domingo, 6 de julho de 2014

Xirê dos Orixás - o Axé de todos nós.



       O Xirê dos Orixás - O Axé de todos nós.

      O xirê dos Orixás se constitui a partir da combinação dos quatro elementos básicos e suas dezesseis características. Cada elemento, fogo, terra, água e ar, contêm quatro Orixás em permanente comunhão. Do elemento fogo temos Elegbára, Ogún, Oxumarè e Xangô. Podemos pensar que em Elegbára temos a representação do fogo no centro da Terra, o magma, seu ponto mais elevado de temperatura, que, após receber o movimento de Ogún, pode ser visto quando expelido nas erupções dos vulcões, e daí se compõe e organiza nos rios de lava que escorrem pelas paredes montanhosas de Oxumarè, chegando a cristalização das pedras vulcânicas em Xangô. Mas também podemos entender que é em Elegbara que encontramos o inicio criador de nossa inventividade, nossa libido para o surgimento do novo quiacerado e vai juntar uma existência criativa a partir da movimentação feita em Ogún, podendo ser devidamente classificado e organizado por Oxumaré para receber a finalização, a arte final em Xangô.
      Essas quatro características do fogo podem ser pensadas em todos os processos criativos, o inicio gerador que estabelece um objetivo, o movimento na direção do seu estabelecimento, o caminho que se desenha na organização para que o objetivo possa ser concretizado, e finalmente, essa concretização.
     Continuando, temos o elemento terra, com seus quatro elementais, Obaluaiê, Oxóssi, Ossayn e Obá.
      Aquela pedra vulcânica que tinha encerrado o elemento fogo, passa por uma natural transformação, vai virar o chão empedrado, duro, a terra mais seca existente, ali, nesse processo mutatório, teremos a atividade de Obaluaiê, uma terra tão sem água que ao receber a presença desta vai buscando a vida nas suas formas mais bonitas de serem vistas, os animais, os vegetais no reino de Oxóssi; as grandes matas então se formam, desde a vegetação mais rasteira até as mais altas árvores trazendo  os encantos das ervas e flores, onde quem manda é Ossayn; aí teremos a terra com alto teor de água em suas entranhas que tendem a ficar encharcadas virando lama, aquela terra mais molhada possível que é onde se situa Obá. Quantas vezes dizemos a expressão “ter que ter os pés no chão” para nos referirmos a realidade mais fria e crua. Tal qual o chão batido e seco que parece haver sob o sol fustigante e que é por onde devemos passar utilizando a razão como veiculo motor. E é nessa terra que construímos nossas edificações, sejam estas de ordem material, que são nossas casas, seja àquelas que vão nos dar mais sustentação, como o estudo, a ciência e o desenvolvimento de potencialidades que nos permitem buscar com eles nosso sustento.
     Chegamos ao elemento água, e como avisa a marchinha carnavalesca, as águas vão rolar, por nossos olhos nos colocando frente a frente as nossas emoções. Na água os elementais são, Nãnã, Oxún, Yemanjá e Ewá.
A água, após ter entrado na terra e ter chegado ao estado de lama vai agora brotar pura e límpida; são as nascentes dessa água, as fontes, local onde Nãnã trabalha, e essa água, vai correr doce e suave, depois mais fortemente pelos rios, um campo de trabalho coordenado pela ação de Oxún, e dali, como todos os rios correm para o mar, a água vai para os domínios de Yemanjá, no mundo salgado dos mares com sua enorme diversidade de vida ali presente, e que no final, em algum momento, evaporar-se mudando seu estado de liquido para gasoso sob a égide de Ewá. Nossas emoções são nossas águas que se apresentam puras e limpas quando nascem e que correm pelos campos propiciando o surgimento de tantas cidades nas margens desses rios, ou se quiser, na analogia, fazendo a junção com nossas realidades colocando nossa razão emparelhada ao afeto, e assim trazendo nossas paixões e nosso desejo de criar parceiros para a criação de uma família, condição sempre esperada na produção, inclusive de filhos para nossa estabilidade maior como seres que passam pelo mundo e deixam sua marca; são estas emoções que, num momento devido vão nos ajudar a transcender valores e partir para novas dimensões ainda não descobertas.
    Chegamos ao quarto elemento, o ar, e nele, estão presentes os elementais Iansã, Tempo, Ifá e Oxalá.
    Na mudança para o estado gasoso a água se o torna ar, tanto na brisa suave que acaricia nossos rostos, como aquele outro que se apresenta na forma do vento furioso dos furacões, ali trabalha Iansã, esse vento que também será responsável pela reparação levando as sementes para serem germinadas em outras terras com a marca registrada da liberdade, que vai a qualquer direção contornando qualquer obstáculo; e sua ação, produzirá muitos segmentos que somente serão percebidos mais futuramente; entra aí a ação do Orixá Tempo, este, responsável por insondáveis mistérios que podem transformar-se em grandes sabedorias, acúmulo histórico de conhecimento que encontra sua aplicabilidade dando contorno vivencial que chamamos de destino a cada um de nós, é onde trabalha Ifá. Extremamente sutil é o resultado desse processo quando se encerra no encontro com a dimensão maior do amor, sua expressão final como ternura onde reina Oxalá.
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...E é nessa sequência que nos templos de candomblé são externadas a fé religiosa nos Orixás; em forma de uma grande festa, com toques dos atabaques, cânticos e bailados, seus adeptos e iniciados rememoram e renovam o axé, a força motriz que conduz suas vidas.

