domingo, 30 de dezembro de 2012

Sobre religião e mItologia - crença e fé.



                                           Da mitologia surgiu a crença e a fé.
Na antiguidade o Ser humano não conseguia explicar os fenômenos que ocorriam na natureza, passou então a dar nomes e criar em um universo subjetivo à aqueles fenômenos, considerando-os como deuses. O trovão, a chuva, o relâmpago, os ventos e tudo mais inspiravam para a criação de um Deus. O Céu tornou-se um Deus pai todo poderoso porque os cobriam por todos lugares e a Terra em uma Deusa mãe, e todos os demais seres viventes seus filhos. Criavam assim, a partir do inconsciente, historias e aventuras que explicavam de forma poética toda uma vivência e convivência com seres extraordinários.
As historias tornaram-se divinas e eram passadas de geração a geração adquirindo aspecto mítico religioso.
Por toda a Terra e em todas as civilizações foram criados núcleos arquétipos mitológicos, a esses grupos são dados os nomes de mitologemas. À um conjunto de mitologemas e de uma mesma origem histórica denominamos mitologia; aos mitos passaram a se unir os ritos, os quais, renovados e acrescidos por valores culturais foram chamados de mistérios. O rito tornou-se ato, ato que atualizou o mito em seu mistério e, ao conjunto de rituais e mitos crio-se então os símbolos que cercam o mitologema promovendo o ritual. Ao conjunto de rituais e mitos, com origens históricas comuns dá-se o nome de religião, e a esta, unem-se preceitos éticos-morais os quais são denominados de doutrinas religiosas que são compostas de tabus, proibições e segredos herméticos.
Posicionados em uma determinada estrutura, cada religião criou seus ídolos, ícones de barro, pedra, metal, ou mesmo representados em estandartes e as figuras míticas do inconsciente passaram a existir em altares nos templos, em portais como guardiões de uma comunidade ou de uma casa, ou mesmo de forma minúscula em escapulários como protetores individuais.
Toda essa iconografia transcendeu ao material e criou no inconsciente humano todas as formas de crenças religiosas e, o espírito, primordial aos viventes, absorveu os paradigmas até então formulados; e cada povo, cada civilização passou a desenvolver a fé, que desde então, tornou-se inerente e corresponde aos anseios psicológicos transmutados em energia.
As religiões espiritualistas, sejam de manifestações corpóreas ou não, todos os processos esotéricos ou qualquer outra forma de manifestação religiosa, são usuários de forma implícita daquelas energias transmutadas, ou seja, a fé. A fé sempre é consignada a alguma crença ou à alguma  vontade pessoal ou coletiva.
Aparentemente podemos distinguir determinados padrões de fé, mas nunca podemos avaliar a intensidade. A fé, por ser subjetiva pode alcançar níveis elevados produzindo energias em determinados momentos e de formas incontroláveis, derivando daí os ditos milagres apregoados pelos mais exaltados.
 Os seres mitológicos, deuses, semi deuses, personagens heroicos, deuses demiurgos e tantos outros ícones personificados como divindades ou santos, sempre foram criação do imaginário humano que, transmutados em energias se manifestam no inconsciente humano, criando-se assim um universo paralelo, o mundo dos espíritos, humanos ou não.
E neste universo apareceram os espíritos benignos, espírito das águas, das florestas e de todo o reino vivente, vegetal e animal, espíritos que passaram a lutar contra as investidas de guerras e lutas infrutíferas ao desenvolvimento humano. Mas também surgiram aqueles que pertencem às trevas para aniquilar o caminho da luz, bastava ao seu criador, o próprio homem, controlar essas forças.                                                                                   
                                                           Forças da natureza espiritual
     Com o surgimento do Espírito humano, depois de milhões de anos de evolução, todas essas forças espirituais, benignas ou maléficas, permaneceram ao redor de todos os seres viventes, quando não, encerradas em seus corpos, algumas promovendo guerras e outras em busca da paz, porém, ainda de maneira desequilibrada e, em cada ser humano refletia suas próprias ansiedades, daí os dizeres de mau agouro, de intervenções doentias e descaminho na vida, e que podem afetar indivíduos ou até mesmo uma comunidade.
