domingo, 20 de julho de 2014

Apresentação - Caminhos das religiões.

                                                                 
Caminhos das religiões.

De alguma forma o Ser humano está, desde o inicio dos tempos ligado ao sagrado; A trajetória rumo ao sagrado sempre teve como objetivo principal o reencontro com a criação, com o subjetivo existente dentro de Si. E foram muitos os caminhos e muitas maneiras desenvolvidas. No início, rumo ao sagrado todas as religiões apegaram-se aos fenômenos da natureza, e com ela aprendeu que todos os Seres, animados ou inanimados possuem vida, Desta forma reconheceu que em tudo na natureza existe um principio ativo, ou seja, uma energia que rege o Universo; para muitos esta energia é denominada de Deus, Ser supremo que gera e comanda a tudo e a todos.
Todas as religiões estão conectadas a àquele Ser – divindade – que, por questões culturais se diferenciam nos dogmas, nas ações ritualísticas, nos objetos de culto, nos conceitos e tabus. Em fim, são apenas formas diferentes de se aproximar da divindade, isso porque, a própria divindade ou divindades, não diferenciam o conceito de crença ou fé.
As religiões que possuem conceitos espíritas se diferenciam nas formas que se apresentam, são religiões que possuem o principio da mediunidade, ou seja, o reconhecimento da existência de um paralelo entre a matéria e o espírito. Neste paralelo está o significado de um portal para um universo imaterial comandado por energias que, estudadas e compreendidas, tornam-se fatores de orientação na vida.
Assim como o Cristianismo, o Hinduísmo, o Budismo e outras religiões se difundiram pelo Mundo, a religiões espírita também tev seus caminhos. Aqui no Brasil o Espiritismo surgiu de forma importada através de alguns estudiosos.
Por razões culturais e uma miscigenação da população negra através dos escravos no Brasil Império, desenvolveram-se formas de cultos que passaram a ter um sincretismo com o catolicismo e, desta forma, os primeiros passos se deram para um posicionamento, e por fim o surgimento de templos nos quais passaram a ser cultuados àqueles deuses de origem africana, surgia assim o Candomblé. Mais tarde, com a evolução e maior divulgação do Espiritismo surgiram as primeiras casas de Umbanda. 

Há de se saber que tanto Candomblé quanto a Umbanda são religiões de origem africana, no entanto, o Candomblé se diferencia por apresentar um universo de culto aos deuses africanos, enquanto a Umbanda está mais próxima ao espiritismo. Isso, no entanto, não significa que tanto uma quanto outra não possuam uma relação com o sincretismo católico. Esta diferença está apenas no modo de se apresentarem e na forma de culto.
Evidentemente, por razões de não haver uma liderança, um comando como em outras religiões, cada templo, seja de Candomblé, Umbanda ou mesmo no Espiritismo, elas se diferenciam nas formas de direção, nas formas de posicionamentos em razão de haver em cada templo uma liderança independente; isto significa que em cada templo existe uma forma de diretriz. Isso, no entanto, não significa que haja diferenças na forma de culto, pois, os objetivos são os mesmos em todos os templos. 
Tanto no Candomblé quanto na Umbanda existem os atos de iniciação, para tanto, existem preparativos através de cultos específicos. Os indivíduos que optam em seguir o caminho religioso no Candomblé não são escolhidos aleatoriamente, são indivíduos que, por razões de uma determinada mediunidade graduada, optam pelo desenvolvimento para trabalhar sua espiritualidade na religião. Conforme o desenvolvimento se expande e, como essas religiões são “religiões de possessão”, passam a receber incorporações que no candomblé são denominados de Orixás. No entanto, na Umbanda, os Orixás são divindades também pertencentes ao culto, diferenciando-se apenas no tratamento, pois as divindades ou espíritos são denominados de Guias. 
Enquanto os Orixás no Candomblé estão alinhados aos processos da natureza, em termos ecológicos, para o desenvolvimento material e espiritual, a Umbanda está mais próxima ao desenvolvimento espiritual com atos e demonstrações de caridade. São dogmas diferentes apenas no tratamento com o sagrado. Por esta razão, elementos constituídos em uma não desclassificam a outra, e que, além disso, existe uma proximidade entre as duas religiões pelos motivos culturais.
A existência de altares com santos católicos nos templos de Umbanda estão relacionados aos conceitos cristãos que, por uma questão histórica de sincretismo, é perfeitamente entendido, pois, as relações com a religião predominante no passado, o cristianismo, impulsionou a crença tanto nos santos católicos quanto aos Orixás e Guias.

Significado da palavra candomblé.
O termo Candomblé pode ser definido com algumas variações. A primeira deriva de candombe, dança de negros executada nas senzalas no tempo da escravidão. Outra versão é a da relação existente com os tambores que, tocados com varetas ou com as mãos, produzem um som para a dança. Outra versão é a denominação Kandombile, cujo significado quer dizer culto e oração constituído de um modelo de religião que congrega sobrevivências étnicas da África. 
Outras versões existem, porém, estas são as mais conhecidas. 
O termo macumba está relacionado com as reuniões feitas pelos negros cumbas, negros feiticeiros e reconhecidos como indivíduos ruins, mas nada dessa definição corresponde a uma realidade histórica, é preciso muito estudo para entender as denominações e os verdadeiros propósitos de um linguajar escasso dos vários povos vindo de África para o Brasil. Daí a importância de um dicionário que esteja relacionado com a religião, pois, tanto o quimbundo, o umbundo e o ioruba, são compostos de muitos dialetos, os quais, mesmo pertencendo a uma mesma Nação, se diferenciam tanto no vocabulário quanto nas formas fonéticas.
A palavra candomblé também pode ser definida ou denominada como, significando mais especificamente, culto à Orixá, que para alguns neófitos corresponde aos deuses Africanos; para outros, no entanto, o culto tem significado mais amplo quando relacionado ao Ori (cabeça), e ainda para outros como seres divinizados, mas esse é outro tema. 
Alguns termos no linguajar usados nas casas de candomblé não guardam em nada do idioma original, isso devido a muitos desvios do próprio idioma, principalmente àqueles mais próximos ao português, assim como, também o idioma português abrasileirado foi muito influenciado por outros idiomas.
A comunicação entre membros do candomblé é dificultada pelas variações promovidas pela própria estrutura da religião em relação a cada Nação existente. No universo religioso, alguns vértices foram criados devido a dificuldades de aprendizado nos idiomas, pois, a forma de ensino ainda é a mesma usada em tempos antigos, ou seja, de boca a ouvido sem a devida interpretação, sentido e/ou da tradução.

