do qual um dia
foram feitos. Ninguém incomoda Ewá no cemitério.
***Ewá atemoriza Xangô no cemitério.
Numa manhã coberta de neblina sem
suspeitar onde se encontrava, Xangô dançava com alegria ao som de um tambor.
Xangô dançava alegremente em meio a névoa quando apareceu uma figura feminina
enredada na brancura da manhã. Ela perguntou-lhe por que dançava e tocava
naquele lugar. Xangô, sempre petulante, respondeu-lhe que fazia o que queria e
onde bem lhe conviesse.
A mulher escutou e respondeu-lhe que
ali ela governava e desapareceu. Porém, ela lançou sobre Xangô os seus eflúvios,
e a névoa dissipou-se deixando ver as sepulturas. Xangô era poderoso e alegre,
mas temia a morte e os mortos, os Éguns. Aterrorizado Xangô saiu correndo.
Mais tarde Xangô foi consultar
Orunmilá, este, disse-lhe que aquela era Ewá, a dona do cemitério. Ele estava
dançando na casa dos mortos. Xangô sentia pavor da morte e desde então nunca
mais entrou num cemitério.
***Ewá casa-se com Oxumarè.
Ewá andava pelo mundo procurando um
lugar para viver. Viajou até a cabeceira dos rios e lá, junto às fontes e
nascentes escolheu sua morada. Entre as águas Ewá foi surpreendida pelo encanto
e a maravilha do Arco-Íris, e dele Ewá se enamorou. Era Oxumarè que a
encantava. Ewá casou-se com Oxumarè e, a partir daí vive com o Arco-Íris,
compartilhando com ele os segredos do universo.
***Ewá livra Orunmilá da perseguição da morte. (uma das várias
versões)
Orunmilá era um babalawô que estava com
um grande problema. Orunmilá estava fugindo da morte, de Ikú, que o queria
pegar de todo jeito. Orunmilá fugiu de casa para se esconder. Correu pelos
campos e ela sempre o perseguia. Correndo e correndo, Orunmilá chegou ao rio.
Viu uma linda mulher lavando roupa. Era Ewá lavando roupa junto à margem. ”Por
que corres assim, senhor? De quem tentas escapar? Orunmilá só disse: ”hã, hã”.
Foges da morte? Perguntou Ewá. Sim, respondeu ele.
Ewá então o acalmou. Ela o ajudaria.
Ewá escondeu Orunmilá sob a tábua de lavar roupa, que na verdade era um
tabuleiro de Ifá, com fundo virado para cima. E continuou lavando e cantando
alegremente. Então chegou Ikú, a morte. Esbaforida, feia e nojenta, a morte
cumprimentou Ewá e perguntou por Orunmilá. Ewá disse que ele atravessara o rio
e que àquela hora devia estar muito, muito longe, muito além de outros rios.
Ewá tirou Orunmilá de sob a tábua e o
levou para casa são e salvo. Preparou um cozido de preás e gafanhotos servido
com inhames bem pilados. À noite Orunmilá dormiu com Ewá e Ewá engravidou. Ewá
ficou feliz pela sua gravidez e fez muitas oferendas a Ifá. Ewá era uma mulher
solteira e Orunmilá com ela se casou. Foi uma grande festa e todos cantavam e
dançavam. Todos estavam felizes. Ewá cantava: ”Orunmilá me deu um filho”.
Orunmilá cantava: ”Ewá livrou-me da morte”. Todos cantavam: ”Ewá livra de Ikú”.
Todos cantavam: ”Ewá livra de Ikú”.
***Ewá é escondida por seu irmão
Oxumarè.
Filha de Nãnã também é Ewá. Ewá é o
horizonte, o encontro do céu com a terra. É o encontro do céu com o mar. Ewá
era bela e iluminada, mas era solitária e tão calada. Nãnã, preocupada com sua
filha, pediu a Orunmilá que lhe arranjasse um amor, que arranjasse um casamento
para Ewá. Mas ela desejava viver só, dedicada à sua tarefa de fazer criar a
noite no horizonte, mandando sol com a magia que guarda na cabeça adô. Nanã
porém, insistia em casar a filha.
Ewá pediu então ajuda a seu irmão Oxumarè.
O Arco-Íris escondeu Ewá no lugar onde termina o arco de seu corpo. Escondeu
Ewá por trás do horizonte e Nãnã nunca mais pôde alcançá-la. Assim os dois
irmãos passaram a viver juntos, lá onde o céu encontra a terra. Onde ela faz a
noite com seu adò.
***Ewá
era filha de Nãnã, também filhos de Nãnã eram Obaluayé, Oxumarè e Ossayn, esses
irmãos regiam o chão da Terra. A terra, o solo, o subsolo, era tudo
prosperidade de Nãnã e sua família.
Nãnã queria o melhor para seus filhos,
queria que Ewá casasse com alguém que a amparasse. Nãnã pediu a Orunmilá bom
casamento para Ewá. Ewá era linda e carinhosa, mas ninguém se lembrou de
oferecer sacrifício algum para garantir a empreitada.
Vários príncipes ofereceram-se
prontamente a desposar Ewá, eram tantos os pretendentes que logo uma contenda
entre eles se armou. A concorrência pela mão da princesa transformou-se em
pugna incessante e mortal. Jovens se digladiavam até a morte.
Vinham de muito longe e lutavam como
valentes guerreiros para conquistar sua beleza, mas a cada vencedor, Ewá não se
decidia. Ewá não aceitava o pretendente, vinham novos candidatos e outros
combates, Ewá não conseguia decidir-se, ainda que tão ansiosa estivesse para
casar-se e acabar de vez com o sangramento campeonato.
Tudo estava feio e triste no reino de
Nãnã, a terra seca, o sol quase apagara e só a morte dos noivos imperava. Ewá
foi então à casa de Orunmilá para que ele a ajudasse a resolver aquela situação
desesperadora e pôr um fim àquela mortandade.
Ewá fez os ebós encomendados por Ifá,
os ventos mudaram, os céus se abriram, o sol escaldava a terra e, para o
espanto de todos a princesa começou a desintegrar-se, foi desaparecendo,
perdendo a forma, até evaporar-se completamente e transformar-se em densa e
branca bruma...E a névoa radiante de Ewá espalhou-se pela Terra.
Nãnã Burukú
A terra associada à água, a lama, está associada
diretamente a Nãnã Burukú que também conhecida como Nãnã Buruquê. Sua origem é
da nação Jêje, da região de Dessa Zumbe e Savê no Daomé, atualmente república
do Benin. Nãnã foi incorporada ao panteão dos deuses yorubás quando estes
dominaram os Jêjes. É a mais temida e um dos mais respeitados Orixás, isso por
ser a mais velha, poderosa e séria entidade ancestral feminina. Possui aspecto
maternal com a morte, pois, a relação com esse elemento é que propicia a
agricultura, fornecendo aos grãos plantados a fertilidade do solo que, para gerar
há de haver o ressarcimento; o que ocorre com as coisas mortas em seu interior
e, por esses motivos, tem por consideração como sendo o Orixá da fecundação.
