segunda-feira, 8 de junho de 2020

Caminhando com os Deuses - continuação 2.

          







       Caminhando com os Deuses - Continuação 2.                                                      
                                              Os Orixás.
                                                   Exu.                   
      Na complexidade do universo espiritual, uma multiplicidade de energias rege todos os Seres e elementos, pois os fatores de equilíbrio é que mantêm suas estruturas determinadas palas ações, tanto aos humanos quanto às divindades.
     O elemento primordial e essencial na estrutura religiosa desenvolvida nos Candomblés é Exu, Orixá que tem seu princípio fundamental em Yanguí, o primogênito. Advindo de uma interação promovida por Olorun/Olodumare, tornou-se o elemento dinâmico nas ações de todos os Seres e elementos, tanto naturais quanto sobrenaturais; seu axé é o transportador de todos os elementos e de todas as ações, mobilizando, expandindo e intercomunicando, tanto elementos quanto ações, sejam reais ou não.
      Individualizados, todos os Seres tem em si seu próprio Exu e seu Olodumare/Olorun, pois este representa um principio de existência genérica, enquanto ao outro, o principio de uma existência distinta. Cada Orixá é possuidor do seu Exu tornando-se assim uma unidade; Exu torna-se o elemento que cumpre funções específicas nos rituais de oferenda quando evocado e cultuado antes do Orixá a que pertence, pois é ele que tem o poder de interferência. O dinamismo, característica que lhe é conferida, atua nos caminhos e Ifá, pré-destinador no oráculo e quem fala, tendo sempre Exu como mensageiro.
      Uma imagem que define bem a relação de Exu com o dinamismo é proporcionada por um caracol, uma concha triangular em forma de espiral, tendo como base sua ponta abrindo-se para o infinito. Denominada okotó, representa o crescimento e a evolução, um processo contínuo com ritmo e regularidade.
      No dinamismo de Exu é que são encontrados os caminhos das realizações, é ele quem permite aos Orixás desenvolverem suas funções, e aos Seres cumprir seus destinos; recebe a denominação de Egbára, aquele que controla, pois recebeu tal poder de Olodmare/Olorun e está contido no adó-iran, uma cabaça ritual.
      Por ser um símbolo complexo é em algumas ocasiões confundido com Ogun, principalmente Xorokê, que significa aquele que vem da montanha, o qual, além de acompanhá-lo é também seu representante por possuir o progenitor no universo dos Orixás. Exu é o primogênito universal, o Exu Yangui, a primeira matéria dotada de forma e de existência individual, tornou-se por isso a mais importante representação no universo religioso nagô. Como símbolo, além de possuir o princípio dinâmico, proporciona a multiplicação, a continuidade e a expansão, tanto dos Seres quanto das entidades ao manifestarem nos eleguns.
      Todo individuo é constituído e acompanhado de um Exu individual, o seu Bára; permissivo ao desenvolvimento e a multiplicação celular ultrauterina, no nascimento, crescimento e também nas múltiplas atividades existenciais para que possa cumprir um ciclo harmonioso. Mas é preciso restituí-lo e, é através das oferendas que o seu axé é reposto.
      Como elemento essencial possui funções especificas: na função de Oxe-Tuwá, Exu é o reparador dos progenitores masculino e feminino ao transportar o ebó, oferenda; a oferenda aceita é devolvida em forma de energia a todos os elementos que vão dar continuidade na existência, restituindo assim o axé. Oxe-Tuwá é quem transporta a chuva, o sêmen da Terra que, ao fecundá-la, permite a renovação, é o princípio reparador e controlador; está associado à atividade sexual assegurando a procriação circulando livremente entre os elementos passando de um objeto a outro e entre os Seres; é também o mensageiro quando estabelece a relação entre o Ayé e o Orun, e dele, dependem o sistema de oráculo, pois funciona através de objetos que o simbolizam.
      Nas casas de Candomblé de Angola, por questões culturais, Exu é conhecido como Gongobira, Aluvaiá, Pangiro, Apavenã, além de outros nomes. (ler capítulo Candomblé Angola)
      Como todos os Orixás, Exu possui seu instrumento de culto, o ogó, um cetro em forma de falo numa demonstração de virilidade, suas contas são nas cores vermelha e preta, e sua saudação é LaroYê Exu Mojubá. Por motivos históricos está para o sincretismo representado pelo diabo, concepção católica da maldade imposta pelo catolicismo, porém, mesmo na feroz repressão a este atributo, Exu continua a ser reverenciado por seu título ancestral iorubano, é um Imolé, Ser sobrenatural de categoria divina, isto para diferenciá-lo dos conceitos impostos.
       Os contos de Ifá apresentam dezesseis títulos com correspondências e características, as quais estão ligadas aos dezesseis Odús tradicionais nos fundamentos da religião, ou seja: Exu Yangui, Senhor da laterita vermelha, o primeiro; Exu Agbá, Senhor ancestral; Exu Agbá Ketá, Senhor da terceira cabaça; Exu Okotó, Senhor do caracol; Exu Òbá Baba Exu, rei e pai de todos os Exus; Exu Odára, Senhor da felicidade; Exu Ojisé, mensageiro divino; Exu Elerú, Senhor da obrigação ritual; Exu Gbarijó, Senhor da boca coletiva; Exu Elegbára, Senhor do poder mágico; Exu Bára, Senhor do corpo; Exu Lonan/Lonã, Senhor dos caminhos; Exu Olobé, Senhor da faca; Exu Elebó, Senhor das oferendas; Exu Aláfia, Senhor da realização; Exu Adusô o vigia dos Odús.
      Exu Yangui é sua primeira forma e a mais importante, a que lhe confere a qualidade de Imolé ou divindade, segundo o credo iorubano.
     Conta o mito que...
     ...O Ar e as Águas moviam-se conjuntamente, uma parte transformou-se em lama e dessa lama originou-se uma bolha em forma de montículo, a primeira matéria dotada de forma, um rochedo avermelhado e lamacento. Olorun/Olodumare admitiu esta forma e soprou sobre o montículo insuflando seu hálito dando-lhe vida.
      Esta forma teve a primazia de ser dotado de uma existência individual, um rochedo de laterita, o próprio Exu Yangui.
      Neste mito, fica claro que Exu é um Imolé criado diretamente por Olorun/Olodumare, mas não a própria e primordial matéria divina da qual ele já havia feito Obatalá e Oduduwa, o casal divino, mas sim àquela matéria que formaria toda a existência genérica, ou seja, o Eerupê - a lama, da qual seria criada também toda humanidade, e que um dia, Ebóra Ikú, - a morte, devolverá a esta mesma lama.
      Exu foi o primeiro Ser/divindade criado da existência genérica, é o símbolo por excelência do elemento criado, por isso ele é chamado também de Exu Agbá, ou Exu ancestral. Assim, os seus assentamentos, ou sacrários, como eram denominados pelos mais antigos e tradicionais Babalawôs, era um simples pedaço de laterita (pedra vermelha) enfiada no solo na orita meta, ou seja, em uma encruzilhada de três caminhos e, algumas vezes, a leterita estava cercada por sete, quatorze ou vinte e uma hastes de ferro enferrujadas representando o esqueleto do metal novo.
       Os mitos da criação, segundo a cultura ioruba, demonstram que Exu foi criado logo após Obatalá e Oduduwa, ele é, portanto, o Igbá Ketá ou, o terceiro Ser criado, sendo o símbolo da existência diferenciada e, em conseqüência, o elemento dinâmico que leva a propulsão, a mobilização, a transformação e o crescimento. Nesta variante múltipla, ele é o principio dinâmico que participa forçosamente de todo a existencia.
...E assim foi se processando a criação, segundo o mito ioruba.
      As lendas sobre Exu contam como ele logo se descontrolou e começou a devorar toda a existência, sendo obrigado, por Orunmilá (epíteto de Olodumare/olorun), após uma longa perseguição, a vomitar tudo de volta; entretanto, tudo em maior quantidade, muito melhor e mais perfeito do que quando ingerira.
      Desta forma, Exu Yanguí também se multiplicou infinitamente e, tendo se tornado no símbolo da restituição e da recomposição, tornou-se ele próprio em Obá Baba Exu ou Rei e Pai de todos os outros Exus que deles seriam e foram cortados, e que para sempre acompanhariam os Orixás e todos os mortais.
      Os Esé Itan Ifá, ou versos dos contos de Ifá, nos contam a razão da denominação das outras variantes múltiplas de Exu.
      Numa explanação livre, os versos desses contos no que se refere á Oxetuwá, contam que quando os Imolé vieram a Terra para coadjuvar Obatalá e Oduduwa a reger a criação, Olodumare/Olorun ensinou-lhes tudo quanto precisavam saber para que a vida na Terra fosse Odára, (feliz). Mas, apesar de os Imolé terem feito tudo quanto lhes tinha sido prescrito por Olorún, sobreviveram na Terra todos os tipos de desgraça, sobretudo uma terrível e prolongada seca.
       Os Orixás se reuniram e chegaram por conclusão que os fatos desastrosos estavam além da sua compreensão e deveriam mandar alguém sábio e instruído à presença de Olodumare/Olorun para que este lhes mandasse a solução dos problemas que afligiam a Terra, agora pelo risco de total desaparecimento.
      Orunmilá – Ifá , o Orixá da adivinhação partiu nessa missão, data daí o fato de que ele passou a ser um dos três Orixás que pode apresentar-se perante Olorun/Olodumare. Ao lhe ser permitido facear Olorun, Orunmilá ouviu dele que a razão para todas as desgraças que assolavam a Terra estava no fato de que eles, os Imolés, não haviam convidado para morar no Óde Ayé, ou seja, a morada dos Imolés na Terra, a não ser que se constituiria no décimo sétimo dentre eles, mas quando assim o fizessem tudo voltaria a frutificar.
      E foi assim que Orunmilá tornou-se o arauto de Olorun/Olodumare para a ligação dos dois mundos, o Orún e o Ayé.
      Retornando ao Óde Ayé, Orunmilá começou a procura do décimo sétimo, o qual deveria ser convencido a morar com eles. Depois de muitas tentativas infrutíferas e não tendo encontrado, decidiram que uma poderosa Ajé (senhora do feitiço), a Ebóra Oxun deveria conceber um filho de Oxé (Senhor do poder mágico). Este filho receberia ainda no ventre materno o axé da força mágica de todos os Imolé por imposição conjunta de suas mãos para que, tornar-se assim, o mensageiro por excelência das oferendas dos Imolés e se acabassem todos os infortúnios que assolavam a Terra.
      Assim feito. Foi então gerado um filho com poderes mágicos, o filho do feitiço, que recebeu o nome de Oxetuwá. Este novo Orixá gerado passou a tentar cumprir o seu dever de mensageiro, mas sem antes, absolutamente, sem nenhum sucesso. Porém, um dia, em aflição, lembrou-se de procurar o quase desconhecido Exu Odára (Exu da felicidade) para pedir-lhe ajuda. Oxetuwá pediu então para Odára ajudá-lo a levar as oferendas dos Imolés à Olorun. E Odára respondeu-lhe; Como? Jamais pensei que você viesse me avisar antes de partir, e por este seu gesto, as portas do Orun estarão abertas para você. Então, Oxetuwá e Odára puseram-se a caminho partindo em direção ao Orún. Quando lá chegaram as portas já se encontravam abertas. Oxetuwá, então pode entregar as oferendas dos Imolés a Olorun, e este, aceitando-os por virem através de Exu deu a Oxetuwá todas as condições necessárias à sobrevivência da Terra. Oxetuwá voltou ao Ayé e tudo frutificou novamente.
      Tão gratos lhe ficaram os Imolés que o cobriram de presentes e celebraram como único dentre eles que conseguiria levar as oferendas ao Orun; porém, Oxetuwá com humildade levou todos os presentes que recebera e deu-os a Exu Odára. Quando os deu, o mesmo lhe disse: Como?  Há tanto tempo eu carrego os sacrifícios, as oferendas, e nunca ninguém para retribuir-me a gentileza!  De agora em diante, todos os sacrifícios que fizerem sobre a Terra se não os entregarem primeiro a você para que os possa trazer a mim, farei com que as oferendas não sejam aceitas.
         E assim Oxetuwá tornou-se o poderoso Ikin-Osô, ou manipulador do poder; duplamente, por seu nascimento e pela confirmação de Imolé Exu Odára ter mostrado a todos os Imolé que Exu era realmente o Ojisé, o mensageiro divino e que também tinha o poder de aceitar ou recusar os sacrifícios rituais, isso porque era o verdadeiro Elexu ou, Senhor das obrigações rituais.
      A partir de então os Imolés decidiram dar a Exu um pedaço de suas próprias bocas para que ele pudesse falar por todos quando fosse a Olorun, pois era patente que era o outro Imolé, além de Orunmilá, que podia apresentar-se perante Olorún. Imolé Exu, muito sabiamente, uniu todos esses pedaços em sua própria boca e assim, tornou-se o Exu Gbarijó, a boca coletiva de todos os Orixás.
      Desde então, como retribuição de Exu aos outros Imolé, cada um destes possui ao seu lado o seu Exu Okotó, o Exu do caracol, o mais um a quem ambos delegam os seus poderes. Desta forma, por delegação espontânea de todos os Imolé ele se tornou também o Elegbára, o Senhor do poder mágico; e como toda a criação é também regida pelos Imolés todos os Seres viventes no Ayé, assim como são possuidores do seu Olóri, seu Orixá ou seu Ebóra, senhor e a senhora do Orí (cabeça), também tem que ter o seu Exu Bára, o Exu do corpo.
      Muitas são as atividades de Exu, é ele o responsável pela atividade sexual, atributo natural do corpo para que haja a procriação humana, não só, mas também dos animais e dos vegetais. Como mensageiro é o Senhor do carrego ritual; Lonãn o Senhor dos caminhos; Onã Burukú aquele que tem o poder de abrir ou fechar os caminhos; Olobé o Senhor da faca ritual, executor dos sacrifícios que também tem poderes sobre a vida e a morte. O obé, a faca ritual juntamente com uma bolsa contendo objetos mágicos são emblemas temidos e respeitados, somente seus Elexus podem manipular.
      Exu sempre se encontra do lado de fora das casas e nos caminhos, e na Orita metá, encruzilhada de três caminhos é onde ele aceita suas oferendas; Exu é ainda o principio restaurador do equilíbrio. Uma das saudações que devemos a ele é: “Agbá Exu, Mo Juba! Igbá axé ô Exu”.

 O primeiro a receber oferenda
     Exu foi designado a levar uma mensagem a Olodumare, mas para tanto teria que fazer o longo percurso que separa o Ayé do Orun; sua jornada era difícil, demorada e cansativa, mas como era sua a tarefa a empreendeu. Depois de algum tempo no caminho ficou cansado e fraco, sentou debaixo de uma árvore para descansar e por lá ficou.
     Um homem que queria resolver um problema já estava impaciente por não conseguir resolve-los, pois já tinha feito ebó, tomado banho de ervas, pedido a todos os Orixás e nada, já estava descrente de tudo Foi quando se lembrou de não ter feito as oferendas a Exu. Porém, tão logo as oferendas feitas seus problemas foram resolvidos.
     Exú que estava dormindo sob a sombra da árvore, logo que recebeu suas oferendas acordou e continuou sua tarefa, a de levar a mensagem daquele homem.
  
 Características de Exu relacionado aos Orixás.
      Monã-Monã cultuado no Lésse Égungun como um guerreiro acompanha Xangô e seu pegi fica em uma cabana coberta de sapê aberta; Yangui, o Rei dos Exus; Agbô acompanha Omulú e Obaluayé; Akesam acompanha Orúnmilá no jogo de búzios; Lolú, Jovem está sempre ao lado de Oxossi e Logun Edé; Geri acompanha Oxun Epondá e Ewá; Tibirim acompanha Oxaguian e Ossayn; Tiriri acompanha Ogun e Oxossi; Sigiri acompanha Iroko e só aceita mão de homem em suas oferendas; Alakejo acompanha Nanã e Obá, também é o causador de acidentes; Bará Kesam acompanha Oyá, Oxumarè e Oxalufan; Ynã é o Exu do fogo e usa o vermelho, é evocado no inicio do ipadé (padê); Ibará Ifá é o Exu mensageiro do jogo de búzios; Abemekwoa que também acompanha Oxun; Elerú, aquele que carrega as oferendas.
      Outra saudação prestada a Exu é: Mo juba Exu...Laroyê...Exu Kobá. Seus sacerdotes são os Lebasi, também conhecidos por Oluponã. No Candomblé a festa de Exu é promovida em torno do Ipadé (padê), ao som dos atabaques com o ritmo do bravum. Suas cores são o vermelho, o preto, o azul marinho e o cinzento, suas contas são em preto e vermelho. Um dos símbolos principais de Exu é o Ogó de ferro com sete vértices, os quais representam os sete caminhos dos Seres humanos; seus metais são os ferrosos; Seu dia consagrado pelo calendário romano é a segunda feira e, por uma analogia, feita no passado quando das conquistas européias do continente africano, está associado ao diabo católico.
                                                              ***
Contam ainda algumas lendas que na antiguidade, nos primórdios da existência e após as grandes batalhas no universo astral e mitológico, surgiu no continente africano um povo, os Ilú Ukulmi. Este povo foi extinto, porém, deixou seu legado de crença em deuses que perduram até os dias atuais. Nas lendas, contadas pelos velhos babalawôs, havia menção de 600 deuses primários que, divididos em duas raças de deuses, tornaram-se os 400 Irun Malé – deuses dos céus - e os 200 Igbá Imolé, os Ebora – deuses da Terra.
Dessas duas raças de deuses que, após alguns conflitos, se unificaram, surgindo então duas outras classes de deuses que se tornariam secundários no cenário universal religioso daquele povo. Surgiram então os Orixás da raça Irun Malé e os Orixás da raça dos Igbá Imolé, os Ebora, sendo que os Irun Malé são os deuses dos céus e os Igbá Imolé são os deuses da Terra. Destes deuses surgiram mais duas classes, os Orixás Funfun do branco e os Orixás Dudu do preto que se unem para formar uma terceira classe de deuses, a dos Orixás Pupa, deuses do vermelho que são subdivididos entre os Omodê Okunrin, descendentes masculinos e Omodê Obirim, descendentes femininos.
      Após as disputas mitológicas, guerras universais entre energias, cores e elementos, Ogún, um dos deuses Omodê Okunrin foi designado pela energia suprema, Olodumare, para ser o guardião dos 200 Igbá Imolé, e para ser o mensageiro entre as duas raças de deuses foi então criada uma terceira raça de deuses primários, os Imolé Exu, que são distinguidos pelos muitos nomes:
      Imolé Exu Yangui, Imolé Exu Agbá, Imolé Exu Igbá Ketá, Imolé Exu Okotô, Imolé Exu Odára, Imolé Exu Ojise, Imolé Exu Elerú, Imolé Exu Enú Gbarijo, Imolé Exu Elegbara, Imolé Exu Lonan, Imolé Exu Odusô e outros nomes como protetores de cidades, como Lalú, Akessan, Alakêtu, e Baralakossô, como guardiões e servidores dos Orixás Omodê Okunrin e Obirin, como Imolé Exu Gulutú, do Orixá Okô ou o Imolé Exu Xorokê, do Orixá Okê.
A denominação Xorokê, provavelmente deriva de Osô Arô Okê, pois, Osô significa – aquele que detêm poderes mágicos, feiticeiro, portanto está relacionado a feitiço, maldição; mas também pode ser usado para designar os deuses esquecidos como Dsô, Osôgbô, Osô, deuses que possuíam uma relação com as montanhas onde existiam vulcões, e que também estavam associados aos Voduns pertencentes à família dos detentores dos raios e trovões, ou seja, Hevioso, da cultura Jêje que é análogo a Xangô da cultura ioruba. Arô significa deus velho, deus antigo e Okê montanha; com a junção dessas três palavras formam o vocábulo Xorokê.
Ogun sendo um deus Omodê Okunrin e detentor dos metais e do fogo está também relacionado com o Orixá Okê, pois juntamente com Exu Xorokê seu guardião está ligado com as montanhas, ou seja, com os vulcões. Desta forma, Ogún Xorokê apresenta-se também como um Orixá ligado com a ebulição vulcânica e ao magma expelido, além de pertencer ao culto dos Osô, feiticeiros seguidores de Okô. Por esta, e tantas outras razões, Ogun é o Orixá das guerras, das armas e da forja; mas também pertence ao universo da caça, pois pode ser considerado um Odé das montanhas, um caçador das montanhas. Ogun é ainda o possuidor da riqueza, bem como o Orixá Meji Okê que é um deus da prosperidade e da abundância.
Por estas considerações é que existe nos dizeres do povo de santo ou, povo de candomblé que, Ogun Xorokê é metade Ogun e outra metade é Exu.