Teosofia.
Dizem que a natureza é sábia. Uma árvore quando nasce seus galhos procuram sempre o caminho da luz, e ala cresce e desenvolve; quando não dá frutos produz sombra. E assim, como exemplo, todos nós temos uma missão na vida. O Universo nunca tira nada. Sempre se renova com as circunstâncias e sempre deixa uma “brecha” para tudo ter uma continuidade. Enquanto não cumprirmos a que viemos fazer nesta orbe não estaremos preparados para uma nova etapa.



                                    Entendendo o Candomblé e a Umbanda. 
                                                       Mito ou historia?

Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo, o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião. Todas as culturas humanas retrataram seus acontecimentos extraordinários através da mitologia, sempre para se fazerem entender nas relações, principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo do inconsciente e de suas crenças.
Personificados em formas humanas ou de animais os deuses e deusas permanecem no inconsciente humano como forma de fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas (gravuras em pedras), estátuas e nas pinturas sacras.
Esta foi a forma que o ser humano encontrou em todos os tempos para estar mais próximo ao sagrado; transformou ideias em objetos reais sacros, criou lendas, transformou ancestrais em deuses demiurgos e uniu-os aos deuses tribais transformando-os em figuras sincréticas, assim nasceu o mito.
Muitas das lendas são singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou grandes extensões de terra e, os deuses, com características idênticas, são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por um personagem maior, um deus superior.
A mitologia é uma forma espontânea, cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê, mas sente e transfere para si toda essa crença, e os caminhos percorridos pelos deuses passam a refletir nas características de cada indivíduo em cada uma das religiões.
Cada lenda é um tempo vivido, uma ação, um movimento feito pelo personagem, dando a ideia de uma transferência de conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao encontro com a realidade subjetiva que é a fé. 
As religiões afro-brasileiras são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos derivados das culturas advindas do continente africano, independentemente a que nação ou segmento pertença.
Nos rituais é que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, por vezes parecendo mesmo que em determinados momentos o culto se divide entre o sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças refletem um sentido profano. Feitas por seus adeptos formam um conjunto aprimorado, como se uma viajem ao passado fosse feita. A cada batida, com mãos ou varetas e a cada passo dado no bailar rememoram os caminhos percorridos pelos deuses africanos. 
O ponto principal de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no próprio indivíduo que, iniciado, passa a ter essa capacidade e, depois de celebradas, estas energias em voltam ao seu estado natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das várias “divindades astralizadas”. Nos bailados de Iemanjá os braços ondulam numa alusão as águas dos mares, mas também seus braços podem ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam aos primórdios do Universo, onde seria também a progenitora de todos os demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com Iemanjá, num patamar mitológico superior, está Oxalá, o Ar, o sopro de vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o Ser humano, e assim povoou todo o Planeta. 
Juntamente com Iemanjá e Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão, Exu, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o sentido da procriação; tornam-se assim um quadrunvirato da construção de todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
Oduwa, por não ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto independente, o culto às Yá mi. Da interação Terra/água, surge Nãnã, Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito do povo Nagô.
Os acontecimentos mitológicos são apenas representativos para entender toda a estrutura da religião quando baseados nos conceitos do povo Nagô, no entanto, todas as formulações ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações determinantes nos candomblés. 
Além dos Orixás primordiais, Iemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exu o fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas lendas são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como historias reais. 
Quando da criação da Terra, segundo o mito Nagô, em tempos imemoriais, nos ciclos milenares do desenvolvimento humano chegou a era dos metais e com ela uma divindade foi criada, Ogum, o deus das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar armas de guerra e ferramentas para a agricultura. Este, juntamente com Exu, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser humano reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas, substituiu a coleta pela produção de alimentos, Oxossi, o deus das matas, continuou a caçar e dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de trabalho; nos dias atuais a caça tornou-se uma alegoria, uma representação na evolução humana.
A descoberta dos sentimentos humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de criação de conceitos para sobrevivência; nascia assim o respeito pela gestação, e com ela, Oxum a deusa das águas doces e das nascentes que sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto, surgindo daí as Yá bás, as mães rainhas e zelosas dos castelos imaginários de um mundo mítico. 
Progressivamente a humanidade foi se adaptando no Planeta recém construído; surgiram outras divindades, pois, a cada passo, eram personificados deuses representativos. A natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e escravos. Novos deuses surgiam e reis foram divinizados e, neste cenário apareceu Xangô, o deus da justiça que, enlouquecido pelas barbáries, dele e de seus inimigos, conta a lenda ter se enforcado. Seus machados, cortantes nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a benevolência, do outro o castigo. 
Da interação – Oxossi/Oxum – nasceu Logum, energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado representando a renovação dos ciclos, das eras. Desta maneira, as águas da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè, e após os grandes dilúvios esta energia é que permite chuvas. Com ele, numa alegoria encantadora surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do Universo. Porém, essas transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e das guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também consagrada entre as deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nos vulcões.
Mas a renovação constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte de elementos, doença/saúde, bem e mau, conceitos de todas as vicissitudes são energias que devem ser depuradas e, desta forma, Obaluayé está presente; ele é o socorro, o médico do Planeta e de tudo que nele contém, é a energia produtora, tanto de pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as energias, como o ser humano. As folhas, ervas medicinais trazidas pela magia de Ossanhe, energia completa, complexa e diversificada ao mesmo tempo, é de onde laboratórios modernos retiram as substancias medicamentosas.
...E todas essas energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos, particularidades que agregam ao ser humano quando do nascimento, acompanhando-o até a devolução de todas as substâncias na morte à Mãe Terra.
Para representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza e dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa, os Orixás se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração, envolve a assistência num retorno aos primórdios tempos, reinterpretando toda uma história, mitos e sentimentos, é quando a ancestralidade se permite em estar presente.
Nos movimentos das danças é que são interpretados, de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e as turbulências das águas estão nos braços e requebros de Iemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxum. Os raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos, quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará, numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogum estão alegorias de guerras e de batalhas vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxossi lança suas flechas dando direção à fartura. No resplandecer das mudanças bruscas do tempo dos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossanhe. Na direção dada por Oxumarè apontando o caminho das águas pelo arco íris. - Nos movimentos tectônicos da energia do Planeta está Obá, a deusa que respira pelos vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nãnã, devido ao tempo de existência. No ritmo atenuado do tempo, como as nuvens da paz e um telhado branco por sobre as cabeças, Oxalá caminha sobre a Terra ou no infinito Universo e, Exu provocador de todos os movimentos, é o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olímpo dos deuses africanos, os deuses do candomblé. 
Mas não só toda essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações consagradas aos deuses africanos, aos Orixás, que desta forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano. 
A crença nesta forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um DNA espiritual, que, passivamente e através de ritos apropriados devem ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí, o caminho religioso no Candomblé ou na Umbanda torna-se uma opção.