No aspecto mítico, entre o mundo dos
vivos e o mundo dos mortos existe um portal, é a passagem, a fronteira entre a
vida e a morte e, neste portal, Nãnã é a senhora e geradora da morte, Ikú. Seus
cânticos nos rituais são súplicas para que leve Ikú para longe, para que a vida
seja mantida. Nãnã representa uma das forças mais importantes no ciclo da
natureza, a força que os Seres humanos mais temem. Representa também a senhora
da passagem desta vida para outra no comando do portal de passagem entre as
duas dimensões.
Nãnã Burukú está presente nos lamaçais,
no lodo e na lama, lugar de sua origem. Nasceu da interação água e terra, o que
formou a lama dando origem a sua própria vida. É conhecida também por Iniê em
alguns lugares. No Daomé, África, é denominada Mawú em seu aspecto feminino, e
Lisa no aspecto masculino, dizem, ser o casal gerador da humanidade.
Em alguns mitos aparece como esposa de
Oxalá e ainda como mãe de Obaluayé e Oxumarè, Orixás precedentes da mesma
região de sua origem.
***Na
transcendência, Nãnã Burukú é a mãe de Obaluayé, e conta um de seus mitos que
travou uma batalha com Ogún, por este, se sentir no direito de passar pelos
seus domínios. Por ser forte e valente guerreiro não admitia pedir licença a
uma velha, porém, diante das dificuldades e perigos que representavam os
pântanos, Ogún foi obrigado a bater em retirada e procurar outro caminho longe
daquele lugar. Nãnã, a partir de então, aboliu o uso de ferramentas e
instrumentos de metal em seus domínios, e até hoje nada pode ser feito para
este Orixá utilizando qualquer instrumento de metal.
***Outra
historia, conta que Nãnã ocupava o cargo de juíza no reino do Daomé, era ela
quem julgava os homens pelos seus atos, e era muito respeitada pelo que fazia.
Morava em uma casa onde tinha um grande bosque com jardins e, quando uma das
mulheres da aldeia apresentava alguma reclamação de seus maridos, Nãnã
amarrava-os a uma das árvores do bosque e mandava que os Éeguns o assustassem.
Certa noite chegou a ela uma reclamação
de Yansã sobre Ogún, e este foi amarrado a uma árvore, mas conseguiu fugir e
foi consultar Ifá. Ficou acertado que Oxalá tiraria os poderes de Nãnã. Oxalá,
então, aproximou-se de Nãnã e ofereceu a ela uma poção mágica feita de igbim.
Ao beber o preparado Nãnã adormeceu. Oxalá então se vestiu de mulher e,
imitando o jeito de Nãnã, pediu aos Éeguns que fossem todos embora do jardim
para sempre. Quando Nãnã acordou e percebeu o que Oxalá tinha feito, mandou que
Oxalá tomasse do mesmo preparado, assim o fez, no entanto, foi seduzido. Oxalá
saiu correndo e contou o ocorrido a Ogún. Indignado, este cortou relações com
Nãnã.
O ibirí, um opá, objeto ritual
representando o poder genitor feminino, representa Nãnã Burukú; é um atado de
nervura de palmeira e ornado com búzios e contas nas cores, azul escuro e alternadas
de brancas, são elementos pertencentes aos seus rituais que constituem seu axé.
Denominada mãe ancestral, possui suas características/qualidades, pois, quando
manifestada é a representação fidedigna de uma anciã que, com passos lentos
acompanha o tempo infinito por estar relacionada com a Terra e aos ancestrais.
Um dos seus princípios é o de possuir
relação com os Ikú Órún, descendentes nascidos de seu ventre no Ayé, a Terra, e
com a fertilidade, tanto do solo quanto dos Seres onde a magia da vida
transcorre e, além disso, está também associada com as Iyá agbá, ancestrais
femininas da sociedade egbé eleyé, as possuidoras de pássaros. Conta um mito que
Nãnã Burukú é filha do poderoso pássaro Atioró que, após seu falecimento, Nãnã
embrenhou-se nas matas e fundou seu império tornando-se a Iyá-lóde-ilú. No
Daomé, Nãnã era considerada a deusa mais guerreira.
Seus filhos a saúdam: “Saluba Orixá
agbá inlá Nãnã Burukú”, seu dia consagrado é segunda feira e no sincretismo
católico é representada por Sta’Ana.
Conta uma estória que em certo dia foi conquistar o
reino de Oxalá, mas, quando lá chegou apaixonou-se por ele, porém, Oxalá não
queria nenhum envolvimento com ela, pois adorava sua companheira Yemanjá, e por
isso, ele explicou a Nãnã, porém ela não se fez de rogada. Sabendo que Oxalá
gostava de vinho de palma, embriagou-o, e ele ficou tão bêbado que se deixou
seduzir por Nãnã que acabou ficando grávida. Mas, por ter transgredido uma lei
da natureza, deu a luz a um menino horrível que recebeu o nome de Obaluayé; não
suportando vê-lo, lançou-o no rio onde a criança foi mordida pelos caranguejos
ficando todo deformado e com uma terrível aparência, seu corpo quase
desfalecido foi encontrado numa praia por Yemanjá.
Esta lenda é contada, juntamente com
outras historias e diz que Obaluayé, por seu aspecto terrível, passou a viver
distante dos outros Orixás. São lendas e estórias que fazem parte da cultura,
do mito criado para explicar a transcendência dos Orixás.
Ibédji (os Erês).
Denominados de Erês nos Candomblés
brasileiros, são considerados Seres divinizados e possuidores de poderes
místicos com funções específicas quando relacionados aos Orixás; são eles, os
mensageiros imediatos do universo astral entre o Orixá e o iniciado, yawô, que,
com palavras intermedeiam a satisfação ou as quizilas manifestadas devido a
algum procedimento material ou pessoal não adequado à iniciação..
Ibedji na
nação Kêtu ou Vungi nas nações de Angola e Congo, é considerado o Orixá
criança, é a divindade das brincadeiras, dos divertimentos. Sua regência está
ligada à infância. Apesar de, uma convivência passiva diante dos rituais,
manifestam-se através de seus Orixás recebendo suas oferendas e representações
que são compostas dos mesmos elementos àquele ofertados, acrescentado de
guloseimas e brinquedos, alguns deles, no entanto, não apreciam tais oferendas,
são mais receptivos a frutas e possuem um comportamento mais juvenil que
infantil.