                                                              Ogun
    Ogun é o Orixá guerreiro, o que vai a frente simbolizando com sua espada a abertura dos caminhos para quem o segue, por isso recebe a denominação de Assiwajú; suas cores são o verde e o azul escuro, o ferro é metal do seu domínio do qual é patrono.  É representado por sete ferramentas de trabalho de ferreiro e, tão quanto importante é sua espada, o akokó, uma coroa em forma de capacete o caracteriza. Está associado aos primórdios da existência quanto ao seu progenitor e é por vezes confundido com Exu; também está relacionado aos mistérios das árvores.
       Descendente de Yemanjá e Oduduwa pode ter seus assentamentos plantados aos pés de um Ogí Iyeyé, de um Odãn, de um Arobá Akokó ou ainda de um Ogí Opê, árvores consagradas e sempre rodeadas por uma cerca de peregum. O Ogí Opê simboliza a matéria individualizada dos Orixás Funfun, suas palhas simbolizam descendentes e suas palmas recém- nascidas, denominadas mariwô, é a mais importante representação de Ogun. Além dos não menos importantes, como sua espada e seu Akokó, um capacete, o simboliza.
      Ogun é também um Orixá caçador pertencente às florestas, foi ele quem abriu os caminhos e conduziu os humanos para o progresso. Contudo, através da odisséia desenvolvida em torno de sua caminhada, as guerras travadas entre o bem e o mal o fizeram um grande artesão nos domínios do ferro. Exímio ferreiro produziu as armas que deram aos Seres humanos a possibilidade de sobrevivência e desenvolvimento; não criou apenas armas, mas também instrumentos para o cultivo de alimentos, suas armas não visam somente à destruição, mas por suas conquistas que o tornou cognominado senhor da guerra.
       Na Nação Ewê Fon recebe a denominação de Gú e é tido como um Vodun, seu culto foi introduzido no Benin no final do século XVII pelos artesãos ferreiros iorubas e tornou-se muito popular. Seu culto, juntamente com tantos outros Voduns, passou a ter seu próprio templo. Possui entre tantos outros seu emblema principal, o gubassá, uma adaga metálica ornada com desenhos místicos que é utilizada nos diversos rituais, dentre os quais, inclui o culto a Fá (Ifá) para abrir os caminhos para o mundo espiritual. O gubassá é também conhecido e utilizado no Vodu haitiano. Em segundo plano está o gudaglô, adaga menor que Gú utiliza para defender seus filhos dos inimigos. Na iconografia Ewê Fon, o Vodun Gú é representado por esses dois símbolos (adagas), o gubassá na mão direita e o gudaglô na mão esquerda. 
      No mito nagô conta que num passado distante Ogun reinou na cidade de Irê, expandiu seu território e chegou a ser regente de Ifé. Ogun não permitia que seus filhos caíssem mesmo diante das mais difíceis situações. Assim, como todos os Orixás, Ogun possui também suas características e seus caminhos; Onilê, Alágdibe, Já, Ominí, Wari, Eroto n’Do e Akoró Onigbé que estão entre os mais conhecidos.
      Em uma lenda de Ifá conta o porquê de o número sete estar relacionado à Ogun e o número nove a Oyá.
***Oyá era companheira de Ogun antes de ser esposa de Xangô e ajudava Ogun todos os dias no seu trabalho de ferreiro manejando o fole para ativar o fogo da forja; um dia Ogun deu a Oyá uma vara de ferro, semelhante a uma de sua propriedade e que tinha o poder de dividir em sete partes os homens e em nove as mulheres que por ela fosse tocada do decorrer de uma briga.
      Xangô gostava de sentar-se junto da forja para ver Ogun trabalhar o ferro, e freqüentemente lançava olhares para Oyá que também o olhava. Aconteceu que um dia, como era de se esperar, os dois fugiram. Ogun enraivecido lançou-se a procura dos dois, e encontrando-os, brandiu sua vara mágica, Oyá fez o mesmo, e eles se tocaram ao mesmo tempo. Assim, Ogun foi dividido em sete partes e Oyá em nove, Ogun recebeu o nome de Ogun Mééji e Oyá tornou-se Yansã, dando origem a Oyá Mesan, a mãe transformada em nove.
Várias são as estórias contadas sobre o Orixá combatente.
***Uma delas narra que em certa ocasião nas terras de Irê, Ogun, após muitos anos em combates longe de seu reino chegou a uma aldeia e ninguém atendeu seus pedidos, ninguém respondia a suas perguntas. Furioso o Orixá passou a destruir tudo que encontrava pela frente; no entanto, em dado momento, um de seus filhos trouxe à sua presença suas oferendas prediletas e explicou que, em sua honra e respeito, nenhum dos habitantes daquela aldeia deveria falar naquele dia, pois era um dia consagrado ao grande Orixá. Ogun lamentou pelo estrago causado, e com sua espada golpeou a terra desaparecendo entre ruídos ensurdecedores.   Seu retorno dá-se no decorrer dos rituais e festividades quando evocado, manifestando-se através de palavras e cantigas de magia, e todos bradam em sua saudação. Ogun Iyê - Ogun Iyê, Pataki Orí Orixá.
      Ogún possui seu instrumento de culto o qual é denominado Adá, que são duas espadas, tipo facões; suas contas têm cores azul e verde e, seu dia consagrado, em alguns candomblés, é a terça feira; tem Santo Antônio no sincretismo religioso, porém, em algumas regiões brasileiras e em algumas nações do Candomblé também tem seu sincretismo com o catolicismo em São Jorge.
                                                             
   Oxossi.
 Oxossi recebe a denominação de Orixá real; caçador por excelência é também conhecido por Odé Wawá, o caçador dos céus e está diretamente ligado com a terra virgem. Sua cor é o azul claro; seu símbolo é o arco e a flecha, complementada pelo ogé, estrutura em forma de cone feito com chifre de touro selvagem que representa fartura e prosperidade, e que ao mesmo tempo trata-se de um instrumento, pois ao soprá-lo, torna-se um intercomunicador entre o Ayé e o Orun. Outro emblema não menos importante que o caracteriza é o erúkeré, um cetro feito com pelos do rabo de touro fixado com couro, tendo como complemento contas e búzios; este emblema é um símbolo representativo de todos os caçadores, pois na sua composição encontram-se elementos significativos referentes ao passado e aos ancestrais dos animais abatidos nas caçadas. Senhor das matas, Oxossi é o maior entre todos os caçadores, o provedor de alimentos.
      Oxossi também recebe o título de Alakêtu, um título oficial dos reis de Kêtu; sua dança é o Ajerê, tendo suas considerações no Axexe. Em algumas lendas é mencionado como sendo filho de Yemanjá com Oxalá e irmão mais novo de Ogun, e não raro ser confundido com Dadá, Orixá não cultuado no Brasil e considerada a deusa das florestas para os iorubas.
      Assim, como todos os Orixás, Oxossi possui uma vasta estória transcendental e mitológica.
***Uma delas, conta que no reino de Ifé, em certa ocasião eram feitos os preparativos para uma grande festa, Oduduwa o rei estava feliz ao lado de seu povo. Tudo transcorria normalmente quando as Iyá Mi Ajé, as donas dos grandes pássaros da noite, mandaram uma gigantesca ave agourar aquele reino trazendo intranqüilidade para todo o povo. O grande pássaro assustador pousou sobre o palácio, e a partir de então o desespero tomou conta da cidade. Alguma providência teria que ser tomada. O rei mandou chamar Togun, o caçador de vinte flechas, no entanto, este não conseguiu destruir o grande pássaro. O rei então mandou chamar Osó Togi, o caçador de quarenta flechas, que também não conseguiu destruir o pássaro do agouro. Novamente, e desta vez, encomendou os serviços de Osó Todotá o caçador de cinqüenta flechas que também não conseguiu destruir aquele grande pássaro. Desesperado apelou para seu filho Ossó Tocanxoxô, o caçador de uma única flecha. No palácio, receosa em saber que seu filho corria perigo, sua mãe recorreu então a um Babalawô que a aconselhou fazer uma oferenda para que a morte se transformasse em riqueza. Feita a oferenda, Ossó Tocanxoxô acertou o peito do grande pássaro derrubando-o. O pássaro morreu e os habitantes do reino de Ifé comemoraram aos gritos; Ossó Ussi! Ossó Ussi! Dizem que desta palavra derivou o nome do Orixá, que quer dizer guardião do povo. Oxóssi tornou-se o guardião de todo o povo daquele reino garantindo o alimento e a prosperidade.
      Oxossi é considerado rei e senhor da nação Kêtu e é um Orixá reverenciado e cultuado em todos os Candomblés. Apesar de ser caçador e propiciar os alimentos possui aversão à morte, pois é expressão da vida e da continuidade. É o único Orixá que entra na floresta da morte, pois, antes de fazê-lo, joga sobre si um pó avermelhado denominado orolé. Possui convivência com Exu e sua força está situada no lado esquerdo. Olodé é o seu Exu.
      Suas características e/ou qualidades, são variados e abrangem um universo vasto de formas, assim sendo, temos:
      Ybualano que possui suas características de um velho e sábio caçador. Conta um mito que Ybualano é o mesmo Logun Edé que se apaixononou pela imagem refletida num lago e atirou-se nas águas profundas em busca daquela paixão. Esta característica de Oxossi usa um capacete e um saiote feito de palha da costa; sua cor é o azul celeste; Inlé, que é filho de Oxaguian com Yemanjá, veste-se com roupas brancas em respeito ao pai e na cabeça usa um chapéu com plumas brancas e azuis; Dana-Dana é o possuidor do poder de entrar na floresta da morte, têm fundamentos com Exu, Oxaguian, Oxumarè e Oyá, e não é temeroso aos Éeguns ou a própria morte; Akuerena que possui seus fundamentos relacionados com Oxumarè e Ossayn e é o dono da fartura, mora nas profundezas das matas e, além de usar o azul claro, tem sobre suas vestes tiras vermelhas; Otin é possuidor de características idênticas ao seu irmão Ogun, é um guerreiro que o acompanha nas caçadas e combates, é valente e sempre pronto para atacar aqueles que o provoca, suas cores são o azul claro e o vermelho, suas roupas, na áfrica eram feitas de pele de leopardo; Mutalambo, possuidor de características pouco conhecida, possui fundamentos com Exu. Gongobila e é um Oxossi jovial e tem fundamentos com Oxalá e Oxun; Orolé é o propiciador da caça abundante, é evocado no padê de Exu e possui características de um rei, têm fundamentos com Ogun e Oxun Odé Karé e, apesar de ter ligações com as águas de Oxun, um tem aversão ao outro, isso porque exercem as mesmas funções e sua morada é próxima a uma fonte ou a um riacho; Odé Wáwá, dos Odé caçadores este é um dos quais têm sua origem nos primórdios da existência, suas vestimentas são azul e branco, suas armas são o arco e a flecha e têm fundamentos com Oxalá e Xangô, por esse motivo faz sua morada debaixo de uma gameleira, no entanto, parece estar extinto e em seu lugar é cultuado Ayrá ou Oxun Karé; Odé Walí, este é considerado rei na África e está ligado ao culto da pantera, é reconhecido como muito severo e têm fundamentos com Exu e Ogun; Odé Aseewá é o senhor das florestas e está ligado com as folhas e conseqüentemente a Ossayn com quem convive, suas vestes são na tonalidade azul claro e usa um capacete que recobre todo seu rosto.
***Em uma das lendas diz que Oxossi em uma de suas caçadas teria sido enfeitiçado pelo seu irmão Ossayn que, apesar dos avisos de sua mãe Yemanjá para que tomasse cuidado. Oxossi então se afastou da família até que o encanto fosse quebrado, mas quando volta, encontra Yemanjá ainda irritada pela atitude do filho em não tê-la ouvido. Oxossi então volta à floresta sob a influência de Ossayn, pois é ele quem defende o acesso às plantas dificultando a penetração nas matas àqueles que não têm preparo devido para colhê-las.
***Em outra lenda, diz que Oxossi foi caçar sem antes ter consultado Ifá, na mata encontrou uma cobra, Oxumarè, ela lhe diz que não pode ser morta por ele, pois não se trata de um bicho de penas. O caçador pouco se importa com o aviso e a mata com sua espada cortando-a em vários pedaços e os leva para casa onde ele mesmo faria um cozido; depois de satisfeito foi dormir. No dia seguinte, Oxun sua esposa, prevendo catástrofes por causa da quebra de um tabu encontra Oxossi morto e um rastro de cobra em direção da floresta. Oxun chorou muito, e seus altos lamentos chegaram até Ifá, que condoído pela dor de Oxun, faz Odé, o caçador, renascer sob a forma divina de Orixá.  
***Numa outra lenda, diz que certo dia Oxossi chegou cansado e arriado em sua aldeia pelo peso de sua capanga e com as cabaças vazias. Oxun, sua esposa, olhou para ele e pensou, ...só caçou desgraça. A desgraça de Oxossi tinha sido prevista anteriormente por Ifá quando Oxun foi consultá-lo; porém, quando contou à Oxussi sobre essa previsão, ele disse que a desgraça e o medo de um homem era a fome e a mulher sem leite para dar aos filhos. Quando Oxossi se aproximou de Oxun, ela notou que ele tinha trazido algo na capanga, sentiu medo e alegria ao mesmo tempo; havia caça na capanga e ela imaginou se seria um bicho de penas ou de pele e perguntou a Oxossi que respondeu: ...trago carne que rasteja na terra e nas águas, um bicho que se enroscava nos galhos. Falando isso, retirou da capanga uma grande Dan (cobra). O bicho revolvia seu corpo e agitava a língua e os olhos, e emitindo uma triste cantiga dizia: ...Não sou bicho de penas nem de pele para Oxossi matar.
      A grande cobra pertencia a Xangô e Oxossi não poderia matá-la. Oxun fugiu temendo uma vingança por parte de Xangô indo até Ifá para consultá-lo, e Ifá respondeu que a justiça seria feita. O corpo de Oxossi desaparecerá assim como também desaparecerá da memória de Oxumarè, e a “kijila” também desaparecerá da vingança de Xangô. Fazia também parte da punição que Oxossi saísse da memória do povo de Kêtu. Assim, Oxossi ficou durante sete anos no esquecimento.
       Nos ritos de candomblé, dia de Orunkó, dia de dar nome de Santo de cada um, ao ser dado a digina o povo começou a chorar por não se lembrar mais do nome do rei e, com suas cabeças baixas tentaram compreender o porquê nunca se lembravam dele. Então, Ifá ensinou-lhes um Orô, reza que se faz para o sacrifício de animais. “Omo Odé Lalai, Omo Odé Kosajó, Abaderokó Koisô, Omo Odé Kosajô..... E assim, após o Orô, o povo começou a se lembrar do rei, e Ifá disse que esse era o Orô de Oxossi, Orixá caçador e rei de Kêtu.
      Na África, Oxossi era considerado como a principal divindade de Ylobu onde recebia a denominação de Irinlé, o caçador de elefantes. Seu culto nasceu do odú Okaran Ogbé, odú que está centrado no rio do mesmo nome, um dos rios que deságua no rio Oxun. Para muitos, no entanto, é considerado como filho mítico de Yemanjá e Olókun; suas lendas são extensas e seus feitos maiores ainda. Existe ainda na África uma sociedade denominada Egbé Odé onde são cultuados Ogun, Erinlé, Okó, Idana, Wawá e outros; nessa mesma sociedade ainda são cultuadas Oké e Otin, divindades femininas, as quais, muitas delas passaram a ser denominadas como qualidades com aspectos femininos nos Candomblés aqui no Brasil.
      Oxossi por ser um Orixá caçador seu instrumento de culto é o Ofá, o arco e a flecha, mas também tem sua lança e outros objetos para caça; suas cores são o azul turquesa e o verde e seu dia consagrado é a quinta feira, tendo no sincretismo religioso São Sebastião e, quando seu brado ecoa pelas matas só nos resta saudá-lo... Okê Arô, Okê Odé Rooré Mawô.

                                                        Ossayn ou Ossanhe.                                 
       Ossayn é o patrono das folhas com as quais são feitos preparados específicos para os rituais de curas de doenças materiais e espirituais ou outros fins. O poder mágico das folhas realiza a transferência do axé que nelas está contida. Nascidas de toda a vegetação as folhas constituem emanações dos poderes da Terra, no sangue das folhas está o axé e, a cor verde representa este Orixá; o ferro é o metal símbolo do qual é representado através de uma árvore com sete ramos, e uma ave o complementa.
      Fertilizada pelas águas das chuvas toda a vegetação transfere seu poder, o axé, através dos Ofó, palavras que despertam tais poderes quando da elaboração de rituais específicos. Ossayn é o Orixá indispensável em qualquer consagração, pois é através dele que são feitos os preparados de banhos que vão purificar o corpo e o espírito dos iniciados na religião. Também é nas folhas que estão os segredos para as curas e doenças materiais. As matas é a morada de Ossayn que, na sua liturgia, as plantas guardam seus segredos e sem elas nenhuma cerimônia pode ser realizada.
      Originário da antiga região de Iraô na Nigéria e assimilado pelos nagôs, foi muito cultuado por muitas tribos de etnia banta; segundo os sobás, (sacerdotes na áfrica - os Alá Wowô), regeu os destinos religiosos de uma boa parte do continente, principalmente o Congo.
      A historia registra que num passado distante o culto à Ossayn possuía até mesmo sacrifícios humanos, e foi numa guerra santa, promovida e liderada por Hunom Gaboel, um Alá Wowô de etnia banta, que humanizou este culto proibindo tais sacrifícios, afirmando de então, somente o uso de plantas e animais em sacrifício.
      Alguns estudiosos afirmam que Ossayn, na mitologia africana, é filho da interação – Yemanjá/Oxalá - outros, no entanto, descrevem que o Orixá das folhas é filho de Nãnã, tendo como irmãos Oxumarè, Ewá e Obaluayé. Interagindo com as florestas pode também ser considerado um Odé, mas não como caçador de animais e sim um caçador de folhas.  
       Ossayn mantém seus segredos só revelados nos rituais restritos e secretos. Seu instrumento é um Opá, cetro em forma de uma haste de ferro tendo em sua extremidade superior a figura de um pássaro chamado Oguê.
***Conta uma lenda, que nos primórdios houve uma rivalidade entre Ossayn e Orunmilá, refletida nas disputas ocorridas entre os Onixeguns, conhecedores da medicina natural e os babalawô, sacerdotes dos antigos templos. A estória se desenrolou quando Ossayn era escravo de Orunmilá. Conta que o Orixá, certo dia se recusou em fornecer as folhas para que fosse utilizado na cura de doenças que afligiam as pessoas, Orunmilá intrigado pela negativa de Ossayn, quis saber que ervas eram. Convencido dos poderes do Orixá das folhas, Orunmilá, a partir de então, colocou-o ao seu lado.
***Outra lenda registra que Ossayn, o filho mais novo de Yemanjá com Oxalá, por ser um grande conhecedor das folhas, viajava pelo mundo tratando das doenças que assolavam os humanos. Em todos os reinos que chegava era bem recebido pelos chefes de todas as tribos. Os outros Orixás o invejavam, pois não possuíam tais conhecimentos e dependiam de Ossayn para terem sucesso. Ossayn cobrava sempre pelos serviços e recebia oferendas de mel, fumo e bebida destilada como pagamento.
      Xangô que era temperamental e não admitia ficar na dependência dos serviços de Ossayn, pediu a Yansã sua esposa que dominava os ventos, para que fizesse voar todas as folhas das matas em direção a todos os Orixás, para que cada um pudesse ter a sua folha e pudesse exercer o domínio sobre uma delas, assim, cada Orixá teria sua folha. Em meio a ventania Ossayn repetia...Ewê Ewê Assa...as folhas, as folhas! No entanto, apesar de cada um dos Orixás ter pegado cada um a sua folha, Ossayn evitou com sua magia que seu poder fosse distribuído entre eles.
***Numa outra versão, conta que desde criança Ossayn gostava de ficar sozinho mais nas matas do que na companhia da família ou de outras crianças. Muito cedo ele saiu de casa e foi morar na floresta onde aprendeu a fazer uso das plantas descobrindo seus poderes mágicos medicinais. Depois de algum tempo, quando alguém precisava de um remédio ou magia recorria a ele. Ossayn guardava seus segredos numa cabaça e não os revelava a ninguém. Os outros Orixás estavam aborrecidos e enciumados por dependerem dele todas as vezes que precisavam das folhas. Decidiram então fazer alguma coisa, e Yansã se dispôs a resolver o problema. Foi ao encontro de Ossayn e fez soprar uma forte ventania, fazendo com que as folhas voassem em direção aos outros Orixás, dando assim a oportunidade de cada um deles pegar algumas. Ossayn percebendo o que estava ocorrendo, gritava: Ewê Assa! Ewê Assa! As folhas! As folhas! E assim, cada um dos Orixás pegou suas folhas. No entanto, Ossayn tinha guardado consigo na cabaça, os segredos e de nada adiantaria os Orixás terem pegado as folhas.
      Ossayn então ordenou que as folhas retornassem às matas, porém, algumas já estavam em poder dos Orixás, estas perderam o axé, a força, mas, por entender que cada um dos Orixás deveria possuir a sua, Ossayn, com sua generosidade, distribuiu a cada um deles um pouco do seu axé e seu ofó, as cantigas de encantamento quando do uso das folhas.
      Ossayn distribuiu as folhas aos Orixás para que eles não mais o invejassem, passando daí em diante, também poderiam realizar proezas com suas folhas, porém, o segredo mais profundo Ossayn conservou guardado na cabaça para si.
       Os Orixás ficaram gratos a Ossayn, que sempre o reverenciam quando utilizam suas folhas.
***Numa outra lenda, conta que um dia Ossayn resolveu partir pelo mundo e pelos lugares que passava era saudado como o grande médico e grande curandeiro.
       Passando por um reino onde o rei estava doente foi vê-lo e o curou com os poderes das folhas e como recompensa o rei deu-lhe muita riqueza, mas, Ossayn não aceitou dizendo que somente aceitaria seus honorários, os mesmos que seriam pagos a qualquer médico ou curandeiro.
       Tempos depois a mãe de Ossayn adoeceu. Sendo procurado por seus irmãos que, para espanto destes, Ossayn exigia o pagamento de sete cauris, búzios, por seus serviços, pois não poderia trabalhar para quem quer que fosse de graça; mesmo contrariados os irmãos o pagaram e sua mãe foi salva.
                                                                                          
*** Outro episodio é contado numa das lendas que Ossayn era escravo e foi vendido a Orunmilá. Um dia, ele foi à floresta e lá encontrou Arony que conhecia tudo sobre as plantas. Arony era um Ser de uma perna só, ficaram amigos, e Arony então ensinou tudo que sabia à Ossayn.
      Mais tarde, Orunmilá desejoso de fazer uma plantação, ordenou a Ossayn que roçasse o mato para a semeadura. Diante de uma planta Ossayn exclamava: esta não pode ser cortada, ela é para curar dores! Diante de outra exclamava: esta não, também não pode ser cortada, é a planta que cura as hemorragias! ... e assim foi que, quase todas as plantas existentes tornaram-se úteis para os remédio e magias. Ossayn ajudava assim Orunmilá a dar os nomes e a receitar as folhas como remédio, ficando conhecido como o médico que é.
***Quando Ossayn nasceu seus pais o deixou nu, por isso ele cresceu cheio de ressentimentos; vivia a maior parte do tempo nas matas aprendendo com Arony os segredos das folhas. Um dia jogou um feitiço sobre seu pai que ficou doente e não conseguia respirar; depois jogou um feitiço sobre sua mãe que ficou também doente com dores na barriga, e só ficaram curados quando deram a Ossayn um pano listrado.
      Mais tarde, quando Ossayn teve um filho ficou com receios de que ele o tratasse como tinha tratado seus pais, então o matou, e de seu corpo fez um pó mágico que curou muita gente, inclusive o rei, que em recompensa, o cobriu de honrarias.
***Havia um rei que tinha três filhas, e quando elas chegaram a idade de casar o rei disse que a mais velha se casaria com quem adivinhasse o nome das três princesas. Muitos pretendentes apareceram, mas todos fracassaram, até que um dia chegou naquela cidade Ossayn, que se apaixonou pela bela princesa e se apresentou como pretendente. O rei lhe deu um prazo de três dias para descobrir o nome das princesas. Passeando perto do palácio, Ossayn descobriu uma arvore onde as princesas passavam. Era um pé de Obí, e quando elas apareceram Ossayn subiu na árvore e lhes deu um fruto dizendo a elas que ele era o deus da árvore, em troca elas disseram seus nomes.
       No dia marcado foi na presença do rei e disse-lhe o nome das princesas, casando-se assim com a princesa prometida. Só então revelou seu verdadeiro segredo, dizendo que era o Orixá das folhas.
 Suas contas têm as cores verde e branca, o dia consagrado é  quinta feira, sua saudação é “Ewê o Ewê Assa”.
No sincretismo católico é representado por São Benedito e Santo Expedito.