Teosofia no Candomblé.
Como forma primária do pensamento, transmitida pela crença e pela fé foi criada toda iconografia nas religiões, nos templos é que são observadas constantes criações. Seja na roupagem ou até mesmo nas formulações de ritos, imprimi nos neófitos uma mensagem no subconsciente que transforma-se em legitimidade no poder que produziu seu caráter nas diversas formas de alcançar o sagrado.
As gerações destas iconografias passam ideias como uma conexão com alguma divindade, dando ao sacerdote uma natureza dual, o de ser um comunicador entre o mundo divino e o terreno.
O simbolismo no candomblé representa uma forma primária do pensamento imprimindo uma mensagem na consciência de seus adeptos. O uso da iconografia, textos, oráculos e demais elementos na criação dos mitos e ritos, legitimou e poder o que deu à Xangô a dualidade de um poder, elevando-o à categoria de um deus, passou desta forma fazer parte na teogonia universal sem perder seu status de monarca.
Para que os seres humanos possam viver bem neste mundo é preciso estar bem com os deuses, por isso, os Orixás são propiciados com um pouco de tudo que é produzido e que seja essencial à vida, as oferendas aos Orixás devem ser transportadas até o Orún, e é Orixá Exu que tem esse encargo, o de transportador. Também é preciso saber se os Orixás estão satisfeitos com a atenção a eles dispensada por seus ofertantes. Orixá Exu é quem propicia essa comunicação levando e trazendo mensagens. Além de transportador ele é o mensageiro.  É fundamental para a sobrevivência dos mortais receberem as determinações e os conselhos que os Orixás enviam para o Ayê, a Terra. Exu é o portador das orientações e ordens, é o porta-voz dos Orixás fazendo uma ponte entre o mundo dos seres humanos e o mundo dos Orixás, especialmente nas consultas aos oráculos. E como os Orixás interferem em tudo o que ocorre neste mundo, incluindo o cotidiano dos viventes e os fenômenos da própria natureza, nada acontece sem o trabalho intermediário do mensageiro e transportador Exu. Nada se faz sem ele, nenhuma mudança, nem mesmo uma repetição. Sua presença está consignada até mesmo no primeiro ato da Criação: sem Exu nada é possível. O poder de Exu, portanto, é incomensurável.
Toda e qualquer forma de ritual de oferenda, é o meio através do qual os humanos se dirigem aos Orixás, as oferendas significam a reafirmação dos laços de lealdade, solidariedade e retribuição entre os habitantes do Ayê e os habitantes do Orún. Sempre que um Orixá é interpelado Exu também o é, pois, a interpelação de todos se faz através dele. É preciso que ele receba a oferenda, sem a qual a comunicação não se realiza. A relação homem/Orixá tem como fundamento a materialidade da oferenda, a concretude do ato. Isso é uma definição religiosa, um ponto de partida essencial na concepção africana do sagrado. A própria possibilidade de professar a religião fundamentada aos Orixás, seja na África, no Brasil, ou noutro lugar, depende, pois, do trabalho de Exu. 
Como mensageiro Exu tudo sabe, não há segredos para ele, tudo ele ouve e tudo ele transmite, pois conhece todas as receitas, todas as fórmulas e todas as magias. Exu trabalha para todos, não faz distinção entre aqueles a quem deve prestar serviço, isso, por imposição de seu cargo, o que inclui todos os humanos, divindades e antepassados. Exu não pode ter preferência por esse ou aquele em qualquer aspecto. Mas talvez o que o distingue de todos os outros Orixás é seu caráter de transformador. Exu é aquele que tem o poder de quebrar tradições, pôr as regras em questão, romper a norma e promover mudanças. Não é, pois, de se estranhar que seja temido e considerado perigoso, pois se trata do próprio princípio do movimento que tudo transforma e que não respeita limites. Assim, tudo o que contraria as normas sociais que regulam o cotidiano passa a ser atributo de Exu. Exu carrega consigo qualificações morais e intelectuais próprias do responsável pela manutenção e funcionamento do “status quo”, inclusive representando o princípio da continuidade garantida pela sexualidade e reprodução humana, mas, ao mesmo tempo que ele é o inovador que fere as tradições, é um ente nada confiável que, por conseguinte, ser dotado de caráter instável, duvidoso, interesseiro, turbulento e arrivista se contrariado.
Na antiguidade, para o povo africano tradicional, nada era mais importante do que ter uma prole numerosa, e para garanti-la era preciso ter muitas esposas e uma vida sexual regular e profícua. Era preciso gerar muitos filhos, de modo que nessas culturas antigas, o sexo tinha um sentido social que envolvia a própria ideia de garantia da sobrevivência coletiva e perpetuação das linhagens, clãs e cidades. Exu é o patrono da cópula, que gera filhos e garante a continuidade do povo e a eternidade do homem.
É da relação íntima com a reprodução e a sexualidade, tão explicitadas pelos símbolos fálicos que o representam, que decorre a construção mítica do gênio libidinoso, lascivo, carnal e desregrado de Exu-Elegbara.
Isso tudo contribuiu enormemente para modelar sua imagem estereotipada de Orixá difícil e perigoso que os cristãos erroneamente reconheceram como demoníaca a religião dos povos africanos e que veio a ser praticada no Brasil do século XIX por negros que eram também católicos, à partir daí, todo o sistema cristão de pensar o mundo em termos do bem e do mal deu um novo formato à religião africana, na qual, Exu veio a desempenhar outro papel que, na forma sincrética pelos seus aspectos foi confundido e identificado com o demônio, com o diabo católico cristão. 
Pensam os que se acostumaram a ver os Orixás numa perspectiva cristã (imposta pelo catolicismo e hoje reforçada pelo evangelismo), que Exu deve ser homenageado em primeiro lugar para não provocar confusão, para não bagunçar a cerimônia, como se ele fosse um simples e oportunista arruaceiro. Esta é uma visão bem simplista e demasiadamente falsa.
Ora, Exu é antes de tudo movimento e nada pode acontecer sem ele, portanto, nada ocorre sem a interferência de Exu, por isso ele é sempre o primeiro a ser homenageado, é preciso permitir o movimento para que o evento, seja ele qual for, se realize. Esse movimento não é dotado de moralidade, nem poderia ser, pois se assim fosse o mundo ficaria paralisado. A vida é um pulsar permanente e, em cada passo, em cada avanço ou retrocesso, em cada mudança, enfim, Exu está presente. Tudo começa por ele, por isso ele será sempre o primeiro a ser propiciado. 
Em todos os momentos da vida daqueles que cultuam Orixá, a Terra é o elemento mais importante a ser reverenciada, em consequência disso, a pedra, fruto de uma condensação do magma, quando de sua desagregação, produz as partículas formadoras de um microcosmo, no qual, se assentam todas as crenças ancestrais.
Essa singularidade pode ser reconhecida na gênese do povo yoruba. Olodumare, após tempos imemoriais de inércia resolveu criar o mundo, e sua primeira criação foi a pedra chamada por ele de Exu Yangi que, posteriormente recebeu o nome de Exu Obásim cultuado até os dias atuais em Ilê Ifé.
Todo Orixá tem que, obrigatoriamente, ser “assentado” juntamente com uma pedra ou material que dela tenha vindo, ou seja: como exemplo, temos o ferro existente no assentamento de Ogum que, após uma transmutação material transforma-se de pedra em ferro e que dessa forma podemos dizer que Ogum é assentado em uma pedra.
Um dos aspectos relacionado a pedra é que o corpo humano é composto de vários elementos, e entre eles, um dos mais importantes é o barro modelado por Ajalá, onde, posteriormente é inserido por Obatalá o Bára, o Exu do movimento. De grande importância e relacionado com a Terra é o Ikomojade, imposição de nome ou batismo, ritual ainda existente na África por alguns povos, nele o pai pega a criança e coloca o pé dela sobre o solo de terra fofa, recitando um verso de Ifá especialmente preparada para o momento. 