    Toda e qualquer atividade relacionada, tanto a um indivíduo quanto a coletividade do templo de candomblé, tem como inicio o poder de Exú, este, cultuado em primeiro plano, pois é ele o Orixá mensageiro, aquele que está encarregado de levar e trazer as mensagens ao Orún, Universo onde residem os Orixás; sua história e seus mitos estão relacionados ao inicio dos tempos. Propiciado e fortalecido através de oferendas é o incansável porta voz. Além de ter a tarefa de ser o interlocutor entre humanos e Orixás é o guardião dos caminhos universais, dos quadrantes e das encruzilhadas, é o trabalhador cuja fidelidade é incontestável. Exú, por ser o Elemental fogo é o que proporciona quentura em todas as atividades humanas resultando no progresso e na dinâmica da construção e reconstrução...Exú é o inicio de tudo. Primordial e essencial ao movimento, pois, sua energia abrange todas as camadas materiais e imateriais, nada fica inerte sob a presença deste Orixá.
    Juntamente com Exú, Ogún está presente, e este, por ser um guerreiro e protetor incansável, lança-se à frente para abrir caminhos para que tudo se realize, para que todos os movimentos proporcionados por Exú sejam realizados. A energia de Ogún, como Elemental, surge com suas espadas desvendando sempre novos horizontes, abrindo passagem para que a humanidade caminhe. Guerreiro invencível é o protetor de portais e fortalezas, é o Orixá das guerras travadas internamente nas consciências humanas.
    Oxumarè é o Orixá sustentador, sua energia está relacionada aos meandros das encostas montanhosas, nos desníveis que ocasionam as quedas d´água surgindo como um arco-íris, por isso é aquele que leva as águas para o céu; seu caminho colorido nas nuvens representam a esperança de dias melhores.
    Porém, diante de todas as maravilhas do Universo sempre aparecem as adversidades, principalmente as provocadas pelo ser humano. Não entendedor de seu estado de crescimento, muitas vezes dominado e por vezes transformando-se em dominador pela força, deixa a razão e os sentimentos de lado e, apelando para o instinto primitivo quer reinar absoluto sob a Terra. É neste momento que as energias de Xangô, Orixá da justiça, surge para trazer equilíbrio...e seus machados, símbolos permanentes da razão e da justiça imperam.
    ...E a vida caminha na Terra e no Espaço, morada de todas as vicissitudes humanas, e no chão seco, aparentemente sem vida, lá está Obaluaiê, o Elemental transformador, mestre de todas as doenças e de todas as curas, o Orixá que está permanentemente de plantão, sua energia abrange a saúde de tudo aquilo que tem vida, porém, numa forma de alerta, ele produz lições de sabedoria nem sempre aprendidas, daí as doenças endêmicas e as carências humanas, seja de alimentos ou mesmo de amor. Porém, aquele solo seco e aparentemente improdutivo torna-se o elemento primordial a partir da interação da chuva, proporcionando o surgimento de florestas e consequentemente vida animal, tornando-se assim um reino produtivo, onde está a energia de Oxóssi, o Orixá caçador, aquele que proporciona ao ser humano a procura pela sobrevivência, pelo trabalho e pelo êxito de todo o esforço empregado. No entanto, este reino é dividido com Ossayn, Orixá das folhas; enquanto Oxóssi é o caçador incansável e conhecedor de todas as trilhas humanas, Ossayn é o detentor do conhecimento de todas as ervas que proporcionam os remédios, dando possibilidades no desenvolvimento humano no que concerne na descoberta de medicamentos farmacológicos e na perfumaria, produtos que tornam mais confortável e dando mais longevidade ao ser humano.
    Naquela terra molhada, quando da interação com a água, lá está Obá, o chão cruel onde pisamos e procuramos desviar de pedras, onde sentimos a realidade da vida, onde precisamos ter a razão acima de nossas emoções, onde enganos e desenganos nos tomam com dúvidas, por isso a razão tem que prevalecer, pois, é diante da energia de Obá, a realidade, que devemos andar de pés no chão.
    O fogo e a Terra, elementos descritos acima, simbolizados pelas forças dos Orixás, sozinhos não passariam de uma quente e dura massa esférica a circundar o sol ou vagar pelo espaço, daí surgiu também, no inicio dos tempos, a água, elemento constitutivo e essencial à vida. Quando da interação chuva/terra, formou-se a lama e nela a energia de Nãnã, Elemental modelador das espécies humanas e animais, e o ciclo da existência permanente na Terra estava se formando. Da lama umedecida, escorreu pelas encostas a água que formaram nascentes de riachos, morada do Elemental propiciador da reprodução, Oxún, Orixá da segurança e da continuação reprodutora, óvulo materno que, na dinâmica universal, reproduz fielmente desde o principio seres para alcançarem o crescimento; suas águas desaguam em grandes rios, numa metáfora aos grandes aglomerados humanos, daí, estas águas vão terminar por cair no mar, universo da mais perfeita união entre os elementais sendo recebidos por Yemanjá, a mãe de todos, o principio ativo que, juntamente com o fogo e a Terra formam os três pilares de sustentação material.