                                               Obaluayé (Omulú)
      Denominado rei de todos os espíritos, Obaluayé também é denominado Omulú ou Xapanã e, quando manifestado é coberto por uma roupagem, o aso-Ikó e o filá, um trançado de fibras de nervura de palmeira que é colocado em sua cabeça e que cai sob todo seu corpo. Obaluayé está relacionado com a Terra, com os troncos e ramos das árvores, são os transportadores do seu axé. O vermelho, o preto e o branco são suas cores sempre dispostas e alternadas em seus brajás, colares que fazem parte de sua indumentária. Está relacionado também com as doenças endêmicas e o calor pelo aspecto do vermelho, e seu símbolo é o sasará, uma espécie de vassoura com a qual varre e afasta todos os males através de uma magia que guarda os mistérios da vida e da morte. Em alguns mitos é tido como filho mítico de Nãnã Burukú.
***Em um desses mitos, consta que quando Omulú nasceu seu corpo estava todo coberto por feridas, vitimado pela varíola; sua mãe, horrorizada com o aspecto do filho, abandonou-o nas areias de uma praia para que as ondas o levasse. No entanto, diante do choro de Omulú, veio em seu socorro Yemanjá, a deusa dos mares. Abrigando-o numa palhoça abandonada, acomodou-o e protegeu-o com folhas de bananeira; Yemanjá sempre que saia do seu reino ia vê-lo, amamentava-o e banhava-o nas águas do mar.
      Numa das vezes que Yemanjá foi vê-lo encontrou-o rodeado de serpentes e, como por encanto estava curado das feridas. Curado e com poderes por ter dominado as serpentes, Omulú cresceu e tornou-se belo e formoso apesar das cicatrizes deixadas pela varíola; tornou-se um peregrino no mundo, e em suas caminhadas tinha sempre a companhia de dois cães, seus pertences eram somente um bastão, um bornal e uma cabaça, porém, seu aspecto devido a cicatrizes, fazia com que todos se afastassem dele. Desiludido embrenhou-se nas matas onde conheceu Ossayn, Orixá das folhas, amizade da qual adquiriu todos os conhecimentos na utilização das plantas para as doenças; tornou-se o médico da floresta e a ele todos os doentes recorriam para obter uma cura; no entanto, ao atender as pessoas fazia-o com uma vestimenta de palha sob todo o corpo, pois, além de guardar seu corpo guarda também mistérios e magias.
*** Outra lenda consta que, de tempos em tempos os Orixás se reuniam para uma festa, todos dançavam  menos Omulú que ficava espreitando pela porta muito envergonhado de sua aparência. Ogun percebeu o que acontecia; penalizado resolveu ajudá-lo trançando uma roupa feita com mariwô, fibra de palmeira que recobriu todo o corpo de Omulú. Com tal traje, Omulú passou a participar da festa despertando a curiosidade de todos que queriam saber quem era o Orixá misterioso que estava por debaixo daquela vestimenta. Foi quando Oyá (Yansã), a mais curiosa se aproximou, e naquele momento formou-se um turbilhão, o vento levantou a palha revelando o mistério, um bonito rosto jovial; desde então, os dois Orixás vivem juntos e passaram a reinar sobre os mortos.   
***Omulú era muito mulherengo e não obedecia nenhum mandamento; um dia, Òrúnmilá o advertiu que se abatinasse do sexo, o que ele não cumpriu, pois naquele mesmo dia possuiu uma de suas mulheres. Na manhã seguinte despertou com o corpo todo coberto de chagas; suas mulheres pediram para Orúnmilá que intercedesse junto a Olodumare, mas este não perdoou, e Omulú morreu.
      Orúnmilá, usando o mel de Oxún, despejou-o por sobre todo o palácio de Olodumare, este, deliciado, perguntou a Orúnmilá quem havia despejado em sua casa tal iguaria; Orúnmilá respondeu que tinha sido uma mulher. Todas as divindades femininas foram chamadas ao palácio de Olodumare, mas faltava Oxún que ao chegar confirmou que era seu àquele mel. Olodumare pediu mais, porém, Oxún lhe fez uma proposta, daria todo o mel que quisesse desde que ressuscitasse Omulú. Olodumare aceitou e Omulú reviveu.
      Sua saudação é: Atotoó Omulú AlukóAji, seu instrumento de culto é o xaxará e suas contas são na tonalidade terracota-rajada de preto e branco e seu dia consagrado é a segunda feira, tendo no sincretismo cartólico São Lázaro.

                                                       Oxumarè.              
      É considerado como um Orixá andrógeno, isto é, têm sua regência dividida entre dois extremos, o Céu e a Terra. Sua função principal é a de transformação dirigindo as forças que produzem movimento e ação nos Seres e na natureza. Na cultura ioruba tem sua representação no arco-íris. No Daomé, conforme a mitologia e os fundamentos religiosos registram que possui como símbolo uma cobra mordendo o próprio rabo numa simbologia do movimento circular contínuo, representando o símbolo dos Oroborós, uma Nação da África Ocidental. A cobra e o arco íris, como símbolos, têm como representação a dualidade de Oxumarè que, durante um tempo quando na fase do arco íris, tem como incumbência levar as águas das cachoeiras para o Orun, reino de Oxalá, porém, em outros tempos, assume forma feminina. Nessa fase transforma-se numa cobra que, vez por outra, toma a forma da deusa chamada Bessen, uma bela divindade. Oxumarè está associado tanto a Terra quanto ao Firmamento, e seu axé, após atingir as alturas pelas múltiplas cores de um arco colorido, retorna a Terra; tais cores são também representativas na sua roupagem e em seu brajá. Possui ainda duas serpentes confeccionadas em ferro que o representa e, por ser este o seu metal, está relacionado com os conteúdos da Terra.
       Seu símbolo mais representativo é o arco íris que, elevando-se da Terra atinge as alturas e volta transportando em seu corpo as combinações do seu axé. Filho mítico de Olojá Orurú é cultuado juntamente com Nãnã Burukú e Obaluayé (Omulú) seu irmão. Está relacionado com o transcorrer da existência com o movimento incessante dos corpos celestes e o destino dos Seres. Filho de Nãnã com Oxalá, na interação, aparece sempre depois de uma tempestade para lembrar o renascimento da harmonia e da paz. Também é simbolizado durante uma dança em sua homenagem, é quando os participantes, em dado momento, apontam para cima e para baixo alternadamente indicando os poderes da Terra e dos Céus.
No seu aspecto mítico, Oxumarè era um Babalawô, o adivinho do rei Òní.
***Conta uma lenda que a sua única ocupação era ir ao palácio real no dia do segredo para atender ao rei, porém, o rei Òní não era muito generoso, dando-lhe apenas algumas quantias ínfimas, pois Oxumarè vivia na pobreza com sua família.
      O pai de Oxumarè também era pobre e não tinha poderes, mas era conhecido como o proprietário das vestimentas de cores brilhantes. Oxumarè estava muito triste pela situação que se encontravam todos da família. Um dia foi consultar Ifá e perguntou como poderia se tornar rico e respeitado por todos. Ifá o aconselhou a fazer oferendas nas quais deveriam constar uma faca de bronze, quatro pombos e um saco com búzios; assim foi feito, e no momento que Oxumarè consumava as oferendas o rei mandou chamá-lo, mas, Oxumarè mandou dizer ao rei que só ia após ter terminado aquela cerimônia de oferenda que estava fazendo. O rei ficou irritado com a resposta, achou aquilo uma afronta, uma humilhação e resolveu então negligenciar a remessa dos pagamentos que fazia a Oxumarè. Na volta para casa, após ter feito as oferendas, recebeu um recado de Òlókan, a rainha de um país vizinho que dizia querer consultá-lo a respeito de seu filho que se encontrava doente, ele não se mantinha de pé, caia e se rolava pelo chão.
      Oxumarè foi à corte da rainha Òlókan, e lá chegando consultou Ifá que, após ter aconselhado a fazer oferendas e que, após tê-las realizado, o filho da rainha ficou curado. Òlókan encantou-se pelo acontecido e como recompensa deu para Oxumarè uma roupa azul, muitas relíquias, escravos e um belo cavalo no qual montou e retornou à sua casa. Ao chegar um escravo rodopiava um guarda sol sobre sua cabeça e músicos entoavam cânticos em seu louvor.
      Oxumarè foi saudar o rei Òní que ficou surpreso e perguntou de onde Oxumarè tinha vindo e como tinha adquirido toda àquela riqueza. Oxumarè contou-lhe então tudo que aconteceu. O rei Òní, estimulado pela rivalidade que tinha com a rainha Òlókan, resolveu dar a Oxumarè uma roupa vermelha feita do melhor tecido existente em seu reino e muitos outros presentes. Oxumarè tornou-se rico e respeitado por todos.
***Relacionado ao aspecto divino, conta uma lenda que Oxumarè não era amigo da chuva, quando chovia, reunia as nuvens e agitava sua faca de bronze apontando para o Céu como estivesse riscando de um a outro lado; o arco íris aparecia e a chuva fugia. Olodumare, sempre que convinha estendia uma esteira real e caminhava sob a chuva. Certo dia Olodumare começou a sofrer da visão e passou a não enxergar mais, mandou então chamar Oxumarè que, logo ao chegar à presença de Olodumare o curou. Depois disso, Olodumare não mais deixou que Oxumarè retornasse a Terra; daí em diante passou a morar no Orun –Céu- e só pode vir à Terra de três em três anos. Dizem que é durante esses anos que as pessoas tornam-se ricas e prósperas.  
      A saudação à Oxumarè é... Arobô Bo Yí, seu instrumento de culto é uma lança envolvida por uma serpente. Seu dia consagrado é a terça feira e suas contas são nas cores verde e amarela ou amarela e preta. É um Orixá que não possui sincretismo conhecido.
     Xangô.
   Xangô é o Orixá mais cultuado nos Candomblés, isso porque foi o primeiro Orixá a atravessar o oceano trazido pelos povos oriundos daquele continente, ele é considerado o principal tronco dos Candomblés no Brasil.
      Sua historia é contada através dos tempos numa narrativa rica em acontecimentos, possui dualidade, uma mítica e outra real, isso, por ter sido quarto aláafin de Oyó. Filho de Oranian e Torosi, esta, filha de Elempê, rei do povo Tapa que havia firmado uma aliança com Oranian. No seu aspecto mítico têm como mãe Yemanjá, e como esposas, Oyá, Oxún e Obá.
      Conta a historia que num passado muito distante, o território ioruba era formado por cinco grandes regiões, Oyó, Egbwa, Ibampa, Ijebú e Igexá.
        A epopéia dos heróis iorubanos teve inicio com os filhos de Okambi, que dentre seus sete filhos estava Oranian, o fundador da cultura. Independente de ter tentado continuar a missão de seu avô Oduduwa em sua guerra santa contra os descendentes de Ismael, transformou-se no maior personagem histórico desta cultura.
        Oduwa foi um guerreiro que veio de terras ao leste e invadiu com seu exército a capital do povo de Ifé, esta cidade mais tarde veio chamar-se Ilê Ifé. Como governante da grande cidade, Oduwa unificou as mais importantes cidades daquela região que mais tarde viria a ser conhecida como território ioruba.
        Quando Oduwa morreu os príncipes fizeram a partilha entre si dos bens deixados, e coube a Okambi a tarefa de ficar como regente até a sua morte, no entanto, nunca lhe foi atribuído o titulo de Alaàfin. Com a morte de Okambi foi feito rei Oranian, o mais jovem dos príncipes, pois este tinha ficado rico e poderoso. Ilé Ifé então tinha se tornado na capital da vasta região conhecida como Oyó. Okambi deixou sete filhos.
        Na cronologia, Okambi foi o primeiro Alaàfin de Oyó, cidade que se tornara um grande império, isto em 1700 AC, depois veio Oranian, a seguir veio Ajaká e depois Bêri, tornando-se o quarto Alaàfin, isso por volta do ano 1400 aC. Oyó era então a capital do reino do povo iorubano, que na antiguidade era simplesmente um acampamento dos nagôs para doma de búfalos selvagens. A cidade governada pelo rei Abidoun prosperou rapidamente. Com sua morte, sucedeu-o Awolé, que mais tarde abdicou em favor de Arogangan; foi então que surgiu Bêri, que mais tarde viria a chamar-se Xangô.
        Da linhagem de Okambi também descendeu Iyátorossi, a Iyábálupe, conhecida como senhora Torossi, rainha de Lupe que viveu por volta do ano 1460 AC. Moremi, a princesa sacerdotisa, foi fundadora do matriarcado e criadora da sociedade secreta dos homens leopardos denominada Ekun Walê e que também instituiu a cultura Jêje. Alamí, a princesa real foi fundadora do reino de Kêtu e reinou soberanamente até passar o poder a seu filho Alakêtu. Também de Okambi originaram-se Aganjú, Kori, Abiedun e outros reis de pequenos Estados, que após suas mortes foram divinizados ou tornaram-se heróis demiurgos locais.   
       Ajaká, que também era conhecido por Dadá Ajaká, estava sendo um rei não muito austero, Xangô que era rei de Kossô, cidade tributária de Oyó o destronou e o exilou colocando-o como rei de Igboho, cidade onde somente ostentava uma pequena coroa de búzios denominada baiami. Xangô passou a ser o quarto Alaàfin de Oyó e seu reinado durou sete anos. Após este período, Dadá Ajaká volta a reconquistar seu império e, desta feita, voltou-se contra todos os parentes da família materna de Xangô guerreando contra o povo Tapa.
       Xangô volta a ser o Obá Kossô e, em certa ocasião, ele estava no alto de uma montanha testando seus poderes. Em altos brados evocava pelos raios e desafiava suas forças poderosas. Sua voz era o próprio trovão provocando um barulho ensurdecedor. Ninguém conseguia entender o que Xangô pretendia com aquela atitude ficando ali por longo tempo e impaciente por não obter resposta. De repente o céu se iluminou e os raios começaram a aparecer. Na aldeia próxima as pessoas que observavam, ficaram impressionados com a beleza daquele fenômeno, mas ao mesmo tempo apavorados também, pois, nunca tinham visto nada parecido.
Xangô, orgulhoso de seu extremo poder ficou estarrecido com o acontecimento e não parava de proferir palavras de ordem querendo que àquele espetáculo continuasse, pois era algo realmente impressionante.
Foi então que do alto de sua vaidade viu a situação fugir do seu controle, tentou voltar atrás implorando aos céus que os raios que se lançavam sob a Terra como poderosas lanças fumegantes desaparecessem. No entanto, era impossível, a natureza havia sido desafiada desencadeando forças incontroláveis. Xangô então correu para seu palácio encontrando-o todo destruído e viu o erro que cometera; a destruição era total, e para piorar, todos os seus descendentes haviam sido mortos.
       Na cidade, os sobreviventes da catástrofe, mesmo cambaleantes e ainda assustados ao ver que seu rei estava muito perturbado, tentaram encorajá-lo com a promessa de que tudo seria reconstruído e tudo voltaria ao normal. Porém, não suportando em ver tudo aquilo, Xangô, sem dar atenção a ninguém foi embora da cidade destruída deixando seu povo a mercê da sorte; retirou-se para um lugar afastado para acabar com a sua vida; tempos depois foi encontrado enforcado em um dos galhos de um pé de Obí.
       Na historia do grande rei seus ministros providenciaram os funerais e a vida continuou com a entronização do quinto Alaàfin. Xangô foi posteriormente divinizado como o deus do trovão e da justiça. Porém, na estória que transcende os limites da crença, uma lenda é contada que, quando Oyá soube da morte de Xangô, que era seu marido, chorou tanto que suas lágrimas formaram o rio Niger. Ela, que tinha conhecimentos e poderes no reino dos Èeguns, foi até lá para trazer seu companheiro de volta; quando o trouxe, Xangô, agora veio envolto em um manto branco com o rosto encoberto por uma mascara de madeira, pois não podia ser reconhecido por Ikú, o senhor da morte.
...E foi assim que surgiu uma das características mais conhecidas de Xangô a qual chamamos de Ayrá, e essa variação da essência de Xangô, adotou além do vermelho a cor branca.
                                                              ***
      Xangô cresceu no país de sua mãe e depois de adulto instalou-se em Kossô, onde seus habitantes não o aceitaram devido seu caráter violento; com o tempo, impondo sua força, conseguiu conquistar a todos. Mais tarde, foi para Oyó onde se estabeleceu e recebeu o nome de Kossô, conservando assim seu titulo adquirido anteriormente de Òbá Kossô.
      Após ter sido divinizado como o deus do trovão e da justiça, Xangô permanece filho de Oranian, mas desta feita, tem Yemanjá como sua mãe mítica e como elemento simbólico o fogo, pois, quando enfurecido lança sob a terra seus edún ará, machados de pedra com duas faces, que através dos raios tornam-se seu símbolo. Por esse motivo, a morte acontecida pelo raio é considerada infamante, e da mesma forma, uma morada atingida por um raio é marcada pela cólera de Xangô. Em épocas antigas o proprietário havia de pagar altos tributos aos sacerdotes de Xangô, pois estes, sempre iam aos lugares atingidos procurar nos escombros os edún ará, as pedras de raio.
      Consideradas emanações de Xangô, esses edún ará quando encontrados eram depositados num pilão, o odó, que era consagrado ao Orixá; este elemento contém o seu axé e sua força que, complementados nos rituais de sacrifício pelo sangue dos animais ofertados, em parte, eram derramados sobre as pedras, isso, para dar a manutenção da força e do poder de Xangô.
      Outro símbolo que representa Xangô é o xére, objeto ritual com poderes místicos, é um chocalho feito de cobre e que o acompanha nas danças rituais quando manifestado. No passado, este instrumento era feito de uma cabaça alongada contendo em seu interior pequenos grãos, que sacudidos, imita o ruído da chuva; em algumas ocasiões é utilizado um labá, bolsa de couro ornamentada onde, simbolicamente, guarda seus edún ará.
      Suas danças são acompanhadas, ocasionalmente, por um tambor chamado Batá, este tambor tem a forma de uma ampulheta encourado nos dois lados com tamanhos diferentes que são pendurados ao pescoço do tocador por uma tira de couro, e seus tocadores, os olubatás, batem com uma tira de couro em um dos lados.
      Uma das danças rituais feitas por Xangô, o Orixá brande seu xére e, assim que há uma aceleração no ritmo, ele faz um gesto de quem vai pegar no labá (a bolsa), os edún ará, as pedras de raio e lançá-las sobre a Terra.
      Em algumas casas de Candomblé, no nordeste do Brasil, batá também é uma designação para determinados cultos de origem africana.
      Em uma cerimônia denominada ajeré, alguns de seus sacerdotes levam sob a cabeça jarras com furos, os oxé, dos quais saem fachos de fogo. Em outra cerimônia, chamada akará, Xangô engole mechas de algodão embebidas no óleo de dendê em combustão, é uma referência ao fato de que o Orixá tem o poder de lançar fogo pela boca graças a um talismã dado por Oyá em território Bamba na África.
       Xangô é o irmão carnal mais novo de Dadá Ajaká, porém, no mito passa a ser o irmão mais jovem de Omulú (Obaluayé), entretanto, não são os vínculos de parentesco que permitem explicar a ligação entre ambos, mas suas origens comuns em Tapa, lugar onde Obaluayé teria sido mais antigo e, por deferência para com o mais velho. Em outras cidades, como Seketê e Ifanhim são sempre feitas oferendas a Obaluayé na véspera de alguma celebração em honras a Xangô.
       A madeira e o cobre são utilizados na confecção de objetos que o representa, e seu axé encontra-se nos elementos de cor avermelhada.
      No universo transcendental teve três esposas, Oxún, Oyá e Obá que, em torno delas, muitas lendas são relatadas. Obadaw, Iséyin, Iwó, Kêtu, Abeokutá, foram alguns dos lugares onde o culto de Xangô foi muito desenvolvido.
      Òní Xangô é o nome que seus filhos iniciados recebem, ou seja, os odosú Xangô, independentemente do sexo e, para todos os filhos de Xangô existe o primeiro nome, Magbá, uma identificação hierárquica perante os membros do candomblé.
      Xangô é o bravo guerreiro, o conquistador, mas também é reconhecido pela sua vaidade entre as divindades masculinas africanas. Monarca por natureza é chamado pelo termo de Òbá, que significa rei. Reinou em Oyó na Nigéria, antiga capital política daquele país, o que vem confirmar que é o único Orixá que teve vida terrena.
      É o regente da ideologia, da decisão, da vontade e da iniciativa, da rigidez e a vontade de vencer. Por ser uma realeza conserva a atitude monárquica e o espírito nobre nas pessoas; no entanto, apesar de ser um guerreiro e munido de justiça tem aversão a doenças, a morte e aos Éeguns, espíritos desencarnados, e por esse motivo, costuma entregar seus filhos à Obaluayé sete meses antes da morte destes.
      Os filhos de Xangô, aqueles que passaram pelos preceitos religiosos em dias festivos ao Orixá, costumam prender os cabelos no alto enfeitando-o com búzios e usam roupas brancas para atrair boas energias.
      Assim como todos os Orixás, Xangô possui suas características, diferenciando-o nas suas diversas manifestações, Oranian, como seu pai, é uma das características de se manifestar, não possui culto nos candomblés brasileiro; Ajaosi, que se manifesta como um velho, também não possui culto identificado; Aganjú é a manifestação do Orixá mais associado a Exu, Ogún e Yemanjá; Ajacotá, que está associado com as chuvas fortes; Badé, que está associado ao trovão e ao fogo, a este somente os filhos homens podem ser iniciados, assim mesmo os acima dos quarenta e cinco anos de idade, é quando vão se encerrar as atividades de um egbé; Sogbo é um Xangô cuja manifestação está associada aos trovões, pertencente à nação Jêje; Hevioso que também pertence à nação Jêje, significa àquele que vomita fogo; Obálube é um dos mais velhos, foi chefe de clã e possui suas características em ter seus assentamentos sobre duas gamelas ovais localizadas em cima de uma pedra; Agodô é uma das características de Xangô que se manifesta como um guerreiro; Barú ou Ibarú, como são conhecidos, tem seus assentamentos sob o casco de um ajapá; Olorupá, este, apesar de manifestar-se com aspecto de violência usa sua energia para promover a justiça; Òbá Kossô tem sua manifestação com características de ser um dos mais velhos; Jacutá, também um dos mais velhos, possui em seus assentamentos doze pedras de raio, os edún-ará e é caracterizado e reconhecido no Ijexá por vestir-se de verde, é o lançador de pedras; Ajaosi, outro que possui aspecto de um velho; Afonjá, este representando a casa real de Oyó, possui seu histórico nas lutas travadas e carrega consigo o atin, poeira de magia que, quando desafiado, roga pragas fulminando os inimigos, possui o carneiro como símbolo e é o único Xangô que usa o xére de cobre, quanto aos demais, utilizam tanto de cobre quanto de latão ou cabaça com pescoço; Akorumbé, esta característica de Xangô é pelo fato de poder ter somente um único no egbé e seu assentamento possui duas pedras, (otás) envoltas por uma cobra de cobre; esse aspecto de Xangô está associado com a temperatura do mundo; Ayrá é também conhecido como Xangô Funyan, o mais velho de todos e está sempre acompanhado de Oxaguian, é o único que, além de ser uma das suas características possui outros três aspectos diferentes, ou seja: Ayrá Ibonã, que se veste todo de branco, Ayrá Intilé, que possui seus assentamentos juntamente com Oxalufan; sua gamela é feita de jaqueira e usa dois osé, seus símbolos, e uma coroa de metal branco. Tais assentamentos ficam sobrepostos na rama de algodão. Okutá, este é caracterizado por estar sempre presente numa rocha. Nas casas de Candomblé de Angola é cultuado pelos nomes de N’zazi ou Zazi, ou ainda Luango.
      Em uma das lendas sobre Xangô, conta que ele era rei de Oyó, sua mãe era da cidade vizinha de Erupê no território de Tapa, e dessa forma não era considerado filho legitimo da cidade. A cada comentário maldoso Xangô enfurecido cuspia fogo e lançava faíscas pelas narinas; andava pelas ruas da cidade com seu machado de duas faces que o fazia um justiceiro, e onde havia um roubo, Xangô era solicitado, pois com sua astúcia e olhar certeiro encontrava o ladrão onde estivesse.
      Na transcendência mítica quando foi entronizado como rei e para poder reinar, Xangô defendia sua cidade, chegou até mesmo a destronar seu Irmão Dadá Ajaká de uma cidade que avizinhava seu reino. Com o prestigio conquistado, conta uma lenda, que Xangô ergueu um palácio com cem colunas em bronze no alto da cidade de Kossô para viver com suas três esposas, Oyá a amiga guerreira, Oxún a bela feiticeira e Obá a amorosa e prestativa.
      Para prosseguir com suas conquistas Xangô pediu a um Babalawô uma fórmula para aumentar seus poderes que lhe entregou uma caixinha de bronze, recomendando que só fosse aberta em caso de extrema necessidade de defesa. Xangô contou a Oyá o ocorrido, e ambos, não contendo a curiosidade abriram a caixa. Imediatamente começou uma tempestade com ventos, relâmpagos e trovões, os raios destruíram o palácio e a cidade, matando grande parte dos habitantes. Não suportando a tristeza, Xangô retirou-se para o Órún levando consigo suas esposas.
      As lendas em torno do grande Orixá são contadas através dos tempos.
***Uma demonstração de justiça e sabedoria é contada em outra lenda, a qual relata o episódio em que certa feita, viu-se Xangô acompanhado de seus exércitos frente a frente aos inimigos os quais tinham ordens de não fazer prisioneiros, e assim foi feito. Àqueles que caiam como prisioneiros eram barbaramente mortos, mutilados, cortados em pedaços e jogados ao pé da montanha onde Xangô estava. Àquela atitude do inimigo provocou a ira de Xangô, que num movimento rápido bateu com seu machado numa grande pedra provocando faíscas que mais pareciam raios; e quanto mais batia mais os raios ganhavam força alcançando os inimigos e os liquidando. Mais uma vez Xangô sairia vencedor. Aos prisioneiros, os ministros de Xangô pediam o mesmo tratamento dado aos seus guerreiros, mutilação e atrocidades, destruição total do inimigo; porém, Xangô não concordou e disse: __Não, o meu ódio não pode ultrapassar os limites da justiça, eram guerreiros cumprindo ordens, seus lideres é que tem que pagar! E levantando novamente seu machado em direção ao céu, gerou uma infinidade de raios dirigindo-os contra os lideres inimigos destruindo-os completamente. Em seguida, libertou todos os prisioneiros, que fascinados pela atitude de Xangô, passaram a segui-lo em outras batalhas fazendo parte dos exércitos do Orixá da justiça.
***Outras lendas fazem parte da existência mítica do Orixá da justiça, como esta, relatando que Xangô era filho de Obatalá. Quando jovem era muito rebelde e, vez por outra, saia pelo mundo botando fogo pela boca queimando tudo que encontrava pela frente e fazendo arruaças. Seu pai Obatalá sempre era informado de tudo. Recebia as queixas de todas as partes da Terra. Obatalá, diante das queixas, sempre alegava que Xangô era como era por não ter sido educado por ele, mas que algum dia conseguiria dominar o genioso filho.
      Certo dia, Xangô estava na casa de Obá e deixou seu cavalo amarrado junto á porta da casa. Obatalá, passando por ali, reconheceu o animal e resolveu levá-lo consigo. Ao sair, Xangô pensando que havia ter sido roubado, saiu enfurecido procurando seu animal perguntando a um e a outro. Mais tarde, recebeu a informação que um velho estava com seu cavalo. Enfurecido, Xangô alcança o velho e, ao tentar agredi-lo, reconhece que é seu pai Obatalá, este, levantando seu Opáxoró, ordenou: Xangô Kunlé Foribalé, Xangô atirou-se ao chão em total submissão a Obatalá.
       Xangô sempre trazia consigo seu brajá feito de contas vermelhas que Obatalá arrebentou, e a elas, misturou as suas contas brancas dizendo: Isto é para que toda a Terra saiba que você é meu filho. Daquele dia em diante Xangô submeteu-se às ordens de Obatalá.
      Suas cores são o vermelho-terracota e o branco, seu dia consagrado é a quarta feira e, geralmente é representado no sincretismo católico por São Jerônimo ou São Bartolomeu.
      Foram os reis iorubanos que reivindicaram Xangô após a sua morte como ancestral. Como rei de Oyó tornou-se lendário, pois, tinha o poder de fazer cair os raios à sua vontade, isto porque, possuía os talismãs que lhe permitiam emitir fogo flamejante. E foi assim que ganhou muitas guerras anexando territórios vizinhos ao seu reino.
       Existe uma lenda sobre o desaparecimento de Xangô que diz que uma grande tempestade desabou sobre o mundo, os raios provocaram uma grande chama na Terra e o povo da nação nagô, amedrontados, exclamavam: Xangô tornou-se Orixá!
       Depois do seu desaparecimento formou-se em Oyó um conselho de ministros que ficaram encarregados de manter o culto a Xangô, esse conselho, organizado e composto por doze ministros, que na Terra o acompanharam, seis do lado direito e seis do lado esquerdo. Do lado direito estavam Abiodun, Omyoy, Aréssa, Onanocakume, Obó Telá e Olugbam, e do lado esquerdo, Otún, Onan, Sôkun Oko, Kaká N’fô, Ossis e Ovikô, que juntos, formaram a primeira geração onde os ministros do lado direito são os mestres e os do lado esquerdo tornaram-se o livre arbítrio.  
      Xangô, um dos mais respeitados Orixás possui seus sacerdotes, são os Omo Xangô Mogbá Orí, e suas sacerdotisas as Odosú Xangô; a saudação do Orixá da justiça é Kawô Ka byesi Obá Osí.
     Nas rodas de Xangô se louva Yemanjá e Oduduwa, não somente pelo fato de Xangô ser um descendente mítico, mas também, por ser ele, um descendente de Seres vivos, e principalmente pela condição dele ser um grande e memorável Éegun, o qual é cultuado aqui no Brasil equivocadamente e juntamente com os Orixás. Este fato decorre dele, Xangô, ter sido iniciado quando em vida nos próprios Orixás Jacutá e Aganjú.   
                                                                                                                                     