     Com isso, o consciente humano, frágil diante de tantas energias ainda desconhecidas e em desequilíbrio, criou no inconsciente um bloqueio, uma parede refletiva onde as dúvidas e incertezas passaram a residir; e por essa razão, ainda hoje, muitos de nós, humanos, ainda não conseguimos o pensamento pleno, a concentração pura, e por consequência a desistência de muitos projetos ou a não realização dos sonhos, tendo como resultado o subdesenvolvimento e o atraso espiritual e material de muitas populações.
Desta forma, não só para a vida material, mas principalmente para a vida espiritual é necessário que as energias estejam alinhadas, em equilíbrio permanente e, é através de uma manifestação de fé, independente de religião, que o ser humano consegue a plenitude das realizações pessoais ou coletivas, pois a fé é a vontade suprema do Ser. 
 As energias de natureza espiritual com que o ser humano convive são demasiadamente enormes e por muitas vezes de difícil controle; no entanto, existem ritos muito antigos que são formulados para corretamente alcançar o equilíbrio. 



No universo imaterial da crença e da fé, não somente os ritos formulados nas religiões, mas também muitos lugares tornaram-se símbolos sagrados; caminhos são seguidos até os dias de hoje em peregrinações, escadarias são galgadas de joelhos e promessas são pagas por algum “milagre”. De grandes monumentos a pequenos altares, grutas e até mesmo pedras santificadas tornaram-se ícones religiosos promotores da fé neste universo de neófitos. Independentemente a qual religião esteja o individuo agregado, nela, existem elementos, de alguma forma, consagrados dentro de rituais apropriados do qual o ser humano faz uso.
O retumbar de tambores, o bater de palmas, hinos, louvores, cânticos, tilintar de gonzos e sinos associados a gestos e orações formuladas, agem como indutores de energias controladoras, energias espirituais adormecidas ou em desequilíbrio.
Podemos observar isso ocorrer quando de rituais religiosos, alguns, até mesmo específicos nas religiões com princípios ditos pagãos. Nos templos onde são feitos ritos de consagração, a manifestação da energia/espírito ocorre; apresentam-se pelas sensações humanas que estão sempre disponibilizadas a manifestar-se, bastando somente uma oportunidade para que ocorra tal fenômeno.
Tais manifestações são a sínteses da psique humana que, recebida como herança ao nascer, passa a integrar corpo e mente dando ao individuo, características, arquétipos, índoles, ou até mesmo, ao que podemos chamar de destino humano, independente ao meio em que viva.
Porém, toda essa crença religiosa é baseada em um principio, o principio do livre arbítrio; a escolha deve ser respeitada e nunca imposta por conceitos formulados por um individuo ou um grupo. A espiritualidade é sempre desenvolvida de acordo com a vontade do individuo; no entanto, é necessário que tal indivíduo reconheça a existência de forças, energias sobre humanas a serem lapidadas, tratadas para alcançar o equilíbrio.
Há milhares de anos o ser humano criou fórmulas mágicas religiosas que funcionam como um catalisador, para reunir todas as energias e filtrá-las e dar equilíbrio a cada uma delas. O processo nas religiões ditas pagãs é efetuado por meio de sacerdotes, os quais, através de rituais apropriados manipulam elementos consubstanciados a cada energia produzindo um equilíbrio entre o negativo e o positivo. Muitas das formulações “mágico-religiosas” são compostas de sacrifícios animais, porém, estas pertencem a uma estrutura religiosa complexa e independente. Na maior parte do tempo são utilizados elementos vegetais e minerais acompanhados de rezas, versos e cânticos.
Isso tudo já ocorria no antigo Egito, na Babilônia, na Grécia, no Mundo Romano, no Mundo Árabe e em muitas outras civilizações, inclusive os apontados pelas “escrituras sagradas”, principalmente em muitos dos versículos do antigo testamento.
De certa forma, o ser humano consegue controlar as forças espirituais criadas por ele próprio desde quando criou os deuses mitológicos, principio de todas as crenças.
A existência das energias espirituais, ou os próprios espíritos, são energias que estão condicionadas a determinadas normas, porém, recebem inúmeras denominações de conformidade a que religião esteja, ou venha se manifestar, mas essa é outra história.                                                                                                                                                                               
                                         Energias transmutadas em espíritos.