    Porém, não obstante de todas as circunstâncias, ainda material que seja, há de haver um processo de transformação, entra em ação as energias de Ewá, Orixá responsável pelas múltiplas formas existentes, proporcionado a diversidade existente em todo o planeta.
    Todas as transformações ou mutações passam a implicar em novos elementos, dessa forma, aquela água produzida lá nas nascentes tendem ao sabor da quentura evaporar-se para um espaço irrestrito, sem fronteiras, este é o universo de Yansã que, com seus ventos, sejam brisas ou vendavais, produzem, auxiliada pela quentura, a evaporação. Não somente este Elemental tem como tarefa o movimento como também a função de elemento disseminador, carregando em seus lufados sementes e polens para outras terras e, dessa forma, proporcionando a reprodução de florestas e campos.
    Porém, é preciso tempo para se ter resultados, e tudo depende do relevante trabalho do Elemental Tempo; entra aqui o Orixá que não espera acontecer, faz acontecer, mas tudo ao seu tempo. Na vida tudo tem um tempo e a todo tempo existem transformações, tempo para plantar  e  tempo para colher. Tempo é o mestre da historia, com ele a humanidade caminhou e fez descobertas, porém, muitos mistérios Tempo ainda guarda.
    ...E Tempo ainda guarda segredos, segredos de destinos que compactua com Ifá, Elemental mais que subjetivo, pois, o dia de amanhã a nenhum ser humano será revelado, e desta forma os destinos têm que ser cumpridos.
    O ar, inspiração maior, Elemental transparente que envolve todo o planeta Terra está como uma cobertura, cobertura  esta feita como um Alá, um grande telhado protetor que, extensivo a todo o Universo onde reina todo  poder da vida e da morte sob a égide de Oxalá. E branco é o véu que encobre todos os mistérios universais, porém, de todas as cores são feitas nossas esperanças.
     Assim é o universo do candomblé, com seus Deuses e seus mitos, com seus adeptos e iniciados que, festivos mas respeitosos, promovem cultos onde a proximidade com as energias dos elementais proporcionam crescimento e sabedoria para uma vida plena de felicidade.
    E ao som dos atabaques as manifestações se dão nos movimentos das danças que são interpretadas de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e as turbulências das águas estão nos braços e requebros de Yemanjá, a deusa dos mares cognominada a mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Yansã. Nos gestos agressivos quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará, os trovões numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogún estão as alegorias de guerras e de batalhas vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança suas flechas dando direção da fartura e da prosperidade. No resplandecer das mudanças bruscas do tempo nos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na concreta plenitude de passos firmes da dança de Obá. Na dança das folhas de Ossayn sopradas por Oyá, a mãe dos ventos e dos nove mundos. Na direção dada por Oxumarè quando aponta o caminho das águas pelo arco íris. Na lentidão dos passos cansados de Nãnã devido ao tempo de existência. No ritmo atenuado do Orixá Tempo e no arcado, mas firme caminhar de Obáluaiê em direção às curas por detrás de mistérios que cobrem seu corpo.
     Acima das nuvens da paz como um teto branco por sobre as cabeças, Oxalá caminha passivamente sobre a Terra ou no infinito do Universo e, Exú o provocador de todos os movimentos é o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olímpo dos deuses africanos, os Orixás, deuses do candomblé, seus passos nas danças são frenéticos, com movimentos ágeis e intermináveis, dando a impressão de redemoinhos numa representação de caracol demonstrando que sua existência é a evolução.
    Mas, não só toda essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse estabelecida. Na ausência de um  elemento palpável, criaram-se os símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações consagradas aos deuses africanos, desta forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano.
    A crença nesta forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um DNA espiritual e que, passivamente e através de ritos apropriados, devem ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí o caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção.    
    Para representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza e dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa os Orixás se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração envolve a assistência num retorno aos primórdios dos tempos, reinterpretando toda uma história, mitos e sentimentos do próprio ser humano.




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