TAMBORES QUE FALAM
Existe uma lenda que tem
origem nas savanas africanas contando que quando os animais ouvem tambores
tocando todos eles silenciam, não por temer os homens, mas pelo respeito aos
Deuses, e dessa forma, os homens também procedem quando dos primeiros sons
ecoados por tambores. É um momento sagrado, pois no ressoar do espaço vazio
algum portal se abre formando um caminho dando passagem aos Deuses e espíritos
para que se manifestem no mundo material. No entanto, não se trata de sons
aleatórios, a cada batida diferente em ritmo e cadencia, trata-se de sons
determinantes para uma ação especifica. Essa cultura ultrapassou fronteiras e
se expandiu pelo Mundo, abraçando, influindo em muitas civilizações e em muitas
religiões.
O ressoar dos ritmos
nos rituais sagrados conclamando os Deuses e espíritos, assim como agradavam a
estes, também agradavam aos homens, passando desta forma a fazer parte de
festividades e comemorações em determinadas épocas, que no principio eram em
épocas de colheitas nas primeiras lavouras ou grandes caçadas. Esta foi a forma
encontrada tanto para agradar aos Deuses quanto à satisfação humana.
O santuário.
Logo ao entrar pela
porteira defronta-se com uma cruz colocada logo adiante, aos seus pés
oferendas postas, velas e fitas coloridas com predominância ao preto e ao
vermelho. Pequenos recipientes com comidas votivas, velas acesas e várias
imagens traduzem a crença em espíritos desencarnados. De longe o som de
tambores, os atabaques denunciam a presença de fiéis e, pelo caminho, aqui e
ali, outras oferendas e mais velas acesas. Em distintos lugares, cercados por
frágeis cercas de bambu, os sons se misturam, porém, a ressonância das batidas
dos tambores, elemento sonoro, torna-se em um elemento comunicador, mensagens
dirigidas aos Orixás e aos espíritos.
Em uma sequência
espontânea, Orixás se manifestam e espíritos incorporam através de transes, os
fiéis acompanham com palmas, gingas de um bailado e cantigas determinado pela
batida nos tambores. Pés descalços e uma dança em círculos é comandada por
sacerdotes e sacerdotisas. Aos poucos, toques dos tambores vão amainando e logo
em seguida tem continuidade a uma batida especifica, pois, o espírito
incorporado ou Orixá manifestado ali presente, tem suas preferências no bailado,
não só por preferência, mas também pela historia e pelos caminhos percorridos
no Universo.
O som dos tambores
não apenas servem para conclamar os Orixás e espíritos, são indutores na psique
dos “médiuns”, estes, servem como suporte das energias conclamadas aos rituais.
Um santuário criado
à partir das necessidades dos rituais, seja da Umbanda ou do Candomblé, advém da própria estrutura dos cultos afro
brasileiro, o culto é todo direcionado aos elementos da natureza, pois dessa
forma é que os Orixás e espíritos determinam.
Todas as energias
emanadas da natureza estão consubstanciadas ao elemento sonoro dos tambores e
de cantigas ou batidas com a palma das mãos, e por isso o uso do som é
primordial para alcançar e abrir o portal de um Universo paralelo ao mundo
material.
Pelos arredores do
santuário são dispostos, em forma de altares, imagens de santos católicos
objetivando um sincretismo consumado pelas várias crenças, é uma profusão de
valores religiosos que invade tanto o misticismo quanto a fé real. São valores
profundos dos fiéis através de uma iconografia demonstra conteúdos de
crenças diversificadas.
O murmúrio das águas
do riacho que bailam sobre rochedos mistura-se ao som dos atabaques, tambores
que falam com a natureza. Muitas oferendas aos Deuses e Deusas das águas doces.
A cachoeira, vista a distancia parece um fio, uma linha de espuma que rasga a
terra dominada pelas forças e energias de um Orixá, Oxalá mora lá,
dizem Oxúm mora lá. No céu, nuvens passam, flutuam ao sabor do Tempo, Orixá
que tudo comanda.
