Caminhos das religiões.
De alguma forma o Ser humano está, desde o inicio dos tempos ligado ao
sagrado; A trajetória rumo ao sagrado sempre teve como objetivo
principal o reencontro com a criação, com o subjetivo existente dentro
de Si. E foram muitos os caminhos e muitas maneiras
desenvolvidas. No início, rumo ao sagrado todas as
religiões apegaram-se aos fenômenos da natureza,
e com ela aprendeu que todos os Seres, animados ou inanimados possuem
vida, Desta forma reconheceu que em tudo na natureza existe um principio
ativo, ou seja, uma energia que rege o Universo; para muitos esta
energia é denominada de Deus, Ser supremo que gera e comanda a tudo e
a todos.
Todas as religiões estão conectadas a àquele Ser –
divindade – que, por questões culturais se diferenciam nos dogmas, nas
ações ritualísticas, nos objetos de culto, nos conceitos e tabus. Em
fim, são apenas formas diferentes de se aproximar da divindade, isso
porque, a própria divindade ou divindades, não diferenciam o conceito de
crença ou fé.
As religiões que possuem conceitos espíritas se diferenciam nas formas que se apresentam, são
religiões que possuem o principio da mediunidade, ou seja, o
reconhecimento da existência de um paralelo entre a matéria e o
espírito. Neste paralelo está o significado de um portal para um
universo imaterial comandado por energias que, estudadas e
compreendidas, tornam-se fatores de orientação na vida.
Assim como o
Cristianismo, o Hinduísmo, o Budismo e outras religiões se difundiram
pelo Mundo, a religiões espírita também tev seus caminhos. Aqui no
Brasil o Espiritismo surgiu de forma importada através de alguns
estudiosos.
Por razões culturais e uma miscigenação da população
negra através dos escravos no Brasil Império, desenvolveram-se formas de cultos
que passaram a ter um sincretismo com o catolicismo e, desta forma, os
primeiros passos se deram para um posicionamento, e por fim o
surgimento de templos nos quais passaram a ser cultuados àqueles deuses
de origem africana, surgia assim o Candomblé. Mais tarde, com a evolução
e maior divulgação do Espiritismo surgiram as primeiras casas de
Umbanda.
Há de se saber que tanto Candomblé quanto a Umbanda são
religiões de origem africana, no entanto, o Candomblé se diferencia por
apresentar um universo de culto aos deuses africanos, enquanto a Umbanda
está mais próxima ao espiritismo. Isso, no entanto, não significa que
tanto uma quanto outra não possuam uma relação com o sincretismo
católico. Esta diferença está apenas no modo de se apresentarem e na
forma de culto.
Evidentemente, por razões de não haver uma
liderança, um comando como em outras religiões, cada templo, seja de
Candomblé, Umbanda ou mesmo no Espiritismo, elas se diferenciam nas
formas de direção, nas formas de posicionamentos em razão de haver em
cada templo uma liderança independente; isto significa que em cada
templo existe uma forma de diretriz. Isso, no entanto, não significa que
haja diferenças na forma de culto, pois, os objetivos são os mesmos em
todos os templos.
Tanto no Candomblé quanto na Umbanda existem os
atos de iniciação, para tanto, existem preparativos através de cultos
específicos. Os indivíduos que optam em seguir o caminho religioso no
Candomblé não são escolhidos aleatoriamente, são indivíduos que, por
razões de uma determinada mediunidade graduada, optam pelo
desenvolvimento para trabalhar sua espiritualidade na religião. Conforme
o desenvolvimento se expande e, como essas religiões são “religiões de
possessão”, passam a receber incorporações que no candomblé são
denominados de Orixás. No entanto, na Umbanda, os Orixás são divindades
também pertencentes ao culto, diferenciando-se apenas no tratamento, pois
as divindades ou espíritos são denominados de Guias.
Enquanto os
Orixás no Candomblé estão alinhados aos processos da natureza, em termos
ecológicos, para o desenvolvimento material e espiritual, a Umbanda
está mais próxima ao desenvolvimento espiritual com atos e demonstrações
de caridade. São dogmas diferentes apenas no tratamento com o sagrado.
Por esta razão, elementos constituídos em uma não desclassificam a
outra, e que, além disso, existe uma proximidade entre as duas religiões
pelos motivos culturais.
A existência de altares com santos
católicos nos templos de Umbanda estão relacionados aos conceitos
cristãos que, por uma questão histórica de sincretismo, é perfeitamente
entendido, pois, as relações com a religião predominante no passado, o
cristianismo, impulsionou a crença tanto nos santos católicos quanto aos
Orixás e Guias.
Significado da palavra candomblé.
O termo
Candomblé pode ser definido com algumas variações. A primeira deriva de
candombe, dança de negros executada nas senzalas no tempo da escravidão.
Outra versão é a da relação existente com os tambores que, tocados com
varetas ou com as mãos, produzem um som para a dança. Outra versão é a
denominação Kandombile, cujo significado quer dizer culto e oração
constituído de um modelo de religião que congrega sobrevivências étnicas
da África.
Outras versões existem, porém, estas são as mais conhecidas.
O termo macumba está relacionado com as reuniões feitas pelos negros
cumbas, negros feiticeiros e reconhecidos como indivíduos ruins, mas
nada dessa definição corresponde a uma realidade histórica, é preciso
muito estudo para entender as denominações e os verdadeiros propósitos
de um linguajar escasso dos vários povos vindo de África para o Brasil.
Daí a importância de um dicionário que esteja relacionado com a
religião, pois, tanto o quimbundo, o umbundo e o ioruba, são compostos
de muitos dialetos, os quais, mesmo pertencendo a uma mesma Nação, se
diferenciam tanto no vocabulário quanto nas formas fonéticas.
A
palavra candomblé também pode ser definida ou denominada como,
significando mais especificamente, culto à Orixá, que para alguns
neófitos corresponde aos deuses Africanos; para outros, no entanto, o
culto tem significado mais amplo quando relacionado ao Ori (cabeça), e
ainda para outros como seres divinizados, mas esse é outro tema.
Alguns termos no linguajar usados nas casas de candomblé não guardam em
nada do idioma original, isso devido a muitos desvios do próprio idioma,
principalmente àqueles mais próximos ao português, assim como, também o
idioma português abrasileirado foi muito influenciado por outros
idiomas.