Desmistificação:
A historia possibilita reconhecer muitos fatos, e um deles a respeito da figura mítica de Exu são os fatos que existiram no passado. 
Na Mesopotâmia onde a religião sempre foi ligada com demonologia influenciou outros povos, como os hebreus, gregos, romanos, e principalmente cristãos, e ela sobrevive, pois, constantemente houve-se falar em rituais satânicos promovidos por seitas não reconhecidas pela sociedade num todo.
A cultura do povo meso-religioso possuía a crença que todos os males e imperfeições da vida não advinham de catástrofes naturais, mas sim de demônios. No entanto, os sacerdotes para combater as forças do mal possuíam conhecimentos mágicos que usavam para a luta, e para isso, também faziam grandes listas nominativas dos ditos demônios. Os demônios eram conhecidos pelo nome de Utuku que possuía mais sete demônios subordinados e se dividiam em machos e fêmeas. Tinham forma meio humana e meio animal. Descritos por historiadores, a cintura e as pernas eram de uma cabra e nas mãos garras mortais. Aqueles demônios exigiam sacrifícios humanos, porém, com a fome de sangue aceitavam também o sangue dos animais. Estes demônios frequentavam os túmulos, caminhos com encruzilhadas e lugares ermos, sempre no período da noite. 

Da pedra à pedra.
A ação repressiva dos cristãos europeus e posteriormente latino-americanos sobre os africanos, escravos e seus descendentes, forjou o sincretismo entre Orixás e os Santos Católicos, consequentemente Exu passou a ser o diabo cristão na sua forma teológica mais primitiva.
Assim sendo, a ideia de um Exu reelaborado pelos cristãos e essencialmente maléfico e tenebroso é inconcebível na teologia e no cosmo-visão yoruba que não tem um inferno declarado, e os homens não são punidos a post-mortem, muito embora, existam lendas e mitos populares onde Exu é retratado como manhoso e trapaceiro ou encrenqueiro. No entanto, se Exu for reverenciado com o ébó designado nada disso será verdadeiro e a sua suposta imagem de malignidade, decorrente dessas lendas, cairá por terra.
Na verdade, Exu é o “executor divino”, punindo aqueles que descumprem o sacrifício prescrito, recompensando aqueles que o fazem. Ele nada faz por conta própria e está sempre servindo de elemento de ligação entre Olorun e Orunmila, ou então servindo aos Orixás.
Segundo a Teologia yoruba, nenhum ser divino pode punir um Ara Ayé, "ser da Terra", diretamente sem a consulta a Olodumare.
Diversos Itan Ifá (contos de Ifá) nos dão conta que Exu também é encarregado por Olorun para vigiar os Orixás no Ayé. Isso só pode ser feito porque ele é imparcial no seu papel de executor divino.
É por isso que todos os devotos de todos os Orixás fazem oferendas para Exu, por recomendação de Ifá nos tempos de dificuldades, buscando dessa forma sua intermediação com Olodumare.
E, para que os Babalorixá não se excedam ou mintam na prescrição dos ébó, o próprio Exu, na qualidade de Odusó, sempre estará presente nos jogos divinatórios, cuidando para que o Iwá, "caráter" do consulente e do Babalawo não sejam maculados.
Exu reporta-se diretamente a Olorun e mantém um inter relacionamento com os Orixás e também com os Egungun, "ancestrais". Ele não é vingativo e nada executa por sua própria conta, apenas cumpre fielmente as ordens de Olorun conforme os ditames do Iwá contido no Ori individual, destino escolhido por cada Ori no Ipori Orun.