...E todas essas forças “espirituais”, benignas ou maléficas, passaram estão a fazer parte integrante e ao redor de todos os seres viventes podendo estar encerradas em seus corpos de maneira desequilibrada, daí os dizeres de mau agouro, de intervenções doentias e descaminho na vida. Este fato, evidência ou descrença, está baseada em conceitos religiosos ou por convicções da ciência.
        Não só para a vida material, mas, principalmente para a vida espiritual é necessário que as energias estejam alinhadas, em equilíbrio permanente e, é através de uma manifestação de desejo e fé, independente de religião, que o ser humano consegue a plenitude das realizações pessoais ou coletivas. 
Como já foi mencionado aqui, independentemente a que religião ou qualquer outro segmento religioso esteja o individuo agregado, existem elementos que constituem e promovem, de alguma forma. Rituais consagrados à algum deus, santo, entidade espiritual, ou um ser extraordinário mitológico, tais elementos, consagrados para tais finalidades estão quase sempre associados a gestos, palavras e orações e funcionam como indutores e/ou expansores daquelas energias com finalidade de promover algum fenômeno extra corpóreo.
        As energias espirituais são recebidas como herança genética que passa a integrar corpo e mente dando ao individuo os arquétipos, índoles, ou até mesmo o que se pode chamar de destino humano influenciando também nas características individuai. A espiritualidade é sempre desenvolvida por vontade própria ou pela própria evolução determinada por aquela genética espiritual, que no caso não precisa de uma interferência de conceito religioso ou de qaulquer doutrina. No entanto, é necessário que haja o reconhecimento daquele individuo da existência de tais forças para que sejam lapidadas e tratadas para alcançar o equilíbrio necessário.
De certa forma, o ser humano consegue controlar as forças espirituais criadas por ele próprio desde quando criou aqueles deuses mitológicos, principio de todas as crenças e religiões, as quais, transmutadas por uma gnose coletiva resultou nas crenças e na fé humana.
No universo espiritual ou universo paralelo ao terreno, encontram-se os deuses, anjos, santos, entidades iluminadas, entidades guias, e muitos outros, existindo ainda a crença em gnomos, fadas, sereias e ondinas, muitos deles, representam em culturas distintas os seres da vida pós-vida; estes seres são constituídos de energias, podendo, no entanto, serem positivas ou negativas. Mas, incontestavelmente, as energias do próprio Ser humano é que podem interferir para o bem ou para os malefícios dele próprio ou de outrem.
As energias, quando positivas, são energias benéficas, aquelas que fazem todos os indivíduos se irmanarem, cada um passa a ser um elo de uma corrente, tornando-se desta forma uma comunidade benfazeja com objetivos claros de crescimento e desenvolvimento humano, espiritual e material. Quando negativas, as energias são energias que brigam entre si, desencaminhadas, perdidas num labirinto, provocando os piores dos resultados para o ser humano.
Todos os seres viventes são possuidores de energias positivas e negativas e, para que vivamos em harmonia, estas energias precisam estar em equilíbrio.
Quantos de nós já passamos ou assistimos episódios como, o de ouvir falar de olho grande, seca pimenteira e outros adjetivos, sempre estar relacionado a um nome, a uma pessoa, a um objeto ou até mesmo a um espírito? Isso ocorre pela liberação de energias negativas que, em muitos casos, sem mesmo que aquele que a possua tome conhecimento. Algumas outras vicissitudes  também são sintomas de energias negativas: a inveja, o despeito, os preconceitos, as injurias, as raivas, os instintos vingativos, os perjúrios, etc. Por vezes, estas energias estão alinhavadas na vida de um individuo devido a uma companhia espiritual que precisa de orientação, de caminhos e esclarecimentos, dizem-se deles os tais “encostos”; os espíritos que assim procedem desconhecem seu estado, pois ainda não perceberam que não mais pertencem ao universo dos seres vivos. Porém, existem também os espíritos de boas energias, são os espíritos protetores, os denominados anjos da guarda, guias, mestres, Orixás, etc.  
Nas várias culturas espalhadas pela Terra, existem muitas denominações para um e outro espírito, no entanto, o conteúdo das energias são as mesmas reconhecidas nas várias religiões, que podem ser benéficas ou maléficas, positivas ou negativas.
Algumas religiões, no entanto, possuem características idênticas no tratamento e encaminhamento para alcançar o equilíbrio das energias, tanto humanas quanto espirituais; a escolha de um dos caminhos a ser seguido sempre deve ser com fé e esperança, pois, é isso que move o ser humano na busca do crescimento e do seu desenvolvimento.