                                               Oyá (Yansã)
    Oyá ou Oyá Messan recebe também a denominação de Yansã. Este Orixá está relacionado com os vários elementos naturais como os ventos, tempestades e relâmpagos; têm como símbolo o mesmo erúkeré de Oxossi. O movimento constitui seu aspecto dinâmico e sua cor representativa é o vermelho, cor que também representa seu axé, cor do sangue que circula e dá vida. De sua nação de origem recebeu o titulo de deusa do rio Niger, porém, um dos nomes mais conhecidos é o de Oyá Igbalé, que na verdade, é uma de suas características. É também a matriarca dos mortos e ancestrais, sendo ainda referendada como a mãe dos nove Orun na concepção nagô quanto à divisão do espaço etéreo. Quando manifestada, ao dançar, possui aspecto agressivo e é ainda representada pelos raios fumegantes que riscam os céus, por isso é também conhecida como senhora da espada de fogo.
      Segundo alguns mitos foi uma das esposas de Xangô, no entanto, percorreu e conquistou vários reinos; foi paixão de Ogún, Oxaguian e Exu, conviveu com Oxossi e criou Logun Edé; tentou ainda, mas em vão, relacionar-se com Obaluayé, porém, Ogún, em Ifé, o guerreiro foi sua grande paixão com quem aprendeu a arte da guerra e ganhou o direito de manusear a espada. Em Osogbô, terra de Oxaguian aprendeu com este a arte de usar o escudo, e mais tarde, deparou-se com Exu, mantendo uma convivência com quem aprendeu a arte da magia descobrindo os mistérios do fogo. No reino de Oxossi seduziu o Orixá da caça e com ele aprendeu a caçar, tirar a pele de búfalo e a se transformar naquele animal, tudo com a ajuda da magia aprendida com Exu. Depois destes relacionamentos, Oyá partiu para o reino de Obaluayé, pois queria descobrir seus mistérios e conhecer seu rosto, nada conseguiu, mas Obaluayé resolveu ensinar-lhe a tratar dos mortos que, de inicio não aceitou, e mais tarde, porém, ficou encarregada de ser a dona dos Èeguns.
***Uma lenda, conta que Oyá não podia ter filhos e foi consultar um Babalawô que lhe disse então que se ela oferecesse alguns sacrifícios poderia tê-los. Um dos motivos pelo qual não teria filhos era pelo fato de ela não respeitar uma proibição alimentar (um evó), que a proibia de comer carne de carneiro. Como pagamento teria que dar ao Babalawô 18000 búzios, moeda corrente na época, e para a oferenda, seria uma quantidade grande de tecido colorido; também pediu o Babalawô uma quantidade de carne de carneiro com a qual fez um cozido e deu à Oyá para que ela comesse, porém, dali em diante não mais poderia comer de tal carne.
      E assim foi feito, e tempos depois Oyá deu a luz a nove filhos e ficou conhecida pelo nome de Iyá  omo méssan, que significa mãe dos nove filhos. Fica evidente nesta estória, o momento mítico de Oyá, e que, numa aglutinação do vocabulário tornou-se Yansã.
 ***Há, no entanto, outra lenda para explicar o mito de Oyá/Yansã, que diz.....Em certa época as mulheres eram renegadas a um plano secundário em relação aos homens, então, resolveram castigá-los, porém abusaram em demasia humilhando-os. Oyá era a líder das mulheres que se reuniram em um bosque; anteriormente, Oyá tinha domado e ensinado um macaco dando-lhe o nome de Ijimerê, e utilizou para tanto uma vara de atori (o ixó) e o vestiu com uma roupa de tecido cheia de tiras coloridas, de modo que nada distinguia o macaco debaixo daquela roupa.
      Seguindo um ritual Oyá batia o Ixó no chão e o macaco saltava de um lado para outro aparecendo de forma alucinante e movendo-se como se fora ensinado para fazê-lo; deste modo, durante a noite quando os homens passavam por àquele local, para assustá-los, as mulheres que estavam escondidas faziam aparecer o macaco.
      Cansados de tanta humilhação, os homens foram consultar um Babalawô para tentar descobrir o que estava acontecendo e, para castigar as mulheres, o Babalawô contou a verdade e lhes ensinou como vencê-las através de astúcia e oferendas.
      Ogun foi encarregado da missão. Então, chegou antes das mulheres onde tudo acontecia, vestiu-se com uma roupa de tiras coloridas e totalmente coberto se escondeu. Quando as mulheres chegaram apareceu de súbito, e correndo, gritando e bramindo sua espada, todas as mulheres correram desesperadas, inclusive Oyá; daí em diante os homens dominam as mulheres e as expulsaram para sempre do culto de Èegun, e por esse motivo somente os homens podem evocá-los, venerá-los e tratá-los. Mas, mesmo assim, os homens rendem homenagens à Oyá Igbalé como a criadora do culto aos Éegun.
      O culto aos Èegun nasceu na mata (Igbó Igbalé). Aqui no Brasil, no Ilé Awó, é o recinto especifico onde são colocadas as oferendas cerimoniais para os Èeguns.
      Oyá é também venerada como mãe e rainha dos Èeguns como Oyá Igbalé e, como diz na lenda, a selva e o macaco estão intimamente ligados ao culto, isso devido a voz do macaco como forma gutural de falar de um Éegun.
***Outra lenda conta que Ogun foi caçar na floresta como fazia todos os dias, de repente avistou um búfalo que vinha em sua direção, rápido como um relâmpago; notando algo de diferente no animal, Ogún resolveu segui-lo. O búfalo parou em cima de um formigueiro, baixou a cabeça e despiu sua pele transformando-se em uma bela mulher, era Oyá, que agora estava coberta com vestimentas coloridas e braceletes de cobre.
      Oyá fez da pele de búfalo uma trouxa, colocou os chifres dentro e escondeu-a no formigueiro, em seguida partiu em direção à cidade. Sem perceber que estava sendo observada por Ogun, assim que ela se foi ele se apoderou da trouxa guardando-a em seu celeiro e depois foi para a cidade; passou a seguir Oyá até que criou coragem e começou a cortejá-la, mas, Oyá recusou a corte.
      Mais tarde Oyá voltou à floresta, e para surpresa não encontrou a trouxa no formigueiro, voltou então para a cidade e encontrou Ogun que lhe disse estar de posse daquilo que ela procurava. Em troca do seu segredo Oyá foi obrigada a casar com ele, mas apesar disso conseguiu estabelecer certas normas de conduta, dentre os quais, o de Ogun não comentar o assunto com ninguém.
      Chegando a casa Ogun explicou a suas outras esposas que Oyá ia morar com ele e que em hipótese alguma deveriam insultá-la; tudo corria bem e, enquanto Ogun saia para caçar Oyá procurava sua trouxa.
      Desse casamento nasceram os nove filhos, o que certamente causou ciúmes nas outras esposas que eram estéreis; uma delas, para vingar-se, conseguiu embriagar Ogun e ele acabou por revelar onde havia escondido os pertences de Oyá. Ogún adormeceu e as mulheres foram insultar Oyá dizendo que ela era um animal e não uma mulher, contando ainda onde estava escondida sua trouxa.
      Oyá acabou por encontrar sua pele e os chifres, e assumindo a condição de búfalo novamente, partiu para cima das mulheres. Decidiu então voltar para a floresta, mas não permitiu que os filhos a acompanhassem porque era um lugar perigoso, deixou com eles os chifres e os orientou para que em caso de perigo, deveriam bater um contra o outro, pois com esse sinal ela ia socorrê-los imediatamente. E por esse motivo é que os chifres estão presentes nos assentamentos de Oyá.
***Xangô estava em suas famosas guerras em franca expansão do império ioruba; contava com um numeroso e poderoso exército, e acima de tudo contava com sua feroz e exímia guerreira Oyá, cujo carisma era muitas vezes maior que o dele mesmo; todo o exército confiava na força, na garra e na ferocidade de Oyá, tornando-se assim um exército insuperável.
Não havia reino que suportasse tamanha fúria e paixão, um a um os reinos da África caíam ante o invencível exército de Xangô e de sua esposa e companheira de batalhas. Xangô orgulhava-se de sua rainha tão fiel apaixonada e feroz com liderança em uma só figura que era sua. Xangô não conhecia vida melhor, era agora o maior Imperador da África, o homem mais rico e poderoso.
Enquanto Oyá só desejava ser a jóia mais bela e rara de seu Rei, entregava sua vida, força e paixão ao homem que amava. Oyá não lutava por riquezas, nem por posição, isto já havia lhe importado; agora, só via Xangô e a paixão que nutria por ele e consumia-lhe a alma. Não havia maior espólio de guerra para Oyá do que cair nos braços de Xangô após a vitória de uma batalha, e tudo era uma faiscante felicidade. No entanto, um dia Oyá retorna de seu treinamento diário mais cedo e percebe que está ocorrendo uma reunião na casa dos generais de seu exército, Oyá intriga-se, pois nunca acontecia nenhuma reunião de planos de guerra sem a sua presença, afinal ela era a rainha e o maior general de Xangô. Como poderia ter sido colocada de fora? Como um tufão Oyá adentra a sala percebendo que sua abrupta presença havia calado os planos, e percebe pelas feições de seu esposo, de que ele não a esperava ali e olha para a mesa e vê, entre os planos de guerra dos próximos reinos a serem invadidos e conquistados, Íra, sua cidade, a cidade de seus pais. E então se dirige á Xangô e pergunta: Como podes Xangô, por que começou uma reunião sem a minha presença, sem a presença de seu mais fiel general? E por que inclui a cidade de Íra em sua rota, se esta cidade já é tua, pois eu sou a princesa de Íra, e sou sua, a cidade de Ìra já é iorubana...E Xangô do alto de seu trono responde: Só é meu aquilo que eu conquisto e sucumbe a minha força, para então respeitar-me até os fins dos tempos!
Oyá, enfrecida saca de sua adaga ao espanto de todos, e mais rápida que um raio espeta sua adaga na mesa deixando todos na sala assustados e boquiabertos com manobra tão rápida e furiosa. Oyá havia cravado sua adaga no mapa de planos, a lâmina estava na porta da cidade de Íra; e Oyá contesta: pois aqui estarei eu Xangô, em pé com esta mesma adaga lhe esperando, quero ver vivo homem passar por mim.
E dizendo isso, com a mesma destreza e velocidade, pega sua adaga e sai da sala, não sem antes trocar um último e rápido olhar com Xangô. Ele a havia traído, traído sua confiança e o seu amor por ambição, ganância e poder, ela não podia admitir isto.
Oyá saiu levando com ela uma parte da tropa de soldados que lhe eram fiéis que desertaram do exército de Xangô para acompanhar a valorosa guerreira.
Oyá sentia saudades de Ìra, sua cidade, e também deveria prestar maiores cuidados a seus idosos pais, aos quais, havia renunciado em nome de seu amor por Xangô; agora, devido o retorno tinha que salvar o seu reino. Recebida solenemente, seus pais, idosos e doentes logo lhe passaram a coroa real, pois não tinham mais condições de governar; por um lado estava feliz, pois estava de volta ao seu reino com sua família e seus amigos de Infância, mas, por outro estava remordida com a atitude de Xangô, mas também com saudade e a paixão que, todavia, ainda nutria por aquele homem.
Oyá esperou junto as portas de Íra em pé com a adaga em punhos, e com seu pequeno exército esperou por Xangô, ... e esperou...
Os dias passaram e Oyá sempre esperando em pé diante da entrada da cidade, lembrou-se do jogo que havia feito com um babalawô antes de chegar á sua cidade... O babalawô lhe havida dito: Se abandonares Xangô e voltares para sua cidade, nunca mais o verá. Um frio subiu imediatamente por sua coluna, a garganta apertou e ficou difícil engolir o pavor.
Chega neste momento um homem, era um mensageiro de Xangô. Oyá pressentia o pior, pois nenhuma guerra, espada, lança, ou mesmo a morte lhe havia drenado a coragem, mas a possibilidade de ficar sem o seu amor lhe enchia de um sombrio e angustiante pânico.
Ela recebe o mensageiro que então lhe conta as novidades: Xangô não virá minha rainha, há duas semanas desviou suas tropas da rota de Íra e nos explicou o porquê.
Xangô havia desistido de invadir Ìra; por um momento o coração de Oyá palpita de felicidade, poderia agora perdoar e voltar para seu amor.
E Oyá pergunta:...E Xangô, onde está agora?
E o mensageiro lhe responde:...Vim justamente para lhe informar grandiosa Rainha, Xangô não se encontra mais entre nós, Xangô sem sua feroz Rainha sucumbiu em uma batalha diante da arma do inimigo, Xangô está morto.
As palavras do mensageiro lhe atravessaram como uma lança.
Ouvia em sua cabeça as palavras do babalawô: Se abandonares Xangô e voltares para sua cidade, nunca mais o verá.
Suas forças lhe abandonaram, todavia, tinha um reino a governar e a cuidar, um reino que seus pais lhe confiaram.
Daí em diante Oyá manteve-se viva por fora para cuidar de seu reino, mas morta por dentro sentindo a ausência de seu amor.
A valorosa Oyá, que vencera os mais terríveis inimigos foi derrotada pela traição e pela morte.
Oyá tem suas sacerdotisas, as Oloyá, que numa representação simbólica se identificam utilizando contas vermelhas; seu objeto de culto é uma adaga que simboliza sua personalidade guerreira, o iruexin, um abanador feito com rabo de búfalo está constantemente em suas mãos. Sua saudação é: Eepá ripaó Odo Yá Eepá Eya, Oyá, Oyá Mesan Orí. Seu dia consagrado é a quarta feira e no sincretismo católico é representada por Santa Bárbara.
Oyá possui também uma variedade de características e/ou qualidades.
Binkã, Seno, Abaú, Gunan, Bagan, Onira, Kodun, Magambelle, Iyápopo, Tope, Filiaba, Semi, Sinsirá, Sire. Gbalé ou Igbalé, aquela que retorna para a Terra, Oyá Funan, Fure, Guere, Toningbe, Fakarebo, Dê, Min, Kario, Adagamgbara.
                                                                             