Cada Orixá
possui seu Erê, um entre uma falange, que se faz num desdobramento infinito,
pois estes representam o renascimento, a virtude e a energia inicial de todo um
ciclo de existência.
Na
composição de seus adereços, roupagem e brajás, estão implícitas as
representações do Orixá maternal ou paternal, o qual também delimita poderes e
ações. Subordinados, tem como princípio a obediência e, apesar de
comportarem-se como crianças, tornam-se exímios na magia devido a grande força
astral neles concentrada, por isso também, tornam-se elementos primordiais na
concepção das obrigações dos iniciados, participando, incorporados ou não, de
tudo que for relacionado quanto ao aprendizado, tornando-se assim uma ligação
entre o mundo material e o universo astral.
Independente das nações a que pertençam, são representados no
sincretismo em São Cosme e São Damião, os santos gêmeos cristãos, porém, nas
casas de origem Bantu, essas divindades são conhecidas como Vunge e não é
considerado como divindade em separado, isso por possuírem uma conotação aos
nascidos gêmeos.
Muito
raras são as lendas relacionadas aos Ibedji, mas, uma delas, conta que foram
filhos gêmeos de Yansã, porém, ela não os quis e os jogou num rio. Oxún que
estava nas águas os salvou e os criou. Na África os Ibedjis são indispensáveis
em todos os cultos, são respeitados, cultuados e sempre acompanhando um Orixá,
igualmente como aqui no Brasil.
Mesmo
sendo, cultuados nos candomblés das diversas nações, algumas, no entanto, não
aceitam o sincretismo com os santos católicos.
***Em uma
das lendas existentes, diz que na aldeia de Ifé tudo transcorria na maior
felicidade e tudo prosperava na maior tranqüilidade. Um dia a Morte resolveu
por lá se instalar e tudo começou a dar errado. As fontes secaram e as lavouras
não produziam mais alimentos. O gado morria e tudo o mais definhava, o
desespero fazia com que as pessoas se agredissem umas às outras que morriam ou
ficavam doentes, e a Morte, roubava-lhes a vida. A Morte fartava-se no grande
banquete e, os sobreviventes choravam seus mortos.
O rei
mandou vários emissários falarem com a malvada Morte, que sempre respondia que
não fazia acordos e ia destruir tudo e a todos, e mandava um recado dizendo
que, se alguém fosse forte o bastante para enfrentá-la que tentasse, mas seu
fim seria ainda muito mais sofrido. E ria dizendo: ...para isso, basta que uma
pessoa me obrigue a fazer o que não quero, e completou,...mas só vou dar essa
oportunidade a uma única pessoa.
E quem se
atreveria a enfrentar a Morte? Quem, se todos os guerreiros já estavam mortos
ou doentes?
Foi então
que dois meninos, os Ibedji, irmãos gêmeos, Taió e Caindê, filhos de Ifá,
resolveram pregar uma peça naquela horrenda criatura, a Morte, antes que toda a
aldeia fosse dizimada completamente.
Os gêmeos
pegaram um tambor mágico que costumavam tocar e saíram à procura da Morte, e
não foi difícil achá-la. Estava numa estrada próxima em busca de mais vítimas.
Sua presença era anunciada do alto por um bando de urubus e pelo mau cheiro que
exalava. Os gêmeos, tapando o nariz com um pano se esconderam no mato que
ladeava a estrada e esperaram que a Morte se aproximasse. Não tardou para que
ela chegasse, sua imagem era horrenda, no entanto, estava feliz e até
cantarolava e bailava, era o canto e a dança da morte.
Nesse
momento numa curva da estrada, enquanto um dos gêmeos ficava escondido, o outro
saltava do mato a poucos passos da Morte, saltou com seu tambor mágico e tocou
sem parar, com determinação. A Morte se encantou com o ritmo e, com seu passo
trôpego, ensaiou uma dança muito sem graça. E lá foi ela dançando atrás do
menino e de seu tambor mágico.
Passou um
bom tempo e mais tempo passou, e o menino não parava de tocar. A Morte começou
a cansar. O dia deu lugar à noite e o menino tocava o tambor sem parar, e a
Morte dançava. O menino ia à frente e a Morte o seguia mais atrás já exausta.
Não agüentando mais, A Morte dizia, ...pára de tocar menino vamos descansar um
pouco. E o menino não parava. Pára de tocar esse tambor menino ou hás de me
pagar com a vida. E ameaçava. E o menino não parava de tocar. Pára que eu não agüento mais, dizia a Morte.
E o menino não parava.
Taió e
Caindé eram gêmeos idênticos, ninguém sabia distinguir um do outro, nem mesmo a
Morte, por isso, o menino que a Morte via tocando o tambor sem parar na estrada
não era sempre o mesmo; um tempo tocava Taió e outro tempo tocava Caindé, isso,
devido a um estratagema; enquanto um tocava, o outro seguia escondido por
dentro do mato, e a troca era feita sempre numa curva da estrada. E assim, um
substituía o outro sem serem vistos pela Morte que continuava a bailar.
Após um
longo tempo, não agüentando mais, a Morte gritou: pára de tocar esse tambor
maldito, eu faço tudo que me pedires! O menino olhou para trás e disse: Pois
então vá embora e deixe minha aldeia em paz.
E foi
assim que a Morte aceitou em ir embora.
Tocando o
tambor e dançando, os gêmeos voltaram à aldeia para dar as boas novas a todos.
Em pouco tempo a vida voltou ao normal e a paz reinou novamente. Muitas
homenagens foram feitas aos Ibedjis.
Nos tempos
atuais relembramos os Gêmeos Taió e Caindé nas festas de Erê, quando são feitos
os ritos e distribuídos presentes e guloseimas às crianças.
Oxalá.
É o
principal Orixá na constelação do panteão africano e o mais respeitado nos
Candomblés brasileiros. Considerado o grande Orixá Funfun, ocupa posição única
e mais elevada por ser o criador mítico de todos os Seres e é cognominado o
Senhor do silêncio. Por ter apreciado muito o vinho de palma, embriagou-se e
perdeu a primazia de ter criado a Terra, episódio este, contado no mito da
criação, porém, tornou-se o responsável pela vida dos Seres.
No aspecto transcendental e mitológico Oxalá
possui dualidade, quando jovem é um enérgico guerreiro cognominado Oxaguian,
quando velho Oxalufan, este, lento como o tempo do universo. É o mais sábio dos
Orixás e tem seu principio em Orixalá, Orixá Funfun que faz do branco o seu
domínio.