A comunicação entre membros do candomblé é dificultada
pelas variações promovidas pela própria estrutura da religião em relação
a cada Nação existente. No universo religioso, alguns vértices foram
criados devido a dificuldades de aprendizado nos idiomas, pois, a forma
de ensino ainda é a mesma usada em tempos antigos, ou seja, de boca a
ouvido sem a devida interpretação, sentido e/ou da tradução.
Teosofia.
Dizem que a natureza é sábia. Uma árvore quando nasce seus galhos
procuram sempre o caminho da luz, e ala cresce e desenvolve; quando não
dá frutos produz sombra. E assim, como exemplo, todos nós temos uma
missão na vida. O Universo nunca tira nada. Sempre se renova com as circunstâncias e sempre deixa uma “brecha” para tudo ter uma
continuidade. Enquanto não cumprirmos a que viemos fazer nesta orbe não
estaremos preparados para uma nova etapa.
Entendendo o Candomblé e a Umbanda.
Mito ou historia?
Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de
um povo, o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião.
Todas as culturas humanas retrataram seus acontecimentos
extraordinários através da mitologia, sempre para se fazerem entender
nas relações, principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo
do inconsciente e de suas crenças.
Personificados em formas
humanas ou de animais os deuses e deusas permanecem no inconsciente
humano como forma de fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o
subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas (gravuras em pedras), estátuas e nas
pinturas sacras.
Esta foi a forma que o ser humano encontrou
em todos os tempos para estar mais próximo ao sagrado; transformou
ideias em objetos reais sacros, criou lendas, transformou
ancestrais em deuses demiurgos e uniu-os aos deuses tribais transformando-os em figuras
sincréticas, assim nasceu o mito.
Muitas das lendas são
singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou
grandes extensões de terra e, os deuses, com características idênticas,
são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por
um personagem maior, um deus superior.
A mitologia é uma forma
espontânea, cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê,
mas sente e transfere para si toda essa crença, e os caminhos
percorridos pelos deuses passam a refletir nas características de cada
indivíduo em cada uma das religiões.
Cada lenda é um tempo vivido,
uma ação, um movimento feito pelo personagem, dando a ideia de uma
transferência de conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz
cada vez mais ao encontro com a realidade subjetiva que é a fé.
As
religiões afro-brasileiras são todas mescladas de conceitos reais e
mitológicos derivados das culturas advindas do continente africano,
independentemente a que nação ou segmento pertença.
Nos rituais é
que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, por vezes
parecendo mesmo que em determinados momentos o culto se divide entre o
sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças refletem um sentido profano. Feitas por seus adeptos formam
um conjunto aprimorado, como se uma viajem ao passado fosse feita. A
cada batida, com mãos ou varetas e a cada passo dado no bailar rememoram
os caminhos percorridos pelos deuses africanos.
O ponto principal
de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado
transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as
energias emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não
correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no
próprio indivíduo que, iniciado, passa a ter essa capacidade e, depois
de celebradas, estas energias em voltam ao seu estado
natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das
várias “divindades astralizadas”. Nos bailados de Iemanjá os braços
ondulam numa alusão as águas dos mares, mas também seus braços podem
ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria
primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam
aos primórdios do Universo, onde seria também a progenitora de todos os
demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão
que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com
Iemanjá, num patamar mitológico superior, está Oxalá, o Ar, o sopro de
vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi
substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o Ser
humano, e assim povoou todo o Planeta.
Juntamente com Iemanjá e
Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão,
Exu, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o
sentido da procriação; tornam-se assim um quadrunvirato da construção de
todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
Oduwa, por não
ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de
Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto
independente, o culto às Yá mi. Da interação Terra/água, surge Nãnã,
Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das
espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito
do povo Nagô.
Os acontecimentos mitológicos são apenas
representativos para entender toda a estrutura da religião quando
baseados nos conceitos do povo Nagô, no entanto, todas as formulações
ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações
determinantes nos candomblés.
Além dos Orixás primordiais,
Iemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exu o
fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros
deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas
lendas são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como
historias reais.
Quando da criação da Terra, segundo o mito Nagô,
em tempos imemoriais, nos ciclos milenares do desenvolvimento humano
chegou a era dos metais e com ela uma divindade foi criada, Ogum, o deus
das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de
facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar
armas de guerra e ferramentas para a agricultura. Este, juntamente com
Exu, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os
responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser humano
reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas, substituiu a
coleta pela produção de alimentos, Oxossi, o deus das matas, continuou a
caçar e dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de
trabalho; nos dias atuais a caça tornou-se uma alegoria, uma
representação na evolução humana.
A descoberta dos sentimentos
humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de
criação de conceitos para sobrevivência; nascia assim o respeito pela
gestação, e com ela, Oxum a deusa das águas doces e das nascentes que
sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder
gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto,
surgindo daí as Yá bás, as mães rainhas e zelosas dos castelos
imaginários de um mundo mítico.
Progressivamente a humanidade foi
se adaptando no Planeta recém construído; surgiram outras divindades,
pois, a cada passo, eram personificados deuses representativos. A
natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e
escravos. Novos deuses surgiam e reis foram divinizados e, neste cenário
apareceu Xangô, o deus da justiça que, enlouquecido pelas barbáries,
dele e de seus inimigos, conta a lenda ter se enforcado. Seus machados,
cortantes nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a
benevolência, do outro o castigo.
Da interação – Oxossi/Oxum –
nasceu Logum, energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado
representando a renovação dos ciclos, das eras. Desta maneira, as águas
da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè, e após os grandes dilúvios
esta energia é que permite chuvas. Com ele, numa alegoria encantadora
surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do Universo.
Porém, essas transformações constantes e num ritmo de evolução
apressado, transmutam as energias de Iansã, Orixá determinante na
provocação de movimentos e das guerras pessoais simbolizadas pelos
raios. Obà está também consagrada entre as deusas da evolução; o
vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nos vulcões.
Mas a renovação constante de elementos, matéria/energia,
precisa ser feita, vida e morte de elementos, doença/saúde, bem e mau,
conceitos de todas as vicissitudes são energias que devem ser depuradas
e, desta forma, Obaluayé está presente; ele é o socorro, o médico do
Planeta e de tudo que nele contém, é a energia produtora, tanto de
pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra
também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as
energias, como o ser humano. As folhas, ervas medicinais trazidas pela
magia de Ossanhe, energia completa, complexa e diversificada ao mesmo
tempo, é de onde laboratórios modernos retiram as substancias
medicamentosas.