O ser humano ainda não está de posse de um conhecimento para distinguir determinados fenômenos que ocorrem com seu próprio corpo/espírito, porém, além de muitos argumentos, o que é apresentado, são indivíduos com algumas diferenças proporcionadas por uma diversidade de fatores. Diz-se de alguns indivíduos que são mais receptivos a determinadas energias, são os médiuns, indivíduos, que preparados ou não, podem manter um elo dinâmico com energias e espíritos desencarnados.
No entanto, uma das formas é a de manifestação, na qual, a incorporação ocorre sem mesmo a existência de um agente provocador, ou seja: algum ritual específico. Os espíritos desencarnados sempre procuram uma ligação com tudo aquilo que deixaram para trás, ou seja: suas ansiedades, seus desejos, seus erros, acertos e conceitos com os quais conviviam, mas, principalmente suas “dívidas karmicas”, erros que conseqüentemente precisam corrigir para o sucessivo desenvolvimento.    
Como órgão receptor, o corpo humano de pessoas predispostas, os médiuns, passam a servir de sustentação para uma energia “extracorpórea” e, quando dominados por esses espíritos, passam a agir de conformidade a que cada um se apresenta com seus arquétipos. Tais espíritos podem ser evoluídos ou não. Os espíritos evoluídos incorporam com energias equilibradas, pois, conscientes de suas missões, estão preparados e doutrinados para cumpri-las. No caso dos espíritos não evoluídos, aqueles possuidores de energias desequilibradas, apresentam-se com rebeldia e estão como poderíamos dizer, a deriva, perdidos, desencaminhados necessitando de doutrina.
O Ser humano ainda tem muito à reconhecer de suas origens espirituais, para só então, com precisão, poder definir sua caminhada ao mundo desconhecido da sobrevivência e evolução espiritual.

          Mito ou historia?
Enquanto a historia reflete todas as circunstâncias de vida de um povo, o mito foi criado para explicar pensamentos e atos na religião. Todas as culturas humanas retrataram seus acontecimentos extraordinários através da mitologia, sempre para se fazerem entender nas relações, principalmente com o sagrado e com o inexplicável universo do inconsciente e de suas crenças.
Personificados por formas humanas ou de animais, os deuses e deusas permanecem no inconsciente humano como forma de fuga de uma realidade ainda não compreendida, e o subjetivo aparece retratado em gravuras, estelas, estátuas e nas pinturas sacras.
 Esta foi a forma que o ser humano encontrou, em todos os tempos, para estar mais próximo ao sagrado; transformou idéias em objetos reais sacros, criou estórias e lendas, transformou ancestrais em deuses demiurgos, uniu-os aos deuses tribais em figuras sincréticas, assim nasceu o mito.
Muitas das “estórias” são singulares a várias culturas, mesmo separadas por imensos oceanos ou grandes extensões de terra e, os deuses, com características idênticas, são os principais personagens de todo um enredo programado, sempre por um personagem maior, um deus superior.
A mitologia é uma forma espontânea, cultural de qualquer povo que acredita naquilo que não vê, mas sente e transfere toda essa crença e, os caminhos percorridos pelos deuses passam a refletir nas características de cada individuo em cada uma das religiões.
Cada lenda é um tempo vivido, uma ação, um movimento feito pelo personagem, dando a idéia de uma transferência de conhecimento que, absorvido pelo ser humano, o conduz cada vez mais ao encontro com a realidade subjetiva, a fé.   
As religiões afros brasileiras são todas mescladas de conceitos reais e mitológicos derivados das culturas advindas do continente africano, independentemente a que nação ou segmento pertença.
Nos rituais é que podemos observar toda a filosofia no trato com o sagrado, por vezes, parecendo mesmo que em determinados momentos, o culto se divide entre o sagrado e o profano. As cantigas, as batidas dos atabaques e as danças, por vezes, refletindo um sentido profano, feitas por seus adeptos, formam um conjunto aprimorado, como se uma viajem ao passado fosse feita. A cada batida, com mãos ou varetas e a cada passo dado no bailar rememoram os caminhos percorridos pelos deuses africanos.