Velas acesas
iluminam, acompanham as oferendas, banhos em águas límpidas acompanhados de
gestos de pedidos ou agradecimentos, flores a flutuar ao sabor da correnteza,
uma forma de enviar pedidos ou agradecimentos. Assim é a forma de atender aos
Orixás, Deuses de um Olimpo subjetivo e real ao mesmo tempo.
...E nada é perdido,
tudo das oferendas é transmutado em energias, transformando-se desta forma em
um elo entre o mundo material e espiritual. Do aroma existente nas oferendas
está o alimento daqueles que intermedeiam entre os homens e Deuses. Nas cores
está o simbolismo e a representação de cada energia, nas cantigas a alegria
festiva/sagrada de momentos de crença e fé e, no verde das florestas está a
esperança, assim como no batuque cultural está a espontaneidade da
religiosidade nos cultos afro brasileiro.
Nos cultos, sejam
destinados aos Orixás ou aos espíritos, os tambores são também considerados a
representação de um determinado Orixá, e além de possuírem uma energia
especifica para determinadas finalidades, são eles anunciadores de festividades
e de iniciações ao culto. O sonoridade dos tambores é uma das bases
fundamentais para o acontecer do culto. São instrumentos consagrados de forma
específica, e seus tocadores, os Alabes, iniciados para esta finalidade,
tornam-se os guardiões da cultura musical e das cantigas ditadas, seja pela
mitologia cosmogônica ou pelos fundamentos da religião.
O som percutido, com
as mãos ou com varetas, é transmutado em energia que percorre tempo e espaço
cobrindo distancias torna-se mágico, ultrapassando até mesmo as fronteiras de
um Universo desconhecido.
Tambores são usados
há pelo menos 40 mil anos em todas as culturas. Nas religiões xamânicas são
utilizados, principalmente para curas quando do chamado de divindades
representadas por animais de poder ou mesmo no resgate de almas perdidas. Nesta
dimensão, o som dos tambores saem numa viagem de busca de visões e
conhecimento.
Os sons dos tambores
têm o poder de conexão com mundos interiores e exteriores. No mundo interior
pode ir do êxtase ao relaxamento, pode produzir tanto equilíbrio quanto a
ampliação da consciência, proporciona a conexão com os ritmos planetários
alcançando níveis cósmicos universais.
Seja nos santuários
a céu aberto ou em templos, o som dos tambores produzem efeitos na psique
humana, traduzindo sentimentos em cada povo, em cada etnia possuidora de uma
cosmovisão religiosa diferente.
Acompanhados de
outros instrumentos de percussão em rituais são a identidade das expressões das
liturgias, são expressões de uma arte integrada nas religiões e na
espiritualidade humana. Além disso, a música e a dança sempre foram os
principais fatores dessa comunicação com os Deuses.
Essa forma
utilizada para se chegar aos conhecimentos místicos em religiões primitivas
esteve sempre associada ao êxtase, um transe provocado pelo toque do tambor.
Esse instrumento seria então o responsável pela comunicação entre o homem e as
divindades – seres responsáveis pelo comando da Natureza em nosso planeta.
Descobertas
científicas afirmam que na pré historia o ser humano acreditava que a pele de um animal resultante de uma caçada,
seca e esticada sobre troncos ocos de árvores,
produzia o som do lamento do animal abatido, e foi com tal sentimento
que, como forma de gratidão, o ser humano passou a consagrar o animal abatido.
De certa forma esta foi uma das primeiras manifestações religiosas produzida pelo
homem.
Numa fase mais
primitiva as religiões tinham como principal base o contato com divindades
através do transe, a música e a dança sempre foram os principais formadores
dessa comunicação. Nas religiões antigas, o toque de tambores não foi somente
usado para o culto às divindades, mas também para um contato com espíritos dos
antepassados.
Em algumas culturas
o toque do tambor revelava a arte de conectar-se com a mãe Terra e com o eu
interior, as batidas, acreditavam os antigos, que reproduziam as batidas do
coração e as pulsações do Planeta além de formalizar uma viagem ao mundo
invisível, constatando a ancestralidade e a todos os reinos da Natureza.