...E todas essas energias bailam, flutuam na
natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos, particularidades que
agregam ao ser humano quando do nascimento, acompanhando-o até a
devolução de todas as substâncias na morte à Mãe Terra.
Para
representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza e
dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás
se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos
mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração,
envolve a assistência num retorno aos primórdios tempos, reinterpretando
toda uma história, mitos e sentimentos, é quando a ancestralidade se permite em estar presente.
Nos movimentos das danças é
que são interpretados, de forma a entender as energias manifestadas. As
ondas dos mares e as turbulências das águas estão nos braços e
requebros de Iemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As
águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxum. Os
raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos
gestos agressivos, quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns
ará, numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogum estão
alegorias de guerras e de batalhas vencidas. Nas posições homéricas de
um caçador, quando Oxossi lança suas flechas dando direção à fartura. No
resplandecer das mudanças bruscas do tempo dos gestos alusivos que Ewá
representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido
plenamente. Na dança das folhas de Ossanhe. Na direção dada por Oxumarè
apontando o caminho das águas pelo arco íris. - Nos movimentos
tectônicos da energia do Planeta está Obá, a deusa que respira pelos
vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nãnã, devido ao tempo de
existência. No ritmo atenuado do tempo, como as nuvens da paz e um
telhado branco por sobre as cabeças, Oxalá caminha sobre a Terra ou no
infinito Universo e, Exu provocador de todos os movimentos, é o
incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olímpo dos
deuses africanos, os deuses do candomblé.
Mas não só toda essa
estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença
fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os
símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as
formulações consagradas aos deuses africanos, aos Orixás, que desta
forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e
armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma
dinâmica o desenvolvimento humano.
A crença nesta forma de religião
não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados
no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um
DNA espiritual, que, passivamente e através de ritos apropriados devem
ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí, o
caminho religioso no Candomblé ou na Umbanda torna-se uma opção.
Teosofia no Candomblé.
Como forma primária do pensamento, transmitida pela crença e pela fé
foi criada toda iconografia nas religiões, nos templos é que são
observadas constantes criações. Seja na roupagem ou até mesmo nas
formulações de ritos, imprimi nos neófitos uma mensagem no
subconsciente que transforma-se em legitimidade no poder que produziu seu caráter nas diversas formas de alcançar o sagrado.
As gerações
destas iconografias passam ideias como uma conexão com alguma divindade, dando
ao sacerdote uma natureza dual, o de ser um comunicador entre o mundo
divino e o terreno.
O simbolismo no candomblé representa uma forma
primária do pensamento imprimindo uma mensagem na consciência de seus
adeptos. O uso da iconografia, textos, oráculos e demais elementos na criação dos mitos e ritos, legitimou e poder o que deu à Xangô a dualidade de um poder, elevando-o à categoria de um deus, passou desta forma fazer
parte na teogonia universal sem perder seu status de monarca.
Para que os seres humanos possam viver
bem neste mundo é preciso estar bem com os deuses, por isso, os Orixás
são propiciados com um pouco de tudo que é produzido e que seja
essencial à vida, as oferendas aos Orixás devem ser transportadas até o
Orún, e é Orixá Exu que tem esse encargo, o de transportador. Também é
preciso saber se os Orixás estão satisfeitos com a atenção a eles
dispensada por seus ofertantes. Orixá Exu é quem propicia essa comunicação levando e trazendo mensagens. Além de transportador ele é o mensageiro. É fundamental para a sobrevivência dos mortais receberem as
determinações e os conselhos que os Orixás enviam para o Ayê, a Terra.
Exu é o portador das orientações e ordens, é o porta-voz dos Orixás
fazendo uma ponte entre o mundo dos seres humanos e o mundo dos
Orixás, especialmente nas consultas aos oráculos. E como os Orixás
interferem em tudo o que ocorre neste mundo, incluindo o cotidiano dos
viventes e os fenômenos da própria natureza, nada acontece sem o
trabalho intermediário do mensageiro e transportador Exu. Nada se faz
sem ele, nenhuma mudança, nem mesmo uma repetição. Sua presença está
consignada até mesmo no primeiro ato da Criação: sem Exu nada é
possível. O poder de Exu, portanto, é incomensurável.
Toda e qualquer forma de ritual de oferenda, é o meio através do qual os humanos se dirigem
aos Orixás, as oferendas significam a reafirmação dos laços de
lealdade, solidariedade e retribuição entre os habitantes do Ayê e os
habitantes do Orún. Sempre que um Orixá é interpelado Exu também o é,
pois, a interpelação de todos se faz através dele. É preciso que ele
receba a oferenda, sem a qual a comunicação não se realiza. A relação
homem/Orixá tem como fundamento a materialidade da oferenda, a
concretude do ato. Isso é uma definição religiosa, um ponto de
partida essencial na concepção africana do sagrado. A própria
possibilidade de professar a religião fundamentada aos Orixás, seja na
África, no Brasil, ou noutro lugar, depende, pois, do trabalho de Exu.
Como mensageiro Exu tudo sabe, não há segredos para ele, tudo ele ouve e
tudo ele transmite, pois conhece todas as receitas, todas as fórmulas e
todas as magias. Exu trabalha para todos, não faz distinção entre
aqueles a quem deve prestar serviço, isso, por imposição de seu cargo, o
que inclui todos os humanos, divindades e antepassados. Exu não pode
ter preferência por esse ou aquele em qualquer aspecto. Mas talvez o que
o distingue de todos os outros Orixás é seu caráter de transformador. Exu é aquele que tem o poder de quebrar tradições, pôr as regras em
questão, romper a norma e promover mudanças. Não é, pois, de se
estranhar que seja temido e considerado perigoso, pois se trata do
próprio princípio do movimento que tudo transforma e que não respeita
limites. Assim, tudo o que contraria as normas sociais que regulam o
cotidiano passa a ser atributo de Exu. Exu carrega consigo qualificações
morais e intelectuais próprias do responsável pela manutenção e
funcionamento do “status quo”, inclusive representando o princípio da
continuidade garantida pela sexualidade e reprodução humana, mas, ao
mesmo tempo que ele é o inovador que fere as tradições, é um ente nada confiável que, por conseguinte, ser dotado de
caráter instável, duvidoso, interesseiro, turbulento e arrivista se contrariado.