                                                      Oxún
      Para o povo yorubá, conforme a mitologia, Oxún teria nascido de uma concha depositada por Yemanjá nas margens de um grande rio que leva seu nome, o rio Oxún, que em yorubá quer dizer Odô Oxún. Oxún é originalmente cultuada em seu templo principal na região de Osogbô, localidade onde Oxún atingiu sua maturidade. É no percurso do rio que corresponde a trajetória feita pelo Orixá onde assume suas diferentes características, todas elas ligadas a maneira de ser das mulheres, de caráter e atitudes, de suas qualidades e defeitos. Assim, o povo yorubá se refere aos diferentes caminhos de Oxún que são descritos de forma muito particular.                                                                      
       Associada as nascentes, córregos, rios e lagos, Oxún está também relacionada com a gestação e o parto, protegendo o feto e seu desenvolvimento e têm as crianças sob seus cuidados. Recebe algumas denominações e títulos como, a primeira Iyámí akokó, a mãe ancestral suprema ou Iyá Agbá, a mãe anciã. Na África recebe a denominação de Iyá lodé, titulo da mulher mais proeminente da cidade, pois, era a rainha da cidade de Oyó, onde nesse reino, as mulheres que queriam engravidar a procuravam, por ser ela, muito respeitada pelos seus dotes nas feitiçarias. Tornou-se a mais eminente das Iyámí. Assim como todos os outros Orixás existiam também diversos tipos e características de Oxún, isso se dava pelo fato da sua existência ser adversa e de acordo com a proximidade dos locais, que poderiam ser a de uma tribo, da profundeza de um rio, de uma montanha ou de outro local determinante, ou ainda, por uma situação momentânea. Por esse motivo, Oxún pode ser maternal, jovem e feiticeira ou ainda uma guerreira. Mãe da candura e da meiguice, ela é a rainha de Ijexá, Orixá da prosperidade, da riqueza, da magia e do amor.
       Por derivação do vermelho, o amarelo ouro é sua cor representativa. O ouro e o bronze, metais que representam o sangue vermelho mineral, são metais utilizados na confecção de seus adereços como, o idé, um leque ritual. O mel que além de representar o sangue vermelho vegetal, também é representativo no que diz respeito à doçura com que Oxún têm por seus filhos. As penas do pássaro sagrado ekodidé, um papagaio que possui plumas vermelhas na cauda, pertence ao vermelho e tem representação no axé de Oxún Olóri Eleyé, que significa ser a chefe suprema das que possuem os pássaros, não simbolizando, no entanto, o vermelho genérico. Ao saudá-la, Kóra Yêyê Deri Owôn, seus filhos representam bem tudo o que ela vem significar, a mãe ancestral.
 Um mito relata que, quando Oxún veio do Óde Orun, Olodumare confiou-lhe poderes de zelar pelas crianças que iriam nascer no Ayé e, por esse motivo, recebe entre tantos títulos, o de Olutojú Awon Omo, aquela que cuida das crianças, e Aláwoyé, aquela que cura as crianças. A regência mais importante de Oxún é no processo da fecundação, na multiplicação das células e quando Exu entrega tal regência no desenvolvimento do feto até o nascimento, momento em que Yemanjá apara um recém-nascido na hora do parto e lhe entrega o destino.  Conta o mito que foi a segunda esposa de Xangô; muitos relatos permanecem vivos na cultura africana. A mitologia relata que teve relacionamentos amorosos com Ogún e Oxóssi, por isso, sua afinidade com os filhos destes. Na Nigéria, Oxún é reconhecida pelo nome de Osogbô.
       Uma das estórias míticas, conta que, por ser Oxún a mais bela dos Orixás, teria sido presa por Xangô, seu marido, na torre do castelo onde habitavam, pois, era muito ciumento. Passando por ali, Exu ouviu o choro de Oxún e quis saber qual a razão de sua tristeza. Após ouvir a historia pediu a Orunmilá que intercedesse por ela. Este, assim o fez espalhando um pó mágico sobre Oxún e a transformou em uma pomba, possibilitando assim sua fuga. Por isso, nos cultos à Oxún, a pomba é considerada uma ave sagrada.
        Outra estória conta que Oxún queria saber os segredos do jogo de búzios que pertencia a Exú e este não lhe revelava. Ela então procura nas florestas as feiticeiras, as temidas Iyámí, que há muito tempo queriam pregar uma peça em Exu As Iyámí então ensinaram todas as magias para Oxun, porém, exigiram que ela fizesse uma oferenda para cada feitiço que ela executasse. Depois de ter feito as oferendas foi procurar Exu no seu reino; porém, desconfiado, perguntou à Oxún o que ela fazia por ali, disse-lhe para ir embora e que não ensinaria nada a ela. Ela então o desafiou a descobrir o que tinha entre os seus dedos, Exu se abaixa para ver melhor e, nesse momento, Oxún sopra sobre os olhos de Exú um pó mágico que o cegou temporariamente. Com o ardume provocado nos olhos, Exu gritava e dizia: ...Eu não enxergo nada, onde estão meus búzios? Oxún fingindo preocupação, respondia: ...búzios? Que búzios? ...Quantos são eles? ...Dezesseis, respondeu Exu, esfregando os olhos. ...Ah! Achei um, é grande! ...É Okaran, respondeu Exú. ...Achei outro, este é menor! ...É Etá Ogutá, respondeu mais uma vez Exu, ...dê-me ele...E assim foi que ela soube de todos os segredos do jogo de búzios. Ifá, o Orixá da divinação, pela coragem e astúcia de Oxún resolveu dar também o poder de jogo a ela. 
      São várias as características/qualidades de Oxún, como Abalú que é considerada a mais velha de todas e, em alguns lugares da África, recebe o nome de Abalô; esta, porém, têm semelhanças a Yansã por possuir aspecto violento. Jumú ou Ijimú possui estreita ligação com as Iyámí. Abotô ou Asogô, que possui a característica de ser coquete e muito feminina, ajuda as mulheres a terem filhos. Opará, uma das mais conhecidas, é jovem e guerreira. Ajagurá, a que possui aspecto de guerreira. Ogá que é conhecida como a velha e quizilada e aspecto aborrecido. Petú Karé, Oké e Oníra, são guerreiras por excelência. Olokô, a que vive nas florestas e montanhas. Ipondá, a que é esposa de Oxóssi Ibualana, é guerreira e usa um leque ritual. Merin ou Iberim, a mais vaidosa de todas. Aiyálá ou Iyanlá, esta é considerada avó e, na mitologia consta ter sido esposa de Ogun. Odô, a Oxún dos perdões. Lokún ou Pópólokun, quase desconhecida, é uma das características/qualidade de Oxún que não se manifesta, porém, seu culto ainda existe na África.
       Uma lenda conta, que quando Oxún vivia com Ogun era ela que acionava o fole para atiçar as brasas da fornalha da qual Ogún usava para aquecer o ferro e, o fole acionado por Oxún, produzia um som ritmado e muito agradável. Atraído por esse som, Éegun passou a dançar atraindo um grande número de assistentes que por ali passavam. Encantados com o bailado de Éegun, os passantes lhe faziam muitas oferendas em dinheiro, o que o deixou feliz e vaidoso. Ao saber que Éegun estava ganhando dinheiro com suas danças, Oxún exigiu que metade da renda fosse dividida com ela, caso contrário, não mais acionaria o fole que produzia o ritmo sem o qual Éegun não poderia mais dançar. Sem alternativa, Éegun teve que aceitar a exigência de Oxún, passando, a partir de então, a dividir com ela tudo que ganhava.
      Além das características/qualidades citadas, ainda existem muitas outras representadas como caminhos percorridos ou funções que são atributos de Oxún, que são:
 Oxún Kayodé – que representa a dança repleta de movimentos e que denota a sensualidade revelada na maneira de andar. Yéyé Karê – que representa o culto à beleza e à vaidade possuindo descrição como, “o espírito que reflete no espelho”, motivo pelo qual Oxún está sempre se admirando no espelho do qual não se separa. Tem gosto pela riqueza, pela opulência e pelo uso de jóias em ouro. Sekesé – a que representa a aparente fragilidade feminina, artifício usado para obter a proteção masculina.
Ibikóla – a sedutora, a irresistível, representa o poder de sedução.
      O espírito maternal de Oxún é representado por três diferentes características/qualidades. Fukume – a que proporciona a possibilidade de ter filhos.
Osogbô – a que assiste a mulher na hora do parto. Funkê – é a mestra, representando a mão que orienta e ensina aos nascidos os primeiros passos no contato com o mundo e com a própria vida. Miwá – que é o espírito das águas doces e está de certa forma, ligada ao processo de gestação, pois, assiste e protege o feto durante a gestação, é a dona do liquido amniótico. A incumbência do caráter feminino é representada por Oxún Akura Ibú, a que se faz presente nos locais de encontro das águas dos rios com as do mar.
      A mulher guerreira é representada por quatro caminhos nos quais sempre porta uma espada, nestes caminhos é conhecida como Opará, Okê, Yêpondá e Yéyé Iberin, todas consideradas guerreiras. Oxún Edé – é representada pela mulher madura e consciente de sua força sempre revestida de respeito.
      A partir das características/qualidades descritas, Oxún assume aspectos relacionados á mulher envelhecida, é então representada por Oxún Ogá e, no ultimo caminho encontramos Oxún Abotò, considerada velha e envolvida com os mistérios relacionados em práticas de feitiçaria. Oxún então assume e revela a partir daí, todo seu poder maternal e funda a denominada sociedade Geledé, onde a face maligna é encoberta por máscaras. É Oxún Awê que se encarrega de organizar toda a estrutura desta sociedade.
      Oxún reúne em si mesma, todas as diferentes manifestações assumindo para si o poder de Iyámí Ajé, a mãe feiticeira que, investida deste poder, controla a vida e a morte representada pela grande cabaça Igbadú, símbolo do ventre gerador que é encimado pelo pássaro Osorongá. Orixá Odo - dos rios, Oxún é a senhora das águas da vida. Oloomiayé - mãe das águas frias e profundas. Iyá Ominibú é a mãe cuidadosa. Yéyé Karê - Orixá da maternidade. Além dessas características/qualidades, Oxún é o Orixá que tem grande poder de feitiço por ser Olori Iyámí Eleyé.
      A estória mítica de Oxún e sua interação com os elementos da natureza, em uma das lendas,  diz que ela nasceu de uma concha depositada por Yemanjá as margens de um rio o qual recebe o seu nome, o Odó Oxún e, entre as localidades de Iguedé onde nasce e Lekué onde desemboca em um grande lago, é o local onde Oxún é originalmente cultuada; seu templo principal foi edificado nesta região, mais exatamente na aldeia de Osogbô e, é no percurso do Odó Oxún, que a deusa das águas doces, como é conhecida, assume suas diferentes características/qualidades. É assim que, originalmente o povo africano se refere aos caminhos percorridos pelo Orixá.
      No Brasil, após seu culto ter sido estabelecido surgiram outras manifestações, resultado do sincretismo entre as diversas nações tribais; porém, enquanto na África, tais manifestações são consideradas como, caminhos percorridos pelo Orixá em uma única divindade, no Brasil foram denominadas qualidades ao invés de características ou caminhos, pois, este último, está ligado aos conceitos determinados pela existência dos Odús, o que não promove nenhuma desqualificação dos atributos do Orixá Oxún. 
      Na teologia yorubá existe uma lenda que diz: Quando os Orixás vieram do Óde Orun, vieram com eles os dezesseis Odús Àgbà, os dezesseis Odús principais, vieram para ensinar os Ará Ayé - seres humanos, como cuidar da Terra e, quando estes tivessem condições de, sozinhos cuidar dela, eles, os Orixás, voltariam para o Orun. 
      Na vinda, convidaram Oxún para auxiliá-los na tarefa, no entanto, sempre que iam liberar ou participar sobre algo importante, não a chamavam. Oxún era somente usada para lavar, cozinhar e cuidar dos pertences dos demais e da casa, não participava de nada que fosse de maior responsabilidade. Até que um dia ela se fartou daquilo tudo e foi quando lançou mão dos poderes que possuía de Iyámí Ajé. Então, quando os outros Orixás deliberavam sobre a doença de uma pessoa e diziam que essa pessoa não sobreviveria, Oxún colocava seu axé e fazia com que a pessoa sobrevivesse. Quando os Orixás diziam que determinada pessoa iria sobreviver, Oxún fazia com que a pessoa não sobrevivesse. Se os Orixás diziam que uma mulher teria muitos filhos, Oxún fazia com que a mulher não tivesse filhos. Se os Orixás determinassem que uma mulher não tivesse filhos, Oxún fazia com que aquela mulher tivesse uma grande prole.
      E tudo então começaram a dar errado no Ayé - na Terra e, por mais que os Orixás fizessem para que houvesse prosperidade e fartura só havia decadência e fracasso, e eles não conseguiam mais acertar suas previsões e também não tinham idéia do que estava causando tudo aquilo. Foi então que, intrigados, foram a Orunmilá para que ele os orientasse sobre o que estava acontecendo. Orunmilá lhes disse que o motivo de tudo o que estava acontecendo era por causa da décima sétima pessoa do grupo, portanto, era Oxún a causadora, pois, estava colocando o axé das Iyámí Ajé, isso por não ter sido chamada a participar das decisões. Para que tudo voltase à normalidade, ela deveria, daí em diante ser chamada a participar de todas as decisões.
       Ao voltarem para o Ayé, os Orixás foram pedir a Oxún que se juntasse a eles para que houvesse harmonia e prosperidade. No entanto, como era muito caprichosa, se recusava a juntar-se a eles, pois, não fora chamada antes. Eles pediram e imploraram, porém, Oxún mantinha-se irredutível. Os Orixás ficaram desesperados com aquela atitude e não sabiam mais o que fazer para dissuadi-la. Como Oxún estava grávida, resolveu então que não participaria com os outros Orixás, porém, ficou acordado que, quando seu filho nascesse, este se juntaria a eles tomando seu lugar.
       Os Orixás ficaram ansiosos pelo nascimento do filho de Oxún, que seria o décimo sétimo elemento dos Odú Agbá e, todos os dias eles vinham pela manhã, antes do sol raiar, colocar as mãos sobre o ventre de Oxún para passarem axé ao seu filho.
       Conta essa lenda que Oxún deu a luz a Exu o qual recebeu o nome de Osetuwá, que significa - aquele que recebeu axé ainda no ventre materno, que possui axé de acalmar o corpo.
       E foi assim que Exu passou a integrar o grupo todas as vezes que se reuniam. O número de Odús Agbá passou a ser dezessete, ou seja, os dezesseis mais um que é Exu.
       No jogo dos búzios sempre é colocado o mais um que é preparado num ritual, significando a presença de Exu como o décimo sétimo elemento.
      Entre as muitas lendas existentes sobre Oxún, uma delas, sobre Yêpondá, a deusa dos lagos e águas mansas, diz que a deusa nasceu de uma interação com o branco de Oxalá, porém, ganhou o direito de usar também o multicolorido, isso, devido a um acordo com Oxumaré. De caráter pacífico, é muito confiável e também romântica, no entanto, sabe conter perfeitamente seus sentimentos e é uma eximia caçadora.
***A lenda diz que Oxún Karê possuía sua morada na fronteira entre as águas doces e salgadas. Em certa ocasião ficou sabendo por Yemanjá que estava ocorrendo uma grande festa restrita apenas para os funfuns. Karê que não podia mais ter sua forma dourada e nem retornar à morada de suas irmãs das águas doces, desta forma, permaneceu eternamente branca. Mas desejava muito conhecer Oxalá e resolveu ir naquela festa acompanhando suas irmãs. No entanto, levou com sigo todas as suas jóias que eram douradas, assim que entrou no grande salão, Karê as colocou e o ambiente reluziu. Oxalá não conseguia desviar os olhos de encantadora beleza e perguntou então a seus ministros quem era aquela bela mulher; seus ministros responderam que era Karê, a Oxún branca. Oxalá então a conquistou, e dessa conquista nasceram outras Oxuns, entre elas estava Yêpondá que, desde muito nova, buscou as margens do lago para que a luz da manhã tingisse sua brancura com os raios amarelados, desta forma, as velhas Oxúns das águas doces, aceitaram-na em seu reino. Foi então que rumou para as lagoas e as água mansas dos rios onde se tornou a zeladora das águas e dos peixes.
      Um dia os peixes vieram fazer uma queixa à Yêpondá dizendo que estavam sendo envenenados. Frekuén a serpente - Oxumarè, quando vinha à lagoa beber água, deixava seu veneno nas águas doces e matava os peixes; estamos morrendo, diziam os peixes, o que pode ser feito para nos ajudar? Yêpondá que conhecia muitos encantos aprendidos com Ossayn ficou às margens da lagoa à espreita, esperando por Frekuén a serpente. Não demorou muito quando ela apareceu em busca de água. Ao chegar, a serpente viu a bela menina banhando os seus pés, e achou que aquela doce e inocente criança não seria nenhum perigo. Rastejou-se ligeiramente, rumo às águas da lagoa para saciar sua sede.       Quando passou ao lado de Yêpondá, toda despreocupada, mas esperando assustar a doce menina do que ser atacada, sequer percebeu quando Yêpondá a agarra ferozmente pelo pescoço. Yêpondá saca uma pequena adaga, e aos espantados olhos de Fekuén - Oxumarè vê a morte chegar nas mãos de tão aparente e doce menina. Frekuén ainda incrédulo lhe suplica: bela menina, não me mate, afinal, qual mal eu fiz à você? E Yêpondá respondeu: você está envenenando os peixes das águas doces. Mas Fekuén argumenta: se eu faço isto, é por que não tenho escolha, quando bebo a água devo cuspir o meu veneno, caso contrário eu o engolirei e morrerei e, também não posso deixar de beber a água senão morro de sede, daria o meu maior tesouro para sair daqui com vida. E Yêpondá perguntou: E o que você tem à oferecer serpente? Frekuén respondeu que era a dona do Arco-íris, a ponte que conduz ao Orún, ninguém chega lá senão por mim, sou a dona de todas as cores, não sou simplesmente a serpente do chão, também sou a serpente do Céu.
      Ouvindo isto, Yêpondá que era muito vaidosa já se imaginou multicolorida, tendo direito de poder ser de todas as cores que quisesse ser, rica, muito bela e poderosa.
      E assim Yêpondá faz um trato com Frekuén, e disse: posso resolver de uma forma que beneficie a você e os seres dos rios e lagos, porém, em troca, quero o direito de usar todas as cores de seu arco-íris, assim como também ter acesso livre a esta ponte, de passar de um lado a outro tantas quantas vezes eu desejar.
E frekuèn responde: O que a bela menina desejar assim será, mas, como pretende resolver este problema?
      Yêpondá libertou a serpente e a ensinou a morder uma folha encantada que estava a boiar sobre as águas onde poderia deixar seu veneno enquanto bebia das águas doces sem envenená-las. Em troca Frekuén - Oxumarè a serpente, lhe deu uma argola para que ela usasse no pescoço, uma serpente de ouro, o símbolo da aliança que representa seu acordo com Frekuén - Oxumarè.
      E foi assim que Yêpondá conseguiu o direito de usar roupas multicoloridas e fazer uso da ponte sagrada, o arco íris. É um Orixá jovem, que porta espada e pode usar todas as cores, mas prefere o amarelo, o azul bem celeste e o rosa, demonstrando sua incrível juventude e precocidade, mas, que não impede dela possuir instinto guerreiro e, que além de tudo, possui também um pequenino ofà, arco e flecha, símbolo de Ode, do qual ganhou em uma aposta com Oxóssi...mas esta é outra estória.
       Oxún tem seu dia consagrado no sábado, suas contas são na cor amarelo ouro, cor que a identifica. No sincretismo católico é representada por Nossa senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.
                                                 Logún Edé
      Possuindo as mesmas características de Oxóssi, porém com aspectos joviais, Logún é o Orixá encantado da natureza. Filho mítico de Oxún e Oxossi pode permanecer nas matas por longos períodos, mas, também submergir nos rios, lagos e mares. A beleza é sua característica mais acentuada.
      Sua estória mítica é contada desde os primórdios dos tempos. Contam lendas que, sua mãe Oxún tinha uma grande paixão por Oxóssi, porém já era esposa de Ogún; no entanto, um dia, o Orixá guerreiro teve que partir para terras distantes em lutas de conquistas, Oxún aproveitou para se encontrar com Oxóssi e acabou engravidando. Algum tempo depois, quando a criança estava para nascer, Oxún recebeu uma mensagem de Ogún, que mandava avisar que logo voltaria das batalhas, tempo suficiente para que Oxún desse à luz. Como Ogún não poderia saber do ocorrido, Oxún, após o parto, deixou a criança recém-nascida nas matas em cima de um lírio. Oyá, que passava por ali, encontrou a criança e o criou como seu filho fosse, ensinou-o a caçar, a pescar e tudo mais relativo às matas. Conta ainda a lenda, quando jovem, em uma de suas caçadas e do alto de uma cachoeira, Logún avistou uma bela mulher, era Oxún.    Encantado pelo que via passou a observar escondido por entre a vegetação. Vaidosa, Oxún se admirava em um espelho e percebeu que o homem a observava. Virando o espelho na direção de Logún, enfeitiçou-o derrubando-o nas águas transformando-o em um cavalo marinho. Oyá, ao tomar conhecimento do fato foi procurar Oxún e contou que ela havia enfeitiçado seu próprio filho. Oxún desfez o encantamento e declarou que a partir daquele momento, Logún viveria um tempo nas águas comendo peixe e outro tempo passaria em terra firme vivendo da caça.
       Em outra lenda, afeiçoado e devido a brigas constantes de seus pais que viviam separados, Logún ficava um tempo nas matas com Oxóssi e outro tempo com Oxún nos rios. Porém, devido a discórdias dos pais sobre as atitudes deste, teria sido expulso, no entanto, foi amparado por Oyá que lhe deu de beber uma poção mágica, e assim se tornou andrógeno.
       Para alguns, Logún é uma divindade hermafrodita, isso talvez por ser ele vaidoso como Oxún e astuto caçador como Oxóssi. Sua morada é nas florestas em clareiras e na beira dos rios. É um grande caçador, apesar de ser jovem e, sua aparição, deu-se após o relato de que um dia, Oxún conheceu Oxóssi e se apaixonou, mas Oxóssi envolvido com as suas caçadas não quis saber de Oxún, porém, Oxún não desistiu, procurou um Babalawô e arquitetou um plano. Embebeu seu corpo em mel e rolou pela mata. Disfarçada com as folhas envoltas em seu corpo tornou-se a mulher das matas e procurou novamente Oxóssi, que desta feita, se apaixonou no momento em que a viu.
       Esquecendo-se das recomendações do Babalawô, Oxún convidou Oxóssi para um banho no rio, porém, as águas lavaram o mel do seu corpo e as folhas do disfarce se desprenderam. Oxóssi percebeu de imediato como tinha sido enganado e abandonou Oxún. E foi embora deixando Oxún grávida. Algum tempo depois nascia Logún que, por esse fato, ele é considerado a metade Oxún, a metade rio e, a metade Oxóssi, a metade mata. Suas metades nunca se encontram, pois habita um tempo nas águas e outro tempo nas matas. 
       Em algumas casas de Angola Logún não é cultuado como uma divindade sagrada, e sim como uma das características/qualidades de Oxóssi e é denominado Gongobira ou Gongobila, possuindo a mesma natureza mítica.
 Incorporado ao panteão dos deuses africanos, quando manifestado, apresenta características de um caçador, porém, em seus paramentos figura sempre um abebé, o que não significa uma bissexualidade e sim o respeito e a afinidade com sua mãe Oxún.
***Em outra lenda conta que certo dia, Logún Edé passando pela beira do rio Alakêtu avistou sobre as águas um belo palácio, voltou para a cidade e relatou o que tinha visto e de sua vontade de ir àquele palácio. Porém, disseram a ele que o palácio pertencia a Oxún e que lá, nenhum homem colocava os pés. Logún Edé não encontrava uma maneira de ir ao palácio de Oxún. Depois de algum tempo, encontrou sua mãe de criação, Oyá, confirmando que no palácio de Oxún homem algum poderia colocar os pés, porém, ele só conseguiria lá entrar se colocasse uma roupa de mulher. Logún Edé, fascinado e obcecado em ir ao palácio, pediu à Oyá que lhe arrumasse um traje feminino. Depois de arrumado, Logún Edé pegou uma canoa e remou rumo ao palácio no meio do rio. Quando lá chegou cantou... Alakêtu, Alá Ní Malá Okê... A cantiga foi um Orô em saudação às águas pedindo permissão à dona do palácio para entrar. Os portões se abriram e Logún Edé entrou. Oxún reconheceu seu filho, e então lhe disse que a partir daquele instante ele ia usar trajes femininos e tinha o direito de reinar ao seu lado.
“Locí Locí  Logún ré Arojá”, esta é a sua saudação, seu objeto de culto, além do ofá, arco e flecha, possui também o Abebé, um leque feito de metal em formato de folha. Seu dia consagrado é a quinta feira e tem em São Miguel seu sincretismo. No entanto, em algumas regiões e em algumas nações do Candomblé também tem seu sincretismo em Santo Espedito. 