Na África, em
diversas culturas do continente ainda é a tradição oral que prevalece, é o
método pelo qual as historias, lendas, mitos e a religiosidade é transmitida e,
uma parte integrante da tradição é a dança e o canto, sempre acompanhados do
toque dos tambores, instrumento essencial na formação cultural daquele
povo.
No Brasil, onde
houve influência do povo africano na formação cultural, o tambor está ligado às
religiões denominadas de afro brasileiras, ou seja, nos Candomblés e em casas
de Umbanda, pois, através dos toques, sejam com as mãos ou com varetas, é um
dos instrumentos principais nas cerimônias religiosas.
Considerados
instrumentos sagrados nas religiões afro brasileira, a orquestra é formada
pelos tocadores que, após uma iniciação, tem permissão para “tocar os
instrumentos”. Cada tambor - atabaque
- recebe uma denominação: o rum, o maior
de todos, o rompi, tambor intermediário, e o lê, o menor de todos, cada um
deles é consagrado a um Orixá determinado pelo jogo divinatório dos búzios. A orquestra ainda tem outros instrumentos: o
agbé, um piano de cuia – o adjá, uma campânula de metal e o xére, um chocalho
usado nas festas do Orixá Xangô. O Alabê, chefe da orquestra, é o responsável
por toda a evolução musical e das cantigas invocadoras nos diversos rituais.
Existem ainda outros
tambores pertencentes à religião, o Djembe é o mais influente e a base de
tantos outros tambores africanos; é um tambor sagrado utilizado em cerimônias
especiais de cura, em rituais de passagem ou mesmo em rituais aos
ancestrais.
Contudo, os tambores
nem sempre foram utilizados para estimular sentimentos religiosos, houve época
em que tambores anunciavam guerras ou proporcionavam alegria em festas. Nas terras da Morávia – Europa Central –
datado de 6000 anos aC, em tempos remotos, já existiam os tambores
confeccionados em argila. No Egito, em escavações feitas, foram encontrados
tambores com mais de 4000 anos aC. Na Suméria uma escultura em forma de tambor
foi encontrada com data aproximada de 3000 aC. Na Índia em um dos templos, existem
tambores com aproximadamente 2000 anos aC.
Na Bíblia, o livro
do Cristianismo, existem muitas citações referentes aos tambores. Em um vaso
grego antigo e em relevo, mostra a figura de várias mulheres dançando ao som
dos tambores. Os tambores Taiko são estimados em mais de 2000 anos, tambores
chineses e coreanos provavelmente são mais antigos.
De origem africana
os tambores Batá, mais recentes, têm pelo menos 500 anos e sua historia
sobreviveu com a religião do povo ioruba. Utilizado em rituais de santeria em
Cuba recebeu influência de outros grupos étnicos de língua bantu das regiões do
Congo. A a confecção desses instrumentos requer alguns rituais que os
distinguem pela força espiritual que é inserida nele, ao ser consagrado passa a
ter o nome de ayàn,
Nas culturas dos índios americanos os tambores são objetos sagrados
usados somente pelos xamãs – lideres espirituais das tribos – em cerimônias de
cura, quando não usados torna-se um símbolo de proteção ao ambiente onde se
encontram.
No Xamanismo, cada
Ser humano possui um animal de poder que o acompanha por toda a vida e, para
descobrir qual é o animal de cada um é feito o ritual da jornada xamânica onde,
ao som do tambor e após um relaxamento, a pessoa visualiza a imagem de um
animal que, após essa descoberta, deverá ser pintado no tambor.
No xamanismo o toque do tambor está
associado as batidas do coração da mãe Terra que dá acesso vital através do
ritmo. Metaforicamente é o instrumento,
comparando a uma embarcação, que leva o Ser ao Universo espiritual, é o
instrumento que faz a comunicação entre o Céu e a Terra; além disso, é o
instrumento, cujos sons, ativam curas espirituais alinhando-se com a vibração
do coração humano ao da mãe Terra. Com som único a cada instrumento é usado
também, além de cerimônias religiosas, em festividades para celebrar algum
evento importante.