Na
antiguidade, para o povo africano tradicional, nada era mais importante
do que ter uma prole numerosa, e para garanti-la era preciso ter muitas
esposas e uma vida sexual regular e profícua. Era preciso gerar muitos
filhos, de modo que nessas culturas antigas, o sexo tinha um sentido
social que envolvia a própria ideia de garantia da sobrevivência
coletiva e perpetuação das linhagens, clãs e cidades. Exu é o patrono da
cópula, que gera filhos e garante a continuidade do povo e a eternidade
do homem.
É da relação íntima com a reprodução e a sexualidade, tão
explicitadas pelos símbolos fálicos que o representam, que decorre a
construção mítica do gênio libidinoso, lascivo, carnal e desregrado de
Exu-Elegbara.
Isso tudo contribuiu enormemente para modelar sua
imagem estereotipada de Orixá difícil e perigoso que os cristãos
erroneamente reconheceram como demoníaca a religião dos povos africanos e
que veio a ser praticada no Brasil do século XIX por negros que eram
também católicos, à partir daí, todo o sistema cristão de pensar o mundo
em termos do bem e do mal deu um novo formato à religião africana, na
qual, Exu veio a desempenhar outro papel que, na forma sincrética pelos
seus aspectos foi confundido e identificado com o demônio, com o diabo
católico cristão.
Pensam os que se acostumaram a ver os Orixás
numa perspectiva cristã (imposta pelo catolicismo e hoje reforçada pelo
evangelismo), que Exu deve ser homenageado em primeiro lugar para não
provocar confusão, para não bagunçar a cerimônia, como se ele fosse um
simples e oportunista arruaceiro. Esta é uma visão bem simplista e
demasiadamente falsa.
Ora, Exu é antes de tudo movimento e nada pode
acontecer sem ele, portanto, nada ocorre sem a interferência de Exu, por isso ele é sempre o primeiro a ser homenageado, é preciso permitir o
movimento para que o evento, seja ele qual for, se realize. Esse
movimento não é dotado de moralidade, nem poderia ser, pois se assim
fosse o mundo ficaria paralisado. A vida é um pulsar permanente e, em
cada passo, em cada avanço ou retrocesso, em cada mudança, enfim, Exu
está presente. Tudo começa por ele, por isso ele será sempre o primeiro a
ser propiciado.
Em todos os momentos da vida daqueles que cultuam
Orixá, a Terra é o elemento mais importante a ser reverenciada, em
consequência disso, a pedra, fruto de uma condensação do magma, quando
de sua desagregação, produz as partículas formadoras de um microcosmo,
no qual, se assentam todas as crenças ancestrais.
Essa singularidade
pode ser reconhecida na gênese do povo yoruba. Olodumare, após tempos
imemoriais de inércia resolveu criar o mundo, e sua primeira criação foi
a pedra chamada por ele de Exu Yangi que, posteriormente recebeu o nome
de Exu Obásim cultuado até os dias atuais em Ilê Ifé.
Todo Orixá
tem que, obrigatoriamente, ser “assentado” juntamente com uma pedra ou
material que dela tenha vindo, ou seja: como exemplo, temos o ferro
existente no assentamento de Ogum que, após uma transmutação material
transforma-se de pedra em ferro e que dessa forma podemos dizer que Ogum
é assentado em uma pedra.
Um dos aspectos relacionado a pedra
é que o corpo humano é composto de vários elementos, e entre eles, um
dos mais importantes é o barro modelado por Ajalá, onde, posteriormente é
inserido por Obatalá o Bára, o Exu do movimento. De grande importância e
relacionado com a Terra é o Ikomojade, imposição de nome ou batismo,
ritual ainda existente na África por alguns povos, nele o pai pega a
criança e coloca o pé dela sobre o solo de terra fofa, recitando um verso de Ifá
especialmente preparada para o momento.
Desmistificação:
A historia possibilita reconhecer muitos fatos, e um deles a respeito
da figura mítica de Exu são os fatos que existiram no passado.
Na
Mesopotâmia onde a religião sempre foi ligada com demonologia
influenciou outros povos, como os hebreus, gregos, romanos, e
principalmente cristãos, e ela sobrevive, pois, constantemente houve-se
falar em rituais satânicos promovidos por seitas não reconhecidas pela
sociedade num todo.
A cultura do povo meso-religioso possuía a
crença que todos os males e imperfeições da vida não advinham de
catástrofes naturais, mas sim de demônios. No entanto, os sacerdotes
para combater as forças do mal possuíam conhecimentos mágicos que usavam
para a luta, e para isso, também faziam grandes listas nominativas dos
ditos demônios. Os demônios eram conhecidos pelo nome de Utuku que
possuía mais sete demônios subordinados e se dividiam em machos e
fêmeas. Tinham forma meio humana e meio animal. Descritos por
historiadores, a cintura e as pernas eram de uma cabra e nas mãos garras
mortais. Aqueles demônios exigiam sacrifícios humanos, porém, com a fome de sangue
aceitavam também o sangue dos animais. Estes demônios frequentavam os túmulos,
caminhos com encruzilhadas e lugares ermos, sempre no período da noite.
Da pedra à pedra.
A ação repressiva dos cristãos europeus e posteriormente
latino-americanos sobre os africanos, escravos e seus descendentes,
forjou o sincretismo entre Orixás e os Santos Católicos,
consequentemente Exu passou a ser o diabo cristão na sua forma teológica mais
primitiva.
Assim sendo, a ideia de um Exu reelaborado
pelos cristãos e essencialmente maléfico e tenebroso é inconcebível na
teologia e no cosmo-visão yoruba que não tem um inferno declarado, e os
homens não são punidos a post-mortem, muito embora, existam lendas e
mitos populares onde Exu é retratado como manhoso e trapaceiro ou
encrenqueiro. No entanto, se Exu for reverenciado com o ébó designado
nada disso será verdadeiro e a sua suposta imagem de malignidade,
decorrente dessas lendas, cairá por terra.
Na verdade, Exu é o
“executor divino”, punindo aqueles que descumprem o sacrifício
prescrito, recompensando aqueles que o fazem. Ele nada faz por conta
própria e está sempre servindo de elemento de ligação entre Olorun e
Orunmila, ou então servindo aos Orixás.
Segundo a Teologia yoruba, nenhum ser divino pode punir um Ara Ayé, "ser da Terra", diretamente sem a consulta a Olodumare.
Diversos Itan Ifá (contos de Ifá) nos dão conta que Exu também é
encarregado por Olorun para vigiar os Orixás no Ayé. Isso só pode ser
feito porque ele é imparcial no seu papel de executor divino.