                                                     Yemanjá
      Yemanjá, que originalmente deriva das palavras em idioma yorubá, Iyá-mãe, Omo (filho) e Ejá (peixe) é definida como a mãe dos peixes filhos e está associada com as águas, mais particularmente aos mares. Yemanjá está relacionada com o poder de gestação aos filhos nela contidos, isso porque, é considerada mãe de todos os Orixás. Em alguns cultos correlatos aparece como uma sereia sagrada e em outros como a rainha das águas salgadas. Regente absoluta e protetora dos lares e das famílias é ela quem apara a cabeça dos recém-nascidos na hora do parto sendo também a responsável a imputar aos Seres o Odú, elemento que define o destino e a linha da vida. No sentido da união familiar é ela quem proporciona o bem estar nos relacionamentos consangüíneos. A cor branca, o azul claro, o branco incolor e os elementos transparentes representam-na, assim como, os metais brancos e prateados, onde contém o seu axé, são também feitos todos seus adereços.
       Filha de Olokún, deus das águas profundas, está associada a Oxalá, pois, contam os mitos que, juntos e de forma transcendental, participaram da criação do mundo.  Procedente de antigos cultos da nação de Egbá, na Nigéria, suas origens terrenas estão relacionados com um rio do mesmo nome naquela região Na mitologia nagô sempre foi considerada como esposa de Oranian e, que juntos, conceberam Xangô o deus da justiça.   O cristal representa seu poder genitor e sua interioridade, na Nigéria é a deusa de um rio que possui o mesmo nome. É considerada Orixá Agbá, a deusa do encontro das águas dos rios com os mares. É a mais antiga das Iyá agbá, que quer dizer, a mãe que passeia sobre as espumas das ondas. Para algumas nações do Candomblé, Yemanjá é a mãe de Dadá, Obá, Okó, Okê, Saponam, Oxún, Òlún - o sol, Osupá - a lua, Osobô e Ajé Saluba o Orixá da riqueza.
       Seus diversos nomes estão relacionados aos locais e situações vividas ou mesmo quanto à profundidade (Ibú) dos rios, e tais nomes são relativos às características/qualidades a ela são atribuídas; são sete, e seus nomes diferem conforme a região. Ogunté, esposa de Ogún Alagbedé; Sabá a fiandeira de algodão, a que foi esposa de Orinxalá, Sesú a respeitável mensageira de Olokún, Tumá, Aymú, Iewá, Ataramoagbá, Iyákún que vive nas espumas da ressaca das marés, Iyámaramalé, Iyámasé, mãe de Xangô, Awoyó, Iemowô, esta a mais velha de todas e esposa de Oxalá.  
***Uma das estórias contadas por antigos Babalawôs diz que Exu, filho de Yemanjá, se encantou pela beleza da mãe e tomou-a a força tentando violentá-la, uma grande luta se deu entre os dois, Yemanjá, no entanto, resistiu á violência do filho, porém, da luta resultou no dilaceramento dos seios e no rompimento de seu ventre.  Enlouquecido pela fúria e envergonhado pelo que tinha feito, Exú caiu no mundo, desaparecendo nos confins do horizonte. Caída no chão aos prantos e envergonhada, tomada por uma grande tristeza pediu socorro ao seu pai Olokún e, ao criador, Ólorún, que vieram em seu socorro. Da transcendência universal e da magia dos grandes Orixás, surgiram dos seios dilacerados dois grandes rios que formaram um grande lago; das lágrimas salgadas deram origem aos mares e de seu ventre rompido surgiram os Orixás.
       Exu, pelo seu feito, foi banido para sempre da mesa dos Orixás e recebeu como incumbência eterna ser o guardião e mensageiro e não mais pode se juntar aos outros da corte.
***Em outro mito, conta-se que Olorun não podendo governar tudo que criou, se serviu do auxílio de Obatalá, principio ativo da existência genérica, e de Oduduwa, principio ativo da existência individual, aos quais, encarregou a reprodução dos Seres: Aganjú, a terra firme e Yemanjá as águas, produziram Orungã, o ar, que apaixonado pela própria mãe consegue violentá-la. Envergonhada, foge em desespero. Perseguida pelo filho e cansada cai ao chão e, ao cair, de seus seios nascem dois rios que ao se juntam mais além formando um grande lago, e do ventre rompido nasceram os Orixás.
       São diversas as versões contadas pelos Babalawôs, no entanto, todas as versões, em seu contesto, reproduzem os acontecimentos de uma transcendência histórica revivida nos cultos em dias atuais.  
***Em Ifé, quando tinha por companhia Olofin, rei daquele reino, possuía com ele dez filhos. Yemanjá, cansada de sua permanência em Ifé se foi em direção ao oeste. Outrora, seu pai Olokún lhe havia dado, por medida de precaução, um pote contendo um preparado, pois, nunca se sabe o que poderá acontecer no dia de amanhã e com a recomendação de quebrá-lo no solo em caso de extremo perigo. E assim, Yemanjá se instalou ao entardecer nas terras do oeste. Olofin, rei de Ifé lançou seu exército a procura da mulher. Cercada pelos guerreiros do rei, Yemanjá, em vez de deixar-se ser presa e conduzida de volta a Ifé quebrou o pote, segundo as instruções recebidas de seu pai. Um rio se formou naquele instante a levando para Okún, o oceano, lugar de morada de Olokún.
***Em outro mito, Yemanjá foi escolhida por Olorun para ser mãe dos Orixás. Como ela era muito bonita e todos a queriam para esposa, seu pai Olokún foi consultar a Orunmilá  para saber com quem ela deveria se casar. Orunmilá mandou que ele entregasse um cajado de madeira a cada um dos pretendentes, e depois, eles deveriam passar a noite dormindo sobre uma pedra segurando o cajado para que ninguém mais pudesse pegá-lo. Na manhã seguinte, aquele que estivesse com o cajado florido seria o escolhido para ser o marido de Yemanjá. Os pretendentes assim fizeram. No dia seguinte, o cajado de Oxalá estava repleto de flores brancas. E assim foi realizada a união dos dois Orixás.
      Assim, Yemanjá foi destinada para cuidar da casa de Oxalá, como também a criação dos filhos e todos os demais afazeres domésticos. Yemanjá trabalhava, porém, reclamava constantemente de sua condição menos favorecida, afinal todos os outros Orixás recebiam oferendas e honrarias e ela não.
      Durante muito tempo Yemanjá reclamou de sua condição, tantos foram os seus reclamos que Oxalá não agüentou e adoeceu da cabeça, do Ori. No entanto, Yemanjá deu-se conta do mal que fizera, e utilizando ingredientes mágicos curou Oxalá.
      Oxalá agradecido foi a Olodumare pedir para que desse a Yemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então, Yemanjá recebe oferendas e honrarias quando se faz o Igbori/bori, ritual propiciatório à cabeça, e a todos os demais ritos específicos à cabeça.
      São estórias míticas como estas e com outras versões que povoam o universo religioso do candomblé, fazendo parte integrante dos fundamentos, das magias e das crenças nos rituais. 
      Yemanjá é saudada com as palavras: Odô Iyá Eerú Iyá yabá Omí Iyô, suas contas são de um azul translúcido e branco, o dois de fevereiro é o dia consagrado a este Orixá e tem seu sincretismo com o catolicismo em Nossa Senhora da Conceição.         
                                                             Obá
        Também associada ao elemento água e a cor vermelha, Obá é um dos símbolos mais antigos que, juntamente com Oxún, são denominadas as avós ancestrais. Os mitos relatam que foi uma das esposas de Xangô. Seu culto não é muito difundido nos candomblés brasileiros. Divindade guerreira é confundida com Yansã, pois, possuem as mesmas características. Sua origem pertence ao rio do mesmo nome na Nigéria, portanto, uma coirmã de Oxún por estar relacionada com as águas doces, porém, Obá está presente nas águas revoltas das corredeiras, das enchentes e inundações. Presente também no corisco dos raios das tempestades dado por Xangô, seu consorte mítico no panteão dos Orixás.
***Um dos itans, diz que Obá era esposa de Xangô, juntamente com Oxún que, muito esperta, queria se livrar da rival. Em certo dia, Oxún apareceu com um pano ensangüentado cobrindo uma das orelhas, Obá, muito curiosa, quis saber o que tinha acontecido. Oxún, com intuito de enganar a rival, disse que tinha cortado a própria orelha e colocado na comida de Xangô e este tinha gostado muito, daí ser sua esposa preferida. Obá, por tanto amor que nutria pelo marido, resolveu fazer o mesmo; no entanto, repugnado com tal atitude, Xangô expulsou-a do palácio, ficando ela, somente com sua regência que são as coisas tempestuosas. Nos candomblés, quando manifestada, lança-se contra os filhos de Oxún, principalmente se estiverem próximos a Xangô. Este é o motivo pelo qual, quando manifestada, sempre leva, ou então, ata-se com um turbante a fim de esconder uma das orelhas.  Sua saudação é “Obá Sire Agbá Elee”, sua cor é a vermelha que é representada nos seus brajás. Seu dia consagrado é a quarta feira e tem Santa Joana D’arc como representação no sincretismo católico.
     Suas características são pouco conhecidas, no entanto, temos Obá Gideo e Obá Rewá que são as mais conhecidas. 
       Ewá
   Este é um Orixá feminino e dona de uma rara beleza. Divindade das coisas belas, alegres e vivas, é considerada Orixá das mutações, das transformações. A magia de Ewá está presente nas quatro estações do ano quando evolui e desenha no mundo modificações nas regiões por onde passa; o frio, o calor, a época das chuvas, a época das flores, dos frutos e assim por diante. Está nas nuvens que parecem bailar e formar figuras. Está associada a Ibedji, o Orixá da alegria. Nos mitos é a filha mais nova de Nãnã. Ewá faz parte do panteão daomeano, mas que foi conquistado pelos bantos, assim como seus irmãos Oxumaré, Obaluayé e Ogún. É uma entidade muito confundida, quando manifestada, com Oxumaré quando na fase bi-polarizada de Bessem. Seus instrumentos de culto são uma cabaça e um ofá, sua cor é a vermelha e, por motivo de não ser muito cultuada não possui sincretismo com algum santo católico.
 Conta uma lenda que Ewá era uma caçadora de rara beleza e que cegava aqueles a quem se atrevesse a olhá-la. Ewá casou com Omulú, que logo se mostrou muito ciumento. Um dia, envergonhado por seu ciúme doentio, desconfiou da fidelidade se sua mulher e a prendeu em um formigueiro. Ewá foi mordida quase até a morte, ficou deformada e feia. Para esconder a deformidade e a feiúra, Omulú a cobriu com palha da costa vermelha, assim, todos se lembrariam como Ewá havia sido uma bela caçadora.
***Numa outra lenda, conta que Ewá tinha dois filhos e os amava muito. Todos os dias ela ia à floresta em busca de lenha que vendia no mercado. Certa feita, os três entraram na floresta e se perderam. Ewá, por mais que procurasse se orientar não pode achar o caminho de volta, mais e mais os três embrenhavam-se na floresta. As duas crianças começaram a reclamar de fome, sede e cansaço e, quanto mais caminhavam maior era a sede e a fome. As crianças já não mais podiam caminhar e clamavam por água. Ewá procurava e não achava nenhuma fonte ou riacho. Os filhos morriam de sede e Ewá ficava desesperada.
 Ewá implorou aos deuses, pediu a Olodumare e deitou-se junto aos filhos. Ali, onde se encontrava, Ewá transformou-se numa nascente de água cristalina e fresca onde as crianças beberam. Os filhos de Ewá estavam salvos e a água continuou jorrando da nascente e, daquelas águas, formou-se um grande lago originando o rio Ewá, o Odo Ewá.
***Ewá, filha de Obatalá e Nãnã vivia em um castelo como se estivesse numa clausura. A fama de sua beleza ultrapassava as fronteiras daquele reino. Xangô, que possuía seu reino não muito distante, soube do fato. O sedutor Orixá planejou como ia seduzir Ewá. Disfarçado, empregou-se como jardineiro no palácio de Obatalá. Um dia, Ewá apareceu na janela e admirou-se de Xangô, pois, nunca tinha visto um homem como aquele. Apaixonada, Ewá entregou-se a Xangô; no entanto, arrependida, pediu a seu pai que lhe mandasse para um lugar onde nenhum homem a visse. Obatalá deu-lhe então o reino dos mortos. Desde então, passou a chamar-se Ewáguéen, é ela que entrega à Oyá os cadáveres que Obaluayé conduz para que Orixá Okó o coma.
Muitas lendas são contadas sobre Ewá, Orixá das transformações e deusa da beleza. Uma delas, conta que a bela virgem se entregou à Xangô, despertando ciúmes e a ira de Oyá. Ewá refugiou-se nas matas impenetráveis onde Oxóssi a protegeu, e com ele tornou-se uma guerreira e caçadora habilidosa e valente. Desta forma, conseguiu frustrar a vingança de Oyá afastando de si a morte certa e, em um dos Orikis narra esta estória em forma de poema.
...Era mais que o medo, era o medo, era a noite na noite do medo; Era o vento, era a chuva, era o céu e o ar, era a vingança de Oyá.
Assustava o escuro da noite e assustava a luz dos raios, o silêncio se ouvia da noite nos pés medrosos que corriam sobre poças de água na areia batida. Até o silêncio fugia do rugido dos trovões; Era o medo, era mais que medo de Ewá. Correndo sobre poças de areia batida o mar lambia seus pés querendo tragá-la pela boca faminta de coisas vivas. A noite engolia em sua goela escura e a vomitava no clarão dos raios azulado, e a luz dos raios brilhava no corpo nu e úmido de Ewá.
        Na transcendência, Ewá domina a vidência, um dos atributos que Orunmilá lhe concedeu. As mulheres virgens contam com sua proteção, não só estas, mas também tudo que é virgem.
       Ewá aparece também na mitologia Jêje como um Vodun com a denominação de Eowá, o que pode ter causado uma interpretação errada gerando daí algumas polêmicas. Há quem diga também que, a exemplo de Oxumaré, Nãnã, Omulú, Iroko e Ogún, ela era cultuada pelo povo Mahi e foi assimilada pelo povo yorubá e inserida no panteão dos Orixás. Desta forma, pode-se entender que, Ewá pertencente ao panteão yorubá e nada tem há ver com Eowá, Vodun da família Dambirá pertencente ao panteão Jêjê, sendo apenas uma correspondência sincrética.
       Quanto a estória de Eowá, Vodun, conta uma lenda que foi uma cobra muito traiçoeira e cheia de maldades, foi expulsa do convívio do povo Jêjê e encontrou abrigo entre os yorubás que a  transformaram em uma bela serpente, surgindo daí, o mito do Vodun Dan, uma serpente que engolia a própria cauda formando um circulo denotando a continuidade. Em alguns mitos, diz ser a metade feminina de Oxumarè. Por esse motivo Ewá e Oxumaré sempre dançam juntos em encontros ocasionais.
***Outra lenda sobre Ewá, conta que ela vivia em um belo castelo com seu pai Obatalá. Bela e encantadora, não havia até então demonstrado algum interesse por algum homem. Um belo dia chegou ao reino um jovem, seu nome era Boromu. Encantada pela figura máscula do jovem Ewá se apaixona e, não demora muito todos os habitantes daquele reinado passam a cochichar dizendo que Ewá estava enamorada daquele forasteiro. Obatalá, seu pai, garantiu a todos que Ewá era a mesma jovem de antes, pois, depositava toda confiança na filha. O tempo passou e a jovem Ewá tornou-se triste e infeliz em não poder revelar ao seu pai um segredo, ela encontrava-se grávida.
        Envergonhada pelo ocorrido pôs-se em fuga e, refugiando-se nas matas em terras distantes, não demorou muito Ewá teve um filho.
        Preocupado com o sumiço da filha, Obatalá mandou que todo o reino fosse vasculhado até encontrá-la. Boromu, o forasteiro, também foi procurá-la e, depois de vasculhar muitas florestas achou-a desfalecida em uma clareira vestida apenas com uma roupa bordada com búzios.
       Quando Ewá acordou relatou o acontecido à Boromu, pois, tinha vergonha de apresentar-se diante de seu pai. Como tinham se passado alguns dias, Ewá perguntou pelo filho. Boromu, querendo que Ewá voltasse logo ao castelo, escondeu a criança em outra parte da floresta, porém, quando foi buscá-lo não mais o encontrou.
       Yemanjá, que vez por outra saia do mar e adentrava nas matas, encontrou o recém nascido e o criou como seu filho fosse, e Ewá não mais o encontrou.
       Algum tempo depois Ewá encaminhou-se ao palácio para pedir perdão a seu pai, porém, este ainda estava irado com o ocorrido. Ewá então foi expulsa do palácio por seu pai. Envergonhada e com o rosto coberto com búzios, foi viver no cemitério, longe de todos os seres vivos e não mais viu seu filho que foi criado por Yemanjá.     
       Esta lenda possui outra versão, na qual, Borumu é um dos nomes de Xangô, e relata o seguinte:
       Ewá, filha de Obatalá, vivia enclausurada em seu palácio. O amor de Obatalá, seu pai, por ela era possessivo. A fama da beleza de Ewá chagava a toda parte, inclusive aos ouvidos de Xangô que era muito mulherengo. Xangô então planejou seduzir Ewá e, para isso, empregou-se no palácio como jardineiro. Um dia Ewá apareceu na janela e deslumbrou-se com aquele jardineiro, pois, nunca vira um homem tão fascinante.
       Xangô, aproveitando-se da situação, passou a conviver no palácio e deu muitos presentes a Ewá. Deu-lhe uma cabaça com búzios e uma cobra como enfeite por fora, mas, com mil mistérios por dentro, um pequeno mundo de segredos. Deu-lhe também um adô. E Ewá, agradecida, entregou-se a Xangô que a fez muito infeliz, porém, um dia ela renegou sua paixão. Decidiu retirar-se do mundo dos vivos pedindo à Obatalá que a enviasse para um lugar bem distante, onde homem algum pudesse vê-la novamente. Obatalá deu então à Ewá o reino dos mortos, reino que os vivos temem e evitam. Desde então é ela quem domina no cemitério, juntamente com Oyá os cadáveres dos humanos, os mortos que Obaluayè conduz a Orixá Okó, o qual devora para que voltem novamente à terra, terra de Nãnã do qual um dia foram feitos. Ninguém incomoda Ewá no cemitério.
***Ewá atemoriza Xangô no cemitério.
Numa manhã coberta de neblina sem suspeitar onde se encontrava, Xangô dançava com alegria ao som de um tambor. Xangô dançava alegremente em meio a névoa quando apareceu uma figura feminina enredada na brancura da manhã. Ela perguntou-lhe por que dançava e tocava naquele lugar. Xangô, sempre petulante, respondeu-lhe que fazia o que queria e onde bem lhe conviesse.
A mulher escutou e respondeu-lhe que ali ela governava e desapareceu. Porém, ela lançou sobre Xangô os seus eflúvios, e a névoa dissipou-se deixando ver as sepulturas. Xangô era poderoso e alegre, mas temia a morte e os mortos, os Éguns. Aterrorizado Xangô saiu correndo.
Mais tarde Xangô foi consultar Orunmilá, este, disse-lhe que aquela era Ewá, a dona do cemitério. Ele estava dançando na casa dos mortos. Xangô sentia pavor da morte e desde então nunca mais entrou num cemitério.
***Ewá casa-se com Oxumarè.
Ewá andava pelo mundo procurando um lugar para viver. Viajou até a cabeceira dos rios e lá, junto às fontes e nascentes escolheu sua morada. Entre as águas Ewá foi surpreendida pelo encanto e a maravilha do Arco-Íris, e dele Ewá se enamorou. Era Oxumarè que a encantava. Ewá casou-se com Oxumarè e, a partir daí vive com o Arco-Íris, compartilhando com ele os segredos do universo.
***Ewá livra Orunmilá da perseguição da morte. (uma das várias versões)
Orunmilá era um babalawô que estava com um grande problema. Orunmilá estava fugindo da morte, de Ikú, que o queria pegar de todo jeito. Orunmilá fugiu de casa para se esconder. Correu pelos campos e ela sempre o perseguia. Correndo e correndo, Orunmilá chegou ao rio. Viu uma linda mulher lavando roupa. Era Ewá lavando roupa junto à margem. ”Por que corres assim, senhor? De quem tentas escapar? Orunmilá só disse: ”hã, hã”. Foges da morte? Perguntou Ewá. Sim, respondeu ele.
Ewá então o acalmou. Ela o ajudaria. Ewá escondeu Orunmilá sob a tábua de lavar roupa, que na verdade era um tabuleiro de Ifá, com fundo virado para cima. E continuou lavando e cantando alegremente. Então chegou Ikú, a morte. Esbaforida, feia e nojenta, a morte cumprimentou Ewá e perguntou por Orunmilá. Ewá disse que ele atravessara o rio e que àquela hora devia estar muito, muito longe, muito além de outros rios.
Ewá tirou Orunmilá de sob a tábua e o levou para casa são e salvo. Preparou um cozido de preás e gafanhotos servido com inhames bem pilados. À noite Orunmilá dormiu com Ewá e Ewá engravidou. Ewá ficou feliz pela sua gravidez e fez muitas oferendas a Ifá. Ewá era uma mulher solteira e Orunmilá com ela se casou. Foi uma grande festa e todos cantavam e dançavam. Todos estavam felizes. Ewá cantava: ”Orunmilá me deu um filho”. Orunmilá cantava: ”Ewá livrou-me da morte”. Todos cantavam: ”Ewá livra de Ikú”. Todos cantavam: ”Ewá livra de Ikú”.
***Ewá é escondida por seu irmão Oxumarè.
Filha de Nãnã também é Ewá. Ewá é o horizonte, o encontro do céu com a terra. É o encontro do céu com o mar. Ewá era bela e iluminada, mas era solitária e tão calada. Nãnã, preocupada com sua filha, pediu a Orunmilá que lhe arranjasse um amor, que arranjasse um casamento para Ewá. Mas ela desejava viver só, dedicada à sua tarefa de fazer criar a noite no horizonte, mandando sol com a magia que guarda na cabeça adô. Nanã porém, insistia em casar a filha.
Ewá pediu então ajuda a seu irmão Oxumarè. O Arco-Íris escondeu Ewá no lugar onde termina o arco de seu corpo. Escondeu Ewá por trás do horizonte e Nãnã nunca mais pôde alcançá-la. Assim os dois irmãos passaram a viver juntos, lá onde o céu encontra a terra. Onde ela faz a noite com seu adò.
***Ewá era filha de Nãnã, também filhos de Nãnã eram Obaluayé, Oxumarè e Ossayn, esses irmãos regiam o chão da Terra. A terra, o solo, o subsolo, era tudo prosperidade de Nãnã e sua família.
Nãnã queria o melhor para seus filhos, queria que Ewá casasse com alguém que a amparasse. Nãnã pediu a Orunmilá bom casamento para Ewá. Ewá era linda e carinhosa, mas ninguém se lembrou de oferecer sacrifício algum para garantir a empreitada.
Vários príncipes ofereceram-se prontamente a desposar Ewá, eram tantos os pretendentes que logo uma contenda entre eles se armou. A concorrência pela mão da princesa transformou-se em pugna incessante e mortal. Jovens se digladiavam até a morte.
Vinham de muito longe e lutavam como valentes guerreiros para conquistar sua beleza, mas a cada vencedor, Ewá não se decidia. Ewá não aceitava o pretendente, vinham novos candidatos e outros combates, Ewá não conseguia decidir-se, ainda que tão ansiosa estivesse para casar-se e acabar de vez com o sangramento campeonato.
Tudo estava feio e triste no reino de Nãnã, a terra seca, o sol quase apagara e só a morte dos noivos imperava. Ewá foi então à casa de Orunmilá para que ele a ajudasse a resolver aquela situação desesperadora e pôr um fim àquela mortandade.
Ewá fez os ebós encomendados por Ifá, os ventos mudaram, os céus se abriram, o sol escaldava a terra e, para o espanto de todos a princesa começou a desintegrar-se, foi desaparecendo, perdendo a forma, até evaporar-se completamente e transformar-se em densa e branca bruma...E a névoa radiante de Ewá espalhou-se pela Terra.
         Nãnã Burukú
A terra associada à água, a lama, está associada diretamente a Nãnã Burukú que também conhecida como Nãnã Buruquê. Sua origem é da nação Jêje, da região de Dessa Zumbe e Savê no Daomé, atualmente república do Benin. Nãnã foi incorporada ao panteão dos deuses yorubás quando estes dominaram os Jêjes. É a mais temida e um dos mais respeitados Orixás, isso por ser a mais velha, poderosa e séria entidade ancestral feminina. Possui aspecto maternal com a morte, pois, a relação com esse elemento é que propicia a agricultura, fornecendo aos grãos plantados a fertilidade do solo que, para gerar há de haver o ressarcimento; o que ocorre com as coisas mortas em seu interior e, por esses motivos, tem por consideração como sendo o Orixá da fecundação.
No aspecto mítico, entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos existe um portal, é a passagem, a fronteira entre a vida e a morte e, neste portal, Nãnã é a senhora e geradora da morte, Ikú. Seus cânticos nos rituais são súplicas para que leve Ikú para longe, para que a vida seja mantida. Nãnã representa uma das forças mais importantes no ciclo da natureza, a força que os Seres humanos mais temem. Representa também a senhora da passagem desta vida para outra no comando do portal de passagem entre as duas dimensões.
Nãnã Burukú está presente nos lamaçais, no lodo e na lama, lugar de sua origem. Nasceu da interação água e terra, o que formou a lama dando origem a sua própria vida. É conhecida também por Iniê em alguns lugares. No Daomé, África, é denominada Mawú em seu aspecto feminino, e Lisa no aspecto masculino, dizem, ser o casal gerador da humanidade.
Em alguns mitos aparece como esposa de Oxalá e ainda como mãe de Obaluayé e Oxumarè, Orixás precedentes da mesma região de sua origem.
***Na transcendência, Nãnã Burukú é a mãe de Obaluayé, e conta um de seus mitos que travou uma batalha com Ogún, por este, se sentir no direito de passar pelos seus domínios. Por ser forte e valente guerreiro não admitia pedir licença a uma velha, porém, diante das dificuldades e perigos que representavam os pântanos, Ogún foi obrigado a bater em retirada e procurar outro caminho longe daquele lugar. Nãnã, a partir de então, aboliu o uso de ferramentas e instrumentos de metal em seus domínios, e até hoje nada pode ser feito para este Orixá utilizando qualquer instrumento de metal.
***Outra historia, conta que Nãnã ocupava o cargo de juíza no reino do Daomé, era ela quem julgava os homens pelos seus atos, e era muito respeitada pelo que fazia. Morava em uma casa onde tinha um grande bosque com jardins e, quando uma das mulheres da aldeia apresentava alguma reclamação de seus maridos, Nãnã amarrava-os a uma das árvores do bosque e mandava que os Éeguns o assustassem.
Certa noite chegou a ela uma reclamação de Yansã sobre Ogún, e este foi amarrado a uma árvore, mas conseguiu fugir e foi consultar Ifá. Ficou acertado que Oxalá tiraria os poderes de Nãnã. Oxalá, então, aproximou-se de Nãnã e ofereceu a ela uma poção mágica feita de igbim. Ao beber o preparado Nãnã adormeceu. Oxalá então se vestiu de mulher e, imitando o jeito de Nãnã, pediu aos Éeguns que fossem todos embora do jardim para sempre. Quando Nãnã acordou e percebeu o que Oxalá tinha feito, mandou que Oxalá tomasse do mesmo preparado, assim o fez, no entanto, foi seduzido. Oxalá saiu correndo e contou o ocorrido a Ogún. Indignado, este cortou relações com Nãnã.  
O ibirí, um opá, objeto ritual representando o poder genitor feminino, representa Nãnã Burukú; é um atado de nervura de palmeira e ornado com búzios e contas nas cores, azul escuro e alternadas de brancas, são elementos pertencentes aos seus rituais que constituem seu axé. Denominada mãe ancestral, possui suas características/qualidades, pois, quando manifestada é a representação fidedigna de uma anciã que, com passos lentos acompanha o tempo infinito por estar relacionada com a Terra e aos ancestrais.
Um dos seus princípios é o de possuir relação com os Ikú Órún, descendentes nascidos de seu ventre no Ayé, a Terra, e com a fertilidade, tanto do solo quanto dos Seres onde a magia da vida transcorre e, além disso, está também associada com as Iyá agbá, ancestrais femininas da sociedade egbé eleyé, as possuidoras de pássaros. Conta um mito que Nãnã Burukú é filha do poderoso pássaro Atioró que, após seu falecimento, Nãnã embrenhou-se nas matas e fundou seu império tornando-se a Iyá-lóde-ilú. No Daomé, Nãnã era considerada a deusa mais guerreira.
Seus filhos a saúdam: “Saluba Orixá agbá inlá Nãnã Burukú”, seu dia consagrado é segunda feira e no sincretismo católico é representada por Sta’Ana.
Conta uma estória que em certo dia foi conquistar o reino de Oxalá, mas, quando lá chegou apaixonou-se por ele, porém, Oxalá não queria nenhum envolvimento com ela, pois adorava sua companheira Yemanjá, e por isso, ele explicou a Nãnã, porém ela não se fez de rogada. Sabendo que Oxalá gostava de vinho de palma, embriagou-o, e ele ficou tão bêbado que se deixou seduzir por Nãnã que acabou ficando grávida. Mas, por ter transgredido uma lei da natureza, deu a luz a um menino horrível que recebeu o nome de Obaluayé; não suportando vê-lo, lançou-o no rio onde a criança foi mordida pelos caranguejos ficando todo deformado e com uma terrível aparência, seu corpo quase desfalecido foi encontrado numa praia por Yemanjá.
Esta lenda é contada, juntamente com outras historias e diz que Obaluayé, por seu aspecto terrível, passou a viver distante dos outros Orixás. São lendas e estórias que fazem parte da cultura, do mito criado para explicar a transcendência dos Orixás.
                                Ibédji (os Erês).                                                                                               
      Denominados de Erês nos Candomblés brasileiros, são considerados Seres divinizados e possuidores de poderes místicos com funções específicas quando relacionados aos Orixás; são eles, os mensageiros imediatos do universo astral entre o Orixá e o iniciado, yawô, que, com palavras intermedeiam a satisfação ou as quizilas manifestadas devido a algum procedimento material ou pessoal não adequado à iniciação..
      Ibedji na nação Kêtu ou Vungi nas nações de Angola e Congo, é considerado o Orixá criança, é a divindade das brincadeiras, dos divertimentos. Sua regência está ligada à infância. Apesar de, uma convivência passiva diante dos rituais, manifestam-se através de seus Orixás recebendo suas oferendas e representações que são compostas dos mesmos elementos àquele ofertados, acrescentado de guloseimas e brinquedos, alguns deles, no entanto, não apreciam tais oferendas, são mais receptivos a frutas e possuem um comportamento mais juvenil que infantil.
      Cada Orixá possui seu Erê, um entre uma falange, que se faz num desdobramento infinito, pois estes representam o renascimento, a virtude e a energia inicial de todo um ciclo de existência.
      Na composição de seus adereços, roupagem e brajás, estão implícitas as representações do Orixá maternal ou paternal, o qual também delimita poderes e ações. Subordinados, tem como princípio a obediência e, apesar de comportarem-se como crianças, tornam-se exímios na magia devido a grande força astral neles concentrada, por isso também, tornam-se elementos primordiais na concepção das obrigações dos iniciados, participando, incorporados ou não, de tudo que for relacionado quanto ao aprendizado, tornando-se assim uma ligação entre o mundo material e o universo astral.
      Independente das nações a que pertençam, são representados no sincretismo em São Cosme e São Damião, os santos gêmeos cristãos, porém, nas casas de origem Bantu, essas divindades são conhecidas como Vunge e não é considerado como divindade em separado, isso por possuírem uma conotação aos nascidos gêmeos.
      Muito raras são as lendas relacionadas aos Ibedji, mas, uma delas, conta que foram filhos gêmeos de Yansã, porém, ela não os quis e os jogou num rio. Oxún que estava nas águas os salvou e os criou. Na África os Ibedjis são indispensáveis em todos os cultos, são respeitados, cultuados e sempre acompanhando um Orixá, igualmente como aqui no Brasil.
      Mesmo sendo, cultuados nos candomblés das diversas nações, algumas, no entanto, não aceitam o sincretismo com os santos católicos.
***Em uma das lendas existentes, diz que na aldeia de Ifé tudo transcorria na maior felicidade e tudo prosperava na maior tranqüilidade. Um dia a Morte resolveu por lá se instalar e tudo começou a dar errado. As fontes secaram e as lavouras não produziam mais alimentos. O gado morria e tudo o mais definhava, o desespero fazia com que as pessoas se agredissem umas às outras que morriam ou ficavam doentes, e a Morte, roubava-lhes a vida. A Morte fartava-se no grande banquete e, os sobreviventes choravam seus mortos.
      O rei mandou vários emissários falarem com a malvada Morte, que sempre respondia que não fazia acordos e ia destruir tudo e a todos, e mandava um recado dizendo que, se alguém fosse forte o bastante para enfrentá-la que tentasse, mas seu fim seria ainda muito mais sofrido. E ria dizendo: ...para isso, basta que uma pessoa me obrigue a fazer o que não quero, e completou,...mas só vou dar essa oportunidade a uma única pessoa.
      E quem se atreveria a enfrentar a Morte? Quem, se todos os guerreiros já estavam mortos ou doentes?
      Foi então que dois meninos, os Ibedji, irmãos gêmeos, Taió e Caindê, filhos de Ifá, resolveram pregar uma peça naquela horrenda criatura, a Morte, antes que toda a aldeia fosse dizimada completamente.
      Os gêmeos pegaram um tambor mágico que costumavam tocar e saíram à procura da Morte, e não foi difícil achá-la. Estava numa estrada próxima em busca de mais vítimas. Sua presença era anunciada do alto por um bando de urubus e pelo mau cheiro que exalava. Os gêmeos, tapando o nariz com um pano se esconderam no mato que ladeava a estrada e esperaram que a Morte se aproximasse. Não tardou para que ela chegasse, sua imagem era horrenda, no entanto, estava feliz e até cantarolava e bailava, era o canto e a dança da morte.
      Nesse momento numa curva da estrada, enquanto um dos gêmeos ficava escondido, o outro saltava do mato a poucos passos da Morte, saltou com seu tambor mágico e tocou sem parar, com determinação. A Morte se encantou com o ritmo e, com seu passo trôpego, ensaiou uma dança muito sem graça. E lá foi ela dançando atrás do menino e de seu tambor mágico.
      Passou um bom tempo e mais tempo passou, e o menino não parava de tocar. A Morte começou a cansar. O dia deu lugar à noite e o menino tocava o tambor sem parar, e a Morte dançava. O menino ia à frente e a Morte o seguia mais atrás já exausta. Não agüentando mais, A Morte dizia, ...pára de tocar menino vamos descansar um pouco. E o menino não parava. Pára de tocar esse tambor menino ou hás de me pagar com a vida. E ameaçava. E o menino não parava de tocar.  Pára que eu não agüento mais, dizia a Morte. E o menino não parava.
      Taió e Caindé eram gêmeos idênticos, ninguém sabia distinguir um do outro, nem mesmo a Morte, por isso, o menino que a Morte via tocando o tambor sem parar na estrada não era sempre o mesmo; um tempo tocava Taió e outro tempo tocava Caindé, isso, devido a um estratagema; enquanto um tocava, o outro seguia escondido por dentro do mato, e a troca era feita sempre numa curva da estrada. E assim, um substituía o outro sem serem vistos pela Morte que continuava a bailar.
      Após um longo tempo, não agüentando mais, a Morte gritou: pára de tocar esse tambor maldito, eu faço tudo que me pedires! O menino olhou para trás e disse: Pois então vá embora e deixe minha aldeia em paz.
      E foi assim que a Morte aceitou em ir embora.
      Tocando o tambor e dançando, os gêmeos voltaram à aldeia para dar as boas novas a todos. Em pouco tempo a vida voltou ao normal e a paz reinou novamente. Muitas homenagens foram feitas aos Ibedjis.
      Nos tempos atuais relembramos os Gêmeos Taió e Caindé nas festas de Erê, quando são feitos os ritos e distribuídos presentes e guloseimas às crianças.  
                                     