Lembá,
Kasulembá, Obatalá, Orixalá, Orixalá, são alguns dos nomes que designam Oxalá,
isto em virtude das diversas regiões africanas onde seu culto foi mais
difundido. Como todos os Orixás, suas
várias características/qualidades ficam na dependência das diversas nações a
que seu culto é desenvolvido. Em alguns mitos, Oxalá é o sol e Oxaguian são
seus raios. Na África, Ossayn, em algumas regiões é considerado o Oxalá moço e
jovial, mas que também recebe outras designações: Oxadinhan, também Oxalá moço;
Oxágyriiyan, Oxalá com aspecto feminino; Oulissa, Oxalá para a Nação Jêje;
Oxalufã, Oxalá velho. Olokun é a denominação do deus dos mares, que também é atribuído
à Oxalá do mar em algumas Nações. Orixalá é para muitos o Oxalá do meio dia;
Obiam, em alguns mitos, é mencionada como esposa de Oxalá. Muitos acreditam que
também pode ser Orixá Okó, o Oxalá da agricultura, Obá Okê, Oxalá da montanha,
Oráminhã, o filho de Oduwa e Obatalá, Orixalá, rei dos Orixás e ainda Camamburá
o Oxalá do raiar do dia.
Fica
evidente que em cada uma das denominações, Oxalá recebe e está na dependência
ao culto, nação, ou seguimento cultural a que pertença; porém, muitos deles não
são conhecidos pelo fato de não ter havido uma transferência da origem africana
para o Candomblé brasileiro. Portanto, ficam restritos somente alguns registros
para fins de um conhecimento mais profundo sobre Oxalá, excetuando assim,
cultos não desenvolvidos aqui no Brasil.
Numa outra listagem podemos citar mais
algumas características/qualidades ou mesmo denominações, estas, muito mais
restritas. Okin, Lulu, Baba Roko, Baba Epê, Baba Lejugbá, Akanjápriku, Ifiru,
Kerê, Baba Igbó, Ajagunã e muitos outros. A grande listagem existe devido ao
grande número de tribos espalhadas pelo território africano influenciadas pelas
culturas dominantes. Um mesmo deus, Orixá, para muitos nomes.
Oxalá recebe o titulo de Elééjgbó, rei
de Ejigbó, que, curvado sob o peso dos anos carrega um cajado onde apóia o
opáxoró, cajado de forte simbologia.
Oxaguian
Guian – Oxaguian - Ogyan o Senhor do Dia...
Guian – Oxaguian - Ogyan o Senhor do Dia...
O Orixá do progresso e da cultura,
Orixá da vida e também da efervescência, da discussão, da guerra, do avanço, da
estratégia, da inteligência, da criatividade, do branco, do claro, do positivo
e do masculino.
Apregoado nos candomblés como Orixá
moço, às vezes como criança e às vezes adolescente não passando de jovem, mas
quase adulto. Também é conhecido por Ajagunan, brinda o Universo com vida, com
energia, com o lúdico, com a guerra e com a cultura. Traz o dia, traz o tempo,
traz a evolução e o ritmo.
Este controvertido Orixá, apenas
superado em controvérsia por Exu, já traz os paradoxos em sua criação, pois,
para alguns ele é filho mítico de Oxalá com Yemanjá, mas, para a grande maioria
da cultura nagô, este Orixá é o próprio Oxalá em idades mais tenras. Sua missão
não era apenas a de administrar a criação, mas também de lançá-la ao
desenvolvimento. A natureza destes dois aspectos em um mesmo Orixá é muito
distinta e, ao mesmo tempo semelhante, pois, ao mesmo tempo em que é separado
em duas distinções/qualidades, é unido em um mesmo Orixá, Oxaguian e Oxalufan –
Oxalá - ar.
Nascido do Odú Eji-Ogê, o primeiro
elemento, com ele veio o dia e a criação da vida que não pode realizar a não
ser com a intervenção de sua irmã Oduduwa ou Oduwa – água - nascida logo após
pelo Odú Oyeku, o surgimento da luz e sombras. Miticamente a luz representa a
vida e as sombras representam a morte que, unidos, terminaram a tarefa. Masculino
e feminino resultou, conforme o conceito nagô, na criação dos nove mundos e do
Ayé, a Terra, e tudo que nela habita.
O terceiro elemento, elemento dinamizador
foi Exu, que, com sua forma esférica rolou pelo espaço criado, dando impulsão
aos astros, e assim estava formado todo o universo.
Existe uma lenda que explica a criação da Terra, que
diz ter sido uma galinha com cinco garras que espalhou um montículo de terra. Na
mesma lenda, conta que outros Orixás vieram para auxiliar na construção do Ayé
– a Terra. Diz a lenda, que Oxalá, o jovem Guian e Ogun trabalharam arduamente
e, em dado momento, a espada de Oxaguian que era de cristal se parte com o peso
da Terra, a espada celestial rompera-se sob a pressão de tanto trabalho. Sem saber
como continuar a tarefa, Ogun que presenciou o ocorrido, ofereceu sua espada
para que Oxalá continuasse a trabalhar, enquanto isso, Ogún, com as próprias
mãos fazia sua parte.
Ogún passa então a ter o eterno
prestigio com Oxalá que está constantemente presente em todos os trabalhos,
mesmo sendo Ogun um Ebóra e Oxalá um Erunmalé. Por esse motivo, os dois Orixás
dividem algumas regências, ou seja: o jovem Oxaguian e Ogun possuem espíritos
aguerridos de luta, de progresso tecnológico e cultural, mesmo sendo distintos
um do outro.
Oxaguian é o Orixá da vida, do dia, do
masculino, do progresso e da batalha, enquanto primordialmente, Ogun era o
Orixá da caça, porém, mais tarde entregou a tarefa para seu irmão Oxóssi. Ogun
então ganhou o mundo se ocupando do progresso humano, dele, surgiu o ferro e,
com a ajuda de Ifá, as ferramentas para a paz e para as guerras. Assim, o
ferro, o metal mais necessário, tornou-se sempre rivalizado com o fogo, porém,
com essa hegemonia, criou uma rivalidade e contenda com Xangô.
Quando Ogun descobriu o ferro, todos os Orixás
o invejaram, no entanto, nem o próprio Ogun sabia o valor da descoberta, porém,
Oxaguian foi quem revelou a utilidade do duro metal quando desenvolveu as
ferramentas e Ogun as confeccionou. E assim, Ogun e Oxalá produziram todos os
instrumentos de trabalho na agricultura, na construção e da guerra.
Desta forma é que o pensamento nagô traduz a criação e o desenvolvimento
no principio do mundo. Ogun tornou-se o patrono da construção, do progresso, da
agricultura, da tecnologia e da guerra. Nos ritos dançados nas casas de culto,
quando manifestados, Ogun e Oxaguian utilizam de suas ferramentas, apresentando
seus instrumentos de trabalho e de guerra, a espada, a lança, o escudo e o
pilão.