O ponto principal de um culto nas casas de candomblé é a manifestação do sagrado transmutado em um indivíduo, momento no qual são reconhecidas todas as energias emanadas de um universo paralelo ao reino natural, porém, não correspondendo a um universo espiritual; são energias incorporadas no próprio individuo que, iniciado passa a ter essa capacidade e, depois de celebradas, estas energias em “forma humana” voltam ao seu estado natural. Desta maneira podemos entender as várias manifestações das várias “divindades astralizadas”. Nos bailados de Yemanjá os braços ondulam numa alusão as águas dos mares; mas também, seus braços podem ascender numa forma de acalanto demonstrando-a ser a mãe da matéria primordial na construção da Terra, a própria água. Seus feitos remontam aos primórdios do universo, onde seria também a progenitora de todos os demais Orixás, ou seja, de todos os elementos naturais quando da alusão que venha significar que cada elemento possua sua individualidade. Com Yemanjá, num patamar mitológico superior, está Oxalá, o Ar, o sopro de vida que, responsável pela construção da Terra e não ter conseguido foi substituído por sua irmã Oduwa, cabendo a Oxalá a missão de fazer o ser humano, e assim povoou todo o Planeta.
Juntamente com Yemanjá e Oxalá, está outra energia num formato do deus mais polêmico do panteão, Exú, que representa o dinamismo, a quentura do movimento, o atrito e o sentido da procriação; tornam-se assim um quadrunvirato da construção de todos os elementos, a água, o ar, a terra e o fogo.
 Oduwa, por não ser cultuada nos candomblés é somente rememorada quando da presença de Oxalá em algumas cantigas e ritos, sua energia está contida em culto independente, o culto às Yiá mi. Da interação Terra/água, surge Nãnã, Orixá das mais antigas, detentora da lama, do barro formador das espécies vivas no planeta. Desta forma é entendida a gênese no conceito do povo Nagô.
Os acontecimentos mitológicos são apenas representativos para entender toda a estrutura da religião quando baseados nos conceitos do povo Nagô, no entanto, todas as formulações ritualísticas possuem conteúdos sincréticos com outras nações determinantes nos candomblés.  
Além dos Orixás primordiais, Yemanjá - água, Oxalá - Ar, Oduwa, cognominada Onilé – Terra e Exú o fogo, existe no panteão dos deuses africanos uma infinidade de outros deuses, porém, apenas alguns atravessaram os mares rumo ao Brasil. Suas estórias são narradas de forma mítica e entendidas muitas vezes como historias reais.
Quando da criação da Terra, segundo o mito nagô, em tempos imemoriais, nos ciclos milenares do desenvolvimento humano, chegou a era dos metais e com ela uma divindade foi criada, Ogún, o deus das guerras que, mitologicamente com suas duas espadas em formato de facão desbravou caminhos dando ao ser humano a possibilidade de inventar armas de guerra e ferramentas para a agricultura. Este, juntamente com Exú, o deus da continuidade material, é que foram e continuam sendo os responsáveis pelo desenvolvimento humano.
Quando o ser humano reconheceu, pelo raciocínio a utilização de ferramentas substituiu a coleta pela produção de alimentos. Oxossi, o deus das matas, continuou a caçar e dando possibilidades aos humanos de procurar caminhos de trabalho, nos dias atuais, a caça tornou-se uma alegoria, uma representação na evolução humana.
A descoberta dos sentimentos humanos, diferenciando-os dos animais primatas, inaugurou um tempo de criação de conceitos para sobrevivência; nascia assim o respeito pela gestação, e com ela, Oxún a deusa das águas doces e das nascentes que sustentou e sustenta no ventre de todas as mulheres o fator de poder gerar vida. Este processo foi que determinou o poder feminino absoluto, surgindo daí as Yiá bás, as mães rainhas e zelosas dos castelos imaginários de um mundo mítico.  
Progressivamente a humanidade foi se adaptando no Planeta recém construído; surgiram outras divindades, pois, a cada passo, eram personificados deuses representativos. A natureza florescia, produzia frutos e os homens produziam guerras e escravos. Novos deuses surgiam e reis foram divinizados e, neste cenário apareceu Xangô, o deus da justiça que, enlouquecido pelas barbáries, dele e de seus inimigos dizem ter se enforcado. Seus machados, cortantes nas duas faces são como a própria justiça, um lado é a benevolência o outro o castigo.