                                                Oxalá.
      É o principal Orixá na constelação do panteão africano e o mais respeitado nos Candomblés brasileiros. Considerado o grande Orixá Funfun, ocupa posição única e mais elevada por ser o criador mítico de todos os Seres e é cognominado o Senhor do silêncio. Por ter apreciado muito o vinho de palma, embriagou-se e perdeu a primazia de ter criado a Terra, episódio este, contado no mito da criação, porém, tornou-se o responsável pela vida dos Seres.
  No aspecto transcendental e mitológico Oxalá possui dualidade, quando jovem é um enérgico guerreiro cognominado Oxaguian, quando velho Oxalufan, este, lento como o tempo do universo. É o mais sábio dos Orixás e tem seu principio em Orixalá, Orixá Funfun que faz do branco o seu domínio.
 Lembá, Kasulembá, Obatalá, Orixalá, Orixalá, são alguns dos nomes que designam Oxalá, isto em virtude das diversas regiões africanas onde seu culto foi mais difundido.     Como todos os Orixás, suas várias características/qualidades ficam na dependência das diversas nações a que seu culto é desenvolvido. Em alguns mitos, Oxalá é o sol e Oxaguian são seus raios. Na África, Ossayn, em algumas regiões é considerado o Oxalá moço e jovial, mas que também recebe outras designações: Oxadinhan, também Oxalá moço; Oxágyriiyan, Oxalá com aspecto feminino; Oulissa, Oxalá para a Nação Jêje; Oxalufã, Oxalá velho. Olokun é a denominação do deus dos mares, que também é atribuído à Oxalá do mar em algumas Nações. Orixalá é para muitos o Oxalá do meio dia; Obiam, em alguns mitos, é mencionada como esposa de Oxalá. Muitos acreditam que também pode ser Orixá Okó, o Oxalá da agricultura, Obá Okê, Oxalá da montanha, Oráminhã, o filho de Oduwa e Obatalá, Orixalá, rei dos Orixás e ainda Camamburá o Oxalá do raiar do dia.
 Fica evidente que em cada uma das denominações, Oxalá recebe e está na dependência ao culto, nação, ou seguimento cultural a que pertença; porém, muitos deles não são conhecidos pelo fato de não ter havido uma transferência da origem africana para o Candomblé brasileiro. Portanto, ficam restritos somente alguns registros para fins de um conhecimento mais profundo sobre Oxalá, excetuando assim, cultos não desenvolvidos aqui no Brasil.
Numa outra listagem podemos citar mais algumas características/qualidades ou mesmo denominações, estas, muito mais restritas. Okin, Lulu, Baba Roko, Baba Epê, Baba Lejugbá, Akanjápriku, Ifiru, Kerê, Baba Igbó, Ajagunã e muitos outros. A grande listagem existe devido ao grande número de tribos espalhadas pelo território africano influenciadas pelas culturas dominantes. Um mesmo deus, Orixá, para muitos nomes.
Oxalá recebe o titulo de Elééjgbó, rei de Ejigbó, que, curvado sob o peso dos anos carrega um cajado onde apóia o opáxoró, cajado de forte simbologia. 
                                
Oxaguian 
 Guian – Oxaguian -  Ogyan o Senhor do Dia...
O Orixá do progresso e da cultura, Orixá da vida e também da efervescência, da discussão, da guerra, do avanço, da estratégia, da inteligência, da criatividade, do branco, do claro, do positivo e do masculino.
Apregoado nos candomblés como Orixá moço, às vezes como criança e às vezes adolescente não passando de jovem, mas quase adulto. Também é conhecido por Ajagunan, brinda o Universo com vida, com energia, com o lúdico, com a guerra e com a cultura. Traz o dia, traz o tempo, traz a evolução e o ritmo.
Este controvertido Orixá, apenas superado em controvérsia por Exu, já traz os paradoxos em sua criação, pois, para alguns ele é filho mítico de Oxalá com Yemanjá, mas, para a grande maioria da cultura nagô, este Orixá é o próprio Oxalá em idades mais tenras. Sua missão não era apenas a de administrar a criação, mas também de lançá-la ao desenvolvimento. A natureza destes dois aspectos em um mesmo Orixá é muito distinta e, ao mesmo tempo semelhante, pois, ao mesmo tempo em que é separado em duas distinções/qualidades, é unido em um mesmo Orixá, Oxaguian e Oxalufan – Oxalá - ar.
Nascido do Odú Eji-Ogê, o primeiro elemento, com ele veio o dia e a criação da vida que não pode realizar a não ser com a intervenção de sua irmã Oduduwa ou Oduwa – água - nascida logo após pelo Odú Oyeku, o surgimento da luz e sombras. Miticamente a luz representa a vida e as sombras representam a morte que, unidos, terminaram a tarefa. Masculino e feminino resultou, conforme o conceito nagô, na criação dos nove mundos e do Ayé, a Terra, e tudo que nela habita.
O terceiro elemento, elemento dinamizador foi Exu, que, com sua forma esférica rolou pelo espaço criado, dando impulsão aos astros, e assim estava formado todo o universo.   
Existe uma lenda que explica a criação da Terra, que diz ter sido uma galinha com cinco garras que espalhou um montículo de terra. Na mesma lenda, conta que outros Orixás vieram para auxiliar na construção do Ayé – a Terra. Diz a lenda, que Oxalá, o jovem Guian e Ogun trabalharam arduamente e, em dado momento, a espada de Oxaguian que era de cristal se parte com o peso da Terra, a espada celestial rompera-se sob a pressão de tanto trabalho. Sem saber como continuar a tarefa, Ogun que presenciou o ocorrido, ofereceu sua espada para que Oxalá continuasse a trabalhar, enquanto isso, Ogún, com as próprias mãos fazia sua parte.
Ogún passa então a ter o eterno prestigio com Oxalá que está constantemente presente em todos os trabalhos, mesmo sendo Ogun um Ebóra e Oxalá um Erunmalé. Por esse motivo, os dois Orixás dividem algumas regências, ou seja: o jovem Oxaguian e Ogun possuem espíritos aguerridos de luta, de progresso tecnológico e cultural, mesmo sendo distintos um do outro.
Oxaguian é o Orixá da vida, do dia, do masculino, do progresso e da batalha, enquanto primordialmente, Ogun era o Orixá da caça, porém, mais tarde entregou a tarefa para seu irmão Oxóssi. Ogun então ganhou o mundo se ocupando do progresso humano, dele, surgiu o ferro e, com a ajuda de Ifá, as ferramentas para a paz e para as guerras. Assim, o ferro, o metal mais necessário, tornou-se sempre rivalizado com o fogo, porém, com essa hegemonia, criou uma rivalidade e contenda com Xangô.
 Quando Ogun descobriu o ferro, todos os Orixás o invejaram, no entanto, nem o próprio Ogun sabia o valor da descoberta, porém, Oxaguian foi quem revelou a utilidade do duro metal quando desenvolveu as ferramentas e Ogun as confeccionou. E assim, Ogun e Oxalá produziram todos os instrumentos de trabalho na agricultura, na construção e da guerra.  
  Desta forma é que o pensamento nagô traduz a criação e o desenvolvimento no principio do mundo. Ogun tornou-se o patrono da construção, do progresso, da agricultura, da tecnologia e da guerra. Nos ritos dançados nas casas de culto, quando manifestados, Ogun e Oxaguian utilizam de suas ferramentas, apresentando seus instrumentos de trabalho e de guerra, a espada, a lança, o escudo e o pilão.
Há de se atentar que, esses instrumentos, são apenas ilustrações conceituais para representar o trabalho, a luta, a criatividade, o progresso, a disposição humana em defender-se das dificuldades, a batalha diária em busca de melhores condições de vida. Fica entendido também que, Oxaguian é o Orixá da guerra, da batalha do dia a dia, enquanto Ogun, ao seu lado, torna-se o general em comando, o que vai à frente abrindo espaços para o desenvolvimento e o progresso, mas, mas quando Furioso, torna-se uma força indomável.
O nome Oxaguian vem de uma lenda em que o senhor de Ejigbô gostava muito de comer inhame pilado, de tal modo que inventou o pilão para que ficasse mais fácil de fazer sua comida predileta; desta forma, seus amigos passaram a chamá-lo de Oxaguian, que significa Orixá comedor de inhame pilado. Um dia Awoledjé, que era seu babalawô, resolve partir em peregrinação após lhe dar sábios conselhos sobre como dirigir sua cidade recém-conquistada. A cidade era Ejigbó e tornou-se a grande cidade que Awoledjé previra. Com grandes muralhas, grandes construções, muito luxo e um grande exército. Awoledjé quando retornou mal reconheceu a cidade e, diante dos portões dirigiu-se aos porteiros e pediu para ver o comedor de inhames. Isso bastou para que os soldados ficassem absolutamente indignados com o tratamento desrespeitoso do forasteiro em relação ao seu Rei. E então, após surrá-lo bastante, o prenderam nas masmorras. Muito triste com o tratamento recebido pela cidade que havia ajudado a fundar, Awoledjé fez um encanto que trouxe a esterilidade e a seca para Ejigbó, nada mais se produzia. Passado alguns anos, reinar era impraticável. Foi então que Oxaguyan pediu para os adivinhos descobrirem o que se passava com seu reino. E ifà lhe diz que um amigo foi preso injustamente em seu reino, este era o motivo de tudo. Imediatamente foram repassados todos os veredictos do reino, e foi quando Awoledjé reencontra seu amigo transfigurado pelos maus tratos recebidos. Oxaguyan, desconsolado dizia para si como pôde ter feito aquilo ao melhor dos amigos. Imediatamente mandou lavarem Awoledjé, o alimentarem com as melhores comidas e vesti-lo de branco, o traje de honra e, após todo o tratamento, convenceu Awoledjé que retirase o encantamento que secava toda a terra e o seu povo. Awoledjé aceitou, porém, impôs uma condição: todos os anos, no fim da seca, todos os habitantes de Ejigbó deveriam dividir-se em duas tribos, as quais se golpeariam com varetas de madeira até estas se quebrarem. Assim foi feito e assim ocorre até os dias atuais. Em Ejigbó, nesta época, se dividem os bairros de Ixalê Oxolô e Okê Makpo para golpearem-se até quebrarem-se todas as varetas, esperando que a chuva venha e a fertilidade retorne.
Esta lenda demonstra que, além de Oxaguian portar suas armas, também porta o irukeré, feito de um rabo de cavalo branco, um símbolo de sua realeza e também a vareta de amoreira, que demonstra ser ele possuidor de uma forte ligação e regência sobre os mortos. Oxaguian, o Orixá da vida, por excelência, é também da vida pós-vida rege também os mortos e suas lembranças.