Há de se atentar que, esses
instrumentos, são apenas ilustrações conceituais para representar o trabalho, a
luta, a criatividade, o progresso, a disposição humana em defender-se das
dificuldades, a batalha diária em busca de melhores condições de vida. Fica entendido
também que, Oxaguian é o Orixá da guerra, da batalha do dia a dia, enquanto Ogun,
ao seu lado, torna-se o general em comando, o que vai à frente abrindo espaços
para o desenvolvimento e o progresso, mas, mas quando Furioso, torna-se uma
força indomável.
O nome Oxaguian vem de uma lenda em que o senhor de
Ejigbô gostava muito de comer inhame pilado, de tal modo que inventou o pilão
para que ficasse mais fácil de fazer sua comida predileta; desta forma, seus
amigos passaram a chamá-lo de Oxaguian, que significa Orixá comedor de inhame
pilado. Um dia Awoledjé, que era seu babalawô, resolve partir em peregrinação
após lhe dar sábios conselhos sobre como dirigir sua cidade recém-conquistada.
A cidade era Ejigbó e tornou-se a grande cidade que Awoledjé previra. Com
grandes muralhas, grandes construções, muito luxo e um grande exército.
Awoledjé quando retornou mal reconheceu a cidade e, diante dos portões dirigiu-se
aos porteiros e pediu para ver o comedor de inhames. Isso bastou para que os
soldados ficassem absolutamente indignados com o tratamento desrespeitoso do
forasteiro em relação ao seu Rei. E então, após surrá-lo bastante, o prenderam
nas masmorras. Muito triste com o tratamento recebido pela cidade que havia
ajudado a fundar, Awoledjé fez um encanto que trouxe a esterilidade e a seca
para Ejigbó, nada mais se produzia. Passado alguns anos, reinar era
impraticável. Foi então que Oxaguyan pediu para os adivinhos descobrirem o que
se passava com seu reino. E ifà lhe diz que um amigo foi preso injustamente em
seu reino, este era o motivo de tudo. Imediatamente foram repassados todos os
veredictos do reino, e foi quando Awoledjé reencontra seu amigo transfigurado
pelos maus tratos recebidos. Oxaguyan, desconsolado dizia para si como pôde ter
feito aquilo ao melhor dos amigos. Imediatamente mandou lavarem Awoledjé, o
alimentarem com as melhores comidas e vesti-lo de branco, o traje de honra e,
após todo o tratamento, convenceu Awoledjé que retirase o encantamento que
secava toda a terra e o seu povo. Awoledjé aceitou, porém, impôs uma condição:
todos os anos, no fim da seca, todos os habitantes de Ejigbó deveriam
dividir-se em duas tribos, as quais se golpeariam com varetas de madeira até
estas se quebrarem. Assim foi feito e assim ocorre até os dias atuais. Em
Ejigbó, nesta época, se dividem os bairros de Ixalê Oxolô e Okê Makpo para
golpearem-se até quebrarem-se todas as varetas, esperando que a chuva venha e a
fertilidade retorne.
Esta lenda demonstra que, além de
Oxaguian portar suas armas, também porta o irukeré, feito de um rabo de cavalo
branco, um símbolo de sua realeza e também a vareta de amoreira, que demonstra
ser ele possuidor de uma forte ligação e regência sobre os mortos. Oxaguian, o
Orixá da vida, por excelência, é também da vida pós-vida rege também os mortos
e suas lembranças.
Ogun e
Oxaguian (Ajagunan)
Ogun e Oxaguian/Ajagunan estavam guerreando para
aumentarem seu território, ambos buscando sempre aumentar os seus domínios,
desta forma permaneciam muitos anos em total combate, com toda a certeza mais
por gosto do que pelo valor dos espólios de guerra.
Em certa época Oxaguian retorna à Iré,
cidade de Ogun, para buscar mais armas e munição a fim de manter a luta.
Chegando à cidade de Ogún e já com os carros cheios de munição, percebeu que
ocorria uma grande festa. Oxaguian perguntou o que estava ocorrendo; e lhe
responderam: Estamos festejando porque acabamos de construir um palácio para o
nosso senhor Ogun, e ficou muito bonito.
Oxaguian olhou e viu que realmente não
estava nada mal, era um bonito palácio e fez outra pergunta: Agora que vocês
construíram este palácio, o que farão?”
E responderam: Agora, vamos parar e
descansar, festejando o nosso feito.
E Oxaguian retrucou: Observem,...seu
rei Ogun não retornará tão cedo, demorará ainda algum tempo lutando na guerra,
ao invés de descansarem sobre seus feitos, porque não constroem um castelo maior e melhor?
E dizendo isso abateu sua espada sobre
o castelo derrubando-o e depois voltou para a guerra.
Alguns anos se passaram. Retornou à Iré
para buscar mais armas e munição para a guerra que não terminava. Chegando,
percebeu que havia outra festa. Foi procurar saber e lhe responderam: Estamos
festejando porque finalmente acabamos de reconstruir o castelo para o nosso rei
Ogun, maior e melhor.
E Oxaguian observou; realmente o
castelo era o dobro do tamanho do anterior e estava maior e melhor construído.
E perguntou: Bom, e agora que vocês acabaram o que farão?
E responderam: Agora vamos descansar e festejar o nosso feito.
E responderam: Agora vamos descansar e festejar o nosso feito.
E Oxaguian respondeu: Mas seu rei Ogun
não retornará agora, demorará ainda lutando na guerra, ao invés de descansarem
sobre seus feitos, porque não constroem um castelo maior e melhor?
E mais uma vez Oxaguian abate sua
espada sobre o castelo e o derruba ao chão, partindo novamente para a guerra.
Tempos depois retorna para buscar
alimentos, mais armas e mais munição, e encontra novamente outra festa e
pergunta sobre o ocorrido, o que lhe responderam: Estamos festejando porque
acabamos de reconstruir mais uma vez o castelo de nosso rei, e desta vez maior
e melhor.
E Oxaguian olha e vê um castelo
realmente digno de um grande rei. Então pergunta mais uma vez.
Bom, e agora que vocês acabaram o que
farão? E responderam: gora, vamos descansar e festejar nosso feito.
E Oxaguian mais uma vez soltou o mesmo
argumento e derruba o castelo mais uma vez, partindo novamente para a guerra. E
tantas vezes Oxaguian/Ajagunam abateu o castelo quanto o povo o reconstruiu até
que a guerra terminou.