É por
isso que todos os devotos de todos os Orixás fazem oferendas para Exu, por
recomendação de Ifá nos tempos de dificuldades, buscando dessa forma sua
intermediação com Olodumare.
E, para que os Babalorixá não se
excedam ou mintam na prescrição dos ébó, o próprio Exu, na qualidade de
Odusó, sempre estará presente nos jogos divinatórios, cuidando para que o
Iwá, "caráter" do consulente e do Babalawo não sejam maculados.
Exu
reporta-se diretamente a Olorun e mantém um inter relacionamento com os
Orixás e também com os Egungun, "ancestrais". Ele não é vingativo e
nada executa por sua própria conta, apenas cumpre fielmente as ordens de
Olorun conforme os ditames do Iwá contido no Ori individual, destino
escolhido por cada Ori no Ipori Orun.
Do conceito de Energias Elementais.
Para entender melhor todas essas energias, pode-se dizer que elas
fazem parte integrante do espírito humano que, consubstanciadas a
energia dos Orixás, como uma força Elemental, está também na dependência
do aspecto racional e emocional a cada Ser, pois, o espírito humano
como forma de energia pode, em determinadas circunstâncias, apresentar
positividade ou negatividade.
Energias transmutadas em espíritos.
...E todas essas energias “espirituais” passaram estão a fazer parte
integrante e ao redor de todos os seres viventes, porém, podendo estar
encerradas em seus corpos de maneira desequilibrada, daí os dizeres de
mau agouro, de intervenções doentias e descaminho na vida. Este fato,
evidência, crença ou descrença, está baseada em conceitos religiosos
e/ou por convicções da ciência.
Não só para a vida material, mas
principalmente para a vida espiritual, é necessário que as energias
estejam em equilíbrio permanente e, é através de uma manifestação de
desejo e fé, independente de religião, que o ser humano consegue a
plenitude das realizações pessoais ou coletivas.
Todos os rituais
ou consagrações à algum deus, santo, entidade espiritual, ou um ser
extraordinário mitológico estão sempre associados a gestos, palavras e
orações funcionando como indutores e/ou expansões daquelas energias com
finalidade de promover algum fenômeno extra corpóreo.
As energias
espirituais são recebidas como herança genética que passa a integrar
corpo e mente dando ao indivíduo os arquétipos, índoles, ou até mesmo o
que se pode chamar de destino humano influenciando também nas
características individuais. A espiritualidade é sempre desenvolvida por
vontade própria ou pela própria evolução determinada por aquela
genética espiritual, que no caso, não precisa de uma interferência de conceito religioso ou de qualquer outra doutrina. No entanto, é
necessário que haja o reconhecimento do indivíduo da existência de tais
forças para que sejam lapidadas e tratadas para alcançar o equilíbrio
necessário.
De certa forma, o ser humano consegue controlar as
forças espirituais criadas por ele próprio desde quando criou aqueles
deuses mitológicos, principio de todas as crenças e religiões, às quais
foram transmutadas por uma gnose coletiva resultando na fé individual.
No universo espiritual ou universo paralelo ao material, encontram-se
os deuses, anjos, santos, entidades iluminadas, entidades guias e
muitos outros, existindo ainda a crença em gnomos, fadas, sereias e
ondinas, muitos deles, representam em culturas distintas os seres da
vida pós vida. Estes seres são constituídos de energias, podendo, no
entanto, serem positivas ou negativas. Mas, incontestavelmente, as
energias do próprio Ser humano é que pode interferir para o bem ou para
os malefícios dele próprio ou de outrem.
As energias quando
positivas são energias benéficas, aquelas que fazem todos os indivíduos
se irmanarem, cada um passa a ser um elo de uma corrente, tornando-se
desta forma uma comunidade benfazeja com objetivos claros de crescimento
e desenvolvimento humano, espiritual e material. Quando negativas, as
energias são energias que brigam entre si, desencaminhadas, perdidas num
labirinto, provocando os piores dos resultados para o ser humano.
Todos os seres viventes são possuidores de energias positivas e
negativas, e para que vivamos em harmonia estas energias precisam estar
em equilíbrio.
Quantos de nós já passamos ou assistimos episódios,
como o de ouvir falar de olho grande, seca pimenteira e outros
adjetivos, sempre estar relacionado a um nome, a uma pessoa, a um objeto
ou até mesmo a um espírito? Isso ocorre pela liberação de energias
negativas que, em muitos casos, sem mesmo que aquele que a possua tome
conhecimento. Algumas outras vicissitudes também são sintomas de
energias negativas: a inveja, o despeito, os preconceitos, as injurias,
as raivas, os instintos vingativos, os perjúrios, etc. Por vezes, estas
energias estão alinhavadas na vida de um indivíduo devido a uma
companhia espiritual que precisa de orientação, de caminhos e
esclarecimentos, dizem-se deles os tais “encostos”. Os espíritos que
assim procedem desconhecem seu estado, pois ainda não perceberam que não
mais pertencem ao universo dos seres vivos. Porém, existem também os
espíritos de boas energias, os espíritos protetores, os denominados
anjos da guarda, guias, mestres, Orixás, etc.
Nas várias culturas
espalhadas pela Terra, existem muitas denominações para um e outro
espírito, no entanto, o conteúdo das energias são as mesmas reconhecidas
nas várias religiões, que podem ser benéficas ou maléficas, positivas
ou negativas.
Algumas religiões, no entanto, possuem características
idênticas no tratamento e encaminhamento para alcançar o equilíbrio, tanto humanas quanto espirituais. A escolha de um dos
caminhos a ser seguido sempre deve ser com fé e esperança, pois é isso
que move o ser humano na busca do crescimento e do seu desenvolvimento.
O ser humano ainda não está de posse de um conhecimento para distinguir
determinados fenômenos que ocorrem com seu próprio corpo/espírito,
porém, além de muitos argumentos, o que é apresentado, são indivíduos
com algumas diferenças proporcionadas por uma diversidade de fatores.
Diz-se de alguns indivíduos que são mais receptivos a determinadas
energias, são os médiuns, indivíduos, que preparados ou não, podem
manter um elo dinâmico com energias e espíritos desencarnados.