                                      Ogun e Oxaguian (Ajagunan)
Ogun e Oxaguian/Ajagunan estavam guerreando para aumentarem seu território, ambos buscando sempre aumentar os seus domínios, desta forma permaneciam muitos anos em total combate, com toda a certeza mais por gosto do que pelo valor dos espólios de guerra.
Em certa época Oxaguian retorna à Iré, cidade de Ogun, para buscar mais armas e munição a fim de manter a luta. Chegando à cidade de Ogún e já com os carros cheios de munição, percebeu que ocorria uma grande festa. Oxaguian perguntou o que estava ocorrendo; e lhe responderam: Estamos festejando porque acabamos de construir um palácio para o nosso senhor Ogun, e ficou muito bonito.
Oxaguian olhou e viu que realmente não estava nada mal, era um bonito palácio e fez outra pergunta: Agora que vocês construíram este palácio, o que farão?”
E responderam: Agora, vamos parar e descansar, festejando o nosso feito.
E Oxaguian retrucou: Observem,...seu rei Ogun não retornará tão cedo, demorará ainda algum tempo lutando na guerra, ao invés de descansarem sobre seus feitos, porque  não constroem um castelo maior e melhor?
E dizendo isso abateu sua espada sobre o castelo derrubando-o e depois voltou para a guerra.
Alguns anos se passaram. Retornou à Iré para buscar mais armas e munição para a guerra que não terminava. Chegando, percebeu que havia outra festa. Foi procurar saber e lhe responderam: Estamos festejando porque finalmente acabamos de reconstruir o castelo para o nosso rei Ogun, maior e melhor.
E Oxaguian observou; realmente o castelo era o dobro do tamanho do anterior e estava maior e melhor construído. E perguntou: Bom, e agora que vocês acabaram o que farão?
E responderam: Agora vamos descansar e festejar o nosso feito.
E Oxaguian respondeu: Mas seu rei Ogun não retornará agora, demorará ainda lutando na guerra, ao invés de descansarem sobre seus feitos, porque não constroem um castelo maior e melhor?
E mais uma vez Oxaguian abate sua espada sobre o castelo e o derruba ao chão, partindo novamente para a guerra.
Tempos depois retorna para buscar alimentos, mais armas e mais munição, e encontra novamente outra festa e pergunta sobre o ocorrido, o que lhe responderam: Estamos festejando porque acabamos de reconstruir mais uma vez o castelo de nosso rei, e desta vez maior e melhor.
E Oxaguian olha e vê um castelo realmente digno de um grande rei. Então pergunta mais uma vez.
Bom, e agora que vocês acabaram o que farão? E responderam: gora, vamos descansar e festejar nosso feito.
E Oxaguian mais uma vez soltou o mesmo argumento e derruba o castelo mais uma vez, partindo novamente para a guerra. E tantas vezes Oxaguian/Ajagunam abateu o castelo quanto o povo o reconstruiu até que a guerra terminou.
Quando Ogun voltou mal reconheceu a sua cidade. Seu castelo era o mais magnífico de todos os reinos e sua cidade a mais bela e bem construída. O povo de tanto construir e reconstruir tornou-se mais exímio na arquitetura, na engenharia e nas técnicas de construção.
Assim é Oxaguian/Ajagunan, o Orixá da inconformidade, que está sempre buscando caminhos melhores, que nunca descansa sobre os seus feitos, que está sempre inquieto na busca do aprimoramento, no empreender e no aperfeiçoar. Oxaguian é o Orixá da reconstrução, do aperfeiçoamento e da renovação da vida.                              
                               A criação do Sámò, o céu atmosfera.
 Os mitos revelam que em épocas remotas o Ayé e o Orun não estavam separados e toda existência não se desdobrava em dois níveis, os Seres dos dois espaços iam de um a outro sem problemas. Os Orixás habitavam o Orun, dimensão que os Seres humanos podiam ir e voltar. Foi depois de uma violação que o Orun se separou do Ayé e que a existência se desdobrou. Os Seres humanos passaram a não ter mais a possibilidade de ir ao Orun e de lá voltarem vivos.
Conservadas vivas por tradições, as lendas, as estórias de tempos imemoriais, descrevem a criação de Sámò, o céu atmosfera, uma conseqüência da separação do Orun.
Naqueles tempos, em que o Ayé e o Orun eram limítrofes, a esposa estéril de um casal de certa idade apresentou-se em várias ocasiões a Orixalá, divindade mestre da criação dos Seres humanos; a mulher implorava a Orunmilá que lhe desse a possibilidade de gerar um filho. Repetidamente Orixalá tinha recusado em atendê-la, mas enfim, movido pela grande insistência, aquiesce ao desejo da mulher, mas com uma condição, a criança não poderia jamais ultrapassar os limites do Ayé. Por isso, desde que a criança deu seus primeiros passos seus pais tomaram todas as precauções necessárias, contudo, toda vez que o pai ia trabalhar no campo o filho pedia para acompanhá-lo.
       Toda sorte de estratagemas era feita para evitar que a criança acompanhasse o pai, este, no entanto, saía sempre escondido pela manhã. Na medida em que o menino ia crescendo o desejo de acompanhar o pai aumentava. Tendo atingido a puberdade, numa noite, ele decidiu fazer um buraquinho no saco que seu pai levava todos os dias e de por certa quantidade de cinza no fundo; assim, guiado pela trilha de cinzas, conseguiu localizar seu pai e o seguiu. Eles andaram muito tempo até chegar ao limite do Ayé onde seu pai possuía suas terras cultivadas. Naquele momento, o pai apercebe que estava sendo seguido pelo seu filho, mas este não pôde mais se deter e atravessou o campo. Apesar dos gritos do pai e dos outros lavradores continuou a avançar e ultrapassou os limites do Ayé sem prestar atenção às advertências do guarda e entrou no Orun. Lá, começou uma longa odisséia, no decorrer da qual, o rapaz gritava e desafiava o poder de Orixalá faltando ao respeito a todos que queriam impedi-lo de seguir o caminho. Atravessou os vários espaços que compõem o Orun e lutou contra todos até chegar ao ante-espaço onde se encontrava Orixalá e, que a seus ouvidos já tinha chegado o desafio insólito. Apesar de ter sido chamado atenção várias vezes o rapaz insistiu até que Orixalá lançou seu cajado ritual, o òpáxóró, que, atravessando todos os espaços do Orun veio cravar-se no Ayé, separando-o para sempre do Orun antes de retornar às mãos de Orixalá.    Entre o Ayé e o Orun apareceu o sámò que se estendem entre os dois limites. O ofurufú, ar divino, é o que separa os dois níveis de existência.                                                                                                                      
      *** Uma lenda relacionada à Oxaguian, característica jovial de Oxalá, conta que ele era um guerreiro e almejava conquistar um reino para si. Transcorria um período de guerras entre dois reinos vizinhos, e seus habitantes perguntavam sempre aos Babalawôs o que poderiam fazer para que a paz voltasse a reinar. Um deles respondeu que o povo deveria fazer oferendas ao Orixá da paz, o Orixá que vestia branco, eles deviam oferecer uma pomba branca e inhame pilado, sua comida preferida. Assim o fizeram e, depois das oferendas entregues, as guerras acabaram e voltou a reinar a paz. Oxaguian tornou-se conhecido e conseguiu seu próprio reino.
A estória ainda relata que Oxaguian foi o inventor do pilão e por isso este é um de seus símbolos. Nas festas em sua honra e em suas oferendas são distribuídos inhames pilados, o símbolo de fartura.
***Outra lenda, conta que Oxalufan estava velho, mas ainda comandava seu reino. Saudoso de seu filho Xangô resolveu visitá-lo. Como era de costume, antes de empreender qualquer viagem foi consultar um Babalawô que o recomendou que não fizesse tal viagem, mas, se Oxalufan teimasse em fazê-la, foi recomendado em levar três roupas brancas e pasta de dendê, e fazer tudo que lhe pedissem para fazer, menos revelar sua identidade em qualquer situação.
Com essa precaução Oxalufan partiu, porém, não tardou a encontrar Exu Elepô, dono do óleo de dendê sentado á beira do caminho com um pote de dendê ao lado. Com boas maneiras Exú pediu a Oxalufan que o ajudasse a colocar o pote nos ombros. Oxalufan lembrou-se das palavras do Babalawô e resolveu então ajudar, mas, Exú Elepô derramou todo o óleo sobre Oxalufan. Oxalufan não perdeu a calma, limpou-se com a pasta que trazia, vestiu outra roupa e seguiu viagem. Mais adiante encontrou Exú Onilú, dono do carvão e Exú Eledú e, por mais duas vezes foi vitima das brincadeiras, porém, procedeu como da primeira, limpando-se e vestindo as roupas limpas e continuou a viagem rumo ao reino de Xangô.
Próximo ao reino de Xangô avistou um cavalo que conhecia muito bem, pois presenteara a seu filho tempos atrás, resolveu amarrá-lo para levá-lo de volta, mas foi mal interpretado pelos guardas de Xangô que o julgaram um ladrão. Oxalufan lembrou-se mais uma vez das recomendações do Babalawô mantendo segredo de sua identidade e nada reclamou. Oxalufan foi espancado e preso.
Usando seus poderes fez com que não chovesse mais desse dia em diante no reino de Xangô, as colheitas foram prejudicadas e as mulheres ficaram estéreis, a fome e a sede imperavam naquelas terras.
Após alguns anos e preocupado com os acontecimentos, Xangô resolveu consultar um Babalawô, e este, afirmou que os problemas estavam relacionados com uma injustiça cometida em seu reino, pois, um de seus presos fora acusado injustamente de roubo. Xangô então se dirigiu às prisões e, entre os presos, reconheceu seu pai Oxalufan. Envergonhado, ordenou que trouxessem água para lavá-lo e, a partir daquele dia, exigiu que todos naquele reino se vestissem de branco em sinal de respeito a Oxalufan, como forma de reparar o erro cometido a seu pai.
É por esse motivo que em todos os Candomblés comemoram as águas de Oxalá, ritual em que todos os participantes vestem-se de branco e limpam seus pertences com profunda humildade e respeito, isso, para que haja boa sorte durante o ano todo. O ritual tem seu término com a festa do pilão de Oxaguian, uma cerimônia para homenageá-lo quando de sua volta para casa. Nos rituais são pilados os inhames e distribuídos em porções a todos os participantes. Este ritual é considerado o mais importante da religião, tem início na primeira sexta feira do ano e resume-se na retirada do ibá de Oxalá de seu Ilé e levado para uma cabana coberta de palmas, um  simbolizmo da viagem de Oxalufan e sua estadia como prisioneiro no reino de Xangô. Sete dias após esta cerimônia, iniciam-se as das águas, onde todos os participantes, antes da alvorada vestidos de branco e munidos de jarras, também brancas, encaminham-se em silêncio para buscar água numa fonte. Com as cabeças cobertas formam um cortejo numa ordem hierárquica, desde os mais velhos até os mais novos. As duas primeiras jarras são derramadas sobre o axé, o ibá de Oxalá; este ato é executado para lembrar as pessoas do reino de Oyó, quando foram em silêncio e vestidos de branco, buscar água para lavar Oxalufan. Ao raiar do dia o silêncio é quebrado e, as jarras com água são colocadas em torno do ibá que recebe reverências prestadas à Oxalá. Neste momento o silêncio é quebrado com as cantigas, e as manifestações se fazem presentes. Este é um dos ciclos das águas de Oxalá.
Na terceira semana, finalizando o ciclo das cerimônias, é chamado de Pilão de Oxaguian; é uma festa que envolve as preferências das comidas de Oxalá. A distribuição da comida, realizada em seu nome, é uma homenagem à volta de Oxalufan. Neste dia a procissão leva ao barracão, pratos e vasilhames brancas contendo inhames pilados, milho cozido sem sal, cominho da costa e pequenas varas de atori, os Içãs, que são entregues aos Oxalá manifestados. As pessoas mais ligadas ao culto e os visitantes mais importantes formam uma roda, e todos dançam curvados diante dos Orixás, que dão na passagem, um ligeiro golpe com o Içã e, àqueles que foram tocados transmitem aos assistentes golpes idênticos. Este é um ritual para lembrar as lutas em Egigbó que Oxaguian travou. O ritual é encerrado com a distribuição das comidas a todos que se encontram no egbé.
***De certa feita, quando os Orixás estavam reunidos, Oxalá deu um tapa em Exu e jogou-o ao chão todo machucado, mas, no mesmo instante, Exu levantou-se curado. Então, Oxalá bateu em sua cabeça e Exú ficou anão, porém, se sacudiu e voltou ao normal. Depois, Oxalá sacudiu a cabeça de Exu e ela ficou enorme, mas Exú esfregou a cabeça com as mãos e voltou ao normal. A luta insólita continuou até que Exu tirou da própria cabeça uma cabacinha da qual saiu um pó branco que tirou as cores de Oxalá. Oxalá se esfregou como Exu tinha feito anteriormente, mas sua cor não voltou ao normal; então, tirou de sua cabeça o próprio axé e soprou-o sobre Exu que ficou dócil e lhe entregou a cabacinha com o pó, com o qual, Oxalá utiliza para fazer o branco.
                                                          ***                                                               
Orunmilá, também denominado Ifá, traz consigo o principio da intenção, da premonição e dos sentidos do espírito, é a visão do agora e do futuro. É através dele que são evocados os oráculos. Os destinos, Odús, as cabeças, Oris, e seus caminhos são por ele conduzidos. É ele também que transmite à Exu para que suas palavras se façam audíveis.
Na cosmologia integrada ao universo religioso Olodumare é o próprio universo, sendo Obatalá o principio de tudo. Oxalá é a criação, Orungã o conflito existente entre as forças antagônicas, negativo e positivo. Orunmilá, como foi descrito, é o senhor dos destinos. Oduwa é a própria Terra, o grande útero. Ajalá é o oleiro do mundo, é ele que molda os Orís, as cabeças.
      Sendo Oxalá o criador, é ele também que dá sentido de vida quando insufla o ufurufú, o ar divino nos Seres por ele criado. Oxalá, cognominado também como Obatalá, é o principio de tudo, é o principio dividido em oito (8), que é a representação do infinito, e todo este complexo de existência advém de Olorun, o criador e o próprio universo.
***Obatalá havia reunido todos os materiais que comporiam a criação do mundo e mandou que a estrela da manhã chamasse todos os Orixás a fim de iniciar o trabalho. Na hora marcada para tudo começar somente Orunmilá apareceu, Obatalá ficou satisfeito com sua presença e o recompensou por ter sido ele o único a chegar. Ordenou então que a estrela da manhã revelasse à Orunmilá todos os segredos da criação e dos dias vindouros, e assim foi feito. Todos os segredos estavam contidos em uma concha de caramujo que estava guardado em um vaso entre as pernas de Obatalá. Orunmilá tornou-se assim o dono dos segredos de todas as magias das fórmulas dos ebós e de tudo que envolvia os conhecimentos do espírito humano e de seus destinos.
***Uma outra lenda, narra que Ifá é filho dos dois princípios mágicos, nasceu mudo e não disse palavra alguma até sua adolescência. Um dia, seu pai bateu-lhe com seu cajado e, nesse dia Ifá disse: Gbê Meji, mas ninguém compreendeu àquelas palavras. Quando apanhou novamente, tempos depois, disse: Yekú-Meji. E assim, em todas as ocasiões que apanhava foi dizendo todas as palavras que compõem o opelê-Ifá. Depois disse a seu pai que, quanto mais apanhasse mais poderia falar.
Orunmilá apanhou mais e disse que não ficaria na terra, mas, que entregaria ao seu pai uma herança que serviria por toda a eternidade para todos os Orixás. Explicou que, os dezesseis nomes que havia dito eram os nomes dos seus futuros filhos e que, cada um deles, possuía um conhecimento. Dito isso, Ifá se transformou em uma palmeira cujos caroços dos frutos, seus filhos, são utilizados para fazer o opelê, o seu oráculo e, quando consultado obtém respostas para saber do futuro ou mesmo dar indicações para resolver problemas.
      ***Há muito tempo, numa aldeia a morte se instalou não poupando qualquer ser vivo, os habitantes não mais sabiam o que fazer, pois, muitas foram as vidas perdidas. Desesperados, apelaram para Oxalá que mandou o povo fizer uma oferenda, que pegassem uma galinha preta e efun. Assim fizeram, pegaram a galinha e a salpicaram com o efun soltando-a no mercado. A morte que estava por lá a viu e, assustada, fugiu deixando a cidade em paz. ...E foi assim que Oxalá criou a galinha d`angola e, é em homenagem à sua sabedoria, que todos os yawôs são pintados com efun, ficando parecidos com aquela ave.
       Outra versão desta estória, conta que foi o próprio Orixá que soprou sobre a galinha preta o pó de efun, daí a galinha d`angola ter suas penas salpicadas de branco.
***Uma lenda conta que Oxalá, o Orixá do branco, foi reclamar a Olorun o senhor supremo que um Ser humano tinha tocado com mãos sujas o Orun, moradia dos deuses. Enfurecido com tal displicência humana, Olorun soprou seu hálito sobre o Ayé separando-o um do outro. As divindades sentiram falta dos humanos e foram falar com Olorun que ouviu as devidas queixas. Olorun então consentiu que, de quando em vez, os Orixás voltassem à Terra com uma condição, a de usar o corpo de seus devotos. Assim, cada um dos Orixás escolheu seus devotos e passaram a se manifestar.
***No principio, Olorun criou Obatalá, Olokún, Oduduwa, e Orunmilá, depois disso, deu a Obatalá a tarefa de criar o mundo entregando-lhe uma sacola com um pó mágico, mas, Obatalá instigado por Orunmilá que estava aborrecido por ele não ter cumprido seus rituais antes de partir, incitou a Obatalá que tomasse vinho de palma, este, acabou se embriagando e adormeceu. Então, sua irmã Oduduwa roubou-lhe a sacola com o pó mágico e usou-o para criar a Terra antes que Obatalá acordasse. Obatalá foi castigado com a proibição de usar qualquer coisa vinda da palmeira, do dendezeiro, e de usar bebidas alcoólicas, mas, como consolo, recebeu uma argila para moldar os humanos. No entanto, não levou a sério tais proibições e continuou bebendo vinho de palma. Nos dias que se excedia fazia os bonecos de barro, Seres humanos, todos tortos, com defeitos e mal queimados. É por essa razão que os defeituosos e albinos são filhos de Oxalá. Pelo menos, é o que conta essa lenda.     
      Oxalá por ser o Orixá Funfum (do branco), tem nessa cor sua representação, no entanto, devido suas características/qualidades, pode, em alguns casos, utilizar o branco com azul claro, no caso de Oxaguian. Seu dia consagrado é a sexta feira e tem no Senhor do Bom-fim seu sincretismo no catolicismo. É o Orixá mais consagrado nos Candomblés, onde todos o saúdam: Epaá Baba..
O mito da criação da Terra.
No começo de tudo não existia a terra firme e tudo era água; Olodumare, o deus supremo, percebeu que aquele não era o mundo que desejava, para ele, o mundo precisava ter vida. Criou então sete príncipes e os coroou de riquezas. Criou uma galinha, vinte e uma barras de ferro, um pacote preto com um conteúdo desconhecido e, por fim, criou uma corrente de ferro muito comprida na qual prendeu tudo juntamente com os sete príncipes e deixou cair do Orún. Muito sábio também jogou uma semente de Ogi opê, que cresceu muito rápido e serviu de abrigo aos príncipes. Sendo comandantes por natureza, os príncipes resolveram se separar e, cada um deles, seguiu seu destino. Antes, porém, resolveram dividir o tesouro que Olodumare tinha criado. Com os mais velhos ficaram búzios, pérolas e tecidos, pois julgaram ser bens mais valiosos, ao mais jovem coube o pacote preto com a substância desconhecida, a galinha e as barras de ferro. Os mais velhos partiram sobre as folhas do Ogi opê e, o príncipe mais jovem sozinho ficou. Muito curioso resolveu abrir o pacote para ver o que continha e reparou que tinha uma substância escura e desconhecida, sacudiu o pano e deixou que àquela substância caísse sobre a água, que, ao invés de afundar, formou um montículo. A galinha então voou e pousou em cima do montículo e começou a ciscar espalhando tudo, e a matéria escura foi se espalhando, foi crescendo e tomando lugar da água. ... E assim apareceu a terra firme que mais tarde originou os continentes.                                                                         
   
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      Todos os Orixás, com suas individualidades, possuem seus domínios de ação, suas atividades, objetos rituais distintos e elementos, sejam materiais, vegetais, minerais ou animais; subjetividades como, cores e aromas, ou ainda as cantigas e danças representativas; enfim, todos são possuidores de aspectos distintos que os tornam diferenciados, tanto quando estão manifestados ou mesmo representados.
      Alguns Orixás, no entanto, pelas dificuldades encontradas na transmissão de conhecimentos deixaram de ser cultuados ou se fundiram a outros possuidores de características idênticas, e que por vezes, é a grande causa de confusão no entendimento, assim acontecendo também com elementos astrais. Olún o sol e Oxú a lua, são dois dos elementos naturais cultuados através de Tempo, Orixá que está relacionado com o tempo e o espaço físico, de uma forma subjetiva de espera. Ajé Salúba a deusa da saúde e da prosperidade e Xapanã o deus das doenças endêmicas, são entidades divinizadas como Orixás fundidos a Obaluayé, os quais são cultuados como sendo os médicos espirituais. Obá, a deusa do rio Obá na África, fundiu-se, em alguns casos, a Yansã; Olokún, a deusa dos mares, não é mais cultuada, assim como Okô, deus da agricultura, que se fundiu a Oxóssi, pois este representa a fartura. Okê, deus das montanhas, passou a ter uma relação muito próxima ao Orixá Oxóssi e aos caboclos- encantados cultuados por algumas nações e com mais freqüência na Umbanda. Outros tantos Orixás, no entanto, estão relacionados com características/qualidades, designados assim, para não serem de todo esquecido.
                                                                                   
   

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