Quando Ogun voltou mal reconheceu a sua
cidade. Seu castelo era o mais magnífico de todos os reinos e sua cidade a mais
bela e bem construída. O povo de tanto construir e reconstruir tornou-se mais
exímio na arquitetura, na engenharia e nas técnicas de construção.
Assim é Oxaguian/Ajagunan, o Orixá da
inconformidade, que está sempre buscando caminhos melhores, que nunca descansa
sobre os seus feitos, que está sempre inquieto na busca do aprimoramento, no
empreender e no aperfeiçoar. Oxaguian é o Orixá da reconstrução, do aperfeiçoamento
e da renovação da vida.
A criação do
Sámò, o céu atmosfera.
Os mitos revelam que em épocas remotas
o Ayé e o Orun não estavam separados e toda existência não se desdobrava em dois
níveis, os Seres dos dois espaços iam de um a outro sem problemas. Os Orixás
habitavam o Orun, dimensão que os Seres humanos podiam ir e voltar. Foi depois
de uma violação que o Orun se separou do Ayé e que a existência se desdobrou. Os
Seres humanos passaram a não ter mais a possibilidade de ir ao Orun e de lá
voltarem vivos.
Conservadas vivas por tradições, as
lendas, as estórias de tempos imemoriais, descrevem a criação de Sámò, o céu
atmosfera, uma conseqüência da separação do Orun.
Naqueles tempos, em que o Ayé e o Orun eram limítrofes,
a esposa estéril de um casal de certa idade apresentou-se em várias ocasiões a
Orixalá, divindade mestre da criação dos Seres humanos; a mulher implorava a
Orunmilá que lhe desse a possibilidade de gerar um filho. Repetidamente Orixalá
tinha recusado em atendê-la, mas enfim, movido pela grande insistência,
aquiesce ao desejo da mulher, mas com uma condição, a criança não poderia
jamais ultrapassar os limites do Ayé. Por isso, desde que a criança deu seus
primeiros passos seus pais tomaram todas as precauções necessárias, contudo,
toda vez que o pai ia trabalhar no campo o filho pedia para acompanhá-lo.
Toda
sorte de estratagemas era feita para evitar que a criança acompanhasse o pai,
este, no entanto, saía sempre escondido pela manhã. Na medida em que o menino
ia crescendo o desejo de acompanhar o pai aumentava. Tendo atingido a
puberdade, numa noite, ele decidiu fazer um buraquinho no saco que seu pai
levava todos os dias e de por certa quantidade de cinza no fundo; assim, guiado
pela trilha de cinzas, conseguiu localizar seu pai e o seguiu. Eles andaram
muito tempo até chegar ao limite do Ayé onde seu pai possuía suas terras
cultivadas. Naquele momento, o pai apercebe que estava sendo seguido pelo seu
filho, mas este não pôde mais se deter e atravessou o campo. Apesar dos gritos
do pai e dos outros lavradores continuou a avançar e ultrapassou os limites do
Ayé sem prestar atenção às advertências do guarda e entrou no Orun. Lá, começou
uma longa odisséia, no decorrer da qual, o rapaz gritava e desafiava o poder de
Orixalá faltando ao respeito a todos que queriam impedi-lo de seguir o caminho.
Atravessou os vários espaços que compõem o Orun e lutou contra todos até chegar
ao ante-espaço onde se encontrava Orixalá e, que a seus ouvidos já tinha
chegado o desafio insólito. Apesar de ter sido chamado atenção várias vezes o
rapaz insistiu até que Orixalá lançou seu cajado ritual, o òpáxóró, que, atravessando
todos os espaços do Orun veio cravar-se no Ayé, separando-o para sempre do Orun
antes de retornar às mãos de Orixalá. Entre
o Ayé e o Orun apareceu o sámò que se estendem entre os dois limites. O ofurufú,
ar divino, é o que separa os dois níveis de existência.
*** Uma lenda relacionada à Oxaguian,
característica jovial de Oxalá, conta que ele era um guerreiro e almejava
conquistar um reino para si. Transcorria um período de guerras entre dois reinos
vizinhos, e seus habitantes perguntavam sempre aos Babalawôs o que poderiam
fazer para que a paz voltasse a reinar. Um deles respondeu que o povo deveria
fazer oferendas ao Orixá da paz, o Orixá que vestia branco, eles deviam
oferecer uma pomba branca e inhame pilado, sua comida preferida. Assim o
fizeram e, depois das oferendas entregues, as guerras acabaram e voltou a
reinar a paz. Oxaguian tornou-se conhecido e conseguiu seu próprio reino.
A estória ainda relata que Oxaguian foi
o inventor do pilão e por isso este é um de seus símbolos. Nas festas em sua
honra e em suas oferendas são distribuídos inhames pilados, o símbolo de
fartura.
***Outra
lenda, conta que Oxalufan estava velho, mas ainda comandava seu reino. Saudoso
de seu filho Xangô resolveu visitá-lo. Como era de costume, antes de empreender
qualquer viagem foi consultar um Babalawô que o recomendou que não fizesse tal
viagem, mas, se Oxalufan teimasse em fazê-la, foi recomendado em levar três
roupas brancas e pasta de dendê, e fazer tudo que lhe pedissem para fazer,
menos revelar sua identidade em qualquer situação.
Com essa precaução Oxalufan partiu, porém,
não tardou a encontrar Exu Elepô, dono do óleo de dendê sentado á beira do
caminho com um pote de dendê ao lado. Com boas maneiras Exú pediu a Oxalufan
que o ajudasse a colocar o pote nos ombros. Oxalufan lembrou-se das palavras do
Babalawô e resolveu então ajudar, mas, Exú Elepô derramou todo o óleo sobre
Oxalufan. Oxalufan não perdeu a calma, limpou-se com a pasta que trazia, vestiu
outra roupa e seguiu viagem. Mais adiante encontrou Exú Onilú, dono do carvão e
Exú Eledú e, por mais duas vezes foi vitima das brincadeiras, porém, procedeu
como da primeira, limpando-se e vestindo as roupas limpas e continuou a viagem
rumo ao reino de Xangô.
Próximo ao reino de Xangô avistou um
cavalo que conhecia muito bem, pois presenteara a seu filho tempos atrás,
resolveu amarrá-lo para levá-lo de volta, mas foi mal interpretado pelos
guardas de Xangô que o julgaram um ladrão. Oxalufan lembrou-se mais uma vez das
recomendações do Babalawô mantendo segredo de sua identidade e nada reclamou.
Oxalufan foi espancado e preso.
Usando seus poderes fez com que não
chovesse mais desse dia em diante no reino de Xangô, as colheitas foram
prejudicadas e as mulheres ficaram estéreis, a fome e a sede imperavam naquelas
terras.