No
entanto, uma das formas é a de um fenômeno que ocorre a incorporação
sem mesmo a existência de um agente provocador, ou seja: algum ritual
específico. Os espíritos desencarnados sempre procuram uma ligação com
tudo aquilo que deixaram para trás, ou seja: suas ansiedades, seus
desejos, seus erros, acertos e conceitos com os quais conviviam, mas,
principalmente suas “dívidas kármicas”, erros que consequentemente
precisam corrigir para o sucessivo desenvolvimento.
Como órgão
receptor o corpo de pessoas predispostas, os médiuns, passam a
servir de sustentação para uma energia “extracorpórea” e, quando
dominados por esses espíritos, passam a agir de conformidade a que cada
um se apresenta com seus arquétipos. Tais espíritos podem ser evoluídos
ou não. Os espíritos evoluídos incorporam com energias equilibradas,
pois, conscientes de suas missões, estão preparados e doutrinados para
cumpri-las. No caso dos espíritos não evoluídos, aqueles possuidores de
energias desequilibradas, apresentam-se com rebeldia e estão, como
poderíamos dizer, a deriva, perdidos, desencaminhados necessitando de
doutrina.
O Ser humano ainda tem muito que reconhecer de suas
origens espirituais, para só então, com precisão, poder definir sua
caminhada ao mundo desconhecido da sobrevivência e evolução espiritual.
Vivência e Crepúsculo dos deuses.
Na antiguidade o objetivo de todas as religiões era a de estimular os
indivíduos a ter um reencontro com um mundo subjetivo que, após a morte,
presumiam ocorrer outra vida em uma dimensão paralela ao mundo dos
viventes. Um julgamento da alma, no entanto, seria feito por deuses, no
qual benesses ou castigos iriam ser adotados conforme o peso dos erros e
acertos em vida terrena.
Este era o pensamento da maior parte dos
Seres humanos durante os milhares de anos, desde as primeiras
manifestações religiosas no antigo Egito. Com o surgimento do Cristianismo há dois mil anos, esta ideia foi reforçada.
No antigo
Egito, até mesmo os faraós, que eram considerados a encarnação de um
deus, depois de mortos eram julgados. O faraó tinha seu coração pesado
por Anúbis para verificar o peso, pois, nele estavam suas virtudes e
erros realizados em vida; caso o peso dos erros fossem maiores que o dos
acertos a alma seria destruída, porém, se os acertos tivessem sido
maiores a alma reencontraria a múmia de seu corpo.
Os babilônios,
após a morte, eram julgados por deuses tribais ou por Marduk, o deus
realizador e destruidor de vidas. Na Grécia, depois de uma comunhão
entre os deuses, Zeus tornou-se onipotente e passou a julgar todos os
mortais. Na antiga Roma todos os deuses eram juízes com poderes de
castigar ou absolver, tudo ficava na dependência de oferendas dos ainda
viventes, e todos eram vigiados pelos Manes, os guardiões da moral. No
mundo árabe os gênios comandavam a vida e a morte até o surgimento do
profeta Maomé com primícias de um inferno e um céu paraíso, revelações
feitas por anjos vindos do céu.
Enquanto as religiões ditas pagãs
evoluíram pra uma convivência filosófica, o mundo conhecido até então,
recebia de profetas mensagens de um deus único, Jeová. Chegava a era do Cristianismo primitivo, e com ele surgia também novos conceitos
religiosos. Mais tarde, as religiões e crenças se transformaram diante
de parábolas ditas por um salvador de almas e com promessas de vida
eterna. A espiritualidade no Ser humano aflorou diante de um
“sacrifício”, e a cruz de um calvário transformou todas as estruturas
religiosas até então apregoadas.
Porém, na Índia, território
longínquo para aquela época, continuava com seus deuses e sua filosofia
religiosa intocada e determinada pelos livros védicos. Deuses e humanos
conviviam juntamente em um universo profundamente místico, bem como
outras civilizações orientais. No Japão, o Budismo, dominou mentes e
corpos obedientes ao Sutra, livro sagrado, no qual determinava que as
almas em julgamento atravessassem um rio no sétimo dia após a morte e,
de acordo com a proporção de erros cometidos, demônios os atormentavam e
os encaminhavam à um inferno, porém, apenas aqueles que tinham
alcançado a “iluminação” desfrutariam de um paraíso com a possibilidade
de reencarnação.
Nas ilhas perdidas em um oceano chamado Pacífico,
os habitantes cultuavam deuses feitos em pedra, os grandes totens que
guardavam silenciosamente toda a religiosidade com conteúdo de
sacrifícios em oferenda, fazendo com que o vínculo mágico se
concentrasse entre as imagens e os antepassados que permaneciam
presentes em espírito. No grande arquipélago, tantas quantas ilhas
existissem, também eram o número de deuses cultuados, onde, feiticeiros e
xamãs atuavam através de espíritos consagradores das atividades
religiosas.
Nas ilhas Ciclades no mar Egeu, a religiosidade estava
impregnada de mitos sobre minotauros e deuses alados, deuses que podiam
castigar ou premiar as almas, porém, a deusa das serpentes assegurava a
ressurreição.
No Irã, o Masdeizmo apregoava um céu paraíso com a
morada da luz ou um inferno sombrio, onde as almas dos hereges
aguardariam pelo final do mundo, e os viventes continuariam a lutar com
espíritos malignos e a cultuar um deus da luz.
No Japão doze deuses
nasceram dando origem a um arquipélago, porém, somente três governaram o
mundo onde os homens nasceram por último, juntamente com os primeiros
imperadores, e uma ressurreição estava garantida a todos.
Pontilhadas, ainda no oceano Pacífico, em dezenas de ilhas, máscaras e
outros objetos representavam ancestrais em cultos aos mortos. As
esculturas representavam os entes-queridos idos, os quais espalhavam
proteção sobre os vivos, além de, também contarem com protetores
divinos. Tangaroa, o criador dos homens e dos deuses, tinha sua
representação com aparência humana, isto, quem sabe, para não haver um
distanciamento entre o sagrado e o profano.
Na antiga Germânia,
distante dos ventos quentes do pacífico a supervivência totêmica
reforçava o culto aos animais, além da crença em espíritos da natureza;
os elfos, trols, niksos, gnomos e outros deuses tribais, e Odin, deus
supremo, cercado pelas Valquirias, comandava tudo de um palácio
celestial onde recebia os mortos e os julgava, principalmente as almas
dos guerreiros.
No Cáucaso a religião era refletida nas ações dos
cultos familiares clãnicos, existindo até mesmo uma deusa protetora dos
afazeres femininos; porém, um deus protetor foi convertido em
antagonista do deus cristão, e com ele, conceitos de céu//inferno
prevaleceram.