Do conceito de Energias Elementais.
Para entender melhor todas essas energias, pode-se dizer que elas fazem parte integrante do espírito humano que, consubstanciadas a energia dos Orixás, como uma força Elemental, está também na dependência do aspecto racional e emocional a cada Ser, pois, o espírito humano como forma de energia pode, em determinadas circunstâncias, apresentar positividade ou negatividade. 

Energias transmutadas em espíritos.
...E todas essas energias “espirituais” passaram estão a fazer parte integrante e ao redor de todos os seres viventes, porém, podendo estar encerradas em seus corpos de maneira desequilibrada, daí os dizeres de mau agouro, de intervenções doentias e descaminho na vida. Este fato, evidência, crença ou descrença, está baseada em conceitos religiosos e/ou por convicções da ciência. 
Não só para a vida material, mas principalmente para a vida espiritual, é necessário que as energias estejam em equilíbrio permanente e, é através de uma manifestação de desejo e fé, independente de religião, que o ser humano consegue a plenitude das realizações pessoais ou coletivas. 
Todos os rituais ou consagrações à algum deus, santo, entidade espiritual, ou um ser extraordinário mitológico estão sempre associados a gestos, palavras e orações funcionando como indutores e/ou expansões daquelas energias com finalidade de promover algum fenômeno extra corpóreo. 
As energias espirituais são recebidas como herança genética que passa a integrar corpo e mente dando ao indivíduo os arquétipos, índoles, ou até mesmo o que se pode chamar de destino humano influenciando também nas características individuais. A espiritualidade é sempre desenvolvida por vontade própria ou pela própria evolução determinada por aquela genética espiritual, que no caso, não precisa de uma interferência de conceito religioso ou de qualquer outra doutrina. No entanto, é necessário que haja o reconhecimento do indivíduo da existência de tais forças para que sejam lapidadas e tratadas para alcançar o equilíbrio necessário. 
De certa forma, o ser humano consegue controlar as forças espirituais criadas por ele próprio desde quando criou aqueles deuses mitológicos, principio de todas as crenças e religiões, às quais foram transmutadas por uma gnose coletiva resultando na fé individual.
No universo espiritual ou universo paralelo ao material, encontram-se os deuses, anjos, santos, entidades iluminadas, entidades guias e muitos outros, existindo ainda a crença em gnomos, fadas, sereias e ondinas, muitos deles, representam em culturas distintas os seres da vida pós vida. Estes seres são constituídos de energias, podendo, no entanto, serem positivas ou negativas. Mas, incontestavelmente, as energias do próprio Ser humano é que pode interferir para o bem ou para os malefícios dele próprio ou de outrem.
As energias quando positivas são energias benéficas, aquelas que fazem todos os indivíduos se irmanarem, cada um passa a ser um elo de uma corrente, tornando-se desta forma uma comunidade benfazeja com objetivos claros de crescimento e desenvolvimento humano, espiritual e material. Quando negativas, as energias são energias que brigam entre si, desencaminhadas, perdidas num labirinto, provocando os piores dos resultados para o ser humano.
Todos os seres viventes são possuidores de energias positivas e negativas, e para que vivamos em harmonia estas energias precisam estar em equilíbrio.
Quantos de nós já passamos ou assistimos episódios, como o de ouvir falar de olho grande, seca pimenteira e outros adjetivos, sempre estar relacionado a um nome, a uma pessoa, a um objeto ou até mesmo a um espírito? Isso ocorre pela liberação de energias negativas que, em muitos casos, sem mesmo que aquele que a possua tome conhecimento. Algumas outras vicissitudes também são sintomas de energias negativas: a inveja, o despeito, os preconceitos, as injurias, as raivas, os instintos vingativos, os perjúrios, etc. Por vezes, estas energias estão alinhavadas na vida de um indivíduo devido a uma companhia espiritual que precisa de orientação, de caminhos e esclarecimentos, dizem-se deles os tais “encostos”. Os espíritos que assim procedem desconhecem seu estado, pois ainda não perceberam que não mais pertencem ao universo dos seres vivos. Porém, existem também os espíritos de boas energias, os espíritos protetores, os denominados anjos da guarda, guias, mestres, Orixás, etc. 
Nas várias culturas espalhadas pela Terra, existem muitas denominações para um e outro espírito, no entanto, o conteúdo das energias são as mesmas reconhecidas nas várias religiões, que podem ser benéficas ou maléficas, positivas ou negativas.
Algumas religiões, no entanto, possuem características idênticas no tratamento e encaminhamento para alcançar o equilíbrio, tanto humanas quanto espirituais. A escolha de um dos caminhos a ser seguido sempre deve ser com fé e esperança, pois é isso que move o ser humano na busca do crescimento e do seu desenvolvimento.
O ser humano ainda não está de posse de um conhecimento para distinguir determinados fenômenos que ocorrem com seu próprio corpo/espírito, porém, além de muitos argumentos, o que é apresentado, são indivíduos com algumas diferenças proporcionadas por uma diversidade de fatores. Diz-se de alguns indivíduos que são mais receptivos a determinadas energias, são os médiuns, indivíduos, que preparados ou não, podem manter um elo dinâmico com energias e espíritos desencarnados.
No entanto, uma das formas é a de um fenômeno que ocorre a incorporação sem mesmo a existência de um agente provocador, ou seja: algum ritual específico. Os espíritos desencarnados sempre procuram uma ligação com tudo aquilo que deixaram para trás, ou seja: suas ansiedades, seus desejos, seus erros, acertos e conceitos com os quais conviviam, mas, principalmente suas “dívidas kármicas”, erros que consequentemente precisam corrigir para o sucessivo desenvolvimento. 
Como órgão receptor o corpo de pessoas predispostas, os médiuns, passam a servir de sustentação para uma energia “extracorpórea” e, quando dominados por esses espíritos, passam a agir de conformidade a que cada um se apresenta com seus arquétipos. Tais espíritos podem ser evoluídos ou não. Os espíritos evoluídos incorporam com energias equilibradas, pois, conscientes de suas missões, estão preparados e doutrinados para cumpri-las. No caso dos espíritos não evoluídos, aqueles possuidores de energias desequilibradas, apresentam-se com rebeldia e estão, como poderíamos dizer, a deriva, perdidos, desencaminhados necessitando de doutrina. 
O Ser humano ainda tem muito que reconhecer de suas origens espirituais, para só então, com precisão, poder definir sua caminhada ao mundo desconhecido da sobrevivência e evolução espiritual. 