Após alguns anos e preocupado com os
acontecimentos, Xangô resolveu consultar um Babalawô, e este, afirmou que os
problemas estavam relacionados com uma injustiça cometida em seu reino, pois,
um de seus presos fora acusado injustamente de roubo. Xangô então se dirigiu às
prisões e, entre os presos, reconheceu seu pai Oxalufan. Envergonhado, ordenou
que trouxessem água para lavá-lo e, a partir daquele dia, exigiu que todos
naquele reino se vestissem de branco em sinal de respeito a Oxalufan, como
forma de reparar o erro cometido a seu pai.
É por esse motivo que em todos os
Candomblés comemoram as águas de Oxalá, ritual em que todos os participantes
vestem-se de branco e limpam seus pertences com profunda humildade e respeito,
isso, para que haja boa sorte durante o ano todo. O ritual tem seu término com
a festa do pilão de Oxaguian, uma cerimônia para homenageá-lo quando de sua
volta para casa. Nos rituais são pilados os inhames e distribuídos em porções a
todos os participantes. Este ritual é considerado o mais importante da
religião, tem início na primeira sexta feira do ano e resume-se na retirada do ibá
de Oxalá de seu Ilé e levado para uma cabana coberta de palmas, um simbolizmo da viagem de Oxalufan e sua
estadia como prisioneiro no reino de Xangô. Sete dias após esta cerimônia,
iniciam-se as das águas, onde todos os participantes, antes da alvorada
vestidos de branco e munidos de jarras, também brancas, encaminham-se em
silêncio para buscar água numa fonte. Com as cabeças cobertas formam um cortejo
numa ordem hierárquica, desde os mais velhos até os mais novos. As duas
primeiras jarras são derramadas sobre o axé, o ibá de Oxalá; este ato é
executado para lembrar as pessoas do reino de Oyó, quando foram em silêncio e
vestidos de branco, buscar água para lavar Oxalufan. Ao raiar do dia o silêncio
é quebrado e, as jarras com água são colocadas em torno do ibá que recebe
reverências prestadas à Oxalá. Neste momento o silêncio é quebrado com as
cantigas, e as manifestações se fazem presentes. Este é um dos ciclos das águas
de Oxalá.
Na terceira semana, finalizando o ciclo
das cerimônias, é chamado de Pilão de Oxaguian; é uma festa que envolve as
preferências das comidas de Oxalá. A distribuição da comida, realizada em seu
nome, é uma homenagem à volta de Oxalufan. Neste dia a procissão leva ao barracão,
pratos e vasilhames brancas contendo inhames pilados, milho cozido sem sal,
cominho da costa e pequenas varas de atori, os Içãs, que são entregues aos Oxalá
manifestados. As pessoas mais ligadas ao culto e os visitantes mais importantes
formam uma roda, e todos dançam curvados diante dos Orixás, que dão na passagem,
um ligeiro golpe com o Içã e, àqueles que foram tocados transmitem aos
assistentes golpes idênticos. Este é um ritual para lembrar as lutas em Egigbó
que Oxaguian travou. O ritual é encerrado com a distribuição das comidas a
todos que se encontram no egbé.
***De
certa feita, quando os Orixás estavam reunidos, Oxalá deu um tapa em Exu e
jogou-o ao chão todo machucado, mas, no mesmo instante, Exu levantou-se curado.
Então, Oxalá bateu em sua cabeça e Exú ficou anão, porém, se sacudiu e voltou
ao normal. Depois, Oxalá sacudiu a cabeça de Exu e ela ficou enorme, mas Exú
esfregou a cabeça com as mãos e voltou ao normal. A luta insólita continuou até
que Exu tirou da própria cabeça uma cabacinha da qual saiu um pó branco que
tirou as cores de Oxalá. Oxalá se esfregou como Exu tinha feito anteriormente,
mas sua cor não voltou ao normal; então, tirou de sua cabeça o próprio axé e
soprou-o sobre Exu que ficou dócil e lhe entregou a cabacinha com o pó, com o
qual, Oxalá utiliza para fazer o branco.
***
Orunmilá, também denominado Ifá, traz
consigo o principio da intenção, da premonição e dos sentidos do espírito, é a
visão do agora e do futuro. É através dele que são evocados os oráculos. Os
destinos, Odús, as cabeças, Oris, e seus caminhos são por ele conduzidos. É ele
também que transmite à Exu para que suas palavras se façam audíveis.
Na cosmologia integrada ao universo
religioso Olodumare é o próprio universo, sendo Obatalá o principio de tudo.
Oxalá é a criação, Orungã o conflito existente entre as forças antagônicas,
negativo e positivo. Orunmilá, como foi descrito, é o senhor dos destinos.
Oduwa é a própria Terra, o grande útero. Ajalá é o oleiro do mundo, é ele que
molda os Orís, as cabeças.
Sendo Oxalá o criador, é ele também que dá sentido de vida quando
insufla o ufurufú, o ar divino nos Seres por ele criado. Oxalá, cognominado
também como Obatalá, é o principio de tudo, é o principio dividido em oito (8),
que é a representação do infinito, e todo este complexo de existência advém de
Olorun, o criador e o próprio universo.
***Obatalá
havia reunido todos os materiais que comporiam a criação do mundo e mandou que
a estrela da manhã chamasse todos os Orixás a fim de iniciar o trabalho. Na
hora marcada para tudo começar somente Orunmilá apareceu, Obatalá ficou
satisfeito com sua presença e o recompensou por ter sido ele o único a chegar.
Ordenou então que a estrela da manhã revelasse à Orunmilá todos os segredos da
criação e dos dias vindouros, e assim foi feito. Todos os segredos estavam
contidos em uma concha de caramujo que estava guardado em um vaso entre as
pernas de Obatalá. Orunmilá tornou-se assim o dono dos segredos de todas as
magias das fórmulas dos ebós e de tudo que envolvia os conhecimentos do
espírito humano e de seus destinos.
***Uma
outra lenda, narra que Ifá é filho dos dois princípios mágicos, nasceu mudo e
não disse palavra alguma até sua adolescência. Um dia, seu pai bateu-lhe com
seu cajado e, nesse dia Ifá disse: Gbê Meji, mas ninguém compreendeu àquelas
palavras. Quando apanhou novamente, tempos depois, disse: Yekú-Meji. E assim,
em todas as ocasiões que apanhava foi dizendo todas as palavras que compõem o
opelê-Ifá. Depois disse a seu pai que, quanto mais apanhasse mais poderia
falar.