Na civilização etrusca pouco era falado do
processo inferno/paraíso, pois, os sacerdotes impunham sob pena de
ameaças e sofrimentos terrenos, mais que esperanças de clemências.
Oferendas com sacrifícios humanos eram constates e quase sempre com
intenções de salvar um parente ou um amigo, e o sacrificado era quase
sempre um prisioneiro de guerra. Configurados aos deuses as divindades
etruscas permaneciam, porém, as forças espirituais comandavam os
destinos humanos, esta era a crença.
Na diversidade dos povos
americanos o misticismo dividia com as divindades a força das crenças,
porém, sacrifícios humanos e sangrentos eram feitos para aplacar a ira
dos deuses, mas nem por isso, todo o povo estava salvo, pois, feras
infernais consumiriam as almas dos desobedientes às leis, tanto sagradas
quanto humanas.
Alguns povos, no entanto, principalmente àqueles
que ainda não haviam mantido contato mais direto com outras
civilizações, continuaram a promover o paganismo tribal clânico, a
cultuar seus deuses e antepassados. E foi desta forma que a cultura
africana sobreviveu e conservou suas tradições religiosas. Imigrada para
outros continentes se adaptou, criou novos conceitos e deu origem à
muitas ramificações. Os deuses ,“Orixás”, energias elementais,
manifestam-se trazendo o axé, a força propulsora do Universo que é
distribuída a todos os Seres.
Hoje, comunidades revivem nos
cultos as danças e todos os mistérios dos deuses negros, porém, sem
revelar segredos fundamentais da religião, além de conservar a
filosofia, o encantamento e a religiosidade do “povo de santo”, como são
chamados seus adeptos e iniciados.
Características dos Seres espirituais – segundo o conceito yorubá.
No Universo etéreo onde a vida se desdobra em relação aos conceitos
criados pelo homem, uma infinidade de “Seres” coexiste em forma de
energia, não em energia medida, mas em energia plasmática. Neste reino,
denominado “reino espiritual”, o etéreo é um ilimitado espaço onde o
tempo não existe como fator de existência e sim como fator de equilíbrio
de espera para uma reciclagem (reencarnação) ou encaminhamento e
cumprimento de missão, neste caso os Guias. Neste ponto, valho-me dos
conceitos Nagô quando relativos aos Èguns* (*Égun – em yorubá - palavra
que pode definir: Espírito, osso, morto, cadáver), sabendo que Guias –
Caboclos, Pretos velhos, “Exus” - estão neste patamar de qualificação,
independente de suas atribuições ou qualquer outro conceito a eles
dados.
Estes Guias, por terem pertencido ao universo dos mortais,
continuam com suas características e suas individualidades, sejam
pessoais ou culturais quando estavam vivos, isso porque, alguns ainda
coabitam próximos ao universo material, mesmo sendo eles sabedores de
suas condições de espíritos. Podemos observar alguns procedimentos
quando se encontram incorporados em médiuns a darem suas consultas;
momentos em que utilizam objetos, materiais, cores, roupagens e tudo
mais que os faz recordar e conservar suas culturas, mas principalmente
suas individualidades como ainda estivessem vivos, além de seguirem uma
ordem hierárquica e obediência a um “escalão” superior, (escalão de
resgate e regentes nas diversas linhas), por isso são limitados, e seu
crescimento fica na dependência de “cumprimento de missões” ou mesmo em
reencarnações, períodos nos quais se desprendem dos egos de existências
terrenas; mas mesmo assim suas individualidades são preservadas para que
sejam reconhecidos como espíritos em evolução.
Da mesma forma isso
ocorre na vida corpórea, nela, todas as memórias acumuladas durante
milhões de anos de desenvolvimento humano, tornam-se memória coletiva de
todas as existências anteriores, no entanto, independente de todas as
existências o espírito permanece com sua individualidade, porém, muito
distante de um cérebro ou corpo primitivo.
Uma das
características marcantes nos “Guias” é a cultural, pois, a cultura da
ultima reencarnação é a mais marcante diante das condições de existência
e, mesmo quando temporariamente estão incorporados, signos e símbolos
permanecem anexados nas suas individualidades e que são acrescidas
daqueles que os regem no universo espiritual. Além disso, existem
incorporados a cada um deles, as cantigas, orações e toques de
instrumentos criados por estruturas religiosas, que passam a fazer parte
na individualidade de cada um e que permanece na “consciência distinta
ou consciência individual”. Portanto, a individualidade é uma constante
em todos os “Seres”, sejam materiais ou espirituais.
Uma das
grandes questões nas religiões é a não observância nesta questão;
dirigentes religiosos apelam para determinadas imposições para que tudo
seja aceito conforme suas determinações. Acham que estão procedendo
corretamente quando, no caso da Umbanda e do Candomblé, em iniciarem
“seus filhos” em determinados Orixás ou mesmo apontar direções sem mesmo
fazerem consultas mais profundas. Nasce então outra questão, a de
iniciar um médium erroneamente em um Orixá ou um Guia que nada tem há
ver com o indivíduo. Ora...! Sabemos que todo o processo de iniciação é
feito justamente para dar equilíbrio ao indivíduo para que o mesmo possa
desenvolver trabalhos espirituais. Qual resultado pode ser esperado
quando isso acontece?
Logicamente haverá um desequilíbrio, pois
afeta a individualidade daquele Ser e, além de afetar materialmente vai
também afetar espiritualmente as energias dos Guias ou, no caso do
candomblé, os Orixás e demais entidades que não irão corresponder,
havendo assim um desequilíbrio total afetando também o crescimento
daquelas entidades e, principalmente provocando uma “briga interna” nos
Oris, pois, cada Ori possui seu/sua patrono ou matrona. A importância da
Individualidade vai muito mais além de enredos figurados, vai além dos
sentidos humanos ou vontades pessoais, vai além dos valores impostos ou
criacionismos alegóricos.
Todos nós possuímos nossas vocações, além
delas somos, como acreditamos, em cumprimento de uma tarefa, uma missão
enquanto aqui estamos, missão essa que foi determinada em um universo
do qual denominamos “universo espiritual”. Assim como estamos aqui para
cumprir determinadas tarefas (tarefas individualizadas), “do outro lado”
há também aqueles que, para evoluir procuram através de resgates
cumprirem tarefas (também individualizadas); e esta é a missão de muitos
espíritos, uns mais evoluídos, outros menos. Por isso também a
existência de níveis aos quais os chamados Guias pertencem.