Vivência e Crepúsculo dos deuses. 
Na antiguidade o objetivo de todas as religiões era a de estimular os indivíduos a ter um reencontro com um mundo subjetivo que, após a morte, presumiam ocorrer outra vida em uma dimensão paralela ao mundo dos viventes. Um julgamento da alma, no entanto, seria feito por deuses, no qual benesses ou castigos iriam ser adotados conforme o peso dos erros e acertos em vida terrena.
Este era o pensamento da maior parte dos Seres humanos durante os milhares de anos, desde as primeiras manifestações religiosas no antigo Egito. Com o surgimento do Cristianismo há dois mil anos, esta ideia foi reforçada.
No antigo Egito, até mesmo os faraós, que eram considerados a encarnação de um deus, depois de mortos eram julgados. O faraó tinha seu coração pesado por Anúbis para verificar o peso, pois, nele estavam suas virtudes e erros realizados em vida; caso o peso dos erros fossem maiores que o dos acertos a alma seria destruída, porém, se os acertos tivessem sido maiores a alma reencontraria a múmia de seu corpo. 
Os babilônios, após a morte, eram julgados por deuses tribais ou por Marduk, o deus realizador e destruidor de vidas. Na Grécia, depois de uma comunhão entre os deuses, Zeus tornou-se onipotente e passou a julgar todos os mortais. Na antiga Roma todos os deuses eram juízes com poderes de castigar ou absolver, tudo ficava na dependência de oferendas dos ainda viventes, e todos eram vigiados pelos Manes, os guardiões da moral. No mundo árabe os gênios comandavam a vida e a morte até o surgimento do profeta Maomé com primícias de um inferno e um céu paraíso, revelações feitas por anjos vindos do céu. 
Enquanto as religiões ditas pagãs evoluíram pra uma convivência filosófica, o mundo conhecido até então, recebia de profetas mensagens de um deus único, Jeová. Chegava a era do Cristianismo primitivo, e com ele surgia também novos conceitos religiosos. Mais tarde, as religiões e crenças se transformaram diante de parábolas ditas por um salvador de almas e com promessas de vida eterna. A espiritualidade no Ser humano aflorou diante de um “sacrifício”, e a cruz de um calvário transformou todas as estruturas religiosas até então apregoadas.
Porém, na Índia, território longínquo para aquela época, continuava com seus deuses e sua filosofia religiosa intocada e determinada pelos livros védicos. Deuses e humanos conviviam juntamente em um universo profundamente místico, bem como outras civilizações orientais. No Japão, o Budismo, dominou mentes e corpos obedientes ao Sutra, livro sagrado, no qual determinava que as almas em julgamento atravessassem um rio no sétimo dia após a morte e, de acordo com a proporção de erros cometidos, demônios os atormentavam e os encaminhavam à um inferno, porém, apenas aqueles que tinham alcançado a “iluminação” desfrutariam de um paraíso com a possibilidade de reencarnação.
Nas ilhas perdidas em um oceano chamado Pacífico, os habitantes cultuavam deuses feitos em pedra, os grandes totens que guardavam silenciosamente toda a religiosidade com conteúdo de sacrifícios em oferenda, fazendo com que o vínculo mágico se concentrasse entre as imagens e os antepassados que permaneciam presentes em espírito. No grande arquipélago, tantas quantas ilhas existissem, também eram o número de deuses cultuados, onde, feiticeiros e xamãs atuavam através de espíritos consagradores das atividades religiosas. 
Nas ilhas Ciclades no mar Egeu, a religiosidade estava impregnada de mitos sobre minotauros e deuses alados, deuses que podiam castigar ou premiar as almas, porém, a deusa das serpentes assegurava a ressurreição.
No Irã, o Masdeizmo apregoava um céu paraíso com a morada da luz ou um inferno sombrio, onde as almas dos hereges aguardariam pelo final do mundo, e os viventes continuariam a lutar com espíritos malignos e a cultuar um deus da luz.
No Japão doze deuses nasceram dando origem a um arquipélago, porém, somente três governaram o mundo onde os homens nasceram por último, juntamente com os primeiros imperadores, e uma ressurreição estava garantida a todos. 
Pontilhadas, ainda no oceano Pacífico, em dezenas de ilhas, máscaras e outros objetos representavam ancestrais em cultos aos mortos. As esculturas representavam os entes-queridos idos, os quais espalhavam proteção sobre os vivos, além de, também contarem com protetores divinos. Tangaroa, o criador dos homens e dos deuses, tinha sua representação com aparência humana, isto, quem sabe, para não haver um distanciamento entre o sagrado e o profano.
Na antiga Germânia, distante dos ventos quentes do pacífico a supervivência totêmica reforçava o culto aos animais, além da crença em espíritos da natureza; os elfos, trols, niksos, gnomos e outros deuses tribais, e Odin, deus supremo, cercado pelas Valquirias, comandava tudo de um palácio celestial onde recebia os mortos e os julgava, principalmente as almas dos guerreiros.
No Cáucaso a religião era refletida nas ações dos cultos familiares clãnicos, existindo até mesmo uma deusa protetora dos afazeres femininos; porém, um deus protetor foi convertido em antagonista do deus cristão, e com ele, conceitos de céu//inferno prevaleceram. 
Na civilização etrusca pouco era falado do processo inferno/paraíso, pois, os sacerdotes impunham sob pena de ameaças e sofrimentos terrenos, mais que esperanças de clemências. Oferendas com sacrifícios humanos eram constates e quase sempre com intenções de salvar um parente ou um amigo, e o sacrificado era quase sempre um prisioneiro de guerra. Configurados aos deuses as divindades etruscas permaneciam, porém, as forças espirituais comandavam os destinos humanos, esta era a crença.
Na diversidade dos povos americanos o misticismo dividia com as divindades a força das crenças, porém, sacrifícios humanos e sangrentos eram feitos para aplacar a ira dos deuses, mas nem por isso, todo o povo estava salvo, pois, feras infernais consumiriam as almas dos desobedientes às leis, tanto sagradas quanto humanas.
Alguns povos, no entanto, principalmente àqueles que ainda não haviam mantido contato mais direto com outras civilizações, continuaram a promover o paganismo tribal clânico, a cultuar seus deuses e antepassados. E foi desta forma que a cultura africana sobreviveu e conservou suas tradições religiosas. Imigrada para outros continentes se adaptou, criou novos conceitos e deu origem à muitas ramificações. Os deuses ,“Orixás”, energias elementais, manifestam-se trazendo o axé, a força propulsora do Universo que é distribuída a todos os Seres. 
Hoje, comunidades revivem nos cultos as danças e todos os mistérios dos deuses negros, porém, sem revelar segredos fundamentais da religião, além de conservar a filosofia, o encantamento e a religiosidade do “povo de santo”, como são chamados seus adeptos e iniciados. 