Orunmilá apanhou mais e disse que não
ficaria na terra, mas, que entregaria ao seu pai uma herança que serviria por
toda a eternidade para todos os Orixás. Explicou que, os dezesseis nomes que
havia dito eram os nomes dos seus futuros filhos e que, cada um deles, possuía
um conhecimento. Dito isso, Ifá se transformou em uma palmeira cujos caroços
dos frutos, seus filhos, são utilizados para fazer o opelê, o seu oráculo e,
quando consultado obtém respostas para saber do futuro ou mesmo dar indicações
para resolver problemas.
***Há muito tempo, numa aldeia a morte se
instalou não poupando qualquer ser vivo, os habitantes não mais sabiam o que
fazer, pois, muitas foram as vidas perdidas. Desesperados, apelaram para Oxalá
que mandou o povo fizer uma oferenda, que pegassem uma galinha preta e efun.
Assim fizeram, pegaram a galinha e a salpicaram com o efun soltando-a no
mercado. A morte que estava por lá a viu e, assustada, fugiu deixando a cidade
em paz. ...E foi assim que Oxalá criou a galinha d`angola e, é em homenagem à
sua sabedoria, que todos os yawôs são pintados com efun, ficando parecidos com
aquela ave.
Outra versão desta estória, conta que foi o
próprio Orixá que soprou sobre a galinha preta o pó de efun, daí a galinha
d`angola ter suas penas salpicadas de branco.
***Uma
lenda conta que Oxalá, o Orixá do branco, foi reclamar a Olorun o senhor
supremo que um Ser humano tinha tocado com mãos sujas o Orun, moradia dos
deuses. Enfurecido com tal displicência humana, Olorun soprou seu hálito sobre
o Ayé separando-o um do outro. As divindades sentiram falta dos humanos e foram
falar com Olorun que ouviu as devidas queixas. Olorun então consentiu que, de
quando em vez, os Orixás voltassem à Terra com uma condição, a de usar o corpo
de seus devotos. Assim, cada um dos Orixás escolheu seus devotos e passaram a
se manifestar.
***No
principio, Olorun criou Obatalá, Olokún, Oduduwa, e Orunmilá, depois disso, deu
a Obatalá a tarefa de criar o mundo entregando-lhe uma sacola com um pó mágico,
mas, Obatalá instigado por Orunmilá que estava aborrecido por ele não ter
cumprido seus rituais antes de partir, incitou a Obatalá que tomasse vinho de
palma, este, acabou se embriagando e adormeceu. Então, sua irmã Oduduwa
roubou-lhe a sacola com o pó mágico e usou-o para criar a Terra antes que
Obatalá acordasse. Obatalá foi castigado com a proibição de usar qualquer coisa
vinda da palmeira, do dendezeiro, e de usar bebidas alcoólicas, mas, como
consolo, recebeu uma argila para moldar os humanos. No entanto, não levou a
sério tais proibições e continuou bebendo vinho de palma. Nos dias que se
excedia fazia os bonecos de barro, Seres humanos, todos tortos, com defeitos e
mal queimados. É por essa razão que os defeituosos e albinos são filhos de
Oxalá. Pelo menos, é o que conta essa lenda.
Oxalá por ser o Orixá Funfum (do branco),
tem nessa cor sua representação, no entanto, devido suas características/qualidades,
pode, em alguns casos, utilizar o branco com azul claro, no caso de Oxaguian.
Seu dia consagrado é a sexta feira e tem no Senhor do Bom-fim seu sincretismo
no catolicismo. É o Orixá mais consagrado nos Candomblés, onde todos o saúdam:
Epaá Baba..
O mito da criação da Terra.
O mito da criação da Terra.
No começo de tudo não existia a terra firme e tudo era
água; Olodumare, o deus supremo, percebeu que aquele não era o mundo que
desejava, para ele, o mundo precisava ter vida. Criou então sete príncipes e os
coroou de riquezas. Criou uma galinha, vinte e uma barras de ferro, um pacote
preto com um conteúdo desconhecido e, por fim, criou uma corrente de ferro
muito comprida na qual prendeu tudo juntamente com os sete príncipes e deixou
cair do Orún. Muito sábio também jogou uma semente de Ogi opê, que cresceu
muito rápido e serviu de abrigo aos príncipes. Sendo comandantes por natureza,
os príncipes resolveram se separar e, cada um deles, seguiu seu destino. Antes,
porém, resolveram dividir o tesouro que Olodumare tinha criado. Com os mais
velhos ficaram búzios, pérolas e tecidos, pois julgaram ser bens mais valiosos,
ao mais jovem coube o pacote preto com a substância desconhecida, a galinha e
as barras de ferro. Os mais velhos partiram sobre as folhas do Ogi opê e, o
príncipe mais jovem sozinho ficou. Muito curioso resolveu abrir o pacote para
ver o que continha e reparou que tinha uma substância escura e desconhecida,
sacudiu o pano e deixou que àquela substância caísse sobre a água, que, ao
invés de afundar, formou um montículo. A galinha então voou e pousou em cima do
montículo e começou a ciscar espalhando tudo, e a matéria escura foi se
espalhando, foi crescendo e tomando lugar da água. ... E assim apareceu a terra
firme que mais tarde originou os continentes.
***
Todos os Orixás, com suas
individualidades, possuem seus domínios de ação, suas atividades, objetos
rituais distintos e elementos, sejam materiais, vegetais, minerais ou animais;
subjetividades como, cores e aromas, ou ainda as cantigas e danças
representativas; enfim, todos são possuidores de aspectos distintos que os
tornam diferenciados, tanto quando estão manifestados ou mesmo representados.
Alguns Orixás, no entanto, pelas dificuldades encontradas na transmissão
de conhecimentos deixaram de ser cultuados ou se fundiram a outros possuidores
de características idênticas, e que por vezes, é a grande causa de confusão no
entendimento, assim acontecendo também com elementos astrais. Olún o sol e Oxú
a lua, são dois dos elementos naturais cultuados através de Tempo, Orixá que
está relacionado com o tempo e o espaço físico, de uma forma subjetiva de
espera. Ajé Salúba a deusa da saúde e da prosperidade e Xapanã o deus das
doenças endêmicas, são entidades divinizadas como Orixás fundidos a Obaluayé,
os quais são cultuados como sendo os médicos espirituais. Obá, a deusa do rio
Obá na África, fundiu-se, em alguns casos, a Yansã; Olokún, a deusa dos mares,
não é mais cultuada, assim como Okô, deus da agricultura, que se fundiu a
Oxóssi, pois este representa a fartura. Okê, deus das montanhas, passou a ter
uma relação muito próxima ao Orixá Oxóssi e aos caboclos- encantados cultuados
por algumas nações e com mais freqüência na Umbanda. Outros tantos Orixás, no
entanto, estão relacionados com características/qualidades, designados assim,
para não serem de todo esquecido.
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