As ditas “linhas de atuação” não são mais nem menos que uma divisão de
níveis. Na linha dos ditos Exus isso é constante; alguns Éguns
pertencentes a esta linha e que estão em níveis de evolução tem a missão
de fazer resgates daqueles que estão perdidos; uma forma de ajuda em
colocar no caminho da luz espíritos desgarrados, os conhecidos kiumbas,
ou mesmo espíritos recém inclusos no universo paralelo. Porém,
igualmente ao lado de cá, o livre arbítrio também funciona do outro lado
da vida, nada é imposto, nada é articulado para que aqueles espíritos
aceitem ou não, apenas são mostrados os caminhos de um portal, ao qual
podemos denominá-lo de portal da regeneração ou de reconhecimento
espiritual e, a cada resgate feito, aquele que o resgatou fica
responsável pelo resgatado até o entendimento se fazer.
Por isso
muitos dos “Exus” possuem crescimento diferente de muitos outros que
ainda conservam resquícios de vidas totalmente profanas não aceitando
determinadas normas do equilíbrio. Estes, desvirtuados, apesar de terem
recebido “outra chance” preferiram permanecer na penumbra fazendo
promessas de poder e de resolver todos os problemas terrenos, geralmente
promessas mirabolantes com conceitos diabólicos, pois se acham capazes,
e a individualidade permanece numa teimosia em não aceitar um resgate
permanente para a evolução.
Em qualquer uma das formas de
existência, seja terrena ou espiritual a individualidade permanece;
podemos observar nas “entidades ou guias” seus comportamentos e suas
preferências, suas roupagens e seus hábitos culturais e, mesmo que
queiramos mudar alguma coisa, esses espíritos, quando incorporados não
aceitam, isso faz parte da individualidade.
Os conceitos criados
pelos homens diante ao imensurável universo espiritual fez com que
muitas das ditas entidades se afastassem do convívio terreno, desta
forma podemos analisar que um preto velho ou um caboclo deixou de
incorporar pelas inovações feitas na religião, principalmente na
Umbanda...e isso acontece também nos candomblés pelas formas “modernas”
de iniciação, pelos novos hábitos adquiridos pelos/as noviços/as com
consentimento dos ditos zeladores. Energias plasmáticas e energias
elementais possuem suas defesas, são individualidades com
características bem definidas, daí surgirem dificuldades em avaliar a
que Orixá pertence um ou outro neófito.
Podemos também observar a
individualidade nos Orixás. Cada um deles traz consigo suas
particularidades, suas cantigas, suas danças, suas roupagens, cores e
ferramentas distintas, alimentos de oferendas e em seus brados, e
principalmente quando de suas “feituras”. Nenhum deles possui
equivalências, são únicos em cada Ori e em seus assentamentos; vem daí a
criação das ditas “qualidades” que, confundidas com “caminhos do
Orixá”, permanecem de forma constante.
Portanto, tanto nos Orixás de
Nação quanto nas Entidades Guias da Umbanda, existe um diferencial nos
vários caboclos identificados com o mesmo nome, os mesmos pretos velhos,
ou os mesmos Orixás de Nação; por isso temos as várias Oxuns, as várias
Yansãs, os vários Xangôs e assim por diante. Da mesma forma temos na
Umbanda os vários Caboclos Sete Flecha, e os vários Tupinambás e outros.
O mesmo acontece com a linha de esquerda, como é conhecida. Os Exus e
Pombogiras também possuem suas individualidades, são vários Zé Pilintra,
são vários outros nomes, porém um é diferente do outro; cada um deles
possui suas individualidades, suas historias de vida e suas atribuições
determinadas por aqueles que os resgataram e que agora permanecem num
patamar de comando e na administração do universo espiritual.
Atentemo-nos para fatos individuais que poderemos colaborar em muito para as decisões coletivas.
A individualidade do “Ser”.
Algumas vezes nos deparamos com questionamentos sobre muitos dos
aspectos relacionados aos “espíritos”, sejam eles “Guias” de Umbanda, do
kardecismo ou mesmo aos Orixás do Candomblé (entendidos por muitos
também como espíritos). Muitas são as teorias chegando até mesmo a
envolver princípios científicos formalizando códigos matemáticos para
adentrar em um universo desconhecido e apartado do universo espiritual.
Todos os questionamentos poderiam ter respostas objetivas não fossem as
vaidades humana que, por questões de confiança entre “mestre” e
discípulo ainda não foi conquistada, e os velhos chavões religiosos
permanecem. Mas, na prática religiosa muito poucos são aqueles que
conseguem com seus mestres adquirir todo o conhecimento, é no caminhar
da vida que a experiência se faz, pois, eis aqui a individualidade, cada
um possui seus objetivos e seus aprendizados. Isso faz parte do “Ser”.
Quando nascemos uterinamente nossa individualidade material é única,
mesmo que estejamos agregados a outro corpo, aquele que nos gerou.
Porém, trazemos nesse nascimento toda uma estrutura formada por genes,
traços familiares que com o tempo de gestação vão se apresentar na
formação física do indivíduo; aí nascemos para a vida independente. Fora
do útero, crescemos e adquirimos personalidade e fazemos uma historia
individual, mesmo com todas as convivências sociais que nos cercam; mas,
mesmo que venhamos a sofrer influências de tais convivências, nossa
individualidade permanece na personalidade que desenvolvemos, pois
estamos também atrelados a fatores astrais e espirituais que são as
marcas registradas, como uma placa que identifica cada um de nós perante
o Mundo. Desta forma transmitimos pelo nosso semblante e de nossas
ações todas as virtudes, vicissitudes, vitórias, derrotas, angustias,
anseios e saberes, esta é a marca da nossa individualidade.
Nota de esclarecimento: É preciso que se entenda que toda essa
estrutura religiosa, em virtude de ser a África o berço onde tudo teve
início, veio durante milênios sofrendo um processo de miscigenação entre
tribos e nações; portanto, o Candomblé recebeu influência de muitos
povos daquele continente. É nessa diversidade de culturas que
encontramos as diferentes formas de culto dentro do próprio culto,
possuindo também a diversificação nas roupagens, nos coloridos, nas
cantigas, nos idiomas e na forma de cumprimentos. Isso, no entanto não
significa que haja diferenças significativas entre um ou outro templo.
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