Características dos Seres espirituais – segundo o conceito yorubá.
No Universo etéreo onde a vida se desdobra em relação aos conceitos criados pelo homem, uma infinidade de “Seres” coexiste em forma de energia, não em energia medida, mas em energia plasmática. Neste reino, denominado “reino espiritual”, o etéreo é um ilimitado espaço onde o tempo não existe como fator de existência e sim como fator de equilíbrio de espera para uma reciclagem (reencarnação) ou encaminhamento e cumprimento de missão, neste caso os Guias. Neste ponto, valho-me dos conceitos Nagô quando relativos aos Èguns* (*Égun – em yorubá - palavra que pode definir: Espírito, osso, morto, cadáver), sabendo que Guias – Caboclos, Pretos velhos, “Exus” - estão neste patamar de qualificação, independente de suas atribuições ou qualquer outro conceito a eles dados. 
Estes Guias, por terem pertencido ao universo dos mortais, continuam com suas características e suas individualidades, sejam pessoais ou culturais quando estavam vivos, isso porque, alguns ainda coabitam próximos ao universo material, mesmo sendo eles sabedores de suas condições de espíritos. Podemos observar alguns procedimentos quando se encontram incorporados em médiuns a darem suas consultas; momentos em que utilizam objetos, materiais, cores, roupagens e tudo mais que os faz recordar e conservar suas culturas, mas principalmente suas individualidades como ainda estivessem vivos, além de seguirem uma ordem hierárquica e obediência a um “escalão” superior, (escalão de resgate e regentes nas diversas linhas), por isso são limitados, e seu crescimento fica na dependência de “cumprimento de missões” ou mesmo em reencarnações, períodos nos quais se desprendem dos egos de existências terrenas; mas mesmo assim suas individualidades são preservadas para que sejam reconhecidos como espíritos em evolução.
Da mesma forma isso ocorre na vida corpórea, nela, todas as memórias acumuladas durante milhões de anos de desenvolvimento humano, tornam-se memória coletiva de todas as existências anteriores, no entanto, independente de todas as existências o espírito permanece com sua individualidade, porém, muito distante de um cérebro ou corpo primitivo. 
Uma das características marcantes nos “Guias” é a cultural, pois, a cultura da ultima reencarnação é a mais marcante diante das condições de existência e, mesmo quando temporariamente estão incorporados, signos e símbolos permanecem anexados nas suas individualidades e que são acrescidas daqueles que os regem no universo espiritual. Além disso, existem incorporados a cada um deles, as cantigas, orações e toques de instrumentos criados por estruturas religiosas, que passam a fazer parte na individualidade de cada um e que permanece na “consciência distinta ou consciência individual”. Portanto, a individualidade é uma constante em todos os “Seres”, sejam materiais ou espirituais.
Uma das grandes questões nas religiões é a não observância nesta questão; dirigentes religiosos apelam para determinadas imposições para que tudo seja aceito conforme suas determinações. Acham que estão procedendo corretamente quando, no caso da Umbanda e do Candomblé, em iniciarem “seus filhos” em determinados Orixás ou mesmo apontar direções sem mesmo fazerem consultas mais profundas. Nasce então outra questão, a de iniciar um médium erroneamente em um Orixá ou um Guia que nada tem há ver com o indivíduo. Ora...! Sabemos que todo o processo de iniciação é feito justamente para dar equilíbrio ao indivíduo para que o mesmo possa desenvolver trabalhos espirituais. Qual resultado pode ser esperado quando isso acontece?
Logicamente haverá um desequilíbrio, pois afeta a individualidade daquele Ser e, além de afetar materialmente vai também afetar espiritualmente as energias dos Guias ou, no caso do candomblé, os Orixás e demais entidades que não irão corresponder, havendo assim um desequilíbrio total afetando também o crescimento daquelas entidades e, principalmente provocando uma “briga interna” nos Oris, pois, cada Ori possui seu/sua patrono ou matrona. A importância da Individualidade vai muito mais além de enredos figurados, vai além dos sentidos humanos ou vontades pessoais, vai além dos valores impostos ou criacionismos alegóricos. 
Todos nós possuímos nossas vocações, além delas somos, como acreditamos, em cumprimento de uma tarefa, uma missão enquanto aqui estamos, missão essa que foi determinada em um universo do qual denominamos “universo espiritual”. Assim como estamos aqui para cumprir determinadas tarefas (tarefas individualizadas), “do outro lado” há também aqueles que, para evoluir procuram através de resgates cumprirem tarefas (também individualizadas); e esta é a missão de muitos espíritos, uns mais evoluídos, outros menos. Por isso também a existência de níveis aos quais os chamados Guias pertencem. 
As ditas “linhas de atuação” não são mais nem menos que uma divisão de níveis. Na linha dos ditos Exus isso é constante; alguns Éguns pertencentes a esta linha e que estão em níveis de evolução tem a missão de fazer resgates daqueles que estão perdidos; uma forma de ajuda em colocar no caminho da luz espíritos desgarrados, os conhecidos kiumbas, ou mesmo espíritos recém inclusos no universo paralelo. Porém, igualmente ao lado de cá, o livre arbítrio também funciona do outro lado da vida, nada é imposto, nada é articulado para que aqueles espíritos aceitem ou não, apenas são mostrados os caminhos de um portal, ao qual podemos denominá-lo de portal da regeneração ou de reconhecimento espiritual e, a cada resgate feito, aquele que o resgatou fica responsável pelo resgatado até o entendimento se fazer.
Por isso muitos dos “Exus” possuem crescimento diferente de muitos outros que ainda conservam resquícios de vidas totalmente profanas não aceitando determinadas normas do equilíbrio. Estes, desvirtuados, apesar de terem recebido “outra chance” preferiram permanecer na penumbra fazendo promessas de poder e de resolver todos os problemas terrenos, geralmente promessas mirabolantes com conceitos diabólicos, pois se acham capazes, e a individualidade permanece numa teimosia em não aceitar um resgate permanente para a evolução.
Em qualquer uma das formas de existência, seja terrena ou espiritual a individualidade permanece; podemos observar nas “entidades ou guias” seus comportamentos e suas preferências, suas roupagens e seus hábitos culturais e, mesmo que queiramos mudar alguma coisa, esses espíritos, quando incorporados não aceitam, isso faz parte da individualidade.
Os conceitos criados pelos homens diante ao imensurável universo espiritual fez com que muitas das ditas entidades se afastassem do convívio terreno, desta forma podemos analisar que um preto velho ou um caboclo deixou de incorporar pelas inovações feitas na religião, principalmente na Umbanda...e isso acontece também nos candomblés pelas formas “modernas” de iniciação, pelos novos hábitos adquiridos pelos/as noviços/as com consentimento dos ditos zeladores. Energias plasmáticas e energias elementais possuem suas defesas, são individualidades com características bem definidas, daí surgirem dificuldades em avaliar a que Orixá pertence um ou outro neófito.
Podemos também observar a individualidade nos Orixás. Cada um deles traz consigo suas particularidades, suas cantigas, suas danças, suas roupagens, cores e ferramentas distintas, alimentos de oferendas e em seus brados, e principalmente quando de suas “feituras”. Nenhum deles possui equivalências, são únicos em cada Ori e em seus assentamentos; vem daí a criação das ditas “qualidades” que, confundidas com “caminhos do Orixá”, permanecem de forma constante.
Portanto, tanto nos Orixás de Nação quanto nas Entidades Guias da Umbanda, existe um diferencial nos vários caboclos identificados com o mesmo nome, os mesmos pretos velhos, ou os mesmos Orixás de Nação; por isso temos as várias Oxuns, as várias Yansãs, os vários Xangôs e assim por diante. Da mesma forma temos na Umbanda os vários Caboclos Sete Flecha, e os vários Tupinambás e outros. O mesmo acontece com a linha de esquerda, como é conhecida. Os Exus e Pombogiras também possuem suas individualidades, são vários Zé Pilintra, são vários outros nomes, porém um é diferente do outro; cada um deles possui suas individualidades, suas historias de vida e suas atribuições determinadas por aqueles que os resgataram e que agora permanecem num patamar de comando e na administração do universo espiritual.
Atentemo-nos para fatos individuais que poderemos colaborar em muito para as decisões coletivas.