Tambores xamânicos
existem há pelo menos 40 mil anos em todas as culturas do Mundo e estão
associados a vários elementos, muitos xamãs o utilizam, não somente para
curas, mas também, através de rituais específicos, como fazer uma viagem ao
mundo dos espíritos para resgates ou mesmo em busca de visões do autoconhecimento.
Batidas cadenciadas
e com ritmos específicos os tambores xamânicos facilitam a conexão com o mundo
interior produzindo um relaxamento promovendo o equilíbrio e ampliando a consciência,
proporcionando uma conexão harmoniosa com os ritmos do Universo.
No passado o som dos tambores não só
serviam para acompanhar rituais religiosos como também para orientar as
batalhas ou comemorar vitórias. Em
situações de guerras tribais os tambores eram usados na preparação e iniciação
dos guerreiros. Na Europa e nas Américas os tambores tiveram uma função
diferente dos tambores tribais, nas guerras civis eram com eles que seus tocadores
transmitiam as ordens de batalha.
Na cultura chinesa o tambor ocupa
lugar de destaque, muito embora sua origem ainda seja discutível, a literatura
antiga mostra que é tão antiga quanto a historia chinesa. A mais antiga
documentação possui registros de 1.600 aC – dinastia Shang - esculpidas em
cascos de tartaruga e ossos de animais.
Não só como uma forma antiga de
arte, na China, o tambor encontrou aplicações em muitos aspectos da vida social
e cultural, incluindo cerimônias de sacrifício e adoração como também na
agricultura e na guerra.
No sul da China e sudoeste da Ásia
muitos artefatos arqueológicos foram encontrados, entre eles os tambores de
bronze, instrumentos que possuíam uma relação constante na vida social e
religiosa do povo. Esses tambores possuem decorações apropriadas a cada função.
Decorados com vários motivos determinava afiliações étnicas e geográficas que
incluíam várias espécies de animais, pássaros e figuras geométricas. Algumas
figuras, ainda nos dias atuais, refletem o costume de adorar nuvens e trovões.
No Japão, em algumas ocasiões, os
tambores são também instrumentos considerados sagrados, o taiko, que tem sua
origem num passado remoto, pelo seu volume e peso, era transportado em um carro
de bois para o centro das batalhas como um estimulador para o combate devido ao
som que produzia e, em caso de derrota, seus tocadores eram executados por não
terem afugentado o inimigo. Na rotina dos vilarejos a vida era centrada no
templo xintoísta, onde o tambor permanecia e, identificando pela batida, a comunidade
e os limites geográficos, pois, tais limites eram determinados pela distância
que os aldeões podiam escutar o som do grande tambor.
O tambor sempre esteve diretamente
ligado à historia sagrada do Japão ao culto do xintoísmo. O xintó, que significa
– caminho dos deuses – está baseado num sincretismo mágico religioso cercado de
significados próprios em que são consideradas todas as coisas vivas e inertes,
ou seja; árvores, pedras, água, animais e tudo o mais são habitados por
espíritos universais. São os kami, que para os quais não existe representação,
sabendo-se apenas de sua presença.
Não há duvidas que o tambor
apresenta uma relação mística com funções que provocam o êxtase no ser humano.
Sentimentos a parte, o som produzido por este instrumento, dependendo do ritmo
apresentado, induz a determinados processos em organismos vivos, e um exemplo é
o processo da indução à manifestações mediúnicas em algumas religiões.
Também, o uso dos tambores em bandas
marciais e o retumbar de outros instrumentos provoca na assistência euforia,
quando não um sentido de patriotismo. Na musica popular provoca entusiasmo na
cadência e nos movimentos musicais um sentido instintivo em cada cultura. Os
sons dos tambores traduzem em compasso os passos da humanidade, pois, em todos
os tempos, em todos os povos, as batidas repetitivas do tocador copiam
fielmente a pulsação do Universo.
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