Da interação – Oxóssi/ Oxún – nasceu Logun, energia jovial, tão jovial quanto o planeta criado representando a renovação dos ciclos, das eras. Desta maneira, as águas da terra elevaram-se aos céus por Oxumarè após os grandes dilúvios, esta energia é que permite chuvas; com ele, numa alegoria encantadora surge Ewá, a beleza, energia transformadora e constante do universo. Porém, essas transformações constantes e num ritmo de evolução apressado, transmutam as energias de Iansã, Orixá determinante na provocação de movimentos e das guerras pessoais simbolizadas pelos raios. Obà está também consagrada entre as deusas da evolução; o vermelho, matiz na formação da Terra ainda explode nas bocarras dos vulcões.
Mas a renovação constante de elementos, matéria/energia, precisa ser feita, vida e morte de elementos, doença/saúde, bem e mau, conceitos de todas as vicissitudes são energias que devem ser depuradas e, desta forma Obaluayé está presente; ele é o socorro, o médico do Planeta e de tudo que nele contém, é a energia produtora, tanto de pragas - castigos, quanto de benevolência trazendo as curas. E na Terra também surgiram as plantas, seres vivos e dependentes de todas as energias, como o ser humano. As folhas, ervas medicinais trazidas pela magia de Ossanhe, energia completa, complexa e diversificada ao mesmo tempo.
...E todas essas energias bailam, flutuam na natureza, cada uma com seus cantos e encantamentos, particularidades que agregam ao ser humano quando do nascimento e o acompanham até a devolução de todas as substâncias na morte à Mãe Terra.
Para representar todas estas energias o ser humano criou o culto à natureza e dela absorveu conteúdos que, através de uma magia religiosa os Orixás se manifestam nas casas de Candomblé. E eles dançam seus feitos mitológicos. Cada passo, cada gesto e, até mesmo cada respiração envolve a assistência num retorno aos primórdios tempos, reinterpretando toda uma história, mitos e sentimentos.
Nos movimentos das danças e que são interpretados, de forma a entender as energias manifestadas. As ondas dos mares e as turbulências das águas estão nos braços e requebros de Yemanjá, a deusa dos mares e mãe dos filhos peixes. As águas límpidas das nascentes estão no murmúrio e no acalanto de Oxún. Os raios e tempestades estão nos movimentos frenéticos de Iansã. Nos gestos agressivos quando Xangô lança seus machados de fogo, os eduns ará numa equivalência de justiça. Nos movimentos ágeis de Ogún estão alegorias de guerras e de batalhas vencidas. Nas posições homéricas de um caçador, quando Oxóssi lança suas flechas dando direção da fartura. No resplandecer das mudanças bruscas do tempo dos gestos alusivos que Ewá representa, indicando que cada dia é um dia e deve ser vivido plenamente. Na dança das folhas de Ossayn. Na direção dada por Oxumarè apontando o caminho das águas pelo arco íris. - Nos movimentos tectônicos da energia do Planeta está Obá, a deusa que respira pelos vulcões. Na lentidão dos passos cansados de Nanã devido ao tempo de existência. No ritmo atenuado do tempo, como as nuvens da paz e um telhado branco por sobre as cabeças, Oxalá caminha sobre a Terra ou no infinito universo e, Exu provocador de todos os movimentos é o incansável mensageiro, trazendo e levando as oferendas ao Olimpo dos deuses africanos, os deuses do candomblé.
Mas não só toda essa estrutura mitológica formada tornou-se suficiente para que a crença fosse estabelecida. Na ausência de um elemento palpável, criaram-se os símbolos, cores, ferramentas e adereços que resplandecem em todas as formulações consagradas aos deuses africanos, aos Orixás que, desta forma, cada um deles possui suas individualidades, seus apetrechos e armas, mas de maneira alegórica e mitológica para impulsionar de forma dinâmica o desenvolvimento humano.
A crença nesta forma de religião não é meramente uma fuga, a crença é baseada em fenômenos estruturados no próprio indivíduo que são manifestados pelas energias contidas em um DNA espiritual, que, passivamente e através de ritos apropriados devem ser tratados e desenvolvidos por sacerdotes e sacerdotisas, daí, o caminho religioso no Candomblé torna-se uma opção.               

Nenhum comentário:

Postar um comentário