A individualidade do “Ser”.
Algumas vezes nos deparamos com questionamentos sobre muitos dos aspectos relacionados aos “espíritos”, sejam eles “Guias” de Umbanda, do kardecismo ou mesmo aos Orixás do Candomblé (entendidos por muitos também como espíritos). Muitas são as teorias chegando até mesmo a envolver princípios científicos formalizando códigos matemáticos para adentrar em um universo desconhecido e apartado do universo espiritual.
Todos os questionamentos poderiam ter respostas objetivas não fossem as vaidades humana que, por questões de confiança entre “mestre” e discípulo ainda não foi conquistada, e os velhos chavões religiosos permanecem. Mas, na prática religiosa muito poucos são aqueles que conseguem com seus mestres adquirir todo o conhecimento, é no caminhar da vida que a experiência se faz, pois, eis aqui a individualidade, cada um possui seus objetivos e seus aprendizados. Isso faz parte do “Ser”.
Quando nascemos uterinamente nossa individualidade material é única, mesmo que estejamos agregados a outro corpo, aquele que nos gerou. Porém, trazemos nesse nascimento toda uma estrutura formada por genes, traços familiares que com o tempo de gestação vão se apresentar na formação física do indivíduo; aí nascemos para a vida independente. Fora do útero, crescemos e adquirimos personalidade e fazemos uma historia individual, mesmo com todas as convivências sociais que nos cercam; mas, mesmo que venhamos a sofrer influências de tais convivências, nossa individualidade permanece na personalidade que desenvolvemos, pois estamos também atrelados a fatores astrais e espirituais que são as marcas registradas, como uma placa que identifica cada um de nós perante o Mundo. Desta forma transmitimos pelo nosso semblante e de nossas ações todas as virtudes, vicissitudes, vitórias, derrotas, angustias, anseios e saberes, esta é a marca da nossa individualidade.
 
 Nota de esclarecimento: É preciso que se entenda que toda essa estrutura religiosa, em virtude de ser a África o berço onde tudo teve início, veio durante milênios sofrendo um processo de miscigenação entre tribos e nações; portanto, o Candomblé recebeu influência de muitos povos daquele continente. É nessa diversidade de culturas que encontramos as diferentes formas de culto dentro do próprio culto, possuindo também a diversificação nas roupagens, nos coloridos, nas cantigas, nos idiomas e na forma de cumprimentos. Isso, no entanto não significa que haja diferenças significativas entre um ou outro templo.

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